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17/02/18

MEMÓRIA - Dias Proibidos ao Espectáculo

Procissão do Enterro do Senhor - Braga

Dias em que são proibidos os espectáculos públicos

- Quarta feira de Cinza e em todas as Sextas feiras de Quaresma
- Desde Sábado de Lazaro até Domingo de Páscoa inclusive
- Quinta feira de Ascensão, Domingo do Espírito Santo, e dia da Procissão do Corpo de Deus da Cidade [de Lisboa - igualmente em todo o Reino]
- Nos dias 24 de Setembro, 1, 2 e 15 de Novembro, e 25 de Dezembro.
- Nos dias de luto da Côrte, por morte de Rei, Rainha ou Pessoa Real.
- Nos dias em que se fizerem preces públicas por grandes calamidades.

(Alemanaque de Lembranças Luso-Brasileiro - 1858)

Enquanto alguns Reinos se tornaram protestantes, enquanto que outros se tornaram "neutros" por dividirem o território com o protestantismo, enquanto outros estavam ocupados com a república laica, Portugal e Espanha permaneceram com leis e costumes antigos e de grande valor cujo catolicismo é a base. Em algumas cidades de Portugal, já para nem falar de Vilas e Aldeias, as manifestações púbicas religiosas continuam a ser consideradas de toda a cidade. Esta subsistência está mais amplamente manifesta na SEMANA SANTA, parte central da Quaresma.

Enquanto que em outros lados a Quaresma esteva muito limitada ao PARTICULAR, em Portugal tinha aplicação social e de Estado. Onde numa república laica, como aquela que hoje nos ocupa, se proíbem os espectáculos em dias de jejum e abstinência quaresmal?

Se abandonarmos as nossas obrigações, é mal. E se abandonarmos os nossos direitos, também é mal (não defendamos o contrato social de Rousseau, que faz razia de direitos e deveres, e distribui a todos por igual). O português, distingue.


15/04/17

LAMENTAÇÃO - Diogo Dias Melgás

Lamentação, musicada pelo compositor português Diogo Dias Melgas [Lemgaz] (1638 - 1700).


20/02/17

JACINTA MARTO, 97 ANOS DEPOIS

Jacinta Marto
Hoje, a 20 de Fevereiro deste ano (2017), completam-se 97 anos do falecimento da Pastorinha Jacinta Marto, em cujo curto espaço de vida aqui na terra foi exemplo de grande Virtude, e amor a Deus. Ante os pedidos maternais da Senhora do Rosário de Fátima, fez penitência e "orou sem cessar" (cfr. I Tess. V,17), vivendo no século como simples camponesa, a cuidar das ovelhas da família, tendo menos que 10 anos de idade. "...Tinha um porte sempre sério, modesto e amável, que parecia traduzir a presença de Deus em todos os seus actos, próprio de pessoas já avançadas em idade e de grande virtude... Ela era criança só de anos." -- Assim fala a Irmã Lúcia a seu respeito, dando-nos uma imagem que nos impressiona, pois acostumados que estamos com a presença de adultos imaturos, parece-nos utópico pensar que uma criança de 7-8 anos que, com Fé, sobriedade, honradez e constância cumpriu tão dedicadamente aquilo que lhe pedira a Mãe de Deus.

Por isso o blogue ASCENDENS faz iminente memória das mensagens de Nossa Senhora de Fátima, cujo centenário se aproxima, e recorda sob o exemplo prático da pequena Jacinta a que obramos conforme Deus quer: com espírito de penitência, cumprir os nossos deveres do estado em que Deus nos colocou; fazer oração e aprender a doutrina, como ela tanto desejou e fez. E fazer tudo por amor a Deus, nosso fim último. Aqui está um exemplo para a Quaresma que se avizinha.

R. Silva

21/03/16

Sto. Afonso de Ligório - SERMÃO DO DOMINGO DE RAMOS (III)

(continuação da II parte)

III
O Costume de Pecado Enfraquece as Nossas Forças

10. Despedaçou-me com feridas sobre feridas, lançou-se a Mim como um um gigante (Job 16. 15). São Gregório parafraseia assim este texto: O primeiro golpe que recebe um homem assaltado por um inimigo, não o põe fora de combate, mas se recebe um segundo golpe, um terceiro, perderá as suas forças e enfim a sua vida. Tal é o efeito do pecado; na primeira ou na segunda vez que a alma está ferida, ainda lhe ficam algumas forças provenientes da graça Divina; mas se a alma continua a pecar, o mal tornado habitual é então para ela como um gigante ao qual não pode resisti. São Bernardo diz que o pecador de hábito parece um homem deitado debaixo de uma enorme pedra e que, não podendo sublevá-la, muito dificilmente se levantará: Dificilmente se levanta aquele que está debaixo da pedra dos maus hábitos.

11. S. Tomás de Vilanova escreveu que a alma desprovida da graça de Deus não pode ficar longo tempo sem cometer novos pecados (Conc. 4. dom. 4 Quadrag.). E S. Gregório, sobre esta passagem de David: Ó meu Deus, torna-os semelhantes às folhas levadas pelo torvelinho semelhantes à palheira diante do vento (Salm. 82. 14). Vede como a palha é levada pelo menor vento; assim o pecador, que, antes de contrair o costume do pecado podia resistir algum tempo, logo que este mau hábito está tomado, deixa-se arrastar pela menor tentação de pecado e cai em queda após queda. Os pecadores de costume, como escreveu S. João Crisóstomo, estão tão fracos contra os ataques do demónio, que muitas vezes são forçados a pecar mesmo contra a sua própria vontade, arrastados pela força do mau hábito: duro é o costume que obriga a cometer coisas ilícitas aos que nem sempre querem. E isso, porque no sentimento do mesmo Sto. Agostinho, o hábito de pecar torna-se com o tempo uma necessidade de pecar. Quando não se resiste a um costume, torna-se necessidade.

12. S. Bernardo de Siena acrescenta que o costume se torna uma natureza [como que segunda natureza]. E desde então o pecado torna-se, para o pecador de hábito, tão necessário como a respiração para a vida do corpo; e o pecador fica-lhe totalmente escravo. Há servidores que trabalham mas com um salário. Os escravos trabalham sem salário e até forçadamente. A este último grau chegam os pecadores de hábito, porque pecam muitas vezes sem nenhuma satisfação, apenas como escravos do demónio, sem salário. S. Bernardo compara-os aos moinhos de vento, que continuam a fazer girar a mó quando já não há grão para moer, quer, dizer, que os pecadores sem ocasiões presentes continuam a pecar, ao menos por maus pensamentos. Os desgraçados, diz S. João Crisóstomo, desprovidos do auxílio divino, já não agem conforme à sua vontade mas conforme à vontade do demónio: O Homem, perdendo a graça de Deus, não faz o que quer, mas o que o demónio quer.

13. Ouvi, acerca deste assunto, o que um autor narra ter acontecido numa cidade da Itália: Um jovem inclinado a um vício de costume, apesar de ter sido chamado muitas vezes pela voz discreta de Deus, e avisado por outras pessoas para mudar de vida, perseverava no pecado. Um dia o Senhor feriu de morte súbita uma das suas irmãs diante dos seus olhos. Ele foi comovido por algum tempo; mas mal ela foi sepultada, ele esqueceu a lição, e voltou à sua inclinação. Depois meses depois da morte de sua irmão, ele próprio caiu à cama, doente com uma febre lenta: mandou chamar um sacerdote para se confessar, mas apesar de tudo isso, exclamou um dia: ai de mim! Reconheço tarde demais todo o rigor da Justiça Divina! E dirigindo-se ao médico diz-lhe: não vos fatigueis mais com os remédios, porque o meu mal não tem cura e eu sinto que ele me leva ao túmulo. Depois, voltando-se para aqueles que o cercavam disse: Sabei que como não há remédio para o meu corpo, também não há para a minha alma, que está inclinada a uma morte eterna. Deus me abandonou, eu vejo isto ao endurecimento do meu coração. Alguns amigos tentaram reanimar a sua confiança na misericórdia de Deus, mas repetia sempre: Deus abandonou-me. Aquele que narra este facto acrescenta que ficando sozinho com este desgraçado jovem, lhe disse: Tomais coragem, uni-vos a Deus; tomai o Santo Viático, mas o doente respondeu-lhe: Amigo, falai a uma pedra; a confissão já a fiz e foi sem contrição; Não quero agora nem confessor, nem sacramento, não levai o Viático, porque isto seria dar-me uma ocasião de fazer um escândalo. O autor deixou-o todo aflito e pouco depois regressando para o ver, os parentes lhe disseram que morreu na noite precedente, sem nenhum auxílio espiritual, e perto do quarto do doente, se ouviam uivos tremendos.

14. Eis o fim do pecador de hábito. Pecadores, meus irmãos, se vos encontrais nos laços dum hábito culpável, fazei depressa uma confissão geral; porque as vossas até agora não foram boas. Saí rapidamente da escravidão ao demónio. Ouvi o que vos diz o Espírito Santo: Não dês a tua honra a estranhos, nem os teus anos a um cruel (Provérbios 5. 9). Porque quereis continuar a servir um mestre tão cruel como o demónio, o vosso inimigo, que os faz levar uma vida tão miserável, para vos conseguir uma vida ainda pior, no inferno durante toda a eternidade: Lázaro sai fora: sai dessa fossa do pecado; entregai-vos a Deus que vos chama e vos abre os braços para vos abraçar, se voltais aos seus pés: Ah! Tremei, que não seja a última chamada cujo desprezo acarrete a vossa danação.

15/02/16

SERMÃO DA III Sexta-Feira da QUARESMA (Venerável Pe. Bartolomeu de Quental) I

A levitação do Venerável Padre Bartolomeu do Quental
(autor português do séc. XVIII)

 

SERMÃO

DA TERCEIRA SEXTA FEIRA DA QUARESMA
Na Capela Real
(Lisboa)

[Venerável] Padre Bartolomeu de Quental
Ano 1664

"Auferetur a vobis Regnum Dei" (Mat. 21)

182. Praza a Deus não vejamos cumprido em Portugal (Muito alto, e poderoso Rei, e Senhores nossos). Praza a Deus não vejamos cumprido em Portugal, o que Cristo S. N. profetizou, e se cumpriu no Reino de Israel: num Reino tão basto de profecias, não será fora de propósito prégar de uma, e mais sendo de Cristo a profecia da ruína de Israel: Auferetur a vobis Regnum Dei (Mat. 21. 43). E se esta profecia se pode entender de Portugal, há de o dizer a causa dela: a causa em que Cristo Senhor nosso a fundou, eram os pecados daquele povo, e se no nosso houver os mesmos, podemos temer que se entenda do nosso Reino a profecia de Cristo. Eram os pecados, não a acudirem com os frutos ao senhor da vinha, matarem os servos que os arrecadavam, e ultimamente o filho; e sendo estes pecados tão graves pelo que eram em si, ainda o eram mais pelas circunstâncias que tinham. Cinco circunstâncias muito agravantes tinham estes pecados, que assim provocaram a ira de Deus; eram pecados dos lavradores, eram pecados de reincidência com teima, e obstinação, eram pecados sem pejo, eram pecados de indução, e conspiração, eram pecados públicos. Eram pecados dos lavradores; os lavradores foram os que não pagaram, os que feriram, e mais mataram: Agricolae, apprehemsis servis ejus, alium ceciderunt, alium occiderunt, alium vero lapidaverunt (ibi 35). Eram pecados de reincidência com teima, e obstinação; o mesmo que fizeram aos primeiros servos, fizeram aos segundos, que eram mais: Iterum misit alios servos plures prioribus, et fecerunt illis similiter (Ibi. 36), e ultimamente ao filho. Eram pecados sem pejo; pejar-se-hão de meu filho, disse  senhor da vinha: Verebuntur filium meum (Ibi. 37), e eles não se pejaram. Eram pecados de indução, e conspiração; induziram-se todos, e conspiráram-se para o pecado. Dixerunt intra se, Hic est baeres, venite, occidamus eum (Ibi 38). Eram pecados públicos; puderam matar o filho dentro da vinha, o lançaram primeiro fora, para fazerem público o seu pecado: Et apprehensum eum ejecerunt extra vineam, et occiderunt (Ibi 39). E foram estas circunstâncias tão agravantes do seu pecado, que provocaram a justiça de Deus tirar-lhes a vinha, e logo Cristo lho profetizou tanto que as viu: Auferetur a vobis Regnum Dei. Estas circunstâncias do pecado em que Cristo fundou a profecia da ruína de Israel, serão o assunto do Sermão para se prevenir Portugal. O Pai de família, que não vai menos interessado nesta vinha de Portugal, do que o era na de Israel, encaminhe o sucesso de maneira, que lhe deu hoje a vinha melhor fruto.

183. A primeira circunstância dos pecados que arruinaram aquela vinha (segundo a profecia de Cristo) foi serem pecados dos lavradores; os lavradores foram os que não pagaram os frutos, os que feriram: Agricolae, apprehensis servis ejus, alium ceciderunt, alium acciderunt, alium vero lapidaverunt, e serem pecados dos lavradores provocou mais a justiça divina. Plantou o pai de famílias esta sua vinha: Plantavit vineam, cercou-a com seve: Sepem circumdedit ei, isto é, pôs-lhe lei: Sepes lex est, dizem Eutímio, e Teofilato; fez-lhe lagar: Fodit in ea torcular, isto é, levantou-lhe altar, como querem muitos [como muitos defendem ter sido]: edificou-lhe torre: Aedificavit turrim, isto é, edificou-lhe templo, e religião, como é mais comum; e entregou-a aos lavradores: Et, locavit eam agricolis: e que aqueles a quem o Senhor entregou a vinha lhe faltem com os frutos que os que deviam evitar os roubos, não paguem a dívida que os que deviam castigar os crimes, façam os ferimentos, e mais os homicídios! que os que deviam fazer respeitar a torre, pervertam a religião! que os que deviam usar do lagar para pisar as uvas, pisem os servos e finalmente, que os que deviam conservar a seve, a romperam! os que haviam fazer guarda a lei, a quebraram! isto provocou mais a justiça divina; que fizeram estas extorsões os servos, que quebrassem as leis os jornaleiros! não há de passar sem castigo, diz Cristo: Auferetur a vobis Regnum Dei.

184. Com pena de morte quis Deus castigar a Moisés: Volebat occidere eum, por não circuncidar um filho seu no tempo em que o mandava a lei. Diz Abulense: Quia non circumciderat filium suum Elieser tempore debito. E mais tinha uma escusa bem relevante, que lhe aponta o mesmo Abulense: nascera-lhe o filho ao tempo em que estava de partida para o Egipto por mando de Deus a libertar o seu povo, e viu-se em talas sobre o cumprimento da lei, porque se o circuncidava tão perto da jornada, punha em perigo a vida do inocente, e se o circuncidava, e esperava por ele algum tempo, dilatava a liberdade do povo, e por não dilatar a liberdade do povo, nem arriscar a vida do inocente, dilatou a circuncisão: há escusa mais relevante? e não lhe vale? Sim valerá para outros, mas não para Moisés, porque havia ser Legislador, e já era Núncio, diz Abulense: Quia ipse erat futurus Legislator Hebraeorum, et unc mittebatur ut Nuntius: e porque era Núncio, e Legislador, não houve razão que o desculpasse da transfressão da lei: que aquele que deve fazer guardar a lei, a quebrante, diz Deus, e que dirão os outros se lha virem quebrar a ele? Moisés que há de fazer guardar a lei, a quebranta? Ele corta pela lei, por não cortar pelo filho? Logo também nós por não cortarmos pelos filhos, cortaremos pela lei? pois por atalhar estes inconvenientes, uma de duas, ou ele há de cortar pelo filho, ou eu hei de cortar por ele: Valebat occidere eum.

185. Tão rigoroso se há Deus com os transgessores da lei, que tem obrigação de a fazer guardar, que ainda quando há razões para dissimular com os mais, não dissimula com eles, porque corre diversa razão neles, que nos mais: se os que estão obrigados a guardar, a quebram, quebram-na eles, e quebram-na os mais; porque tanto que eles a quebram, é muito certo quebrarem-na todos. Parou o Sol às vozes de Josué para apadrinhar a sua victoria; e retrocedeu dez linhas às diligências do Profeta, para certificar a Eséquias da sua vida. Pergunta Abulense, se parando, e retrocedendo o Sol, pararam, e retrocederam os mais Planetas também. E responde, que sim; e isso porque? Pare, e retroceda o Sol, mas os outros Planetas? Nem Josué mandou parar mais que o Sol, nem o Profeta Isaías fez retroceder mais que o Sol; logo, porque pararam, e retrocederam os mais Planetas? porque parou, e retrocedeu o Sol; parar, e retroceder o Sol, foi perverter as leis da natureza, e como era o luminar maior: Luminare maius, o presidente do dia: Ut praesset diei, tanto que quebrou as leis, logo as quebraram os mais Planetas também: O Sol quebrou as leis por amor dos homens, os mais quebraram as leis com o exemplo do Sol: o Sol quebra as leis por seus respeitos! (diriam os mais Planetas) pára por obedecer a Josué! retrocede por condescender com Isaías, e deferir a Ezequias! pois saiba Josué que também os mais Planetas paramos; saibam Isaías, e Ezequias que também retrocedemos; e veja o mundo, que tanto que o Sol quebrou as leis, as quebraram os mais Planetas também. Advirtam os Luminares grandes que presidem nas Repúblicas pelo Eclesiástico, e pelo secular, quanto mais carrega sobre eles a observância das leis, pois de eles as quebrarem, se segue quebrarem-nas todos. E advirta o Sol, que em quebrando as leis, já não é Sol, porque já não é só.

(a continuar)

17/04/14

Sto. Afonso de Ligório - SERMÃO DO DOMINGO DE RAMOS (II)

(continuação da I parte)

II
O Costume de Pecar Endurece o Coração

5. O hábito de pecar não só cega o espírito, mas também endurece o coração do pecador. O seu coração é duro como pedra (Job. 41, 15). Pelo costume do pecado, o coração torna-se duro como pedra e em vez de ser comovido pelas inspirações da graça, pelas pregações, pelo pensamento da justiça de Deus, as penas do Inferno, a paixão de Jesus Cristo, endurece-se ainda mais, tal como a bigorna debaixo dos golpes do martelo. Santo Agostinho escreve: "O coração deles torna-se duro contra a chuva de graça para que não dê frutos. Os avisos de Deus, os remorsos de consciência, o temor da justiça de Deus, são como uma chuva de graças, mas se o pecador habitual, em vez de tirar proveito destes benefícios gemendo sobre as suas iniquidades e buscando curar-se, persevera no pecado, o seu coração torna-se ainda mais duro; está aí o sinal certo da danação. Como diz São Tomás de Vilanova: "Endurecimento é sinal de danação." De facto, o espírito estando cego e o coração endurecido, o pecador viverá até ao fim na sua obstinação, segundo o terrível prognóstico do Espírito Santo: O coração duro será oprimido de males no fim da vida (Eclesiático 3, 27).

6. De que servem as confissões para um tal pecador, que logo depois recai nas mesmas faltas? Santo Agostinho diz: "Quando bates a culpa perante um confessor, e todavia não te emendas, e não evitas as ocasiões de pecado, então não desenraizar os teus vícios, mas tu os fortaleces e os tornas mais vicejantes, quer dizer, mergulhas-te na obstinação. Tal é a vida dos pecadores, passada e percorrer um círculo de iniquidades; se se afastam um pouco, é apenas para voltar na primeira ocasião. É para eles que São Bernardo prognostica uma danação certa: "Ai do homem que segue este círculo." (Serm. 12. super Salm.).

7. Mas não dirá um jovem "quero emendar-me mais tarde e entregar-me totalmente a Deus". Mas se o costume de pecar se apodera de vós, quando vos haveis de emendar? O Espírito Santo ensina que aquele que, sendo jovem, toma o costume do pecado, nunca vai deixá-lo, mesmo na sua velhice: "O jovem não se afastará do caminho da sua juventude, mesmo quando envelhecer." (Prov. 22, 6). Vimos pecadores de hábito cometer ainda as mesmas faltas ao aproximar da morte. O Padre Recupito narra que um homem condenado à morte, e caminhando para o suplício, reparou numa rapariga e, mesmo nesse momento, concebeu maus pensamentos. O Padre Gosolf relata igualmente que um blasfemador, condenado à forca, no momento em que foi retirada a escada e que sentiu a corda apertar o pescoço, proferiu uma horrível blasfémia entregando a sua alma.

8. Logo, "Ele tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer." (Rom. 9, 18). Deus usa de misericórdia até um certo ponto, e passado este ponto, endurece o coração do pecador. Como o endurece? Santo Agostinho explica-nos: [?] Não é que Deus endureça o pecador obstinado, mas em castigo do desprezo que exprimiu para com os benefícios de Deus, retira-lhe o auxílio da sua graça; e assim o coração do pecador fica duro e petrifica-se. Deus não endurece o coração comunicando a malícia e a obstinação, mas não comunicando a misericórdia. Quer dizer recusa-lhe a graça eficaz de se converter. Quando o sol se afasta da terra, a água gela e endurece-se.

9. O endurecimento do coração, que é a obstinação, não vem de repente, diz S. Bernardo, mas pouco a pouco, de sorte que afinal o coração torna-se duro que já não é sensível às ameaças e que as correcções endurecem-no ainda mais. Acontece aos pecadores de costume o que diz David: "Com a tua ameaça, ó Deus de Jacob, ficaram inertes carros e cavalos." (Salm. 75, 7). Os terremotos, trovões, as mortes repentinas não assustam um tal pecador: em vez de despertar-se, de abrir-lhe os olhos sobre o seu estado miserável, parece que aumenta o sono mortal em que fica mergulhado para a sua perda.

(continuação, III parte)

31/03/12

DA BENÇÃO E PROCISSÃO DOS RAMOS (III)

DA BÊNÇÃO, DISTRIBUIÇÃO, E PROCISSÃO DOS RAMOS NO SEXTO DOMINGO DA QUARESMA
(continuação)

Altar lateral, na igreja de S. Francisco - Porto (Portugal)
"O Turiferário com o turíbulo, e o Naviculário com a naveta descerão ao plano ante o meio do Altar, para irem a seu tempo diante da Cruz processional. O Credenciário dará a Palma do Celebrante ao Diácono, e este com ósculos ao Celebrante, e tomará a sua Palma pela mão do mesmo Credenciário. O Subdiácono tomará a Cruz processional, e como ela no meio dos candelabros irá situar-se junto aos cancelos no princípio do Coro com o Turiferário, e o Naviculário. Então o Diácono posto detrás do Celebrante, e reverenciando a Cruz, se voltará para o povo sobre o seu lado direito, e cantará Procedamus in pace, como adiante se diz, e se voltará para o Altar, sem fazer reverência. Respondido pelo Coro In nomine Christi, Amen, então, e não antes, se voltará o Celebrante sobre o seu lado direito para o mesmo povo, e o Diácono sobre o seu lado esquerdo; e descendo ao inferior degrau, o Credenciário dará o barrete ao Diácono, e este ao Celebrante, e aquele tomará o seu, que lhe dará o Credenciário.

O Mestre de Cerimónias ordenará a Procissão, indo diante o Turiferário, e Naviculário, (que lançará incenso no Turíbulo, quando for necessário) seguir-se-há o Subdiácono, levando a Cruz entre os candelabros com as velas acesas, e nenhum dos sobreditos levará Ramos nas mãos, deixando-os ficar na Credência. Irão depois alguns do Coro de dois em dois, em distância de quatro passos, logo os Cantores do Gloria laus, e dois ordinários, incorporados com os [restantes] do Coro, depois o restante dos Eclesiásticos, todos com os Ramos da parte de fora inclinados ao ombro, e os livros da parte de dentro; ultimamente o Celebrante coberto de barrete com o Diácono, e este à sua mão esquerda, sem lhe elevar a extremidade do Pluvial, ambos com os Ramos nas mãos direitas reclinados ao ombro, e as mãos esquerdas encostadas ao peito. Depois do Celebrante irão os Nobres, e o mais povo dom os Ramos, se houver Irmandades, irão por sua ordem, antes do Clero, com os Ramos nas mãos.

Todos os do Coro ao sair dele, de dois em dois, reverenciarão o Altar, o Celebrante, e uns aos outros, e irão saindo com boa ordem, cobrindo as cabeças, se usarem de barretes, o que se entende só dos Graduados, como usam dos Cónegos; pois os que o não forem não se devem cobrir na Igreja,nem ainda o Diácono, senão só o Celebrante.

Os Cantores ordinários, logo que principiar a Procissão, entoarão a primeira antífona Cum appropinuares, que prosseguirão os que forem caminhando, e as mais antífonas, se for necessário. Em quanto dura a Procissão até entrar na Igreja, se dobrará o sino, e depois se tocará à Missa.

Chegada a Procissão à porta da Igreja, irão os Cantores destinados para dentro dela, cuja porta fecharam, ficando ali juntos da parte de fora, o Turiferário, e Naviculário, voltados um para o outro; o Subdiácono com o Crucifixo, ainda que coberto, virado para o Celebrante, e com as costas apara Igreja entre os candelabros, voltados um para o outro, os do Coro em duas alas, ou em giro de rosto para a Cruz, e o Celebrante no seu mesmo lugar, entrando só ele coberto.

Igreja de Jesus, em Coimbra (Portugal)
Os Cantores dentro da Igreja estarão junto à porta de uma, e outra parte, sem darem as costas ao Altar, e descobertos: cantarão os primeiros versos Gloria laus, e acabados eles, o Celebrante com os que estão de fora repetirão os mesmos dois versos, Depois os Cantores de dentro cantarão os versos, que se seguem, repetindo sempre os de fora o verso Gloria laus, até o Hosanna pium, e se dirão todos, ainda que a Rubrica do Missal permita [que] se cante parte deles."

(terá continuação)


30/03/12

DA BENÇÃO E PROCISSÃO DOS RAMOS (I)

DA BÊNÇÃO, DISTRIBUIÇÃO, E PROCISSÃO DOS RAMOS NO SEXTO DOMINGO DA QUARESMA

Igreja do Convento da Madre de Deus, Lisboa
"Neste dia se adornará o Altar mor com frontal roxo: e assim nele, como em todos os mais da Igreja, se colocarão entre os castiçais damos de palma, ou de oliveira, ou de outra árvore. No lado da Epístola junto do Altar estará segunda Credência, sobre a qual se hão de pôr os ramos, com os pés voltados para a porta da igreja, adornados com flores, e com pequenas cruzes, feitas das folhas dos mesmos ramos, (sendo sempre os mais preciosos para o Celebrante, Prelados, Diáconos, e Dignidades) tudo coberto com véu roxo, ou toalha branca até à hora de se benzerem.

Na Credência comum, além dos preparados para a Missa maior, se porá a caldeirinha com água benta, e um prato com miolo de pão. Da mesma parte da Epístola se porá a Cruz processional com véu appenso[?] roxo, sem que o dito véu tenha imagem.

Na Sacristia, além dos paramentos roxos, e Cotas para os Acólitos e Cantores ordinários, haverá mais duas, ou quatro para os Cantores do Glória laus, e mais três para os Acólitos que têm de acompanhar os três Diáconos da Paixão, para os quais estarão prontos Amictos, Alvas, Cíngulos, Manípulos, Manicas, Quadrados, Estolas comuns, Estolas largas, e o livro da Paixão com cobertura roxa, como também barretes para os Ministros do Altar, e para os três da Paixão.

Depois da Terça (para a qual se tocará os sino às nove horas) se fará a Aspersão da água benta pelo Celebrante, se este não for o Prelado, ou Padre da Província; porque em tal caso a fará o Padre da semana, usando de Cota, e Estola pendente sem Pluvial, acompanhado de um Acólito com a caldeirinha. E no mesmo tempo se fará no Coro alto pelo Hebdomadário, (também com Cota, e Estola) se ainda lá estiverem os Eclesiásticos.

O Prelado Celebrante com Pluvial, acompanhado dos Ministros com Manípulos, logo que chegar ao Altar, (feitas as consumadas reverências) o osculará; e passando para a Missa, rezará sem se benzer a Antífona Hosanna filio David, a qual cantará o Coro; e acabada ela, estendendo com as mãos levantadas, dirá (sem se voltar para o povo) Dominus vobiscum, e a Oração Deus quem diligere em tom ferial, que é em voz direita. Os do Coro estarão sempre em pé, voltados para o Altar, e só podem sentar-se em quanto se diz a Lição, cobrindo-se com os barretes, e não com os capelos. Os que cantarem o Gradual à estante, estarão em pé, e os [restantes] sentados, mas descobertos.

O Subdiácono, em quanto se diz a Oração, irá depor a Planeta na Credência; e tomando o livro, irá, feitas as devidas reverências, cantar a Lição em tom de Epístola, acompanhado do Credenciário, ou do segundo Mestre de Cerimónias, se o houver. Depois osculará a mão ao Celebrante, dará o livro, receberá a sua Planeta, e tornará a situar-se à esquerda do mesmo Celebrante, descendo ao plano entre o lado do Evangelho, e meio do Altar, onde esperará pelo Diácono."

(Terá continuação)

TEXTOS ANTERIORES