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15/12/15

MEMÓRIAS ECLESIÁSTICAS DO REINO DO ALGARVE (Cap. XV, II parte)

(continuação da I parte do Cap. XV)

Viviam os nossos Portugueses, e Mouros Africanos no Algarve sujeitos àquele Império Árabe, quando no porto de Lisboa arribou uma grossa armada de belicosas gentes, que iam em socorro da Cidade Santa de Jerusalém, a qual Guido de Lusigiano perdera no ano de 1186 (é tão diversa a lição dos Autores em pontos de Cronologia, que não me atrevo a deduzir a verdade, dando mais valor ao cuidado, e diligência daquele, ou deste Escritor. Como é impossível deixar muitas vezes de firmar os anos, em que algumas acções, se fizeram, sigo já a uns, e já a outros, segundo a persuasão de que me convenço, lendo os Autores, de cujas notícias me aproveito, em quanto o Cl. Pereira de Figueiredo não faz públicas as grandes aplicações que tem escrito da nossa Chronologia Portugueza), tomando posse dela Saladino no ano seguinte. uma furiosa, e rija tempestade de duros ventos, e grossos mares obrigou ao Imperador Frederico, chamado Barbaroxa (Luíadas de Camões, Canto III, oitava LXXXVI), a fazer a arribada àquele porto. As graças que o Papa Inocêncio III concedeu aos soldados que ajudassem aquela conquista, tinham excitado o espírito, e esforço das gente que adoravam a Cruz, e Insígnias do Salvador, a derramarem seu sangue, e restaurarem aqueles lugares, onde se completou a nossa Redenção.

Silves
ElRei D. Sancho, que então governava o Reino, estava naqueles dias em Santarém; e acudiu a fazer prestes os refrescos, e víveres para a armada, distinguida a todos os oficiais com aquelas honras, que a autoridade sofre. Continuaram os ventos a serem ponteiros, e rijos, e os mares agitados feriam as serras, não dando lugar àquelas naus a prosseguirem a viagem, e derrota do seu destino. ElRei lembrado do grande benefício, que de outra semelhante armada conseguira seu valoroso pai na tomada de Lisboa, não perdia ocasião de tentar os ânimos daqueles capitães para fazerem alguma empresa entre os Mouros nas conquistas deste Reino; e como a causa era tão semelhante aos intentos, e interesses com que empreendiam a glória, e honra do Senhor; e os exemplos da vitória, e prémios, que a outra armada estrangeira tinha conseguido sobre Lisboa, estavam ainda frescos, e excitavam a ambição da sua honra, facilmente deram o seu consentimento.

Ajustou-se em conselho, que se dirigisse a guerra sobre a Cidade de Silves, antigo porto, e asilo dos Africanos, que feitos piratas infestavam os mares, causando algumas ruínas nas nossas possessões, donde cativavam muitas almas, que às vezes perdiam a Fé pela liberdade, conseguindo estes roubos a glória de atrevidos, e ricos.

(a continuar)

07/10/15

MEMÓRIAS ECLESIÁSTICAS DO REINO DO ALGARVE (Cap. XV, I parte)

(voltar ao capítulo XIV)

CAPÍTULO XV

D. Sancho I (Catedral da Guarda)
Antiga Fundação da Praça de Silves: Não Foram os Povos Curetes, Sim os Cynetas, ou Fenícios, Seus Primeiros Habitadores: Breve Narração da Tomada Daquele Castelo Por ElRei D. Sancho I.

A Cidade de Silves, célebre pela riqueza, e comércio de seus antigos habitadores, lastimosa pelas ruínas de seus edifícios, e cidadãos, está situada à parte Ocidental do Reino do Algarve (na versão da Geog. Nubiense ediç. Paris 1619 citada pelo Cl. Gonçalo Xavier de Alcobaça na Diss. da Academ. Liturg. Tom II, pág 527 "huic esiam provinciae limitanea est ab occasu provincia Alfaghar [Algarve] intra cujus ambitum deprehenduntur Sancta maria, Martola, Selves cum plurimis castelis, ac pagis. Jungitur hic provinciae Alacacer, quae nomen a filio Danes, continetque Jaboram, Batalios, Saripam, Maredam, Cantarai, Aljaif & Coriam, etc."), três lugares ao Oeste do antigo Porto de Anibal. Alguns Escritores asseguram ser edificada aquela Praça pelos Povos Curetes (Plobacion Gen. de Esp. pág. 2 ediç. 1675 Corog. Portug. Tom III, pág. 4, D. Luís Caet. de Lima, Geog. Hist. Tom II diz, que Silves se supõe edificada antes da vinda dos Cartagineses. É certo que os Povos chamados Curetes, de quem fala Justino no Liv. XLIX vindos da Grécia às Espanhas, são os Cynetas, Cinésios, ou talvez antes dos Fenícios. Sabemos que os Historiógrafos daqueles tempos lhes dão os nomes, segundo a diversidade das Regiões que habitavam. Os Curetes porém nunca vieram às Espanhas, o que dignamente decidem, e provam com eficazes razões os Cl. PP. Mohedanos na sua Hist. Litt. de Hesp. Tom. II Part. I Liv. IV, pág. 127 e seg. e Tom II Part. II Dis. VIII pág. 71 e seg.), quatrocentos, e quarenta antes da vinda de Cristo. Sobre um monte, a que vai contornando uma pequena planície, se vê elevada esta Cidade. Altas serras encurtam por todos os lados a sua vista, e fazem seu horizonte restrito, e muito apanhado. A diversa disciplina de seus conquistadores a fez confluir de fortes muros, e baluartes, segundo os tempos, e interesses obrigavam. Uma ribeira lava as casas de seu arrabalde, e por isso suas estreitas margens não são estéreis à benigna cultura.

Desemboca esta ribeira na barra de Portimão, por onde lhe entra o fluxo da moré, que sobe até cobrir as mesmas fontes. Foi antigamente famoso este rio pelas enterprezas dos Cartagineses. Romanos, e Sarracenos, como também foi útil ao comércio nacional no princípio do governo dos nossos Soberanos (antigamente eram frequentes entre nós as Assembleias dos Povos dos diversos Estados do Reino, a que chamam Côrtes. Nelas se resolviam as controvérsias, e se ordenavam as decisões, e Leis sobre os pleitos, queixas, e interesses dos mesmos Povos entre si, e da Coroa. A Câmara de Silves abunda nestes Pergaminhos originais das decisões que li, e consta deles os grandes interesses de comércio, que se fazia naquela Cidade até aos anos de 1351 que totalmente foi arruinada; recobrando um pouco o antigo esplendor no fim do século XV e princípio do XVI em que o Senhor Rei. D. Manuel mandou reformar os antigos Forais das Cidades, e Vilas; reduzindo a melhor forma a economia da fazenda; e no Foral de Silves, assinado em 1505 se lê, ser esta Cidade reputada primeiro que a de Lisboa para o privilégio de vizinhança. A decadência do comércio, e as disposições que a Província permite para castigo dos homens, arruinaram Silves, até ao ponto de lhe ser arrancada a glória da Cadeira de Paulo III que depois de alguns anos se verificou governando o Senhor Rei D. Sebastião, apesar das oposições dos moradores, que ainda hoje sentem, e choram esta falta). Um Ilhéu de cem palmos de comprido por vinte de largo divide uma pequena foz (a que chamam a barra de Silves) da serra da atalaia, onde houve uma guarita dos tijolos, ou ladrilhos Fenícios, de que já falei, a qual servia aos Turdetanos, e Sarracenos de vigiarem sobre a entrada do Porto. Bem poucos anos há que se viam nas rochas vizinhas argolões grandes de ferro, e bronze, destinados a se amarrarem as embarcações de maior parte. Os velhos têm insstruido a seus netos haver naquele Ilheu um registo, onde antigamente davam entrada, e saída às embarcações, que parece ficavam ali em franquia (sabemos por uma Lei do Senhor Rei. D. João II, passada em Évora aos 23 dias de Janeiro de 1495, que este Soberano para adiantar o comércio daquele País deu uns grandes privilégios, e isenções a doze Pescadores nacionais, que se estabelecessem no lugar da Amixolhoeira da Carregação, termo da Cidade de Silves, por ser o sítio daquela Povoação mais acomodado à transformação, e saída dos géneros daquele terreno, e o da Pesca. Guarda-se este Pergaminho na Câmara de Silves, do qual extraí uma cópia).

Sofreram os moradores de Silves as mesmas mudanças de costumes, ritos, e dominadores, como o mais resto dos Povos da Lusitânia. os bárbaros Sarracenos da família dos Almoadas tinham o senhorio das Espanhas, o célebre Abderrame Mouro honrado, e valoroso passou naqueles dias da África com grande poder de soldados; e internado na Lusitânia, tomou Beja, Évora, Santarém, Lisboa, e todo o Algarve (nisto viu um mouro honrado a Espanha: e pelejou com Juffez, e matou-o, e fez-se Rei, esse Abderame veio dalém mar com grande poder de gentes de  Miramulim, e depois que matou Juffez senhoreou-se de toda a Espanha. E tomou os lugares que ficavam por tomar aos Cristãos: este destruiu as Igrejas, e queimou os Santos que estavam nelas, etc. "São palavras originais de um raríssimo Mss. que se conserva entre os Livros do Sábio Professor de Filosofia bento José de Sousa Farinha, a pág. 72 e é uma Crónica das coisas daqueles tempos, descoberto este Mss. na Cidade de Évora." Tem lembrado ser a Tradução de Rafis, por Mahamet, e Gil Peres, ou outra Crónica das mais antigas, ou a Tradução que fez Resende, como já disse). Segundo alguns Escritores, Silves foi tomada aos Mouros por ElRei D. Fernando o Grande de Castela em 1060 cuja possessão logrou poucos tempos (Corograf. Portug. Tom III pág. 4 D. Luís Caet. de Lima Geog. Hist. Tom. II). Com Ismar, e os demais reis, que foram vencidos na batalha do Campo de Ourique, também se sabe que viera o Potentado de Silves, homem de grandes forças, e agigantada estatura, a quem ElRei D. Afonso Henriques matou naquela famosa victoria com uma lançada (Mr. de la Clede Hist. de Portugal).

(continuação, II parte)

06/10/15

MEMÓRIAS ECLESIÁSTICAS DO REINO DO ALGARVE (Cap. XIV, IV parte)

(continuação da III parte)

Depois deste Príncipe ter dado mostras de seu ânimo, e valor, depois das conquistas de Sevilha, de Beja, de Santarém, e de outras muitas Praças fortes do Reino, Senhor absoluto da Monarquia, medita emprezas grandes, e as desempenha. Não é sempre propícia a Providência aos interesses marítimos. Ela obriga muitas vezes os navegantes a empreenderem escalas contra os intentos premeditados. Uns aventureiros da glória militar, e religiosa, que se dirigiam à conquista da Terra Santa, entram no porto de Lisboa, impelidos de uma furiosa, e rija tempestade. ElRei D. Sancho não perdeu tempo em os obsequiar, enquanto este ia contrário á viagem intentada. Aquele Soberano lhe propõe alguma conquista nos vizinhos Mouriscos; e uns, e outros convieram em se dar assalto à Cidade de Silves, Praça forte, e florente no Algarve, e que servia de asilo às entrepreza dos Africanos.

Silves
Este Castelo depois de sofrer quase dois meses de assédio, em que a presença do Soberano influía para a conquista, foi cedido às forças das armas Portuguesas, e dado a saque aos estrangeiros. ElRei mandou consagrar a Mesquita maior dos Mouros em Catedral, sendo feita esta religiosa acção pelos Prelados que ali se achavam. Então é que se renovou a antiga Igreja Osnobense, que estava esquecida havia tantos séculos; nomeando o mesmo Soberano por Bispo Silvense a D. Nicolau.

Como vivi alguns anos no Convento, que a minha Congregação tem nesta Cidade, desejo ser grato a instrução da mocidade que ali eduquei, e à civilidade que devi às pessoas advertidas do país, fazendo desta conquista uma narração circunstanciada, e propondo algumas antiguidades que vi, e descobri no Cartório daquela Câmara.

É pois Silves respeitável pela glória de ser escolhida para residência da Cadeira Episcopal do Algarve, em que se ia renovar o esplendor da Igreja Godo-osnobense. Desfrutou séculos esta glória, que perdeu pelos fins que a Providência permite. Dentro da Sé daquela cidade se encontram ainda hoje dignos testemunhos da sua grandeza nos sepulcros elevados de muitos veneráveis Prelados, na campa DelRei S. João II e de outras Pessoas qualificadas. Poucos dias há que vimos destruir a Cadeira Prelatícia, e Episcopal do Coro alto, onde dignos Prelados assistiram aos Ofícios Santos, ficando-no a mágoa de ignorarmos a decência, e usos da nossa primitiva Igreja, que se conservavam naquela Catedral, nesta, e outras antigualhas, cuja perda lamentam os sábios, e amadores das coisas da nossa primeira fundação. Estas, e outras memórias dos veneráveis, sábios, e ilustres Bispos de que formaremos os elogios, obrigam de justiça a um conhecimento mais amplo das conquistas da Cidade de Silves na dominação portuguesa.

(Capítulo XV)

17/08/15

MEMÓRIAS ECLESIÁSTICAS DO REINO DO ALGARVE (Cap. XIV, III parte)

(continuação da II parte)

Continuam as victorias na Turdetânia, a quem os Mouros chamam  Fogron (12), e determinadamente Alburg, como já dissemos. As nossas Cidades, Lugares, e Povoações ficam ermas, e solitárias. Os homens se embrenham nos desertos, nos cabeços dos montes: seguem-nos os filhos, e as mulheres, repetindo clamores, e áis aos Céu. A cada instante topavam cadáveres, que juntando as campanhas, faziam horroroso o trato da humanidade. O susto, a fome, a morte, e a desesperação os transformava em Estátuas. Uns a outros divisavam nos seus rostos como em espelho os males que os seguiam. Esquecidos de si, e parece que insensíveis à mesma natureza, tinham como inveja aos irracionais, vendo que se nutriam na carne dos amigos, e parentes.

Tristes, e fatais dias foram estes à Pátria, e à Igreja! Emudeceram as vozes dos Pastores: não se ouve a doutrina do Santo Evangelho: o sangue dos Mártires: os trabalhos dos crentes encerrados nas escuras cavernas a que se refugiavam: as lágrimas, e desamparo das donzelas, dos pais, e dos filhos: todos estes sensíveis objectos gritavam ao Céu, que parece endurecido aos penetrantes clamores dos inocentes. Tudo, na verdade, tudo fugia diante destes bárbaros, que pisavam aos pés as Leis mais santas da natureza, e profanavam com impiedade todas aquelas mesmas coisas, que o Cristianismo tem de mais sagrado, e respeitável. Abandonados aqueles fiéis ao despotismo, e tirania dos Mouros, a sua formosa, e amável Esposa a Santa Igreja ia como desgarrada, entregue ao ludibrio, e profanação dos infames Africanos. Malvados, e sem humor se atrevem a profanar, e pôr as mãos na Arca do Testamento: roubam os Vasos Sagrados, despedaçam as alfaias que servem ao Santuário: aquele mesmo tremendo Sacrifício, onde veneramos, e respeitamos os Mistérios da nossa Reparação, onde humilhados adoramos presente ao Supremo, e Omnipotente Senhor, é interrompido, e apenas seria por alguma vez praticado sem aquele esplendor, e aparato que pedia o Deus Imenso, a quem se tributavam aqueles cultos.

Dura séculos este bárbaro domínio. Dilatados tempos geme a Lusitânia nesta escravidão. Os Reis das Astúrias, de Leão, e de Navarra sacodem o jugo, e por muitas partes levantam o troféu, e estandarte da Cruz contra os intrusos, e infames Africanos. Castigam a ferro, e fogo o ímpeto de suas victorias aqueles Soberanos, que animando com os seus exemplos aos soldados, adiantavam conquistas em que se respeitava a Lei de Jesus Cristo que eles seguiam.

A Província também se mostrou benigna aos males que padecia a Lusitânia. O Todo Poderoso suscita de entre nós ao insigne, e grande Rei D. Afonso Henriques, terror, e açoite dos Mouriscos, e vencedor de muitas, e famosas batalhas, que a benignidade de um Deus, Senhor dos Exércitos, lhe fez conseguir, ainda em idade provecta (13). Um digno sucessor anima as suas venerandas cãs. Sancho I herdando as virtudes, e forças de tão valoroso pai, segue as pisadas do respeitável Progenitor.

(continuação, IV parte)

18/04/15

14/01/14

BISPO ALGARVIO ROUBADO POR CONDE INGLÊS

A notícia saiu hoje (14/01/2014) no PÚBLICO, com o título de "O Caso da Biblioteca que o Conde Inglês Roubou ao Bispo do Algarve":

"Associação de Faro pede à Universidade de Oxford que devolva a biblioteca de D. Fernando Martins Mascarenhas, saqueada pelo conde de Essex em 1596.

Numa concorrida assembleia geral, a Associação Faro 1540 aprovou por unanimidade, no dia 17 de Dezembro, a decisão de pedir à Universidade de Oxford que devolva a importante colecção de incunábulos que pertenceu ao bispo do Algarve D. Fernando Martins Mascarenhas, saqueada do Paço Episcopal, em 1596, pelo aristocrata e corsário inglês Robert Devereux, 2.º conde de Essex.

Criada em 2009 e vocacionada para a defesa do ambiente e do património, a Faro 1540 (o nome evoca a data de elevação a cidade da actual capital algarvia) enviou já a sua petição à Universidade de Oxford – a cuja biblioteca, a Bodleian Library, Devereux doou os livros pilhados –, e também ao Governo britânico e ao Palácio de Buckingham, residência oficial da rainha em Londres.

Além de pedir a devolução da biblioteca do bispo – cerca de 90 volumes –, a associação solicita ainda o regresso do único exemplar conhecido daquela que será a mais antiga obra impressa em Portugal: uma versão hebraica do Pentateuco (compilação dos primeiros cinco livros da Bíblia) impressa em Faro, no ano de 1487, pelo tipógrafo judeu Samuel Gacon. O dito exemplar está hoje na British Library, a biblioteca nacional do Reino Unido, e Bruno Lage, presidente da associação farense, admite que o volume possa ter integrado o saque do conde de Essex, ainda que reconheça não existirem provas que confirmem essa hipótese.
“Foi quase de certeza pilhado nessa época, mas não se pode afirmar que estava no espólio do bispo”, disse ao PÚBLICO o responsável da Faro 1540, observando que este exemplar do Pentateuco “tem um valor simbólico muito elevado para Faro, mas é apenas mais um livro para os ingleses”.

A petição, que a associação também fez chegar ao secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, à Câmara Municipal de Faro e ao actual bispo do Algarve, D. Manuel Neto Quintas, termina com um voto de confiança nas instituições inglesas: “Estamos certos de que as autoridades britânicas saberão reconhecer a justiça da nossa pretensão e que farão justiça a um país amigo (onde vigora entre os dois países a mais antiga aliança diplomática do mundo) e a uma cidade que se orgulha da sua história milenar e do seu contributo para a cultura portuguesa e europeia.”

Se se vier a provar que o optimismo da Faro 1540 foi precipitado e os livros continuarem onde têm estado ao longo dos últimos 400 anos, a petição, divulgada na imprensa local e nacional, terá servido pelo menos para chamar a atenção dos farenses para a história da sua cidade. “Depois de aparecerem as notícias, percebemos que muita gente, em Faro, desconhecia este episódio”, diz Bruno Lage.

As armas do bispo
Nem as autoridades portuguesas nem as inglesas responderam até agora à associação algarvia. A Secretaria de Estado da Cultura confirmou ao PÚBLICO a recepção do documento, mas adianta apenas que este será "oportunamente analisado”. Já a Universidade de Oxford não esclarece se recebeu a petição e limita-se a informar que “não fará, neste momento, qualquer declaração ou comentário”.

De resto, mesmo que considerasse o assunto passível de ponderação, não seria muito provável que pudesse desde já responder positivamente ao pedido da Faro 1540, uma vez que este não foi, por enquanto, assumido pelo Estado português, e não é sequer claro a que concreta instituição deveria a universidade entregar os livros, caso admitisse devolvê-los.

O PÚBLICO pediu também à Bodleian Library uma relação dos livros que pertenceram indubitavelmente à biblioteca do bispo D. Fernando Martins Mascarenhas, mas não recebeu ainda resposta a esta solicitação. Note-se que a petição não inventaria os títulos em causa, adiantando apenas que a colecção é “constituída por 65 títulos (num total de 91 volumes)”. Bruno Lage adianta ainda a informação de que 43 desses títulos seriam obras de carácter teológico – oito dos quais relativos a S. Tomás de Aquino – e 18 teriam natureza jurídica.

Num extenso artigo dedicado ao episódio do saque da biblioteca do bispo do Algarve, Peter Kingdon Booker, um inglês residente em Portugal que se tem dedicado ao estudo e divulgação da história algarvia, adianta que, além destes 65 títulos, que ostentam as armas do bispo gravadas a ouro, a biblioteca de Oxford possui ainda um outro livro e um manuscrito que apresentam dedicatórias a D. Fernando Martins Mascarenhas. Também estes foram doados por Essex ao seu amigo Thomas Bodley, que estava então a refundar a biblioteca da universidade inglesa, pelo que não há grandes dúvidas de que terão sido pilhados na mesma ocasião.


O texto de Booker, publicado no site da Algarve History Association, chama ainda a atenção para o facto de não ser certo que estes livros constituam a totalidade dos que Essex trouxe de Faro, quer porque o conde pode ter conservado alguns, quer porque a biblioteca do bispo pode não ter sido o único local da cidade onde Devereux pilhou livros.

E antes de atacar Faro, em Julho de 1596, Devereux já saqueara a cidade espanhola de Cádis, de onde igualmente trouxera alguns livros que depois ofereceu a Thomas Bodley. Booker precisa que a doação do aventureiro inglês à Bodleian Library totalizou 176 títulos, correspondentes a 215 volumes.

Se as armas do bispo garantem a proveniência das obras que as exibem, a ausência delas não assegura que não tenham sido igualmente pilhadas do Paço Episcopal. Algumas poderiam ter pertencido, sugere Bruno Lage, ao predecessor de D. Fernando Mascarenhas, o bispo D. Jerónimo Osório.

O ataque a Faro
Quando se dá o ataque do conde de Essex, Faro era cidade há pouco mais de meio século, por foral de D. João III, e só em 1577 recebera a sede do bispado algarvio, até então localizada em Silves. E Portugal estava submetido desde 1580 ao monarca castelhano, o que recomenda que se avalie este episódio no contexto do conflito entre Inglaterra e Espanha, que tivera um momento marcante em 1588 com a derrota da chamada Armada Invencível de Filipe II, e que iria prolongar-se pelos primeiros anos do século XVII.

O que não invalida o facto de Essex, como Devereux era conhecido em Inglaterra, ser mais um corsário, um aventureiro, do que propriamente um oficial devotado ao cumprimento escrupuloso das ordens da rainha. Espécie de playboy quinhentista, foi durante muito tempo o favorito de Isabel I e, embora esta tivesse mais 34 anos do que ele, os historiadores acreditam que terá sido também seu amante.

Indisciplinado por natureza, a rainha tratava-o com indulgência, mas Essex irritou-a ao casar-se sem a sua bênção, e voltou a irritá-la quando assinou, sem autorização, uma trégua com o líder da sublevação irlandesa. A gota de água foi a tentativa de golpe de Estado que o conde liderou em 1601, tentando tomar Londres. O facto de em tempos lhe ter dado o seu coração, não impediu Isabel de lhe reclamar a cabeça: Robert Devereux foi a última pessoa a ser decapitada na torre de Londres.

E tendo em conta que só em 1600, um ano antes de perder literalmente a cabeça, doou a Thomas Bodley os livros que roubara no Algarve, foi uma sorte que a valiosa colecção do bispo acabasse na biblioteca de Oxford. Se Essex tivesse esperado um pouco mais, não se sabe que destino poderia ter tido o espólio de um aristocrata caído em desgraça e executado.

Juntamente com o conde de Nottingham, Devereux liderou as tropas que desembarcaram perto de Faro, na barra então chamada Ferrobilhas, no dia 23 de Julho de 1596. Os ingleses dirigiram-se à cidade, que encontraram mal defendida, já que boa parte da guarnição fora enviada a reforçar as defesas de Lagos. Depois de ter conseguido um valiosíssimo saque em Cádis, que atacara no início desse mesmo mês de Julho, Essex ficou deveras desapontado com a pouca riqueza que encontrou em Faro, e terá sido por isso que, irritado, mandou atear uma série de fogos, que destruíram igrejas e conventos e deixaram a cidade em muito mau estado.

Um “triste incidente que mancha a memória das boas relações que Portugal mantém com a Inglaterra desde a assinatura do Tratado de Windsor” em 1386, lê-se na petição enviada às instituições britânicas pela Faro 1540. E a própria Bodleian Library, num conjunto de documentos nos quais apresenta a sua colecção de incunábulos, refere o assalto a Faro como um “ataque corsário” (“buccaneering raid”). E diz expressamente que Essex “saqueou” (“looted”) a biblioteca do bispo.

Caso a Universidade de Oxford se venha a sentir obrigada a responder a esta petição, é improvável que tente defender a legitimidade das acções do conde de Essex à luz do conflito anglo-espanhol. Mas há vários argumentos que pode esgrimir em favor da conservação dos livros em Oxford, e o texto de Peter Kingdon Booker já adianta alguns deles.

Booker conta que conheceu em 2007 uma inglesa, a quem trata apenas pelo nome próprio Dorothy, que já então andava a tentar convencer a Bodleian Library a devolver os livros saqueados por Essex em Faro. Dorothy cedeu a Booker as cartas que recebeu de um responsável da biblioteca de Oxford, nas quais este defende que a devolução generalizada de peças como estas levaria a que as bibliotecas e museus em todo o mundo entrassem num período de tumulto.

Lembrando que os séculos XVI e XVII assistiram a grandes convulsões políticas, o bibliotecário, cujo nome Booker não cita, recorda que algumas das obras da biblioteca original de Oxford estão hoje em São Petersburgo ou em Roma. E conclui (na transcrição de Booker): “Se virmos estes volumes como parte de uma vasta colecção europeia, não pode ter importância em que zona da Europa estão, desde que sejam bem preservados, que a sua localização seja conhecida e que estejam disponíveis para consulta.”

É claro que, estando assegurado que os livros disporiam de idênticas condições em Faro, se poderia observar que o mesmo argumento, na sua indiferença por comezinhas questões de propriedade, deveria levar os responsáveis pela Bodleian Library a considerar que não havia nenhum motivo importante para os manter em Oxford.

Embora a biblioteca não pareça ter disponível no seu site uma lista dos livros provenientes da colecção do bispo, a consulta dos catálogos de incunábulos permite ir encontrando alguns, como uma compilação de obras de Guilelmus Alvernus – ou seja, o teólogo e filósofo escolástico Guillaume d’Auvergne (c.1180-1249), bispo de Paris –, cuja “encadernação do século XVI” tem gravadas, reza a respectiva descrição, “as armas de Fernando Martins Mascarenhas, bispo de Faro, às quais foi sobreposto, em ambas as capas, o brasão da Bodleian Library”.

Outro exemplo é o das Visiones de Cataldus Parisius Siculus, um humanista siciliano que viveu e ensinou em Portugal a partir dos finais do século XV. O livro foi impresso em Lisboa, em 1500, pelo impressor e tradutor Valentim Fernandes, natural da Morávia. Chegado a Portugal em 1495, Fernandes, editor do livro de Marco Polo e correspondente de Albrecht Dürer, foi uma das figuras mais importantes dos primórdios do livro impresso em Portugal.

Para lá da relevância da obra, este é um caso interessante por se tratar de um volume que não exibe as armas do bispo, mas que, mesmo assim, os próprios bibliotecários de Oxford admitem que possa ter-lhe pertencido. Os registos de doações indicam que a Bodleian terá recebido dois exemplares deste livro, mas apenas um chegou ao presente. E não se sabe se o que se conserva foi comprado com o auxílio de uma mecenas, Alice Chamberlain, ou se é “o exemplar de Fernando Martins Mascarenhas, bispo de Faro, doado por Robert Devereux”.

14/09/12

ALTARES EM PORTUGAL - ANTES DA "REVOLUÇÃO CONCILIAR" (III)

Mosteiro dos Jerónimos - Lisboa

Igreja de Jesus -  Aveiro

Nossa Senhora das Merecês - Lisboa

Igreja de S. Domingos - Lisboa 
Igreja do Convento da Madre de Deus - Lisboa

Igreja do Convento de N. Senhora do Carmo - Tavira

Igreja do Mosteiro, em Arouca.

03/09/12

"TRADICIONALISTAS" CONTRA O LIBERALISMO DE D. PEDRO IMPERADOR DO BRASIL



Do outro lado do mar chegou-me uma opinião descontente, muito convicta de si, segundo a qual não se podia chamar tradicionalista a D. Miguel I de Portugal, irmão de D. Pedro imperador do Brasil, por ser designação não costumada. Pois bem... é falso! Na História de Portugal dos Tempos Pré-Históricos aos Nossos Dias, dirigida pelo Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Prof. João Medina, podemos ler na página 107 do VIII tomo:

"A Carta esteve longe de propiciar a desejada reconciliação da família portuguesa. A própria infanta Isabel Maria hesitou na sua promulgação, o que só veio a suceder a 31 de Julho de 1826, depois de fortes pressões exercidas por Saldanha, ao tempo governador militar do Porto. Os adeptos da Constituição de 1822 não a aceitavam por ser demasiado moderna. Os tradicionalistas, por seu turno, recusavam liminarmente qualquer texto constitucional."

Já agora, ainda do mesmo texto:

"Numa proclamação datada daquela localidade e de 6 de Agosto de 1826, apelava aos militares para que aclamassem "o nosso legítimo Rei e Senhor D. Miguel I; desembainhai vossas cortantes espadas para vingar os direitos deste Soberano ofendido e ultrajado pela mais vil facção maçónica". (...) No Norte o conde de Amarante (Marquês de Chaves desde a Vilafrancada), reeditava a anterior sublevação e assolou Trás-os-Montes. Por todo o País se sucediam os levantamento absolutistas, no Algarve, em Vila Real e Viseu. Revoltaram-se as milícias da Guarda, de Tondela, Arganil, Arouca, Covilhã..."

Na página 172:

"Na sequência da guerra civil, a vitória de D. pedro e da causa liberal, em 1834, impunha novas condições à proposta antiliberal. A derrota teve, essencialmente, um carácter militar. D. Miguel passava a constituir, a partir do exílio, o pólo da unidade possível das resistências. A alternativa enunciada pelo tradicionalismo contraliberalista ganhava uma identificação definitiva com a legitimidade representada por D. Miguel, no seu mais amplo sentido."

Um dos cognomes de D. Miguel I é "o Tradicionalista", tal como alguns Reis têm mais que um cognome por justos motivos: é o caso de D. Afonso Henriques "o Grande" ou "o Fundador", quanto me lembre.

Mas vamos agora a outra curiosidade oferecida nas páginas 114 e 115:

"... D. Carlos Maria Isidro, que se encontrava em Portugal sob protecção de D. Miguel I, não aceitou aquela disposição que violava a "Lei Sálica" dos Bourbons e divulgou, a 1 de Outubro, o "Manifesto de Abrantes" [Abrantes, em Portugal], onde se considerava o legítimo Rei de Espanha; seguiram-se os "Decretos de Santarém" [Santarém, em Portugal], já assinados como Carlos V, As correntes tradicionalistas espanholas, que se manifestavam desde 1822 encontravam agora um chefe."

27/08/11

MEMÓRIAS ECLESIÁSTICAS DO REINO DO ALGARVE (Cap. XIV, II parte)

(continuação da I parte)

Depois da morte de Juseff Taschphin acontecida no ano da Hegira 500 e de Cristo 1106 passou o governo das Hespanhas a seu filho Ali, Principe esfoçado, que ganhou de seu inimigo algumas Cidades ( Bibliot. Arab. Tom II pag. 218). A este sucedeu no governo seu filho Taschphin, que perseguido dos Almohaditas se refugiou em Orão no ano da Hegira 539 e não se julgando ainda seguro naquele lugar á ira de sues competidores, intentou a todo o risco salvar a vida, que perdeu em um barranco onde o despenhou seu cavalo. Com a morte de Tasephin acabou em África o domínio dos Almoravides, ocupando o governo das Hespanhas Abdelmumen Bem Ali Almohadita, a quem sucederam por sua ordem Juseff Bem Jacob Almonsor e Mahomat Alnaser, que perdeu a famosa batalha das Navas.

Esta é a sucessão dos que dominaram a Hespanha até que principiou a sacudir o jugo, e sacudiu. A funesta entrada destes usurpadores deve-se á pérfida de Julião. Este traidor da Religião e da Pátria soube introduzir no espírito do Régulo Musa Bem Nácer a vaidade de Conquistador das Hespanhas. Apezar das dificuldades que saltavam á vista para se poder conseguir a empresa, teve artes de vencer o coração de Musa que nomeia por General das suas tropas Tarik Bem Abdala Uanmo Azzanati, no reinado do Califa Maruan, Tocaram ás armas, corre a guerra, as Hespanhas são invadidas, e devastadas pela força dos Árabes (entraram por Algeziras, a que chamaram a Ilha Verde, no ano da Egira 90 que corresponde à era de Cristo 708 Geog. Nubiense em Arabe Part. I quarto clima). Sucedem os triunfos uns após outros, apezar da oposição dos nossos Soldados. Os felizes efeitos que Musa adverte terem conseguido as tropas no comando daquele chefe, o lisonjeiam a deixar a África em 711 como fica notado. São por toda a parte os instrumentos bélicos, acodem os soldados, inumerável multidão de Mouros sanhudos, raivosos, e intestados da fama e ambição dos despojos, seguiram o Princípe. Suas tendas e pavilhões cobriam as montanhas, e os vales.

(continuação, III parte)

20/07/11

MEMÓRIAS ECLESIÁSTICAS DO REINO DO ALGARVE (Cap. XIV, I parte)

MEMÓRIAS ECLESIÁSTICAS DO REINO DO ALGARVE
CAPÍTULO XIV

Perdem os Godos as Espanhas no Reinado de D. Rodrigo. Introduzem-se os Africanos: os Reis das Astúrias, de Leão e de Navarra sacodem o jugo. D’El-Rei D. Afonso Henriques lança fora os Mouros de grande parte da Lusitânia.


Tal foi o digno, e decoroso esplendor com que a Igreja Osnobense apareceu naqueles dias à face do Universo. A vigilância dos Santos Pastores em explicarem a Doutrina Evangélica, a força, a viva, e eficaz força com que eles pronunciavam as vozes de salvação, a majestade do sacrifício, a devoção, e respeito do culto, as acções, e feitos virtuosos no desempenho do Sagrado Ministério; todos estes santos, e louváveis procedimentos são evidentes testemunhos da efectiva diligência, e instrução dos Prelados, que regeram aquela Diocese. Ninguém pensará com acerto poder descobrir uma justa, e completa notícia daqueles séculos. É geral a desconsolação, e lamento dos sábios nesta parte. As pequenas luzes dos Sinos primitivos fazem a maior instrução aos nossos conhecimentos, Senão reputássemos apócrifas as Epístolas, que se supões dirigidas por alguns Pontífices daqueles séculos aos Bispos da nossa Espanha elas fariam a glória da Igreja Osnobense. Na mão dos bárbaros Sarracenos pereceram com os operários do Evangelho as nossas Memórias. As suas grandes, e dignas acções, que ainda hoje excitariam os nossos sentimentos à veneração, e respeito, foram subterradas com os Santos Professores do Cristianismo.

Os pecados D’El-Rei D. Rodrigo, a raiva do perverso, e infame Julião, os fins que a Providencia se propõe para castigar as culpas dos homens, são motivo das infelicidades de Espanha, e das victorias e triunfos dos bárbaros. Não é possível dizer se foi Agripio, ou outro Bispo, quem presidia à Igreja Osnobense no ano em que se descreve a invasão destes Árabes na Lusitânia (quase todos os Escritores referem esta entrada dos Sarracenos em 713 ou 714. Porém o sábio Anotador da Tradução da História de Portugal de Mr. De Clede, fundado talvez em Pagi, nos diz “Que Mufa passou ás Espanhas em 711 como ele dirá adiante”, tomo II pag. 175). Quero esquecer-me da supersticiosa preocupação de certos cronistas em intentarem persuadir-nos que na entrada dos Sarracenos se refugiara á Ilha Antilia [Antilhas], ou Encoberta, Máximo Metropolitano Emeritense com seus Bispos sufragâneos, levados da Providencia, e destino superior. Triste pensar daquele século! Acaso teriam lembrança de algum Prelado da nossa Osnoba?

D. Paio Príncipe Godo, neto D’El-Rei Kindasvindo, é aclamado Rei das Astúrias poucos anos depois daquela época. Este Soberano desbarata os Africanos na batalha de Ausena. As diversas Monarquias que se levantaram nas Espanhas derivaram seu princípio desta conquista apesar da oposição dos Sarracenos.

Ficaram as nossas terras sujeitas ao Império e senhorio dos Kalifas, ou sucessores de Mafoma [Maomé] (O título de Kalifa significa Sucessor Hereditário. É anexo a esta dignidade o supremo poder absoluto em todas as matérias assim de Religião, como do Governo Político. Os antigos Soberanos Árabes, e ainda hoje os Reis de Marrocos, gozam deste título). Tinham estes sua Corte na Cidade de Damasco, e nomeavam os Vice-Reis, e Governadores, que regendo os Povos, recebiam os tributos em reconhecimento da vassalagem.

O dominante espírito de dissensões trouxe sempre inquieto este Império com intestinas discórdias. Mil ruínas causaram estre si, e na Monarquia a ambição de governar dos Omniaditas Moavias, e dos Abbassidas no Oriente, e dos Almoravides, e Almohades na África. No ano 139 da sua Hegira, que teve princípio a 4 de Junho de 746, entrou nas Espanhas Moavia (Hist. Raracen, traduzida do Árabe em latim por Thomaz Erpenio. Liv. II Cap. III). Desde Aben-Humeya filho de Abusophiar, e sétimo deste Mafoma, eleito na Heigira 41 que corresponde ao ano de Cristo 661 até MerWão filho de Mohamat, que foi morto no ano da Hegira 132 de Cristo 749 no dia três do mês Dithagiat, fpo governado o Império pela família dos Omniaditas (Bibliot. Arab. Scurial, Tom. II pag. 184 col. 2). Abdalla, chamado Alfaphapho, da linha dos Abbassidas, arrancou com violência o governo da mão dos Omniaditas, e sua descendência; sendo eleito Kalifa no ano da Heigira 132 que principiou a 20 de Agosto da era Cristã de 749 (Elmacino Liv. II, Cap. II Alkathib na Bibliot. Arab. Scurial. Tom. II pag. 117) e continuou muitos tempos nesta família.

Com motivo da perseguição que Abdalla moveu contra os Omniaditas, muitos sujeitos desta família se refugiaram à África (Alkathib Alli Tom. II pag. 197). Entre os fugitivos foi Abdelrahaman Bem Moavia Bem Efcham Omniadita, que privado do Reino se passou á Barca, e depois a Espanha, que subjugou com as armas, e força de seus parciais, sendo aclamado Imperador no ano da Hegiria 139 (Anno 139 ingressus est Muavias, filius Hisjani, filius Abdulmeleci, filius Merwanis Hispaniam cujus incole Imperatorem cum suum agnoverunt; eratque co tempore anno natus XXVII, Atque hic illorum primus est, qui in illis tractibus Imperio praefectus fuit, Alkathib Alli pag. 198 Elmacino Liv. II Cap. II).

(continuação, II parte)

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