Mostrar mensagens com a etiqueta Palavras e Conceitos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Palavras e Conceitos. Mostrar todas as mensagens

24/04/18

O CONCEITO DE "CRISTANDADE" QUE NOS FOI LEGADO (III)

(continuação da II parte)


"Ademais, porque aquela tão insigne em santidade, e todo o género de virtudes, Rainha de Portugal, filha delRei D. Pedro de Aragão, Santa Isabel, que saiu deste Reino para ilustrar muitos outros, e ainda a toda a Cristandade com sua mui santa, e prodigiosa vida;" (Historia de la Tercera Orden de nuesto seraphico P. S. Francisco - Tomo 2, 1610. pág, 419. [tradução nossa])

"(...) viendo, digo, todo esto la Sede Apostolica, à fin de precaver discórdias entre los Principes Cristianos, confio aquela protección á los Reyes de Castilla y de Portugal: y como Juez Supremo decidió e declaro, que por el bien de la Cristiandad era voluntad de Dios, que estos dos Monarcas fuesen Principes y Señores de las tierras y de los pueblos, que com justo título, y protegendo la Religion fuesen conquistando en la Índias. Por esta sentencia de un juez legítimo (la gual puede llamarse donacion) se animaron y empreñaron mas ambos Monartcas en procurar la conversión de los infieles: sirviéndoles também de estímulo la esperanza de sujetar á su imperio lo que primero sometiessen á Jesucristo." [...] "? quién no advierte que entrando la misma en el nuevo mundo lleno de infieles, podian ocurriele semejantes y mayores peligros? y que en consecuencia de eso fue cosa justíssima y útil de dar al Rei de Espaã el derecho, ó la comision de proteger toda aquella Cristiandad." (Reflexiones Imparciales sobre la humanidade de los españoles en las indias. Ano 1782)

"Viva el gran conde de Lemos, cuya cristiandad, y liberalidade bien conocida, contra todos los golpes de mi corta fortuna me tine en pie, y vivame la suma caridade del Ilustrissimo de Toledo D. Bernardo de Sandoval y Roxas, y siqueira se impriman contra mi mas libros que tienen letras las coplas de Mingo Revulgo." ( El ingenioso Hidalgo D. Quixoote de la Mancha - Tomo I; 2ª advertência. Madrid, 1798)

"19. O General de Província não sofrerá que os ricos aos pobres maltratem, obrigação constituída igualmente pela cristandade e pela política; pois os últimos acaso recorrerão às armas para eximir-se de suas extorsões, ou para vingar-se da tolerância do General; em vez de que este os assegure na obediência, embaraça-se de fazer-lhes injustiça." (compendio de los veinte libros de reflexiones militares... - I Tomo. Madrid, 1787. pág. 244)

(a continuar)

06/04/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº1 - Introdução (II)

(continuação da I parte)


NOVO VOCABULÁRIO
FILOSÓFICO-DEMOCRÁTICO


Cum desolationem faciunt, pacem appellant.
TACITO

INTRODUÇÃO

Todos os homens, que em outro tempo habitavam a terra, viviam unidos no campo de Sennaar: tinham todos umas mesmas ideias, a mesma linguagem, e os mesmo costumes. Multiplicados de maneira, que lhes foi necessário separarem-se pela falta de subsistências, empreenderam, antes de o efectuarem, fabricar aquela famosa Cidade, e Torre, que deviam servir de testemunho eterno, não menos de comum origem, que da sociabilidade, cultura e mutuo amor, que desde o principio havia unido a linhagem humana para confusão de alguns abortos da natureza, que com o discurso do tempo haviam querer confundir a origem do homem com a das feras, e deduzir desta suposta original bestialidade humana a liberdade, a sociedade, e os direitos dos homens.

Mas, nem porque estes vissem que lhes era necessária a separação, lhes deixava de ser amarga, e mui de propósito iam dilatando um negócio, donde lhes resultava um desgosto, que assim não podam evitar. Todos se empregavam em celebrar com demonstrações de alegria os últimos momentos de união, fazendo ver com isto que nunca o bem nos causa tão sensíveis, e doces impressões como nos últimos instantes, em que se nos avizinha a sua perda.

Porém, no comenos que os cuidados e trabalhos humanos se prodigalizavam em um só lugar, a terra por todas as partes deserta reclamava habitadores e indústria: e a Providência soube obrigar os homens a separar-se sem lesão do belo desejo de viverem unidos. Chegou finalmente o dia destinado por ela para o complemento de um prodígio, que por modo algum podiam imaginar. Despertam do sono, e se dispõe aos seus costumados mestres: falam uns com outros, os pais, e os filhos, o maridos, e a mulher, os vizinhos, e os parentes; entende-se mui bem; julgam falar a mesma linguagem que dantes, e falam outra inteiramente diferente: chegam à grande fábrica, falam-se; alguns particulares entendem-se; porém a comum confunde-se, e articula vozes sem comunicar pensamentos. A inocente discórdia não ofende a Natureza: todos estão conformes em máximas, em vontade, em amor, em desejos, e somente em vozes discordam. A Providência mesma já tem sinado, os que devem unir-se, e os que devem separar-se. Despedem-se os homens para multiplicar as Nações; e o ultimo adeus, que podem dar-se à despedida, é de mudos abraços, e ternas lágrimas.

Tal foi o prodígio da confusão em Babel; grande na verdade, porém inocente, e útil. Mas, oh! Quam diverso teria sido o resultado, se em vez da mudança das vozes correspondentes às idas, se houvessem mudado as ideias correspondentes ás vozes?! A suceder assim, seguir-se-ia que julgando os homens entender-se, pois não usavam de palavras senão bem conhecidas, nem se entenderiam, nem fariam outra cousa que enganarem-se. E então que confusão! Que discórdia! Que fatais distúrbios se não teriam originado!!...

Pois esta perniciosa confusão de línguas é a que, de algum tempo a esta parte, se há descoberto com surpresa universal em todos os idiomas da Europa! É verdade que as vozes são as mesmas, porem é igualmente certo que muitíssimas delas, e as de mais importância, não significam já o que antes significavam. É verdade, repito, que são as mesmas vozes, porém também é indubitável que um sem número delas, longe de explicar, o que até aqui hão explicado, não têm outro uso que significar o contrario do que soam. Desta confusão pois, tão fatal em ideias e vozes, tem nascido justamente o universal transtorno social, que tanto à nossa custa palpamos. Ela é que tem feito que muitos Povos, enganados por falsos e mal intendidos Vocábulos, hajam corrido direitos àquilo mesmo, que na realidade detestavam; e só hajam encontrado a escravidão a miséria, a desgraça, onde pensavam achar o porto da liberdade, da felicidade, e o supremo poder, com que tantos os lisonjeavam.

É demasiado interessante este acontecimento, para que se esqueça sua história, com razão pode ser considerado como uma espécie de prodígio. Ele é uma nova confusão de línguas, e se não se há obrado instantânea e milagrosamente, como o de Babel, é sem embargo muito mais importante, funesto, e doloroso para todo os Género Humano, do que foi aquele.

Sua origem remota quiçá pode buscar-se nos tempos de Cromwel, ou de Hobes, e Espinosa; porém a mais recente se deve fixar com segurança nos de Rousseau, e sua contraditaria pena.

Havia já muito tempo que certos entes ridículos, que se diziam Filósofos, maquinavam a ruína da Religião, da ordem, dos costumes, e das Soberanias Legítimas; mas esta empresa era mui difícil, e não devia pôr-se em pratica, sem que o engano mais delicado houvesse antes preparado o caminho. É por esta razão que muitos tentaram a carreira, porém com infeliz sucesso. Só Rousseau teve a glória de inventar uma vereda capaz de confundir os cérebros, e de fazer que todos os homens corressem após aquilo mesmo, que mais aborreciam.

Inventou um absurdo agradável, e chamou-se "Pacto Social": fundou este pacto social sobre a liberdade humana: a liberdade humana sobre os direitos do homem: os direitos do homem sobre a natureza; e a natureza sobre o que ninguém entende, nem há podido compreender, senão ele.

Porém como a Religião, a razão, e os deveres estavam em oposição manifesta com a sua liberdade, e seus direitos, deixando a um lado a definição verdadeira daquela, e destes, armou tal confusão de linguagem (algarabia), e faltou tão contradictoriamente da Religião, da liberdade, dos deveres, e dos direitos, que jamais se chegará a saber o que foi, o que ele entendeu por semelhantes nomes. Mas ao mesmo tempo que com estes Vocábulos se confundia a razão, se foi introduzindo uma linguagem doce, que mansamente ia lisonjeando as paixões mais vivas, e despertando o orgulho, e o desejo da independência, e insubordinação. O método foi qualificado de excelente por todos aqueles, que suspiravam por precipitar o género humano em o ateísmo, no desenfreamento, e a libertinagem. O charlatão Filósofo teve infinitos sequazes, discípulos, e defensores; e transtornadas as cabeças, começou todo o mundo a gritar: pacto social, liberdade, igualdade, direitos, sem saber, nem entender o que significavam estes Vocábulos. Ultimamente, a geringonça há sido tal, que não somente se hão transtornado os cérebros dos ignorantes e estúpidos, mas até os de muitos, que se jactavam de doutos e raciocinadores.

Nada menos se pretendia que uma tal confusão, para ir pescando os homens. Falava-se, escrevia-se, e até se apregoava liberdade, soberania, direitos, governo, leis, religião, superstição, fanatismo, e outros infinitos Vocábulo; e falavam-se, e escreviam-se de uma maneira, que perdendo insensivelmente seu verdadeiro significado, e conservando do antigo nada mais que o som, excitaram em os Povos e disparatado entusiasmo, e a extravagante mania de caminhar em direitura à irreligião, à imoralidade, à escravidão e pobreza, imaginando que iam lançar-se em os braços da liberdade, e da ventura.

Atónitos ficaram os homens, quando, instruídos finalmente pela experiência, viram que a liberdade se opunha à razão, os direitos do homem a seus deveres, a natureza a si mesma, sua sonhada soberania à sua felicidade, e as grandiosas promessas aos factos. Foi então quando conheceram de algum modo a inopinada confusão de línguas, sem com tudo descobrir a origem de um tal prodígio.

Já a este tempo estavam repartidos esquadrões de Filósofos, que, reunidos em lugares determinados, trabalhavam com o santo fim de fazer-se tiranos debaixo do nome de libertadores, e de fundar o despotismo, e a escravidão debaixo do nome de Democracia, ou Republica. Mas como a Religião era para isto um estorvo, começaram a combatê-la debaixo do nome de superstição, e a denegri-la cobrindo-a de opróbrios, e dictérios. Assim foram seguindo seu infernal plano de roubar os Estados e os Reinos, debaixo do nome dos fazer livres e felizes; de destruir as propriedades com o pretexto de igualdade, e de induzir os Povos para que preferissem a bestialidade democrática aos pequenos defeitos da Monarquia. Esta perversa linguagem tem chegado a propagar-se de maneira, que não somente é já comum em todas as Republicas democráticas, mas a estas horas se acha espalhada por todo o mundo. Tem-se tornado por tanto necessário formar, e publicar um Vocabulário da língua antiga, e da moderna democracia e republicana, não só para impedir que os Povos, enganados pela semelhanças das palavras, vivam eternamente deslumbrados; mas para que se entendam os republicanos, e para que se destruam os seus embustes.

A experiência, que é a mestra mais segura em todas as coisas, é mui especialmente sobre isto que nos fala com toda a clareza: sirvamo-nos de um exemplo: um cão, que logo depois da voz "pau" provou os seus repetidos golpes, chega perfeitamente a entender o que significa, e foge apenas ouve a tal palavra "pau". E se isto assim é, porque razão a experiência não há de ter ensinado aos homens o verdadeiro significado dos Vocábulos republicanos? Por ventura não tem eles palpados o que constantemente se tem seguido às palavras dos republicanos liberdade, propriedade, soberania, etc.?!

Algumas objecções se podem fazer a este Vocabulário, a que convém responder. Dir-se-há, por exemplo, a língua republicana se irá enriquecendo cada dia mais: logo o presente Vocabulário é imperfeito. Não temos a menor duvida a este respeito; porém isso quer dizer que haverá matéria para novos Tomos; e por esta causa poremos em frontispício deste = Tomo primeiro.

Um agudo Jacobino sustentou em um Café, que um Vocabulário Republicano era inútil, pois que daqui a duzentos anos, e talvez antes, teriam voltado os Vocábulos a seu antigo significado; e se agora p. ex. Felicidade dos Povos, significa extrema ruína e miséria, daqui a dois séculos significará, ainda que republicanamente, o que antes significava.

Porém apesar de tudo, sobram-nos fundamentos para crer que os sucessores dos ilustres autores da linguagem republicana, se existe (o que Deus não permita) por todo esse tempo, terão sumo cuidado de conservar a língua em sua primitiva pureza. Além de que, como a presente geração não há de ter a honra de falar com os Republicanos, que hão de viver daqui a dois séculos, a deseja vivamente entender aos que agora vivem, por esta causa o presente Vocabulário não pode deixar de ser de suma utilidade.

(continuação, III parte)

09/09/14

O LIBERALISMO DESENVOLVIDO (II)

(continuação da I parte)

Os Representantes da "nação" [entenda-se "Reino"], quero dizer: os verdadeiros constitucionais, os organizadores do divinal Sistema Constitucional: estes homens ilustrados, em cujas luzes, saber, e probidade, toda a nação tem posto a sua confiança; estes homens, digo, estabelecem a Religião Santíssima de nossos avoengos, por base fundamental da grande obra em que se acham empenhados; e bem a palavra não é dita, eis que aparece uma corja de patifes com a mascara de liberais, embrulhados ao mesmo tempo na asseada capa de constitucionais , e começam a invectivar contra tudo aquilo, que diz respeito a esta divina Religião! Que nome se há de dar a isto? Não merecem todos que se lhe aplique o récipe genebrense "seja castigado, seja banido"? Ámen.

[Comentário Ascendens: nesta altura ainda muitos não se tinham dado conta do problema do constitucionalismo, e começam a perceber gradualmente com o intento dos liberais. O conceito "nação", era uma moda no exterior, e que sem querer foi lentamente introduzida pela necessidade de designar os outros estados que se sobrepunham aos Reinos que ocupavam; conceito largamente difundido pelos republicanos e liberais. Portanto estamos perante um texto de transição.]

Que não merecem esses desastrosos pregadores do indiferentismo, esses descarados apóstolos da tolerância, que pretendem abrir o Céu a todo o mundo com as perras e ferrugentas chaves de uma filosofia insana; berrando estouvadamente pela indiferença das Religiões, pela anti-politica, anti-religiosa, anti-constitucional tolerância dos cultos? Que merecem se não o récipe do Genebrense "sejam banidos sejam castigados"? Ámen.

[Comentário Ascendens: este indiferentismo, também condenado pela Igreja na voz dos Papas, também foi conhecido por "tolerantismo"].

Que depravados! Que pretendeis vós? Quereis fazer aquilo, que Deus não quer, nem pode consentir! Belial pode por ventura estar debaixo do mesmo tecto com o Deus saníssimo de nossos Pais? Quereis casar o erro com a verdade? Poderá Deus ser honrado por duas coisas, que reciprocamente se destroem? Quereis admitir mais do que uma Religião, aonde se não admite mais do que um Deus?

[Comentário Ascendens: pode o leitor de hoje interpretar mal a última frase. Nela o autor não faz apologia de que na verdadeira Religião haja mais que um Deus; quer ele salientar o erro junto com o absurdo de quererem verdadeira mais que uma religião ao mesmo tempo que sabem que nelas não se admite mais que a possibilidade de existência de um único Deus verdadeiro.]

Já ninguém duvida que o vosso maligno intento, é descatolisar os portugueses, e levá-los pela tolerância de todos os cultos, a ficarem por fim sem culto nenhum. Mas que impiedade não é, abusar tão desumanamente da fraqueza do homem, armando-lhe iscos para o fazer eternamente, e temporalmente desgraçado! E não é isto suscitar um cisma? Não é isto chamar os povos à anarquia, e à desgraça, ao mesmo tempo que se está trabalhando na sua regeneração politica? Que é pois o que isto merece, se não o récipe do genebrense " sejam castigados, sejam banidos"? Ámen. Ouvi ainda perversos, ouvi uma lição daquele doutor, cuja autoridade vos não é suspeita, e do qual só imitais a impiedade, e os paradoxos: "É justo", diz Rosseau na sua carta a Mr. Beaumont (pág. 81 linha 25) "é justo que qualquer obste, e se oponha à introdução a um culto estrangeiro no seu país". É o mestre condenando aqui à injustiça dos seus discípulos! Mas ele ainda que ímpio, era hum sábio; e vós quem sois? ….. Deixai entrar, e sair o judeu, deixai entrar e sair o turco, o china, o protestante, o gentio: A Religião de Jesus Cristo não se opõem a isso :  Comerciai com eles, falai com eles, casai com eles, dançai com eles …… Que mais quereis? Levai-os convosco a essas covas subterrâneas aonde preside o génio das trevas; mas não queirais com seus templos abrir a porta da desgraça para os portugueses. Ora diga-me meu estonteado velho, quem é que forma ensaios de reacção contra a nova ordem das cousas? Quem é anárquico, e provocador da rebelião! É o Padre Macedo, ou é Vossa Mercê e os seus camaradas? São Vossas Mercês, que atacam as bases da constituição, ou é o Padre Macedo que vos ataca a Vossas Mercês? …..  O prologo já vai saindo grande, mas os meus leitores hão de desculpar-me, e ter paciência ainda mais um pouco, porque me encarozinei com este rafeiro e estou disposto ou a manda-lo ladrar a uma Horta [como muitas das palavras iniciam por maiúscula, neste caso não sabemos se é esta uma referência à Horta nos Açores com relação ao problema da Ilha Terceira, ou se trata apenas de ir "ladrar às couves" numa horta], ou fazê-lo calar.

"A batalha da Praia foi um combate naval no dia 11 de agosto de 1829, na baía da então Vila da Praia, em que forças Miguelistas [portanto, do Rei D. Miguel I - tropas oficiais portuguesas] intentaram um desembarque naquele trecho do litoral da Ilha Terceira, nos Açores. A derrota dos absolutistas [portugueses, assim chamados pelos liberais] neste recontro foi decisiva para a afirmação e posterior vitória das ideias liberais em Portugal". (Wikipedia)
Ora venha cá meu velho: vamos conversar um pouco ainda, sobre a definição que Vossa Mercê dá da palavra liberal. Aonde achou Vossa Mercê  que liberal vem de  libertas? Se é descoberta sua, gabo-lhe a habilidade; mas não posso relevar-lhe o descoco, a ousadia, o atrevimento com que Vossa Mercê quer introduzir um termo novo numa nação, sem que apresente as credenciais, que o autorizam para isto. "Um decreto", diz Mr. Malte-Brun, "um decreto pode naturalizar hum individuo; mas não uma palavra que seja contraria ao génio da língua", este termo "liberal" na acepção em que Vossa Mercê o quer tomar é novo, e pela teima com que Vossa Mercê ao-lo querer encaixar, faz-se suspeito. Creio que Vossa Mercê não ignora o que diz Quintiliano à cerca dos que podem autorizar o uso das palavras numa nação; que são só aqueles "penes quos est jus, norma que lequendi et amp;c.  et amp;c." Ora, Vossa Mercê querendo confiadamente, meter-se no rol destes bicharocos, volta-se para o Padre Macedo, e falando-lhe em tom de Mestre (na pág. 5 linha 26) lhe diz assim : "Liberal meu Reverendo Padre" (lembrou-se logo aqui aplicar-lhe o sus Minervam) "liberal vem de libertas".

Porém meu velho, se liberal vem de libertas, que significa liberdade; então também se poderá dizer que livre vem de liberalitas, que significa liberalidade, porque "contrariórum eadem est ratio".

Mas se eu tenho um termo próprio para explicar o que é ser livre, e o que é ter liberdade; para que hei de ir para isto buscar um termo, que só exprime o que é ser liberal, e o que é ter liberalidade? A primeira cousa exprime-se por liber, e por libertas: a segunda por liberalis e por liberalitas: de maneira, que nem libertas é liberalitas, nem liber é liberalis. Cada um é quem é. Liberal descende por linha recta de liberalitas, e se tem algum parentesco com libertas, há de estar no mesmo grau em que estava o Manteigueiro com o Vilar de Perdizes. Ora, liberalitas, verdadeiro tronco de liberal, significa liberalidade, virtude moral que designa munificência, generosidade, franqueza, de maneira que o homem, que pratica esta virtude, é tido por um homem dadivoso, munífico, generoso, franco: qualidades, que praticadas dentro dos limites duma prudência esclarecida, estabelecem o homem liberal, entre o pródigo, e o mesquinho. Isto sim, isto entendo eu; agora que liberal venha de libertas? À page nugas!

28/02/13

A BABEL - O CAOS DAS "LÍNGUAS" E OUTRAS COISAS

Tem-me vindo a parecer que há uma crescente confusão babilónica. Há um caos das línguas, ou melhor, o caos dos conceitos que atravessam as várias línguas. Esta confusão geral é por sua vez fruto do "modernismo" (mas isto é outro assunto).

Um moço brasileiro veio em conversa dizer que a Igreja mudou o seu conceito de "tradição". Ora, como sabemos, a Igreja não muda conceitos profundos, nem doutrinas, porque é Santa e inerrante. Esta mesma ideia de mudança já me foi apresentada várias vezes por alguns "modernistas" e por alguns "tradicionalistas", com as diferenças seguintes:

"Modernistas": dizem que a Igreja mudou, e que isso é bom;
"Tradicionalistas": dizem que a Igreja mudou, e que isso é mau.

Com esta mostra sublinho o erro em se achar que a Igreja teria mudado em questões tão fundamentais e inalteráveis.

Dizia-me o mesmo moço que há como que uma "Igreja do Concílio". Mas o mesmo é dito por alguns "modernistas" e alguns "tradicionalistas", com as divergências seguintes:

"Modernistas": dizem que a "Igreja do Concílio" é uma renovação da Igreja depois do Concílio Vaticano II e que, de certa forma, libertaram-se do passado da Igreja;
"Tradicionalistas": dizem que a "Igreja do Concílio" é uma outra Igreja diferente da Igreja Católica que apareceu com o Concílio Vaticano II.

Com esta mostra friso o erro de achar-se que a Igreja tivesse pelo Concílio Vaticano II dado origem a uma outra Igreja real.

Esta é a mostra de um problema grande que não para sem um uso mais preciso de designaçõs!

O que há a dizer a este moço brasileiro?

A Igreja é inerrante, não transmite erros, em vez alguma esteve errada e o pecado do homem não a afecta quanto à sua inerrância. É quem se afasta dos seus muito antigos ensinamentos quem erra e se afasta d'Ela (ou parcial ou totalmente). Isto basta para avisar que a Igreja não pode ter alguma vez mudado algo tão fundamental como o conceito de "tradição". Logo, evidentemente, a Igreja não mudou o seu conceito de tradição, nem mudou nada de substancial. Se alguma mudança foi feita, ela não pode ter partido da Igreja nem se opera realmente na Igreja (a Igreja é imaculada). Por mais que os acidentes sofram a essência da Igreja permanece.

Há possibilidade de tudo isto ser de outra forma? Não! A inerrância da Igreja não possibilita equívocos. Existe a possibilidade de ter-se tratado de uma evolução do conceito, de tal forma que possa parecer agora dois conceitos diferentes? Não! Pois nesse sentido não seria realmente uma evolução mas sim uma ruptura (ou deturpação) que são exactamente conceitos opostos - para ser uma evolução o primeiro estádio deverá conter inteiramente em potência o estádio final.

Aparenta...
O uso de "Igreja do Concílio", na realidade, só pode ser usado em sentido figurado, caso contrário cai-se em alguns problemas como: achar ou fazer pensar que foi fundada realmente uma nova Igreja no Concílio Vaticano II. Ora, presume-se que uma mesma pessoa não pode estar numa Igreja ao mesmo tempo que está em outra Igreja que se diferenciassem unicamente por doutrinais diferentes! Logo a hierarquia de uma obrigatoriamente não podia ser a hierarquia de outra, a não ser, claro está, que uma delas não exista mais que em nome, nome esse que é um recurso para identificar um problema.

Aqueles "modernistas" que julgam existir uma "Igreja do Concílio" propriamente dita são levados por acharem que houve um salto evolutivo da Igreja, mas nunca o conseguem demonstrar (confundem "evolução" e "ruptura"). Aqueles "tradicionalistas" que julgam haver realmente uma "Igreja do Concílio" são levados por acharem que houve uma ruptura como que autorizada pelo Concílio Vaticano II, e que terá possibilitado a criação de uma outra Igreja (como uma seita); contudo nunca conseguem demonstrar que essas divergências doutrinais constituem uma ruptura formal, ao ponto de fazerem crive a fundação real de uma outra Igreja.

Ora esta configuração problemática é tão dramática que a inteligência não a suporta sem estar muito distraída (coisa que é mais comum e compressível do que se costuma imaginar). Chega-se ao ponto de colocar lado a lado a Igreja Católica com a "Igreja do Concílio" como se fossem coisas comparáveis (no caso de alguns "tradicionalistas"), e coloca-se também a "Igreja do Concílio" coincidindo com a Igreja Católica (no caso de alguns "modernistas").

Recentemente, ouvi uma senhora usar "Igreja do Concílio" junto com "Igreja Católica" para dizer que se tratam de duas igrejas diferentes. Ao ouvir isto eu emiti um ruído: "ahhhhhmmmmm....!?" seguido de um "ohh não...!!!". E queixava-se ela que há quem diga que aquelas duas Igrejas são a mesma! E com toda a razão: não são mesma, mas também não são diferentes, ou melhor, não são designações comparáveis. Uma delas designa a Igreja e a outra uma metáfora de um problema na comunidade católica ou, colmatando o erro dos "modernistas" seria uma metáfora de um renovamento da mesma Igreja (que na verdade não pode ter acontecido). E aqui há que dar razão à parte tradicionalista (toda ela): há um problema real de conflito entre o que se julga hoje ser católico e aquilo que sempre a Igreja ensinou (e ensina) ser católico. É impossível que uma suposta renovação da Igreja tenha tantos conflitos directos com a Doutrina sempre transmitida e o Magistério Papal continuado.

O perigo disto é que os "modernistas" em geral criam a ideia de que seria legítimo adoptar qualquer doutrina ou enunciado não porque ele venha do que a Igreja sempre ensinou mas porque ele vem de uma parte ou da maioria da hierarquia actual. Por outro lado há o perigo de haver alguns "tradicionalistas" que recusem honrar e obedecer à hierarquia alegando que ela ensina agora doutrinas e pensamentos em contradição com o que a Igreja sempre ensinou. Há quem vá para lá desse limite e como que demite quase toda a hierarquia da Santa Igreja enquanto esta não aceite formalmente a totalidade da Doutrina e pensamento católicos (o que leva a um "sedevacantismo" prático, ou mesmo a um cisma material- é nestes casos que surge a falsa ideia de "Igreja do Concílio" como se de uma Igreja de facto se tratasse).

Para finalizar, e apenas para que não escape um assunto tocado: a obediência à sagrada hierarquia da Igreja não é uma opção, é uma obrigação sobe pena de pecado mortal. Se não há realmente duas Igrejas, se não há realmente duas hierarquias, tem de haver obediência honesta a toda a hierarquia, contudo a obediência a Deus que é mais alto, passa também e claramente pela aceitação inequívoca da Doutrina e da moral. Ora, a Doutrina é expressão da vontade de Deus e não pode ser rejeitada ou diminuída, assim, nos casos em que algum superior hierárquico (Bispo, pais, patão) mande ou ensine algo contra o que Deus ensinou pela Igreja deve-se resistir (ou seja: deve não se cumprir essa ordem nem aceitar esse mesmo ensinamento). Acontece que hoje há um caso especial: a esmagadora maioria dos superiores (da militância da Igreja, família, ou  trabalho) estão distantes da Doutrina e pensamento católicos por gradual substituição de crenças e conceitos (e por décadas), que há a necessidade de criar protecção (ou seja "resistência" no sentido de protecção e não de ataque): o estado de necessidade tornou-se tal que a exposição aos agentes comuns de difusão de mensagens tornaram-se o "vírus" mais comum e à maioria como que invisível.

Muito, muito, muito haveria a dizer.

16/09/12

"VIOLÊNCIA" - OUTRA PALAVRA MUTILADA (III)

(continuação da II parte)

Violência que se há de fazer à enfermidade

“Agiológio Dominicano, Vida dos Santos, Beatos, Maryres, …” Tomo: Abril/Junho. LISBOA, 1710

(pág. 8) “Em prémio destas dores o regalava Deus muitas vezes, fazendo que esquecido de todas as coisas criadas, se deliciasse entre as doçuras do Paraíso. Era tal o ímpeto do seu espírito, nestas ocasiões, que lhe era necessário fazer violência ao corpo, para se não elevar; especialmente quando se achava em público ou celebrava o Santo Sacrifício da Missa,”

(pág. 100) “Quando as Religiosas de Procena souberam o que passava, lhe mandaram pedir perdão da desobediência, conhecendo que não há força na terra que possa resistir à violência da Oração feita por uma alma amante de Deus.”

(pág. 125) “De tal sorte se elevava em Deus, especialmente no Ofício Divino, que se era necessário dizer-lhe alguma coisa no Coro, devia preceder puxarem por ela com empenhada violência, para a fazerem entrar em si.”

(pág. 203) Da carta que o Rei D. Sebastião enviou ao Papa S. Pio V: “Damos infinitas graças ao poderoso Deus, que foi servido aceitar as piedosas lágrimas de Vossa Santidade, e os contínuos jejuns em idade tão pesada; pois por sua grande misericórdia, ouviu as suas fervorosas súplicas e enternecidos suspiros que fizeram violência ao Céu.”

(pág. 222) “Com efeito, sem mais justiça nem razão que a sua vontade e ambição, lançou os Religiosos fóra do Mosteiro por violência, prometendo edificar-lhe outro.”

(pág. 223) “Muitas vezes era sua alma arrebatada com tal violência que, levando juntamente o corpo, o viam suspenso no ar em maravilhosos extasses.”

(pág. 253) “A devoção para com o Senhor Sacramentado foi imponderável. Na sua Divina presença, como no seu centro, é que as vorazes chamas do amor de Deus que a consumiam, minoravam de alguma sorte a sua santa e amável violência.”

(pág. 254) “Um Cavalheiro ameaçou-a que visto não querer condescender a seu apetite, alcançaria a violência, o que não podia conseguir o interesse ou o rendimento. Respondeu ela que o braço de Deus era mais valente que todos os atrevimentos humanos;”

(pág. 273) “Publicou-se um édito contra os Ministros da Fé Católica, e sobre estavam já presos os que andavam pelas outras Cidades. Disse-lhe o Vice-Rei, que era seu afeiçoado, se ausentasse ou escondesse enquanto passava esta primeira violência: porém ele desejava tanto firmar com o seu sangue as verdades da sua pregação que agradecendo a amizade não aceitou o conselho.”

12/09/12

"VIOLÊNCIA" - OUTRA PALAVRA MUTILADA (II)

Continuação da I parte

A má violência pode passar por Bem quando os valores estão já invertidos

“Polyanthea Medicinal…”, João Curvo Semmedo.
LISBOA, 1716

(pág. 95) “João Kentmano 4. No livro das pedras que se criam no corpo humano, refere que em Liptia morrera um homem por violência de dores de cabeça, que o haviam assaltado, por haver comido umas amoras;”

(pág. 147) “A segunda reposta é; porque o Chá é um remédio que obra sem fazer violência à natureza, nem enfraquecendo o estomago, como fazem os vomitórios, as sangrias, as purgas, as pirolas e apozemas.”

(pág. 369) “ e a razão é; porque o Quitílio tira só a cólera, e os soros, que com a sua quentura, e acrimónia abrem as veias, e adelgaçam o sangue, para que corra com mais violência; e esta virtude não tem a têm as sangrias, “

(pág. 623) “; mas quando o fastio for tão invencível que por mais violência que o doente se faça não possa levar comida alguma para baixo,”

(continuação, aqui)

TEXTOS ANTERIORES