25/03/16

A SEMANA SANTA - Sto. AFONSO DE LIGÓRIO VI (Sexta Feira de manhã)

(ver anterior: Quinta Feira)


SEXTA FEIRA SANTA (pela manhã)
Morte de Jesus

Et inclinato capite, tradit spiritum - "E inclinando a cabeça, rendeu o espírito" (Jo. 19, 30).

Sumário - Contempla como depois de três horas de agonia, pela veemência das cores, as forças faltam a Jesus; entrega o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira. Alma cristã, diz-me: não merece porventura todo o nosso amor um Deus, que para nos salvar da morte eterna, quis morrer no meio dos mais atrozes tormentos? Todavia, como são poucos os que o amam e muitos o que, em vez de o amarem, lhe pagam com injúrias e ultrajes.

I. Considera que o nosso amável Redentor é chegado ao fim da sua vida. Amortecem-se-lhe os olhos, o seu belo rosto empalidece, o coração palpita debilmente, e todo o sagrado corpo é lentamente invadido pela morte. Vinde, anjos do céu, vinde assistir à morte do vosso Deus. E vós, ó Mãe dolorosa, Maria, chegai-vos mais próxima à cruz, levantai os olhos para vosso Filho, e contemplai-o atentamente, porque está prestes a expirar.

Pater, in manus tuas commendo spiritum meum - "Pai, em vossas mãos encomendo o meu espírito". É esta a última palavra que Jesus profere com confiança filial e perfeita resignação com a vontade divina. Foi como se dissesse: Meu Pai, não tenho vontade própria; não quero nem viver nem morrer. Se é vossa vossa vontade que eu continue a padecer sobre a cruz, eis-me aqui, estou pronto para obedecer sobre esta cruz, eis-me aqui, estou pronto para obedecer; em vossas mãos entrego o meu espírito; fazei de mim segundo a vossas vontade. - Tomara que nós disséssemos o mesmo, quando temos alguma cruz, deixando-nos guiar pelo Senhor, conforme o seu agrado. Tomara que o repetíssemos especialmente no momento da morte! Mas para bem o fazermos então, devemos praticá-lo muitas vezes em nossa vida.

Entretanto, Jesus chama a morte, que por deferência não ousava aproximar-se do autor da vida, e lhe dá licença para lhe tirar a vida. E eis que finalmente, enquanto treme a terra, se abrem os túmulos e se rasga o véu do templo, eis que pela veemência da dor natural, falha a respiração, Jesus abandona o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira: Et inclinato capite, tradidit spiritum - Parti, ó bela alma do meu Salvador, parti e ide nos abrir o paraíso, fechado até agora, ide apresentar-vos à Majestade divina, e alcançai-nos o perdão e a salvação.

As pessoas presentes, voltadas para Jesus Cristo, por causa da força com que proferiu as suas últimas palavras, contemplamo-no com atenção silenciosa, vêem-no expirar, e notando que não se move mais, dizem: Morreu, morreu. Maria ouve que todos o dizem, e ela também exclama: Ah, Filho meu, já morrestes; estais morto.

II. Morreu! Ó Deus! Quem é que morreu? O Autor da vida, o Unigénito de Deus, o Senhor do mundo. Ó morte, que fizeste pasmar o céu e a natureza! um Deus morrer pelas suas criaturas! - Vem, minha alma, levanta os olhos e contempla esse homem crucificado. Contempla o Cordeiro divino já imolado sobre o altar da dor; lembra-te de que ele é o Filho dilecto do Pai Eterno, e que morreu pelo amor que te tem dedicado. Vê esses braços abertos para te acolher; a cabeça inclinada para te dar o ósculo de paz; o lado aberto para te receber. Que dizes? Não merece ser amado um Deus tão bom e tão amoroso? Ouve o que do alto de sua cruz te diz o Senhor: Meu filho, vê se há alguém no mundo que te tenha amado mais do que eu, teu Deus!

Ah, meu Jesus, já que para minha salvação não poupaste a vossa própria pessoa, lançai sobre mim esse olhar afectuoso com que me olhastes um dia, quando estáveis em agonia sobre a cruz; olhai-me, iluminais-me, e perdoais-me. Perdoai-me em particular a ingratidão que tive para convosco no passado, pensando tão pouco na vossa paixão e no amor que nela me haveis mostrado. Dou-Vos graças pela luz que me concedeis de compreender através de vossas chagas e de vossos membros dilacerados, como por entre umas grades, o afecto tão grande e tão terno que ainda guardais para comigo.

Ai de mim, se depois de receber estas luzes deixasse de Vos amar, ou amasse outra coisa que não a Vós.

Morra eu, assim Vos direi com São Francisco de Assis, morra eu por amor de vosso amor, ó meu Jesus, que Vos dignastes morrer por amor de meu amor. Ó Coração aberto de meu Redentor, ó morada feliz das almas amantes de meu Redentor, ó morada feliz das almas amantes, não vos dedigneis receber agora a minha mísera alma.

Ó Maria, ó Mãe de dores, recomendai-me a vosso Filho, a quem vedes morto sobre a cruz. Vede as suas carnes dilaceradas, vede o seu Sangue divino derramado por mim, e concluí disto quanto lhe agrada que lhe recomendeis a minha salvação. A minha salvação consiste em que eu ame, e este amor vós mo deveis impetrar, mas um amor grande, um amor eterno.

(continuação, Sexta Feira Santa à tarde)

Sem comentários:

TEXTOS ANTERIORES