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15/08/18

DA IMAGEM DE N. SENHORA DA VITÓRIA

Nossa Senhora da Oliveira
Defronte daquela Real Casa, e magnífico Templo da Colegiada da notável Vila de Guimarães, dedicada à Senhora da Oliveira, e da sua porta principal fica o padrão, (de que falamos no tit. 8 da Imagem de nossa Senhora da Oliveira) e entre ele, e da porta principal distancia de dezassete passos, fica um átrio de passeio. É este padrão (como fica dito) obra não só magnífica, mas muito curiosa pelas muitas Imagens, que nele há, e de obra tão miúda, que parece que não podia obrar coisa mais perfeita em madeira. Fica debaixo de uma abóboda, levantada sobre quatro pilares, revestidos de colunas, (como também já dissemos) e sobre eles assentam quatro arcos com bastante vão, e largura. No alto do arco fronteiro à porta da Igreja se forma uma tribuna, nela se vê um Altar com a frente para o Ocidente, em que está colocada uma devota Imagem de nossa Senhora, a quem dão título de Victória. E a esta soberana Senhora atribuem muitos o milagre da oliveira; porque na ocasião em que a colocaram, reverdeceu. E deram-lhe o título de Vitória, pela que deu a ElRei D. João o Primeiro na batalha de Aljubarrota. Tem obrado muitos milagres, e assim é muito grande a devoção da gente para com esta Santíssima Imagem, e a vão buscar em seus trabalhos, e necessidades. A sua estatura são quase cinco palmos, é de rocha, e de vestidos, que tem muitos, que lhos oferecem os seus devotos em sinal de agradecimento, pelos benefícios que da Senhora recebem. Vem-se aos lados da Senhora, de uma parte São Dâmaso Papa, natural da mesma Vila; e da outra S. Torcato Bispo, e Mártir (cujo corpo está inteiro, uma légua distante da mesma Vila, em um túmulo com grande veneração, e ornato tão rico, que não parece ser coisa de gente muito ilustre, e de povo muito nobre. Ali estão pintados muitos quadros dos milagres, e maravilhas, que a Senhora tem obrado.

Aos pés do Altar desta Senhora está retratado de meio relevo a figura de um Advogado, que se chamava Pedro Lobão, o qual sendo Advogado naquela vila, tomou por empresa o querer derrogar os privilégios, isenções, e liberdades dos caseiros, e trabalhadores da Casa de nossa Senhora, e também dos Priores, e Cónegos daquela Colegiada, e o fazia com tanta instância, e paixão, que estando uma manhã conversando junto daquele Padrão, e defronte da Senhora da Vitória, como Abade de Freitas, e Luís Gonçalves, ambos Cónegos da mesma Colegiada; eles o repreenderam diante de outras mais pessoas, da perseguição que fazia aos tais privilegiados, e que se naquele negócio continuava, se guardasse a ira de Deus. Ao que ele respondeu, que não era o diabo tão feio como o pintam, que em quanto vivesse, (sem embargo do que lhe diziam) não havia de cessar, nem abrir mão disso. A qual palavra ele não tinha acabado de pronunciar, quando repentinamente caiu quase morto em terra, e com a fala de todo perdida, e rosto tão disforme, que mais parecia fantasma horrendo, que homem, e assim foi levado a sua casa, onde logo espirou.

Foi este cadáver levado à sepultura, ao Convento de S. Francisco, onde se seguiu outro sucesso não menos maravilhoso: porque morrendo sua mulher depois de trinta e três anos, se mandou enterrar no mesmo jazigo, o qual sendo aberto para esse efeito, se achou nele o corpo de seu marido todo inteiro, e somente com o gorgomil gastado, e as mortalhas. Foi assim tirado fora da cova, e posto à vista de todo o povo, encostado à parede da Igreja até ir o corpo de sua mulher, para ser enterrado na mesma sepultura, onde foi outra vez sepultado o desforme, e feio cadáver. E para exemplo, dispondo-o assim Deus, para que conhecesse o mundo todo, o quanto a Senhora quer que sejam honrados, e estimados os que a servem, e conservados os seus privilegiados nas honras, e privilégios, que por seu respeito se lhes concederam, se mandou naquele lugar tão público retratar naquele miserável estado, aquele seu perseguidor, e escrever em pergaminho aquele prodigioso sucesso, para se conservar no arquivo daquela Real Casa. Da Senhora da Vitoria escreve o Padre António Carvalho da Costa, em sua Cronologia Portuguesa tom. I lix. I cap. 13 e outros muitos, como se vê do título da Senhora da Oliveira acima. (Santuário Mariano Tomo 4, pág. 188 e seg.)

14/08/18

ALJUBARROTA - VÉSPERAS DE ASSUNÇÃO

D. João I perante Nossa Senhora da Oliveira, a quem faz voto de construir um Mosteiro se Ela lhe desse a vitória.

Entender a vitória de Aljubarrota é entender o que nos compete do nosso lado:

- O sinal de Deus para defendermos Portugal das pretensões exteriores;

- A confiança em Deus para fazermos o que nos compete  (… e a Ele cabe considerar as recompensas "victórias");

- Deus pode fazer vencer o fiel mais débil, sobre um maior fiel menos justo;

- A vitória começa pela fidelidade e confiança em Deus;

- Ao exemplo do Santo Condestável, a batalha começa e fundamenta-se de cada qual consigo mesmo (este Nobre era um exemplo de integridade e de grande virtude).

- A defesa daquilo que é nosso é a nós que Deus incumbe.

Por outro lado, também há que considerar:

- O orgulho e a vaidade não são cavalo que se monte;

- Não adiantam santos aparatos se a verdade e a justiça ficar em causa;

- Mais vale pouco e certos, que muitos e errados;

- As honras e dignidades não decidem batalhas católicas.

16/08/16

BEATO NUNO, O SANTO CONDESTÁVEL DE PORTUGAL

Nuno de Santa Maria, já como ingressado na Ordem do Carmo
Por motivo do aniversário da Batalha de Aljubarrota (14 de Agosto), publicamos algo sobre o seu grande e santo herói português:

"De uma forma ou de outra, continua a rezar as Horas e a confessar-se, a fazer jejum todos os sábados e vésperas de Festas de Nossa Senhora. Caso da Batalha de Aljubarrota, acontecida na véspera da Senhora da Assunção. Antes e depois dos combates reza diante da sua bandeira: uma cruz vermelha ladeada por Cristo, pela Virgem, e por dois santos de guerra: S. Jorge e S. Tiago.


Acredita profundamente estar do lado de Deus, e Deus com ele, nada poderá temer. Pôs-se de joelhos entre umas pedras a rezar, como era seu costume. Estando assim rezando, porque as pedras e as setas que vinha pela parte dos castelhanos eram muitas, toda a sua gente lhe bradava que fizesse andar pela frente a sua bandeira e que não os deixasse morrer assim. Inexplicavelmente sereno, o Condestável pede que o deixem terminar. Depois, ergue-se, e corre para a frente de batalha. Após dois dias de combate sai vencedor, mais uma vez."

D. João I de Castela rende-se a D. João I de Portugal na Batalha de Aljubarrota
Terminada a guerra, D. João I recompensa o Condestável com títulos e bens, que fazem dele um dos homens mais ricos da Europa. Ao 27 anos, poderia viver uma vida fabulosamente confortável. Porém, tinha outros planos... Deus parecia ter para ele outros planos. Passado um ano fica viúvo, e nunca volta a casar. Manda levantar 7 templos, 6 deles em homenagem a Santa Maria a quem atribui o mérito das suas vitórias militares.

O Santo Condestável de Portugal vence todas as tentativas do ataque castelhano, em várias batalhas
Em 1414 recebe novo golpe, o mais duro de todos: Beatriz, sua única filha, morre ao tentar dar à luz. O mundo terreno diz-lhe cada vez menos. No ano seguinte, Portugal entra numa nova era: a da expansão portuguesa e dos descobrimentos.


Os Infantes D. Pedro, D. Duarte, e D. Henrique, lideram a armada que parte com a missão de tomar a cidade de Ceuta [conquista de África aos muçulmanos]. E D. Nuno, apesar dos 55 anos de idade, parte com eles."

Conquista de Ceuta (África), aos muçulmanos.
No verão de 1422, vai devolver ao mundo tudo o que o mundo lhe deu. Deixa tudo aos netos, companheiros de armas, ordens religiosas, e desventurados. O homem mais rico do Reino faz-se pobre, terrivelmente pobre. Por fim, quando nada mais já lhe resta senão ele próprio, até de si abdica. Entra para o convento do Carmo (Lisboa), com o nome de Nuno de Santa Maria.

Convento do Carmo
Quando se recolheu ao Mosteiro do Carmo, por ele mesmo fundado, não quis entrar como dignatário, e apenas conservou o indispensável para se abrigar do frio. O poderoso Condestável escolhe ser um simples donato, aquele a quem cabem as mais humildes tarefas da vida monacal: varrer, limpar, lavar. Vive os seus últimos 9 anos de vida na solidão do convento, numa cela onde não quis mais que uma imagem de Cristo crucificado. Sai apenas para servir sopa aos pobres, ou percorrer as ruas, descalço, mendigando, ou amparando os aflitos. O homem que tudo teve, e a tudo renunciou, que trocou a Côrte pela companhia dos chagados e dos leprosos, morreu numa manhã de 1431. A sepultura no Convento do Carmo, foi destino de romarias, e a sua terra levada por gente em busca de cura para todos os males. O terremoto que arrasou Lisboa a 1 de Novembro de 1755 deixou feridas profundas no convento e destruiu a campa. A pedra tumular perdeu-se no tempo, mas o epitáfio, no entanto, era uma poderosa profecia no futuro:
"Aqui repousa aquele Nuno, Condestável, fundador da Casa de Bragança, General exímio, depois longe bem-aventurado, o qual sendo vivo desejou tanto o Reino do Céu que mereceu depois de morto viveu eternamente na companhia dos Santos."
Para Salazar, as comemorações dos 800 anos de Portugal, e 300 da restauração da independência, deveriam culminar na grande festa da canonização do Condestável. Mas o Papa Pio XII rejeita: não viesse alguém confundir assuntos de Deus com exaltações nacionalistas.

reconstrução do túmulo do Santo Condestável
Há quem mostre a razão para tal: Nuno Alvares Pereira não podia ser canonizado por negativa influência dos espanhóis. A influência da Igreja de língua espanhola, a maior do mundo, não podia ser ignorada, mas isto não impedia Salazar, nem o Cardeal Patriarca Manuel Cerejeira de avançar simbolicamente: levantam a igreja do Santo Condestável, mandam trasladar as relíquias, e fazem uma festa à qual comparecem milhares de pessoas. Essa devoção dos fiéis, então como hoje, não tinha segundas intenções, era e é real: canonizado ou não, algo em Nuno Alvares atraia multidões através dos séculos." (by RTP2)

Réplica da espada do Santo Condestável de Portugal. A espada contem gravada uma Cruz em estrela, a inscrição "Excelsus super omnes gentes Dominicus", dou outro lado "Maria", dentro de um círculo o nome "Dom Nuno Álvaro", uma Cruz entrelaçada de flores. Os rasgos no meio da lâmina tornam a espada mais rápida, e possibilitam quebrar a espada do adversário num golpe hábil.
Em documentos antigos, diz-se que certo dia, um nobre espanhol, amigo, visitou o Irmão Nuno de Santa Maria, já muito velho e encostado, e comentou como tinha trocado a armadura da guerra pelo hábito. Nisto, o santo ancião desvia o hábito deixando ver por baixo a cota de malha.

Enfim... exemplo de Cavaleiro, exemplo para os nobres, exemplo para os monges, exemplo para os casados, exemplo para os ricos, consolação para os pobres. Um homem que atravessou a sociedade, e a história.

23/10/15

15 de Agosto - ASSUMPÇÃO DE N. SENHORA e DUAS GRANDES FUNDAÇÕES

A 15 de Agosto, dia da Assumpção de Nossa Senhora, foram fundadas a Companhia de Jesus e a Santa Casa da Misericórdia.

Ontem, dia 14, Vésperas da Assunção, foi aniversário da batalha de Aljubarrota: portanto, os Castelhanos tinham programado uma victoria que haveria de ser "autenticada" por Nossa Senhora", o que não ocorreu.

Armas de D. João I de Castela
O Calendário Litúrgico sempre teve muita importância para a marcação dos vários acontecimentos significativos entre os cristãos. Isto foi sempre muito levado em grande conta, ainda mais nos tempos recuados da grande Cristandade. Partamos então desta realidade para fazer algumas observações:

O dia de chegada de Cristóvão Colon às Antilhas, 12 de Outubro, calhou na Festa de Nossa Senhora do Pilar (especialmente significativa para a Espanha). Pedro Alvares Cabral chegou ao Brasil dia 22 de Abril, dia da Ressurreição (Páscoa), no ano de 1500 (que inicia o novo século).

Hoje sabe-se que Portugal conhecia a localização do Brasil antes de 1500. Portanto, o dia e ano de chagada OFICIAL foram previamente programados, e da forma para a qual os portugueses se sentiam prudentemente forçados: em segredo. Mesmo com a programação da data a sua simbologia deve continuar a ser tida em conta, pois tudo o que acontece é porque Deus quer ou permite (já na Batalha de Aljubarrota, Deus não permitiu a iniciativa castelhana, e acabou por dar a victoria aos portugueses na mesma data). Deus, pelo menos, permitiu que a data oficial da descoberta do Brasil tivesse sido na Ressurreição (a permissão ou iniciativa, também é certo, têm valores diferentes).

Hoje está provado que, antes da primeira viagem de Cristóvão Colon, já os portugueses tinham chegado e mapeado as Antilhas (América Central). Como é do conhecimento público, Colon fez a aprendizagem de navegação em Portugal. O diário de Colon diz que ele não descobrira nada que os portugueses não tivessem já descoberto antes, e visto que o trajecto de retorno da primeira viagem  aponta para um conhecimento prévio e seguro daqueles mares, é quase impossível aos investigadores não concluir hoje que Colon já conhecia as coordenadas das Antilhas antes de partir para elas. Se assim foi realmente, a chegada do 12 de Outubro foi também programada (Deus, pelo menos, assim terá permitido).

Interessante... curioso! ...

14/02/14

PORTUGAL segundo o THE DUBLIN UNIVERSITY MAGAZINE nº160 (1847)

"(...) Portugal mais que nenhuma outra nação da Europa, nos espanta pela energia do seu povo, e pelo contraste entre a pequenez e fraqueza de seus meios, e a grandeza dos resultados e feitos que obrou. (...) Por virtude daquela sua maravilhosa energia achamos que em pouco menos de um século os portugueses estabeleceram o seu domínio ao longo das costas de África, desde Ceuta até às costas do mar vermelho. Na Ásia estenderam suas conquistas desde o Golfo Pérsico até aos vários empórios da Índia e Ceilão, e daí até Malaca e Cantão e ilhas de Maluco no mais remoto Oriente. Durante este glorioso período, seus navegantes visitaram o Japão, (...). Fundaram o Império do Brasil, e sem embargo da oposição de França e obstinados esforços em contrário dos holandeses, conseguiram dominar nas mais extensas e férteis regiões da América do Sul. (..)

Além da grande energia que os portugueses desenvolveram no séc. XVI cujas vastas consequências deram em resultado tornar-se os anais de um pequenino reino um importante capítulo da história do mundo e progresso da civilização, há também nisto uma espécie de interesse doméstico para os ingleses.

E com efeito, não só Portugal o nosso mais antigo e mais seguro aliado, mas desde a fundação da sua Monarquia, amigáveis relações têm subsistido entre os dois Reinos. Na idade Média os cruzados dos Países Baixos e da Inglaterra ajudaram, mas de uma vez, os portugueses nas suas guerras com os mouros, tendo sido com semelhante auxílio conquistada Lisboa aos sarracenos. O primeiro Bispo de Lisboa era inglês, e alguns séculos mais tarde a batalha de Aljubarrota, que estabeleceu a independência do Reino, foi ganha aos espanhóis e franceses pelas forças aliadas de Inglaterra e Portugal. O casamento de D. João I de Portugal com D. Filipa, filha de nosso João de Gaunt, cimentou a amizade dos dois países. Quando depois de sessenta anos de opressão espanhola, Portugal em 1640 recobrou a sua independência, os ingleses, seus aliados, segunda vez o ajudaram naquele empenho,e fizeram bom serviço nas batalhas do Ameixial e Montes Claros. Foi desde aquela época que se estabeleceu íntima aliança entre Portugal e Inglaterra. Carlos II casou com uma Princesa de Portugal, e o célebre duque de Schomberg comandou os ingleses auxiliares, a cujos esforços se atribui principalmente à derrota dos espanhóis.

Não obstante o interesse da história de Portugal, suas antigas relações com a Inglaterra, o facto de sermos nós seus sucessores no império do Oriente, e mais que tudo o ser ela um campo novo e inexausto, é notável que tenha sido tão completamente desprezada pelos escritores ingleses. À excepção de Southey ninguém mais ousou entrar no campo da história de Portugal, e Mickle e Adamson são os únicos escritores de algum tom na quase ainda não explorada mina da literatura portuguesa. A despeito desta incúria há belíssimos temas de reserva para os estudiosos que se derem a historiar as coisas de Portugal. A história do engrandecimento e decadência do império português no Oriente não pode deixar de interessar o leitor inglês, (...). Nestes interessantes tópicos e matérias, a literatura do continente é menos estéril do que a nossa, e diferentes locubrações têm aparecido com o fim de dar uma história de Portugal, ou de ilustrar o seu estado presente. A história de Portugal em alemão, por Schaeffer, não a vimos; mas enquanto às obras francesas de Balbi é dedicada quase exclusivamente à estatística de Portugal, e pode dizer-se que é uma obra indispensável a quem desejar ter conhecimento do estado deste Reino, anterior a 1834.

A histeria de Portugal por Mr. Denis é uma das da série de obras históricas, que vem na coleção chamada O Universo. O autor mostra conhecer muito a fundo a linguagem literária deste país, e a sua situação como bibliotecário tem-lhe dado a vantagem de consultar mais obras novas e até manuscritos. A Mr. Denis falta-lhe todavia inteiramente o talento da história, e o melhor, que podemos dizer da sua obra, é que ela é uma espécie de selecta de escola, ou livro de lugares comuns, contendo mui raras e curiosas informações. mas, completamente ignorante dos mais simples elementos de economia política ou filosofia da história, não achamos nele nenhuma daquelas discussões filosóficas, a que o comércio português da Ásia ou a colonização do Brasil em tanta cópia dão margem a quem tiver a mínima aptidão para estudos especulativos. Se a nossa censura pudesse parar aqui, desejaríamos não ter notícia da obra; porém F. Denis é cúmplice em comum com muitos dos seus compatriotas de faltas mais graves - e não só de defeitos intelectuais, senão também de culpas de vontade. A anti-anglo-mania de que tanto são iscados os franceses pode ordinariamente ser objecto de compaixão ou desprezo; mas quando levada até para o campo da história da Europa na Idade Média, ou adulterando os factos, ou sem ter conta com eles, e isto por parte de um escritor, que aliás conhece a fundo a verdade, razão é para que o público se acautele de dar o mais pequeno crédito à sua obra. Antes porém de apresentar prova alguma de exacção das nossas observações, não deixaremos passar por alto outra falta, que é comum a ambos, Mr. Denis e Mr. Balbi, a que imediatamente aludiremos. - Falamos do escrito com que ambas as obras são escritas: cada uma é aí pintada e colorida, como se existisse em Portugal o sistema do optimismo, e como se não houvesse um meio termo entre um louvar exagerado e um censurar desmedido. Se este modo de escrever procede de brandura e timidez de carácter, pode-se porventura admitir desculpa da nossa parte, mas combinado com observações malignas e narrativas falsas a respeito da legislação, não faz senão redobrar o nosso desgosto.

Apontaremos agora alguns exemplos do modo como escreve a história. Em 1147 Lisboa foi reconquistada com a ajuda de um corpo de cruzados, que visitaram os portos de Portugal na sua jornada para a Palestina. Mr. Denis conta-nos como ainda subsistem alguns costumes originados daquela época que atestam a influência francesa naquele remoto período. Ora tal coisa não atestam,nem podem atestar, porque o exército dos cruzados vinha do norte da Alemanha, Flandres e Inglaterra. Diz que recordará o nome dos portugueses que se distinguiram no cerco, e omite os homens que estabeleceram a influência francesa: mas eles ainda se conservam nos antigos arquivos, e tem um sabor maravilhoso ao holandês e ao inglês. No fim do séc. XIV a Família Real portuguesa se extinguiu, seguindo-se um longo período de discórdia semelhante ao que houve entre a Inglaterra e a Escócia durante o reinado de Duarte I. A desavença portuguesa, bem como a escocesa, findou por uma victoria decisiva. Durante a contenda os portugueses foram ajudados por expedições de Inglaterra: uma destas é descrita o mais miúda e prolixamente possível, e as crueldades do exército capitaneado pelo Duque de Cambridge, pintadas com cores bastante negras. Poucos anos depois deu-se a célebre batalha de Aljubarrota. Os invasores espanhóis foram ajudados por um poderoso corpo de auxiliares de França, e do outro lado um pequeno exército inglês dava socorro aos portugueses. (...) Tudo isto, com quanto se ache na obra de Froissart, é omitido pelo nosso historiador, cujos leitores ficarão ignorando inteiramente esta circunstância essencial do combate. Pudéramos, se preciso fosse, alargar-nos sobre este objecto, a que meramente aludimos como prova de que pontos e questões, que todos os homens de tino reputam meras curiosidades históricas, podem ser torcidas por aqueles cujos servidos sentimentos levam o fanatismo da jovem França até às recordações dos tempos feudais. (...)"

18/09/12

PIADA CLÁSSICA E BEM CONTADA - ALDEIA DA RAIA

Padeira de Aljubarrota
Refaço uma piada que me foi enviada pelo amigo "Funguito":

Numa pequena povoação portuguesa, mesmo junto à fronteira com Espanha, a igreja fica cheia para a missa das 10 h: portugueses, espanhóis, o presidente da junta, e toda a restante fauna.

O padre começa o sermão: - Irmãos... estamos hoje aqui reunidos para falar dos Fariseus... Aquele povo desgraçado, maldito, como estes espanhóis que estão aqui...

Oh! Foi o maior tumulto na igreja. Os espanhóis ofenderam o padre, os portugueses defenderam o padre e mandaram-se aos espanhóis, houve bulha no adro. Enfim... um arraial à antiga!

O presidente da junta, indignado, foi falar com o padre à sacristia:

- Sr. Padre, há que ir devagar! Os espanhóis vêm para este lado da fronteira, gastam nas lojas e restaurantes, trazem euros para Portugal. Não podemos andar com provocações, senão vão todos embora da terra.
Durante a semana a conversa entre todos era a mesma: o padre e o sermão do domingopassado. Aquele zum-zum todo até começou a interessar uma ou outra pessao que nem sempre ia à missa. "O que dirá no próximo sermão!'" - diziam!


Finalmente, chega o Domingo. O presidente da junta vai à sacristia e fala com o padre:
- Sr. Padre, está lembrado da nossa conversa. Por favor, hoje vai correr tudo bem... certamente!

Vem a Missa, e o padre chega ao sermão:
- Irmãos... Estamos aqui reunidos para lembrar uma pessoa de quem as Escrituras falam: Maria Madalena, aquela mulher prostituta que tentou Jesus, ... ... ... como essas espanholas que aqui andam.

Caldeirada: pancadaria na igreja, velas partidas, chapadas sonoras, voo da caixa das esmolas, socos com direito a alguns internamentos no hospital mais próximo, que por acaso ficava na Espanha.

O presidente da junta foi novamente ter com o padre: - Senhor Padre, eu não lhe disse para ir com mais calma!? Isto foi uma sangria de repercussão internacional! Se o senhor não amansar, obriga-me a escrever ao Senhor Bispo! É que não tenho opções...!

Naquela semana, as conversas sobre o sucedido abundavam, parecia não haver outros assuntos. Nem mesmo os da aldeia vizinha queriam perder ali a Missa no Domingo seguinte, nem que a vaca tossisse. Na povoação espanhola o tema era o mesmo, ... só que em castelhano.

Na manhã de domingo, havia tendas de venda de recordações e outras tendas prórpias dos acontecimentos populosos. O presidente da junta, contente com o movimento, mas preocupado com a segurança daquela multidão, entra na sacristia com o graduado da GNR (Guarda Nacional Republicana) advertindo:- Senhor Padre, vossa reverência não pode provocar mais os espanhóis, senão as autoridades terão de prendê-lo para evitar tumultos! Parece que já nem as vigílias de oração pela paz na paróquia têm efeito. Isto é um escândalo que nos envergonha.

A igreja estava abarrotada. Quase não se conseguia respirar de tanta gente. O organista partilhava o banco com espanhóis e portugueses, o sacristão segurava a porta exterior da sacristia, lá fora ouvia-se um helicóptero da TV, os acólitos foram reduzidos a um (e esse quase só pode ajudar à missa com um braço), no átrio da igreja um trafulha tentava vender lugares reservados nos bancos da frente. Finalmente começa o sermão:

- Irmãos... Estamos aqui reunidos hoje, para falar de um momento importantíssimo da vida de Cristo: a Santa Ceia.

(O presidente da junta respirou aliviado. os curiosos encolheram os ombros como quem diz "hoje não há circo".)

- Jesus, naquele momento, disse aos Apóstolos: "esta noite, um de vocês me trairá". Então João pergunta: "Mestre, sou eu?" E Jesus responde: "Não, João, não serás tu". Pedro pergunta: "Mestre, sou eu?" E Cristo responde: "Não, Pedro, não serás tu". Então Judas pergunta: "Mestre, soy yo?"...

PUMBAAAAAA...
PANCADARIA GERAL…

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