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01/09/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCIX)

(continuação da XCVIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XIII
Como a Alma Devota Deve Desejar-se Unir-se a Cristo no Sacramento

1. Alma – Quem me dera, Senhor, achar-me só Convosco, para Vos abrir todo o meu coração e gozar da Vossa divina majestade, de sorte que ninguém ponha em mim os olhos, nem se preocupe comigo, mas Vós somente me falásseis, e eu a Vós, como costuma conversar com o amigo com seu amigo! Isto peço, isto desejo: unir-me inteiramente a Vós, desprender meu coração de todas as coisas criadas e, pela sagrada comunhão, ou frequente celebração dos divinos mistérios, aprender a gostar mais das coisas divinas e eternas.
Ah! Senhor Deus, quando estarei tão unido a Vós, tão absorto, que me esqueça completamente de mim? Vós em mim e eu em Vós; concedei que assim permaneçamos eternamente.

2. Vós sois, na realidade, o amigo extremoso, escolhido entre milhares, no qual a minha alma se compraz de habitar todos os dias da sua vida.
Verdadeiramente, Vós sois o meu rei pacífico; em Vós está a paz e o repouso, não havendo fora de Vós senão trabalho, dor e infinita miséria.
Vós sois, verdadeiramente, um Deus oculto e não tendes comunicação com os ímpios, mas sim com os simples e humildes. Como é grande, Senhor, a Vossa bondade, que, para mostrar seu afecto por Vossos filhos, se digna nutri-los com um pão suavíssimo, que desce do Céu! Na verdade, nenhuma nação existiu que tivesse deuses tão próximos dela, como nós, que Vos temos, chegado a todos os Vossos fiéis, aos quais todos os dias Vos dais, como alimento, e confortais com a Vossa presença constante, a fim de que, contentes, elevem as mãos para os Céus.

3. Que povo haverá mais nobre do que o povo cristão? Que criatura existe debaixo do Céu, tão amada, como a alma fiel, a quem Deus se comunica para nutri-la da sua gloriosa carne? Ó graças inefável! Ó admirável bondade! Ó amor infinito, singularmente reservado para o homem! E que darei eu ao Senhor por esta graça, por esta imensa caridade? Não posso oferecer coisa mais grata do que o meu coração inteiro, para que seja unido com ele intimamente. Exultarei de alegria, quando a minha alma estiver perfeitamente unida a Deus. E dir-me-á Ele: "Se queres ficar comigo, também ficarei contigo." E responderei eu: "Dignais-Vos, Senhor, permanecer comigo, pois ardentemente desejo ficar Convosco; outro desejo não tenho, senão unir meu coração ao Vosso."

27/04/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXV)

(continuação da LXXIV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XLVIII 
A Paz do Céu e As Misérias Desta Vida

1. Alma - Ó feliz habitação da cidade celeste! Ó dia claríssimo da eternidade, que não é escurecido por nenhuma noite, mas que brilha sempre com os raios da soberana verdade! Dia sempre alegre, sempre seguro, cuja felicidade não está exposta a mudanças! Quem me dera ver amanhecer esse dia e passarem logo as sombras das coisas perecedouras! Esse ditoso dia já brilha para os santos, no seu eterno esplendor, mas para os peregrinos da Terra apenas se entremostra como as luzes distantes de uma cidade através das sombras nocturnas.

2. Os cidadãos da Jerusalém Celeste sabem quanto ela é resplandecente, mas os filhos de Eva gemem na amargura e no tédio desta vida.
Os dias deste mundo são poucos e maus, cheios de dores e misérias. Neles se mancha o homem com muitos pecados, enreda-se nas paixões, perturba-se pelos temores, distrai-se pelos cuidados, dissipa-se pela curiosidade, cega-se pelo erro, desalenta-se pelo trabalho, oprime-se de tentações, afrouxa-se pelas delícias, atormenta-se pela pobreza. 

3. Oh! Quando virá o fim destes males? Quando me verei livre da infeliz escravidão dos vícios? Quando me lembrarei, Senhor, somente de Vós? Quando me alegrarei completamente em Vós? Quando gozarei da verdadeira liberdade, sem impedimento nem embaraço de corpo e espírito? Quando possuirei a paz imperturbável e segura, a paz interior e exterior, paz, em todos os sentidos invariável e firme? 
Bom Jesus, quando irei à Vossa presença? Quando contemplarei a glória do Vosso reino? Quando sereis para mim tudo em todas as coisas? Quando entrarei nesse reino, que preparaste, desde toda a eternidade, para os que Vos amam? Ai! Como me sinto abandonado, pobre e banido, numa terra cheia de inimigos, onde a guerra é contínua e os males inumeráveis.

4. Consolai o meu desterro, mitigai a minha dor, porque por Vós suspira todo o meu desejo, e toda a consolação que o mundo me oferece é pesada. Desejo unir-me intimamente Convosco, mas não posso conseguir. Desejo apegar-me às coisas do Céu, mas o amor das coisas temporais e as minhas paixões, não mortificadas, arrastam-me para a terra.
Pelo espírito procuro elevar-me acima de tudo, mas sou obrigado, pela fraqueza da carne, a sujeitar-me contra a minha vontade. Deste modo, eu, homem infeliz, pelejo comigo mesmo e a mim mesmo me faço insuportável. Forceja meu espírito sempre para cima; inclina-me a carne sempre para baixo. 

5. Quanto não padeço eu, quando, meditando nas coisas celestes, sinto a minha alma sitiada por uma multidão de pensamentos terrenos!
Meu Deus, não Vos aparteis de mim nem Vos afasteis, irado, do Vosso servo. Lançai os Vossos raios e dissipai todas estas ilusões; despedi as Vossas setas contra os artifícios do meu inimigo; recolhei em Vós todos os meus sentidos; fazei que eu me esqueça de todas as coisas do mundo; que rejeite e despreze as tristes imagens que o pecado imprime em meu espírito. Socorrei-me, Verdade Eterna, para que eu seja insensível a todos os movimentos da vaidade. Descei ao meu coração para que dele fuja toda a impureza. 
Perdoai-me Senhor, e tratai-me segundo a Vossa misericórdia, todas as vezes em que, na oração, eu pense em alguma coisa fora de Vós. Confesso que frequentemente estou distraído quando oro; o espírito afasta-se do corpo, mas é levado pela desordem dos pensamentos. Na verdade, estou onde está o pensamento, mas ele corre para aquilo que funestamente me atrai. O que mais facilmente me atrai é o que naturalmente me deleita, ou que o costume faz mais agradável.

6. Vós, claramente, nos ensinastes esta verdade, dizendo: "Onde está o vosso tesouro, está o vosso coração." Se amo o Céu, de boa vontade penso nas coisas celestes. Se amo o mundo, alegro-me com as suas felicidades e entristeço-me com os seus males. Se amo a carne, a minha imaginação apresenta-me coisas carnais. Se amo o espírito, em coisas do espírito é que me deleito.
Eu sinto em mim uma inclinação a falar e a ouvir falar de tudo aquilo que amo, e conservo no meu coração as imagens dessas coisas. Feliz aquele homem, ó meu Deus, que por amor de Vós desterra da sua lembrança todas as criaturas; que faz violência à natureza; que sacrifica todos os maus desejos da carne pelo fervor do espírito, para oferecer-Vos uma oração pura, elevando-se na serenidade da sua consciência, a fim de que, despojando-se de tudo o que é terrestre, interior e exteriormente, se faça digno de adorar a Deus, em espírito, na companhia dos Seus anjos.

15/04/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXI)

(continuação da LXX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XLIV
Fugir das Disputas Para Conservar a Paz da Alma

1. Cristo - Filho, deves conduzir-te em muitas coisas como os ignorantes e considerar-te como morto sobre a terra e o mundo morto para ti. Também deves fazer-te surdo a muitas coisas e não prestar atenção senão ao que pode conservar a paz da tua alma.
Vale mais que apartes os olhos daquilo que não te agrada, deixando a cada um a liberdade de pensar como lhe parecer, do que te embaraçares em argumentos e disputas.

2. Alma - Ó Senhor, a que estado estamos reduzidos!
Chora-se uma perda temporal, atormenta-se e morre a gente por um nada; e esquece-se de que a alma se perdem e essa perda tão horrorosa vem tarde à memória.
Atende-se ao que pouco ou nada aproveita e não se faz caso algum do que é sumamente necessário; porque o homem, pelo peso das suas más tendências, todo se dá às coisas exteriores e nelas descansa com prazer, se Vós não o fazeis entrar em si mesmo.

23/02/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LX)

(continuação da LIX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXIII
Das Quatro Coisas Que Trazem Consigo a Paz

1. Cristo - Filho, eu quero ensinar-te o caminho da paz e da verdadeira liberdade.

2. Alma - Eu Vos rogo, Senhor, que me concedeis essa graça.

3. Cristo - Filho, cuida em fazer antes a vontade alheia do que a tua. Contenta-te com o pouco e estima sempre ter menos que mais. Procura sempre o último lugar e gosta de ser inferior a todos. Deseja e pede sempre a Deus que cumpra em ti inteiramente a Sua santa vontade. Quem assim se conduzir entrará, sem dúvida, no país da paz.

4. Alma - Senhor, estas breves palavras, que acabais de dizer, contêm a suprema perfeição. São curtas, mas cheias de sentido e abundantes de fructos. Se eu pudesse observá-las fielmente, não me perturbaria com facilidade. Todas as vezes que perco a paz e me inquieto, reconheço que isso acontece por me haver esquecido essa doutrina. Mas Vós, que tudo podeis, e desejais o meu progresso espiritual, fazei que a Vossa graça me socorra, a fim de que, obedecendo aos Vossos preceitos, alcance a minha salvação.

5. Senhor, não Vos aparteis de mim, vinde em meu socorro, porque se levantaram contra mim pensamentos vários e grandes temores agitam a minha alma. Como escaparei ileso? Como poderei vencê-los? "Eu irei diante de ti - dizeis Vós - e humilharei os soberbos da Terra." "Abrirei as portas do cárcere e mostrar-te-ei as saídas mais secretas."
Fazei, Senhor, segundo a Vossa palavra, e fujam da Vossa presença os maus pensamentos que me perturbam.
Toda a minha esperança e a minha consolação nos males que me oprimem é recorrer a Vós, confiar em Vós, invocar-Vos de todo o meu coração e esperar com paciência o Vosso auxílio.

6. Iluminai-me, ó bom Jesus, com a claridade da luz interior.
Fazei brilhar a Vossa luz em meu coração e dissipai as trevas que o escurecem.
Reprimi as distracções ordinárias do meu espírito e quebrantai as tentações violentas que me combatem.
Pelejai fortemente por mim e afugentai as feras malignas que são os pensamentos iníquos, para que haja paz, e a abundância dos Vossos louvores cante em minha alma como num templo puro.
Dominai os ventos e as tempestades. Dizei ao mar: "Sossega"; dizei ao vento: "Não sopres"; e haverá grande bonança.

7. Enviai a Vossa luz e a Vossa verdade para que resplandeçam em minha alma. Sou uma terra estéril e tenebrosa, se me falta a Vossa luz.
Derramai sobre mim as graças do céu; regai meu coração com orvalho celestial; chovam sobre esta terra árida as fecundas águas da piedade, para que produza frutos bons e saudáveis.
Levantai-me o ânimo oprimido com o peso dos meus pecados; transportai todos os meus desejos ao céu, para que, amando as coisas celestes, não possa, sem desgosto, pensar nas terrestres.

8. Arrebatai-me, desprendei-me das fugitivas consolações das criaturas, porque nenhuma coisa criada pode aquietar e satisfazer plenamente o meu coração. Uni-me a Vós, por um vínculo indissolúvel de amor, porque Vós só bastais a quem Vos ama e sem Vós tudo é sombra e nuvens fugidias.

02/12/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XXXVIII)

(continuação da XXXVII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap.I
À Alma Fiel a Interior Falta de Jesus

1. Alma - Ouvirei o que em mim fala, meu Deus e meu Senhor. Feliz a alma que ouve falar-lhe o Senhor e recebe de Sua boca palavras que a consolam.
Felizes os ouvidos que recebem os sons sagrados da linguagem divina fazendo-se surdos aos rumores do mundo! Felizes os que não escutam as vozes que soam fora, mas a verdade que fala e ensina interiormente! Felizes os que, fechando-se para as coisas externas, estão abertos para as internas!
Felizes aqueles que penetram os caminhos ocultos da vida espiritual, dispondo-se cada dia por exercícios de piedade, a fim de se fazerem cada vez mais capazes de entender os segredos do Céu!
Felizes aqueles que se entregam a Deus e se desembaraçam de todos os impedimentos do mundo!

2. Cristo - Alma minha! Considera bem tudo isto e fecha as portas dos teus sentidos, para que possas ouvir o que o Senhor teu Deus se digna ensinar-te. Eis aqui o que ele te diz: "Eu sou a tua salvação, a tua paz, a tua vida. Na minha presença acharás a paz."
Deixa as coisas transitórias e busca as eternas. Que são as coisas temporais senão ilusão e sonho? De que servem todas as criaturas se te desamparar o Criador?
Renuncia a tudo, para te entregares Àquele que te criou. Sê-lhe fiel e obediente, para que possas conseguir a verdadeira felicidade.

25/11/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XXXIII)

(continuação da XXXII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

II Livro
O Mundo Interior

Cap. VIII
A Amizade Familiar Com Jesus 

1. Quando Jesus está presente, tudo é suave e nada parece dificultoso; mas, quando Ele está ausente, tudo é complicado e doloroso. Quando Jesus não fala dentro da alma, toda a consolação é vã; mas, se Ele nos diz uma só palavra, experimentamos grande alívio.
Não vês como se levantou logo Madalena do lugar em que chorava, quando Marta lhe disse: "O Mestre está aqui e chama-te?"
Ditosa hora quando Jesus nos chama das lágrimas em que nos encontramos para a alegrias do espírito!
Que seco e duro és, sem Jesus! Que néscio e leviano se desejas alguma coisa mais do que Jesus! Porventura não significa isto um prejuízo maior do que se perdesses todo o mundo?

2. Que te pode dar o mundo sem Jesus? Estar sem Jesus é terrível Inferno; estar com Ele é doce Paraíso.
Se Jesus estiver contigo, nenhum inimigo pode ofender-te.
Quem acha a Jesus acha o maior dos tesouros; acha um bem sobre todos os bens.
Quem perde a Jesus perde tudo.
Paupérrimo é quem está sem Jesus, e riquíssimo quem está com Ele.

3. É grande arte saber conversar com Jesus e grande prudência saber retê-Lo consigo.
Sê humilde e pacífico e Jesus estará contigo.
Depressa podes expulsar Jesus de ti e perder a Sua graça, se te afeiçoares às coisas exteriores. Mas, se desterras Jesus de ti, aonde irás e a quem buscarás por amigo?
Sem amigo não podes viver, e, se não for Jesus esse amigo, o maior de todos, estarás triste e desamparado; logo, serás insensato se em outro queres confiar. É preferível ter todo o mundo contra ti do que ofenderes a Jesus. Seja, pois, Ele, singularíssimamente amado, acima de todos os outros amigos.

4. Entre todos os teus amigos, ama Jesus como o maior que poderias encontrar. Ama a todos por amor de Jesus, mas a Jesus ama por ser Jesus.
Só Jesus Cristo deve ser amado com singularidade, porque Ele é o maior e o mais fiel entre todos os outros. Por amor dele deves amar tanto amigos como inimigos e pedir-Lhe por todos, para que todos o conheçam e O amem.
Nunca desejes ser louvado ou amado singularmente, porque isso só pertence a Deus, que não tem igual.
Não queiras que alguém ocupe o teu coração, nem tu te ocupes com o amor de alguém, mas deseja que Jesus reine em teu coração e no de todos os homens.

5. Sê puro e livre em teu interior, sem embaraço de criatura alguma, porque te importa ter o coração desocupado e puro para Deus, se queres repousar e sentir quão suave é o Senhor. Na verdade, não chegarás a isso, se não fores prevenido e atraído por Sua graça de modo que lances de ti todas as coisas e te unas somente a Ele.
Quando vem a graça de Deus ao homem, este fica poderoso para tudo; mas, se ela se afasta, o homem torna-se obre e fraco como que deixado para os castigos.
Não te desanimes, entretanto, nem te desesperes, mas confia perseverantemente na vontade de Deus e sofre, com valor, tudo o que te suceder para glória de Jesus Cristo, lembrando-te de que depois do Inverno vem o Verão, depois da noite torna o dia e depois da tempestade sobrevém a bonança.

18/11/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XXVIII)

(continuação da XXVII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

II Livro
O Mundo Interior
Cap. III 
A Paz Interior 

1. Estabelece primeiro a paz no teu coração e depois a darás aos outros. Mais útil é o homem pacífico do que o letrado.
O homem apaixonado converte o bem em mal e facilmente acredita no mal. O bom e pacifico transforma tudo em bem.
Quem está em boa paz de ninguém suspeita mal.
Mas quem vive inquieto, anda constantemente perturbado por suspeitas e por isso não conhece sossego nem dá sossego aos outros. Diz muitas vezes o que não deve e deixa de fazer o que mais importa. Preocupa-se com as obrigações alheias e descuida-se das suas próprias. Zela, pois, primeiramente, por ti, e só depois poderás com justiça zelar pelo teu próximo. 

2. Tu sabes muito bem desculpar ou colorir as tuas faltas, mas não queres aceitar as desculpas alheias. Mais justo fôra que não te escusasses a ti e escutasses o teu irmão.
Se queres que te sofram, sofre.
Vê quão distante ainda estás da verdadeira caridade e humildade, que não sabem irar-se senão contra si mesmas.
Não há vantagem nem merecimento em viver em paz com os bons, pois, sendo todos do mesmo parecer e animados todos da mesma boa vontade, tudo corre a contento. Porém, viver em paz com os ásperos e perversos, indisciplinados, ou com aqueles que nos contradizem e combatem, eis aí uma acção varonil, expressiva de grande graça e digna dos maiores elogios. 

3. Alguns há que têm paz consigo e com os outros. Mas há os que nem a têm nem a deixam ter os seus semelhantes. São penosos aos outros; porém, mais a si mesmos.
Há felizmente aqueles que não somente possuem a paz, mas ainda se esforçam para que a tenham os que dela carecem.
Nesta admirável vida, a nossa paz consiste mais em sofrer humildemente as adversidades do que não senti-las. Assim, quem mais souber padecer, maior paz terá. É o vencedor de si mesmo, senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do Céu.

25/06/14

AMOR PRÓPRIO - O MAIOR OBSTÁCULO À POSSE DE SUMO BEM

Do Cap. XXVII da Imitação de Cristo, e intitulado "O Maior Obstáculo a Possuir o Sumo Bem é o Amor Próprio" :

1 - Meu Filho, importa que dês tudo por tudo não tenhas a ti mesmo como coisa alguma.
Sabe que o teu amor próprio te prejudica mais que qualquer coisa do mundo.
Segundo o amor e afeição que tiveres, assim te prenderão as coisas mais ou menos.
Se o teu amor for puro, simples e bem ordenado, nenhuma coisa cativará a tua liberdade.
Não cobiçes o que te não é lícito ter; nem tenhas o que te pode impedir e privar da liberdade interior.
Maravilha é que te não encomendes a mim do profundo do teu coração, com tudo o que pode ter ou desejar.

2 - Porque te consomes com vã tristeza?
Conforma-te com a minha vontade e não sentirás dano algum.
Se buscares isto ou aquilo, e se quiseres estar aqui ou ali, por teu proveito e própria vontade, jamais terás descanso, nem estarás livre de cuidados, porque em todas as coisas se acha alguma falta, e em todo o lugar há quem contrarie.
3- Por isso não aproveita o que se alcança ou multiplica exteriormente, mas o que se despreza e corta do coração pela raiz.
E não deves entender isto só das propriedades e riquezas; mas também da ambição, da honra e do desejo do vão louvor; porque tudo passa com este mundo.
Pouco defende o lugar, se falta o fervor do espírito; nem durará muito tempo aquela paz buscada de fora, se carece do verdadeiro fundamento o estado do teu coração, isto é, se não estiveres em Mim; porque chegada a ocasião, e não a evitando, acharás o mesmo de que fugias e ainda pior.

Oração Para Pedir a Limpeza do Coração e a Sabedoria Celestial

4 - Confirmai-me, Deus meu, com a graça do Espírito Santo.
Dai-me que pratique a virtude de homem interior, e se desocupe o meu coração de todo o cuidado inútil e de toda a ansiedade, e que me não levem atrás de si os vários desejos das coisas terrenas ou sejam vis ou preciosas, mas que as considere todas como transitórias, e me lembre que eu juntamente posso com elas, porque não há coisas que permaneça debaixo do sol, onde tudo é vaidade e aflição de espírito (Eccl. 1,14).
Oh! que sábio é quem assim o considera!

5 - Dai-me, Senhor, a sabedoria celestial, para que aprenda a buscar-Vos e achar-Vos sobre todas as coisas; a gostar-Vos e amar-Vos sobre tudo, e a entender tudo o mais como é segundo a ordem da vossa sabedoria.
Concedei-me que me desvie com prudência do que me lisonjeia, e sofra com paciência quem me contraria, porque é grande sabedoria.
Concedei-me que me desvie com prudência de quem me lisonjeia, e sofra com paciência quem me contraria, porque é grande sabedoria não se mover com qualquer vento de palavras, nem dar ouvidos à sereia que danosamente encanta; porque deste modo se prossegue com segurança no caminho começado.

31/10/12

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XI)

(continuação da X parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

Cap. XI
Como se Deve Adquirir a Paz e o Zelo de Aproveitar.

1.Muita paz poderíamos ter se não nos quiséssemos meter nas palavras e obras dos outros, que não pertencem ao nosso cuidado. Como pode estar em paz muito tempo aquele que se intromete em cuidados alheios, e busca ocasiões exteriores, e dentro de si mesmo poucas ou raras vezes se recolhe? Bemaventurados os simples, porque terão muita paz.

2. Qual foi a causa pela qual muitos dos Santos foram tão perfeitos e tão contemplativos? Porque trataram de se mortificar totalmente a todos os desejos terrenos; e por isso puderam com o íntimo de seu coração unir-se a Deus e atender livremente a si mesmos. Nós, com intenção, nos ocupamos em servir as nossas próprias paixões, e nos encadeamos às coisas que passam. Poucas vezes vencemos perfeitamente um vício; não nos inflamamos com desejo de adiantar cada dia o nosso aproveitamento, e por isso ficamos com frouxidão e tibieza.

3. Se estivéssemos perfeitamente mortos para nós mesmos, e interiormente desembaraçados, logo gostaríamos mais das coisas Divinas e experimentaríamos alguma coisa da contemplação celeste. O total, e maior impedimento é, que não estamos livres de nossas inclinações e desejos, nem trabalhamos por entrar no minho perfeito dos Santo. Quando alguma pequena adversidade nos sucede, mui depressa nos desalentamos, e buscamos humanas consolações.

4. Se nos esforçamos a perseverar na batalha como varões fortes, sem dúvida veremos o socorro de Deus desde o Céu sobre nós. Porque aparelhado está nele para ajudar aos que pelejam, e esperam em sua graça, e nos procuram as ocasiões da peleia para que logremos a victoria. Se somente nas observâncias exteriores pomos o aproveitamento da vida religiosa, muito depressa terá fim a nossa devoção. Ponhamos pois o machado à raiz, para que, livres das paixões, possamos pacificar nossas almas.

5. Se cada ano desarreigassemos um vício, depressa seriamos perfeitos. Mas agora, pelo contrário, muitas vezes acontece termos sido melhores e mais puros no princípio de nossa conversão, que depois de muitos anos. O nosso fervor e o nosso aproveitamento cada dia deverá crescer; mas agora parece-nos muito perseverar em alguma parte do fervor primeiro. Se no princípio nós fizéramos alguma força, poderíamos depois fazer tudo com gosto, e felicidade.

6. Muito difícil é deixar os velhos maus costumes; porém mais difícil é ir contra a própria vontade. Mas, se não vences as coisas pequenas e fáceis, como vencerás as difícultosas? Resiste no principio à tua inclinação, e deixa o mau costume; para que não te seja pouco a pouco mais difícil. Oh... se considerasses de quanta paz isto seria para ti, e de quanta alegria para os outros, o governares-te bem! Crê que serias então bem mais cuidadoso em teu espiritual aproveitamento.

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