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29/01/15

"PORTUGAL EM ROMA" - O REI NO EXÍLIO (II)

(continuação da I parte)

Rei D. Miguel de Portugal, O Tradicionalista
Veja-se agora o que diz J. P. Miguéis de Carvalho a A. J. Freire, em 9 do mesmo mês: "Em primeiro lugar S. A. partiu de Génova com passaporte em que era designado com o título de D. Miguel I chegou de Viterbo na manhã de 3 do corrente, e entrou em Roma na manhã do dia seguinte pelas 9 horas - 4 de Setembro. Apeou-se com a sua comitiva, 16 indivíduos na estalagem da Vila Paris, onde o estava esperando Camilo Luís Rossi, o qual com o Marquês de Lavradio se dirigiu pela volta do meio-dia a casa do Cardial Secretário de Estado.

Pelas duas horas da tarde apresentou-se a S. Alteza o Major da Praça para oferecer-lhe uma Guarda de honra, que não foi aceita, e cumprimentá-lo da parte do General das Armas, o qual mais tarde compareceu em pessoa. Pelas 6 horas veio cumprimentar S. Alteza o Cardial Secretário de Estado, e dizendo-lhe S. A. que tencionava não sair de casa sem primeiramente ver o Santo Padre, respondeu o Cardial que trataria de o livrar da prisão quanto antes. Junto das Avé-Marias jantou S. A. em companhia do Marquês do lavradio à direita, António Joaquim à esquerda, Conde de Soure e D. Bernardo de Almeida. Quando S. A. Começou a jantar apresentou-se Mons. Fieschi, Mestre de Câmara do Papa, para cumprimentar S. A. em nome de Sua Santidade. Alguns Cardiais foram à noite cumprimentar S. A.".

O mesmo ao mesmo no dia 9 de Setembro: "O Cardial Secretário de Estado disse a alguns indivíduos do Corpo Diplomático que o Sr. D. Miguel se achava quase sem meios de subsistência, que lhe não pegavam a sua Pensão, e que tinha vendido uma parte dos seus brilhantes. Corre voz que o Papa mandara pôr à disposição de Sua Alteza 50 mil escudos romanos. Pelo contrário consta que S. A. traz não pequena quantidade de dinheiro consigo, além de que se diz ter à sua disposição em Londres e Paris. Quando S. A. chegou, entre a pouca bagagem que consigo trazia, se viu descarregar uma caixa que com muita fadiga dois homens puderam conduzir para o 1º andar da Estalagem. Esta caixa foi aberta para pagar os Postilhões, e se observou que estava cheia de peças de ouro de 20 francos. Nesta moeda se fizeram aqueles seus pagamentos, e se deram algumas esmolas, assim como se tem subministrado ao Mestre de Casa, Mordomo do Marquês de Lavradio o necessário para as despesas correntes."

Eis como Carvalho e Brito se refere à audiência do Santo Padre: "Sua Alteza entrava na sala onde o esperava o Papa, se prostrou a seus pés para lhos beijar, o que S. Santidade impediu, entendendo o braço com que o levantou. O Sr. D. Miguel começou a falar, mas não entendendo o Papa, entrou o Marquês de Lavradio a dizer: que Sua Majestade não entendia ter renunciado aos seus direitos ao Trono; que a convenção fôra obra da força para salvar a vida, e evitar outros males: que esperava que Sua Santidade continuasse a considerá-lo como Rei de Portugal, que fizesse em seu favor quanto estivesse de sua parte; que em Génova e Milão tinha recebido cartas de Inglaterra, Áustria, Rússia e Prússia em que se lhe assegurava que os Soberanos das três potências do norte não deixariam perder a ocasião para reintegrá-lo.

Diz-se também que pediram ao S. Padre que fulminasse quanto antes a excomunhão, e que o Santo Padre respondera, tanto a este como aos outros artigos, evasivamente, ainda que mostrando-se muito irritado contra o procedimento do governo em matérias eclesiásticas: prometeu contudo de considerar o Senhor D. Miguel como Rei, e o Marquês como seu Embaixador.

O Papa ainda até hoje (12 de Setembro) não pagou a visita ao Senhor D. Miguel, e ainda que se diz por motivo de uma pustula que tem no beiço superior Sua Santidade se acha sempre impedido para sair, contudo crê-se que a moléstia seja mero pretexto para diferir a visita."

D. Miguel partiu para Génova no dia 12 de Setembro, pelas duas horas e meia da tarde, num carro tirado a quatro cavalos de Posta, levando em sua companhia cinco pessoas. Miguéis de Carvalho, curioso, procura Mons. Capaccini que lhe diz:
- Já sei porque vem aqui.
- Qual?
- Saber o motivo da partida de D. Miguel.
- E qual foi?
- Rir-se-á; mas o verdadeiro motivo é a chegada a Génova de uma mulher que foi sua ama de leite, e que ele quer conduzir para Roma onde estará de volta em 8 ou 10 dias. Fez-se o possível para o desviar desta puerilidade, mas todos os esforços foram inúteis.
A família de S. Alteza deixou ontem (15 de Setembro) a Estalagem que ocupava, e passou a alojar-se no palácio Marescotti".

(continuação, III parte)

06/11/14

1514 - EMBAIXADA DE D. MANUEL AO PAPA LEÃO X

Papa Leão X
A duas maiores embaixadas de Reis a Papas são feitas por reis portugueses. A maior de todas, depois da qual durante muitos anos não se atreveram outros reis a enviar embaixadas alguma a Roma, foi a de D. João V (séc. XVIII). A segunda maior embaixada tinha sido a de D. Manuel (séc. XVI). É esta de D. Manuel que vou transcrever do "Os Portuguezes em África, Ásia, América, e Occeania" (... Volume III, 1849, pag. 99-101):

ElRei D. Manuel Manda um Rico Presente ao Papa Leão X

D. Manuel, Rei de Portugal
"(...) No Monarca [D. Manuel] sobresaia a piedade a par das outras virtudes e dotes grandiosos de alma, e não deslembrava as coisas do Céu pelas da terra; por isso o Pntífice Leão X, Vigário de Cristo, não esqueceu ao Soberano, que fez a ventura destes Reinos.

[...]

Tinha o dia 12 de Março [dia de S. Gregório Magno] de 1514 sido escolhido para Tristão da Cunha dar Embaixada pública em Roma, e foi ela pelo seguinte modo: Às duas horas da tarde um luzidio cortejo saía do palácio de sua habitação segundo o Embaixador extraordinário, e dois Fidalgos, a quem ElRei dera também o carácter de Embaixadores; grande número de trombetas, charamelas, pífaros, e atabaldes de ElRei, acompanhavam o cortejo luzidamente vestidos, e a cavalo: seguiam-se muitas azemulas, que homens com várias e ricas librés levavam de rédea, as quais iam cobertas de ricos panos de seda de várias cores, e insígnias: seguia-se o Rei de Armas de Portugal, vestido de roupa de pano de ouro, com as Armas do Reino coroadas, e cercadas de pérolas, e rubis. Logo mais de cinquenta nobres, vestidos de peles, e brocados, com chapéus ornados, e cobertos de pérolas, e aljofares, e a tiracolo talabartes de ouro e pedraria, montados em cavalos, com selas, peitorais, e mais arreios de ouro maciço, ou de lavor esmaltado de pérolas, e pedras preciosas. Cada um destes Cavaleiros levava grande número de criados com ricas librés. Seguia-se um elefante índio, sobre o qual ia um rico cofre com o presente, coberto de um pano tecido de ouro com as Armas de Portugal, que não só cobria o cofre, mas também o elefante até arrastar pelo chão; ia também sobre ele um Naire que o mandava, vestido de roupa de ouro e seda; ia mais um cavalo pérsico, que ElRei de Ormuz mandára a ElRei D. Manuel, e uma onça, com um caçador também pérsico, que a levava nas ancas do mesmo cavalo. Este brilhante trem, a que se juntaram os Embaixadores de todas as Côrtes, que se achavam em Roma, e todas as grandes personagens daquela Côrte, fazia a mais aparatosa comitiva que jamais se viu em semelhantes acções. Logo que o elefante avistou o Papa, que no castelo de S. Ângelo estava com todos os Cardeais admirando a magnificência deste brilhantissimo acompanhamento, ao sinal que lhe fez o Naile, se humilhou três vezes, e tomando na tromba grande quantidade de água de cheiro, que estava preparada, rociou com ela ao Papa, e Cardeais, e depois a todos em circuito. A onça também executou vários movimentos, que admiraram a todos. O presente para o Papa constava de um Pontifical completo bordado a ouro, guarnecido de riquíssima pedraria, em que se viam muitas romãs de ouro maciço, cujos bagos eram finíssimos rubis. Foram também mitra, bago [báculo], anéis, cruzes, cálices, e turíbulo, tudo em ouro batido, coberto de pedraria, e muitas moedas de ouro de quinhentos cruzados cada uma. O Pontífice dirigiu aos Embaixadores as mais distintas expressões em louvor de ElRei, e do Reino de Portugal. Este presente não só espantou a Itália, mas também a Europa, pois se estimou em mais de um milhão da nossa moeda (Esta soma era reputada nesta época de grande consideração)."

31/05/14

"PORTUGAL EM ROMA" - AS AFRONTAS LIBERAIS E A NOMEAÇÃO POSTERIOR DE BSIPOS (II)

(continuação da I parte)

Veja-se: por morte de D. Francisco de Santa Maria da Luz foi apresentado Bispo de Macau D. Nicolau Rodrigues Pereira Rorja; para suceder ao falecido Arcebispo de Goa, D. Nicolau de S. Galdino, foi apresentado D. José Maria da Silva Torres; para Nanquim foi apresentado o P. Joaquim Pereira de Miranda; para prelado de Moçambique foi apresentado o P. António José da Maia, vigário capitular da Prelazia; para Bispo de Angola foi nomeado o P. João Baptista de Castro; para Bispo de Cabo-Verde foi apresentado o P. João Henriques Moniz, pela renúncia de D. Frei Jerónimo de Barco; por morte de D. Bernardo António de Figueiredo foi nomeado Bispo de Faro D. António Bernardo da Fonseca Moniz, padre de Braga; por morte de D. Francisco José Rodrigues de Andrade foi nomeado Bispo do Funchal D. José Xavier Cerveira e Sousa, Lente de Coimbra; para Leiria foi nomeado D. Henrique Guilherme de Carvalho; e para o Porto foi eleito D. Jerónimo J. da Costa Rebelo.

No ano de 1844 já houve, por menos necessidade, menos provisões de bispados. Foi eleito bispo de Beja o Dr. Manuel de Azevedo Loureiro; foi nomeado Arcebispo coadjutor de Braga, D. José Maria da Silva Torres; porque em Roma, no convento de S. Bernardo morreu D. Frei Fortunato de S. Boaventura, no dia 26 de Dezembro, foi eleito em 1845 Arcebispo de Évora D. Francisco da Mãe dos Homens; por morte de D. José da Assunção do eleito Bispo de Lamego D. José de Moura Coutinho; o P. Jerónimo José da Mata foi apresentado para bispo coadjutor e sucessor da diocese de Macau.

Roma
Como em 1840 morresse o Cardial patriarca D. Fr. Patrício da Silva, o Governo nomeia para o substituir D. Fr. Francisco de S. Luís que só é confirmado em 1843, sendo depois promovido ao cardinalato, sendo ablegado do barrete Mons. Vizzardelli e portador o guarda nobre Borgia de Velletri. Mons. Vizzardelli era auditor da Nunciatura que fôra nomeado quando o Internúncio e Delegado Apostólico Mons. Capaccini em 1841 e que foi para Lisboa pelo caminho de Londres e que em Lisboa se conservou até 1843, ano em que foi nomeado para lhe suceder Mons. Camilo di Pietro que esteve até 1853 como Internúncio e depois até 1858 como Núncio.

Mons. Capaccini foi pessoa eminente, diplomata que muita parte teve no restabelecimento das relações entre a Santa Sé e os vários Estados da Europa depois do Congresso de Viena e na conclusão das Concordatas que se negociaram naquela época. Nascera em Roma em 14 de Agosto de 1784 e fôra aluno do Seminário Romano (1793-1808), ordenando-se em 1807. Em 1811 foi para Milão como preceptor da Casa do Conde de Lambertenghi e depois como adido ao observatório astronómico de Nápoles.

De Nápoles regressou a Roma em 1815 e foi pelo Cardial Litta apresentado ao célebre Cardial Consalvi, o qual tendo conhecimento do engenho de Capaccini o chamou à Secretaria de Estado e bem depressa se valeuda sua habilidade para o restabelecimento das relações diplomáticas com várias nações.

Leão XII em 1824 nomeou-o substituto da Secretaria dos Breves e de lá o enviou aos Países Baixos para a estipulação de uma Concordata que foi negociada em 18 de Junho de 1827. No ano seguinte - 1828 - o mesmo Pontífice o nomeou Internúncio em Bruxelas. E Gregório XVI, sucedendo a Pio VIII em 1831 chamou-o a Roma, fê-lo Prelado Doméstico e Substituto da Secretaria de Estado e mais tarde, por causa da promoção de Mons. Luís Frezza ao Cardinalato, fê-lo Secretário da Congregação dos Negócios Extraordinários, que renunciou por motivos de saúde.

No entanto, no mesmo ano de 1837, teve uma missão em Viena de Junho a Outubro; outra em Outubro de 1838 em Florença com Meternich; outra em Nápoles em 1839; e ainda outra, de Abril a Dezembro de 1841, em Haia e Londres.

Depois da sua permanência em Lisboa, onde conquistou a amizade do povo e do Governo, reentrou em Roma no dia 24 de Novembro de 1843 mas em condições muito más de saúde pelo excesso de trabalho.

(a continuar)

21/03/13

FUNDAMENTAÇÃO DO PAPADO

Esta semana cruzei-me com um antigo meu professor, dos meus tempos de aluno de teologia. Ele progressista, e eu, hoje, um mero tradicional católico. Este simpático sacerdote diocesano, relativamente a "Papa" e "Papado", acredita em oposição ao que eu acredito.

Como podem dois católicos acreditar diferentemente a respeito de conteúdos da Fé? Ou um está errado ou os dois estão errados, como mostra S. Tomás de Aquino: os dois não podem estar certos ao mesmo tempo em opiniões que se contradizem - porque uma mesma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo.

Enquanto fui aluno de teologia, naqueles tempos, acreditei sempre que o Papado e o Papa eram o que este meu antigo professor acredita. Muitos outros acreditam nestas novas ideias que hoje penetraram gradualmente a vida dos católicos como parte do "pensamento dominante". São erros de época, não são coisas enunciadas pela Santa Igreja (pelo contrário, são enunciadas contrariamente à Santa Igreja, e levadas em andas por boa parte do clero que, por sua vez, foi já formado pelos introdutores, ou alunos dos introdutores). Quanto mais longe estamos dos primeiros tempos de introdução das terríveis ideias na sociedade católica mais probabilidades há de os seus "portadores" não serem culpáveis.

Como acho muito perigosas essas e outras ideias, e como católicos cabe-nos repetir o que a Igreja ensinou para os outros venham a dar-lhe proveito, para que realmente todos sejam um.

Aquelas teses da moda, a respeito do Papa e do Papado, podem ser agrupadas em duas ideias:

- O poder do Papa adviria da Diocese de Roma perante as dioceses do Rito Romano;
- O Papa seria um "primus inter pares" (seria o primeiro entre iguais).

Estas duas crenças são postas ao catolicismo que diz justamente o contrário:

- O poder do Papa foi dado directamente por Nosso Senhor Jesus Cristo a Pedro;
- O Papa não é um igual aos outros Bispos porque a Igreja é fundada nele e foi apenas a ele que lhe foi confiado o rebanho.

A primeira Constituição Dogmática sobre a Igreja, IV sessão do Concílio Vaticano I, não deixa qualquer dúvida a quem a leia com boa-vontade:

"1823. Se, pois, alguém disser que o Apóstolo S. Pedro não foi constituído por Jesus Cristo príncipe de todos os Apóstolos e chefe visível de toda a Igreja militante; ou disser que ele não recebeu direta e imediatamente do mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo o primado de verdadeira e própria jurisdição, mas apenas o primado de honra – seja excomungado. "

No tempo em que Pedro recebe a chefia da Igreja de Nosso Senhor ainda nem sequer havia comunidade em Roma, logo fica reforçada também pela lógica a impossibilidade do poder do Papa advir da Diocese de Roma. Continuando...

"1824. Porém o que Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o príncipe dos pastores e o grande pastor das ovelhas, instituiu no Apóstolo S. Pedro para a salvação eterna e o bem perene da Igreja, deve constantemente subsistir pela autoridade do mesmo Cristo na Igreja, que, fundada sobre o rochedo, permanecerá inabalável até ao fim dos séculos. "Ninguém certamente duvida, pois é um fato notório em todos os séculos, que S. Pedro, príncipe e chefe dos Apóstolos, recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador e Redentor do género humano, as chaves do reino; o qual (S. Pedro) vive, governa e julga através dos seus sucessores".
1825. Se, portanto, alguém negar ser de direito divino e por instituição do próprio Cristo que S. Pedro tem perpétuos sucessores no primado da Igreja universal; ou que o Romano Pontífice é o sucessor de S. Pedro no mesmo primado – seja excomungado
1826. Por isso, apoiados no testemunho manifesto da Sagrada Escritura, e concordes com os decretos formais e evidentes, tanto dos Romanos Pontífices, nossos predecessores, como dos Concílios gerais, renovamos a definição do Concílio Ecuménico de Florença, que obriga todos os fiéis cristãos a crerem que a Santa Sé Apostólica e o Pontífice Romano têm o primado sobre todo o mundo, e que o mesmo Pontífice Romano é o sucessor de S. Pedro, o príncipe dos Apóstolos, é o verdadeiro vigário de Cristo, o chefe de toda a Igreja e o pai e doutor de todos os cristãos; e que a ele entregou Nosso Senhor Jesus Cristo todo o poder de apascentar, reger e governar a Igreja universal, conforme também se lê nas atas dos Concílios Ecuménicos e nos sagrados cânones.

Portanto, não é um bispo como os outros a quem se dá preferência. Pedro Apóstolo recebeu uma vocação e encargo de naturezas próprias que o diferenciam em relação aos outros bispos. Continuando...

1827. Ensinamos, pois, e declaramos que a Igreja Romana, por disposição divina, tem o primado do poder ordinário sobre as outras Igrejas, e que este poder de jurisdição do Romano Pontífice, poder verdadeiramente episcopal, é imediato. E a ela [à Igreja Romana] devem-se sujeitar, por dever de subordinação hierárquica e verdadeira obediência, os pastores e os fiéis de qualquer rito e dignidade, tanto cada um em particular, como todos em conjunto, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao regime da Igreja, espalhada por todo o mundo, de tal forma que, guardada a unidade de comunhão e de fé com o Romano Pontífice, a Igreja de Cristo seja um só redil com um só pastor. Esta é a doutrina católica, da qual ninguém pode se desviar, sob pena de perder a fé e a salvação.

Aqui está! O Cânon 1827 é muito importante porque é por Roma ser a comunidade de Pedro que ela tem o primado sobre as outras, e não o contrário: o poder de Pedro advir do primado de Roma. Noutras palavras, este cânon conta com todos os outros formando um conjunto coerente. Aproveito para dizer que o Rito Romano é também aquele que veio da tradição de S. Pedro e, por isto, considerado por nós o rito central e indispensável. Alerto ainda para o "seja um só redil porque pode parecer que se diz que não é um só redil mas que virá a sê-lo. Continuando...

1828. Estamos, porém, longe de afirmar que este poder do Sumo Pontífice acaba com aquele poder ordinário e imediato de jurisdição episcopal, em virtude do qual os bispos, constituídos pelo Espírito Santo [cf. At 20,28] e sucessores dos Apóstolos, apascentam e regem, como verdadeiros pastores, os seus respectivos rebanhos; pelo contrário, este poder é firmado, corroborado e reivindicado pelo pastor supremo e universal, segundo o dizer de S. Gregório Magno: "A minha honra é o vigor dos meus irmãos. Sinto-me verdadeiramente honrado, quando a cada qual se tributa a honra que lhe é devida".
1829. Além disso, do supremo poder do Romano Pontífice de governar toda a Igreja resulta o direito de, no exercício deste seu ministério, comunicar-se livremente com os pastores e fiéis de toda a Igreja, para que estes possam ser por ele instruídos e dirigidos no caminho da salvação. Pelo que condenamos e reprovamos as máximas daqueles que dizem poder-se impedir licitamente esta comunicação do chefe supremo com os pastores e os fiéis, ou a subordinam ao poder secular, a ponto de afirmarem que o que é determinado pela Sé Apostólica em virtude da sua autoridade para o governo da Igreja, não tem força nem valor, a não ser depois de confirmado pelo beneplácito do poder secular.
1830. E como o Pontífice Romano governa a Igreja Universal em virtude do direito divino do primado apostólico, também ensinamos e declaramos que ele é o juiz supremo de todos os fiéis, podendo-se, em todas as coisas pertencentes ao foro eclesiástico, recorrer ao seu juízo; [declaramos] também que a ninguém é lícito emitir juízo acerca do julgamento desta Santa Sé, nem tocar neste julgamento, visto que não há autoridade acima da mesma Santa Sé. Por isso, estão fora do recto caminho da verdade os que afirmam ser lícito apelar da sentença do Pontífices Romanos para o Concílio Ecumênico, como sendo uma autoridade acima do Romano Pontífice.
1831. Se, pois alguém disser que ao Romano Pontífice cabe apenas o ofício de inspeção ou direção, mas não o pleno e supremo poder de jurisdição sobre toda a Igreja, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao governo da Igreja, espalhada por todo o mundo; ou disser que ele só goza da parte principal deste supremo poder, e não de toda a sua plenitude; ou disser que este seu poder não é ordinário e imediato, quer sobre todas e cada uma das igrejas quer sobre todos e cada um dos pastores e fiéis – seja excomungado.

Ao Papa Francisco, por exemplo, Deus ter-lhe-a dado plenos poderes de Papa. Se o Romano Pontífice resolve expressar-se apenas a um nível mais modesto como um "primus inter pares"... hum...

Estamos a viver os efeitos da infiltração lenta de doutrinas heréticas, de tal forma que hoje já são o "ar que se respira". O próprio erro é veiculado pelos instrumentos da Santa Igreja... Devido a uma ignorância possivelmente não culpável (depende dos casos) pouco mais se pode fazer do que rezar e difundir a doutrina entre os próprios católicos.

E mais não digo... por hoje.

03/02/13

CAPELA DO ES. SANTO E S. JOÃO BATISTA - MUITO MAIS DO QUE OS OLHOS PODEM VER (II)

(continuação da I parte)

A referência da Corte portuguesa parte de S. Carlos Borromeu, contudo vai-se mais longe: "O altar deve encostar-se à parede, por ser de capela menor, dos quais não trata S. Carlos, quando determina que sejam despegados da parede posterior, pelo que se adverte que nem pelo pensamento passe ocupar com a balaustrada coisa alguma do corpo da igreja, na qual (sedo grande) nos dias santos não cabe todo o povo que a ela concorre." É que Vanvitelli tinha desenhado o altar separado do retábulo, colocando o altar quase para o centro da capela e, para dar espaço devido ao Rito, puxou a balaustrada fora da capela. Viu-se na reposta que lhe deu a Corte a preocupação de não impedir que o povo assistisse à Missa continuando a caber na igreja em dias santos - tal pecado não fosse cometido por pretexto de falta de espaço.

do altar de St. Inácio, igreja de Jesus, Roma - foram usadas
folhas tortas para distrair a vista da não correspondência
ente os canais da coluna e o capitel.
Uma das mostras mais claras do quanto D. João V estava informado admiravelmente está contida no seguinte comentário: "As colunas de lapis-lazuli se veem [no projecto] com 24 canais, o que não pode mostrar grandeza, e por este respeito, no altar de Santo Inácio [Roma], ainda que as colunas tenham mais de 3 palmos e 1/4 de diametro, se lhe fizeram somente 18 canais, e vendo-se depois que este número não admitia divisão de quatro com partes inteiras e que se desencontraram dos 24 canais que teem os capiteis, disfarçaram esta irregularidade, usando de folhas tortas nos capitéis; porém fazendo-se em cada coluna 16 canais ou planos, se consegue mostrar grandeza e se evita a referida irregularidade, porque no dito número 16 não só se acha divisão de quatro partes inteiras respectiva ao abaco e volutas, mas também de oitavos respectiva aos meios das frentes dos capitéis, nos quais se usará de folhas direitas e de duas ordens."

Na capela do Espírito Santo e S. João Batista as colunas são
acabadas e a divisão dos canais e dos grupos de folhas do capitel
fazem correspondência.
É de salientar que as colunas da capela são baseadas nas do altar de St. Inácio em Roma (que podemos considerar o altar mais inacioano), pois a igreja de S. Roque é jesuíta. Ainda que melhoradas, as nossas colunas acabam por ser discreta homenagem a este grande santo fundador da Companhia de Jesus.

Mas, como entender que a Corte fosse tão extraordinariamente informada a respeito das outras igrejas? Tínhamos uma recolha exclusiva de informação de todas as basílicas do mundo e principais igrejas, tanto quanto às medidas, desenhos, Rito e música. No Palácio Real da Ribeira tudo isso existia juntamente com maquetas destinadas a este tipo de estudos. Sempre fomos preocupados em recolher informação estratégica de outros territórios, e D. João V aplicou isso na recolha de tudo o que dissesse respeito ao Rito Romano, Templos, Música Sacra... entre outros. Este material estava editado em largas coleções de livros únicos que, infelizmente, foram um dos grandes tesouros perdidos com o maldito terremoto de Lisboa. Este manancial informativo foi fundamental para a construção da Basílica Patriarcal que, segundo se sabe hoje, ultrapassava a pequena capela do Espírito Santo e S. João Baptista. Esta última sobreviveu ao terremoto... a Basílica Patriarcal, da qual os estrangeiros escreveram dizendo que nem na Basílica de S. Pedro tinham assistido a tão maravilhoso Rito, não sobreviveu, nem dela sobreviveram registos gráficos, e pouquíssimos são os registos literários.

(continuará s.D.q.)

01/11/12

CEGOS QUE GUIAM CEGOS, FALAM DA FSSPX


Na entrevista da Rádio Renascença (31/10/12) a D. Nuno Brás (bispo auxiliar de Lisboa) e a Aura Miguel, sendo o tema principal o Halloween e o "pão por Deus", falou-se da FSSPX e de Mons. Williamson. Vou guardar-me de fazer comentários por agora, e deixo-vos a parte do áudio, e respectiva transcrição, retirados de tal entrevista.


RR - "Penso que também é oportuno comentarmos esta semana o que se passa relativamente à Fraternidade Sacerdotal S. Pio X. Esta Fraternidade expulsou, há dias, por rebeldia e desobediência aquele bispo que, há alguns anos, causou polémica por ter negado a existência do "holocausto". Este afastamento pode ajudar a reaproximação deste grupo à Santa Sé, na questão das negociações?

Aura Miguel - É bom recordar, porque tem havido diálogo, há 3 anos, durante o qual uma comissão reuniu-se 8 vezes para estudar e discutir vários assuntos, alguns controversos... Várias tentativas foram realizadas pelo Papa, pela Santa Sé nomeadamente, portanto, estendendo à Igreja universal a Forma Extraordinária do Rito Romano (esta maneira de celebrar missa, maneira extraordinária como os seguidores de Lefebvre, digamos assim, gostam), mas...

RR - E convém relembrar que este grupo não aceita as alterações que surgiram com o Concílio Vaticano II.

Aura Miguel - Não... Vem de terem sido excomungados. Alem disso havia imensas resistências, e a separação veio com o facto de Mons. Lefebvre ter ordenado alguns bispos sem a autorização do Papa. Este papa levantou-lhes a excomunhão, estendeu-lhes a mão, permitiu que seja possível, de maneira extraordinária, celebrar missa segundo o rito que gostam, portanto aboliu essas excomunhões. E no dia 13 de Junho, deste ano, a comissão criada pelo Papa apresentou à FSSPX uma declaração doutrinal e a proposta para normalização canónica para esta, finalmente, se resolver ou não. E tem havido algum impasse... e um dos passos, creio eu, foi a expulsão Williamson da FSSPX. Não é de imediato, a essa expulsão, nem é o único obstáculo.

Gostava de sublinhar o que saiu, o que saiu como comunicado. Tem havido imensas especulações: disseram que "não", que afinal eles nunca irão aceitar o Concílio Vaticano II, ainda para mais agora que foi sublinhada a importância e actualidade do Concílio, o que ainda os terá, diziam alguns, irritado mais sendo aprofundada essa clivagem... De qualquer modo, as últimas notícias que sabemos é que eles pediram mais tempo para pensar. E da Santa Sé saiu um comunicado muito interessante que diz que, após 30 anos de separação 8são 30 anos de separação... imaginem se um casal se divorcia e separa e 30 anos depois se querem reconciliar, o quão será difícil com tanta coisa e tantos obstáculos a superar, imagine-se então neste caso - isto é uma comparação um tanto desajeitada). Diz a Santa Sé "após 30 anos de separação, é compreensível que haja necessidade de tempo para absorver o significado destes recentes desenvolvimentos, e o Papa Bento XVI, pretende é promover e preservar a unidade da Igreja atravez da reconsciliação tão esperada. É preciso - conclui a nota - paciência, serenidade, perseverança e confiança".

RR - D. Nuno...

D. Nuno Brás - Sim... creio que não seria de todo mau que os próprios "lefebvrianos" dessem um sinal de boa-vontade! Não é?... E portanto, não estivessem sempre a dizer "esperem mais um bocadinho, esperem mais um bocadinho, esperem mais um bocadinho... depois logo se vê...". Depois de tantos sinais que o Santo Padre tem dado, depois de tudo aquilo que ele tem feito, que dessem um sinal positivo (eventualmente não o deram ainda porque há divisões internas... e portanto o próprio Superior da FSSPX será objecto de imensas, imensas pressões internas - não sabemos muito mais que isto).

23/04/12

TERMÓMETRO DE ROMA


Agora mesmo, dei com o "termómetro de Roma" durante uma curta conversa, na qual me diziam que em Roma as coisas melhoram. E como tal absurdo  visto que eu opinei o contrário, tentei resolver o dilema lançando duas perguntas:

- Doutrinalmente, o que foi corrigido por Roma neste pontificado?
- Doutrinalmente, que agravantes houve em Roma neste pontificado?

As duas perguntas devem funcionar em conjunto; a segunda testa mais quem diz que Roma piorou, e a primeira pesa mais aos do contrário (estes omitem frequentemente a dimensão doutrinal: segundo eles há que pautar-se pelos gestos mais exteriores, políticos, superficiais; e os seus opostos costumam ignorar exageradamente a existência desses gestos exteriores custosos, esforços, e vontades).

Também é certo que toda a "melhoria" é na verdade pioria, por ser coisa meramente exterior, porque sem a correcção dos erros doutrinais a minimização visível das más consequências só servirá de maior engano (operação de cosmética). Já a correcção doutrinal, mesmo que sem outras operações mais exteriores é e boa, e só poderá produzir bons frutos.

Voltemos às questões.

Doutrinalmente, o que foi corrigido nestes últimos anos? Os erros transmitidos de Roma e por Papas neste meio século, foi algum corrigido formalmente? Se sim, onde está a correcção?

Foram introduzidos erros doutrinais, e eles não foram corrigidos, têm eles servido de base para a consequente aplicação e generalização, como se parte da Doutrina fossem (começam a ser vistos como obrigatórios, e os princípios que lhes são opostos são vistas já como estranhos e inimigos da Igreja). Portanto, estas recentes doutrinas (que não poucas vezes são até apresentadas como novas repetições do antigo) começam a ser tomadas pela regra!

Há ainda quem admita haver graves erros, desde que se não diga serem erros doutrinais de Roma. Nessa versão enfermada, a mais grave, haveria uma boa parte do Clero em rebelião, e uma Roma desobedecida e DOUTRINALMENTE ortodoxa! Estes, já que assim julgam, acabam por aceitar todos os tais erros doutrinais de Roma, por não admitirem que Roma possa estar errada nestas últimas décadas. Estes teriam então de apresentar uma doutrina que permitisse entender a tal suposta ortodoxia... e essa doutrina, pasme-se, costuma já existir no texto do Concílio Vaticano II (tem apenas meio século), ou no magistério pós conciliar!

O "termómetro de Roma", como lhe chamei eu, são aquelas duas perguntas iniciais (paradigmáticas), que tudo podem dizer mediante respostas sinceras. Ainda podem dizer muito dos católicos que lhes pretendam responder de recta vontade. Tais perguntas são irredutíveis e acertam no âmago da presente situação de Roma.

18/04/12

CARTA DE D. FELLAY AO CARDEAL HOYOS (15 de Dezembro de 2008)



FRATERNITÉ SACERDOTALE
SAINT PIE X


+ Menzingen, 15 de Dezembro de 2008

S. Ex. Mons. Bernard Fellay
Superior Geral
A Sua Eminência Reverendíssima
Card. Dário Castrillón Hoyos


Eminência Reverendíssima.

(...)

Desde o mês de Junho, no qual confesso ter ficado surpreendido pela sua intimação, resolvi então dar algum tempo à reflexão para não permanecer numa via que parecia sem saída. Como lhe contava então durante a reunião de 4 de Junho, parece que o status quaestionis não está bem colocado. Queria aproveitar esta carta para precisar a nossa posição e assim evitar mal-entendidos ou ambiguidades que poderiam prejudicar a boa relação que temos tido até agora.

Por isso, creio necessário sublinhar um ponto importante que poderia ajudar-nos a resolver em parte tais mal-entendidos: trata-se do tema da confiança. Desde o ano 2000, tinha-lhe indicado que um dos obstáculos, naturalmente não algo fundamental, mas contudo, muito importante para poder avançar, era o problema da confiança.

Para restabelecer a confiança depois de tantas humilhações e anatemas como sofremos a vários níveis por parte das autoridades eclesiásticas, pedimos dois sinais tangíveis: a liberdade da missa para todos os sacerdotes e que fosse retirado o decreto da excomunhão. Prometíamos então aplicar todas as nossas forças para estabelecer discussões doutrinais, esperando melhorar assim as nossas relações com a Santa Sé e chegar finalmente o desenlace favorável nossa questão.

Comoveu-nos muito o gesto do Santo Padre que, mediante o seu Motu Proprio, quis ele responder claramente ao primeiro [pedido] que esperávamos, e queremos reiterar o nosso agradecimento por esse acto generoso, do qual esperamos frutos ainda maiores, incluso se o entusiasmo escasso com que o receberam os Bispos nos impede entender todo o alcance do gesto do Santo Padre.

Continuamos também aferrados à vontade de permanecer católicos e de colocar todas as nossas forças ao serviço da igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Igreja Católica Romana. Aceitamos filialmente o seu ensinamento. Cremos firmemente no Primado de Pedro e nas suas prerrogativas, e este é o motivo pelo qual a situação actual nos faz sofrer tanto. Estamos dispostos a escrever com o nosso sangue o Credo e a assinar o juramento anti-modernista e a profissão de Fé de Pio IV, e aceitamos e fazemos nossos todos os concílio até ao Vaticano I. Mas sobre o Concílio Vaticano II não podemos senão emitir reservas, pois este Concílio quis ser "diferente dos restantes" (cf. discurso dos Papas João XXIII e Paulo VI). Quis ser pastora e não quis definir nada, senão ser muito mais modesto. Então porque é que equiparado a todos os outros? Não rejeitamos o Concílio em bloco. Aceitamos dele o que repete constantemente o Magistério da Igreja, mas rejeitamos-lhe as novidades - e principalmente certo espírito - contrários ao Magistério da igreja. Nos acusarão que tal coisa seria estarmos a colocar-nos mais alto que o próprio Papa, mas não tal é verdade, pois com ele seguimos o que disse o Concílio Vaticano I sobre a fundação do Papa. Enquanto ao que opomos ao Concílio Vaticano II, não se trata de uma doutrina própria da Fraternidade S. Pio X, mas sim dos próprios textos do Magistério da Igreja de sempre. Se isto é então inaceitável, que nos mostrem onde não estaríamos a ser fiéis na Fé católica, e onde estão então os nossos erros e as heresias professadas.

Saiba, Eminência, que encontrar-se em tal situação é motivo de grandes sofrimentos. A origem da crise não somos nós, nem tampouco os nós a provocámos. Os nossos sacerdotes trabalham pelo mundo unicamente para a salvação das almas e pelo bem da Igreja católica, e muitas vezes em circunstâncias difíceis. Contudo, os frutos do seu apostolado pode ser visto em todas as partes: conversões sérias, vocações, famílias numerosas, etc.

Outros muitos sacerdotes e jovens estariam dispostos a seguir este caminho, pois encontram neste apostolado um grande consolo e, sobre tudo, a realização de uma verdadeira vida sacerdotal. Ademais, seria de grande benefício para as almas e para a Igreja. A actual situação dificilmente lhes permite realizar o seu apostolado nas suas linha mais tradicional, pois imediatamente o próprio superior lhes coloca entraves, e as consequências acabam por ser dramáticas para a vida sacerdotal, e o futuro da vocação.

Eminência, não queremos ser pessimistas, pois temos a esperança, mas há que ser realistas e tal supõe que ainda não vimos todas as consequências da crise posterior ao Concílio [Vaticano II]. Dentro de poucos anos, a situação será ainda mais dramática, A falta de sacerdotes - coisa que vossa Eminência não ignora -, levará regiões inteiras à descristianização. Também por esse motivo queremos prosseguir pelo caminho começado com [vossa Eminência] no ano de 2000.

Dizia-mos-lhe antes que temos um problema de confiança e que para superá-lo, pedíamos dois gestos, dos quais um já foi concedido.

Mediante esta carta voltamos a pedir formalmente e em nome dos outros três Bispos consagrados para o serviço à Fraternidade S. Pio X, o segundo gesto, ou seja, que seja retirado o decreto de excomunhão.

As circunstâncias particulares complexas que circundaram as consagrações episcopais de 1988 podem fazer interpretar tal acto num sentido contrário àquele pelo qual elas foram levadas a cabo. Nunca se tratou de estabelecer uma hierarquia, senão simplesmente de uma "operação de sobrevivência", segundo os termos do consgrante principal, Mons. Marcel Lefebvre. Isso explica o motivo, apesar das aparências contrárias, as consagrações não constituem um acto de rebelião contra o Sumo Pontífice ou contra a Santa Sé.

Estamos intimamente persuadidos de que esta segunda acção romana contribuiria muito para melhorar tanto o clima geral da Santa Igreja como o clima de confiança necessário para seguir em frente, pois, como lhe expomos na nota anexa, apesar do gesto do Santo Padre realizado explicitamente para neutralizar o perigo da separação e divisão na Igreja, alguns acontecimentos presentes que nos concernem (...) agitam com força essa atmosfera de confiança.

Temos a impressão de que tal desconfiança é mutua. por exemplo, quando se espera que temos a intenção de pressionar a Roma com a nossa cruzada do Rosário, sendo que, pelo contrário, dá-nos a ocasião de colocar aos nosso fiéis a preocupação de toda a igreja e mostrar a todos tanto a nossa adesão a Roma como ao Vigário de Cristo, na pessoa do papa Bento XVI.

De nossa parte, queremos intensificar os contactos com Roma para evitar na medida do possível os mal-entendidos. Para facilitar os contactos, pensamos também estabelecer, quando possível, um lugar de alojamento na Cidade Santa.

Já próximos da festa de Natal, creia, Eminência Reverendíssima, que é do nosso mais querido desejo ver a nossa Santa igreja "formosa, sem ruga nem mancha" segundo a vontade do divino Esposo, que vem ao mundo propter nos homines et propter nostram salutem. O nosso desejo mais querido e o motivo pelo qual entregámos a nossa vida, é que a Santa Igreja, nossa Mãe, cumpra sempre com más eficácia, segundo o plano divino, a sua missão salvadora.

Com os nossos melhores desejos para uma Santa Festa de Natal.

+ Bernard Fellay


(Documento anexo: Nota sobre alguns pontos sensíveis que prejudicam as boas relações entre a Santa Sé e a Fraternidade S. Pio X.)

15/04/12

MEMÓRIA DO D. PEDRO PRÍNCIPE DO BRASIL

D. João V

Com 2 anos de idade morreu o Príncipe do Brasil, D. Pedro, filho primogénito de D. João V de Portugal e Algarves.

Ainda um ano depois do lamentável acontecimento, em Roma, no palácio do Marquês de Fontes, os cantores da Capela Pontifícia cantaram tal dor em obra que Nicola Porpora compôs para o efeito.

Por limitação minha, não conseguindo trazer-vos agora referências da dita obra, para consolação fica uma outra do mesmo autor: De Profundis (Salmo 129):

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