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25/01/16

1 de JANEIRO - AGIOLÓGIO LUSITANO - COMENTÁRIOS (I)

S. Félix eremita
COMENTÁRIOS DO AGIOLÓGIO LUSITANO AO DIA 1 de JANEIRO

a) Damos princípio ao Agiológio dos Santos de Portugal com S. Félix (dado que lhe não sabemos dia próprio) por ser o primeiro fundador, e pai da vida eremítica e monacal neste Reino. E suposto que a Igreja Católica chama a S. Paulo de primeiro Ermita, florescendo pelos anos de 300, contudo parece que o faz seguindo a mais universal notícia que há dos que viveram na Thebaida, Egipto e outras províncias Orientais, e não como definição Eclesiástica precisa, de que não houvesse outro nenhum antes em alguma parte do mundo; pois os antigos Breviários deste Reino, não só manuscritos, mais impressos nas lições de S. Pedro de Rates, e com eles todos os Autores que trataram sua vida (que são inumeráveis) afirmam que sendo martirizado a cruéis estocadas, deixando os ministros da maldade o S. corpo envolto em seu próprio sangue, e assim esteve alguns dias, até que um santo Ermita por nome Félix, que habitava naqueles desertos, olhando com atenção da diversas partes, viu por muitas vezes como resplandecentes raios de claridade desciam do céus sobre uma delas, e que ali parava sempre aquela luz. E notando que isto não era o caso, baixou da montanha, em demanda do lugar, onde o resplendor parava, e chegado, viu que aquela claridade divina cercava o corpo do S. Prelado. Maravilhado de tão manifesto testemunho do céu, que certificava quão amigo de Deus era S. Pedro entendeu, que aquela visão lhe mandava desse sepultura a seu santo corpo, e assim lha deu o melhor que pode, não e achando neste piedoso ofício mais que um sobrinho seu, que lhe fazia companhia na vida Eremítica.

O motivo primário que S. Félix teve para se apartar a fazer vida solitária que não constasse foi para mais livremente vocar a contemplação, evitando o túmulo do século, ou se por fugir o ateado fogo da persecução contra os novos professores da lei de Cristo se retiraria do povoado a esta alta montanha, para nela viver, oculto, aguardando que Deus desse paz a sua Igreja. mas de qualquer modo que fosse perseverou muitos anos nesta Angélica vida, e algumas centúrias antes que S. Paulo, pois o nosso Santo floresceu pelos anos 46 e S. Paulo no de 300, como fica dito.

S. Pedro de Rates
S. Félix foi sepultado na mesma Igreja que os fiéis levantaram sobre a sepultura do santo mártir, onde se vê ainda hoje a do santo Eremita, aquém os Portugueses chama S. Fins, e por esta causa as mais das Igrejas antigas que há desta inovação são dedicadas a ele, porque foi sempre costume dos naturais deste Reino dedicarem particulares Igrejas a seus próprios Santos. Porém com a translação das preciosas relíquias de S. Félix Diácono de Girona ao antigo Convento de Chelas junto a Lisboa que os Martirológios trazem ao 1 de Agosto) se perdeu, ou pelo menos confundindo a devoção do nosso S. Felix festejando-o no mesmo dia por se lhe ignorar o próprio. Mas na Ermida de S. Fins situada num alto monte que conserva o próprio nome, de que se descobre amor parte da terra de Fão até Matosinhos está a imagem deste Santo em hábito de Eremita, e dizem per tradição os naturais daquela comarca, que é daquele Santo, que deu sepultura a S. Pedro de Rates, e assim lhe fazem a festa neste dia. Tratam de S. Félix todos os Autores que escrevem de S. Pedro de Rates, que por não alega-los duas vezes se podem ver na vida do dito Santo em 26 de Abril. Por ora só citarei a D. Francisco de Padilha, que na história Eclesiástica de Hespanha, I. C. 16, lhe chama primeiro Eremita. E também António Brandão Cronista mor deste Reino na pág. 3 da Monarchia Lusitana (I 8 c. 32 e I 9 c. 9)

Resta agora darmos notícia desta igreja de Rates, a qual é sagrada, de três naves, de largura, e altura competente, e ao presente é Comenda da Ordem de Cristo; e antigamente foi mosteiro, cujo sítio est´um seco vale desviado de Vila do Conde légua e meia, e por seu respeito se fundou ali a vila de Rates, a qual em outro tempo foi mui principal, pois dela se denominaram os Ratinhos. Esta assolaram por vezes os Castelhanos nas entradas que fizeram neste Reino, e como a terra é geralmente pobre, é hoje coisa de mui pouca importância.

De que Ordem fosse este mosteiro, é mui fácil de averiguar; suposto que os Cónegos Regulares querem que seja da sua; não sei com que fundamento. Que fosse do Patriarca S. Bento não há dúvida, porque disto temos duas provas evidentes. A primeira de Marco Máximo no seu Chornicon pag. 209, o qual referindo os Prelados que se acharam no III Concílio de Toledo traz entre eles: "Sancrus Stepanus Abbas Ratensis Ordinis S. Bebedicti" (de quem trataremos em seu dia 13 de Fevereiro). A segunda do arquivo real 3 do Rei D. Dinis (fol. 94) onde se vê a doação que a Rainha D. Teresa fez aos monges da Caridade da Ordem Clunicense no ano 1100 que nele habitavam, donde consta claramente, que esta Rainha o reedificou no modo que hoje persevera, e dela é o vulto, que ali se conserva em nicho, vestindo ao modo antigo, com cetro na mão, e na da Rainha D. Mafalda como querem nossas Crónicas.

No cartório de S. Cruz de Coimbra temos também outras duas provas desta verdade. A primeira no livro velho dos óbitos, onde: 5 Kal. [?] Prior de Rates, e Monachus de Caritate. E. 1300. A Segunda é do livro santo  (pág. 71) em que se relatam as muitas demandas, que o mosteiro de S. Cruz teve sempre com os Monges da Caridade, que moravam em S. Justa de Coimbra: onde a palavra Monges numa e noutra parte, exclui a de Cónegos, além de que não parece haviam de ter demandas tão travadas, se não foram de tão diversas Religiões.

(continuação, II parte)

08/10/15

PORTUGAL, AGRICULTURA, E MOUROS (I)

MEMÓRIAS DE LITERATURA PORTUGUESA,
Publicadas
pela
ACADEMIA REAL DAS CIÊNCIAS DE LISBOA

Tomo II

LISBOA
Na Oficina da Mesma Academia
ano 1792
Com licença da Real Mesa da Comissão Geral sobre o Exame,
e Censura dos Livros.


[...]
§ I
DO TEMPO DO CONDE D. HENRIQUE ATÉ ElREI D. PEDRO I

O Terreno que chamamos Portugal, no tempo do Conde D. Henrique era, grande parte, senhoreado de Mouros, inimigos irreconciliáveis dos Nacionais, com que viviam quase sempre em crua guerra. O carácter da guerra daqueles tempos era principalmente de corridas, de falto, e de pilhagem, a ordem de parte a parte se roubavam os frutos, e os rebanhos. Os Lavradores, destas contínuas inquietações sempre assustados, apenas cultivavam as terras mais vizinhas às casas fortes, e povoações muradas, donde facilmente pudessem ser auxiliados das irrupções dos inimigos. Com a mão, hora nos instrumentos da cultura, outra hora nos da guerra pela maior parte colhiam, e pelejavam.

Nas Províncias do Minho, Trás-os-Montes, e uma parte da Beira se vivia com mais repouso. Aí mais a salvo os Lavradores, semeavam, e colhiam. as colheitas eram principalmente de trigo, centeio, cevada, e legumes. As frutas, e hortaliças eram abundantes à proporção do povo. O azeite era raríssimo no Minho; havia suficiente na Beira, e Trás-os-Montes (vemos isto por algumas escrituras, e doações daquele tempo, que se guardam nos respectivos cartórios, e também pelos forais; muitos nos refere Fr. António Brandão na Monarchia Lusitana, e o P. D. António Caetano de Sousa nas Provas das memórias Genealógicas da Sereníssima Casa de Bragança): do mesmo modo era o vinho. Os mais géneros floresciam medianamente.

Ainda então se não tinham introduzido tantas diferenças de qualidades na Ordem política. Um Lavrador era um homem bom, um homem honrado, que rodava com todos os bons Patriotas, e ocupava os honrosos cargos públicos do Lugar em que vivia.

O Conde vendo, que havia bastantes terras incultas, que era necessário cultivarem-se para a subsistência do Estado, e que por outra parte os cuidados da guerra lhe não deixavam empregar-se de propósito neste empenho, buscou modo, com que, sem faltar ao ministério das armas, promovesse a Agricultura. Repartiu largamente as terras incultas por alguns corpos de mão morta, com às Catedrais de Braga, e outras, e aos Monges Benedictinos; e também por muitos Senhores da sua Côrte, que as fizessem cultivar (que fez doações a vários Senhores da sua Côrte, prova-se pelos testemunhos apontados nos referidos AA. "Deus a Alberto Tibão, e a seu Irmão, e aos mais Franceses o campos de Guimarães junto ao seu Paço." Sousa T. I das prov. nº 2 "Também deu a Egas Moniz o sítio de Britiande, que logo pobrou, e fez aí quinta e morada." consta do liv. das doações do Mosteiro de Salzedas, referido por Brandão Part. III liv. VIII cap. 20; aí mesmo se leem estas palavras "e D. Henrique.... deixou-lhes haver quanto filhavam e contava-lho, e assim fez a D. Garcia Rodrigues e a D. Paião seu irmão, que lhes contou o Couto de Leomil etc..."; no mesmo lugar se acham outros muitos testemunhos; também o Conde fez fundar novas povoações de Lavradores, para multiplicar os homens, honrados a estes novos povoadores com graças e privilégios; para prova disto basta ver o foral da Vila de Constantins de Panoias, que refere Sousa no tom. I das Provas nº 1). A Catedral de Braga repartiu estas terras, aforando umas, dando outras aos Lavradores com a convenção de certas partilhas na colheita dos frutos.

Os Monges em parte fazendo o mesmo que a Catedral, em parte dando ainda melhor exemplo, também promoveram a cultura. Viviam ainda estes respeitáveis Monges em todo o rigor dos trabalhos Monásticos. Multiplicaram, com o favor do Conde, os Mosteiros, onde se recolhiam nas horas do repouso, e Oração. O mais tempo empregavam em cultivar por suas próprias mãos as terras que lhes foram doadas, dando testemunho público da sua observância, e do amor ao trabalho honesto, e proveitoso, fundando ao mesmo tempo muitas povoações, e Freguesias para cómodo daqueles seculáres, que por algum modo se agravam às suas lavouras, donde veio ser a Província do Minho a mais povoada, e por consequência a mais abundante.

Mosteiro do Lorvão
Estas Comunidades de Monges lavradores se aumentaram tanto, que além dos Mosteiros Lorvaniense, e Bubulense serem muito povoados, o Palumbário, segundo escrevem alguns, chegou a ter 900 Monges (Que os Monges Beneditinos viviam do seu trabalho manual, já desde as suas fundações em Portugal, e antes do tempo em que falamos, além de ser conforme à sua regra, e testificado pelos seus anais, se deduz da doação, que fez ElRei D. Ramiro aos Monges de Lorvão, que não querendo eles possuir herdades, e sustentando-se como Lavradores jornaleiros, o Rei lhes dá uma herdade, e os obriga a aceitar "quoniam inter istos montes non habetis campos ad laborandum" prova de que eles trabalhavam nos campos para se sustentarem. Que os Monges deste Mosteiro trabalhavam por suas mãos nas herdades que já depois possuíam, prova-se porque as suas lavouras eram muito grandes. Tais, como se colhe de doação que lhe fez ElRei D. Sancho de Leão, que contendo, como quisera levantar o cerco de Coimbra por falta de víveres, acrescenta: "os frades me deram de tudo o que tinham para comer, ovelhas, bois, porcos, cabras, aves, pescados, e muitos legumes, pão, e vinho sem conto que.... tinham guardado etc."; tais eram as suas colheitas que sustentaram um Rei, e um exército - estas não podiam ser feita senão pelas suas mãos; porque tendo sido, depois de expugnação de Coimbra por Almansor, levadas cativas a Sevilha "todas as pessoas que eram de trabalhar"; e algumas poucas que ficaram, constrangidas pela escravidão, a servir aos Mouros, que dominavam a terra, como podiam ter os Monges tanta cópia de criados para tão grandes lavouras? nem os Mouros lhos consentiam, principalmente tendo tão perto o Mosteiro Bubulense, ou da Vacariça, que unindo-se seriam temíveis aos inimigos; além disso "Os Mouros deixavam trabalhar aos Monges pagando-lhes certo tributo, e ainda sim os vexavam."; são palavras de um monumento antigo referido por Fr. Manuel da Rocha no Portugal Renascido - Que o mosteiro Paumbário, ou de Pombeiro, tivesse 900 Monges, diz Fr. Leão de S. Tomás nos prolómen, às Constituições Beneditinas; outros duvidam do número; como quer que fosse, sempre era grande; o mesmo A. refere uma passagem do Livro dos usos do dito Mosteiro, que determina, que "na 5.ª feira Maior se chamem para o Lava-pés tantos pobres, quanto Monges houver: e no caso de se não acharem tantos pobres Curet Soliem (o Abade) quos centum et viginti minime deficiant."). A utilidade intrínseca de Agricultura, os exemplos destes virtuosos Monges, o favor do Príncipe, e dos poderosos, para o aumento da povoação, e por consequência da Cultura, tudo animou os homens, e começaram a empregar-se com mais gosto nos trabalhos da lavoura.

Neste tempo ainda não era cultivada por nós, mais que uma pequena parte da Estremadura. A Beira nem toda era cultivada, o Além-Tejo era ocupado de Mouros, que não deixavam trabalhar os naturais, oprimindo-os ou com a escravidão, ou com a guerra.

Entrou o governo DelRei D. Afonso Henriques, em cujo tempo já nas três Províncias havia muita colheita de grãos, vinhos, e azeite, principalmente nas vizinhanças de Coimbra. Duarte Galvão, e Duarte Nunes de Leão nos contam, que estando este Príncipe em Guimarães vieram os Mouros cercar Coimbra, e destruíram "pães, hortas, vinhos, e olivais, com tudo era tanta a abundância destes géneros na Cidade, que davam cinco quarteiros de trigo per um meravidy de ouro e dois moros de vinho por outro maravidy" são formais palavras por que Duarte Galvão se explica (Duarte Galv. Crónica Cap 7).

As armas Portuguesas conduzidas por este Príncipe foram correndo pela Estremadura, entrando por Além-Tejo, e compelindo os Mouros até aos fins da Monarquia. Novas terras conquistadas pediam novos povoadores, e colonos. Ele todo ocupado na reparação da Pátria, vendo que os trabalhadores da guerra lhe não deixavam pôr todos os esforços no aumento da Cultura, seguiu os vestígios de seu Pai, já em cuidar, que se fizessem novas povoações, já em repartir as terras pelos Corpos de mão morta; deu muitas às Catedrais de Viseu, e Coimbra, que fizeram fundar inumeráveis povoações (consta das nossas Crónicas, da Monarquia Lusitana, e de infinitos documentos dos referidos cartórios; fez das terras de Coja outro, e Senhorio dos Bispos de Coimbra, que as fizeram cultivar - Brand. Part. III liv. 9 Cap.18), outras muitas ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (o livro das doações de S. Cruz está cheio de provas "Fez o couto de Verida a esta Casa, na Era de 1204 e deu suas terras para se fazerem abrir", "deu também o Castelo de S. Olaia"; A doação deste Castelo traz Brand. Part. III Liv. II Cap. 7; também lhe deu Leiria, da qual o Rei diz "Quod castruns in terra deserta ego primitus edificavi" Id. Part. III Liv. 9 Cap. 25). Estas corporações repartiram também as terras pelos seus colonos com foros, ou por convenções de partilhas na colheita, por terço, quarto, e oitavo; e esta foi a origem dos direitos que este Mosteiro ainda hoje tem nos campos de Cadima, Tocha, Antuzede, Reveles, Ribeira de Frades, Condeixa a nova, e Vetride povoações, que aquela Comunidade ou fundou, ou reedificou para cómodo dos seus Lavradores.

(a continuar)

16/05/14

REPOSIÇÃO - VIDA DE S. TEOTÓNIO (II)

(continuação da I parte)

- Do capítulo XII da II parte, ponto 2, e "Aditamento" :

"2. Movidos com esta exortação, todos os religiosos permaneciam diante do Senhor, fazendo suas súplicas públicas, e particularmente. Mas o Prior depois de continuar as súplicas, e deprecações devotas a Deus, as quais seria mui dilatado respeito agora; com todo o coração mais fervorosamente orava, para que pela mizericórdia do Redentor merecessem ser consolados no livramento de velho, os que por seu cativeiro estavam tão tristes. E de um modo admirável, enquanto isto passou no Mosteiro, eis que sem ser esperado o velho se prezentou são ao dia décimo quinto de seu cativeiro, livre, e absoluto, com grande glória, sem detrimento, e diminuição das coisas que levava, com o mesmo número de soldos; entregues também com confiança na sua palavra doze cativos. Deixo de contar o modo porque Deus todo poderoso o livrou do cativeiro pela fraude salubérrima de certo pagão, por não estender a grandeza do livro, principalmente numa coisa que está divulgada na boca de todo o povo. Vedes pois de quanto merecimento foi este santo, quanto fosse o pio desvelo que tinha dos seus, e cuja oração foi tão poderosa diante do Senhor?

Aditamento

Ano de 1147, cercando a cidade de Lisboa o santo Rei [D. Afonso Henriques], fez voto de erigir dois templos, se alcançava victoria dos mouros, um a S. Vicente Mártir, outro com o título de S. Maria; para a erecção do primeiro mandava ir de S. Cruz ao santo velho Honório, ao qual sucedeu o que fica referido. Por sua demora entregou o fundador seu mosteiro aos Cónegos Regrantes Premonstratenses alemães; mas tendo sua diferença com eles, fez que S. Teotónio lhe enviasse outros de S. Cruz, dos quais foi em S. Vicente, Câmara Real, o primeiro Prior o Venerável D. Godinho. Em quanto à milagrosa liberdade que conseguiu o velho D. Honório, nos podíamos queixar do anónimo omitir as circunstâncias, que diz andavam na boca de todos; mas hoje se ignoram, constando só ser prodígio das orações de S. Teotónio, e o mais que referes o anónimo.

- Do capítulo XIII, chamado "Sua diserção em admitir, e tratar os religiosos", da II parte, o ponto 1 :

"1.  Tinha também este costume, de não admitir mas religiosos na Congregação, do que parecia justo, e que pudessem ser sustentados pelas rendas do Mosteiro. E aqueles que recebia cuidava em assistir com abundância com toda a consolação da alma, e corpo. Imitava o que faz o médico peritíssimo, que pondo grande diligência na cura, aplica a cada um dos enfermos o que lhe é mais conveniente, e isto com toda a diligência. Assim em corrigir os costumes ponderava muito, que segundo a quantidade das chagas, se dessem os lenitivos da cura; para nem dar a um o que fosse nocivo, nem negar a outro o que podia aproveitar: e era sempre benigno, e clemente com os humildes."

(a continuar)

VIDA DE S. TEOTÓNIO (notas)

Este é o complemento do artigo aqui publicado.


ADITAMENTO

"1. O costume de celebrar nos sábados a Missa de N. Senhora, que D. Teotónio observou em Viseu, e depois introduziu em S. Cruz, se observa ainda; e nos Mosteiros da congregação de S. Cruz se diz esta Missa no fim de Prima, com órgão, e assistência de dois Acólitos, acesas todas as velas no Altar da Senhora. Desta cordial devoção, com que se empregava no culto e obséquio da Virgem Mãe de Deus, se podia justamente reconhecer S. Teotónio remunerado com os tesouros infinitos da graça, e afluência de todos os bens. Vigiava, e orava prostrado diante do altar e Imagem da Senhora; não se cansava de madrugar às portas de seu Templo, e casa de oração. Que virtudes, que prodígios do Céu deixaria de receber, e obrar, quando sem interrupção gozava a felicidade de ouvir a Mãe da divina graça, a Mãe da eterna sabedoria? (Sap. VII. Super salutem et speciem dilexi illam: venerunt mihi omnia bona pariter cum illa). Esta devoção persuadia a todos, querendo encaminhar a Deus as almas redemidas com o sangue de Cristo, valendo-se do auxílio, e patrocínio da Mãe do mesmo Deus, pela qual baixou à terra o Rei da Glória, que convida, e chama todas as gentes ao conhecimento da verdade, e ao prémio e exaltação na eternidade bemaventurada.

2. Pelo desejo de lucrar a todos para Deus, se acomodava ao génio de cada um: alegre com uns não deixava de chorar com outros. Quem padecia enfermidades ou trabalhos, e se não animava de ver compadecido a Teotónio? O amor de Deus, de que procedia o grande afecto e agrado, com que trocava ao próximo, o obrigava a sentir como próprios os males alheios; a buscar por todos os meios o remédio, a consolação, e o alívio de todos. E isto sem excepção de pessoa. Seu amor igual, como fundado em Deus, olhava a cada um como obra das mãos de Deus, como imagem do mesmo Deus. Assim acudia com presteza ao pobre e ignorante, como ao rico e sábio: (Dilectio aequalis facit non acceptari personas. S. Aug. in Jo). Como verdadeiro filho do grande Agostinho, e discípulo fiel do Salvador, em amar a seus irmãos, e lhes solicitar todos os bens possíveis, e os meios de conseguir os eternos; em obras de misericórdia e caridade soube declarar e pagar as obrigações de ser amado e favorecido por Deus."

16/09/12

S. TEOTÓNIO - PRIMEIRO SANTO DO REINO DE PORTUGAL (IV)

(continuação da III parte)


Exercita S. Teotónio as Primeiras Ordens

"3. Levava a luz do Evangelho, e mostrava obras de luz aos próximos. Imaginai, se podeis, quais seriam depois os primores do seu fervor, e de seu zelo santo no Sacerdócio, sendo tão exemplar sua vida no ofício de Ostiário. Não desprezava as cousas mínimas nem as maiores obrigações. Sempre estava solícito, se os altares eram bem asseados, se as paredes eram limpas de todo o pó e teias de aranha, se o pavimento era de todo limpo, o Sacrário puríssimo, os vasos reluzidos, as lâmpadas acesas.

4 . Depois é ordenado subdiácono. Quem poderá explicar, como servia a Deus em humildade, levando ao altar aos diáconos os vasos do Corpo e Sangue de Cristo? E depois os trazia; limpando, e lavava os corporais, palhas, e toalhas: administrava ao Bispo as galhetas, o gumil, e manutérgio; e dava água aos Sacerdotes e Levitas para lavarem as mãos diante do altar? Eu cuido de ser isto evidência, de que nele se preparava um Sacerdote irrepreensível para a Igreja de Deus. Nem referirei a devoção singular, com que dizem, que avisava a todos em voz clara, sendo já diácono, ou a dobrar os joelhos, ou a orar, com que dispensava, e repartia os Sacramentos de Deus; prégava o Evangelho, e assistia aos Sacerdotes em todos os ministérios de Cristo. Ele no altar ajuntava e dispunha as oblações; compunha a mesa do Senhor, e a vestia. Vamos ao Sacerdócio. Ele, como disse, adornado de tais costumes chegou ao Sacerdócio; não seguindo a presunção de alguns, mas ao costume da Universal Igreja. A Igreja sim foi a que o buscou, e chamou; não foi ele o que imprudentemente se ingeriu, e intrometeu.

Aditamentos 

Em Viseu parece residia já S. Teotónio, quando recebeu as suas primeiras Ordens da mão do Bispo de Coimbra. Em Viseu entrou com 16 anos, e aí residiu até aos 34, pois entrava já aos 50 quando tomou a resolução de concorrer para a nova reforma de sua Ordem Canónica, fundando com os mais companheiros o insigne Mosteiro de S. Cruz. Em Viseu, bem dilatado campo de suas glórias, se conservou sempre mui fresca a memória deste se prodigioso Protector. É de especial estimação na Sé a casa do Cabido, lugar próprio da cela em que morreu S. Teotónio."

(continuação, V parte)

01/06/12

TAMBÉM NO PRIMEIRO de JUNHO...

D. Manuel I, Rei de Portugal
D. Manuel I - "D. Manuel, único do nome, e décimo quarto Rei de Portugal, nasceu em Vila de Alcochete situada na Província Transtagana no primeiro de junho de 1469, podendo justamente gloriar-se para inveja das mais famosas Cidades do mundo de ter sido berço de tão augusto Monarca." (Bibliotheca Lusitana, Vol. 3., pag 161) - "Neste próprio ano de 1521 (em que foi Dominical a letra F), aos 13 de Dezembro, dia de Santa Luzia, (que calhou então à sexta feira) pelas nove horas da noite, nos Paços da Ribeira em Lisboa, faleceu ElRei D. Manuel de uma febre, espécie de letargo, (doença, de que na mesma Cidade morria muita gente) tendo de idade cinquenta e dois anos, seis meses, e dois dias, contados desde o primeiro de Janeiro do ano de 1469 em que nasceu; dos quais reinou vinte e seis anos, um mês, e dezoito dias, contados desde 25 de Outubro de 1495 em que herdou a Coroa. Jaz no Real Mosteiro de Nossa Senhora de Belém extra muros de Lisboa, que ele edificou para ter nele seu jazigo, e ser habitado de Monges Jerónimos." (Colecçam dos Documentos Estatutos e memórias da Academia Real da História Portuguesa..., pág. 468)

D. Paio Galvão - Foi natural de Guimarães, filho único de Pedro Galvão e de D. Maria Pais. Foi Cónego Regrante de Santa Cruz de Coimbra. Foi Mestre em Teologia pela Universidade de Pais. Foi Mestre-Escola de Guimarães, Embaixador de Obediência a Roma, mandado por ElRei D. Sancho I. Pelo Papa Inocêncio III foi nomeado Cardeal Diácono no título de Santa Maria in Septisolio no ano de 1206. No ano de 1211 foi Cardeal Bispo Albanense. O Papa Honório III nomeou-o Legado Apostólico para a Cruzada à Conquista da Terra Santa no ano de 1219. No ano de 1225 foi Legado ao Imperador Frederico II. Morreu no primeiro de Junho de 1228. Dele falam todos os que escreveram as vidas dos Cardeais, e as Histórias das Cruzadas. O Padre António de Macedo na Lusitania Purpurata, O Padre D. Nicolau de Santa Maria escreveu-lhe a vida na Chronica dos Conegos Regrantes, tom.2 lib. II, cap. II." (Catálogo Histórico dos Summos Pontifices, Cardeaes, Arcebispos, e Bispos Portuguezes..., D. Manuel Caetano de Sousa. pág. 11)

Três Estados - "Auto do Juramento, que os Três Estados destes Reinos fizeram em presença de ElRey Nosso Senhor ao primeiro de junho de M.D.LXXIX." (Dedução Chronológica e Analytica, Vol. , pág 117) - "No dia primeiro de Junho foi lavrado o Auto formidável de Juramento, que na presença do Rei deram os Três Estados, cuja substância era: Que por morte do actual Soberano, eles obedeceriam aos Governadores nomeados, e teriam por natural, e verdadeiro Rei aquele, que os mesmos Governadores, e Juízes declarassem,que o era. Aos quatro dias do mesmo mês jurou a Cidade de Lisboa, e nele o Duque de Bragança; aos três do dito jurou o Senhor D. António, que para isso foi chamado à Corte do lugar do seu extermínio. Mas ele sem perder  tempo reclamou logo o juramento na presença do Núncio, protestando não lhe prejudicar o acto, que fizera em reverência ao Rei seu Tio, por temor que caia em Varão constante, que se via face a face com o Soberano de longos tempos até agora seu declarado inimigo. Para não defraudar aos Leitores com a falta de instrução da formalidade destes juramentos, eu os transcrevo pelas próprias palavras." (História Geral de Portugal e Suas Conquistas... Tomo XVII, Pág.233)

Martirológio Romano - "Em Roma, de S. Juvêncio Mártir. Em Cesareia da Palestina, de S. Pándilo Sacerdote, e doutrina, e liberalidade para com os pobres; o qual, na perseguição de Galério Maximiáno, atormentado primeiramente pela Fé de Cristo, e metido num cárcere por mandado do Presidente Urbano; depois posto segunda vez a tormentos por mandado de Firmiliano, consumou juntamente com outros seus o martírio. Padeceram também nesta mesma ocasião Valente Diácono, e Paulo, com outros nove; cuja festa se celebra em outros dias. Em Autum, dos Santos Mártires Reveriano Bispo, e Paulo Presbítero, com outros dez, os quais foram coroados de martírio, em tempo do Imperador Auréliano. Em Capadócia, de S. Teófilo Mártir, o qual em tempo do Imperador Alexandre, e do Prefeito Simplício, depois de outros tormentos, foi degolado. No Egipto, dos Santos Mártires Isquirion Capitão, e dos outro cinco soldados; os quais em tempo do Imperador Dioclesiano foram mortos pela Fé de Cristo com diversos géneros de martírios. Também de S. Firmo Mártir, o qual, na preseguição de Maximiáno, foi gravemente açoitado, depois apedrejado, e ultimamente degolado. Em Perósa, dos Santos Mártires Felino, e Graciano Soldado, os quais, em tempo do Imperador Décio, atormentados com vários tormentos, alcançaram com gloriosa morte a palma do martírio. Em Bolonha, de S. Próculo Mártir, o qual padeceu em tempo do Imperador Maximiano. Em Amélia, de S. Secundo Mártir, o qual, em tempo do Imperador Dioclesiano, sendo lançado no Tibre, deu fim a seu martírio. Em Tiférno na Umbria, de S. Fortunato Presbitero, esclarecido com virtudes, e milagres. No Mosteiro de Lirins, de S. Caprásio Abade. Em Treveris, de S. Simeão Monge; a quem o papa Bento Nono pôs no número de Santos. (Martyrologio Romano Dado a  Luz Por Mandado do Papa Gregório XIII ...LISBOA, M.DCC.XLVIII. pág. 134)

Forais - Vila de Meda: "A Vila de Meda fica a noroeste de Marialva a uma légua, e de Trancoso quatro para norte, situada em lugar alto com sua torre de Relógio: é fértil de pão, vilho, azeite, gado e caça. Tem 330 vizinhos com uma Igreja paroquial da invocação de S. bento, com Vigário, Coadjutor, e Tesoureiro da Ordem de Cristo, que apresenta o Comendador desta Vila, a quem pertencem os dizimos, que é o Conde da Castanheira. Tem mais estas Ermidas, S. Franciso, N. Senhora da Assunção, S. Domingos, N. Senhora das Tábuas, S. Sebastião, o Espírito Santo, e S. João. É do Bispado, e Provedoria de Lamego. ElRei D. manuel lhe deu foral em Évora no primeiro de junho de 1519." (Corografia Portuguesa, e Descriçãm Topográfica do Famoso Reyno de Portugal... Pe. António Carvalho da Costa. Tomo II, LISBOA M.DCCVIII.  pág. 310). Vila Ruiva : "Entre as Vilas de Alvito e Vila Alva, uma légua de Alvito para o Sul, na ladeira de um monte tem seu assento Vila Ruiva, a quem deu foral o Convento de Mancelos, e o confirmou ElRey D. Manuel estando em Lisboa no primeiro de Junho de 1512." (pág.491). Vila da Vidigueira - "A esta vila deu foral ElRey D. manuel achando-se em Lisboa no primeiro de Junho de 1512; e dela fez Conde ao mesmo D. Vasco da Gama, a quem honrou com outras merecês dignas dos seus grandes merecimentos. Nesta ilustríssima casa se conserva o domínio da dista villa, cujos Condes são juntamente Marquezes de niza. Com o tempo se foi aumentando a mesma vila de tal modo que actualmente consta de 656 fogos, em que se compreendem pouco menos de três mil pessoas; pois havendo curiosidade em se examinar este número, consta, que só as pessoas que chegam à Sagrada Mesa da Comunhão, vem a ser duas mil e trezentas e vinte e seis. É cercada de largos, e formosos rocios, num dos quais está fundada a Igreja Matriz que é a terceira das que se tem destinado para se administrarem nela os Sacramentos aos Fiéis." (Chronica dos Carmelitas de Antiga e Regular Observância.. Tomo II, Parte IV. Pág. 309)

Fortaleza de Mombaça - "Matias de Albuquerque foi logo ao outro dia, que foram vinte e três de Maio, visitar o Conde Almirante com todos os Oficiais da justiça, e fazenda; e querendo logo nesta visita fazer entrega da governação da Índia, a não quis o Conde aceitar, senão aos vinte e cinco do mesmo mês, que foi dia do Espírito Santo, donde a fez na forma costumada. Os Vereadores foram logo visitar o Conde, e pediram-lhe que se detivesse ali alguns dias até que prepararem o seu recolhimento; o que lhe ele concedeu até ao primeiro de Junho, dia da Santíssima Trindade, em que fez sua entrada com grande pompa, e aparato, e regozijo de todo o povo, de que as ruas por onde havia de passar estavam toldadas, e com muitas invenções. Foi recebido com fala de parabéns de sua vinda, e levado de baixo do Pálio até à Sé, passando por baixo de muitos, e mui formosos arcos ornados com muitas riquezas, e galantarias, indo à sua ilharga o Arcebispo Primaz D. Fr. Aleixo de Menezes; e depois de fazer sua oração, se recolhei aos passos, em cujo terreiro lhe correram muitas carreiras, e fizeram muitas festas, e regozijos, em que o dia se gastou. E há de aqui notar-se, que no mês de Junho, em que o Conde Almirante tomou posse da Índia, se cumpriram cem anos que seu bisavô a descobriu." (Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto, Vol. 23, pág. 14)

Escravidão - "(c) No primeiro de Junho o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Bispo de Elvas leu um Capítulo de uma, em que mostra, que não se contradizem as leis que permitem as escavidão dos pretos da África e proibem a dos Índios do Brasil." (Memórias, Academia das Ciências de Lisboa. Vol.3 - Discurso Histórico (...) de João guilherme Christiano Müller a 24 de Julho de 1810, pág.10)

06/03/12

S. TEOTÓNIO - PRIMEIRO SANTO DO REINO DE PORTUGAL (II)

Nossa Senhora do O (Lamego)
Costume do Sábado dedicado à Mãe de Deus:

"1. O costume de celebrar nos sábados a Missa de N. Senhora, que S. Teotónio observou em Viseu, e depois introduziu em S. Curz, observa-se ainda. Nos Mosteiros da congregação de S. Cruz diz-se esta Missa no fim de Prima, com órgão, e assistência de dois Acólitos, acesas todas as velas no Altar da Senhora. Desta cordial devoção com que se empregava no culto e obséquio da Virgem Mãe de Deus, podia-se justamente reconhecer S. Teotónio remunerado com os tesouros infinitos da graça, e afluência de todos os bens. Vigiava, e orava prostrado diante do altar e imágem da Senhora; não se cansava de madrugar às portas de seu Templo, e casa de oração. Que virtudes, que prodígios do Céu deixaria de receber, e obrar, quando sem interrupção gozava a felicidade de ouvir a Mãe da divina graça, a Mãe da eterna sabedoria? (Sap. VII Super salutem er sapeciem dilexi illam: venerunt mihi omnia bona pariter cum illa). Esta devoção persuadia a todos, quetrendo encaminhar a Deus as almas redemidas com o sangue de Cristo, valendo-se do auxílio e patrocínio da Mãe do mesmo Deus, pela qual  baixou à terra o Rei da Glória, que convida e chama todas as gentes ao conhecimento da verdade e ao prémio e exaltação na eternidade bem-aventurada." ("Vida do Admirável S. Theotónio", pag. 36)

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