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12/06/16

CONTRA-MINA Nº 44: Estranhas Multidões, e Gabinetes de Duas Caras

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 44
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Estranha Multidão de Homens, Cidades, e Gabinetes de Duas Caras

Não se publicou até hoje uma Obra, que tanto azedasse, incomodasse, e ferisse o Protestantismo, como foi a de Bossuet sobre as Variações dessa chamada Igreja Verdadeira; e se lhe juntarmos a situação actual do Protestantismo, que saiu incorporada na moderna História das Seitas Religiosas do século XIX, não há mais que desejar nesta matéria; e sem que seja necessário possuir grandes erudicções teológicas, bastará que o Leitor seja entendido, para que tire daquele inexausto armazém, não só cópia de lanças, e dardos, com que atrevesse o próprio coração do Luteranismo, e Calvinismo, porém a clava de Hércules, com que, abatendo-o de um só golpe, o deixe morto, e sem esperanças de nunca mais renascer.... Tal costuma ser o maravilhoso efeito da evidência dos factos que, não se podendo negar, forçosamente hão de concorrer para a destruição da Seita, que não se envergonha de andar com todos os ventos, a fim de captar a benevolência dos Grandes, e especialmente dos Soberanos do Norte. Estava um destes já enfadado de sua legítima Consorte; e desejando por isso contrair novo matrimónio, que seria, exactamente falhado, um verdadeiro concubinato, faz uma Petição aos novos Reformadores, que presavam de seguir o puro Evangelho; e, não é nada, concedem-lhe um despacho favorável; e por este modo tão adulatório, como escandaloso, e ofensivo dos princípios Religiosos, autorizam a Bigamia simultânea, e já desde o berço da pretensa Reforma se dão a conhecer por homem de duas caras, que nunca poderiam chamar ao seu partido, senão outros que tais como eles.... Já por vezes me tem lembrado escrever uma História sucinta das Variações dos nossos grandes Políticos modernos, em que apareceriam tantos homens, não só de duas caras, porém de meia dúzia de caras, à proporção de seus interesses, que é a mola real, até das chamadas grandes virtudes cívicas, ou patrióticas... Um destes Galões de água doce, enfurecido contra os Reis propõe hoje, por exemplo, que nos livremos dessa raça maldita, e amanhã quer, insta, forceja porque se levantem Estátuas a um Rei, ou Imperador; e assim Republicano desenfreado em 1822, apareceu um advogado pertinaz da Realeza em 1826! Se por ventura quisermos apontar um Unicáristas de 1822, que se fizeram Biscamaristas em 1826, seria uma lista de nomes tão prolixa, como enfadonha, e o mais é, que na primeira destas datas, só a lembrança de que se instituíssem duas Câmaras fez das tais badaladas ao sino grande das Côrtes, que parecia vir abaixo a Sala das Conferências; e nessa parte lhe fizeram boa companhia as mais sinetas, e garridas do Congresso, que na de 1826 tocaram diferentemente em aplauso das duas Câmaras, que era um dos mais bem traçados alçapões da Divinal Cartilha.

Estes perversos, que a fim de guardarem os seus poleiros estão sempre como à primeira das duas, tem muito que agradecer aos Escritores, que defendem os interesses de Portugal, e que têm usado para com eles de uma contemplação, respeito, e caridade, que eles por certo não merecem.... Que trabalho mais fácil do que extractar desses montões de papeis da Era Constitucional os respectivos serviços de muitos, agora zelosíssimos, e mui ardentes Realistas? Scripta manent.... Os Diários de Côrtes gritam contra a segunda cara de muitos Empregados Civis; e os Boletins do Exército Constitucional são outros tantos corpos de delito para muitos Empregados Militares, que são hoje muito fiéis ao Senhor D. MIGUEL I, porque assim lhes faz conta, e é necessário conservar, ao todo o custo, a Influência, o Saldo e a P[?]. Não é pois tão d[?] esturro de certos Escritores, que perturbe as cabeças, ou desmanche prazeres.... Ah! se o fosse, e se algum deles escrevesse um Dicionário dos Grimpas Lusitanos, à imitação do Dicionário dos Grimpas de Franceses, que gritarias, que lástimas não iriam pôr essas ruas, indignados de que houvesse entre nós pessoas tão falta de caridade Cristã, que reimprimisse as falas contraditórias dos mais ilustres Corifeus da Liberdade Portuguesa! Continuemos a pôr o ramo em outra parte; e já que assim comecei, assim também hei de concluir a minha tarefa... Que Liberal, e que Realista haverá nas quatro partes do Mundo, que não conheça o nome, e as relevantes prendas de Mr. Canning? Pois este mesmo foi homem de duas caras, e por isso já em outro Número lhe chamei versátil, como quem esperava ser mais largo para outra vez na explanação, ou desenvolvimento de tão amarga, e aparentemente insultadora frase... Em 1794 era ele um esturrado inimigo, não só da Revolução Francesa, porém até dos próprios Franceses. Em 1796, quando saiu sub-Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, requintou em ódio à França; e tal era o seu azedume contra esta Nação perturbadora do repouso, e tranquilidade das outras, que em 1798 se fez parceiro de Mrs. Frer, e Ellis na redacção do Periódico intitulado "Anti Jacobino". Daí a pouco despejou toda a sua cólera sobre o que ele chamou "Ídolo de três dias, ou Bonaparte" e em 1801 tão pouco lhe agradava a Paz de Amiens, que não duvidou apelidá-la "O Suicídio da Inglaterra". Quando chegou ao que ele mais desejava, que era o Ministro dos Negócios Estrangeiros, foi ele quem dirigiu as Expedições contra Copenhague, e Flessinga, o que ainda não prova, que tivessem franqueado, ou minguado os seus primeiros sentimentos de aversão à França.... Porém lá chega o ano de 1816, que na própria França, e numa das suas principais Cidades, (Bordeaux) (e por sinal, que regressava de Lisboa, onde fez um papel de Comédia) depois de um jantar lauto, sem que lhe tivessem encomendado o Sermão, fez um para mostrar, que a boa harmonia entre França, e a Inglaterra era necessária para o sossego da Europa; e o mais é que tinha razão às carradas, pois os mortos não falam, nem brigam; e que melhor, e menos alterável sossego pode haver, que o dos túmulos? Não se opôs à Invasão das Espanhas em 1823, porque, dizia ele, seria mui dispendiosa para a França, quando realmente foi outro o motivo da sua inacção, qual foi contar demasiadamente com o valor dos Patriotas Castelhanos, e talvez assentando, que é o mesmo palrar na Tribuna, que brandir a espada no campo. Só não deu nada pelo valor dos Patriotas Lusitanos, e por isso mandou apressadamente um Corpo de seis mil Ingleses, às Ordens do General Clinton, para defender Portugal de uma Invasão Estrangeira, que nem se quer se premeditava, quando realmente só vinha para defender, e salvar da guerra aberta, que faziam à Constituição os próprios Nacionais deste Reino, e sobre todos o exemplar da lealdade, o ínclito Marquês de Chaves, que, se por acaso não chegasse o socorro Britânico, não se esperaria pelo tão desejado regresso do Senhor D. MIGUEL I, para se desfazerem as Câmaras, as Côrtes, e todas essas armadilhas de embustes, de falsidades, e de traições. Ora aqui têm os meus Leitores mais uma prova, de que até os homens grandes, e os próprios Corifeus do Liberalismo já tiveram cara primeira, e cara segunda, e cara terceira, e contariam até milhares, se as vicissitudes, ou mudanças políticas chegassem a este número. E quantos exemplos do mesmo jaez me oferece, e, para assim o dizer, mete pelos meus olhos a História novíssima deste Reino?.... Seria necessário, pelo menos, um cento de Contra-Minas, só para um Repertório das falas, já em sentido Monárquico, já favoráveis a Pompeu, já favoráveis a César, já de Brutes, já de Marcos Aurélios, de que vêm cheias as numerosas páginas de tantas Colecções in folio, que para mim não têm estado em folha, porque as tenho esquadrinhado, e compilado, para desfazer em tempos conveniente certos Edifícios de lealdade, e patriotismo, que do presente ameaçam tocar as nuvens, mas que, bem examinada a coisa, lá tem no alicerce bastante areia; uma felicitaçãosinha às Côrtes, uma assinatura em papeis Revolucionários, um papel, que correu anónimo, sobre a pretensa Legitimidade de D. Pedro, (o inimigo mais furibundo, que nunca teve este Reino, deve ser apeado até das mais vulgares decências.... Chamei-lhe já muitas vezes Senhor, por obséquio ao Verdadeiro Senhor desta Coroa; porém d'ora em diante só lhe chamarei D. Pedro, em obséquio à justiça, e à verdade) são por certo, são estes homens de duas caras, aqueles com quem D. Pedro conta, para levar ao fim a sua tresloucada empresa; e como ele bem sabe, que são muitos, por isso é que se fortalece cada vez mais em seus propósitos... Mas, felizmente para nós, esse desgraçado Príncipe não sabe ainda o que são os Portugueses.... Deixou-me, quando apenas contava nove anos de idade, e mal podia então conhecer, e avaliar a ingénita coragem, e lealdade dos Portugueses... Esses muitos, com que ele conta, são homens devassos de costumes, homens brutais, e destituídos de sentimentos Religiosos, são homens tão abatidos no moral, como no físico, são verdadeiros paninhos de armar, são esqueletos vivos, são a imagem da fraqueza, e da cobardia, são, direi tudo por uma vez, são Pedreiros Livres; e um Pedreiro Livre é essencialmente cobarde; não é afoito, nem destemido, antes, logo que lhe cheira a combate sério, volta as costas, foge com a ligeireza dos Gamos, encerra-se num Barco de Vapor, e nem sequer espera a notícia de que se possam defender as mais fortes posições.... Ora o Povo Lusitano, a cuja imprevista resistência protestaram eles, que se devia atribuir àquela precipitada fugida, é todavia o mesmo, ou, para melhor dizer, é mais alguma coisa; dobrou em forças, em vigilaneia, em actividade, e no mais que pode constituir um Povo naquela situação, em que se espera somente uma das duas, ou vencer, ou morrer.... Estamos quase reduzidos à própria condição, a que o intrépido Fernão Cortez levou os seus companheiros de armas. Não há Marinha suficiente para resistir a forças Navais muito poderosas, quando estas se lembrassem de coadjuvar a Esquadrilha de D. Pedro; porém há peças de artilharia, há braços robustos, há baionetas bem afiadas, e é quanto nos basta; e no meio de tudo isto, temam, e tremam os homens de duas caras..... que são apontados..... que são geralmente conhecidos..... Vejam lá como fazem a sua, pois os melhores cálculos podem falhar; e, quando menos se cuide, volta-se o feitiço contra o feiticeiro. Deixemos o futuro, e voltemos ao passado.

Pois também há Cidades de duas caras? Há certamente, e eu as conheço por dento, e por fora. Citarei o exemplo de uma, que já não perde o crédito, porque já o não tem, e só por estes sinais parecerá ocioso nomeá-la, o que só faço, por temer, que outras deste Reino, e que não passam de duas, cheguem a presumir, que as denuncio de traidoras ao Senhor D. MIGUEL I. É a Cidade do Porto; mas diga-se primeiro, em obséquio da verdade, que aí mesmo se encontram não poucos verdadeiros Realistas, que apurados nesta espécie de crisol, merecem uma particular distinção; e que assim como se dizia outrora "É Grego, e não é mentiroso" também se diga presentemente "É do Porto, e é afeiçoado ao Senhor D. MIGUEL I" pois dizendo-se isto, chega a dizer-se, que este Portuense já tocou os últimos ápices da lealdade Portuguesa. Ora essa mui famosa Cidade das Revoluções, que noutras eras fez outro papel bem diferente, ainda em 1799 fazia cunhar, para memória do dia, em que o Senhor D. João VI começou a Governar estes Reinos em Seu Real Nome, uma excelente Medalha, onde se lia esta breve, porém expressiva, e bem adequada inscrição:

"Joanni Portug. et Algarb. Principi
Suscepto inter procellas imperii clavo
Civit. Potuc.
D.

Foi apresentada esta Medalha ao Príncipe Regente pelo Desembargador Vicente José Ferreira Cardoso, que fez nesta ocasião arenga do estilo, a qual rematou com estas frases "Se eu não puder contá-los todos, (os benefícios, que o Príncipe fizera à Cidade, e por sinal que os empregou muito bem) posso ao menos afiançar isto a Vossa Alteza Real, e ouso segurar-lhe, que a minha fiança será abonada para com a posteridade a par desta Medalha com a História do Respeito, Amor, e Fidelidade, que à Vossa Alteza Real, e à Real Família há de tributar sempre a Cidade minha Constituinte, em nome da qual tenho a honra de beijar muito reverente a Vossa Alteza Real a sua Real Mão."

Assim dizia o Orador; e já nesse tempo o Grão Tomás, e a Sociedade dos Beneméritos da Pátria se dispunham para serem algum dia os principais pagadores da tal dívida, o que efectuou a 24 de Agosto de 1820, em que a Cidade do Porto abonou solenemente o Profeta, que anunciara de tão longe os heroísmo da sua lealdade à Coroa Portuguesa.... Mais outra vez (quero dizer em 1828) se abonou a veracidade da Profecia, e pode ser que então mais solenemente, que da primeira, Nesta conspirou tudo para se consumar felizmente a projectada rebelião; porém da segunda vez era notável a dissidência de muitas pessoas, e das mais autorizadas; porém nada obstou, para que se realizassem os nefandos intentos da revolução, e do crime... Até as formosas Damas, à força de Vivas à Constituição, enrouqueciam, e ficavam sem voz, e desengonçavam os braços a bandearem os lenços Constitucionais.

Seguia-se falar um pouco dos Gabinetes de duas Caras, que tem sido a peste das Sociedades humanas; porém que Leitor haverá, que não conheça a fraudulência, e traição constante de certos Gabinetes para com os seus mais antigos, e fiéis Aliados.... Ah! Filipe de Macedónia, Filipe de Macedónia, se passaste largos Séculos por modelo, ou tipo dos negociadores pérfidos, e atraiçoados... Já perdeste essa odiosa qualificação.... Eras um Santinho em comparação do que se tem feito nos Séculos modernos, e no tempo da civilização, e das luzes.... Quando poderei eu aliviar o meu coração de um pezo, que o traz comprimido, e como esmagado... Nunca me será lícito definir o que é "A não Intervenção" que se entende somente com os Grandes, que podem voltar dente, e não com os pequenos, que impunemente são maltratados, e espezinhados? Já houve quem ousou escrever uma História dos Conclaves, e que por sinal é um tecido perpétuo de absurdos, e calúnias; e quando haveria um Escritor, que somente com olhos fitos na verdade ponha em pratos limpos a verídica História das patifarias dos Gabinetes de duas Caras, que facilmente se reduzem à História dos Pedreiros Livres, influentes nos Gabinetes da Europa?

É bem natural que os meus Leitores me acompanhem neste momento, e participem comigo da viva mágoa, a que me reduz a necessidade de observar o mais rigoroso silêncio então delicados assuntos; mas para me reanimar juntamente com eles, direi que Portugal tem ainda muitos homens de um só rosto, e que ainda os tem desde as Classes médias até às mais altas condições da Sociedade; e posto que não seja excessivo o seu número, só a lembrança de os possuirmos me reanima, e consola. Homem de um só rosto chamo eu, por exemplo, àquele, que durante o maior, e o mais activo furor da tempestade revolucionária, ousou imprimir a Bula do Santíssimo Cardeal Patriarca desterrado em Baiona, as várias Apologias do procedimento da Senhora D. Carlota Joaquina, e que antes quis ser encerrado nos Segredos do Limoeiro, e ser expulso deste Reino, do que transigir, ou capitular com os mais infames de todos os rebeldes. Este homem, seja qual for a sua presente condição, é para mim, tão respeitável, ou mais, do que se fosse Marquês, Duque, ou Príncipe....

Homem de um só rosto é aquele, que enrostando não só com as vozerías aterradoras de um Congresso ímpio, e malévolo, ergueu a voz para defender a inocência da Rainha mais vilipendiada, que nunca houve em Portugal; e que vendo luzir os punhais, com que devia ser atravessado ao sair da Conferência, nem por isso balbuciou, ou mudou de voz; antes cada vez mais a levantou para defender a maior nódoa, que tem caído sobre o crédito da Nação Portuguesa: homem de um só rosto é aquele, que tem seguido invariavelmente a voz da sua consciência, e que por mais que o acompanhe o glorioso ferrete da maldição Maçónica, antes quisera uma vida pobre, e obscura, do que unir-se a Pedreiros Livres, ou mendigar deles o prémio assaz merecido de seus incessantes, e heróicos trabalhos...

Oxalá que este Reino de Portugal tivesse ao menos quatro ou cinco mil destes, outrora chamados Portugueses velhos!..... Desgraçadamente não os tem, e pode lembrar a este propósito a engraçada anedota do Religioso Francisco, que ao ver meia dúzia de grãos de bico flutuantes numa grandiosa tigela de caldo, exclamou:

Apparent rari nantes in gurgite vasto.

E com efeito, que Corporação há, que menos interessem na intentada ressurreição do Sistema Constitucional, do que os Tribunais, que ele trata de ociosos, e supérfluos, e dá por extintos; do que os Cabidos, para os quais reserva igual tratamento; do que as Ordens Religiosas, que devem ser as vítimas de seus primeiros, e terríveis golpes? Assim mesmo (que tal é o excesso da cegueira humana!) em todas estas Classes há muitos desejosos das Cebolas do Egipto, e que antes querem a mendicidade Constitucional, do que a opulência Monárquica!!! O maior brasão, que pode ter actualmente auqleuqe Ordem Religiosa é este. Quantos Malhados [maçons] tem esta Ordem? Ao que responde afoitadamente qualquer dos Observantes Filhos da Santa Teresa.... Nenhum! Oxalá que todos os mais pudessem responder outro tanto! Porém a grande maioria está sã, e alguns há, que nesta hora estão fazendo os mais assinalados Serviços à Causa do Muito Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I, ora imprimindo à sua custa os Escritores, que favorecem a boa Causa, ora traduzindo, e ampliando Obras primas de Autores Estrangeiros, como sucede com o Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, que devia espalhar-se neste Reino, o mais que fosse possível, para aumentar o justo, e implacável ódio, que os bons Portugueses já professam, e devem professar à tortuosa, e refalçada linguagem, com que os Pedreiros Livres trataram sempre de nos embaçar, e de nos iludir....

E não haverá entre nós alguma Cidade unifronte, ou de um só rosto? Custa muito a aparecer quem mereça esta mui honrosa denominação; pois quando a Maçonaria bebida nas Lojas Coimbrãs, por certo as mais daninhas, e fatais de todo o Reino, há conseguido, por indústria dos seus aprendizes, estender-se, e propagar-se nas mais pequenas Aldeias, como será possível designar uma Povoação grande, uma Cidade, onde não haja Pedreiros em grande número? As Cidades Camaleoas, que mostram igual prazer, ou alvoroço, quer seja aclamado Rei o Senhor D. MIGUEL I, quer se proclame à ponta da espada o intruso S. Pedro de Alcantara, não devem lembrar a um Escritor público, senão para serem amaldiçoadas, e confundidas com o pó da terra, a que as tem feito descer a estranha vilania dos seus Moradores.... Porém torno a dizer, nem só quer para mezinha das minhas dores, e amarguras, haverá neste Reino pelo menos uma Cidade, que possa jactar-se de um só rosto? Não vai a ofender nenhuma, pois não é do mesmo ânimo ultrajar-las, ou deprimi-las, nem ainda levemente. Grandes notícias tenho da lealdade da maioria dos habitantes da Guarda, de Leiria, e de Évora, e outras; porém como a própria avidez do Filósofo antigo, que procurava um homem, procuro eu uma Cidade, não menos antiga, do que a todas as luzes respeitável, quero dizer, à Cidade de Braga.... Ao menos esta, quando sucedeu levantar-se, ou sublevar-se a força armada, para fazer a aclamação de um Rei intruso, a despeito dos solenes Juramentos, que prestára ao Legítimo Sucessor da Coroa, portou-se heroicamente, guardando o silêncio próprio dos Tumultos, não rompendo das suas janelas um só Viva, nem à Constituição, nem a D. Pedro, e somente quebrando aquele rigoroso silêncio à prima noite, quando prosseguia em seu louvável exercício da Reza pública do Terço de Nossa Senhora, alternado de umas para outras janelas.... Apesar de tudo isto ficarei ainda perplexo, e indeciso... Talvez a Maçonaria tenha actualmente em Braga um bom trintário de adeptos.... E o tão douto, como virtuoso Bispo de Charres, se ainda vivesse, não me deixaria mentir... [como perdeu ele a vida?]


Lamego, Santuário de N. Senhora dos Remédios

Acaso estará limpa de Mações a Cidade de Lamego? Não sei, porque não tenho, nem uso, nem experiência de tratar com os Moradores desta Cidade, à qual, ou a foice da morte, ou o desterro voluntário tem arrancado uns certos, e não vulgares Agentes da Maçonaria; porém o Batalhão dos seus Voluntários Realistas, recém-chegado a esta Capital, fez amarelecer de tal modo os Pedreiros Livres, que se torna um índice favorável das excelentes disposições daquela Cidade, e de toda a sua Comarca.... Desde que se encetou em 1828 a profusa luta, em que estamos envolvidos, nunca se me tira da memória o denodo, e coragem dos Realistas da Vila de Taboaço, que dirigidos, e capitaneados pelo seu Juiz de Fora (hoje Corregedor de Tomar) apareceram nas margens do Vouga, e na posição do Marnel, e apareceram na Vanguarda e nos Postos avançados, disparando tiros, e fazendo estragos a um inimigo, consideravelmente superior em forças. Mal sabem os da Esquadrilha formada de toda a carta de animal, que sorte os aguarda neste Reino! Ah grande Oriente de Lisboa, grande Oriente de Lisboa, a quem espero chamar ainda em meus dias "Grande Poente de Lisboa", adveria, e repara bem, que já te carrega sobre o espinhaço o Batalhão dos Voluntários Realistas de Lamego, e o Regimento de Caçadores da Beira Baixa.... Faltam-me ainda os Batalhões de Vila Real, Mangualde, e Castro Daire; porém já se colocaram nos lugares, que mais convinham, para o fim de se guardar bem uma Costa dilatada, e em vários pontos acessível.

Desterro, 5 de Janeiro de 1832

Fr. Fortunato de S. Boaventura

12/06/15

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 16 (I)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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Nº. 16
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Ostendam gentibus nuditatem tuam

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EDUCAÇÃO PÚBLICA

Assunto é este que desde a chamada reforma de Lutero há merecido os cuidados e atenções de toda a espécie de sectários. Julgaram eles, e mui sensatamente, que se chegassem a dominar o coração e o espírito da sempre incauta mocidade, poderiam contar de certo que seus erros teriam voga, e mui dificultosamente chegariam a desarraigar-se. Já no séc. XVI foram as línguas mortas uma das capas com que se cobriram os malévolos intentos das novas seitas, para melhor propagarem as suas doutrinas; e foi um rasgo visível da Providência que ao mesmo passo em que a heresia lançava mão deste fatal expediente, começassem a existir os filhos de Santo Inácio, cujo principal intento era a direcção dos estudos da mocidade, para que saísse das escolas preparada com o auxílio das sãs doutrinas, a fim de se precaver das seduções que tão frequentes eram naquele desgraçado século. Por mais que se tenha clamado entre nós contra o Senhor D. João III, que removeu do ensino as aulas menores os Buchanans, os Grouchys, os Vinetos, e outros abalizados cultores das letras humanas, nem por isso ajudarei essas pouco reflectidas e mui desassisadas invectivas. Um Rei Católico antes quer que uma dúzia de seus vassalos fiquem menos instruídos em Grego ou Hebraico, do que, sob o pretexto de se adiantarem neste estudos, beba toda a mocidade do seu Reino pelas taças envenenadas da heresia e da incredulidade; além de que para se condenar, com alguma justiça, aquele Soberano, era necessário que me convencessem de que os Jesuítas Padres - João Baptista Perpinhão, Manuel Alvares, e Cipriano Soares eram inábeis para ensinarem Latim, Retórica, e Grego à mocidade destes Reinos.

Manifestou-se pois, desde o berço da Companhia de Jesus, uma figadal aversão aos novos Mestres destinados para a educação da mocidade, e não foram as decantadas máximas sobre o regicídio, e as sonhadas associações com os Chatels, e outros inimigos dos Reis; mas principalmente a sua preponderância no Reino de França (por assumirem os cuidados da instrução pública), que suscitaram contra eles a perseguição que lhes foi movida pelos Hugonotes, em extremo aflitos e desesperados de se lhes contrariarem as suas ideias e os seus projectos. Grande número de provas tiradas dos escritos do fim do séc. XVI, e de todo o século XVII poderia eu trazer em confirmação destas verdades, se o meu intento não fosse deliberar apenas esta matéria, a fim de chegar, o mais cedo possível, à desastrosa influência daqueles princípios neste Reino.

É sabido que os Pseudo-Filósofos do séc. XVIII, já para se fazerem senhores da educação pública, intrigaram e minaram tudo para conseguirem a extinção dos Frades da Companhia, cujo maior delito era certamente o de lesa-filosofia; porque obstavam denodada e valorosamente aos seus progressos de tal maneira, que nunca o estandarte da irreligião se arvoraria na capital da França, nem se chegaria a perpetrar o regicídio de Luís XVI, se a Côrte de França, por extremo corrompida, não desse as mãos aos Filósofos para se conseguir aquela extinção. Sobejas vezes o tenho ponderado, e não me cansarei de o repetir, que é bem digno de lástima esse indiferentismo ou desleixo, com que depois da extinção dos Jesuítas foi tratada a educação religiosa pelos Soberanos, que, desconhecendo os seus verdadeiros interesses, coadjuvaram pela maior parte, e sem o advertirem, a causa da impiedade. A conservação da Fé, no meio das tormentas que têm ameaçado por vezes submergir a barca de S. Pedro, é sem dúvida um milagre fixo e permanente, e para mim tão admirável como se eu visse a passagem do mar vermelho ou a ressurreição de Lázaro. Era impossível que forças humanas guardassem puro e ilibado o sacrossanto depósito das verdades católicas, sem que ele tivesse o menor perigo durante a guerra, ora encoberta ora descoberta, que lhe têm feito os ímpios há cem anos a esta parte. E o que me robora ainda mais nesta persuasão é o ver a suma diligência e actividade com que os Filósofos se meteram a seu salvo na direcção dos primeiros estudos da mocidade, fazendo imprimir livros recheados de heresias e obscenidades para serem o primeiro objecto das leituras da infância. Mete dó considerar-se que a impiedade tivesse sobejas forças para imprimir tais livros, e para os disseminar por todo um reino tão vasto e populoso como a França, e os distribuir gradualmente, a fim de segurar melhor as suas infernais conquistas, e que não prevalecesse ao mesmo tempo o contrário sistema de fazer imprimir e espalhar gratuitamente os bons livros, ainda que estes desejos de alguns Pastores talvez desmaiassem perante os esforços da autoridade civil, que, pouco ou nada escrupulosa na eleição dos Mestres, fechava de todo as portas à esperança de que homens indignos e imortais quisessem servir-se dos bons livros em pró dos seus ouvintes.

Desta perseguição ao Cristianismo se deriva o malfadado sistema de remover os Frades a todo o custo de educação da mocidade, e por isso neste últimos tempos em que mais de uma vez se têm renovado essas odiosas contestações, só o nome de Frades tem consternado, e feito mudar de côr alguns Ministros, secretos agentes da maçonaria, como se viu há pouco tempo na França, quando se tratou de admitir ao ensino público os Padres das escolas cristãs, que só este nome é uma declaração de guerra aos ímpios do século, que não receiam coisa alguma tanto como a propagação do Cristianismo.

Futuro D. José I
Da mesma envenenada fonte procederam as instruções dadas neste Reino, em tempos do Senhor D. José I, para que os Frades se excluíssem do magistério, visto que apenas sabiam ler o seu breviário, e já modernamente, nos anúncios de oposição às cadeiras menores, se afixou nas portas da Universidade, e nos outros lugares onde convinha, a famosa excepção dos Frades, que por mais que soubessem, e acompanhassem de excelente morigeração os seus bons estudos, acharam um veto absoluto, que tantas vezes escandalizou os homens probos e assisados.

Apenas se instalaram as Côrtes Lusitanas começou de manifestar-se algum cuidado pela instrução pública, e logo se viu que a maçonaria tratava de ser fiel aos princípios e doutrinas de seus Mestres Franceses, e não desperdiçava este meio de fazer prosélitos; e como até para ser Bispo se recomendou uma virtude exótica, peregrina e de novo cunho, que não tinha lembrado ao Apóstolo S. Paulo, a saber, adesão ao sistema, ainda mais se exigia nos cultivadores das tenras plantas, que se as fizessem crescer no espírito maçónico teriam ainda mais valor para os Pedreirões, do que se fossem Bispos, que nunca foram nem hão de ser pessoas de grande monta no conceito dos Pedreiros, que só os querem lá, ou para espantalhos ou para agentes da propagação da seita, e preenchido que fosse o seu fim os indemnizaria depois com dinheiro, ou empregos civis, do que tivessem perdido em honras e privilégios... Devem tratar-se com alguma extensão estes dois artigos, Livros e Mestres, em que apareceram factos mui curiosos, e mui dignos de chegarem à notícia do público, e de fixarem toda a atenção do Governo sobre um dos assuntos de maior consideração, em que o simples descuido, não digo somente de meses, mais de dias e horas, acarretará males gravíssimos sobre este Reino. Comecemos.

(continuação, II parte)

16/10/14

"ROMA - ROMA ETERNA" (XIV)


"ROMA AETERNA"
Revista de La Tradición Católica
(ano 1986)
(nº 97)

Acção Católica, ou Comunista?
"A Action Catholique Ouvrire (ACO) é supostamente uma organização católica que goza da aprovação oficial e alento da hierarquia católica francesa.

A ACO, na sua congresso de Le Mans (9-11 de maio de 1986), substituiu o seu Comité Nacional inteiro. O novo comité está ainda mais dominado por comunistas que o anterior. Inclui 12 activistas da CGT (obediência moscovita na França), e 26 da CFDT, a confederação antigamente católica, que hoje se situa à esquerda da CGT.

Entre os novos dirigentes 7 são filiados no Partido Comunista e 8 são militantes socialistas.

No congresso anterior até Edmond Maire, dirigente da CFDT, de ultra-esquerda, declarou: "A ACO converteu-se numa corrente de transmissão do Partido Comunista". Deveria ter acrescentado: com a bênção explícita dos bispos católicos franceses, dois dos quais assistiram ao congresso de Le Mans." (APPROACHES, Saltcoats, nº 93-94)


Um Protestantes Privilegiado
"Marselha acaba de enterrar o seu cidadão mais proeminente, Gaston Defferre, o milionário socialista que conseguiu fazer ininterruptamente eleger-se Presidente da Câmara na segunda cidade de França durante os últimos 25 anos. Defferre era protestante, o seu funeral cívico decorreu normalmente segundo os ritos da Igreja Reformada de França. Como seria de esperar nestes tempos de falso ecumenismo, foi acompanhado das orações de representantes católicos, bizantinos, judeus, maometanos, etc. O serviço fúnebre teve lugar na Catedral católica.

O Arcebispo Mons. Coffy permitiu tal coisa, atendendo a uma solicitação do município e do pastor, e afirmou: "era o único templo suficientemente amplo para acomodar todas as personalidades convidadas... Cedi ao pedido, como um serviço ao povo de Marselha e à Igreja Reformada de França".

Recordamos que, justamente no mesmo momento, o Bispo de Chartres, Mons. Kuehn, não autorizou que na sua catedral se rezasse a Missa tradicional católica (Rito Romano codificado por S. Pio V) por ocasião da peregrinação anual do Pentecostes, que recorreria 88 Km, que separam Paris de Chartres. Os peregrinos eram, de longe, demasiado numerosos para caber noutro templo. Não se deve estranhar que Mons. Kuehn tenha emprestado a Catedral para o serviço protestante, visto que pouco depois também permitiu actos druidas na mesma." (do PRESENT, Paris, 14 de maio de 1986)

22/05/14

CONGAR - A NOVA ECLESIOLOGIA (I)

CONGAR,
OU A NOVA ECLESIOLOGIA.

(Os Percursores do Concílio Vaticano II)
Cadernos "SEMPER"

"Ainda me recordo da surpresa que tive ao ler aquela carta, contra o Pe. Congar. (...) Durante muitos anos, tinha sido posto de parte por causa das minhas obras teológicas. "Eles" exilaram-me, primeiro em Jerusalém, depois em Roma, e finalmente em Cambridge. (...) O Vaticano foi muito severo comigo. Eis a razão pela qual eu não conseguia acreditar que tinha sido nomeado para o Concílio como perito". (1)" 

I
A Paixão Pelo Ecumenismo

Nascido no dia 13 de Abril de 1904, Yves Congar entrou em 1925 para a Ordem dos Irmãos Pregadores (Dominicanos). A condenação da Action Française em 1926, levou-o a voltar-se para o catolicismo liberal (ele pertencia à família maurrassiana). Foi ordenado sacerdote no dia 25 de junho de 1930, e nomeado em 1931, professor de apologética na Faculdade dominicana do Saulchoir (na altura, retirada na Bélica). Em 1932, os seus superiores decidiram mandá-lo assistir às aulas da Faculdade de teologia protestante. "Estais a atirá-lo para os braços da apostasia", tentou avisar um dos religiosos mas ninguém o queria ouvir. No mesmo ano, o Pe. Congar participou na fundação das edições "du Cerf", e da revista "La Vie Intellectuelle", fundada pelo Pe. Bernardot para lutar contra a influência maurrassiana. Juntou-se então aos padres Chenu e Boisselot, os quais muito admirava.

Em 1937, fundou a coleção "Unam Sanctam" (nas edições du Cerf, especializada em assuntos de eclesiologia). Será então a ocasião para publicar livros do Pe. Lubac (2) ou do pré-modernista alemão Mölher (a difusão do seu livro "L' unité dans l'Eglise" será aliás proibida pelo Santo Ofício). Também se ligou ao teólogo protestante Karl Barth.

O Pe. José Ratzinger (Bento XVI), e o Pe. Y. Congar
Em1937, no seu livro "Crétiens désunis, principes d'un oecuménisme catholique" (primeiro volume da coleção "Una Sanctam"), o Pe. Congar explicava o que era o ecumenismo ao qual iria consagrar toda a sua vida:

"A palavra "ecumenismo", de origem protestante, designa actualmente uma realidade bem concreta (...). Ela não é o desejo ou a tentativa de reunir numa só Igreja considerada como a única verdadeira, grupos cristãos considerados dissidentes. Ela começa quando consideramos que nenhuma confissão cristã possui, no seu estado actual, a plenitude do cristianismo; e que, mesmo se uma delas é verdadeira, não possui no entanto, enquanto confissão, a totalidade da verdade, mas existem outros valores cristãos fora dela, não só nos cristãos confissionalmente separados dela, mas nas outras confissões ou nas outras Igrejas enquanto confissões ou Igrejas". Em que medida este ecumenismo seria compactivel com o ensinamento da Igreja? É o que o Pe. Congar se esforçou por estudar aqui. Mas antes de o seguirmos no seu estudo, é necessário esboçar de uma forma breve a génese do movimento "ecuménico".

1. Unidade católica e ecumenismo protestante.
Desde sempre, a Igreja Católica rezou pelo regresso dos heréticos e dos cismáticos à unidade católica. Pois considera ser esta a única unidade possível: a unidade fundada sobre a Verdade (necessáriamente única) que foi revelada por Nosso Senhor Jesus Cristo que é Deus, ensinada pelos Apóstolos que Ele escolheu, e instituiu, e pelos seus sucessores. Esta unidade só pode ser mantida por uma autoridade única, a do Pontífice romano, sucessore de Pedro sobre quem foi fundada a Igreja.

Para a Igreja, não existe nenhuma preocupação intelectual com a unidade dos cristãos: o sentido desta unidade está perfeitamente definido, e os meios para a alcançar também. Trata-se da submissão à Fé única -porque a unidade da Igreja é, antes de tudo, unidade em Jesus Cristo e por conseguinte unidade de Fé - e de obediência ao Pastor único, instituído por Nosso Senhor. Esta serena certeza não é um fechar-se sobre si própria: mas pelo contrário, tem sido a origem de uma imensa corrente de missões e apostolado, que se perpetua desde os primórdios da Igreja, e conheceu os seus momentos altos nos séc. XVII.

Esta certeza serena, aliada ao zelo missionário heróico de milhares de Padres e Religiosos tem atraido continuament novas almas para a Igreja; o séc. XIX conheceu uma onda de conversões dos judeus ao catolicismo (nomeadamente Ratisbonne, o Pe. Cohen, o Rabino Drach, os irmãos Lemann, o Pe. Libermann), que continuou no séc. XX (o Rabino de Roma Israel Zolli, que se converteu em 1945, e quis tomar no baptismo, o nome de Eugénio, que era o de Pio XII, para testemunhar do seu agradecimento ao grande Papa a quem devera a sua conversão); as conversões dos judeus ao catolicismo foram numerosas nos Estados Unidos e na Inglaterra, até 1960. Este número decaiu após o Concílio Vaticano II. Constatamos o mesmo movimento no sentido da unidade com a Igreja romana da parte dos anglicanos de Oxford; e que permanecerá estável até ao Concílio Vaticano II, após o qual decairá drásticamente) e da parte dos protestantes de todas as obediências (nos Estados Unidos converteram-se, antes do C. Vaticano II, em média 170.000 almas por ano. Depois do Concílio, já não chegam sequer ao milhar).

Para os protestantes, pelo contrário, a questão da unidade dos cristãos revela-se sem solução: se não se admite outra verdade para além da verdade da Bíblia, como conciliar estão entre si diferentes interpretações da Bíblia? Seria necessário reconhecer uma autoridade insituida por Deus para dar esta interpretação- e é justamente contra esta autoridade que Lutero e Calvino se revoltaram no séc. XVI.

No entanto, existe uma palavra do Evangelho que continuamente os atormenta: "Que eles sejam apenas um... haverá apenas um só rebanho e um só pastor" (João XVIII, 21 e , 16). Como realizar esta frase, não querendo no entanto reconhecer a Igreja Católica e o Papa? É necessário então conceber uma nova forma de unidade, que já não seja unidade na Fé (unidade na Verdade à qual aderimos), mas unidade no sentimento: acreditamos de forma diferente, mas vamos tentar passar por cima das diferenças e considerar-nos irmãos apesar delas, e reunir-nos à volta do mais pequeno denominador comum (a crença na existência de um Deus e de um Cristo, por exemplo). Assim é o espírito do falso ecumenismo.

E tem como particularidade fazer passar a preocupação da união entre os homens, antes da união com Deus. Tomaremos por exemplo o caso da Santa Eucaristia: a Igreja ensina-nos que Jesus está substancialmente presente no lugar do pão após a consagração (já não existe pão, existe Jesus Cristo sob as aparências de pão); quanto aos protestantes, encontram-se divididos sobre a questão. alguns admitem uma certa presença corporal de Cristo, mas no interior do pão (para eles, existe ao mesmo tempo a realidade do pão e a realidade do Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo), outros falam de uma presença espiritual, para outros ainda não passa de um símbolo. No entanto, todas as pessoas vão tentar reunir-se e orar juntas - evitando discutir entre si os assuntos que as separam, e portanto sobre a Presença Eucarística de Nosso Senhor; para eles, o facto de poderem estar localmente juntos é mais importante que a adoração devida a Nosso Senhor na Eucaristia. Estão prontos a sacrificar a Verdade revelada por causa de fazer um agrupamento meramente humana.

(continuação, II parte)

30/12/13

MARTELO DAS FÁBULAS - Música e Protestantismo

Caros leitores, quase peço licença para redigir-vos este artigo. Apresento-vos o Coro de St. Tomás (de Leipzig, Alemanha). Acontece que o coro é luterano!

Ora, porque trago um coro luterano!?

Nós, europeus, estamos acostumados a ver "música culta" nas igrejas, durante e fora do culto, sejam templos católicos ou protestantes, ou ainda outros. Contudo, segundo sei, há em terras mais distantes a ideia de que os protestantes se caracterizam pela música corriqueira, e que seria protestante o mau exemplo dado pelos templos católicos que usam de música imprópria.

O que acontece é bem diferente: nos nossos dias os templos vão adaptando a música segundo o gosto dos "utentes", isso sim é uma falta de senso, tanto mais que ela sempre foi nos templos a mais alta referência que mantinha bem moldada musicalmente a comunidade. Nos templos, ao contrário do que nos acostumaram há séculos, começou a ser o reflexo da comunidade (argumento destrutivo), e está a começar a ser também o pior que a sociedade tem. Contudo, os locais que têm costumes antigos são menos abalados pela mudança, fenómeno que adia a decadência, ou até a trava, pelo menos em certos aspectos.

Esta pastagem é especialmente dedicada aos leitores das América do língua portuguesa e castelhana, par lhes dar alguns pontos de reflexão. É que o modernismo ou o liberalismo por vezes estão a níveis mais profundos, e por isso não se vêm sempre:

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17/07/13

DO "NOVO MANUAL DO CATEQUISTA" (VII)


(da primeira parte)

VI CAPÍTULO
Igreja Católica - Comunicação dos Santos.

Creio... na santa Igreja, na comunicação dos Santos.
 
105. Que é a Igreja?
R: Igreja é a sociedade dos verdadeiros cristãos, isto é, dos baptizados, que professam a fé e a doutrina de Jesus Cristo, participam dos seus sacramentos e obedecem aos Pastores constituídos por Ele.

106. Por quem foi fundada a Igreja?
R: A Igreja foi fundada por Jesus Cristo, o qual congregou os seus fiéis numa sociedade, a sujeitou aos Apóstolos com S. Pedro por cabeça, e lhe deu o sacrifício, os sacramentos e o Espírito Santo que a vivifica.

107. Qual é a Igreja de Jesus Cristo?
R: A Igreja de Jesus Cristo é a Igreja Católica Romana, porque é una, santa, católica e apostólica, como Ele a quis.

108. Porque é que a Igreja é una?
R: A Igreja é una porque todos os seus membros tiveram, têm e hão de ter sempre uma única fé, o Sacrifício, os sacramentos e a cabeça visível, o Romano Pontífice, sucessor de S. Pedro, formando assim todos um só corpo, o corpo místico de Jesus Cristo.

109. Porque é que a Igreja é santa?
R: A Igreja é santa, porque são santos Jesus, sua cabeça invisível, e o Espírito Santo que a vivifica; porque nela são santos a doutrina, o Sacrifício e os sacramentos, e todos são chamados a santificar-se; e porque muitos foram, são e serão realmente santos.

110. Porque é que a Igreja é católica?
R: A Igreja é católica, isto é, universal, porque é instituída e adaptada para todos os homens e difundida por toda a terra.

111. Porque é que a Igreja é apostólica?
R: A Igreja é apostólica, porque foi fundada sobre os Apóstolos e sobre a sua pregação, e governada pelos seus sucessores, os Pastores Legítimos, os quais, sem interrupção e sem alteração, continuam a transmitir a doutrina e o poder dos mesmos apóstolos.

112. Quem são os legítimos Pastores da Igreja?
R: Os legítimos pastores da Igreja são o Papa ou Sumo Pontífice e os Bispos em união com ele.

113. Quem é o Papa?
R: O Papa é o sucessor de S. Pedro na sé de Roma e no primado, a saber no apostolado e episcopado universal; portanto o chefe visível, Vigário de Jesus Cristo, chefe invisível de toda a Igreja, a qual por isso se chama Católica-Romana.
Para os "primeiros elementos da doutrina cristã", a resposta é esta: O Papa é o sucessor de S. pedro; e portanto o chefe visível de toda a Igreja, Vigário de Jesus Cristo, chefe invisível.

114. O Papa e os Bispos em união com ele que coisa constituem?
R: O Papa e os Bispos em união com ele constituem a Igreja docente, chamada assim porque tem de Jesus Cristo a missão de ensinar as verdades e as leis divinas a todos os homens, os quais só dela recebem o conhecimento pleno e seguro que é necessário para viver cristãmente.

115. A Igreja docente pode errar ao ensinar-nos as verdades reveladas por Deus?
R: A Igreja docente não pode errar ao ensinar-nos as verdades reveladas por Deus, ela é infalível, porque como prometeu Jesus Cristo, "o espírito de verdade" a assiste continuamente. (S. Lucas, 1, 28).

116. O Papa, só por si, pode errar ao ensinar-nos as verdades reveladas por Deus?
R: O Papa, só por si, não pode errar ao ensinar-nos as verdades reveladas por Deus, quer dizer, é infalível, como a Igreja, quando, como Pastor e Mestre de todos os cristãos, define doutrinas a respeito da Fé e dos costumes.

117. Pode outra Igreja, fora a Católica-Romana, ser a Igreja de Jesus Cristo, ou ao menos parte dela?
R: Nenhuma Igreja, fora da Católica-Romana, pode ser Igreja de Jesus Cristo ou parte dela, porque não pode ter juntamente com aquela as qualidades distintivas singulares, una, santa, católica e apostólica; como de facto as não tem nenhuma das outras Igrejas que se dizem cristãs.

118. Para que é que jesus Cristo instituiu a Igreja?
R: Jesus Cristo instituiu a Igreja para que os homens encontrassem nela o guia seguro e os meios de santidade e de salvação eterna.

119. Quais são os meios de santidade e de salvação eterna que se encontram na Igreja?
R: Os meios de santidade e de salvação eterna que se encontram na Igreja são a verdadeira fé, o Sacrifício [missa] e os sacramentos, e os auxílios espirituais recíprocos, como a oração, o conselho, o exemplo.

120. Os meios de santidade e de salvação eterna são comuns a todos os homens?
R: Os meios de santidade e de salvação eterna são comuns a todos os homens que pertencem à Igreja, isto é, aos fiéis, os quais nos escritos apostólicos são chamados santos; por isso a união e participação deles nestes meios é comunicação dos santos em coisas santas.

121. Porque é que são chamados santos os fiéis que se encontram na Igreja?
R: Os fiéis que se encontram na Igreja são chamados santos, porque são consagrados a Deus, justificados ou santificados pelos sacramentos e obrigados a viver como santos.

122. Que quer dizer comunicação dos santos?
R: Comunicação dos santos quer dizer que todos os fiéis, formando um só corpo em Jesus Cristo, participam de todo o bem que existe e se faz no mesmo corpo, quer dizer na Igreja universal, uma vez que não sejam impedidos pelo afecto ao pecado.

123. Os bem-aventuradosdo paraíso e as almas do purgatório estão na comunicação dos santos?
R: Os bem-aventurados do paraíso e as almas do purgatório estão também na comunicação dos santos, porque, unidos entre si e comnosco pela caridade, recebem uns as nossas orações e outros os nossos sufrágios, e todos nos retribuem com a sua intercessão junto de Deus.

124. Quem é que está fora da comunicação dos santos?
R: Está fora da comunicação dos santos aquele que está fora da Igreja, isto é, os condenados, os infiéis, os judeus, os hereges, os apóstatas, os cismáticos e os excomungados.

125. Quem são os infiéis?
R: Os infiéis são os não baptizados que não crêem no Salvador prometido, isto é, no Messias ou Cristo, como os idólatras e os maometanos.

126. Quem são os judeus?
R: Os judeus são os baptizados que professam a lei de Moisés e não crêem que Jesus é o Messias ou Cristo prometido.

127. Quem são os hereges?
R: Os hereges são os baptizados que se obstinam em não crer alguma verdade revelada por Deus e ensinada pela Igreja, como, por exemplo, os protestantes.

128. Quem são os apóstatas?
R: Os apóstatas são os baptizados que renegam, com acto externo, a fé católica, que dantes professavam.

129. Quem são os cismáticos?
R: Os cismáticos são os baptizados que recusam obstinadamente submeter-se aos legítimos Pastores, e por isso estão separados da Igreja, ainda mesmo que não neguem verdade alguma de fé.

130. Quem são os excomungados?
R: Os excomungados são os baptizados excluídos por culpas gravíssimas da comunhão da Igreja, a fim de não perverterem os outros e de serem punidos e corrigidos com este remédio externo.

131. É dano grave estar fora da Igreja?
R: Estar fora da Igreja é dano gravíssimo, porque estando fora dela não se tem nem os meios estabelecidos nem a guia segura para a salvação eterna, a qual para o homem é a única coisa verdadeiramente necessária. 

132. Quem está fora da Igreja salva-se?
R: Quem está fora da Igreja por culpa própria e morre sem dor perfeita, não se salva; mas quem se encontrar fora dela sem culpa própria e viver bem pode salvar-se com o amor de caridade, que une Deus, e, em espírito, também à Igreja, isto é, à alma dela.

15/11/12

OS ERROS DE LUTÉRO E O ESPÍRITO DO MUNDO ACTUAL (VII)

(continuação da VI parte)


OS ERROS DE LUTERO E O ESPÍRITO DO MUNDO ACTUAL
Pe. Franz Schmidberger

O reformador Calvino retoma a doutrina de Lutero sobre o pecado original, a justificação e a negação do livre arbítrio e retira as suas conclusões. Se o homem não pode valer-se para nada nas obras de salvação, existe uma predestinação para o céu e uma para o inferno. O homem não pode de nenhuma maneira mudar o seu destino.

Como se sabe se estamos predestinados ao céu? Principalmente pela abundância das bênçãos temporais de Deus. Cada um, desejando provar que está predestinado ao céu, como bom calvinista vai procurar aumentar o mais possível as bênçãos temporais de Deus. As sondagens demonstram de forma evidente uma grande diferença na probabilidade entre católicos e protestantes, entre países católicos e paises protestantes.

Agora uma palavra a respeito dos santos: de facto, não só não os tem o protestantismo como não os pode ter. Um santo é um homem renovado e transformado pela graça de Deus, passado do estado de pecado ao estado de justiça, não em virtude dos próprios méritos, mas por acção de Deus e eficácia da graça que purifica, ilumina, fortalece e santifica a alma por virtude da cruz de Jesus Cristo; mas por sua vontade livre, elevada pela graça, o santo aportou a sua cooperação virtuosa, por vezes heróica, à acção divina.

Ser santo significa ter amizade com Deus, participar na vida da Santíssima Trindade, desenvolver plenamente em si mesmo as graças do baptismo e da confirmação, dar-se à imitação vivente de Cristo numa vida de renúncia de si mesmo e de busca interior das virtudes. O santo é um sarmento vivo da vinha vivente que é Cristo. Ele é elevado muito mais alto das suas forças meramente humanas, o seu discurso desde aqui está já no céu.

Porque o protestantismo nega esta colaboração harmoniosa entre a graça divina e a liberdade humana, porque nega também a conformação da alma cristã com a alma de Cristo, embora possa possuir também homens muito reconhecidos e homens virtuosos, mas não pode ter santos.

16/09/12

OS ERROS DE LUTÉRO E O ESPÍRITO DO MUNDO ACTUAL (IV)


(continuação da III parte)


OS ERROS DE LUTERO E O ESPÍRITO DO MUNDO ACTUAL
Pe. Franz Schmidberger

B - Existe uma analogia entre a Fé e as obras, por uma parte, e a natureza humana, composta de corpo e espírito, por outra. O espírito expressa-se pelo corpo e o corpo é o instrumento do espírito; entre os dois há mútua relação, uma influência recíproca. Por exemplo se eu faço uma genuflexão ente o Santíssimo Sacramento, expresso assim (exteriormente) a minha Fé (interior) na presença real. Por outro lado, cada gesto exterior, cada sinal da cruz, cada inclinação, fortalece a própria Fé. Assim a alma é nutrida interiormente mediante signos exteriores.

Não há que esquecer que depois da separação da alma e do corpo, não acontecerá mais que um estado provisório até o dia do juízo final quando a alma e o corpo recuperam a sua unidade complementando-se mutuamente.

Por analogia vemos a relação que existe entre a Fé e as obras. Por uma parte, a Fé expressa-se através das suas obras e as obras aparecem como um prolongamento da Fé; e as boas obras animam e fortalecem a Fé. Sem a Fé as obras estão mortas, como está morto o corpo sem a alma, A ausência de boas obras conduz à uma debilidade da Fé ou à sua morte. Como depois da morte, a alma espera o seu respectivo corpo, a Fé pede boa obra. Podemos dizer que a Fé e as boas obras juntas determinam o mérito perante Deus, como a alma e o corpo constituem juntos a natureza humana. O Corpo humano está chamado também à glória, e a sua glorificação faz parte da felicidade eterna do homem.

À luz desta analogia chegamos a entender que as boas obras contribuem para a nossa justificação, santificação e glorificação.

C - O Logos (o Verbo) encarnou, tomou uma alma e um corpo humano visível. Pela mesma analogia, a Fé tende a encarnar. Nossas catedrais, santuários, igrejas, peregrinações e procissões, os nossos seminários e conventos, instituições cristãs, são a visibilidade da Fé, a Fé expressa por por meio da pedra ou no corpo social visível, como a família católica, o mosteiro, ou o Estado católico.

(terá continuação, se Deus quiser) 

28/04/12

OS ERROS DE LUTÉRO E O ESPÍRITO DO MUNDO ACTUAL (III)

(Publicação anterior, aqui)

OS ERROS DE LUTERO E O ESPÍRITO DO MUNDO ACTUAL
Pe. Franz Schmidberger


A Igreja não tem uma tradição, mais sim ela mesma é essencialmente Tradição, ou seja, prolongamento do Verbo feito carne.

De tal forma que a Igreja não é quem baptiza e quem ensina, mas sim propriamente e em definitivo é Cristo quem sacrifica, baptiza e ensina como "Pontífice Máximo", servindo-se do sacerdote humano, e do papa como instrumentos para outorgar a salvação.

Portanto, a Igreja é Cristo vivente, provida de magistério vivo, que possuiu sempre a capacidade de definir verdades (não de inventá-las), de tomar posição relativamente aos problemas da actualidade; de distinguir e refutar, de argumentar e condenar. "Quem a vós escuta, a mim escuta, quem vos despreza a mim despreza, mas quem me despreza, despreza Aqueles que me enviou" disse o Senhor aos seus apóstolos". (Luc. 10:16)

A posição protestante, equivocada, tenta valorar a "palavra", mas não é mais que frio racionalismo. Não quer reconhecer o Verbo feito carne, e que Nosso Senhor se tenha feito um Sacrifício e continua-o no tempo e no espaço para a nossa salvação. Recusa o altar e coloca em seu lugar uma cátedra; o sermão, o canto, constituem o centro em vez do Cordeiro imolado e o Tabernáculo de Deus vivo.

O católico nos nossos dias não pode senão sentir-se afectado dolorosamente por isso que é essencialmente a repetição, no interior da Igreja, da "reforma" protestante, sob as influências denunciadas: negação do magistério da Igreja, negação da continuação e comunicação de Cristo, negação do mistério e a passagem a um frio racionalismo, ou seja, o naturalismo.

Quando no séc. XVI a cidade de Stuttgart passou-se para o protestantismo, no dia fixado para a adopção da nova "religião", os clérigos celebraram pela última vez o Santo Sacrifício de honra de "Hofkirch". Logo o celebrante retirou o Santíssimo Sacramento do tabernáculo, e a luz do santuário, que indica a presença real, foi apagada. O edifício continua ali, mas Ele, o Emanuel, foi embora.

II - "SOLA FIDES"

Lutero pretende que a Fé por si seria suficiente para a Salvação e que as boas obras como a esmola, e o jejum, as obras de mortificação e o caminho da perfeição na vida monástica, não são meritórios; chega a dizer que o homem peca em toda a boa obra.

A - Podemos tomar da própria Sagrada Escritura de forma clara afirmações que refutam tal erro protestante.

Na carta de S. Tiago (2:26) lemos que "a Fé sem obras está morta"; no Apocalipse, são chamados bem-aventurados os mortos "porque as suas obras os seguem" (Ap. 14:3) e no Segundo livro dos Macabeus, o valente guerreiro Judas faz uma colecta para os defuntos a fim de que se ofereça um sacrifício expiatório, "pois pensava correcta e piedosamente a respeito dos mortos" 8II Macc. 12:45).

Lutero estava consciente da dificuldade que encontrava apra defender a sua tese da "sola fides" (só a Fé). Por isso foi drástico e directamente negou a epístola de S. Tiago como uma "epístola de palha", o Apocalipse como duvidoso e ao livro dos Macabeus como apócrifo.

(Continuação, aqui)

25/04/12

"JESUS DE NAZARÉ II" - PROBLEMÁTICO LIVRO DE BENTO XVI e A DOUTRINA CATÓLICA (I)


O livro de Bento XVI "Jesus de Nazaré II" é um monumento à ortodoxia católica? Será que repete as mesmas linhas de verdade ensinadas e transmitidas pela Igreja, ou segue o caminho de estranhas e recentes teologias?

É esperado que o livro de um Papa seja um monumento à ortodoxia que ele mesmo deve representar, e nada contrário a isso.

Como é absurdo que um Papa transmita uma doutrina contrária à da Igreja opondo-se aos próprios Apóstolos, aos Evangelhos, aos Padres da igreja, aos Doutores da Igreja e ao Magistério, é natural que os leitores católicos partam da ideia de um Papa ortodoxamente católico, e assim deve ser.

Antes de irmos ao livro, é preferível fazer alguma catequese.

A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS

"(...)Todos os livros que a igreja recebe como Sagrados e Canónicos, estão escritos total e completamente, em todas as suas partes, sob ditado do Espírito Santo, e visto que é impossível que qualquer erro possa coexistir com a divina inspiração, sendo a inspiração não só esencialmente incompatível com o erro, senão que exclui e afasta, absoluta e necessariamente, como impossível, que o mesmo Deus, Verdade suprema, possa enunciar o que não é certo. Está é a antiga e imutável Fé da Igreja, solenemente definida nos Concílios de Florência e Trento, e finalmente confirmada e mais expressamente formulada no Concílio Vaticano. Estas são as palavras do último deles: "Os livros do Antigo Testamento, e Novo Testamento da Vulgata latina, todos, com todas as suas partes, como foi indicado no decreto do mesmo Concílio [Trento], devem ser recebidos por sagrados e canónicos. E a Igreja os sustêm como sagrados e canónicos, não porque, depois de terem sido compostos pelo engenho humano, tenham sido aprovados depois pela sua autoridade, nem só porque contenham a revelação sem erro, senão porque, tendo sido escritos sob a inspiração do Espírito Santo, têm a Deus por seu autor. Assim, como o Espírito Santo usou os homens como instrumentos seu, não se pode dizer que tais instrumentos inspirados, porventura, caíram no erro, e não o seu autor principal. Porque foram movidos e impulsionados a escrever pela acção sobrenatural do Espírito Santo. Ele esteve presente para que eles escrevessem as coisas que Ele lhes ordenou, e só essas, de maneira que, entendidas por eles em primeiro lugar, logo quiseram firmemente escrevê-las fielmente, e, finalmente, expressaram, apta e inteligivelmente a verdade. Pelo contrário, não se poderia dizer que Deus tivesse sido o autor de toda a Escritura. Tal foi sempre a presunção dos PadresDisto se deduz que aqueles que sustêm que seja possível o erro em alguma passagem das Sagradas Escrituras, pervertem a noção católica da inspiração e fazem de Deus o autor do erro." (Proventissimus Deus - Leão XIII (20 a 21))

"(...) Também aqueles, que sustêm que a parte histórica da Escritura não descansa na absoluta verdade dos factos senão que se limita, como gostam de dizer, à verdade relativa, ou seja, o que a gente comummente pensava, não estão - como também não estão os critérios anteriormente mencionados - em harmonia com o ensinamento da Igreja, que está avalada pelo testemunho de Jerónimo e outros Padres".

Isto é exemplar do que se repete ao longo dos tempos na Igreja, faz parte da Tradição da Igreja, contudo as recentes teologias infiltradas nos seminários e cursos de teologia ensinam diferente e mais em conformidade com o protestantismo. Para que se veja, tomemos um dos manuais adoptados num instituto de Teologia (que goza até de fama de prudente e comedido, portanto, bem considerado) para a cadeira de Sagrada Escritura, e que é "Bíblia Palavra de Deus" de Valério Mannucci, para dar a entender que a Sagrada Escritura não é inspirada mas sem dizer literalmente tal coisa (reparem no tipo de palavreado mistificador, quase esotérico, que mais esconde do que aclara):

"Concluindo - Portanto, existe um mistério de inspiração que age no presente, dentro de nós, em torno de nós, sob os olhos da nossa fé: é a misteriosa, mas real, presença e acção do Espírito Santo, do Espírito do Senhor ressuscitado e vivo, sem o qual não se dá nem a fé nem a Igreja.

Viver e compreender este mistério diário de inspiração é a melhor premissa para compreender a inspiração da Bíblia com todas as suas consequências." (Caro leitor, conhece a tese protestante da inspiração presente daquele que está interpretando a Bíblia?...)

E com esta conclusão fica todo o capítulo resumido:

"Concluindo - O NT pronuncia-se formalmente sobre a inspiração divina das Sagradas Escrituras, isto é, sobre a origem divina não só do conteúdo dos livros da Bíblia, a Revelação de Deus, mas também do instrumento privilegiado que a conserva e a transmite. O próprio Deus está na origem dos livros sagrados, porque o seu Espírito infundiu neles. Este fato pertence ao ditado bíblico, especialmente neotestamentário, independentemente do como possa e deva ser compreendido (sobre a natureza da inspiração bíblica ver cap. 10). De outro lado, ele não deve ser separado da multiforme acção e moção do Espírito de Deus na história da salvação e na sua proclamação profética: "A inspiração escriturística nada tem a temer se for colocada no conjunto da inspiração bíblica da qual é uma parte, depois das inspirações pastoral e oratória. Mais ainda, só pode ganhar pelo realismo que a completa. Antes de ser escrita, a mensagem foi vivida e falada: esta experiência vital e esta palavra concreta ainda vibram no texto escrito, no qual são apresentadas como um maravilhoso condensado querido por Deus. Mas elas o precedem, o acompanham, o seguem, o superam e o comentam. Toda esta riqueza vem sempre do mesmo Espírito ... Vista nesta luz, a inspiração escriturística deixa de ser o carisma de uma pessoa particular que trabalha no absoluto e confia o papel "verdades" sugeridas a seu ouvido. Ela é, pelo contrário, o último tempo de uma longa acção do Espírito que, depois de ter preparado um plano divino-humano no qual a vida do Filho constitui o vértice, e depois de ter feito ouvir por todos os modos a voz do Pai até os últimos apelos do Herdeiro (Hb 1,1) confia tudo isto aos livros sagrados, destinados a alcançar todos os homens de todos os lugares".

Certamente que este tipo de texto baralhista, ocultista, dificulta a alguns leitores contemplarem o horror destes textos em oposição àqueles outros do Magistério da Santa Igreja Católica. Tomando ainda por referência os bons textos da Igreja, os dois iniciais, vamos agora ouvir Bento XVI no referido livro:

"A implicação (...) que encontramos no relato de Mateus (27:25), fala-nos de "todo o povo" e atribui-lhe o clamor pedindo a crucifixão de Jesus."

Segundo o Papa o "todo o povo" não tem como autor o Espírito Santo, e colocando-se nas teses da teologia protestantizada (já mostrada) e indo contra a teologia católica expressa tão claramente pelo magistério Papal anterior. Segundo Bento XVI, este "todo o povo" não pode querer dizer "todo o povo" e atribui tal falha não a Deus (claro que não), mas ao Apóstolo Mateus. Logo, rejeita a doutrina católica da Inspiração das Escrituras. Por outro lado, não há um único caso na história da Igreja onde um Papa, Padres da Igreja, Apóstolo, Doutor da Igreja, tenha interpretado como Bento XVI, e todos estes têm interpretado segundo o que Bento XVI tenta contrariar.

16/04/12

OS ERROS DE LUTERO E O ESPÍRITO DO MUNDO ACTUAL (II)


OS ERROS DE LUTERO E O ESPÍRITO DO MUNDO ACTUAL
Pe. Franz Schmidberger

B - De facto, o Senhor encomendou aos discípulos ir ensinar: "Ide por todo o mundo, prégai o Evangelho a toda a criatura." (Mc. 16:15). Ele não os enviou a escrever um livro. Assim, o ensinamento vivo, sob a inspiração do Espírito Santo, espírito de Verdade, é a que se encontra no começo da vida da igreja. Esta realidade corresponde, por outra parte, a uma razão de evidência imediata: Deus, Criador da natureza e da graça, serve-se dos homens como instrumento para o governo do mundo e outorgar a Salvação; nisto, a palavra viva tem uma importância muito especial, a comunicação de pessoa a pessoa. O Criador conhece suas obras e particularmente a alma humana com as suas faculdades, com suas aspirações e a maneira de comunica-lhe vida: "Fides ex auditu" - a Fé vem da pregação - diz S. Paulo (Rom. 10:17).

C - A Sagrada Escritura foi escrita só depois de certo tempo da existência da Igreja durante o qual a plenitude da vida [da Igreja] estava já amplamente manifestada na celebração do Santo Sacrifício, a pregação do Evangelho, a administração dos sacramentos e o exercício da autoridade segundo os princípios evangélicos. Se a Escritura fosse o fundamento definitivo da Igreja Ela mesma não teria podido existir nos primeiros anos!

D - Quem determina aquilo que pertence e não pertence à Escritura? Ou seja, quem fixa o Canon das Sagradas Escrituras?

O critério a empregar não pode encontrar-se na mesma Sagrada Escritura, pois então tal texto poderia, justamente, e ainda deveria, ser colocado em dúvida! Tem então, necessariamente, que encontrar-se fora da Sagrada Escritura e possuir a atitudes requerida para distinguir com certeza os textos autênticos, inspirados, dos apócrifos. Este critério reside justamente no Depósito da Fé sob a condução do Espírito Santo através dos séculos.

E - Em caso de dúvida e controvérsia, quem interpreta a Sagrada Escritura? Segundo Lutero e os protestantes seria o mesmo Espírito Santo. E sim, o católico está de acordo mas com a precisão de que o Espírito Santo manifesta-se objectivamente na instituição divina, composta por homens; numa palavra, o Magistério da Igreja, de tal maneira que a conservação do depósito da Fé esteja por cima de toda a dúvida e de qualquer relativização subjectiva.

Ora, justamente, a proliferação de seitas protestantes, na sua maioria contradizendo-se entre elas, prova que Deus não confiou o depósito da Fé a indivíduos nem a grupos sem o Santo Padre e os Apóstolos com quem permanece até à consumação dos séculos (Mat. 28:20) nas pessoas de seus sucessores.

Os protestantes não têm nada de positivo para opor à Doutrina católica. Vivem pura e simplesmente da crítica ao catolicismo, e por isso pretendem que nós católicos não encontrámos nada melhor que eles, visto que têm as Sagradas Escrituras como livro de última instância, enquanto que nós temos um livro mais, a saber, toda a colecção de Dogmas.

A resposta a esta objecção é simples: A Igreja Católica não é nem um conjunto de Dogmas, nem, portanto, um sistema moral. Ela é o Emanuel, o Homem-Deus que continua vivendo e obrando entre nós no seu Sacrifício, nos Sacramentos, na Hierarquia instituída por Ele, que possui o depósito da Fé.

A Igreja não tem uma tradição pois Ela mesma é essencialmente Tradição, ou seja, continuidade do Verbo feito homem.

De tal forma que não é a Igreja quem baptiza e quem ensina, senão que é propriamente e em definitivo Cristo quem sacrifica, baptiza e ensina como "Pontífice Máximo", servindo-se do sacerdote humano, e do papa como instrumentos para outorgar a Salvação.

(Aqui a continuação)
(Ver a primeira parte aqui)

14/04/12

OS ERROS DE LUTERO E O ESPÍRITO DO MUNDO ACTUAL (I)

O Demónio a fazer-se de Lutero seu instrumento sonoro

OS ERROS DE LUTERO E O ESPÍRITO DO MUNDO ACTUAL
Pe. Franz Schmidberger


ÍNDICE
Introdução
I - "Sola Scriptura"
II - "Sola Fides"
III - "Sola Gratia"
IV - "Solus Deus"
Conclusão

INTRODUÇÃO

Para compreender melhor os erros do mundo de hoje, especialmente os acontecimento produzidos no interior da Igreja Católica, parece-me seguramente necessário ter clara a posição de Lutero o mais possível e compará-la com o neo-protestantismo e o neo-modernismo actual.

Fundamentalmente a posição de Lutero encontra-se resumida nos quatro "soli":
- "Sola scriptura" (somente a Escritura), portanto, não contar com a Tradição da Igreja.
- "Sola fides" (somente a fé), portanto, não contando com as obras.
- "Sola gratia" (somente a graça), portanto, sem a cooperação do homem no uso da sua liberdade moral.
- "Solus Deus" (somente Deus), portanto, sem a mediação na salvação, pela Igreja e intercessão dos santos.

I - "SOLA SCRIPTURA"

Lutero sustem que a Sagrada Escritura é a única fonte da revelação divina e que cada cristão recebeu a inspiração do Espírito Santo para compreendê-la e interpretá-la correctamente. Segundo ele, o Magistério da Igreja obscureceu a palavra de Deus (que apenas por si mesma leva à claridade), portanto, numa linguagem popular diríamos que seria melhor ordenhar a vaca que ir buscar o leite à leitaria.

Os protestantes de todas as denominações e orientações, até mesmo os testemunhos de Jeová, fizeram sua esta posição de Lutero contra a qual se pode opor igualmente toda uma série de argumentos muito poderosos, utilizando utilizando sobretudo a mesma Sagrada Escritura.

A - Em S. João (20:30-31) lemos estas palavras: "Há aliás uma quantidade de outros milagres que Jesus fez na presença dos seus discípulos e que não foram registados por escrito neste livro." E um pouco mais adiante lemos em S. João (21:25): "Há ainda uma quantidade de coisas que Jesus realizou. Se as quiséssemos colocar por escrito, acho que não caberiam no mundo os livros que as relatassem".

Isto prova claramente que a Sagrada Escritura apresenta apenas um extracto de palavras e obras de Jesus, e não se pode saber com plena total evidência quais teriam sido os critérios de uma selecção [que foi a que Deus inspirou]. É pois uma hipótese sem fundamento essa de que apenas a Sagrada Escritura conteria todo o ensinamento de Cristo necessária para a Salvação e, ao mesmo tempo, enquanto ao que ela afirma, seriam apenas detalhes sem grande importância. 

(Aqui a continuação)

01/03/12

RETRATO DE CALVINO, DOS SEUS DISCÍPULOS E COOPERADORES (VII)


"Daqui a aversão com que os calvinistas olham a flor de liz, até ao ponto de suprimí-la da terra em que brota e de não a deixar crescer nos seus jardins. (Conr. Schlussenb. in Theol. Clav. lib. II, fol, 72)

Eis também aqui o retrato que deste panegirista de Calvino e herdeiro da sua supremacia em Genebra nos deixou Heshusio, luterano: "Quem não se maravilha da incrível audácia deste monstro, cuja vida vergonhosa e infame é conhecida em toda a França pelos seus epigramas obscenos e cínicos? Contudo, ao ouvi-lo julgareis que era um Santo, um Job, um dos anacoretas do deserto e mais digno que S. Paulo ou S. João. Tanto é o que se esforça em apregoar por toda a parte a história do seu desterro, dos seus trabalhos, da sua pureza, e da admirável santidade da sua vida como aqueles de quem dizia Juvenal; Qui curios simulant, et bacchanalia vivit" (Heshusins, vers. Florim., fol 1:048)

Beza, diz outro escritor é o protótipo daquele homens ignorantes e grosseiros que, à falta de razão e argumentos, lançam mão das injúrias, ou daqueles herejes que não têm outro meio de defesa do que os insultos... Este homem imundo, todo artifício ou impiedade, refere as suas satíricas blasfémias como se fosse um demónio encarnado."

O mesmo autor acrescenta que depois de gastar vinte e oito anos em ler mais de duzentas e vinte publicações calvinistas, em nenhuma tinha encontrado tantas injúrias e blasfémias como nos escritos desta fera..... e que se algum o pusesse em dúvida, não tinha mais do que passar a vista pelos seus famosos diálogos contra o doutor Heshusio, os quais não parecem escritos por um homem, mas pelo mesmo Belzebu em pessoa.

"Eu me horrorizava, continua, de referir as obcenas blasfémias que este ser impuro e ateu vomitou contra um dos assuntos mais dignos de veneração com uma mistura nauseabunda de impiedade e charlataneria. Sem dúvida tinha molhado a sua pena em tinta do inferno."

Dir-se-ha talvez que os luteranos não merecem credito pela mesma razão que são antagonistas dos huguenotes. Contudo, nada tenho dito que não esteja testemunhado pelos mesmos calvinistas. Louvam estes Beza como escritor erudito e elegante; mas, enquanto aos seus costumes apresentam-no como um dos homens mais malvados daquele tempos: libertino, ímpio e profanador das coisas mais santas, zomba delas com momices próprias somente de um ateu; cruel e sanguinário, está sempre disposto a inspirar os mais negros e execráveis atentados; impudente e dissoluto, está submergido no lado das mais degradantes paixões, como transparece nas suas Juvenilia, e principalmente daquele epigrama em que, aludindo à sua favorita Cândida e ao seu amante, tem o cinismo de não só acusar-se, mas até de jactar-se do mais abominável delito.

Para iludir as pesquisas do Parlamento e fugir à fogueira, vendeu o priorato em que estava investido e um pequeno benefício que possuía por resignação do seu tio Nicolau Beza, e fugiu para Genebra em companhia da sua Cândida, que era mulher de um alfaiate de Paris, chamada Cláudia, e que seduzida por Beza, se casou com ele vivendo ainda seu esposo.

Deste modo iniciou a sua reforma: com um adultério permanente, que o fazia digno de morte, segundo todas as leis divinas e humanas (Bolzec. Vt. Theod. Beza.).

Com pouco que se diga de Melanchthon, teremos feito o seu retrato. Luterano a princípio, zuingliano depois e mais tarde calvinista; perplexo e vacilante no seu exterior, mas sempre incrédulo no seu coração, não se conhecia vulgarmente se não com o nome de catavento da Alemanha. Por causa desta perpétua inconstância lhe recusaram os seus próprios partidários as honras dos funerais, aplicando-se-lhe com muita oportunidade este verso: Nunc me Ponthus habet,  jactantque in littora venite (Le minst. eccla fol. 191)."

("O Protestantismo Desmascarado, Sua Origem, Natureza e Efeitos" - Propaganda Catholica - Bibliotheca de Vulgarização Religiosa (151.152.153). Padre JOÃO PERRONE, da Companhia de Jesus. Fafe, 1909)

(Voltar à primeira parte do artigo aqui)

29/02/12

RETRATO DE CALVINO, DOS SEUS DISCÍPULOS E COOPERADORES (VI)

"Os cobradores aduladores de Calvino, acrescenta o historiador citado, negam ousadamente este facto, que se encontra não obstante suficientemente provado; pois prescindindo de outras muitas razões, a confissão das testemunhas que o presenciaram e sobre tudo, da mesma mulher que teve nele parte tão activa, não dão lugar a dúvida.

Eis aqui os milagres que operaram os herejes, como já no seu tempo fazia observar Tertuliano escrevendo a este propósito: "É preciso dizer alguma coisa dos prodígios operados por eles (os herejes). Conheço a grande virtude de que estão dotados, na qual se afadigam por imitar os Apóstolos, embora fazendo tudo ao contrário, pois estes davam vida aos mortos; mas eles dão morte aos vivos" ("Volo igitur et virtutes eorum (haereticorum) proferri. Nisi quod agnosco maximum virtutem eorum qua apostolos in perversum aemulantur. Illi enim de mortuis vivos faciebant, hi de vivis mortuos faciunt", De Proescript. Haert., cap. XXX). É certo que os herejes de todos os tempos são sempre os mesmos!

Seja-nos lícito insistir alguma coisa mais sobre Calvino, e já que tantas simpatias inspira a muitos dos secretários da Reforma, não podemos nem devemos omitir o termo da sua carreira mortal, conforme nos refere o seu discípulo João Haren, testemunha ocular: "Calvimo, diz, entregando-se nos últimos dias de sua vida à desesperação, morreu devorado pelos vermes e consumido por uma dessas ignominiosas e repugnantes enfermidades com que Deus costuma castigar os quase rebelam contra Ele. Ao dizer isto, tenho a certeza de que ninguém pode desmentir-me; pois estava presente e vi com os meus próprios olhos o seu fim trágico e funesto".

(...)

Não são menos sombrias as cores com que o Conrado Schlussemberg pinta-nos esta morte deastrosa. "Deus, diz, até neste mundo manifestou o seu juízo sobre Calvino, visitando-o com a vara do seu furor e castigando-o com rigor terrível na hora da sua morte funesta; pois feri-o com a sua mão poderosa de modo tal que desesperando este hereje da sua própria salvação, invocando os demónios, jurando, amaldiçoando e blasfemando, exalou miseravelmente o seu espírito maligno. Entretanto manavam asquerosos vermes de uma apostema ou ulcera tão hedionda que nenhum dos presentes podia suportar o seu fétido."

(...)

Seriamos interminávei se tivessemos de continuar falando de Calvino; digamos, pois alguma coisa do seu discipulo favorito, Theodoro Beza, não aduzindo testemunhos de escritores católicos, mas sim dos mesmos protestantes.

Perguntam os luteranos: porque causa não diz Beza uma só palavra na sua Vida de Calvino das flores de liz com que foi marcado ou selado o seu herói? ao qual respondem que tendo merecido o panegirista ser marcado com o mesmo selo pelo mesmo delito e pela mesma heresia do seu mestre, ter-se-ia informado a si mesmo."

(continuação, VII parte)

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