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28/03/19

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 31 (III)

(continuação da II parte)



Segunda Proposição

A impiedade declarada, e até a perseguição nunca eximem os vassalos da obediência devida aos Príncipes.

Provas

O Caracter Real é santo e sagrado ainda que seja nos príncipes infiéis; pois temos visto que Cyro é chamado por Isaías o Ungido do Senhor (Isaías C.45 v.2º)

Nabucodonosor era ímpio e orgulhoso a ponto de se querer emparelhar com Deus, e de fazer morrer os que se refusavam a este culto sacrílego; e Daniel todavia lhe diz estas palavras: "Vós sois o Rei dos Reis, e o Deus do Céu vos tem dado o Reino, o Poder, o Império, e a Glória."

É por esta razão que o Povo de Deus orava pela vida de Nabucodonosor, de Baltasar, e de Assuero.

Acab e Sesabel tinham feito morrer todos os Profetas do Senhor. Elias queixa-se ao Senhor, porém fica sempre obedecendo ao Rei.

Os profetas nesse tempo fizeram prodígios assombrosos para defenderem o Rei, e o Reino (III Reis. Cap. 19 v. 1 10 14 - III Reis C. 20).

Eliseu fez outro tanto no governo de Jorão filho de Achab, também ímpio como seu pai (IV Reis C. 3 v. 6 7).

Ainda não houve quem chegasse à impiedade de Manasses, que pecou e fez pecar Judá contra Deus, tratando de lhe fazer extinguir o culto, perseguindo os Fiéis Servos de Deus, e alagando de seu sangue a Cidade de Jerusalém. Entretanto Isaías e os Profetas Sagrados, que o repreendiam de seus crimes, nunca excitaram contra ele o mais leve tumulto (IV Reis C. 21 v. 2 3 16). Esta doutrina continuou na Religião Cristã.

Foi no governo de Tibério, não só infiel, mas de mais a mais perverso, quando Nosso Senhor disse aos Judeus: Dai a César o que é de César (Mateus C. 22 v. 21)

S. Paulo apela para o César, e reconhece a sua autoridade (Actos C. 25 v. 10 11 etc). Manda fazer orações pelos Imperadores, ainda que o Imperador no tempo em que assim o mandava era Nero, o mais ímpio e malvado de todos os homens (I a Tim. C. 11 v. 12).

Assina como fim desta oração a tranquilidade pública, porque esta exige que se viva em paz até no governo de Príncipes perseguidores.

S. Pedro, e ele (S. Paulo) determinam aos Fiéis que estejam submissos às Potestades (Ep. Aos Romanos C. 13 v. 5- I Pedro C. 2 13 14 17 18). Temos visto as suas palavras, e temos visto quais eram as Potestades desse tempo, nas quais os Santos Apóstolos faziam respeitar aos fiéis a ordem de Deus.

Em consequência desta doutrina Apostólica os primeiros Cristãos, ainda que perseguidos por espaço de três séculos, não fizeram nunca o mais pequeno motim e alvoroto no Império. Somos inteirados destes sentimentos por Tertuliano, e nós os achamos por todo o decurso da História Eclesiástica.

Continuavam a orar pelos Imperadores até no meio dos suplícios, a que eram condenados injustamente. "Ânimo (diz Tertuliano) arrancai aos bons Juízes, arrancai aos Cristãos uma alma que faz votos pelo Imperador" (Tertul. Apolog.).

Constâncio, filho de Constantino Magno, ainda que protector dos Arianos, e perseguidor da Fé Niceana, achou na Igreja uma fidelidade inviolável.

Juliano Apóstata, seu sucessor, que restabeleceu o paganismo condenado pelos seus predecessores, não achou os Cristãos nem menos fiéis, nem menos zelosos do seu serviço; tanto sabiam eles distinguir a impiedade do Príncipe do Caracter Sagrado da Majestade Soberana.

Tantos Imperadores hereges, que vieram depois; um Valente, uma Justina, um Zenão, um Basilisco, um Anastácio, um Heráclio, e um Constante, ainda que expulsassem das suas Sés os Bispos Ortodoxos, e até os Papas, e enchessem a Igreja de mortandades, e de sangue, não viram nunca a sua autoridade atacada ou enfraquecida pelos Católicos.

Enfim, por espaço de 700 anos nunca se vê um só exemplo de um povo que tenha desobedecido aos Imperadores debaixo do pretexto de Religião. No oitavo século todo o Império conserva a sua fidelidade a Leão Isáurico, Chefe dos Iconoclastas, e perseguidor dos fiéis. No governo de Constantino Coprónimo seu filho, que lhe sucedeu na Coroa, na heresia, e violência, os Fiéis do Oriente não opuseram senão paciência a estas perseguições. Na queda porém do Império, quando os Césares mal chegavam a defender o Oriente, onde estavam encurralados, Roma, entregue quais dois anos ao furor dos Lombardos, e constrangida a implorar a protecção dos Franceses, foi obrigada a separar-se dos Imperadores.

Padeceu-se por muito tempo antes que se chegasse a uma semelhante extremidade; e só o fizeram quando a Capital do Império foi tratada pelos Imperadores com um país devoluto a quem quisesse ocupar, e deixado ao desamparo.


Terceira Proposição

Os Vassalos não têm que opor à violência dos Príncipes senão representações cheias de respeito, sem alvoroto nem barulho; e orações para que eles se convertam.

Provas

Quando o Senhor quis libertar os Israelitas da tirania do Faraó, não permitiu que eles procedessem por via de facto contra um Rei, cuja desumanidade para com eles era inaudita. Pediram respeitosamente licença de saírem, e de irem sacrificar a Deus no deserto.

Já temos visto que os Príncipes devem ouvir até os particulares, e mais forçosamente devem ouvir o povo, que lhe faz chegar as suas justas queixas pelos meios lícitos.

Faraó, apesar de endurecido e de tirano que era, não deixava todavia de escutar os Israelitas. ouvia a Moisés e a Arão. Admitiu à sua audiência os Magistrados dos povos de Israel, que lhe vieram queixar em altos gritos, dizendo-lhe: "Por que tratais assim os vossos servos" (Êxodo V VIII - ibid. v. 15).

Seja embora lícito ao povo oprimido recorrer ao Príncipe pelos seus Magistrados, e pelas vias competentes; mas que se faça isto respeitosamente.

As representações acompanhadas de acrimónia e de barulho são um princípio de sedição, e não se devem sofrer. Assim os Israelitas murmuravam contra Moisés, e nunca lhe fizeram uma representação com Sossêgo.

Moisés nunca deixou de os ouvir, de os amaciar, e de rogar por eles, e deu um exemplo memorável de benignidade com que os Príncipes devem tratar o seu povo; mas Deus para manter a ordem castigou severamente estes sediciosos (Números XI XIII XIV XX XXI etc.)

Quando eu digo que estas representações devem ser cheias de respeito, entendo que elas o sejam efectivamente, e não em aparência, como foi a de Jeroboão, e das dez tribos que disseram a Roboão "Vosso Pai nos põe um jugo insuportável: diminuí um pouco este jugo tão pesado, e nós seremos vossos vassalos fiéis" (III Reis XII - 4 - II Par. X - 4).

Havia nestas representações algum sinal exterior de respeito, em que eles só pediram uma pequena diminuição, e prometiam ser fiéis; mas era um princípio de motim o fazerem depender a sua fidelidade de mercê que eles pediram.

Não se vê coisa assim nas representações que os Cristãos perseguidos faziam aos Imperadores. Tudo nelas é comedido, tudo é modesto, e a verdade Divina aí se diz livremente; porém estes discursos tão longe estão de serem concebidos em termos sediciosos, que ainda hoje não se podem ler, sem que logo se sinta inclinação à obediência.

A Imperatriz Justina, Mãe e tutora de Valentiniano II, quis obrigar Santo Ambrósio a que desse uma Igreja na cidade de Milão, residência do Imperador, aos Arianos que ela protegia. Todo o povo se reuniu ao seu Bispo, e juntando-se na Igreja, esperava o êxito do negócio. São Ambrósio nunca excedeu os limites da modéstia própria de um Vassalo e de um Bispo. Fez a sua representação ao Imperador "Não julgueis, lhe dizia, que tendes autoridade de tirar a Deus o que é seu. Eu não posso dar-vos a Igreja que me pedis; no caso porém que a tomeis, eu não devo resistir". E acrescentou "Se o Imperador quer ter os bens da Igreja, pode tomar conta deles, nenhum do nós se opõe a isso, que no-los tire, se assim o quer; eu não lhos dou, porém também lhos não refuso" (Ambr. de Basilicis non tradendis). "O Imperador, continuava ele, está na Igreja, porém não é acima da Igreja. Um bom Imperador, longe de rejeitar o auxílio da Igreja, procura-o." Dizemos estas coisas com respeito, porém julgamos ser da nossa obrigação expô-las com liberdade.

Continha ele por tal arte aquele ajuntamento no devido respeito, que nunca lhes escapou um só termo insolente. Oravam e cantavam os louvores de Deus, esperando o seu auxílio.

Eis aqui uma resistência digna de um Cristão e de um Bispo. Entretanto como o povo estava unido ao seu Pastor, dizia-se no Palácio que este Santo Pastor aspirava à tirania. Respondeu a isto "Eu tenho uma defesa, porém é só nas orações dos pobres. Estes cegos, estes coxos, estes estropeados, e estes velhos, são mais fortes que os vossos soldados mais corajosos. Eis aqui as forças de um Bispo, eis aqui o seu exército" (Ibid.). 

Possuía mais outras armas, a saber, a paciência e as orações que fazia a Deus. "Como se trata isto de tirania?".

"Eu tenho armas, (dizia ele) tenho o poder de oferecer o meu corpo em sacrifício. Nós temos a nossa tirania e o nosso poderia. O poderio de um Bispo é a sua fraqueza. Eu sou forte quando sou fraco, dizia S. Paulo" (Ambr. L. II - Ep. 13)

Enquanto não rebentava essa violência de que a Igreja era ameaçada, o Santo Bispo estava no altar pedindo ao Senhor com lágrimas que não houvesse efusão de sangue, ou pelo menos lhe aprouvesse dar-se por satisfeito com o seu. "Comecei (diz ele) a chorar amargamente, oferecendo o sacrifício, rogando ao Senhor que nos ajudasse de tal maneira que não houvesse sangue derramado em uma causa da Igreja, e que ao menos fosse o meu derramado, não só pelo povo, mas até pelos ímpios" (Ibid.).

Deus ouviu umas orações tão ardentes, e a Igreja ficou vencedora sem custar sangue de pessoa alguma.

Pouco tempo depois, Justina e seu filho, quase abandonados de toda a gente, recorreram a Santo Ambrósio, e não encontraram nem fidelidade nem zelo do seu serviço senão em o próprio Bispo, que se tinha oposto aos seus intentos na causa de Deus e da Igreja.

Eis aqui o poder das representações respeitosas; eis aqui o que podem as súplicas. Assim fazia a Rainha Ester, tendo concebido o desígnio de abrandar Assuero seu marido; depois que ele se resolvera a sacrificar todos os Judeus à vingança de Aman, ela mandou dizer a Mardocheo "Ajuntai todos os Judeus que poderdes achar em Susa, e orai por mim. Não comais nem bebais por três dias e três noites; eu jejuarei da mesma sorte com as minhas criadas, e depois me exporei à morte, e falarei ao Soberano contra a lei, sem esperar que ele me chame" (Ester IV - 16).

Quando ela apareceu diante do Rei, os olhos chamejantes deste príncipe anunciaram a sua cólera; Deus porém, lembrando-se das orações de Ester e dos Judeus, trocou em brandura os furores do Rei. Os Judeus foram livres em atenção à Rainha (Ibid.).

Da mesma sorte quando o Príncipe dos Apóstolos foi prezo por Herodes, toda a Igreja orava a Deus por ele sem interrupção; e Deus enviou o seu Anjo para o libertar. Eis aqui as armas da Igreja: votos e orações com perseverança (Act. XII - 5 e seguinte) S. Paulo encarcerado por Jesus Cristo não tem senão este socorro e estas armas. "Preparai-me um quartel; que espero que Deus me há de entregar às vossas orações" (II Tim. IV - 17)

Com efeito saiu do cárcere, e foi livre das garras de Leão. Dá este nome ao Imperador Nero, inimigo não só dos Cristãos, mas também do género humano.

Que se Deus não atende às orações dos seus fiéis, se para experimentar e castigar os seus filhos permite que se acenda a perseguição contra eles, neste caso devem lembrar-se de que Jesus Cristo os mandou como ovelhas para o meio de lobos (Mateus X - 16)

Eis aqui uma doutrina verdadeiramente santa, verdadeiramente digna de Jesus Cristo, e dos seus Discípulos.

Até aqui o novo Agostinho: e voltando agora às suas últimas palavras contra os promotores, conselheiros, e cúmplices das rebeliões antigas e modernas - Eis aqui o motivo principal, porque o ódio ao Cristianismo é inerente a todas as seitas filosóficas-políticas, ou criadas nos silêncio das trevas do Maçonismo. Esta cáfila de Ateus, que desde os princípios do séc. XVIII estuda, forceja, e toda se afana para destruir os alicerces da sociedade, tomou logo a peito quebrar esse freio, que os incomodava, que os magoava por extremo, a ponto de lhes fazer espilrar sangue. Bem certos de que nem Deus nem o Evangelho queriam outra coisa senão uma inteira obediência aos Príncipes, e que todas as fúrias da ambição, quais ondas entumecidas e assobreadas, haviam de quebrar necessariamente no rochedo incontrastável das lições da própria Divindade, esta mesma renunciaram e maldisseram; que a tanto chegaram os delírios do átomo desprezível, que no seu nome tem uma lição bem expressiva do seu nada, mas que insensível a tudo alardeia e presume de assentar como Lucifer o seu trono sobre as alturas do Firmamento!! Penetrarem-se todos os Soberanos de uma verdade a mais profícua e vantajosa para eles, se a quiserem aproveitar; fechando os olhos de uma vez a esses medonhos quadros da opulência Sacerdotal, e a esses quiméricos e sonhados perigos que ela pode causar ao trono e realeza, e tapando os seus ouvidos à manhosa insinuação de que a Igreja aspira a dominar sobre eles, e a invadir e usurpar as suas mais eminentes prerrogativas. Quem deixará de conhecer as baterias e aproches, de que a seita há lançado mão para armar os Reis contra os mais sólidos apoios da Majestade? Quem poderá encontrar sem horror e aperto de coração esses Reis chamados Católicos, mas adeptos da filosofia moderna, que os empurrava para o fiel cumprimento da sua traças impias e revolucionárias, mas que aplaudia em segredo; e que eles para se mostrarem filósofos se condenassem a desaparecerem mui prestes do catálogo dos Soberanos? Ainda é o tempo… mas foi necessário que Deus lhes abrisse os olhos, e destapasse os ouvidos; porque doutra maneira todos eles por indústria e más artes do Maçonismo seriam iguais no destino a Carlos I de Inglaterra, e a Luís XVI de França! O Senhor, que ainda se dignou sustentar as Monarquias, e não consentiu que uns homens de nada, e filhos de Belial, se jactassem de o ter escarnecido e humilhado na pessoa de seus verdadeiros Representantes, e seus Ungidos, parece que está chamando aos Reis pela voz de tão extremado benefício: "Só a minha dextra, só o poderoso influxo de uma Religião, vossa especialíssima benfeitora, vos tem conservado na posse dos tronos que o Maçonismo queria ver destruídos, ou, para me servir dos seu estilo, afogados em mares de sangue, para que nunca mais fossem vistos à superfície do globo. Assaz vos tem mostrado a experiência o que desde tempos antigos eu vos tinha afiançado.

Por mim, e só por mim, é que ainda hoje reinam os Príncipes no séc. XIX… Está na vossa mão, ou conservar, ou perder os tronos… Só farei milagres quando me aprouver; nem sempre devereis contar com eles… Curai extremamente de que os povos obedeçam ao Evangelho, e nunca mais surdirá a peste de vassalos intrigantes e rebeldes. Florença o Cristianismo; e a seita que de presente lhe é mais contraria, perderá todos os dias grande parte da sua força, a ponto de ser brevemente sepultada nesse caos, onde cedo ou tarde vem a jazer todas as seitas inimigas do Cristianismo."


Conclusão

Portugueses de todas as classes, de todos os sexos, idades, e condições, aqui tendes exposta e demonstrada pelo maior homem dos séculos modernos a intrínseca malícia do façanhoso levantamento do Porto, que foi radicalmente um acto de usurpação de autoridade Real, e uma rebeldia manifesta e contrária às leis do Cristianismo! Fiquem pois mui impressas na vossa lembrança as bem defendidas teses, ou proposições, que sem os atavios da chamada eloquência moderna, e assim mesmo invulneráveis aos tiros de pólvora seca, e às balas de papelão, ou de papelões, que nesta conta devem entrar os pomposos raciocínios do Contrato Social, não deixam mais nada para desejar, pondo em toda a luz o nefando crime que teve inumeráveis cúmplices e admiradores! É porém de minha competência reforçar agora os invencíveis argumentos de Bossuet, não para lhes acrescentar um só grão de força e solidez, o que era impossível ao meu fraco engenho, mas para firmar sobre eles os argumentos que chamaram a fortiori, e que deixaram mais patente a enormidade do crime que se perpetuou a 24 de Agosto de 1820. É dever do Cristianismo prestar obediência aos Reis, por maus e díscolos que sejam, e mais vale sofrer a pé quedo as injúrias e maus tratamentos, do que despica-las à custa do sangue de muitos cidadãos, que necessariamente há de correr em tais conflitos;  qualquer dos fiéis da Igreja primitiva se julgaria reu de pecado mortal só de consentir o pensamento de conspirar para que um Nero fosse deposto do trono que indignissimamente ocupava. Sendo pois assim, como se tem mostrado por argumentos irrefragáveis, de que horrorosa infâmia não devem cobrir-se, e ficarem manchados para em quanto houver mundo, esses perversos e desalmados, que postergando os estímulos do dever, da consciência, e até da própria gratidão, se fizeram e aclamaram reis em lugar dos Rei mais benigno da Europa… Será porventura necessário folhear os autores estrangeiros, como por exemplo a Viagem do Professor Linck e estes Reinos, para sabermos que a bondade do coração e um enternecido amor aos seus vassalos são, para assim dizer, o património da Augustíssima Casa de Bragança? Qual desses furiosos mais acesos contra o que eles chamam Despotismo não deixa de ter na sua mão talvez multiplicados testemunhos da generosa beneficência do mui alto e poderoso Rei o Senhor D. João VI? Praza aos Céus que esta lembrança com a virtude de uma seita lhes traspasse os fementidos corações, para que chegue a entrar neles, quando não seja o arrependimento, ao menos a confusão de terem procedido, não como homens, porém como feras as mais indómitas, e talvez piores, visto que nas Histórias também há exemplo de tigres e leões agradecidos.
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LISBOA: NA IMPRESSÃO RÉGIA. 1823
Com licença da Real Comissão de Censura

04/07/18

O DEVER DA OBEDIÊNCIA MAIOR

Alfredo Pimenta, converso e com um percurso ao verdadeiro Tradicionalismo
"Estou onde estou, não por benefício pessoal, para conveniência própria, mas porque entendo que sirvo, assim, melhor, a Causa de Deus e a Causa da Pátria, que a Causa do Rei representa.

Diz o snr, Bispo de Bragança infalivelmente ingénuo: - é da responsabilidade do General a divisão que se dá entre os soldados obedientes e desobedientes ao Comando? É da responsabilidade de Deus a divisão que há entre os homens que cumprem os deus mandamentos ou conselhos e os que os não cumprem?

Ai snr. Bispo de Bragança! Snr. Bispo de Bragança! Não lhe tremeu a mão, do sacrilégio? Não se lhe partiu a pena, ao escrever a afronta? Então v. ex.ª Reverendíssima, por graça de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo de Bragança, ousa comparar o comando do general, aos mandamentos e conselhos de Deus? São da mesma natureza o comando do General, e os mandamento e conselhos de Deus, para que a obediência que devemos a estes seja idêntica à que podemos dever àquele? Ai snr. Bispo de Bragança, snr. Bispo de Bragança - o que lhe vale é ser Bispo e eu católico…

Pois lho digo: é, sim, da responsabilidade do General, a divisão que se dá entre os soldados obedientes e desobedientes ao comando - , quando este é contrário à moral, à consciência, à recta razão."

(Alfredo Pimenta, de: a política do Centro Católico e a minha resposta ao Senhor Bispo de Bragança e Miranda, 1925) 

21/08/16

NA SERRA ALTA - PAIS, SUPERIORES, REINO


"... então um mau filho: ignorar, abandonar, "demitir" do sagrado posto de pais apenas por ficarem enfermados de doença semicontagiosa... coisa aberrante! Aos legítimos superiores o mesmo fez. Escolheu outros "pais", dizendo que um órfão tem tal direito e que S. Tomás não o negaria, mas  "esquecendo-se" que não era realmente órfão. À Pátria, essencialmente monárquica, o mesmo fez."
(na serra alta - J. Antunes)

10/08/15

MÁXIMAS DE Sto. INÁCIO DE LOYOLA e SENTIMENTOS DE S. FRANCISCO XAVIER (II)

(continuação da I parte)


MÁXIMAS
Para o Proceder dos Cristãos em Geral

I

Os verdadeiros cristãos devem submeter-se ás decisões da Igreja com simplicidade de criança. Para isto é preciso persuadir-se bem de que é o espírito de Nosso Senhor JESUS CRISTO que anima a Igreja sua esposa, e que o mesmo Deus que deu outrora os preceitos do Decálogo aos Israelitas governa hoje a sociedade dos fieis.

Bem longe de impugnar o que está em uso entre os católicos, devem-se ter sempre razões prontas para defendê-los contras os ímpios e libertinos.

II

Por mais esclarecidos que sejamos, nunca devemos julgar as cousas divinas por vistas humanas; mas devemos submeter sempre o nosso juízo aos princípios da fé e à autoridade da Igreja, não sendo justo que as cousas certas sejam reguladas pelas que são duvidosas, e sendo, ao contrário, razoável que as cousas duvidosas se decidam pelas que são certas.

III

No tocante à religião, as novidades mais plausíveis são muitas vezes as mais perigosas. As razões que apoiam uma doutrina não a fazem católica; e, até que a Igreja haja decidido o que se deve crer dessa sorte de opiniões, cumpre resguardar-se de julgar ou falar delas favoravelmente.

IV

Devem-se receber com profunda submissão as ordens dos superiores eclesiásticos; e, quando a vida deles não fosse tão pura quanto deveria ser, devemo-nos abster de falar contra eles, porque essa espécie de invectivas causa sempre escândalo e revolta as ovelhas contra os seus pastores.

V

Não pode estimar demais a ciência de teologia, tanto a escolástica quanto a positiva. Os antigos Padres tiveram principalmente em mira excitar os corações ao amor e ao serviço de Deus; mas santo Tomás e os outros doutores dos últimos séculos propuseram-se reduzir os dogmas da fé a um método exacto, para refutar com segurança as heresias.

VI

Tudo o que vem dos hereges deve ser suspeito, que os livros sobretudo, por melhores que sejam; porque, quando lemos um bom livro de um mau homem, insensivelmente nos afeiçoamos ao autor, até crermos ás vezes que tudo quanto tal autor é razoável e ortodoxo.

VII

Se não houvesse outra vida senão a vida presente, nem outra gloria que a do mundo, ter-se-ia talvez razão de só pensar em aparecer em se elevar entre os homens; havendo porém uma eternidade, como seguramente há uma, a que é que se pensam limitar aqui os próprios desejos? e porque preferir aquilo que passa como um sonho ao que não findará nunca?

VIII

Já que não estamos na terra para gozar os prazeres dos sentidos, nem para adquirir riquezas, glórias, conhecimentos curiosos, senão que o homem foi criado para servir o Senhor seu Deus, e todas as criaturas feitas para conduzir o homem ao seu fim, não devemos andar atrás ás cousas do mundo nem usar delas senão enquanto nos ajudam a honrar e a amar a Deus.

IX

As cousas que servem de meios para um fim tiram todo o seu preço, não daquilo que são em si mesmas, mas daquilo que são em relação em fim a que se destinam. Importa pois julgar das riquezas e da pobreza, da glória e da humilhação, da saúde e da doença, não pelo bem ou pelo mal que delas recebemos na vida presente, mas pelas vantagens que nos dão ou pelos danos que nos causam para a eternidade.

X

Devemo-nos ainda manter em perfeita diferença a respeito de todas essas cousas, de sorte que não procuremos antes a saúde que a moléstia, que não prefiramos as riquezas à pobreza, a honra ao desprezo, uma vida longa a uma vida curta. Se, contudo, nos tivermos que determinar por um lado mais do que o outro, a razão quer que escolhamos aquilo que nos leva direito ao nosso fim.

XI

O exame particular é um dos meios mais seguros de reformar uma alma mundana. Consiste em fazer guerra ao vicio que mais nos domina, atacando-o só, combatendo-o sem trégua por uma atenção contínua sobre si mesmo para vão cair nele, e por um volver doloroso para Deus todas as vezes que nele se cai.

XII

Poucas pessoas há que compreendam bem o que Deus faria delas se elas o deixassem agir. Um tronco de árvore rude e informe torna-se uma bela estátua nas mãos do escultor. Vários vivem apenas como Cristãos, os quais seriam santos se se não opusessem aos desígnios de Deus e ás operações da graça.

XIII

Não nos devemos deixar seduzir por um certo zelo que nos torna intranquilos sobre as desordens do mundo; devemos começar por nos reformarmos a nós mesmos; e ver em seguida, para o que diz respeito aos outros, o de que Deus nos pedirá contas no dia do juízo universal.

XIV

Não temos razão de nos queixarmos das infidelidades do mundo; enganando-nos, ele não fez mais do que costuma fazer, ou, antes, não é enganar-nos propriamente o fazer-nos conhecer o que é a côrte dos príncipes, e quando aí mal infundadas as esperanças. Este mundo ingrato, e que tão mal recompensa os nossos serviços, adverte-nos por si que o devemos abandonar.

XV

Nada há mais importante do que a escolha de um estado ou e uma forma de vida, e eis aqui os tempos que são próprios para fazer essa escolha: 1.º quando Deus toca de tal sorte o coração, que não resta a menor dúvida de que seja uma vocação divina, e tal como sucedeu a São Mateus, a São Paulo e alguns outros santos; 2.º Quando a impressão da graça não é tão forte, mas o é todavia bastante para dar uma espécie de segurança de que é o Espírito Santo que nos chama; 3.º quando a alma esclarecida pelas luzes da  fé, e isenta de perturbações que a possa induzir a falsos juízos, está em estado de resolver o que lhe será melhor para a sua salvação.

XVI

Aquele que consulta Deus para saber o que Deus quer de si, seja na escolha de um estado de vida, seja em outras cousas que dizem respeito à sua salvação, deve primeiro por diante a sua salvação, deve primeiro por diante dos olhos o fim para que foi criado, e conservar-se tanto quando puder numa perfeita indiferença relativamente à cousa sobre que delibera, sem perder nem para um lado nem para o outro, na disposição, não obstante, de abraçar generosamente aquilo que conhecer mais conveniente à glória de Deus e à salvação de sua alma.
   
Depois, pedindo humildemente a Deus a sua luz sobre o negócio que se trata, deve pesquisar as razões que são pró e contra, opô-las umas ás outras, pesando a força de cada uma, encarando-as todas em vista da eternidade e na relação que tem com o fim ultimo do homem. Que, se após essa discussão restar alguma dúvida no tocante ao partido que se tem a tomar, haverá então que pensar diante de Deus o que é que se aconselharia a outro em tal emergência, e o que nós próprios quiséramos ter feito na hora da morte e no dia do juízo.

XVII

Se tivéssemos uma vez estabelecidos numa situação fixa e imutável tal como é o sacerdócio ou o matrimónio, não mais cumpre arrazoar sobre o partido que se tomou, quando mesmo a nossa fixação se tivesse feito por motivos muito humanos; cumpre porém trabalhar por adquirir a perfeição que reclama o estado em que nos achamos.

XVIII

Para não tomar mau partido nos próprios negócios, e é a propósito encara-los como se foram os negócios de outrem, e julgar deles sem nenhum interesse. Mas depois de haver considerado a cousa em apreço segundo todas as regras da prudência, nada se deve concluir sem a haver examinado diante de Deus segundo os princípios da fé; porquanto amiúde sucede que, com todas as vistas da prudência humana, não pode a gente discernir cousas que a oração humilde e fervorosa faz conhecer, ou que a luz das verdades eternas manifesta por si mesma.

XIX

Aquele que não é chamado por Deus a esse sublime e primeiro grau da perfeição que consiste em não possuir nada neste mundo, deve esforçar-se em não possuir nada neste mundo, deve esforçar-se por chegar ao segundo, que consiste em não ser escravo daquilo que se possui. Se não deixamos os nossos bens por amor de Deus, tenhamos ao menos o coração desapegado deles, e deles façamos bom uso.

XX

Quando sacrificamos os nosso interesses ao serviço de Deus, ele adianta mais os nossos interesses do que os adiantaríamos nós próprios se houvéssemos preferido os nossos interesses ao serviço dele.

XXI

Para não condenar várias acções do próximo que parecem criminosas, deve-se recorrer á intenção, que é muitas vezes inocente. Mas, quando a acção é tão evidentemente má que se lhe não pode dar um bom sentido, devemo-la desculpar com a violência da tentação, e dizer-nos ao mesmo tempo que faríamos outro tanto se fôssemos tentados daquele modo, que faríamos talvez pior em tentação mais leve.

(a continuar)

03/01/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (L)

(continuação da XLIX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XIII
A Obediência Humilde, A Exemplo de Jesus Cristo

1. Cristo - Filho, quem se furta à obediência, furta-se à graça. Quem procura o bem particular, priva-se dos bens comuns e gerais. Quem não se sujeita de boa vontade ao seu superior, mostra que a sua carne ainda não lhe obedece perfeitamente, mas resiste e murmura muitas vezes.
Aprende, pois, a obedecer prontamente ao teu superior, se desejas que a tua carne também te obedeça.
Tu vencerás depressa esse inimigo se o teu coração não estiver dividido contra ti.
Tu és o mais penoso e o mais formidável inimigo da tua alma, quando não te rendes ao que a lei do espírito pede de ti.
É necessário que te desprezes a ti mesmo, se queres triunfar da carne e do sangue.

2. Mas porque ainda te amas desordenadamente, receias sujeitar-te à vontade dos outros. Que maravilha, no entanto, julgas ver no facto de, sendo tu pó e nada, a um homem te sujeitares, quando eu, que do nada tirei todas as coisas, me sujeitei aos homens, por amor de ti?
Eu desci do cume da minha glória ao mais profundo abismo da tristeza, a fim de que aprendesses a vencer a soberba do homem pela humildade de um Deus.
Aprende a obedecer, pó soberbo; aprende a abater-te, terra e cinza, e a querer ser bem pisada aos pés de todos. Aprende a quebrar as tuas vontades e a entregar-te à sujeição.

3. Ira-te contra ti mesmo e não sofras que a soberba te domine. Mostra-te tão pequeno e humilde que todos possam andar sobre ti, como se anda sobre a lama das ruas. De que podes queixar-te, homem vão e presunçoso? Que podes opor, vil pecador, àqueles que te injuriam, se tu tantas vezes injuriaste a Deus com teus pecados, merecendo, por isso, as penas do Inferno?
A minha misericórdia te perdoa, porque a tua alma é preciosa a meus olhos e desejo que conheças quanto te amo e quanto deves ser agradecido aos meus benefícios, e para que te entregues à submissão e à humildade, sofrendo com paciência o ser desprezado.

11/12/14

CONTRA-MINA Nº 42: Reconhecimento a D. Miguel I Dado Pelo Papa Gregório XVI (IV)

(continuação da III parte)

Só este quadrienio, que tem Reinado o mui Alto e Poderoso Senhor D. Miguel I, oferece maior cópia de milagres, do que podem oferecer outras Monarquias, depois de muitos Séculos de existência; e daqui procede, que todas as vezes que me engolfo na consideração de tantos, e tão maravilhosos sucessos, que tenho presenciado, sinto-me possuir de uma confiança ilimitada, e não sei que me adivinha o coração de plausível, e faustíssimo para a Monarquia Portuguesa, que ainda será, como já foi, mais de uma vez o espanto, e a admiração do Mundo... Não entra em meu coração o mais leve receio, do que Portugal seja vencido, nem o assombram as mais ligeiras névoas do medo. Esperança, ou quase certeza de prevalecer-me contra as mais bem preparadas agressões, eis o que se me antolha em todas as vezes, que me sucede reflectir sobre o estado presente, e futuro da Nação Portuguesa.

D. João IV
Não venho a dizer com tudo isto, que deixo ponderado, que seja inútil, ou supérfluo o Reconhecimento do Senhor D. MIGUEL I pelos Soberanos da Europa. Eu serei mau Português, e mau vassalo, se ousasse defender uma opinião errada, e absurda;.. estou, e hei de estar constantemente pela opinião contrária; o que é tão certo, que foi este o próprio lado político, por onde me pareceu vantajosíssimo o Reconhecimento Pontifício... É natural, que este se fizesse de acordo com as Grandes Potências, e nomeadamente com aquela, que há tão poucos meses influiu de modo tão poderoso, como eficaz, na segurança da Capital do Mundo Cristão; dado porém o caso, de que esta opinião dos verdadeiros Portugueses não tenha o sólido fundamento, que é muito para desejar, nem por isso devemos cair das nossas esperanças, e teremos por certo mais que agradecer ao Sumo Pontífice, que não atendendo senão à Cristandade do Rei legítimo, o Senhor D. MIGUEL I, e ao bem espiritual da Igreja Lusitana, cortou de uma vez o nó Gordio, que embaraçara os seus Antecessores. Muito mais deve crescer, até ser acompanhado de lágrimas, nascidas da filial ternura, este próprio agradecimento, quando nos lembramos do sucedido, em consequência da nossa Restauração de 1640... Então demorou-se mais de vinte anos o desejado Reconhecimento, que o Senhor D. João IV não conseguiu nos 16 anos do seu Reinado; e agora, que o Imitador, e Descendente do Senhor D. João IV ainda não conta senão três para quatro anos de Reinado, tudo se desembaraça, tudo se aplaina, sem que os verdadeiros Portugueses do Século XIX tenham de passar pelos transes da amargura, porque tantas vezes passaram, e deviam passar os Portugueses do Século XVI chegaram estes a ver a Ordem Episcopal reduzida a um Bispo nonagenário, que era de Targa, Deão da Capela Real. Era necessário, que os Ordinandos de todo o Reino viessem a Lisboa, onde chegavam todos os dias os mais lastimosos balidos de milhares de ovelhas errantes, e desamparadas... Muito luzio porém nestas desgraçadas circunstâncias o esmero do Catolicismo dos Portugueses, que deve servir de modelo para todos os casos semelhantes, e para todos os Séculos... Não faltou já nesses dias, (nem era de admirar, quando já havia Jansenistas) quem se lembrasse de se fazer a Instituição Canónica dos Bispos eleitos, por ministério dos nossos Metropolitas; e já eu tenho visto algumas Consultas, que nesse tempo se remeteram para as Universidades Estrangeiras, que em suas decisões respiram aquela tendência cismática, e reprovada. Entretanto o Senhor D. João IV manteve-se constante, e inabalável na adesão aos verdadeiros princípios, e não quis dar um escândalo à Europa Cristã; e havendo-se nestes apertos com a mais rara, e consumada prudência, não fez outro papel, senão o de filho obedientíssimo, que suplica, insta, chora, e se deita aos pés de seu Pai, mas que nunca se rebela contra a sua Legítima Autoridade... Notando só de passagem, que há muito que acrescentar aos nossos Historiadores sobre esta famosa controvérsia, pois nenhum deles faz justiça aos verdadeiros sentimentos dos Vigários de Jesus Cristo, deverei insistir numa semelhança à mais gloriosa para o mui Alto, e Poderoso Senhor D. MIGUEL I. Seguiu este, e mui discretamente as pizadas do seu quart[?] [?] e nunca lhe passou, nem ainda mais imaginação [?] sentir às doutrinas modernas, [?]dar neste exemplo de uma segunda Igrejinha de Utrecht, que cismática e abominável como é, tem neste Reino grande cópia de louvores, e apologistas.... São pois ambos Restauradores, e ambos parecidos na estremada pureza de sentimentos, e princípios Religiosos, o que certamente promete, que serão ainda parecido sem outra circunstância importantíssima, quero dizer,no bom sucesso da empresa, que eles cometeram; porém os louros do 4º Neto deverão ser mais frondosos, posto que menos salpicados de sangue (talvez ainda o venham a ser)... Maior coisa é arrancar este Reino das próprias engulideiras do Urso Maçónico, do que subtraí-lo às pisadas do Leão Castelhano.... Muito devem os Portugueses ao mui Alto, e Poderoso Senhor D. Miguel I!! Esta ideia tão fecunda de seu natural, como que produz agora um efeito contrário, qual é o silêncio da admiração, que às vezes costuma ser mais expressivo, que a maior abundância de palavras.

Desterro 30 de Dezembro de 1831

Fr. Fortunato de S. Boaventura.

16/11/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XXVII)

(continuação da XXVI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

II Livro
O Mundo Interior
Cap. II
A Humilde Submissão

1. Não te preocupes em saber se os homens são a teu favor ou contra ti; mas seja teu principal cuidado pedir a Deus que te ajude em tudo aquilo que fizeres.
Conserva pura a tua consciência e Deus te defenderá.
Quando Deus a alguém quer ajudar, de nada vale a maldade dos homens. Se sabes calar e sofrer, terás o socorro do Senhor. Ele sabe a ocasião e o modo de te aliviar; oferece-te, portanto, a Ele, inteiramente.
A Deus pertence ajudar-te e livrar-te de toda a confusão.
Muitas vezes é de grande proveito para o nosso espírito, a fim de que se faça mais humilde, que outros saibam e repreendam os nossos defeitos.
Quando o homem se humilha pelas suas faltas, abranda facilmente os que o criticam e desarma aqueles que contra ele estão irritados.
Deus protege e livra o humilde; ama-o, consola-o, inclina-se sobre ele; dá-lhe abundantes graças e, depois de o ter na humilhação, eleva-o à glória; revela-lhe os Seus segredos e o atrai docemente a Si.
O humilde, recebendo afrontas, conserva-se em paz, porque tem a sua confiança em Deus e não no mundo.
Não cuides que hajas feito progresso espiritual se não te avalias por inferior a todos.

30/06/14

DO VOTO DA OBEDIÊNCIA (II)

(continuação da I parte)

8. Quando os prelados mandam em nome de Jesus Cristo, ou em virtude do Espírito Santo, ou em virtude da santa obediência, entendem obrigar debaixo de pecado mortal; mas quando diz "Mando, estritamente mando, ponho preceito, absolutamente proíbo", não se entender querer obrigar a pecado mortal, porque essas palavras são indiferentes para se entenderem do pecado mortal, ou venial; e quando assim são, se há-de entender obrigar só a venial, enquanto não consta da vontade do Prelado, ou da gravidade da matéria mandada, ou da pena imposta, que sendo grave, como de excomunhão ipso facto incurrenda, significam ter o preceito grave, e obrigar a pecado mortal.

9. Quarta pergunta: Se as religiosas estão obrigadas a obedecer nas coisas, que lhes mandam contra, sobre, fora, ou abaixo da regra, ou constituição? É sem dúvida que as religiosas todas estão obrigadas a obedecer em tudo, que expressamente, ou implicitamente se contém na Regra, e constituição, porque a tudo isto se obrigam na profissão, quando prometem obediência, conforme a Regra. Aquelas coisas se incluem implicite, e indirecte na Regra, e Constituição, que são necessárias, e conducentes à observância regular, como são os actos de caridade, os mútuos obséquios, os ofícios da comunidade, e outros semelhantes. A dúvida está nas coisas, que são contra, sobre, fora, ou abaixo da Regra, ou Constituição.

10. A esta dúvida responde S. Bernardo no Opúsculo das dispensas e preceitos onde diz: "O preceito, ou proibição do Prelado não passe, nem exceda os termos da profissão do seu subdito." E declara que estes termos são: "A quem, além, e contra, por quanto a verdadeira obediência não deve pagar, nem mais, ou além do que deve, e prometeu, nem coisa, que à sua profissão repugne, e contrarie"; e depois de dizer, que o preceito do Prelado se não pode estender a mais, nem contrair a menos do que está na Regra, continua assim: "Nada me proíba o Prelado do que na minha profissão prometi, nem de mim queira mais, do que nela lhe prometi: pelo que nem sem minha vontade acrescente os meus votos, nem sem certa, e bastante causa me alivie deles." E conclui o santo, ensinando aos Prelados como neste particular se hão-de haver com os seus súbditos. Diz que os admoestrem, mas que os não constranjam às coisas mais altas, que a sua profissão; e quando parecer, e for necessário, condescendam com eles, para assim os vencer, e trazer à maior perfeição. Isto mesmo, que diz S. Bernardo, é doutrina dos restantes santos, porque nela todos concordam; mas as que aspiram à perfeição, hão-de obedecer às cegas a tudo o que não for culpa, por árduo que seja o preceito.

11. Quinta pergunta: A que superiores devem, e estão obrigados a obedecer as religiosas? É fora de dúvida que todas as religiosas assim isentas, como não isentas estão obrigadas a obedecer ao Sumo Pontífice, não só ex vi da jurisdição, que tem de Cristo, mas também ex vi do voto da obediência. A razão é clara; porque o Sumo Pontífice é suprema cabeça de todas as religiões [entenda-se "ordens religiosas"], religiosos, e religiosas, e de quem os mais prelados todos recebem a sua jurisdição para poderem mandar. Além de que, quando o Pontífice aprovou as religiões, as aprovou com a condição de ser o seu supremo prelado: logo com maior razão devem as religiosas obedecer ao Sumo Pontífice, que a outro qualquer prelado.

12. É também fora de dúvida que as religiosas sujeitas à jurisdição ordinária estão obrigadas a obedecer aos senhores bispos, e aos seus delegados. A razão é, porque os senhores bispos são os imediatos prelados das religiosas não isentas, mas sujeitas à sua jurisdição; e as isentas estão também sujeitas à sua jurisdição; e as isentas estão também sujeitas aos bispo, como legados da Sé Apostólica, no que toca à clausura, e à averiguação das vontades das noviças antes de professarem, como determina o Concílio Tridentino. Em tudo o mais as religiosas isentas da jurisdição dos bispos estão obrigadas a obedecer aos seus Prelados Regulares, a saber, ao seu Provincial, e Geral, e aos mais, conforme as suas Regras, e Constituições.

(a continuar)

15/06/14

DO VOTO DA OBEDIÊNCIA (I)

DO VOTO DA OBEDIÊNCIA

1. Dizem comummente os teólogos com S. Tomás, que o voto da obediência é promessa, pela qual a religiosa sujeitando a sua própria vontade à do superior, se obriga a obedecê-lo em tudo, que for objecto de virtude da obediência. E adverte S. Bernardo, que há duas obediências religiosas: uma, que chama obediência de perfeição, e consiste em obedecer a tudo, que não for contra Deus, ou ofensa sua: a outra é obediência de necessidade, e se dá quando pontualmente se obedece no que toca às regras, e votos, e não passa a mais: de sorte, que a verdadeira obediente não atende se a coisa mandada está fora da regra, ou além dela, e só cuida em obedecer, não sendo pecado, não querendo para isso mais, que constar-lhe da vontade do Prelado, ainda que não tenha preceito; porém quem não é verdadeiramente obediente, e se contenta só com a obediência de necessidade, não passa de obedecer no que é conforme à Regra expressa, ou tacitamente, ou que seja necessário, útil, ou conveniente à sua observância; porque pelo voto se não obrigou a mais, nem foi a sua tenção no voto obrigar-se a mais.

2. Daqui se infere, que nenhuma Religiosa deve, nem pode obedecer ao Prelado, ou Prelada, quando manda coisa ilícita, ou contra os preceitos Divinos, ou Eclesiásticos, ainda que obriguem só a pecado venial; porque ninguém deve obedecer no caso, que o Prelado pode dispensar na lei, e contra que nela dispensou. Infere-se mais, que a religiosa não está obrigada a obedecer, quando o Prelado, ou Prelada manda coisas inúteis, vãs, e indiferentes, que à observância da Regra não conduzem: nem esta obrigada a obedecer, quando manda coisa meramente temporais para o seu cómodo, ou dos seus parentes; e daqui nas a

3. Primeira pergunta: se duvidando a Religiosa se a coisa mandada pelo Prelado, ou Prelada, é lícita, ou não, deve, ou não obedecer? A comum opinião dos DD. é, que deve obedecer, como consta de vários capítulos de Direito, nos quais se determina, que em dúvida se há de obedecer ao Prelado; porém se limita esta resolução, que se deve entender, quando a coisa mandada não cede em prejuízo de terceiro, nem da própria honra, ou fama; porque ninguém está obrigado a obedecer com tão grave detrimento seu, ou do seu próximo, nem neste caso tem o Prelado direito para mandar, excepto se o crime do próximo for público, ou resultar em prejuízo do comum, porque então tem direito para mandar, e a religiosa deve obedecer.

4. Segunda pergunta: Se tem a religiosa obrigação de obedecer ao Prelado só por saber a sua vontade, sem haver preceito? Se responde, porque não; porque a vontade do Prelado não põe obrigação, em quanto não for manifestada, e só manifestada obriga. De que se segue, que, ainda que o PRelado diga "queria", "seria minha vontade, "ou "teria gosto que fulana fizesse esta obra, ou aquela", não fica por isso obrigada, sem que haja preceito, que a manda; porque na profissão se não promete fazer todas as vontades do Prelado, ou Prelada, senão obedecer ao que mandam, por ser o mandato do superior o objecto próximo da obediência, e a coisa mandada o objecto remoto. Daqui se segue, que a nenhum pecado, nem venial obrigam aquelas coisas, que o Prelado propõe, como de conselho, ainda que seja dos perfeitos obedientes observa-as com a maior pontualidade. Segue-se também, que, quando se falta à Regra, ou regras, que não obrigam nem a culpa venial, nem venialmente se peca; porque na profissão se não obriga a mais, do que a Regra manda: logo como a Regra não manda debaixo de pecado nem venial, nem pecado venial haverá na transgressão. Com tudo, regularmente falando, nestas transgressões, e faltas há culpa venial, porque de ordinário nascem de ociosidade, preguiça, falta do recto fim, e são causa de se faltar à disciplina religiosa.

5. Sem embargo porém quem se não peque nem venialmente, faltando a estas regras, que nem a venial obrigação, estão as delinquentes obrigadas a pena, e castigo posto na Regra, ou dado pelo superior, ou Prelada, e de outra sorte se não podia governar a Comunidade, nem confessar a observância regular na sua perfeição. mas daqui nasce outra dúvida, e vem a ser:

6. Se a Religiosa penitenciada por faltar a uma destas regras, que nem pecado venial obrigam, pecará ao menos venialmente, faltando à penitência dada? É sem dúvida, que sendo a penitência mandada em virtude da obediência, ou em nome de jesus Cristo, que obriga em consciência, conforme a matéria, porque neste caso falta à obediência, que na profissão prometeu. Sendo porém dada absolutamente, e sem a referida forma, a comum opinião dos DD. é, que não obriga em consciência, e só induz uma obrigação regular em ordem ao bom governo, e regímen da comunidade.

7. Terceira pergunta: Se a religiosa, que tem costume de faltar às regras, que obrigam só a pecado venial, ou a nenhum pecado, peca mortalmente, e está com esse costume em estado de pecado mortal? É comum sentir dos DD. que este costume por si não é mortal, nem por si põe a religiosa em estado de pecado mortal. A razão é; porque este costume, e hábito se faltar a estas regras se geram dos actos, que não são pecado mortal: logo nem o costume, nem o hábito chegam a pecado mortal, porque não podem ter, senão o que recebem dos actos, que são somente venialmente pecaminosos, ou sem pecado mais, que faltar à observância regular, como dito fica. Porém per accidens pode ser pecado mortal, e estar a tal religiosa no estado de pecado mortal, senão procurar com diligência, e cuidado emendar estas faltas, e extirpar esses maus costumes: é também doutrina comum dos DD. e a razão, em que se fundam, é, porque todas as vezes, que a religiosa adverte, que das suas faltas resulta grave dano a si, ou à religião, peca mortalmente se o não evitar, podendo. Vivendo esta religiosa no costume de faltar às referidas regras, causa grave dano a su, porque se expõe ao perigo provável de um desprezo formal das regras, julgando-as por frívolas, inúteis, e de pouca consideração, ou de ter ânimo deliberado de se não sujeitar à pena, e resistir ao Prelado, que é desprezo formal, e pecado mortal. Causa também grave dano à religião, porque priva a religião da utilidade, e fruto, que desta religiosa esperava, e com o seu mau exemplo destrói a observância regular, sendo causa que muitas das companheiras caiam nas mesmas faltas, que são danos gravíssimos da religião. Logo per accidens pode ter pecado mortal, se não emendar o mau hábito, e costume, em que está de faltar às suas regras, que não obrigam a pecado.

(continuação, II parte)

14/02/14

TESTEMUNHO INGLÊS - CAMPONESES DE PORTUGAL E A DEFESA

fardamento do praça da
Leal Legião Lusitana
"Os camponeses de Portugal possuem duas coisas mais estimáveis qualidades exigidas para formarem um bom soldado, sobriedade e obediência passiva às ordens de seus superiores; e as ocorrências posteriores são suficientes para removerem todas as dúvidas nos espíritos dos mais incrédulos com respeito à bravura do soldado português, quando convenientemente disciplinado. Em prova disto basta-nos apenas referir a valente defesa da ponte de Alcântara pelo primeiro batalhão da Leal Lusitana Legião, as proezas do segundo batalhão daquele corpo em Carvalho d'Este, e a magnífica maneira como lord Wellington em seus despachos menciona um regimento português na tomada do Porto. Se precisássemos de mais alguma prova de energia do soldado português, quando disciplinado convenientemente, bastava-nos olhar para o mapa da Península, e ficaríamos absortos como um povo tão pequeno teve a possibilidade de manter sua independência, estando completamente fechado pela Espanha ao norte e ao nascente.

A que se deve então atribuir senão ao valor próprio do país e ao patriótico ardor de seus habitantes? Sem este último nenhum país é forte, por mais bem disciplinado que seja seu exército. Rios, desfiladeiros, serras, baluartes, tudo isto para nada serve: defendidos porém por verdadeiros patriotas tornam-se completamente inexpugnáveis." (ELIOT (WILLIAM GRANVILLE) - Capitain in the royal regiment of artillery, 1811)

12/02/14

DA UNIDADE DA VERDADEIRA RELIGIÃO (VI)

(continuação da V parte)

34. O homem irreligioso, bem que a seu pesar, quando lhe convém, tributa seus respeitos à Religião Cristã e se não é pelos seus discursos,é ao menos pelo seu modo de obrar. Suponhamos que este homem sem necessidade de um criado, dois concorrem: pergunta a um: de que Religião sois, meu amigo? Eu, senhor, não tenho nenhuma. Fui algum tempo porteiro de M. de Voltaire. Ele nos catequizava todos os dias; e nos provava que não havia Religião, e que só havia homens maus no Cristianismo; que a sua moral só aos idiotas podia enganar, mas que os homens sisudos não podia iludir. Eu o tenho crido, e Deus louvado, a nada me[?]acosto." Que partido tomaria este espírito forte? Pareceria que a conformidade de sentimentos deveria fixar a escolha a favor do primeiro criado; não é assim. O nosso filósofo mo[?]teja, e pergunta ao segundo: vê por todas as suas respostas que ele é um com Cristão, temente a Deus, e frequenta os Sacramentos; decide a seu favor. ora um semelhante procedimento não é uma homenagem, que se rende à Religião Cristã?

35. Bayle, depois de haver mofado de todas as religiões, insulta à Religião Cristã, proferindo que cristãos verdadeiros não poderiam formar um estado que pudesse permanecer. Porque não? Antes seriam uns cidadãos iluminados nos seus deveres, e os desempenhariam com zelo. Conheceriam belissimamente os direitos da defesa natural; e quanto mais julgassem dever à Religião, mais pensariam dever à sua pátria. os princípios do Cristianismo bem arraigados no coração, seriam infinitamente mais fortes do que esta falsa honra das monarquias, e estas virtudes humanas das repúblicas, e este temos servil dos estados despóticos. (Montesquieu, liv. 24 Del'Esprit de Loix)

36. No tempo em que o Príncipes maometanos davam frequentemente a morte, ou a padeciam, a Religião entre os Cristãos os fazem mais temerosos, e por isso menos cruéis. O Príncipe faz apreço de seus vassalos, e os vassalos do Príncipe. Admirável coisas a Religião Cristã, que parece que só tem por objecto a felicidade da outra vida, faz também a nossa ventura nesta vida. (Montesquieu, liv. 24 Del'Esprit de Loix)

37. Que se se puser diante dos olhos os assassinos contínuos dos Reis, e generais gregos, e romanos, a destruição dos povos, e cidades por estes mesmos generais: Timur, e Gengiskan, que assolaram a Ásia; e nós veremos então o que devemos ao Cristianismo, tanto no governo um certo direito político, como na guerra um certo direito das gentes, que a natureza humana não saberia reconhecer.

38. Só a Religião Cristã pode firmar os Tronos, e os Impérios, porque ela só ensina aos seus filhos, que o seu Deus é quem estabelece os Soberanos - "Temos César", diz Tertuliano, é o nosso deus que o pôs no Trono (Montesquieu, idem). Quem motivo maior se sujeição, e de obediência, do que saber que se tem por soberano um príncipe posto pelos deus, que adoramos! Quanto se deve respeitar! Que motivo mais importante!

39. Os princípios da Religião Cristã bem meditados, e seguidos na prática podem entreter a boa ordem nos estados, e sustentar entre a cabeça, e os membros esta harmonia, que faz a felicidade universal. Nós fomos de todos os vossos vassalos, dizia um antigo apologista da Religião falando com um imperador pagão, aqueles que mais vos ajudámos a manter a tranquilidade pública, ensinando aos homens que nenhum deles ou mau ou bom se pode ocultar aos olhos de Deus, e que todos depois da morte, irão receber penas eternas, ou recompensas, segundo o merecimento das suas obras. Se esta verdade fosse profundamente gravada no coração de todos os homens, nenhum seria vicioso nesta curta vida, para se ver depois condenado ao fogo eterno: mas o desejo de procurarem os bens que Deus promete, e de evitar os castigos, com que os ameaça, os poria a todos no estado de refrear as suas paixões, e de enriquecer a sua alma de todas as virtudes. Não é com o respeito às vossas leis, que os maus que as quebrantam procuram as trevas, eles fazem o mal; porque sabem que lhe é fácil o enganar-vos, e que se lisonjeiam de o executar. mas se eles soubessem, se eles estivessem firmemente persuadidos que Deus conhece todas as nossas acções, todos os nossos pensamentos, eles se afeiçoariam à prática da virtude, ao menos pelo temor, que lhes inspiram os castigos destinados para os maus. Isto é tão evidente, porque vós vos não converteis? É caluniar a Religião asseverando com os ímpios, que ela não pode formar bons Cristãos.

D. Luís XVI, Rei de França, Rei cristão a quem os
inimigos da Igreja quiseram fazer ver como tirano
inventando o nome "absolutista" (nome que serviu
apenas para accionar um mecanismo de rebelião
contra a Monarquia Católica tradicional).
40. Vós dizeis, ó ímpios, para tornardes à Religião Cristã odiosa aos povos, que ela autoriza o despotismo, e o poder arbitrário nos Reis; e nós, vos responderemos que sois ignorantes, e uns imprudentes mentirosos. Aprendei, senhores, se ignorais, que se a Religião Cristã livra os príncipes dos juízos dos homens, é para os citar para comparecerem num tribunal mais terrível: ela lhes declara com os termos mais enérgicos, que eles pagaram com usura, a impunidade de que gozaram na terra. Escutai, lhe diz ela pela (Sapien. c. 6 v. 2) boca do mais sábio de todos os homens; vós que mandais à multidão, e que vedes de bom grado um grande povo sujeito às vossas leis, vós recebestes este poder do Senhor, e este Império do Altíssimo. Ele fará o que examine as vossas obras, e que sonde os vossos mais ocultos segredos. Ministros do seu Reino, se nos vossos juízos são guardastes a lei da Justiça, senão cumpristes com a vontade de Deus, ele fulminará com furor sobre vós. Porque aqueles que governam passarão por um juízo rigorosíssimo. Há mais clemência, e compaixão para com os fracos; mas os poderosos serão com mais violência atormentados. Deus a ninguém há de exceptuar, o resplendor das dignidades não o cegam. Os pequenos, como os grandes são obra sua; sua Providência vigia igualmente sobre todos; e não distinguirá os grandes, senão para lhes preparar grandes castigos. A vós, ó Reis, é a quem dirijo este discurso, para que aprendais a sabedoria, e não vos desvieis dos seus preceitos, Uma religião, que fala aos soberanos com esta santa, e generosa liberdade, poderia ser acusada de favorecer a tirania? Não; só mentirosos, e ignorantes podem dizer.

41. Querer que a Religião Cristã inspire aos cidadãos uma obediência cega, e fanática, é calúnia. Quando ela manda aos vassalos que obedeçam ao seu Soberano, sua intenção não é fazê-los cúmplices das criminosas vontades do seu Soberano, obrigando-os a consentir, ou a cooperar nos crimes, que um mão Príncipe queira, se o monarca abusa do seu poder para mandar alguma coisa contra a Fé, e costumes, a Religião quer que os seus vassalos lhe deem aquela mesma resposta, que deu S. Pedro à face dos Apóstolos ao chefe da Sinagoga: "É necessário, lhe respondeu ele, obedecer a Deus antes que aos homens" ("Obdire oportet Deo magis, quam hominibus" Act. cap. 5 v. 29). Isto não é inspirar nos povos uma obediência cega, e fanática.

42. Se a Religião Cristã não é mais, que um sistema filosófico, confessamos que ele é excelente. Que união! Que harmonia entre as suas partes! É um todo admiravelmente ligado: Respondent extrema primis, media utriusque, omnia omnibus. Se é uma ficção, deve-se desculpar aquele que a ela se aferra; ela imita a verdade de tão perto, que é fácil de a conhecer. Agradável ilusão! Quanto estimo de me enganar com ela! Mas que digo? O Cristianismo não é um sonho filosófico, uma produção engenhosa de algum indagador, mas a obra do mesmo Deus. Não são filósofos que a têm proposto aos povos; são ignorantes, para com o mundo, os que têm persuadido aos filósofos.

43. A Religião Cristã é necessária para a salvação. Os que vivem fora do seu seio, caminham para as sombras da morte. É grande erro supor uma religião menos perfeita, comum a todas as nações, apoiada no conhecimento de um só Deus, justo Juiz, remunerador da virtude, e vingador do crime, que não tenha alguma analogia com a Revelação; que possa formar filhos de Deus, e obrar uma verdadeira justiça, que deve bastar só nos países, onde o Evangelho não é conhecido para conduzir os homens à salvação, independentemente dos merecimentos de Jesus Cristo. Não é assim que os Apóstolos instruíram os nossos primeiros pais. ("Vos autem non ita didieistis Cristum". Efes. c. 4 v. 10) Não há Salvação sem Jesus Cristo, nem outro nome abaixo dos Céus dado nos homens, por quem nos devemos salvar. Ele é o Salvador de todos os justos do Antigo, e Novo Testamento, e único mediador de Deus, e dos homens, o caminho, a verdade, a vida; ninguém chega a seu Pai, senão por Ele. (Act. cap. 4 v. 12)

44. Pode-se considerar a Religião Cristã por duas faces, ou enquanto à sua forma, ou enquanto à sua essência. A sua forma variou; é diferente na lei Natural, na lei Moisaica, e na lei Evangélica; mas a sua essência,é, e tem sido sempre a mesma. "Todos os justos que houveram no princípio do Mundo, diz Sto. Agostinho, tiveram por cabeça a Jesus Cristo. Creram, que ele viria, como nós cremos que veio: eles foram salvos pela mesma Fé, que nos salva a nós mesmos; para que ele fosse o cabeça de toda a Cidade de Jerusalém."

45. A Religião Cristã não é uma verdade especulativa, que se deva decidir no tribunal da razão; mas uma verdade de facto, sobre a qual o testemunho basta para pronunciar o seu favor. Que outra coisa é ela senão um corpo de doutrina vinda do Céu, e dada aos mortais pelos Ministros do Deus vivo, que o seu próprio Filho, acompanhado de doze testemunhas fosse ele mesmo o pregador, e o oráculo? Este facto supõe necessariamente a Revelação com a prova da verdade da Religião. É pois a este testemunho divino que nos devemos acostar, sem perder o templo em vans razões, sempre desordenadas, quando se disputa de factos. Falou Deus aos homens? Se Ele falou aos homens, os Cristãos venceram: porque sobre esta divina palavra é que se fundou a economia da sua Religião: Vamos a esta questão [noutro capítulo]"

(
"Pensamentos Theologicos Proprios Para Combater os Erros dos Filosofos Livres do Seculo", M.R. P. Nicolau Jamin. Tradução e publicação em Lisboa, 1784)

17/12/13

"DEFEZA DE PORTUGAL" (1831) - D. Maria não pode ser Rainha de Portugal (VI parte b)

(continuação da parte a)

D. Pedro, Imperador do Brasil
Mas, dizem os pedreiros, o Senhor D. Pedro abdicou. Bem: se abdicou, no momento antes de abdicar, e no momento da abdicação, acumulou uma com outra Coroa, e tornou a unir, e a fazer dependente uma da outra a duas nações, que ficaram para sempre separadas, e independentes: é isso mesmo o que ele não pode fazer por virtude dos princípios, que hoje formam o Direito público da Europa; a respeito de Portugal, e do Brasil; logo a Senhora D. Maria da Glória não pode ser Rainha de Portugal pela nulidade da abdicação. Eu quero supor momentaneamente com os pedreiros que o Senhor D. Pedro seja Rei de Portugal, e ao mesmo tempo Imperador do Brasil: digo pois que nem nessa mesma hipótese pode abdicar; e o povo: primeiramente, porque um soberano qualquer não pode abdicar sem consentimento da nação, em que reina, ou dos grandes conselheiros, e Corporações, que representam a nação portuguesa, nem seus legítimos representantes, não pediram ao Senhor D. Pedro que abdicasse, nem consentiram na sua abdicação. Segundo, porque ou o Senhor D. Pedro abdicou por sua incapacidade perpétua de reinar em Portugal, ou tinha capacidade para reinar: se o primeiro, ele devia abdicar em pessoa capaz de reinar a contentamento da nação; e porque o não fez assim, não só a abdicação é nula, mas perdeu o direito de abdicar: se o segundo, a nação pode dizer que não consente na abdicação, porque o Rei foi feito para os povos. Terceiro, porque o Senhor D. Pedro alterou a ordem regular da sucessão à Coroa portuguesa, abdicando-a numa filha, quando, a poder abdicar, era obrigado a preferir entre os seus legítimos descendentes do sexo masculino ao feminino. Quarto, porque o Senhor D. Pedro, se é Rei de Portugal, ou herdeiro da Coroa portuguesa, o é como primogénito; e então, ou o seu primogénito é também herdeiro presumptivo da mesma Coroa, ou é por seu pai despojado desta herança; e em qualquer dos casos vem a restabelecer-se a guerra, e discórdia entre Portugal, e o Brasil, ficando sempre mal seguros os destinos futuros duma, e de outra nação, que é o que se quis evitar no célebre tratado de paz, e aliança entre o Rei de Portugal, e o Imperador do Brasil. Quinto, porque a Senhora D. Maria da Glória, sendo coacta por seu pai a aceitar a transferência, e cessam da Coroa portuguesa, ficava por isso mesmo despojada da Coroa brasileira, de que é herdeira, e legítima sucessora; e como seu pai, Imperador do Brasil, a não pode deserdar daquela Coroa, ela, digo, a menina, no caso de morrer o menino seu irmão sem sucessão, resumiria seus direitos à Coroa brasileira, que em Direito se lhe não pode negar; e sendo, na hipótese dos constitucionais, Rainha de Portugal, viria acumular uma com outra nação, e conseguinte a renovar a guerra, e discórdia entre nação, e nação, a perturbar a prosperidade das duas, e a fazer perigosos seus destinos futuros. Sexto, e no sexto fazem pé os constitucionais, porque a Senhora D. Maria da Glória não pode ser Rainha realmente de Portugal enquanto não cumprir certa idade, e se não preencherem certas condições; e por isso mesmo vem o Senhor D. Pedro a ser o Rei Reinante Perpétuo de Portugal, acumulando uma com outra Coroa, fazendo uma dependente da outra, amalgamando os destinos das duas, e servindo-se de cada uma para escravizar a outra. E depois de tudo isto ainda há portugueses, que possam persuadir-se de que a Senhora D. Maria da Glória pode ser Rainha de Portugal? Eu não acredito que possa haver nascido em Portugal, e que pertença a Portugal alguém, que não olhe com mofa, zombaria, e escárnio para um rei, que diz que o não quer ser, e reina, e para uma rainha, que diz que o é, e não reina. Outro mais modesto, ou moderado dirá que o Rei Abdicante, e Reinante, e a Rainha Abdicante, e não Reinante, devem ser olhados com os lhos de compaixão, e de misericórdia, porque os pedreiros os meteram nestas desgraças, e nestas poucas vergonhas. Mas eu olho para Portugal, e as lágrimas correm, considerando que a toda a Família Real de Portugal foi roubado o Brasil, e agora lhe querem roubar Portugal. Respeito muito ao Senhor D. Pedro, e a toda a sua legítima, e augusta família, porque descende dos Reis de Portugal, e porque é Soberano de uma nação; mas na qualidade, ou categoria de Rei de Portugal eu não amo, eu lhe não obedeço; nem amo, nem obedeço à Senhora D. Maria da Glória, porque ele abdicando, e ela aceitando, mesmo pueril, e inocentemente, a abdicação, renovam a guerra, a discórdia, e o ódio entre povos irmãos, fazem a ruína geral, a desgraça, a pobreza, a miséria, a consumpção de Portugal, e do Brasil.

(continuação, parte c)

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