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25/01/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 11

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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Nº. 11
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Ostendam gentibus nuditatem tuam

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AS DUAS SOBERANIAS

Não trato agora da Soberania dos Reis. Já disse e torno a dizer que esta é inconcussa, indestructível, e que a antiguidade em peso se declarou a favor do Governo de um só... O Príncipe dos Poetas há pouco menos de trinta séculos sancionava os direitos da Soberania dos Reis, e condenava os governos Representativos ou Constitucionais, pondo na boca do mais judicioso e experimentado dos Heróis Gregos aquela memorável sentença... "Não é bom o governo de muitos, um só é que deve governar." (Illiad. liv. 2º). Conheço que este dito amargará aos nossos mais famosos Publicistas; mas tenham paciência, que ainda é agora... Vai-se acabando o tempo dos risinhos sardónicos, fiéis substitutos da sabedoria moderna, e vão caindo de maduros esses decantados axiomas em que já não era lícito argumentar... Cedo nos veremos em coisa que lhes será pesadíssima, e já declaro que hei de rir-me dessa enfiada de nomes mágicos de Eybels Gmeiners, Filangieres, e outros oráculos... Razões e mais razões... Fontes genuínas e mais fontes genuínas... Nada de Cânones viciados, e mal entendidos, nada de autoridades truncadas ou interpoladas... Tem de passar bem má vida comigo, que antes quisera ser escravo em Argel, do que ser bem reputado pelos nossos Sabichões, que antes quero que me chamem esturrado e fanático, do que me apelidem tolerante, comedido, e que sei viver... Tomara eu saber morrer pela Fé, e confirmar-me todos os dias na santa loucura, de que blasonava o grande Apóstolo S. Paulo (Nos stulti propter Christum).

Quis preparar certos bichaços, para que instruídos suficientemente de qual é o meu ânimo, ou rasguem, ou deitem ao fogo este maldito papel, e não estraguem na sua leitura os preciosos momentos que se devem gastar com os Paynes, Constants, e Pradts, e mais Irmãos da Confraria Liberal.

Duas Soberanias têm havido na Europa desde a queda do Império Romano até aos nossos dias, e a qual delas mais conspícua e estrondosa. A Soberania dos Papas, que se ingeriam nas temporalidade dos Reis, que punham e depunham os Soberanos, que absolviam os Povos do juramento de fidelidade ( Cá em nossos dias fez o mesmo um certo Jam, ou Manuel Fernandes, e ninguém lhe contestou esse direito, que só é odioso nos Papas!!), e cometiam outras desordens, que se acreditarmos o Grão Fleury, e o Grão Racine, por bem pouco não puseram à dependura a civilização, as artes e a felicidade da Europa.

A Soberania do Povo é a segunda, que levantada sobre as ruinas da primeira, logo por entrada arrancou à obediência do Pai comum dos Fiéis Províncias e Reinos inteiros, esmigalhou Septros e Coroas, proclamou solenemente que os Reis eram seus verdadeiros súbditos, e no séc. XVIII, em que mais se despregaram as suas fúrias, não tem às costas menos de quatro a cinco mil homens de vítimas, ainda sem computarmos o efeito dos golpes descarregados sobre a geração futura...

Esta é hoje a formosa, a deleitável, a única soberania de que importa dizer bem, carregando-se de altivez a sua por ventura mais desgraçada que criminosa antecessora... Ora pois nem tanto sofrer, que a paciência também cansa.

Entrarão por ventura os Sumos Pontífices no exercício daquela soberania por chamamento da Escritura, da Tradição, ou por Decreto de algum Concílio Geral? Não.... e assim respondo, porque a verdade é o meu único norte. Mas donde lhes veio tão estranha autoridade, que por certo não exercitaram os Pontífices do primeiro século? Responda em meu lugar um Sabichão, um Filósofo de mão cheia, um Robinet, que no seu Dicionário Diplomático (V. Pape) afirma sem rebuço que os Reis e os povos deram essa autoridade aos Sucessores de S. Pedro, e que eles como interessados nela, mamais deverão ser arguidos de a terem exercitado... Bem... Já temos a favor dos Papas uma autoridade clássica... E as Cruzadas, e os Reis depostos? Sim, Senhor, já lá vamos. As Cruzadas livraram a Europa de ser inundada pelo Turbante Mussulmano, e de experimentar a sorte da África, e da Ásia Cristã; e não é nada o último golpe descarregado sobre as vistas ambiciosas do Império de meia Lua, nas águas de Lepanto, é devido a um Papa, e até o Protestante Bacon estranhava que ainda não estivesse canonizado este Pontífice amigo dos homens. Não me esquecem os Reis depostos... No meio do que antiga e modernamente se há discutido sobre esta matéria pouco me importa o que dizem os Luternos, os Calvinos, os Buchanans, os Miltons, e os próprios Marianas; e cortando o nó górdio das incertezas do famoso Grócio, enunciarei mui clara e despejadamente o meu sentir... A nossa Divina Religião manda sofrer os próprios tiranos, e jamais consentirá ela que seus Filhos atentem contra os Ungidos do Senhor... Entretanto é o sumo grau da incoerência, e da sandice que os Padreiros censurem nesta parte a soberania dos Papas... quantas guerras civis e assoladoras se pouparam no género humano por via desta jurisdição pacífica, e benfazeja!.. Eram por ventura dignos de reinar certos homens que acinte flagelavam, e destruíam os seus povos? E se esses povos se acolhiam ao sagrado do Trono Pontifício, entregando a uma só palavra o que sem este meio teriam conseguido à força de armas, seriam por isso mais repreensíveis que os Regicidas de Carlos I de Inglaterra, e Luís XVI de França? Que raio seriam mais temíveis e estragadores; os do Vaticano que feriam muitas vezes uma só cabeça, u os da Assembleia Nacional, os da Convenção, os do Direito Executivo, e os de Napoleão, que em breves horas deixavam um campo alastrado de mortos, e moribundos, que por bem pouco não reduziram a Europa a um deserto, que ao menos era possível fazer-se de Lisboa até Moscovo, uma calçada dos ossos das suas vítimas. 

Creio que muitos dos meus leitores (tanto podem os prejuízos de educação literária!!) se tem maravilhado destas asserções hoje triviais por toda a Europa, e seguidas por A. A. Católicos, e Protestantes. Há quem defenda que a soberania temporal dos Sumos Pontífices, qual foi exercida lá nos séculos onze, doze, treze, etc. etc. foi um grande benefício para o género humano, e que a Europa deve a esta Soberania tão odiada pelos Filósofos, e Pedreiros toda a sua civilização e grandeza. Imprimiu-se a obra em 1816, e ainda não houve quem lhe respondesse... nem é fácil, pois os sábios da moda correm, correm, debicam, defloram, e nada mais. Logo que apareça algum que estude, examine, e pese os fundamentos, de qualquer ordem que eles sejam, pode estar certo de que ninguém lhe sai ao caminho, nem lhes fará abandonar o campo...

Ora que façam outro tanto à soberania do povo, e que se metam a demostrar que foi um grande benefício para o género humano... Ah! Não tenham medo que tal aconteça, ainda que dos Chorões da Ermonville ressurgisse o demonstrador de paradoxos, o coroado pela Academia de Dijon, o Grão Rousseau!!

Não me faltava que dizer ao propósito das soberanias... mas fica o melhor no tinteiro, porque ainda é cedo... e os ares ainda me não apresentam aquela serenidade, que virá com o tempo, e com os nunca assaz louvados esforços da Santa Aliança...

Quem nome foi agora escorregar-me da pena!! Aí dá um fanico em algum dos meus leitores... pois toca a fazê-lo tornar a si, e diverti-los... que nem sempre hão de tratar-se questões de polpa...


Ó Hirco Cervo

Apareceu, apareceu... Já o vemos, já o possuímos, e não obstante o passar até agora como impossível na ordem da natureza, só ele não apareceria no séc. XIX, século das coisas raras, estupendas, e maravilhosas!! Muito perderam os Buffons, os Lineos, os Lacepedes, e outros que não chegaram a ver o que eu vejo, e que eu admiro.

Metade do Corpo das tais animálias é de Veado, e a outra é de Bode ou Cabrão... Oh que linda mistura de feições, de gestos, e de movimentos!! Não me farto de os ver, de os analisar, e dar vivas ao meu século, que os gerou e produziu! Não é um só que apareceu, de modo que seja necessário andar à mostra pelo Reino... há muitos nas cidades principais, já os há nas vilas, e o que é mais, ja penetraram nas aldeias e choças dos pastores! Sendo tanta a bicharia, talvez pareça à primeira vista que perderam o ser de monstros, e devem fazer uma nova espécie... Nova espécie... Fora... isso não, que teríamos em campo os Senhores Materiais ou Materialistas a gritarem que estes bicharocos foram gerados pelo simples esforço da matéria... Não Senhor, não é nova espécie. São muitos, e são monstros. Posso afirmar com toda a segurança, que é uma raça hibrida, e que dentro em seis anos já não haverá nem fumos de Hico Cervo em Portugal. Continuemos todavia a sua descrição, que é importante e divertida.

São de várias cores e tamanhos, umas azuis, outros negros, outros brancos, outros pardos, uns apessoados, e de figura gigantesca, outros da marca de Judas, e quase pigmeus... Sendo o seu natural viverem nas cavernas onde estiveram por muito tempo sem haver quem desse fé de tais brutalidades. Sabiam há pouco das suas vivendas, e fizeram-se mais conhecidos do que se fossem gatos pardos... Fazem liga com os Leões, Tigres, Leopardos, e Onças, e não lhes pesa o pé uma onça quando se trata de servirem aqueles bichaços, e de lhes facilitarem a presa de animais pequenos, mansos, e inocentes... Por isso mesmo que degeneraram das espécies primitivas, dão-lhes contínuas mostras de ódio figadal, desejam trincar-lhes o próprio coração, e lhes fazem quanto mal podem, ora mordendo, ora escoucinhando, e até desalojando-as de suas pacíficas moradas. Se a bem ordenada república dos industriosos Castores é a admiração dos naturalistas a ponto de lhes estudarem todos os seus passos, trabalhos, e edifícios, quanta lhes deverá excitar a sociedade dos Hirco Cervos, que sobressaem até nos ofícios mecânicos, e especialmente de pedreiro?

É de ver e de pasmar a suma agilidade com que maneiam a trolha e a colher, mexem e remexem a cal, e sabem destruir para melhor edificarem

Se algum dos meus leitores por mais esperto e agudo tiver percebido que o Hirco Cervo é o Frade Constitucional, por isso não termos grande bulha, a pesar de que o assunto foi agora tocado bem pela rama... Atrás de tempos tempos vêm, e até ao lavar dos cestos é vindima......

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LISBOA: NA IMPRESSÃO RÉGIA. 1823
Com licença da Real Comissão de Censura.

11/12/14

CONTRA-MINA Nº 42: Reconhecimento a D. Miguel I Dado Pelo Papa Gregório XVI (IV)

(continuação da III parte)

Só este quadrienio, que tem Reinado o mui Alto e Poderoso Senhor D. Miguel I, oferece maior cópia de milagres, do que podem oferecer outras Monarquias, depois de muitos Séculos de existência; e daqui procede, que todas as vezes que me engolfo na consideração de tantos, e tão maravilhosos sucessos, que tenho presenciado, sinto-me possuir de uma confiança ilimitada, e não sei que me adivinha o coração de plausível, e faustíssimo para a Monarquia Portuguesa, que ainda será, como já foi, mais de uma vez o espanto, e a admiração do Mundo... Não entra em meu coração o mais leve receio, do que Portugal seja vencido, nem o assombram as mais ligeiras névoas do medo. Esperança, ou quase certeza de prevalecer-me contra as mais bem preparadas agressões, eis o que se me antolha em todas as vezes, que me sucede reflectir sobre o estado presente, e futuro da Nação Portuguesa.

D. João IV
Não venho a dizer com tudo isto, que deixo ponderado, que seja inútil, ou supérfluo o Reconhecimento do Senhor D. MIGUEL I pelos Soberanos da Europa. Eu serei mau Português, e mau vassalo, se ousasse defender uma opinião errada, e absurda;.. estou, e hei de estar constantemente pela opinião contrária; o que é tão certo, que foi este o próprio lado político, por onde me pareceu vantajosíssimo o Reconhecimento Pontifício... É natural, que este se fizesse de acordo com as Grandes Potências, e nomeadamente com aquela, que há tão poucos meses influiu de modo tão poderoso, como eficaz, na segurança da Capital do Mundo Cristão; dado porém o caso, de que esta opinião dos verdadeiros Portugueses não tenha o sólido fundamento, que é muito para desejar, nem por isso devemos cair das nossas esperanças, e teremos por certo mais que agradecer ao Sumo Pontífice, que não atendendo senão à Cristandade do Rei legítimo, o Senhor D. MIGUEL I, e ao bem espiritual da Igreja Lusitana, cortou de uma vez o nó Gordio, que embaraçara os seus Antecessores. Muito mais deve crescer, até ser acompanhado de lágrimas, nascidas da filial ternura, este próprio agradecimento, quando nos lembramos do sucedido, em consequência da nossa Restauração de 1640... Então demorou-se mais de vinte anos o desejado Reconhecimento, que o Senhor D. João IV não conseguiu nos 16 anos do seu Reinado; e agora, que o Imitador, e Descendente do Senhor D. João IV ainda não conta senão três para quatro anos de Reinado, tudo se desembaraça, tudo se aplaina, sem que os verdadeiros Portugueses do Século XIX tenham de passar pelos transes da amargura, porque tantas vezes passaram, e deviam passar os Portugueses do Século XVI chegaram estes a ver a Ordem Episcopal reduzida a um Bispo nonagenário, que era de Targa, Deão da Capela Real. Era necessário, que os Ordinandos de todo o Reino viessem a Lisboa, onde chegavam todos os dias os mais lastimosos balidos de milhares de ovelhas errantes, e desamparadas... Muito luzio porém nestas desgraçadas circunstâncias o esmero do Catolicismo dos Portugueses, que deve servir de modelo para todos os casos semelhantes, e para todos os Séculos... Não faltou já nesses dias, (nem era de admirar, quando já havia Jansenistas) quem se lembrasse de se fazer a Instituição Canónica dos Bispos eleitos, por ministério dos nossos Metropolitas; e já eu tenho visto algumas Consultas, que nesse tempo se remeteram para as Universidades Estrangeiras, que em suas decisões respiram aquela tendência cismática, e reprovada. Entretanto o Senhor D. João IV manteve-se constante, e inabalável na adesão aos verdadeiros princípios, e não quis dar um escândalo à Europa Cristã; e havendo-se nestes apertos com a mais rara, e consumada prudência, não fez outro papel, senão o de filho obedientíssimo, que suplica, insta, chora, e se deita aos pés de seu Pai, mas que nunca se rebela contra a sua Legítima Autoridade... Notando só de passagem, que há muito que acrescentar aos nossos Historiadores sobre esta famosa controvérsia, pois nenhum deles faz justiça aos verdadeiros sentimentos dos Vigários de Jesus Cristo, deverei insistir numa semelhança à mais gloriosa para o mui Alto, e Poderoso Senhor D. MIGUEL I. Seguiu este, e mui discretamente as pizadas do seu quart[?] [?] e nunca lhe passou, nem ainda mais imaginação [?] sentir às doutrinas modernas, [?]dar neste exemplo de uma segunda Igrejinha de Utrecht, que cismática e abominável como é, tem neste Reino grande cópia de louvores, e apologistas.... São pois ambos Restauradores, e ambos parecidos na estremada pureza de sentimentos, e princípios Religiosos, o que certamente promete, que serão ainda parecido sem outra circunstância importantíssima, quero dizer,no bom sucesso da empresa, que eles cometeram; porém os louros do 4º Neto deverão ser mais frondosos, posto que menos salpicados de sangue (talvez ainda o venham a ser)... Maior coisa é arrancar este Reino das próprias engulideiras do Urso Maçónico, do que subtraí-lo às pisadas do Leão Castelhano.... Muito devem os Portugueses ao mui Alto, e Poderoso Senhor D. Miguel I!! Esta ideia tão fecunda de seu natural, como que produz agora um efeito contrário, qual é o silêncio da admiração, que às vezes costuma ser mais expressivo, que a maior abundância de palavras.

Desterro 30 de Dezembro de 1831

Fr. Fortunato de S. Boaventura.

CONTRA-MINA Nº 42: Reconhecimento a D. Miguel I Dado Pelo Papa Gregório XVI (III)

(continuação da II parte)

Foi certamente Belzebu, ou Satanás quem, à hora da meia-noite, lhes descobriu, que não tinha sido absoluto, porém condicional o Reconhecimento do Senhor D. MIGUEL I pelo S. Padre Gregório XVI, e é habilidade, que só alguns Pedreiros Livres, e alguns Confessores Jansenistas saibam, o que se ignoram absolutamente nas Côrtes de Lisboa, e de Roma. É sabida bem fraca, e bem despropositada, assim como é bem para admirar, que certos ânimos se deixem preocupar de uma Sandice tão absurda e tão depressível... mas em fim é necessário, que o Esquadrão feminil, que trata de piedade, e que tantos serviços há feito à Causa, que não é certamente a Causa de Deus, tome alentos, e não desanime de prosseguir em seu nobre intento de acarretar sobre este Reino, depois da guerra Civil, a inteira destituição do Catolicismo. Mal sabem os meus leitores o quanto eu aborreço as geringonças, e caramunhas destas carpideiras dos males do seu próximo, quando este próximo é Constitucional, e Pedreiro..... Quando é Realista, ainda que o vejam padecer os mais duros, e cruéis tratamentos, ainda que lhes vejam apertar tanto as mãos, que as cordas assentem em carne viva, e já cheguem aos próprios ossos, a nada as brutinhas se movem, e ficando muito enxutas, apenas dizem "Não fosse tolo, quem o mandou figurar em causas políticas, quem não quer ser lobo, não lhe vista a pele etc. etc. etc.," e Adeus caridade Cristã, Adeus moral do Evangelho, que deve ceder toda em benefício dos Pedreiros Livres. É bem para lastimar, que o saudoso Padre Macedo [Pe. José Agostinho de Macedo] não chegasse a dar a última de mão ao prometido quadro das Mulhadas, que só um pincel, que no seu género não tinha, nem pouco, nem muito, que invejasse ao de Rafael de Urbino, seria adequado, para o fazer da maneira que convinha, isto é, por tal arte, que as insulsas, ou perversas Malhadas [em linguagem popular, "malhados" eram os maçons, assim chamados pela cena dos cavalos malhados que quase puseram fim à vida de D. Miguel] se corressem de o ser, e tivessem com o Cervantes Português igual sorte, à que experimentaram os Cavalheiros andantes com o Espanhol. Muitas vezes me lembro, de que estas miseráveis, que são a desonra do seu sexo, e de Portugal, tem lá para si, que o Grande Oriente, em contemplação dos seus grandes serviços, lhes conservará sempre uma Igreja aberta, para elas frequentarem os Sacramentos, e serem Cristãs folgadamente, e à sua contade, ou por efeito de alguma revelação do Diácono Paris contem de certo com a geral conversão dos Pedreiros Livres... Deixemos estas loucas, e desvairadas mulheres, e passemos a coisa mais conveniente para os meus Leitores. Dizia eu no princípio deste Nº 42, que o Reconhecimento do Senhor D. Miguel I pelo S. Padre Gregório XVI era um sucesso da maior importância, considerado Politicamente, ou ainda Historicamente. É necessário, que eu dê alguma razão destes meus dictos.

Milagre de Ourique. Nosso Senhor aparece a D. Afonso I de Portugal
A Igreja de Roma, ainda que goze uma Soberania temporal, de que nunca será esbulhada, sem que logo se arrisquem os interesse da Fé, não tem uma consideração política, que baste, para a fazer independente das grandes Potências Católicas; e por isso tem por costume respeitá-las sem baixeza, e acatá-las sem lisonja, até ao ponto de que tenham algumas, como é notório, o direito de exclusiva nas Eleições dos Sumos Pontífices. Daqui vem igualmente, que tratando-sede Reconhecer um de dois contendores, ou aspirantes a uma Coroa, ele tenha espreitado, e seguido as variedades, e mudanças do Sistema Político da Europa "Se pareceu não atender, como de antes, à Soberania de facto, é por ver, que dificuldades mais graves contrariam as suas antigas ideias.. O Sumo Pontífice é Pai comum de todos os Fiéis, e não olha somente para a felicidade espiritual deste ou daquele Reino Católico da Europa, ou da América; não há um só destes no Mundo, que ele não forceje por conservar, e proteger, para que nunca se retirem do centro da unidade, ou se extraviem do único, e verdadeiro caminho da salvação. Quando os Reis, por uma vingança mal entendida, se resolvem a quebrar com a Igreja de Roma, ou, o que ainda é mais fatal, e pernicioso aos seus melhores interesses, a deixar a Comunhão com aquela Igreja, arrastam consigo os Povos inocentes, e gerações inteiras; e melhor seria para eles o perderem a Coroa temporal, do que esbulharem da Coroa eterna a si próprios, e aos seus infelicíssimos vassalos. Fazem pois o maior serviço aos Reis, e atraem sobre os Povos a maior de todas as calamidades, esses infamente Pedreiros Livres, que depois de terem aprendido, e talvez ensinado, que os Papas nunca se devem fazer Árbitros de Questões Políticas, e de terem explicado no sentido mais lato as Divinas expressões "Regnum meum non est de hoc mundo," criminam todavia os Papas, quando movidos de razões fortíssimas, ou suspendem, ou demoram o Reconhecimento dos Príncipes, que mais desejariam ver firmes, e consolidados na posse de seus Tronos. Quantas vezes depois de azedarem os Príncipes contra o Vigário de Jesus Cristo, e de lho pintarem como o seu maior inimigo, e vendo-se apanhados de súbito pela mais exuberantes provas de uma afeição verdadeiramente Paternal, forcejam por extenuá-las, ou diminuí-las, quando lhes não é dado escurecê-las de todo? O principal fundamento da Monarquia Portuguesa consiste na profissão do Catolicismo puro [milenar, o de sempre], e não mesclado de doutrinas Jansenistas, ou quase Protestantiças [hoje, esse "quase" foi ultrapassado]; mas quem se reputa, e deve reputar como Soberano, ou Cabeça da Igreja? É o Sumo Pontífice; pois eu que vejo quebrada a Linha da Sucessão de tantos Bispos nas Igrejas fundadas pelos Apóstolos, vejo-a sustentada, e nunca interrompida desde S. Pedro até ao Sumo Pontífice Gregório XVI. Logo o Sumo Pontífice é parte essencial na firmeza do Trono Português, e por isso este Reconhecimento do Senhor D. MIGUEL I por aquele S. Padre, é o mais apreciável de todos. Que fui eu dizer? Pois não seria melhor, que fosse Reconhecido por algum Soberano, que em lances de perigo lhe enviasse 30$ homens de auxílio, para rechaçar, e debelar completamente os adversários da Sua Pessoa, e Governo? Tal não dizem, e ainda menos pensam os verdadeiros Portugueses (que somente os que forem Católicos merecem tal nome). Os verdadeiros Portugueses não têm uma só Pátria, que se chama Reino de Portugal, aspiram a outro melhor, que nunca lhes poderá ser, nem franqueada, nem entregue senão pelo Ministério das Chaves de S. Pedro. Desde o princípio da minha carreira Literária tenho eu estranhado muito a opinião, em que somos tidos por vários Escritores estrangeiros, e bem estrangeiros na matéria, que se meteram a tratar, sem o devido conhecimento de causa. Temos na Santa Religião dos nossos Maiores um princípio de força irresistível, com que de ordinário se não conra, e que pesa muito nas balança, quando se trata de avaliar os nossos feitos antigos, e modernos. A História de Portugal, no que toca a milagres, e coisas extraordinárias, em que se apalpa continuamente um braço superior, só é excedida pela História do antigo Testamento; e quem a chamar, ou reduzir às causas naturais, e ordinárias da elevação, e queda dos Impérios, forçosamente há-de enervá-la, e despi-la do mais essencial, a ponto de a tornar um esqueleto mirrado, e informe.

(continuação, IV parte)

21/03/13

FUNDAMENTAÇÃO DO PAPADO

Esta semana cruzei-me com um antigo meu professor, dos meus tempos de aluno de teologia. Ele progressista, e eu, hoje, um mero tradicional católico. Este simpático sacerdote diocesano, relativamente a "Papa" e "Papado", acredita em oposição ao que eu acredito.

Como podem dois católicos acreditar diferentemente a respeito de conteúdos da Fé? Ou um está errado ou os dois estão errados, como mostra S. Tomás de Aquino: os dois não podem estar certos ao mesmo tempo em opiniões que se contradizem - porque uma mesma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo.

Enquanto fui aluno de teologia, naqueles tempos, acreditei sempre que o Papado e o Papa eram o que este meu antigo professor acredita. Muitos outros acreditam nestas novas ideias que hoje penetraram gradualmente a vida dos católicos como parte do "pensamento dominante". São erros de época, não são coisas enunciadas pela Santa Igreja (pelo contrário, são enunciadas contrariamente à Santa Igreja, e levadas em andas por boa parte do clero que, por sua vez, foi já formado pelos introdutores, ou alunos dos introdutores). Quanto mais longe estamos dos primeiros tempos de introdução das terríveis ideias na sociedade católica mais probabilidades há de os seus "portadores" não serem culpáveis.

Como acho muito perigosas essas e outras ideias, e como católicos cabe-nos repetir o que a Igreja ensinou para os outros venham a dar-lhe proveito, para que realmente todos sejam um.

Aquelas teses da moda, a respeito do Papa e do Papado, podem ser agrupadas em duas ideias:

- O poder do Papa adviria da Diocese de Roma perante as dioceses do Rito Romano;
- O Papa seria um "primus inter pares" (seria o primeiro entre iguais).

Estas duas crenças são postas ao catolicismo que diz justamente o contrário:

- O poder do Papa foi dado directamente por Nosso Senhor Jesus Cristo a Pedro;
- O Papa não é um igual aos outros Bispos porque a Igreja é fundada nele e foi apenas a ele que lhe foi confiado o rebanho.

A primeira Constituição Dogmática sobre a Igreja, IV sessão do Concílio Vaticano I, não deixa qualquer dúvida a quem a leia com boa-vontade:

"1823. Se, pois, alguém disser que o Apóstolo S. Pedro não foi constituído por Jesus Cristo príncipe de todos os Apóstolos e chefe visível de toda a Igreja militante; ou disser que ele não recebeu direta e imediatamente do mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo o primado de verdadeira e própria jurisdição, mas apenas o primado de honra – seja excomungado. "

No tempo em que Pedro recebe a chefia da Igreja de Nosso Senhor ainda nem sequer havia comunidade em Roma, logo fica reforçada também pela lógica a impossibilidade do poder do Papa advir da Diocese de Roma. Continuando...

"1824. Porém o que Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o príncipe dos pastores e o grande pastor das ovelhas, instituiu no Apóstolo S. Pedro para a salvação eterna e o bem perene da Igreja, deve constantemente subsistir pela autoridade do mesmo Cristo na Igreja, que, fundada sobre o rochedo, permanecerá inabalável até ao fim dos séculos. "Ninguém certamente duvida, pois é um fato notório em todos os séculos, que S. Pedro, príncipe e chefe dos Apóstolos, recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador e Redentor do género humano, as chaves do reino; o qual (S. Pedro) vive, governa e julga através dos seus sucessores".
1825. Se, portanto, alguém negar ser de direito divino e por instituição do próprio Cristo que S. Pedro tem perpétuos sucessores no primado da Igreja universal; ou que o Romano Pontífice é o sucessor de S. Pedro no mesmo primado – seja excomungado
1826. Por isso, apoiados no testemunho manifesto da Sagrada Escritura, e concordes com os decretos formais e evidentes, tanto dos Romanos Pontífices, nossos predecessores, como dos Concílios gerais, renovamos a definição do Concílio Ecuménico de Florença, que obriga todos os fiéis cristãos a crerem que a Santa Sé Apostólica e o Pontífice Romano têm o primado sobre todo o mundo, e que o mesmo Pontífice Romano é o sucessor de S. Pedro, o príncipe dos Apóstolos, é o verdadeiro vigário de Cristo, o chefe de toda a Igreja e o pai e doutor de todos os cristãos; e que a ele entregou Nosso Senhor Jesus Cristo todo o poder de apascentar, reger e governar a Igreja universal, conforme também se lê nas atas dos Concílios Ecuménicos e nos sagrados cânones.

Portanto, não é um bispo como os outros a quem se dá preferência. Pedro Apóstolo recebeu uma vocação e encargo de naturezas próprias que o diferenciam em relação aos outros bispos. Continuando...

1827. Ensinamos, pois, e declaramos que a Igreja Romana, por disposição divina, tem o primado do poder ordinário sobre as outras Igrejas, e que este poder de jurisdição do Romano Pontífice, poder verdadeiramente episcopal, é imediato. E a ela [à Igreja Romana] devem-se sujeitar, por dever de subordinação hierárquica e verdadeira obediência, os pastores e os fiéis de qualquer rito e dignidade, tanto cada um em particular, como todos em conjunto, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao regime da Igreja, espalhada por todo o mundo, de tal forma que, guardada a unidade de comunhão e de fé com o Romano Pontífice, a Igreja de Cristo seja um só redil com um só pastor. Esta é a doutrina católica, da qual ninguém pode se desviar, sob pena de perder a fé e a salvação.

Aqui está! O Cânon 1827 é muito importante porque é por Roma ser a comunidade de Pedro que ela tem o primado sobre as outras, e não o contrário: o poder de Pedro advir do primado de Roma. Noutras palavras, este cânon conta com todos os outros formando um conjunto coerente. Aproveito para dizer que o Rito Romano é também aquele que veio da tradição de S. Pedro e, por isto, considerado por nós o rito central e indispensável. Alerto ainda para o "seja um só redil porque pode parecer que se diz que não é um só redil mas que virá a sê-lo. Continuando...

1828. Estamos, porém, longe de afirmar que este poder do Sumo Pontífice acaba com aquele poder ordinário e imediato de jurisdição episcopal, em virtude do qual os bispos, constituídos pelo Espírito Santo [cf. At 20,28] e sucessores dos Apóstolos, apascentam e regem, como verdadeiros pastores, os seus respectivos rebanhos; pelo contrário, este poder é firmado, corroborado e reivindicado pelo pastor supremo e universal, segundo o dizer de S. Gregório Magno: "A minha honra é o vigor dos meus irmãos. Sinto-me verdadeiramente honrado, quando a cada qual se tributa a honra que lhe é devida".
1829. Além disso, do supremo poder do Romano Pontífice de governar toda a Igreja resulta o direito de, no exercício deste seu ministério, comunicar-se livremente com os pastores e fiéis de toda a Igreja, para que estes possam ser por ele instruídos e dirigidos no caminho da salvação. Pelo que condenamos e reprovamos as máximas daqueles que dizem poder-se impedir licitamente esta comunicação do chefe supremo com os pastores e os fiéis, ou a subordinam ao poder secular, a ponto de afirmarem que o que é determinado pela Sé Apostólica em virtude da sua autoridade para o governo da Igreja, não tem força nem valor, a não ser depois de confirmado pelo beneplácito do poder secular.
1830. E como o Pontífice Romano governa a Igreja Universal em virtude do direito divino do primado apostólico, também ensinamos e declaramos que ele é o juiz supremo de todos os fiéis, podendo-se, em todas as coisas pertencentes ao foro eclesiástico, recorrer ao seu juízo; [declaramos] também que a ninguém é lícito emitir juízo acerca do julgamento desta Santa Sé, nem tocar neste julgamento, visto que não há autoridade acima da mesma Santa Sé. Por isso, estão fora do recto caminho da verdade os que afirmam ser lícito apelar da sentença do Pontífices Romanos para o Concílio Ecumênico, como sendo uma autoridade acima do Romano Pontífice.
1831. Se, pois alguém disser que ao Romano Pontífice cabe apenas o ofício de inspeção ou direção, mas não o pleno e supremo poder de jurisdição sobre toda a Igreja, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao governo da Igreja, espalhada por todo o mundo; ou disser que ele só goza da parte principal deste supremo poder, e não de toda a sua plenitude; ou disser que este seu poder não é ordinário e imediato, quer sobre todas e cada uma das igrejas quer sobre todos e cada um dos pastores e fiéis – seja excomungado.

Ao Papa Francisco, por exemplo, Deus ter-lhe-a dado plenos poderes de Papa. Se o Romano Pontífice resolve expressar-se apenas a um nível mais modesto como um "primus inter pares"... hum...

Estamos a viver os efeitos da infiltração lenta de doutrinas heréticas, de tal forma que hoje já são o "ar que se respira". O próprio erro é veiculado pelos instrumentos da Santa Igreja... Devido a uma ignorância possivelmente não culpável (depende dos casos) pouco mais se pode fazer do que rezar e difundir a doutrina entre os próprios católicos.

E mais não digo... por hoje.

20/03/13

PAPA e PATRIARCA DE LISBOA: O ASTERISCO (I)

No nosso Rito Romano apenas o Papa e o Patriarca de Lisboa podem usar o asteriscum. O asterisco é um resguarde colocado sobre a patena no ofertório fazendo primeira e pequena elevação. Esta peça é formada de braços nos quais vão em cada um o nomes de cada Apóstolo.

Nome dos Apóstolos nos braços do asterisco
Mais recentemente o Papa Bento XVI usou um asterisco a 17 de Abril de 2008 (nos U.S.A.)


Um asterisco papal:


Um dos asteriscos do Patriarca de Lisboa (Museu Tesouro da Sé Patriarcal de Lisboa), foi o último asterisco a ser usado até ao momento por um Papa (Bento XVI em 2010 em Lisboa - no Terreiro do Paço):


Bento XVI na Missa no Terreiro do Paço (Lisboa), usando o asterisco
do Patriarca de Lisboa (ano 2010)


(continuação, "Tiara Patriarcal")

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