28/03/16

COINCIDÊNCIAS A CONSIDERAR


Nunca mais em nossas vidas assistiremos à coincidência de datas desta Semana Santa e Páscoa de 2016. Como é do conhecimento geral, estas datas não calham quase nunca em dia certo, mas têm dia certo histórico. Cristo foi crucificado a 25 de Março, e a Sexta Feira santa este ano calhou justamente a 25 de Março (ocorrência rara).

Também os nossos leitores sabem que a 25 de Março é o aniversário do Príncipe Real de Portugal, D. Afonso de Santa Maria; é também a data da partida do Arcebispo D. Marcel Lefebvre (o qual não fez mais que tentar preservar a doutrina, sacramentos, e pensamento católico que a Igreja tinha até então legado).

Isto não chega... Já no ano passado aqui foi lembrado que A Imaculada Conceição, no séc. XVII foi coroada como Rainha e Padroeira de Portugal, por D. João IV, nesta mesma data; E este ano calharia ser neste mesmo dia a Festa da Anunciação do Arcanjo Gabriel a Nossa Senhora (festa que assim teve que seguir a regra de ser transferida para depois).

Para o ano, será 2017 ...

27/03/16

ALELUIA - CRISTO RESSUSCITOU (2016)

pintura de Gregório Lopes (1539, Portugal)
Desejamos a todos os amigos e benfeitores uma Santa Páscoa.



Aleluia de Manuel Mendes (compositor renascentistas português)

25/03/16

A SEMANA SANTA - Sto. AFONSO DE LIGÓRIO VII (Sexta Feira de tarde)

(ver anterior: Sexta Feira da parte da manhã)


MEDITAÇÃO DA TARDE
Sexta Dor de Maria Santíssima
Jesus é Descido da Cruz

Ioseph, deponens eum, involvit sindone - "José depondo-o da cruz, o amortalhou no sudário" (Marc. 15, 46).

Sumário - Consideremos como, depois da morte do Senhor, dois dos seus discípulos, José e Nicodemo, o descem da cruz e o depõem nos braços da aflita Mãe, que com ternura o recebe e o aperta contra o peito. Se Maria fosse ainda capaz de dor, que pena sentiria vendo que os homens, tendo visto seu Filho morto por amor deles, continuam a maltratá-lo com os seus pecados? Não atormentemos mais a nossa aflita Mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, voltemos arrependidos ao Coração aberto de seu Jesus.

I. Temendo a Mãe dolorosa, que depois do ultraje da lançada outras injúrias fossem feitas a seu amado Filho, pede a José de Arimateia, obtivesse de Pilatos o corpo de Jesus, afim de que ao menos morto o pudesse guarda e livrar dos ultrajes. Foi José ter com Pilatos e expôs-lhe a dor e o desejo da aflita Mãe, e diz Sto. Anselmo que a compaixão para com ela enterneceu Pilatos e o moveu a conceder-lhe o corpo do Salvador.

Eis que descem Jesus da cruz. Foi revelado a Santa Brígida que para o descimento encostaram à cruz três escadas. Primeiro, os santos discípulos despregaram as mãos e depois os pés, e os cravos foram entregues a Maria, como refere Metaprastes. Depois, segundo um o corpo de Jesus por cima, e outro por baixo, o desceram da cruz. Bernardino de Bustis medita como a aflita Mãe se levanta sobre as pontas dos pés, e, estendendo os braços, vai receber o querido Filho; abraça-o e depois senta-se debaixo da cruz.

Vê a boca aberta e os olhos escurecidos; examina aquelas carnes dilaceradas, aqueles ossos descarnados; tira-lhe a coroa e examina o estrago feito pelos espinhos naquela santa cabeça; observa as mãos e os pés trespassados, e diz: Ah, meu Filho! a que estado te reduziu o amor para com os homens! Que mal lhes fizeste para assim te maltratarem? Ah! meu Filho, vê como estou aflita, olha-me e consola-me; mas já não falas, porque estás morto.... Ó espinhos cruéis, cravos atrozes, bárbara lança, como pudestes atormentar assim o vosso Criador? Mas, que espinhos, que cravos! Ah, pecadores, exclamava, assim tendes maltratado o meu Filho!

II. Ó Virgem Santíssima, depois que vós com tanto amor destes ao mundo o vosso Filho para a nossa salvação, eis que o mundo já vô-lo restitui. - Mas, ó Deus! como mo restitues tu? dizia então Maria ao mundo. Dilectus meus candidus et rubicundus. Meu Filho era branco e vermelho; mas tu o restitues negro pelas contunções, e vermelho, não pela cor, mas pelas chagas que lhe tens aberto. Ele era belo, agora, em vez de belo, é todo deforme; ele encantava com o seu aspecto, agora causa horror a quem o vê.

Assim se expressava então Maria e se queixava de nós. Mas se agora fosse ainda capaz de dor, que diria? e que pena sentiria, ao ver que os homens, depois da morte de seu Filho, continuam a maltratá-lo e crucificá-lo com os seus pecados? Não continuemos, pois, a atormentar esta dolorosa Mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, façamos o que ela mesma nos diz: Redite, praevaricatores, ad cor: Pecadores, voltai ao coração ferido de meu Jesus; voltai arrependidos, e ele vos acolherá. - Revelou a mesma Bemaventurada Virgem a Santa Brígida, que ao Filho descido da cruz ela fechou os olhos, mas não pode fechar-lhe os braços, dando com isso Jesus Cristo a entender que queria ficar com os braços abertos, para acolher todos os pecadores arrependidos, que voltam para ele.

Ó Virgem dolorosa, ó alma grande nas virtudes e grande também nas dores, pois que tanto estas como aquelas nascem do grande incêndio de amor que tendes a Deus. Ah, minha mãe! tende piedade de mim, que não tenho amado a Deus e o tenho ofendido. As vossas dores me dão grande confiança para esperar o perdão. Mas isto não me basta; quero também amar o meu Senhor, e quem me pode alcançar isto melhor do que vós, que sois a Mãe do belo Amor? Ah Maria! vós consolais a todos; consolai-me também a mim.

(continuação, Sábado Santo)

ANIVERSÁRIO DO PRÍNCIPE REAL, D. AFONSO DE SANTA MARIA - Sexta Feira Santa (2016)


Hoje, 25 de Março de 2016, Sexta Feira Santa, S. Alteza Real, D. Afonso de Santa Maria (Miguel Gabriel Rafael de Bragança), Príncipe Real, Príncipe da Beira, Duque de Barcelos, cumpre o seu 20º aniversário natural. Deus dê a sua Alteza todas as graças necessárias para levar vitoriosamente a honrada cruz do seu desígnio.

Com a nossa profunda vénia.

A SEMANA SANTA - Sto. AFONSO DE LIGÓRIO VI (Sexta Feira de manhã)

(ver anterior: Quinta Feira)


SEXTA FEIRA SANTA (pela manhã)
Morte de Jesus

Et inclinato capite, tradit spiritum - "E inclinando a cabeça, rendeu o espírito" (Jo. 19, 30).

Sumário - Contempla como depois de três horas de agonia, pela veemência das cores, as forças faltam a Jesus; entrega o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira. Alma cristã, diz-me: não merece porventura todo o nosso amor um Deus, que para nos salvar da morte eterna, quis morrer no meio dos mais atrozes tormentos? Todavia, como são poucos os que o amam e muitos o que, em vez de o amarem, lhe pagam com injúrias e ultrajes.

I. Considera que o nosso amável Redentor é chegado ao fim da sua vida. Amortecem-se-lhe os olhos, o seu belo rosto empalidece, o coração palpita debilmente, e todo o sagrado corpo é lentamente invadido pela morte. Vinde, anjos do céu, vinde assistir à morte do vosso Deus. E vós, ó Mãe dolorosa, Maria, chegai-vos mais próxima à cruz, levantai os olhos para vosso Filho, e contemplai-o atentamente, porque está prestes a expirar.

Pater, in manus tuas commendo spiritum meum - "Pai, em vossas mãos encomendo o meu espírito". É esta a última palavra que Jesus profere com confiança filial e perfeita resignação com a vontade divina. Foi como se dissesse: Meu Pai, não tenho vontade própria; não quero nem viver nem morrer. Se é vossa vossa vontade que eu continue a padecer sobre a cruz, eis-me aqui, estou pronto para obedecer sobre esta cruz, eis-me aqui, estou pronto para obedecer; em vossas mãos entrego o meu espírito; fazei de mim segundo a vossas vontade. - Tomara que nós disséssemos o mesmo, quando temos alguma cruz, deixando-nos guiar pelo Senhor, conforme o seu agrado. Tomara que o repetíssemos especialmente no momento da morte! Mas para bem o fazermos então, devemos praticá-lo muitas vezes em nossa vida.

Entretanto, Jesus chama a morte, que por deferência não ousava aproximar-se do autor da vida, e lhe dá licença para lhe tirar a vida. E eis que finalmente, enquanto treme a terra, se abrem os túmulos e se rasga o véu do templo, eis que pela veemência da dor natural, falha a respiração, Jesus abandona o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira: Et inclinato capite, tradidit spiritum - Parti, ó bela alma do meu Salvador, parti e ide nos abrir o paraíso, fechado até agora, ide apresentar-vos à Majestade divina, e alcançai-nos o perdão e a salvação.

As pessoas presentes, voltadas para Jesus Cristo, por causa da força com que proferiu as suas últimas palavras, contemplamo-no com atenção silenciosa, vêem-no expirar, e notando que não se move mais, dizem: Morreu, morreu. Maria ouve que todos o dizem, e ela também exclama: Ah, Filho meu, já morrestes; estais morto.

II. Morreu! Ó Deus! Quem é que morreu? O Autor da vida, o Unigénito de Deus, o Senhor do mundo. Ó morte, que fizeste pasmar o céu e a natureza! um Deus morrer pelas suas criaturas! - Vem, minha alma, levanta os olhos e contempla esse homem crucificado. Contempla o Cordeiro divino já imolado sobre o altar da dor; lembra-te de que ele é o Filho dilecto do Pai Eterno, e que morreu pelo amor que te tem dedicado. Vê esses braços abertos para te acolher; a cabeça inclinada para te dar o ósculo de paz; o lado aberto para te receber. Que dizes? Não merece ser amado um Deus tão bom e tão amoroso? Ouve o que do alto de sua cruz te diz o Senhor: Meu filho, vê se há alguém no mundo que te tenha amado mais do que eu, teu Deus!

Ah, meu Jesus, já que para minha salvação não poupaste a vossa própria pessoa, lançai sobre mim esse olhar afectuoso com que me olhastes um dia, quando estáveis em agonia sobre a cruz; olhai-me, iluminais-me, e perdoais-me. Perdoai-me em particular a ingratidão que tive para convosco no passado, pensando tão pouco na vossa paixão e no amor que nela me haveis mostrado. Dou-Vos graças pela luz que me concedeis de compreender através de vossas chagas e de vossos membros dilacerados, como por entre umas grades, o afecto tão grande e tão terno que ainda guardais para comigo.

Ai de mim, se depois de receber estas luzes deixasse de Vos amar, ou amasse outra coisa que não a Vós.

Morra eu, assim Vos direi com São Francisco de Assis, morra eu por amor de vosso amor, ó meu Jesus, que Vos dignastes morrer por amor de meu amor. Ó Coração aberto de meu Redentor, ó morada feliz das almas amantes de meu Redentor, ó morada feliz das almas amantes, não vos dedigneis receber agora a minha mísera alma.

Ó Maria, ó Mãe de dores, recomendai-me a vosso Filho, a quem vedes morto sobre a cruz. Vede as suas carnes dilaceradas, vede o seu Sangue divino derramado por mim, e concluí disto quanto lhe agrada que lhe recomendeis a minha salvação. A minha salvação consiste em que eu ame, e este amor vós mo deveis impetrar, mas um amor grande, um amor eterno.

(continuação, Sexta Feira Santa à tarde)

24/03/16

A SEMANA SANTA - Sto. AFONSO DE LIGÓRIO V (Quinta Feira)

(ver anterior: Quarta Feira)


QUINTA-FEIRA SANTA
O dia do amor

Sciens Iesus quia venit hora eius, ut transeat ex hoc mundo as Patrem, cum dilexisset suos, qui erant in mundo, in finem dilexit eos - "Sabendo Jesus que era hora de passar deste mundo ao Pai, como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim" (Io. 13, I).

Sumário - Embora Jesus Cristo em todo o curso de sua vida mortal nos tivesse amado ardentemente e nos tivesse dado mil provas do seu amor infinito, todavia, quando chegou ao termo dos seus dias, quis dar-nos a prova mais patente pela instituição do Santíssimo Sacramento. Aí o Senhor se faz não só nosso constante companheiro, mas ainda nosso sustento e se nos dá todo inteiro. Com muita razão, portanto, Santa Maria Magdalena de Pazzi chamava a quinta-feira santa o dia do amor.

I. Um pai amoroso nunca patenteia melhor a sua ternura e o seu afecto para com os filhos do que no fim da sua vida, quando os vê em torno do seu leito, aflitos e com os olhos em pranto, e pensa que em breve deve abandoná-los. Tira do seu coração e põe sobre os seus lábios o resto de sua vida prestes a extinguir-se, abraça aqueles queridos do seu amor, exorta-os a serem sempre bons, imprime-lhes no rosto os mais ternos beijos, e misturando as suas lágrimas com as dos filhos, lança-lhes a bênção. Depois manda trazer o que mais precioso possui e dando a cada um uma última lembrança: Tomai, diz, e lembrai-vos sempre do amor que vos tenho dedicado.

Foi exactamente assim que quis fazer connosco Jesus Cristo, verdadeiro Pai da nossa alma e Pai tão amante, que na terra não tem havido, nem jamais haverá outro igual. Embora em todo o curso da sua vida mortal nos tivesse amado com amor ardente, e nos tivesse dado mil provas do seu amor infinito, todavia, quando chegou ao termo dos seus dias, quis dar-nos a prova mais patente, pela instituição do Santíssimo Sacramento. E por isso na mesma noite em que devia ser traído, reuniu os seus discípulos ao redor de si, instituiu a Santíssima Eucaristia, e disse-lhes para os consolar de sua próxima partida:
Filhos meus, vou morrer por vós, para vos mostrar o amor que vos tenho dado. Posto que, escondido debaixo das espécies sacramentais, deixo-vos o meu corpo, a minha alma, a minha divindade, a mim mesmo todo. Numa palavra, não quero nunca estar separado de vós, enquanto estiverdes na terra: Ecce ego vobiscum sum, usque ad consummationem saeculi - "Eis que estou convosco, até à consumação dos séculos". - Meu irmão, que tal te parece esta extrema fineza de Jesus Cristo? Não tinha razão Santa Maria Magdalena de Pazzi de chamar a quinta-feira santa o dia do amor?

II. Jesus Cristo não satisfez o seu amor, fazendo-se nosso constante companheiro; quis ainda fazer-se nosso sustento, afim de se unir intimamente à nossa alma, e santificá-la com a sua presença. E nesta manhã, qual amante apaixonado, que deseja ser correspondido, de dentro da Hóstia consagrada, onde nos observa sem ser visto, está espreitando todos os que se preparam para alimentar-se com a sua carne divina, observa em que pensam, o que amam, o que desejam e as ofertas que irão apresentar-lhe.

Irmão meu, prepara-te para recebê-lo com as devidas disposições. Aviva a tua fé na presença real de Jesus Cristo neste inefável mistério; dilata o teu coração pela confiança, lembrando-te que te pode fazer todo o bem, muito te ama e vem a ti exactamente para te enriquecer com as suas graças. Humilha-te profundamente diante da sua divina majestade, e lembrando-te que no passado, em vez de amares um Deus tão bom, o tens magoado, voltando-lhe as costas e desprezando a sua amizade, pede-lhe perdão e toma a resolução de que para o futuro antes quererás morrer do que tornar a ofendê-lo - Mas prepara-te sobretudo para receber Jesus Cristo com amor, e convida-o pelo desejo.

Vinde, ó meu Jesus, vinde depressa e não tardeis. Ó meu único e infinito Bem, meu tesouro, minha vida, meu paraíso, meu amor, meu tudo, quisera receber-Vos com aquele amor com que Vos receberam as almas mais santas e mais amantes, com que Vos recebeu Maria Santíssima. Uno a minha comunhão de hoje com as suas. - Santíssima Virgem e minha Mãe Maria, eis que vou receber o vosso Filho. Quisera ter o vosso coração e o amor com que recebíeis a santa comunhão. Dai-me hoje o vosso Jesus, assim como o destes aos pastores e aos santos Magos. Desejo recebê-lo de vossas mãos puríssimas. Dizei-lhe que sou vosso servo devoto, porque assim me olhará com olhar mais amoroso e me apertará mais estreitamente contra o seu Coração, quando vier a mim. (*I 406.)


MEDITAÇÃO PARA A TARDE
Quinta Dor de Maria Santíssima - Morte de Jesus

Et erit vita tua quasi pendens ante te - "A tua vida estará como suspensa diante de ti" (Deut. 28, 66).

Sumário - Contemplemos a acerba dor de Maria Santíssima no Calvário, obrigada a assistir a Jesus moribundo, a ver todas as penas que Ele padecia, sem contudo lhe poder dar alívio. Então a aflita Mãe não cessou de oferecer a vida do Filho à divina justiça pela nossa salvação. Lembremo-nos que pelo merecimento de suas dores cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça. Por isso todos nós somos seus filhos. Oh, como a Virgem exerceu sempre e ainda exerce bem o ofício de Mãe! Mas como nos havemos nós como filhos?

I. Fogem as mães da presença dos filhos moribundos; e se por acaso alguma mãe se vê obrigada a assistir a um filho que está para morrer, procura-lhe todos os alívios que pode dar. Concerta-lhe a cama, para que esteja em posição mais cómoda; serve-lhe refrescos, e assim a pobre mãe procura mitigar a própria dor. Ah, Mãe a mais aflita de todas as mães, ó Maria! incumbe-vos o assistir a Jesus moribundo, mas não vos é permitido dar-lhe algum alívio.

Maria ouviu o Filho dizer: tenho sede; mas não lhe foi permitido dar uma gota de agua para lhe mitigar a sede. Só pôde dizer-lhe, como contempla São Vicente Ferrer: Fili, non habeo nisi aquam lacrimarum. Via que sobre aquele leito de morte Jesus, pregado com três cravos de ferro, não achava repouso. Queria abraçá-lo para lhe dar alívio, ao menos para o deixar expirar entre seus braços; mas não podia. Via o pobre Filho, que naquele mar de aflições buscava quem o consolasse, como ele já tinha predito pela boca do profeta Isaías. Mas quem entre os homens o desejava consolar, se todos eram seus inimigos? Mesmo sobre a cruz um o blasfemava e escarnecia de uma maneira, outro de outra, tratando-o como impostor, ladrão, usurpador sacrílego da divindade, digno de mil mortes.

O que mais aumentou a dor de Maria e a sua compaixão para com o Filho, foi ouvi-lo sobre a Cruz lamentar-se de o Eterno Pai também o ter abandonado: Deus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? - "Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?". Palavras, como disse a Bem Aventurada Virgem a Santa Brígida, que não puderam nunca mais sair-lhe da ideia enquanto viveu. De modo que a aflita Mãe via o seu Jesus atormentado de todas as partes; queria aliviá-lo, mas não podia. Pobre Mãe!

II. Pasmavam os homens, diz Simão de Cássia, vendo que a divina Mãe guardava o silêncio, sem se queixar no meio da sua grande dor. Mas, se Maria guardava o silêncio com a boca, não o guardava com o coração, porquanto naquelas horas não fazia senão oferecer à justiça divina a vida do Filho pela nossa salvação. Saibamos, pois, que pelo mérito de suas dores, ela cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça, e por conseguinte somos filhos das suas dores: Mulier, ecce filius tuus - "Mulher, eis aí o teu filho".

Naquele mar de amargura era este o único alívio que então a consolava: o saber que por meio de suas dores nos conduzia à salvação eterna. - Desde então começou Maria a exercer para connosco o ofício de boa Mãe; pois que, como atesta São Pedro Damião, foi pelas súplicas de Maria que o bom ladrão se converteu e se salvou, querendo a divina Mãe recompensá-lo assim pela delicadeza que outrora lhe mostrou na viagem ao Egipto. E o mesmo ofício de mãe tem a Bem Aventurada Virgem continuado sempre e continua a exercer. Nós, porém, com as nossas obras mostramo-nos deveras seus dignos filhos?

Ó Mãe, a mais aflita de todas as mães! Morreu enfim vosso Filho, tão amável e que tanto vos amava! Chorai; que tendes razão para chorar. Quem jamais poderá consolar-vos? Só vos pode consolar o pensamento que Jesus com a sua morte venceu o Inferno, abriu o céu fechado aos homens, e ganhou tantas almas. Do trono da cruz reinará sobre tantos corações que, vencidos pelo amor, com amor lhe servirão. Não recuseis entretanto, ó minha Mãe, que vos acompanhe a chorar convosco, já que mais que vós tenho razão de chorar pelas ofensas que tenho feito a vosso Filho. Ah, Mãe de misericórdia! em primeiro lugar pela morte de meu Redentor, e depois pelos merecimentos de vossas dores, espero o perdão e a salvação eterna.

(continuação, Sexta Feira)

23/03/16

A SEMANA SANTA - Sto. AFONSO DE LIGÓRIO IV (Quarta Feira)

(ver anterior: Terça Feira)


QUARTA-FERIA SANTA
Quarta Dor de Maria Santíssima – Encontro com Jesus, que carrega a Cruz.

Vidimus eum, et non erat aspectus, et desideravimus eum – "Vimo-lo, e não havia nele formosura, e por isso nós o estranhámos" (Is. 53, 2).

Sumário - Consideremos o encontro que no caminho do Calvário teve o Filho com sua Mãe. Jesus e Maria olham-se mutuamente, e estes olhares são como outras tantas setas que lhes trespassam o Coração amante. Se víssemos uma leoa que vai após seu filho conduzido à morte, aquela fera havia de inspirar-nos compaixão. E não nos moverá à ternura ver Maria que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o conduzem à morte por nós? Tenhamos compaixão dela, e procuremos também acompanhar a seu Filho e a ela, levando com paciência a cruz que nos dá o Senhor.

I. Medita São Boaventura que a Bem-aventurada Virgem passou a noite que precedia a Paixão de seu Filho, sem tomar descanso e em dolorosa vigília. Chegada a manhã, os discípulos de Jesus Cristo vieram a esta aflita Mãe: um a referir-lhe os maus tratamentos feitos e seu Filho na casa de Caifás, outro os desprezos que recebeu de Herodes, mais outro a flagelação ou a coroação de espinhos. Numa palavra, cada um dava a Maria uma nova informação, cada qual mais dolorosa, verificando-se nela o que Jeremias tinha predito: Non est qui consoletur eam ex omnibus caris eius"Não há quem a console entre todos os seus queridos".

Veio finalmente São João e lhe disse: "Ah, Mãe dolorosa! teu Filho já foi condenado à morte, e já saiu, levando ele mesmo a sua cruz para ir ao Calvário. Vem, se o queres ver e dar-lhe o último adeus, em alguma rua, por onde tenha de passar".

Ao ouvir isto Maria parte com João; e pelo sangue de que estava a terra borrifada conhece que o Filho já por ali tinha passado. A Mãe aflita toma por uma estrada mais breve e coloca-se na estrada de uma rua para se encontrar com o aflito Filho, nada se lhe dando das palavras insultuosas dos Judeus, que a conheciam como mãe do condenado. – Ó Deus, que causa de dor foi para ela a vista dos cravos, dos martelos, das cordas e dos outros instrumentos funestos da morte de seu Filho! Como que uma espada foi ao seu coração o ouvir a trombeta, que andava publicando a sentença pronunciada contra o seu Jesus.

Mas eis que já, depois de terem passado os instrumentos e os ministros da justiça, levanta os olhos e vê, ó Deus! um homem todo cheio de sangue e de chagas, dos pés até à cabeça, com um feixe de espinhos na cabeça e dois pesados madeiros sobre os ombros. Olha para ele, e quase não o conhece, dizendo então Isaías: Vidimus eum, et non erat aspectus – "Nós o vimos e não havia nele formosura". Mas finalmente o amor lho faz reconhecer; e o Filho, tirando um grumo de sangue dos olhos, como foi revelado a Santa Brígida, encarou a Mãe e a Mãe encarou o Filho. Ó olhares dolorosos, com que, como tantas frechas, foram então trespassadas aquelas almas amantes!

II. Queria a divina Mãe abraçar a Jesus, como diz Santo Anselmo; mas os insolentes servos a repelem com injúrias, e empurram para diante o Senhor aflitíssimo. Maria, porém, segue – muito embora preveja que a vista de seu Jesus moribundo lhe causaria uma dor tão acerba, que a tornaria Rainha dos Mártires. O Filho vai adiante, e a Mãe tomando também a sua cruz, no dizer de São Guilherme, vai após ele, para ser crucificada com ele.

Se víssemos uma leoa que vai após seu filho conduzido à morte, aquela fera nos causaria compaixão. E não nos inspirará compaixão o ver Maria, que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o levam a morrer por nós? Tenhamos compaixão por ela, e procuremos também acompanhar o Filho e a Mãe, levando com paciência a cruz que nos envia o Senhor. – Pergunta São João Crisóstomo, porque nas outras penas Jesus Cristo quis ser só, mas a levar a cruz quis ser ajudado pelo Cireneu? E responde: Ut intelligas, Christi crucem non sufficere sine tua: Não basta para nos salvar só a cruz de Jesus Cristo, se nós não levamos com resignação até à morte também a nossa.

Minha dolorosa Mãe, pelo merecimento da dor que sentistes ao ver o vosso amado Filho levado à morte, impetrai-me a graça de levar também com paciência as cruzes que Deus me envia. Feliz de mim, se souber acompanhar-vos com a minha cruz até à morte! Vós e Jesus, sendo inocentes, levastes uma cruz muito pesada, e eu pecador, que tenho merecido o inferno, recusarei a minha? Ah, Virgem imaculada, de vós espero socorro, para sofrer com paciência as cruzes.


MEDITAÇÃO DA TARDE
Jesus é crucificado entre dois ladrões.

Crucifixerunt eum, et cum eoa lios duos, hinc et hinc, médium autem Iesum – "Crucificaram-no e com ele outros dois, um de uma parte, e outro da outra, e no meio Jesus" (Io. 19, 18).

Sumário. Imaginemos que junto com a divina Mãe presenciamos a crucifixão de Jesus Cristo. Eis que, plantada já a cruz, o Filho de Deus está neste patíbulo infame, suspenso em suas próprias feridas, e sofre tantas mortes, quantos momentos durou aquela longa agonia. Ó Deus! Jesus pensou então em cada um de nós, e a previsão de nossas culpas tornava-lhe a morte mais dolorosa. Unamo-nos em espírito com a Santíssima Virgem, e aproximemo-nos para beijar a preciosa Cruz com coração contrito e amante.

I. Logo que Jesus chegou ao Calvário, todo exausto de dores e de cansaço, deram-lhe a beber o vinho misturado com fel, que era costume dar aos condenados à cruz, para diminuir neles o sentimento da dor. Jesus, porém, querendo morrer sem alívio, provou-o apenas e não quis beber. Depois, tendo-se a multidão colocado em círculo ao redor de Nosso Senhor, os soldados arrancaram-lhe as vestes, pegadas ao corpo todo chagado e dilacerado, e com as vestes lhe arrancaram também pedaços da carne. Em seguida deitaram-no sobre a cruz. Jesus estende as sagradas mãos e oferece ao Eterno Pai o grande sacrifício de si mesmo e pede-lhe que o aceite pela nossa salvação.

Os soldados furiosos tomam os pregos e os martelos, e trespassando as mãos e os pés de nosso Salvador, pregam-no na cruz. Afirma São Bernardo que na crucifixão de Jesus os algozes se serviam de pregos sem ponta, para que causassem dor mais violenta. O som das marteladas ressoa pelo monte, e chega aos ouvidos de Maria, que se achava perto, acompanhando o Filho. – Ó mãos sagradas, que com vosso tacto curastes tantos enfermos, porque vos trespassam agora sobre a cruz? Ó pés sacrossantos, que vos cansastes tantas vezes na busca das ovelhas perdidas, que somos nós, porque vos pregam com tanta dor nesse patíbulo?

Quando se toca apenas num nervo do corpo humano, é tão aguda a dor, que causa desmaios e convulsões mortais. Quão grande não terá sido, pois, a dor de Jesus, quando lhe traspassaram com cravos as mãos e os pés, partes cheias de ossos e nervos? – Ó meu dulcíssimo Salvador, quanto Vos custou a minha salvação e o desejo de ser amado por mim, miserável verme! E, ingrato como sou, tantas vezes Vos tenho recusado o meu amor e virado as costas!

II. Eis que levantam a cruz com o Crucificado, e a deixam cair com força no buraco aberto no rochedo. Enchem-no em seguida com pedras e paus, e Jesus fica suspenso na cruz entre dois ladrões até deixar a vida, como havia predito Isaías: Et cum sceleratis reputatus est – "Ele foi posto no número dos malfeitores". Ó Deus, quanto padece na cruz o nosso Salvador moribundo! Cada parte de seu corpo tem as suas dores; e uma não pode aliviar a outra, porque as mãos e os pés estão pregados fortemente. Ó céus, a cada instante ele sofre dores mortais. Ora faz firmeza nas mãos, ora nos pés, mas em qualquer parte que seja, sempre se lhe aumenta a dor, porque o sacrossanto corpo de Jesus se apoiava nas próprias feridas.

Se ao menos, no meio de tantas dores, os presentes se compadecessem de Jesus e o acompanhassem com as lágrimas na sua agonia amargosa! Não; ao contrário, os Escribas e os Fariseus injuriaram-no e prorrompem em escárnios e blasfémias. E os algozes, feita a partilha das vestes de Jesus e tirada a sorte sobre a túnica, sentam-se indiferentes debaixo do patíbulo, esperando a morte do Salvador.

Minha alma, no meio de suas convulsões e de tantos opróbrios o Senhor pensava em ti e via que tu também um dia te havias de juntar a seus inimigos, para lhe tornar a morte mais dolorosa. Mas não desanimes por isso; chega-te humilhada e enternecida à cruz, junta-te a tua Mãe Maria, e beija o altar no qual morre o teu amantíssimo Redentor. Coloca-te a seus pés e faz que aquele divino sangue corra sobre ti. Roga ao Eterno Pai, dizendo, mas em sentido diferente daquele com que o disseram os Judeus: Sanguis eius super nos – "O seu sangue caia sobre nós". Senhor, venha sobre nós este sangue, e lave-nos dos nossos pecados! Este sangue não Vos pede vingança, como o sangue de Abel, mas pede para nós misericórdia e perdão. – Ó Mãe de dores, Maria, rogai a vosso Filho por nós.

(continuação, Quinta Feira)

22/03/16

A SEMANA SANTA - Sto. AFONSO DE LIGÓRIO III (Terça Feira)

(ver anterior: Segunda Feira)


TERÇA-FEIRA SANTA
Jesus é coroado de espinhos e apresentado ao povo

Et plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius - "E entrançando uma coroa de espinhos lha puseram na cabeça" (Math. 27,29).

Sumário - Depois de terem açoitado a Jesus, os algozes, tratando-o como rei de comédia, atiram-lhe sobre os ombros um manto de púrpura, colocam-lhe um caniço na mão, e põem-lhe na cabeça uma coroa de espinhos, na qual batem fortemente com o caniço, afim de que penetre mais. O Senhor ficou reduzido a tão triste estado, que Pilatos julgou que comoveria de compaixão os próprios inimigos, só com apresentá-lo. Contemplemo-lo também, e pensando que foi tão maltratado por nosso amor, não tenhamos a crueldade de dizer com os Judeus: Crucifigatur - "Seja crucificado".

I. Contemplemos os outros bárbaros suplícios que os soldados infligiram a nosso Senhor já tão atormentado. Instigados, e, como afirma São João Crisóstomo, subornados pelo dinheiro dos Judeus, reúnem ao redor de Jesus toda a côrte, põem-lhe aos ombros um manto vermelho a servir de manto real, nas mãos colocam-lhe um caniço a servir de ceptro e na cabeça um feixe de espinhos a servir de coroa. Os espinhos estavam entrelaçados em forma de capacete, de modo que lhe cobria a cabeça toda: Et plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius

Mas, porque os espinhos com a força das mãos não penetravam bastante na cabeça sagrada, já tão ferida pelos açoutes, tomam-lhe o caniço, e enquanto lhe escarravam também no rosto, batem com toda a força sobre a cruel coroa, de sorte que rios de sangue corriam da cabeça ferida pelo rosto e sobre o peito. Ah, espinhos ingratos! é assim que atormentais o vosso Criador? – Mas, para que acusar os espinhos? Ó pensamentos perversos dos homens, sois vós que trespassastes a cabeça do meu Redentor.

Eia, minha alma, prostra-te aos pés de teu Senhor coroado; detesta ali os teus consentimentos pecaminosos, e roga-lhe que te trespasse com um daqueles espinhos, consagrados pelo seu preciosíssimo sangue afim de que não o tornes mais a ofender. – Enquanto os bárbaros algozes, juntando o escárnio à dor, o tratam como rei de comédia, dele motejam e o esbofeteiam, tu, pelo menos, reconhece-o pelo supremo Senhor de tudo, como na verdade é; feito agora Rei de dor por amor dos homens. 

II. Voltando outra vez a Jesus ao pretório de Pilatos, depois da flagelação e coroação de espinhos, este, ao vê-lo todo dilacerado e desfigurado, capacitou-se de que comoveria o povo à compaixão, só com mostra-lo. Saiu, pois, para a varanda com o nosso aflito Salvador, e disse: Ecce Homo - "Eis-aqui o homem". Como se dissesse: Judeus, contentai-vos com o que este inocente tem sofrido até agora; vede a que estado se acha reduzido. Que medo ainda podeis ter que ele queira fazer-se vosso rei, visto que não pode mais viver? Deixai-o ir morrer em sua casa. Exivit ergo Iesus, portans coronam spineam, et purpureum vestimentum - "Jesus saiu, coroado de espinhos, e vestido de um manto de púrpura". Minha alma, tu também contempla naquela varanda a teu Senhor, ligado e arrastado por um algoz. Vê-o, como ali está meio despido, se bem que coberto de chagas e sangue, com as carnes todas rasgadas, com aquele farrapo de manto purpúreo, que serve tão somente para escarnecê-lo, e com a cruel coroa que continuamente o atormenta. Vê a que estado se acha reduzido o teu Pastor, para te achar, a ti, sua ovelha perdida. 

Ah, meu Jesus! Quantos papeis de teatro fazem-Vos os homens representar, mas todos eles de dor e de ignomínia. Ó dulcíssimo Redentor, inspirais compaixão às próprias feras, mas aí não achais piedade! Ouve o que aquele povo responde: Crucifige, crucifige eum! - "Crucificai-o, crucificai-o!" Mas, ó Senhor meu, o que dirão no último dia, quando Vos virem na glória, sentado como Juiz num trono de luz? Ai de mim! Jesus meu, houve um tempo em que eu também disse: "Crucificai-o, crucificai-o!" Foi quando Vos ofendi pelos meus pecados. Agora arrependo-me deles mais que de todos os outros males, e amo-Vos sobre todas as cousas, ó Deus de minha alma. Perdoai-me pelos merecimentos da vossa Paixão. – Ó Mãe das dores, Maria, fazei que no dia do juízo eu seja vosso Filho aplacado, e não irado para comigo. (* I 613.) 


Meditação para a tarde
Jesus é condenado e vai ao Calvário

Tunc ergo tradidit eis illum ut crucifigerent - "Então entregou-lhes Jesus, para ser crucificado" (Io. 19, 16).

Sumário - Imaginemos ver Jesus Cristo que escuta a injustiça sentença de morte, aceita-a por nosso amor, e abraçando a cruz, se encaminha para o Calvário. Os Judeus temendo que a cada momento expire, e desejosos de o ver morrer crucificado, obrigam a Simão, e abraçando com resignação a nossa cruz, carreguemo-la atrás de Jesus, que no-la manda para nosso bem.

I. Considera como Pilatos, depois de proclamar diversas vezes a inocência de Jesus, finalmente a torna a proclamar, lavando as mãos e protestando que é inocente do sangue daquele justo. Se, pois, havia de morrer, os Judeus deveriam responder por ele. Em seguida lavra a sentença e condena Jesus à morte. Ó injustiça nunca jamais vista no mundo! O juiz condena o acusado ao mesmo tempo que o declara inocente!

Lê-se a iníqua sentença de morte na presença do senhor condenado; este escuta-a, e todo conformado com o decreto de seu Eterno Pai, que o condena á cruz, aceita-a humildemente, não pelos delitos que os Judeus lhe imputavam falsamente, mas pelas nossas culpas verdadeiras, pelas quais se tinha oferecido a satisfazer com a sua morte. Na terra Pilatos diz: Morra Jesus; e o Pai Eterno confirma a sentença no céu dizendo: Morra meu Filho. E o mesmo Filho acrescenta: Eis-me aqui, obedeço e aceito a morte, e a morte de cruz: Humiliavit semetipsum, factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis - "Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até á morte, e morte de cruz".

Meu amado Redentor, aceitais a morte que eu devia sofrer, e pela vossa morte me alcançais a vida. Agradeço-Vos, ó amor meu, e espero ir ao céu para cantar eternamente as vossas misericórdias: Misericordias Domini in aeternum cantabo. Mas, já Vós inocente aceitais a morte de cruz, eu pecador aceito de boa vontade a morte que me destinais; aceito-a com todas as penas que a tenham de preceder ou de acompanhar, e desde agora ofereço-a a nosso Eterno Pai em união com vossa santa morte. Vós morrestes por meu amor, eu quero morrer por vosso amor.

II. Lida a sentença, o povo desgraçado levanta um brado de júbilo e diz: "Felizmente Jesus é condenado à morte! Vamos depressa, não percais tempo, preparar-se a cruz, e façamo-lo morrer antes do dias de amanhã, que é a Páscoa". - E no mesmo instante agarram a Jesus, tiram-lhe o manto vermelho dos ombros e entregam-lhe os seus próprios vestidos; afim de que, segundo diz Santo Ambrósio, fosse reconhecido pelo povo por aquele mesmo impostor (assim o chamavam) que poucos dias antes fora recebido como Messias. Depois tomam duas rudes traves, que compõem em forma de cruz, e mandam-lhe com insolência que a leve sobre seus ombros até ao lugar do suplício. Ó Deus, que crueldade, carregar com tamanho peso um homem tão maltratado e enfraquecido!

Jesus abraça a cruz com amor e encaminha-se para o Calvário. O seu aspecto naquele caminho é tão lastimoso, que as mulheres de Jerusalém, ao vê-lo, o acompanham, chorando e lamentando tamanha crueldade. Mas, nem assim os pérfidos Judeus são levados à compaixão! Ao contrário, desejando, por um lado, ver Jesus crucificado, e, por outro, temendo que expirasse no caminho, visto que caía quase a cada passo, tiraram-lhe a cruz dos ombros e obrigaram certo homem, de nome Simão, a carregá-la. Minha alma, une-te ao ditoso Cyreneu; abraça a tua cruz por amor de Cristo, que por teu amor padece tanto. Vê como ele vai adiante e te convida a segui-lo: Qui vult venire post me, tollant crucem suam, et sequatur me - "Se alguém quiser vir após mim, tome a sua cruz e sigam-me".

Não, meu Jesus, não quero deixar-Vos; quero seguir-Vos até morrer. Pelos merecimentos desse caminho doloroso, dai-me força para carregar com paciência a cruz que quiserdes mandar-me. Ah! Vós nos fizestes minimamente amáveis os sofrimentos e os desprezos, abraçando-os por nós com tanto amor! – Ó Mãe de dores, Maria, rogai a vosso Filho por mim.

(continuação, Quarta Feira)

21/03/16

A SEMANA SANTA - Sto. AFONSO DE LIGÓRIO II (Segunda Feira)

(ver anterior: Domingo de Ramos)

O ilegítimo "rei" Herodes, perante o legítimo Filho de David
SEGUNDA-FEIRA

Jesus é levado a Pilatos, e a Herodes e posposto a Barrabás
Et vinctum adducerunt eum, et tradiderunt Pontio Pilato pracsidi"E preso conduziram e entregaram ao governador Poncio Pilatos" (Math. 27, 2).
Sumário - Imaginemos ver Jesus Cristo, que em meio de uma multidão de gentalha insolente é conduzido ao tribunal de Pilatos, depois ao de Herodes e afinal novamente ao de Pilatos. Este para livrá-lo, apresenta-o ao povo juntamente com um ladrão e assassino; mas o povo responde: Seja livre Barrabás, e Jesus seja crucificado. Ó céus! todas as vezes que pecámos, fizemos o mesmo, pospondo nosso Deus a um vil interesse, a um pouco de fumo, a um vil prazer.

I. Ao amanhecer, os príncipes dos sacerdotes novamente declaram Jesus réu de morte, e depois conduzem-no a Pilatos, afim de que este o condene a morrer crucificado. Pilatos, tendo interrogado diversas vezes, tanto os Judeus como nosso Salvador, reconhece que Jesus é inocente e que todas as acusações são calúnias. Sai, pois, para fora e declara que não acha em Jesus culpa alguma para condená-lo. Vendo, porém, que os Judeus se empenhavam sumamente em fazê-lo morrer, e ouvindo que Jesus era da Galiléia, para tirar-se dos apuros, remisit eum ad Herodem — "Devolveu-o a Herodes".
Herodes ficou muito contente ao ver Jesus levado à sua presença. Esperava ver um dos muitos milagres obrados pelo Senhor e dos quais tinha ouvido falar. Interrogou-o muito, mas Jesus se calou e não lhe deu resposta alguma; castigando assim a vã curiosidade daquele insolente: At ipse nihil illi respondebat. Ai da alma a qual o Senhor não fala mais. – Meu Jesus, eu também tinha merecido este castigo, por ter resistido tantas vezes às vossas misericordiosas inspirações. Mas, meu amado Redentor, tende piedade de mim e falai-me: Loquere, Domine, quia audit servus tuus – "Falai, Senhor, porque o vosso servo escuta". Dizei-me o que desejais de mim; quero obedecer-Vos e contentar-Vos em tudo."
Herodes, vendo que Jesus não lhe respondia, desprezou-o e tratando-o como a um doido, fez escárnio dele, mandando-o vestir uma túnica branca, e motejou dele com toda a sua côrte, e assim desprezado e escarnecido mandou-o de novo a Pilatos. Eis que Jesus, vestido com aquele escárnio, é levado pelas ruas de Jerusalém. — Ó meu desprezado Salvador, faltava-Vos ainda esta injúria, a de ser tratado como doido. Cristãos, vede como o mundo trata a Sabedoria eterna! Feliz de quem se compraz em ser considerado pelo mundo como doido, e não quer saber outra coisa senão a Jesus crucificado, amando os sofrimentos e os desprezos! Perante Deus terá mais valor um desprezo suportado em paz por amor dele, do que mil disciplinas.

II. O povo israelítico tinha direito a exigir do governador romano no grande dia de Páscoa, que deixasse ir livre um dos prisioneiros. Pelo que Pilatos lhe mostrou Jesus e Barrabás, homem criminoso, dizendo: Quem vultis dimittam vobis, Barabbam an Iesum?  — "Qual quereis que vos solte, Barrabás ou Jesus?". Pilatos esperava que o povo com certeza preferiria Jesus a Barrabás, um celerado, homicida e salteador, que todos devia detestar. Mas o povo, instigado pelos príncipes da sinagoga, de repente e sem deliberar, pede Barrabás. — Pilatos, surpreso e indignado ao ver um inocente posposto a tão grande malfeitos, diz: Quid igitur faciam de Iesu? — "Que farei então de Jesus?" Todos gritam: "Seja crucificado!" Pergunta outra vez Pilatos: "Mas, que mal fez ele?" Eles porém gritam com mais força: "Seja crucificado!" — Crucificatus!
Assim como Jesus e Barrabás foram apresentados ao povo, assim também perguntou-se ao Padre Eterno, qual ele queria que fosse salvo, seu Filho ou o pecador. E o Padre Eterno respondeu: Morra meu Filho e seja salvo o pecador. É o que nos afirma o Apóstolo; é o que nos diz Jesus Cristo mesmo: Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum unigenitum daret — "Tanto amou Deus ao mundo, que lhe deu seu Filho unigénito". — Mas, como é que os homens correspondem a estas supremas finezas do amor?
Ai de mim, meu Senhor! todas as vezes que cometi o pecado, fiz como os Judeus. A mim também se perguntava o que desejava: a Vós ou ao vil prazer; e respondi: Quero o prazer e pouco se me dá perder o meu Deus.
É assim que falei então; mas agora estou arrependido de todo o coração, e digo que prefiro a vossa graça a todos os prazeres e tesouro do mundo. Ó Bem infinito, ó meu Jesus, amo-Vos acima de todos os outros bens; só a Vós quero e nada mais. — Ó Mãe das dores, minha Mãe Maria, impetrai-me a santa perseverança. (I 610)


MEDITAÇÃO PARA A TARDE DO MESMO DIA
Jesus preso à coluna e flagelado

Tunc ergo appregendit Pilatus Iesum et flagellavit — «Pilatos tomou então a Jesus, e o mandou açoitar» (Io. 19, 1).
Sumário - Contemplemos como os algozes pegam dos açoites e a um sinal dado começam a bater por toda a parte em nosso divino Redentor. Seu corpo virginal primeiro torna-se roxo; depois começa a correr o sangue, e com tão grande abundância, que ficam manchados, não só os açoutes, senão também as vestes dos algozes e a própria terra. Pelo que o Senhor ficou transfigurado como um leproso, coberto de chagas desde a cabeça até aos pés. Eis como Jesus quis satisfazer pelos pecados de sensualidade! E nós continuaremos a acariciar esta carne rebelde?

I. Vendo Pilatos que falharam os dois meios empregados para não ter de condenar ao inocente Jesus, isto é, a remessa para Herodes e a apresentação ao lado de Barrabás, toma o alvitre de lhe dar um castigo qualquer e depois mandá-lo embora. Convoca portanto os Judeus e lhes diz: "Apresentastes-me este homem como um agitador; não acho, porém, nele culpa alguma, nem tampouco a achou Herodes. Todavia para vos contentar mandarei castigá-lo e depois mandá-lo-ei embora". Ó Deus, que injustiça clamorosa! Declara-o inocente, e depois manda-o castigar!
Mas, qual é o castigo, ó Pilatos, a que condenas este inocente? Vais condená-lo a ser açoitado? A um inocente infliges uma pena tão cruel e tão vergonhosa? Sim, foi o que se fez. Tunc ergo apregendit Pilatos Iesum, et flagellavit — "Então Pilatos tomou a Jesus e mandou que o açoitassem". — Minha alma, contempla como, depois de uma ordem tão injusta, os algozes agarram furiosos o Cordeiro mansíssimo, e entre gritos e alaridos o levam ao Pretório e o prendem à coluna. E Jesus, que faz Jesus? Todo humilde e submisso, aceita por nossos pecados o tormento tão doloroso e ignominioso. Eis como os verdugos já pegam dos açoutes, e ao sinal dado levantam os braços e começam a bater por toda a parte, na carne sagrada do Senhor. — Ó algozes, estais enganados, o criminoso não é ele; fui eu que mereci esses castigos.
Ó minha alma, queres ser do mesmo número daqueles que indiferentes contemplam um Deus açoutado? Considera a dor, e mais ainda o amor com que o teu dulcíssimo Senhor padece por ti tão grande suplício. — Com certeza, entre os açoutes Jesus pensava em ti. Se ele tivesse sofrido por amor de ti um golpe só, já deverias estar abrasado de amor para com Jesus e dizer: «Um Deus quis ser batido por amor de mim!» Jesus porém quis, para satisfacção de teus pecados, que lhe fossem rasgadas e dilaceradas todas as carnes, segundo a profecia de Isaías: Ipse autem vulneratus est propter iniquitates nostras — "Ele foi ferido pelas nossas iniquidades".

II. O corpo virginal de Jesus primeiro torna-se todo roxo; depois o sangue começa a correr por toda a parte. Ó céus! os algozes já lhe rasgaram a carne toda, e sem piedade continuam a bater nas feridas e a juntar novas dores. Assim o mais formoso de todos os homens fica tão desfigurado, que impossível é reconhecê-lo. Numa palavra, Jesus é reduzido a um estado tão lastimável, que parece como que um leproso, coberto de chagas desde a cabeça até aos pés: Et nos putavimus eum quasi leprosum — "E nós o julgámos como que um leproso".
E para que tudo isto? Para me livrar dos suplícios eternos. Desgraçado e infeliz de quem não Vos ama, ó Deus de amor!
Mas enquanto os algozes o açoutam tão cruelmente, que faz o nosso amável Salvador? Não fala, não se queixa, não geme; mas paciente oferece tudo a Deus afim de abrandá-lo para conosco. Sicut agnus coram tondente se, sine voce, sic non aperuit os suum — "Como um cordeiro diante do que o tosquia, emudeceu, e não abriu a sua boca".
Ah, meu Jesus, Cordeiro inocente! os bárbaros algozes Vos tiram, já não a lã, mas, sim, a pele e a carne. É esse o baptismo de sangue pelo qual suspirastes durante a vossa vida toda. Eia, minha alma, lava-te no sangue precioso, de que foi embebida aquela terra dictosa. — Meu dulcíssimo Salvador, como poderei duvidar do vosso amor, vendo-Vos todo ferido e dilacerado por meu amor? Cada chaga é uma prova inegável do afecto que me tendes. Cada ferida pede-me que Vos ame. Uma só gota do vosso sangue era bastante para a minha salvação; mas Vós quereis derramá-lo todo sem reserva, afim de que eu também me dê a Vós sem reserva. Sim, meu Jesus, sem reserva alguma me dou todo a Vós; aceitai-me e ajudai-me a ser-Vos fiel. Fazei-o pelas dores de vossa e minha querida Mãe Maria. (I 612.)

(Continuaçao, Terça feira)

A SEMANA SANTA - Sto. AFONSO DE LIGÓRIO I (Domingo de Ramos)


DOMINGO DE RAMOS
Jesus faz a sua entrada triunfal em Jerusalém.
Ecce rex tuus venit mansuetus, sedéns super asinal et pullum filium subiugalis "Eis que o teu rei aí vem a ti cheio de mansidão, montado sobre um jumenta e um jumentinho, filho do que está sob o jugo" (Math. 21, 5).
SumárioImaginemos ver Jesus na sua entrada triunfal em Jerusalém. O povo em júbilo lhes vai ao encontro,  estende seus mantos na estrada  e juncam-na de ramos de árvores. Ah! quem teria dito então que o Senhor, acolhido agora com tão grande honra, dentro em poucos dias teria de passar por ali como réu, condenado à morte? Mas é assim: O mundo muda num instante o Hosana em Crucifige. E não obstante isso somos tão insensatos, que por um aplauso, por um nada nos expomos ao perigo de perdermos para sempre a alma, o paraíso e Deus.

I. Estando próximo o tempo da Paixão, o nosso Redentor  parte de Betânia para fazer a sua entrada em Jerusalém. Contemplemos a humildade de Jesus Cristo, que, sendo Rei do céu, quer entrar naquela cidade montado numa jumenta. — Ó Jerusalém, eis que o teu rei aí vem humilde e manso. Não temas que ele venha para reinar sobre ti ou apossar-se das tuas riquezas; porquanto vem a ti cheio de amor e piedade para te salvar e dar-te a vida pela sua morte.
Entretanto os habitantes da cidade, que, havia já tempos, o veneravam por causa de seus milagres, foram-lhe ao encontro. Uns estendem os seus mantos na estrada por onde passa, outros juncam o caminho, em honra de Jesus, com ramos de árvores. — Oh! quem teria dito que o mesmo Senhor, acolhido agora com tanta demonstração de veneração, havia de passar por ali dentro em poucos dias como réu condenado à morte, com a cruz aos ombros!
Meu amado Jesus, quisestes fazer a vossa entrada tão gloriosa, afim de que a vossa paixão e morte fosse tanto mais ignominiosa, quanto maior foi a honra então recebida. A cidade, ingrata, em poucos dias trocará os louvores que agora vos tributa, por injúrias e maldições. Hoje cantam: "Glória a vós, Filho de David; sede sempre bendito, porquê vindes para nosso bem em nome do Senhor". E depois levantarão a vos bradando: Tolle, tolle, crucifige eum"Tira, tira, crucifica-o". — Hoje tiram os próprios vestidos; então torarão os vossos, para Vos açoitar e crucificar. Hoje cortam ramos e estendem-nos debaixo de vossos pés; então tomarão ramos de espinheiro, para Vos ferir a cabeça. Hoje bendizem-Vos, e depois hão de cumular-Vos de contumélias e blasfémias. — Eia, minha alma, chega-te a Jesus e diz-lhe com afecto e gratidão:  Benedictus qui venit in nomine Domini — "Bendito o que vem em nome do Senhor".

II. Refere depois o Evangelista, que Jesus chegando perto da infeliz cidade de Jerusalém, ao vê-la, chorou sobre ela, pensando na sua ingratidão e próxima ruína. — Ah, meu Senhor, chorastes então sobre Jerusalém, mas chorastes também sobre a minha ingratidão e próxima perdição; chorastes ao ver a ruína que eu a mim mesmo causava, expulsando-Vos de minha alma e obrigando-Vos a condenar-me ao inferno. Peço-Vos, deixai que eu chore, pois que a mim compete chorar ao lembrar-me da injúria que Vos fiz ofendendo-Vos. Pai Eterno, pelas lágrimas que vosso Filho então derramou por mim, dai-me a dor de meus pecados, já que os detesto mais que qualquer outro mal e resolvido estou a amar-Vos para o futuro, de todo o coração.
Depois que Jesus entrou em Jerusalém, e se fatigou o dia todo na pregação e na cura de enfermos, quando chegou a noite, não houve quem o convidasse a descansar em sua casa; pelo que se viu obrigado a voltar para Betânia. — Santa Teresa considerando certa vez num Domingo de Ramos, naquela descortesia para com o seu divino Esposo, convidou-o humildemente a vir hospedar-se no seu pobre peito. Agradou-se o Senhor tanto do convite de sua esposa predilecta, que, ao receber a sagrada Hóstia, afigurava-se à Santa que tinha a boca cheia de sangue vivo e ao mesmo tempo gozava um doçura paradisíaca.

Também tu, meu irmão, dirige a Jesus, especialmente quando te aproximas da santa comunhão, o convite que venha hospedar-se em tua alma, afim de não sofrer mais. — E agora roga a Deus que, "tendo ele feito Nosso Senhor tomar carne sofrer a morte de cruz, para dar a género humano um exemplo de humildade para imitar, te conceda a graça de aproveitar os documentos de sua paciência e de alcançar a glória da ressurreição" — Recomenda-te também à intercessão da Virgem Maria. (*I 601.)

(continuação, Segunda Feira)

ASCENDENS - ALVÍSSARAS, ALVÍSSARAS


Alvíssaras, alvíssaras! O nosso reestabelecimento chegou!


Este dia 19, dia de S. José, obtivemos a confirmação do vendedor da nossa nova aquisição. É de agradecer, não apenas a quem fez os donativos, mas também a S. José, que é um dos patronos do blogue ASCENDENS.

Até agora, o material adquirido é em segunda-mão, mas dentro da garantia, está como novo, e a um preço baixo.

Por agora as publicações correram como normalmente, e em breve sairá o primeiro episódio do tão aguardado programa O CHÁ DAS CINCO QUINAS.

Sto. Afonso de Ligório - SERMÃO DO DOMINGO DE RAMOS (III)

(continuação da II parte)

III
O Costume de Pecado Enfraquece as Nossas Forças

10. Despedaçou-me com feridas sobre feridas, lançou-se a Mim como um um gigante (Job 16. 15). São Gregório parafraseia assim este texto: O primeiro golpe que recebe um homem assaltado por um inimigo, não o põe fora de combate, mas se recebe um segundo golpe, um terceiro, perderá as suas forças e enfim a sua vida. Tal é o efeito do pecado; na primeira ou na segunda vez que a alma está ferida, ainda lhe ficam algumas forças provenientes da graça Divina; mas se a alma continua a pecar, o mal tornado habitual é então para ela como um gigante ao qual não pode resisti. São Bernardo diz que o pecador de hábito parece um homem deitado debaixo de uma enorme pedra e que, não podendo sublevá-la, muito dificilmente se levantará: Dificilmente se levanta aquele que está debaixo da pedra dos maus hábitos.

11. S. Tomás de Vilanova escreveu que a alma desprovida da graça de Deus não pode ficar longo tempo sem cometer novos pecados (Conc. 4. dom. 4 Quadrag.). E S. Gregório, sobre esta passagem de David: Ó meu Deus, torna-os semelhantes às folhas levadas pelo torvelinho semelhantes à palheira diante do vento (Salm. 82. 14). Vede como a palha é levada pelo menor vento; assim o pecador, que, antes de contrair o costume do pecado podia resistir algum tempo, logo que este mau hábito está tomado, deixa-se arrastar pela menor tentação de pecado e cai em queda após queda. Os pecadores de costume, como escreveu S. João Crisóstomo, estão tão fracos contra os ataques do demónio, que muitas vezes são forçados a pecar mesmo contra a sua própria vontade, arrastados pela força do mau hábito: duro é o costume que obriga a cometer coisas ilícitas aos que nem sempre querem. E isso, porque no sentimento do mesmo Sto. Agostinho, o hábito de pecar torna-se com o tempo uma necessidade de pecar. Quando não se resiste a um costume, torna-se necessidade.

12. S. Bernardo de Siena acrescenta que o costume se torna uma natureza [como que segunda natureza]. E desde então o pecado torna-se, para o pecador de hábito, tão necessário como a respiração para a vida do corpo; e o pecador fica-lhe totalmente escravo. Há servidores que trabalham mas com um salário. Os escravos trabalham sem salário e até forçadamente. A este último grau chegam os pecadores de hábito, porque pecam muitas vezes sem nenhuma satisfação, apenas como escravos do demónio, sem salário. S. Bernardo compara-os aos moinhos de vento, que continuam a fazer girar a mó quando já não há grão para moer, quer, dizer, que os pecadores sem ocasiões presentes continuam a pecar, ao menos por maus pensamentos. Os desgraçados, diz S. João Crisóstomo, desprovidos do auxílio divino, já não agem conforme à sua vontade mas conforme à vontade do demónio: O Homem, perdendo a graça de Deus, não faz o que quer, mas o que o demónio quer.

13. Ouvi, acerca deste assunto, o que um autor narra ter acontecido numa cidade da Itália: Um jovem inclinado a um vício de costume, apesar de ter sido chamado muitas vezes pela voz discreta de Deus, e avisado por outras pessoas para mudar de vida, perseverava no pecado. Um dia o Senhor feriu de morte súbita uma das suas irmãs diante dos seus olhos. Ele foi comovido por algum tempo; mas mal ela foi sepultada, ele esqueceu a lição, e voltou à sua inclinação. Depois meses depois da morte de sua irmão, ele próprio caiu à cama, doente com uma febre lenta: mandou chamar um sacerdote para se confessar, mas apesar de tudo isso, exclamou um dia: ai de mim! Reconheço tarde demais todo o rigor da Justiça Divina! E dirigindo-se ao médico diz-lhe: não vos fatigueis mais com os remédios, porque o meu mal não tem cura e eu sinto que ele me leva ao túmulo. Depois, voltando-se para aqueles que o cercavam disse: Sabei que como não há remédio para o meu corpo, também não há para a minha alma, que está inclinada a uma morte eterna. Deus me abandonou, eu vejo isto ao endurecimento do meu coração. Alguns amigos tentaram reanimar a sua confiança na misericórdia de Deus, mas repetia sempre: Deus abandonou-me. Aquele que narra este facto acrescenta que ficando sozinho com este desgraçado jovem, lhe disse: Tomais coragem, uni-vos a Deus; tomai o Santo Viático, mas o doente respondeu-lhe: Amigo, falai a uma pedra; a confissão já a fiz e foi sem contrição; Não quero agora nem confessor, nem sacramento, não levai o Viático, porque isto seria dar-me uma ocasião de fazer um escândalo. O autor deixou-o todo aflito e pouco depois regressando para o ver, os parentes lhe disseram que morreu na noite precedente, sem nenhum auxílio espiritual, e perto do quarto do doente, se ouviam uivos tremendos.

14. Eis o fim do pecador de hábito. Pecadores, meus irmãos, se vos encontrais nos laços dum hábito culpável, fazei depressa uma confissão geral; porque as vossas até agora não foram boas. Saí rapidamente da escravidão ao demónio. Ouvi o que vos diz o Espírito Santo: Não dês a tua honra a estranhos, nem os teus anos a um cruel (Provérbios 5. 9). Porque quereis continuar a servir um mestre tão cruel como o demónio, o vosso inimigo, que os faz levar uma vida tão miserável, para vos conseguir uma vida ainda pior, no inferno durante toda a eternidade: Lázaro sai fora: sai dessa fossa do pecado; entregai-vos a Deus que vos chama e vos abre os braços para vos abraçar, se voltais aos seus pés: Ah! Tremei, que não seja a última chamada cujo desprezo acarrete a vossa danação.

10/03/16

ASCENDENS - PROBLEMAS TÉCNICOS


Caros leitores,

única e exclusivamente: o nosso sistema electrónico está temporariamente "estranho". De tal modo é que, admirem-se, só estamos a ser afectados na gravação de vídeos, edição de vídeos, e transmissão online dos programas. A formatação do computador é para já impossível, devido à falta do espaço de arquivo de dados ASCENDENS. A solução mais simples, e a qual, por vários outros motivos e necessidades já se tinha vindo a fazer sentir, é a aquisição de mais espaço externo (disco).

Estes incómodos vieram, e certeiros atingiram o coração do trabalho que, justamente agora, começámos a lançar... Mais ainda: estão a pedir o lançamento da maior aposta, que é o programa CHÁ DAS CINCO QUINAS.

Não nos resta pedir desculpas aos leitores, por este grande "travão". E que Deus nos dê uma ajuda, porque estes conteúdos são bons, e fazem mossa (ohh, se fazem)... Entretanto, se alguém tiver ideias que ajudem a solucionar o problema, informe-nos pelo ascendensblog@gmail.com

Pedro Oliveira

RETRATO DE Sto. ANTÓNIO DE LISBOA


Este é uma pintura antiga (da posse da Casa de Pombal), cópia de uma antiquíssima tábua. Segundo a tradição, este é um verdadeiro retrato de Sto. António.

04/03/16

CHÁ DAS CINCO QUINAS - O NOVO PROGRAMA


O programa Conversas de Café tem tido acolhimento, mas há muito que limar. Depois de ouvidas as opiniões de alguns dos espectadores, chegámos à conclusões várias:

1 - O entrevistado é confrontado com vários desafios, seja porque todas as perguntas não lhe são previamente entregues para estudo, seja porque o modelo do programa requer alguma leveza, seja porque os temas mais interessantes exigem alguma reflexão e profundidade, torna-se pesado conciliar estas oposições;

2 - Os programas têm de ser mais curtos, ou intervalados;

3 - Há vários aspectos técnicos que melhorarão com a experiência, e outros só com um pequeno investimento tecnológico;

Para já, o remédio é a criação de um outro programa. Manteremos o CONVERSAS DE CAFÉ tal como o tínhamos concebido inicialmente (mais leve, mais geral). Mas como há necessidade de não deixar os assuntos graves entregues à futilidade, será lançado o CHÁ DAS CINCO QUINAS, como complemento.

Ora vai de café, ora de chá. Um desperta, o outro tranquiliza; não é verdade?

Então, que outras novidades posso já adiantar?

A transmissão será em directo, apenas para um pequeno número de pessoas, será então gravada, revista, e editada em vídeo para distribuir online; em ambiente interior, a fazer jus à toma do chá da tarde. Em princípio, haverá um tema por programa.

Aguardemos as próximas novidades!

02/03/16

CONVERSAS De CAFÉ III

(ver programa anterior)

Mesmo havendo que ultrapassar algumas dificuldades técnicas, continuaremos a transmitir e a difundir o programa.

Andámos muito pelo lados do Real Convento de Mafra, mas outras coisas há que valem a pena ver.

Eis as partes do programa:

1 - Breves considerações sobre a Real Basílica de Mafra;

1 - Muito breves referências à Basílica de Mafra - curiosidades: carrilhões e órgãos; (00:00)
2 - Do órgão em geral; (6:23)
3 - Opinião da música do séc. XIX em Portugal; (10:26)
4 - Algumas curiosidades do Convento de Mafra; (13:06)
5 - O significado da "face" na biblioteca de Mafra; (15:45)
6 - Significado de "violência", e a revolução por meio da mutação de conceitos; (25:11)
7 - Não dizer a verdade, e o mentir - rápidas considerações. (34:08)



(a continuar)

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