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01/06/16

A VERDADEIRA NOBREZA (IV)

(continuação da III parte)


Capítulo III
Do Temor de Deus


Quanto o Justo ame a seu Deus mais ardentemente, tanto mais foge de O ofender; como nota o venerável Beda. O amor, e o temor são duas asas com que voa o nosso espírito ao Céu. O temor, ainda que ponha a alma triste, e encolhida, aparelha-a melhor para O amar, que é princípio de todas as suas riquezas. Entendia-o mui bem Tobias, quando industriando a seu filho, dizia: "Filho, pobres somos, porém teremos muitos bens se temermos a Deus". Os que temem, diz o Espírito Santo, buscam aquelas coisas que Lhe são agradáveis. Este temor é a fonte da vida: ele, e o amor são as primeiras letras do abecedário cristão. O temor do Senhor é princípio da sabedoria. Quem mais sábio que o bom? Quem mais prudente que o virtuoso? Quem mais avisado que o temente a Deus? Havendo contado a divina Escritura a alta genealogia, e estremada formosura daquela valorosa Judite, de suas riquezas, de seu admirável recolhimento, jejum, e penitência, diz, que era ela famosíssima em tudo, porque temia muito a Deus, não com o temor (segundo adverte Clemente Alexandrino) com que se foge de uma fera, e se aborrece, senão com o temor filial, e generoso, que se deve a um pai, ao qual se teme e ama juntamente, não para desmedrar, senão para mais valer. Doce, e justo chama David ao Senhor, o qual declara Cassiodoro, para que como a doce amemos, e como a justo o temamos. O amá-Lo, e temê-Lo é ser homem, como diz o Eclesiástico, porque o contrário é de bestas, e demónios, e é ser nada; diz S. Bernardo: "e bem se pode dizer nada a quem lhe falte tanto bem". Vendo-se Caim lançado da presença divina, parecia-lhe, que não haveria lugar, onde se escondesse da face de Deus, e dizia: "Qualquer que me achar, me tirará a vida, e me matará". Porque temia Caim, e temeu toda a vida? senão que, por haver morto ao irmão sem temor do Senhor, era já nada! Deste temor se começa no caminho de Deus para chegar à fortaleza da virtude. O [temor] das coisas da terra causa desconfiança, mas o temor divino concede firmeza de esperança. O juízo de Deus se há de temer, para que não se tema. O homem que desde sua infância (dizia Panuncio) pôs diante de si o temor dos deuses, e a vergonha dos homens, está habituado à virtude, e mantém verdade a todos. O viver sempre com santo temor, e receio, é coisa muito proveitosa para alcançar a graça, e conservá-la. Em qualquer tempo é ele proveitoso, antes que pecar para ser um homem livre do pecado, e ser perdoado. Uns pecadores há, que pecam virando a Deus as costas, outros em sua presença. Não há culpa, que Ele não veja: mas alguns as fazem tão sem temor, e vergonha, como se lhas não viessem, de quem diz Jeremias: "Para ofenderem-Me viram as costas", como os varões que pinta Ezequiel com elas viradas à Sancta Sanctorum, aplicando os ramalhetes de flores aos narizes, que é pecar sem receio, nem modo, como senão houvera Deus. Deste género de pecadores era a Madalena, que vivendo lascivamente, virou as costas a Deus, dando-se aos deleites e prazeres do mundo, sem nenhum temor seu, e assim lhe foi necessário, que se apresentasse com ele ao Redentor do mundo para seu remédio, não de rosto a rosto, senão detrás das suas costas como guiada já do Espírito Santo, temerosa de que Seus olhos a não olhassem de fito, que se um olhar de Deus irado afoga no mar vermelho os carros, e cavalos de Faraó, como não temeria uma mulher fraca? Além de que pelas costas de Deus se entende a humanidade de Cristo, bem nosso. Moisés (disse a Majestade divina falando com ele), "quem me vir o rosto, não poderá viver, contentai-vos com ver minhas costas". Nelas achou a pecadora conveniência seu amparo, porque quando os raios da via de Deus colérico, e inexorável se encaminham a castigar suas culpas, ache perdão delas na humanidade de seu Filho, que com tanta liberalidade a dava aos tormentos, e à morte por redenção dos pecadores. Outros há que pecam considerando que há Deus, e está presente a seus pecados, e que lhos vê. Desta linhagem foi David, e assim disse: "Et malum coram te feci". E o Pródigo: "Pequei em tua presença", e ainda que é ousadia, e atrevimento ofendê-lo à sua vista; contudo isso tiram tão grandes temores de sua presença, que fazem a esperança de sua saúde mais segura. Para contar a divina Escritura a nomeada história da paciência de Job, diz na sua primeira entrada, que era varão simples, recto, e temente a Deus. Tal era aquele honrado velho Simeão, que no fim de sua vida mereceu ver em seus braços o Autor, e princípio dela, de que diz o Evangelista S. Lucas, que era justo, e temeroso; não é este temor, o que os maus têm pelo medo do castigo, mas filial, e amoroso. Daqui é, que muitos efeitos de amor parecera no que de presto se julga do temor, sendo pelo contrário, porque andam eles tão germanados, que os interesses, victórias, e heróicos feitos de um, se reputam, como se fossem do outro. Finalmente são estes os dois pesos, com que se meneia o artifício do Relógio espiritual. Estas as duas portas da escada de Jacob, uma das quais tocava no Céu, e outra estribava na terra. São os dois Querubins, que cobriam a Arca do testamento. São as bases de ouro, sobre quem se levantavam os dois pilares graciosos, a quem comparou o Esposo à sua Esposa. São enfim dois anéis de memória para se trazer no dedo do coração, com que será um homem verdadeiramente nobre, e honrado. Suposto este infalível fundamento, se dificultará brevemente das parte mais essenciais do nosso assunto.

(a continuar)

23/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXIX)

(continuação da LXXXVIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. III
A Grande Utilidade de Comungar Frequentemente

1. Alma – Senhor, eu chego à Vossa presença com o fim de participar das Vossas bênçãos e das Vossas graças e para que me encha de alegria no banquete sagrado, que tendes preparado para o pobre, na abundância da Vossa doçura. Em Vós se acha tudo o que posso ou devo desejar. Vós sois a minha salvação , a minha redenção, a minha esperança, a minha fortaleza, a minha honra, a minha glória.
Derramai, pois, hoje, a Vossa alegria na alma do Vosso sereno, porque a Vós, Ó Jesus, meu Senhor, levanto o meu espírito.
desejo de receber-Vos com devoção e respeito. Desejo que entreis na minha casa, para que mereça, como Zaqueu, a Vossa bênção e seja posto no número dos filhos de Abraão.
A minha alma suspira por alimentar-se do Vosso corpo e o meu coração deseja unir-se a Vós.
 
2. dai-Vos a mim, Senhor, e isto me basta. Fora de Vós, todas as consolações são falsas. Não posso estar sem Vós; sem Vós não posso viver. Por este motivo, convém que eu me chegue a Vós muitas vezes e Vos receba como remédio da minha salvação, para que não desfaleça no caminho por falta deste alimento celeste.
Isto mesmo nos ensinastes, misericordioso Jesus, quando, pregando aos povos e curado-os das suas diferentes enfermidades, dissestes, aos Vossos discípulos: "Não quero que vão em jejum para suas casas, pois temo que desfaleçam no caminho."
Fazei, agora, o mesmo comigo, já que Vós deixastes ficar entre nós, no sacramento instituído para consolo dos que Vos seguem.
Sois o delicioso sustento da alma e quem Vos receber dignamente torna-se participante e herdeiro da glória eterna. Caindo eu em pecando tantas vezes e, por insignificantes dificuldades, lanço-me no desânimo e no relaxamento, é necessário que me renove, e purifique, e me reanime de novo, por meio de orações, confissões e comunhões frequentes, pois receio que, abstendo-me por muito tempo destes santos exercícios, venha a esfriar nos meus bons propósitos.
 
3. Todos os sentidos do homem tendem para o mal, desde os verdes anos, e o homem irá cada vez pior, se a Vossa graça o não socorrer. A Santa Comunhão, portanto, nos aparta do mal e nos fortifica no bem.
Se agora, que eu comungo, ou, se sou sacerdote, celebro, tantas vezes me sinto frouxo ou negligente, que seria se eu não tomasse um tal remédio e não recorresse a tão grande protecção? Ainda que eu, se for sacerdote, não celebre todos os dias por qualquer indisposição, deverei, pelo menos receber a Santa Comunhão, para ter parte em tão grande graça.
A principal e quase única consolação da fiel, durante a sua peregrinação neste mundo, é lembrar-se muitas vezes do seu Deus e receber, como todo o fervor, o dilecto do seu coração.
 
4. Ó bondade prodigiosa! Vós, que sois o Criador e a vida original de todos os espíritos, dignai-Vos de vir a uma pobre alma e empregar todas as riquezas da Vossa Divindade e da Vossa humanidade, para enchê-la de bens, na sua indigência! Ó feliz alma, que tens a dita de receber devota e santamente o teu senhor e teu Deus e que, recebendo-O, te enches de uma alegria espiritual! Quando é grande o Senhor que te visita! Quanto é amável o hóspede que recebes! Quanto é doce aquele que vem fazer-te companhia! Quanto é fiel o amigo que te vem ver! Quanto é belo o Esposo que vem unir-se a ti! Quanto é grande e digno de ser amado, pois que excede infinitamente tudo o que se pode amar ou desejar nesta vida!
Emudeçam, diante de Vós, dulcíssimo amado meu, o Céu e a Terra, com todos os ornatos de que os vestistes, porque tudoo que ele têm, de glória e de beleza, foi por munificiência da Vossa liberalidade, nunca chegando a igualar a formosura do nome daquele cuja sabedoria é infinita.

17/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXIV)

(continuação da LXXXIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LVII
O Homem Não Deve Desanimar Quando Cai Em Alguma Falta

1. Cristo – Filho, mais que agradam a paciência e a humildade nos reveses do que muita consolação e fervor na prosperidade.
Porque te entristeces quando dizem alguma coisa contra ti? Ainda que ela fosse de importância, nem por isso deverias inquietar-te. Deixa-a passar; ela não é nova, nem a primeira, nem será a ultima que se diga contra ti, se viveres muito tempo.
Sabes dar bons conselhos e alentar os outros com palavras, mas, quando te achas oprimido por alguma tribulação, logo te faltam o conselho e o esforço. Considera a tua grande fragilidade, que muitas vezes experimentas nos pequenos dissabores, e crê que tudo o que sucede é para o teu bem.

2. Lança de teu coração, o melhor que puderes, toda a impressão que o mal lhe possa fazer, e se a tribulação chegou a tocar-te, não permitas que te abata e embarace por muito tempo o teu espírito.
Sofre com paciência, se não podes sofrer com alegria.
Posto que te custe ouvir o que se diz de ti e sintas ímpetos de cólera, reprime-te e não deixes a tua boca pronunciar palavras desordenadas, que escandalizem os fracos. A comoção depressa se aplacara e a dor da tua alma será suavizada pela minha graça. Eu ainda vivo, diz o Senhor, e estou pronto a assistir-te e consolar-te mais do que nunca, se puseres a tua confiança em mim e me invocares.

3. Toma por ânimo e arma-te de constância para sofrer ainda mais do que tens sofrido. Não te julgues perdido por te veres muitas vezes aflito e tentado gravemente. És homem e não és Deus, és carne e não anjo.
Como poderás viver para sempre em estado de virtude, quando esta faltou ao anjo no Céu e ao primeiro homem no Paraíso? Eu elevo e curo todas as enfermidades; faço subir até à participação da minha Divindade os que conhecem a sua fraqueza.

4. Alma – Senhor, bendita seja a Tua palavra, mais doce à minha boca do que um favo de mel. Que faria eu, no meio de tantas atribulações e angústias, se a Vossa santa palavra não me confortasse? Que importa o que sofro, ou venha a sofrer, se eu chegar ao porto de salvação?

Dai-me, Senhor, um bom fim, uma feliz passagem para o Céu, meu Deus, lembrai-vos de mim e conduzi-me pelo caminho mais direito para o Vosso reino.

15/04/14

Sto. Afonso de Ligório - SERMÃO DO DOMINGO DE RAMOS (I)

SERMÃO XX

2º DOMINGO DA PAIXÃO
DOMINGO DE RAMOS
(por Sto. Afonso Maria de Ligório)

[Tema]:
O HÁBITO DO PECADO

"Ide à aldeia que está defronte de vós, e logo encontrareis presa uma jumenta e o seu jumentinho com ela" (Mateus 21, 2)

Nosso Senhor determinado neste dia a entrar em Jerusalém, afim de ser reconhecido e proclamado como o Messias prometido e enviado por Deus para a salvação do mundo, mandou os seus ir para um castelo, onde haveria uma jumenta presa (logo encontrareis presa uma jumenta) que desatariam e levariam para Ele. S. Boaventura explica este trecho: Jumenta presa, designa o pecador; segundo o que diz o sábio, o ímpio é preso e encadeado pelo seu pecado mesmo: "O ímpio é presa das suas próprias iniquidades e é ligado com as cadeias dos seus pecados" (Prov. 5, 22). Ora como Jesus Cristo não podia sentar-se sobre a Jumenta enquanto ela estava presa, da mesma maneira não pode Ele demorar numa alma encadeada nos seus pecados. Se portanto, meus caros auditores, encontra-se dentro de vós uma alma encadeada pelo hábito do pecado; que ouça esta palavra do Senhor que lhe é dirigida hoje: "Desprendei-a e trazei-ma." (Mateus 21, 2). "Desata as cadeias do teu pescoço, cativa, filha de Sião." (Isaías 52.2). Desprende-te, minha filha, desta corrente do pecado que te torna escrava do demónio, e fá-lo depressa antes que o hábito do mal se apodere de ti e te impeça de te emendares e te conduza à tua perda eterna. Neste desígnio, vou demonstrar os maus efeitos do hábito do pecado; divido em três pontos o que vou explicar: 1.º O hábito cega o espírito, 2.º endurece o coração, 3.º enfraquece as forças.

I
O Hábito de Pecar Cega o Espírito

1. Sto. Agostinho fala assim do pecado habitual: O costume não permite ver o mal que os pecadores fazem. O costume de pecar cega os pecadores e impede-os de reparar, quer o mal que fazem, que a ruína que provocam; vivem então como se nem Deus, nem o Inferno, nem o Céu, nem a eternidade existissem. Os pecados mais horríveis quando são habituais, parecem pequenos ou nulos. Como então a alma poderá evitá-los, quando já não sente a gravidade deles e o mal que eles provocam?

2. S. Jerónimo diz que os pecadores de costume perderam toda a vergonha; uma certa vergonha acompanha naturalmente o pecado, mas perde-se pelo costume. S. Pedro compara o pecador de costume a um porco que se volta no seu estrume: Voltou o cão ao seu vómito e a porca lavada tornou a revolver-se no lamaçal (II Pedro 2. 22). A lama cobre logo os olhos e daí que aqueles que vivem assim, em vez de entristecer-se, e ruborizar das suas máculas, regozijam-se e gabam-se disso: "É um divertimento para o louco fazer o mal." (Prov. 10, 23). "Alegram-se por terem feito o mal e se regozijam na perversidade." (Prov. 2, 14). Assim os santos rogam a Deus sem cessar para os iluminar, sabendo que sem esta luz todo o homem se pode tornar o mais culpável do mundo. E como tantos cristãos, assegurados pela Fé, que há um inferno e um Deus justo, que não pode deixar de castigar o mal, continuam a viver no pecado até à morte, e condenam-se? Porque a malícia os cegou (Sabed. 2, 21) e por isso se danam.

3. Lemos em Job que o pecador costuma encher-se de vícios: Os seus ossos estavam cheios das suas iniquidades ocultas (Job. 20, 11). Todo o pecado leva consigo um degrau de cegueira no espírito e quando os pecados se multiplicam por hábitos, a cegueira cresce com eles. Um frasco [vidro] sujo de terra não pode receber o sol; assim também a luz de Deus não pode penetrar no coração cheio de vícios, e fazer conhecer o princípio para onde vai cair. O pecador habitual, desprovido da luz, vai de falta em falta, sem pensar emendar-se: "Os ímpios ao redor passeiam." (Salmo 11, 9). O desgraçado caído na fossa obscura do costume de pecar, apenas pensa no pecado, preocupa-se só com fazer algo pecaminoso e já não o considera como um mal. Torna-se afinal como os animais, desprovidos de razão, que nada conhecem senão os apetites dos sentidos. De facto o homem não permanecerá em opulência: "É semelhante às alimárias que perecem." (Salmo 48, 13). São João Crisóstomo aplica esta passagem ao pecador hábil, que, encerrado nesta fossa obscura, desenha as pregações, os avisos de Deus, as correcções, as censuras e o Inferno e até o próprio Deus: que torna a ser semelhante a abutres vorazes, azafamados sobre um cadáver, que devoram, prefere deixar-se matar pelo caçador do que largar a presa.

4. Tremamos, meus irmãos, como David quando dizia: "Não me afogem as ondas das águas, nem me absorva o abismo, nem a boca do poço de tantas misérias." (Salmo 68, 16). Se alguém cai no poço, enquanto a boca do poço fica aberta, ele tem a possibilidade de se salvar, mas se a boca do poço chega a ser tapada, está perdido. Também o pecador, caído no costume do pecado, vê os seus pecados repetidos fecharem-lhe continuamente a boca do abismo, que, uma vez completamente fechada, o separa de Deus, de que será então abandonado. Ó pecador se estás preso deste poço do Inferno, antes que a boca se feche, quero dizer, antes que Deus te retire a sua luz e te abandone, porque motivo este abandono determinará a tua danação!

(continuação, II parte)

30/01/14

Sto. Afonso de Ligório - SERMÃO do III DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA (b)

(continuação da parte a)
3. Ai quantos golpes de faca vão ser para o coração do danado por tantos benefícios recebidos, no momento em que ele se vir na prisão do inferno e se aperceber que acabou o tempo que lhe dava possibilidade de emendar-se e evitar a ruína eterna! É portanto verdade, dirá ele com os seus companheiros, na desgraça que a estação da colheita passou e que o Verão acabou e nós não fomos salvos. O tempo de colher os frutos para a eternidade já decorreu, a estação em que tínhamos a possibilidade de nos salvar já acabou; o Inverno eterno em que somos condenados a viver eternamente desgraçados e desesperados, sem recursos, tanto quando Deus será Deus.

4. Insensatos que fomos, diria ainda ! Se as penas que eu tive para satisfazer os meus caprichos, tivessem sido empregados para servir a Deus; se as fatigas que aguentei para me condenar, as tivesse suportado para me salvar, qual não seria hoje a minha alegria! E agora o que me resta senão os remorsos e as dores que me laceram e me lacerarão eternamente. Podia ser feliz para sempre e agora eis que sou desgraçado para sempre! Este único pensamento atormentará os condenados mil vezes mais do que as chamas e os outros suplícios do inferno.

II Resumo:
Por Quão Poucas Coisas Se Condenou

5. O Rei Saúl, estando no seu campo, ordenou sob pena de morte, que se deviam abster de qualquer alimento. Ouvindo que o seu filho Jonatão, apressado pela fome, comeu um pouco de mel, quis que lhe fosse aplicada a pena prevista e que fosse executado. O desgraçado filho, vendo-se condenado à morte, derramava lágrimas e dizia: Provei um pouco de mel, com a ponta do bastão que tinha na mão; vou morrer por causa disto? (1 Samuel 14, 43). Todo o povo comovido de compaixão para com ele interpôs-se junto do seu pai e conseguiu o perdão dele. O desgraçado danado não encontra e nunca encontrará alguém que tenha compaixão dele e que intervenha junto de Deus para o libertar da morte eternado inferno; toda a gente, pelo contrário, se alegrará deste castigo muito legítimo, porque por uns prazeres dum instante consentiu a perder o Céu e Deus.

6. Depois de se fartar do caldo de lentilhas, pelo qual vendeu o seu direito de primogénito, Esaú, diz a Sagrada Escritura, se sentiu tão penetrado de dor e de remorsos, por causa da perda que acabou de fazer, que desatou a gritar com clamor (Gen. 27, 34.) Quão mais horrorosos vão ser os bramidos e os urros que soltarão os danados, ao pensar que por alguns prazeres efémeros e envenenados perderam o reino eterno do Paraíso, e que para sempre serão condenados a uma morte contínua.

7. Sem cessar terá no pensamento a causa da sua danação. Nós que vivemos na terra, a vida passada nos parece apenas um instante, um sonho. Ai! Que serão aos olhos do danado os cinquenta ou sessenta anos passados no mundo, quando se encontrar nas profundezas da eternidade, quando já aguentou cem milhares de anos nos tormentos, e se aperceberá que a sua eternidade apenas começa por ele! Mas o quê!... Estes cinquenta anos não foram para ele uma corrida incessante de muitos prazeres? O pecador seria sempre alegre no meio dos prazeres, vivendo na desgraça de Deus? quão pouco duraram os prazeres do pecado? Um instante só; e para aqueles que vivem afastados de Deus, todo o resto do tempo é apenas desgosto e angústias. Ora, o que parece aos danados este momento de prazer agora que estão mergulhados neste vórtice de fogo?

8. De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu riqueza com a jactância? Todas estas coisas passaram como sombra como uma notícia que corre veloz (Sabedoria 5, 8). Desgraçado que eu sou, exclamará ele, na terra eu vivia segundo o meu capricho e satisfazia os meus desejos; de que me serviram todos estes prazeres? Duraram apenas um instante e derramaram sobre a minha existência inquietação e amargura e agora me reduz a arder para sempre nesta fornalha ardente, desesperando e abandonado de todos.

(a continuar)

24/01/14

Sto. Afonso de Ligório - SERMÃO do III DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA (a)

SERMÃO VIII

(III Domingo depois da Epifania)

O Remorso Dos Danados
"Enquanto os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá pranto e ranger de dentes" (Mateus 8.12)


Lemos no Evangelho de hoje que na altura de Jesus Cristo entrar em Cafarnaúm, o Centurião foi ter com Ele para lhe pedir de sarar um dos seus servidores paralítico, que tinha na sua casa. O Senhor diz-lhe: Eu vou e curo-o. Não respondeu-lhe o Centurião: não sou digno que entre na minha casa; Basta que queirais curá-lo, e será curado. O Salvador, por recompensar a sua Fé, curou o seu servidor para o aliviar; depois, dirigindo-se para os seus discípulos, disse-lhes: virão muitos do Oriente e do Ocidente, e que se sentarão com Abraão, Isaac e Jacob no reino dos Céus. Enquanto os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá pranto e ranger de dentes. Queria Ele fazer-lhes entender por aí, que um grande número de pessoas, nascidas dentre os infiéis, se salvarão com os santos, nascidos no seio da consciência os dilacerará com as suas mordidelas e lhes arrancará lágrimas amargas durante a eternidade. Consideramos o remorso, de que o cristão danado, será vítima no inferno.

I - Remorso: quão poucas coisas se há de fazer para se salvar;
II - Remorso: por quão poucas coisas se condenou;
III - Resumo: que grande bem perdeu por sua culpa.


I Resumo:
Quão Poucas Coisas Se Há-de Fazer Para Se Salvar

1. Um condenado apareceu um dia a Sto. Humberto e lhe confessou que 2 remorsos eram os seus carrascos mais cruéis no inferno: Saber que poucas coisas eram necessárias para se salvar e por tão poucas coisas ele se condenou. É isso mesmo que mais tarde escreveu S. Tomás: Principalmente eles sofrerão de que se danaram por poucas coisas e que poderiam muito facilmente alcançar a vida eterna. Ficamos a considerar o primeiro remorso; aquele que nasce da frivolidade e da pouca duração dos prazeres, com que um danado se condenou. Ai de mim, diria o desgraçado: "Se eu me abstivesse daquele prazer, se triunfasse de tal companhia perigosa, se evitasse tal ocasião e tal companhia perigosa, não me teria condenado; See admirasse a tal congregação, se me confessasse cada semana; se para repelir as tentações, me recomendasse a Deus, não teria sucumbido. Muitas vezes propus-me fazê-lo e depois não o fiz. Comecei a pôr em pratica, mas logo me cansei, e desta maneira me perdi.

2.O que aumentará o suplício deste remorso para o condenado, será a recordação dos bons exemplos que recebeu de outros jovens da sua idade, que levaram uma vida pura e piedosa no meio do mundo. Mas o que será o cúmulo do seu tormento, será o recordar os tormentos e os dons inumeráveis que o Senhor lhe deu para lhe facilitar a sua salvação eterna: Dons naturais, saúde, fortuna, nascimento e talentos; as vantagens que Deus lhe concedeu, não para que ele vivesse no meio dos prazeres da terra, ou para se distinguir dos outros com orgulho, mas sim para que servissem ao bem da sua alma; E mais tantos dons da graça, iluminações divinas, inspirações, ternas chamadas, e tantos anos de existência que lhe foi concedido para emendar-se e expiar as suas faltas. Mas ele ouvirá a voz do anjo do Senhor, que lhe notificará que já não há tempo para ele se salvar. E o Anjo, que eu vira de pé levantou a sua mão ao Céu e jurou por Aquele que vive pelos séculos dos séculos... que não haveria mais tempo para fazer penitência (Apo. 10.6)
(continuação, parte b)

23/08/13

OBSTÁCULOS À VIDA SOBRENATURAL


Os obstáculos que ameaçam a existência ou crescimento da nossa vida sobrenatural podem resumir-se aos seguintes:

- O pecado mortal, que é o obstáculo radical, porque destrói por completo a vida divina da alma;
- O pecado venial, principalmente deliberado, a tristeza, o hábito do pecado venial deliberado, e as imperfeições: todos estes, sem destruir nem diminuir a graça da vida sobrenatural, empenha a sua beleza, debilita a sua actividade e freia o seu crescimento;
- As inclinações viciosas, os defeitos naturais, e principalmente o defeito dominante: são a fonte ordinária dos nossos pecados e imperfeições.

O pecado tem uma triple causa:

- A carne, que é a nossa natureza desordenada, na qual o pecado original deixou uma tripla concupiscência que nos arrasta ao pecado: a concupiscência dos olhos, o afã desordenado de bens e riquezas temporais; a concupiscência da carne, o afã desenfreado dos prazeres dos sentidos; e a concupiscência do espírito, o afã desmedido das honras e vontade própria;
- O demónio, que é o conjunto de anjos caídos que nos puxam ao pecado instigando a nossa tripla concupiscência por meio das tentações;
- O mundo, que é o conjunto de homens que se regem pela triple concupiscência, e de que o demónio se serve como de instrumento para conduzir as almas à eterna condenação, pelas suas falsas máximas, modas, escândalos, espectáculos, perseguições, etc.

Assim como para crescer na vida sobrenatural há que desenvolver o gérmen da vida que Deus estabeleceu nas nossas almas pela graça, assim também para protegê-la e defendê-la há que combater esse triplo gérmen de morte (mundo, demónio, e carne) por meio de uma luta enérgica, vigilante e contínua. A mortificação cristã é uma condição indispensável e necessária para conservar a vida sobrenatural no nosso presente estado de prova.

(P. José Maria Mestre - apontamentos. Tradução ASCENDENS)

19/07/13

DO "NOVO MANUAL DO CATEQUISTA" (VIII)


(da primeira parte)

VII CAPÍTULO
Remissão dos Pecados - Pecado

Creio... na remissão dos pecados.
 
133. Que quer dizer "remissão dos pecados"?
R: Remissão dos pecados quer dizer que Jesus Cristo deu aos Apóstolos e aos sucessores o poder de perdoar na Igreja todos os pecados.

134. Como se perdoam os pecados na Igreja?
R: Os pecados na Igreja perdoam-se principalmente com os sacramentos do Baptismo e da Penitência, instituídos por jesus Cristo para este fim.

135. O que é o pecado?
R: O pecado é uma ofensa feita a Deus, desobedecendo à sua lei.

136. De quantas espécies é o pecado?
O pecado é de duas espécies: original e actual.

137. Que é o pecado original?
R: O pecado original é o pecado que a humanidade cometeu em Adão sua cabeça, e que de Adão todos os homens contraem por descendência natural.

138. Entre os filhos de Adão foi alguém preservado do pecado original?
R: Entre os filhos de Adão foi preservado do pecado original só Maria Santíssima; a qual por ter sido escolhida para Mãe de Deus, foi "cheia de graça"* e portanto sem pecado desde o primeiro instante; por isso a Igreja celebra a sua Imaculada Conceição. (* S. Lucas, I, 28)

139. Como se apaga o pecado original?
R: O pecado original apaga-se com o santo Baptismo.

140. Que é o pecado actual?
R: O pecado actual é aquele que comete voluntariamente a pessoa que tem o uso da razão.

141. De quantos modos se comete o pecado actual?
R: O pecado actual comete-se de quatro modos, isto é, por pensamentos, por palavras, por obras e por omissões.

142. De quantas espécies é o pecado actual?
R: O pecado actual é de duas espécies: mortal e venial.

143. Que é o pecado mortal?
R: O pecado mortal é uma desobediência à lei de Deus em matéria grave, feita com plena advertência e consentimento deliberado.

144. Porque é que o pecado grave se chama mortal?
R: O pecado grave chama-se mortal, porque priva a alma da graça divina que é a sua vida, tira-lhe os merecimentos e a capacidade de adquirir outros novos, e torna-a digna de pena ou morte eterna no inferno.

145. Se o pecado mortal torna o homem incapaz de merecer, é então inútil que o pecador faça boas obras?
R: Não é inútil que o pecador faça boas obras, pelo contrário deve fazê-las, não só para se não tornar pior omitindo-as e caindo em novos pecados, mas também para se dispor com elas de algum modo para a conversão e para recuperar a graça de Deus.

146. Como se recupera a graça de Deus perdida pelo pecado mortal?
R: A graça de Deus, perdida pelo pecado mortal recupera-se com uma boa confissão sacramental, ou com a dor perfeita que perdoa os pecados, ficando no entanto a obrigação de os confessar.

147. Juntamente com a graça, recuperam-se também os merecimentos perdidos pelo pecado mortal?
R: Juntamente com a graça, por suma misericórdia de Deus, recuperam-se também os merecimentos perdidos pelo pecado mortal.

148. Que é o pecado venial?
R: O pecado venial é uma desobediência à lei de Deus em matéria leve, ou em matéria por si grave, mas sem toda a observância e consentimento.

149. Porque é que o pecado não grave se chama venial?
R: O pecado não grave chama-se venial, isto é, perdoável, porque não tira a graça, e pode obter-se o perdão dele com o arrependimento e com boas obras, mesmo sem a confissão sacramental.

150. O pecado venial causa dano à alma?
R: O pecado venial causa dano à alma, porque a esfria no amor de Deus, a dispõe para o pecado mortal, e a torna digna de penas temporais nesta vida e na outra.

151. Os pecados são todos iguais?
R: Os pecados não são todos iguais; e como alguns pecados veniais são menos leves do que outros, assim alguns pecados mortais são mais graves e funestos.

152. Entre os pecados mortais, quais são os mais graves e funestos?
R: Entre os pecados mortais, são mais graves e funestos os pecados contra o Espírito Santo e os que bradam ao céu.* (* Fórmulas 24 e 25)

153. Porque é que os pecados contra o Espírito Santo são dos mais graves e funestos?
R: Os pecados contra o Espírito Santo são dos mais graves e funestos, porque com eles o homem se opõe aos dons espirituais da verdade e da graça, e por isso, ainda que possa converter-se, dificilmente se converte.

154. Porque é que os pecados que bradam ao céu são dos mais graves e funestos?
R: Os pecados que bradam ao céu são dos amis graves e funestos, porque directamente contrários ao bem da humanidade e odiossíssimos, provocam, mais que os outros, os castigos de Deus.

155. Que é que particularmente serve para nos desviar do pecado?
R: Para nos desviar do pecado serve particularmente o pensamento de que Deus está em toda a parte e vê os segredos dos corações, e a consideração dos Novíssimos, isto é, do que nos espera no fim desta vida e no fim do mundo.

22/06/13

DO "NOVO MANUAL DO CATEQUISTA" (V)



(da primeira parte)

IV CAPÍTULO
Incarnação, Paixão e Morte do Filho de Deus

76. De que maneira se fez homem o Filho de Deus?
R: O Filho de Deus fez-se homem tomando um corpo e uma alma, como nós temos, no seio puríssimo de Maria Virgem, por obra do Espírito Santo.

77. O Filho de Deus, fazendo-se homem, deixou de ser Deus?
R: O Filho de Deus, fazendo-se homem, não deixou de ser Deus; mas, continuando a ser verdadeiro Deus, começou a ser também verdadeiro homem.

78. Em Jesus Cristo há duas naturezas?
R: Em Jesus Cristo há duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana.

79. Em Jesus Cristo com as duas naturezas há também pessoas?
R: Em Jesus Cristo com as duas naturezas não há duas pessoas, mas uma só, a pessoa divina do Filho de Deus.

80. Jesus Cristo como foi conhecido por Filho de Deus?
R: Jesus Cristo foi conhecido por Filho de Deus, porque como tal o proclamou Deus Padre no Baptismo e na Transfiguração, dizendo: "Este é o meu Filho muito amado, no qual tenho postas todas as minhas complacências";

81. Jesus Cristo existiu sempre?
R: Jesus Cristo enquanto Deus existiu sempre; enquanto homem começou a existir desde o momento da Incarnação.

82. De quem nasceu Jesus Cristo?
R: Jesus Cristo nasceu de Maria sempre Virgem, a qual por isso se chama e é verdadeira Mãe de Deus.

83. S. José foi pai de Jesus Cristo?
R: S. José não foi pai verdadeiro de Jesus Cristo, mas pai legal e putativo; isto é, como esposo de Maria e guarda d'Ele, foi tido por seu pai sem o ser.

84. Onde nasceu Jesus Cristo?
R: Jesus Cristo nasceu em Belém, num estábulo e foi reclinado em um presépio.

85. Porque é que Jesus Cristo quis ser pobre?
R: Jesus Cristo quis ser pobre para nos ensinar a ser humildes e a não colocar a felicidade nas riquezas, nas honras e nos prazeres do mundo.

86. Que fez Jesus Cristo na sua vida terrena?
R: Jesus Cristo, na sua vida terrena, ensinou-nos com o exemplo e com a palavra a viver segundo Deus, e confirmou com milagres a sua doutrina; finalmente, para apagar o pecado, para reconciliar-nos com Deus a reabrir-nos o paraíso, sacrificou-se na Cruz, "único Mediador entre Deus e os homens." (I Timot., II 5)

87. Que é o milagre?
R. Milagre é um facto sensível, superior a todas as forças e leis da natureza e por isso tal que só pode vir de Deus, Senhor da natureza.

88. Com que milagres é que, especialmente, Jesus Cristo confirmou a sua doutrina e demonstrou que era verdadeiro Deus?
R: Jesus Cristo confirmou a sua doutrina e demonstrou que era verdadeiro Deus, especialmente com dar num momento a vista aos cegos, o ouvido aos surdos, a fala aos mudos, a saúde a toda a sorte de enfermos, a vida aos mortos; com mandar como Senhor aos demónios e às forças da natureza, e sobertudo com a sua ressurreição da morte.

89. Jesus Cristo morreu enquanto Deus ou enquanto homem?
R: Jesus Cristo morreu enquanto homem, porque enquanto Deus não podia padecer nem morrer.

90. Depois da morte, que foi feito de Jesus Cristo?
R: Depois da morte, jesus Cristo desceu com a alma ao Limbo, onde se encontravam as almas dos justos que tinham morrido até então, para as conduzir consigo ao paraíso; depois ressuscitou, retomando o seu corpo que fôra sepultado.

91. Quanto tempo esteve sepultado o corpo de Jesus Cristo?
R: O corpo de Jesus Cristo esteve sepultado três dias incompletos, desde a tarde de sexta-feira até à madrugada do dia que agora se chama domingo de Páscoa.

92. Que fez Jesus depois da sua ressurreição?
R: Jesus Cristo, depois da sua ressurreição, viveu na terra quarenta dias, depois subiu ao céu, onde está sentado à mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.

93. Porque é que jesus Cristo, depois da sua ressurreição, viveu na terra quarenta dias?
R: Jesus Cristo, depois da sua ressurreição, viveu na terra quarenta dias para mostrar que tinha ressuscitado verdadeiramente, para confirmar os discípulos na sua fé e instruí-los mais fundamente na sua doutrina.

94. Agora Jesus Cristo está somente no Céu?
R: Agora jesus Cristo não está somente no céu, mas com Deus está em toda a parte, e como Deus e homem está no céu e no santíssimo Sacramento do altar.

(a continuar)

15/06/13

DO "NOVO MANUAL DO CATEQUISTA" (IV)



(da primeira parte)

III CAPÍTULO
Criação do Mundo - Origem e Queda do Homem

51. Porque se diz Deus Criador do céu e da terra?
R: Diz-se Deus Criador do céu e da terra, isto é, do mundo, porque o fez do nada, e fazer do nada é criar.

52. O mundo é todo obra de Deus?
R: O mundo é todo obra de Deus; e na grandeza, beleza maravilhosa, mostra-nos o poder, a sabedoria e a bondade infinita d'Ele.

53. Deus criou somente aquilo que é material no mundo?
R: Deus não criou somente aquilo que é material no mundo, mas também os puros espíritos, e cria a alma de cada homem.

54. Quem são os puros espíritos?
R: Os puros espíritos são seres inteligentes sem corpo.

55. Como sabemos que existem puros espíritos criados?
R: Sabemos que existem puros espíritos criados sabemo-lo pela Fé.

56. Quais são os puros espíritos criados que a Fé nos faz conhecer?
R: A Fé faz-nos conhecer os puros espíritos bons, isto é, os Anjos, e os maus, isto é, os demónios.

57. Quem são os anjos?
R: Os anjos são os ministros invisíveis de Deus, e também nossos Guardas, tendo Deus confiado cada homem a um deles.

58. Temos alguns deveres para com os Anjos?
R: Para com os Anjos temos o dever da veneração, e para com o Anjo da Guarda temos também o dever de lhe ser gratos, de seguir as suas inspirações e de nunca ofender a sua presença com o pecado.

59. Os demónios quem são?
R: Os demónios são anjos que se rebelaram contra Deus por soberba e foram precipitados no inferno, os quais por ódio contra Deus tentam o homem para o mal.

60. Quem é o homem?
R: O homem é um ser racional, composto de alma e corpo.

61. Que é a alma?
R: A alma é parte espiritual do homem, pela qual ele vive, entende e é livre, e por isso capaz de conhecer, amar e servir a Deus.

62. A alma do homem morre com o corpo?
R: A alma do homem não morre com o corpo, mas vive eternamente, porque é espiritual.

63. Que cuidado devemos ter com a alma?
R: Com a alma devemos ter o máximo cuidado, porque ela é em nós a parte melhor e imortal, e só salvanso a alma seremos eternamente felizes.

64. Como é que o homem é livre?
R: O homem é livre, enquanto pode fazer uma coisa e não fazer, ou fazer uma de preferência a outra, como muito bem sentimos em nós mesmos.

65. Se o homem é livre, pode também fazer mal?
R: O homem pode, quer dizer, é capaz de fazer também o mal; mas não o deve fazer, precisamente porque é mal; a liberdade deve usar-se só para o bem.

66. Quem foram os primeiros homens?
R: Os primeiros homens foram Adão e Eva, criados imediatamente por Deus: todos os outros descendem destes que, por isso, são chamados os progenitores dos homens.

67. O homem foi criado fraco e cheio de misérias, como nós agora somos?
R: O homem não foi criado fraco e cheio de misérias, como nós agora somos, mas num estado feliz, com destino e com dons superiores à natureza humana.

68. O homem que destino recebeu de Deus?
R: O Homem recebeu de Deus o altíssimo destino de o ver e gozar eternamente, a Ele Bem infinito; e porque isto é absolutamente superior à capacidade da natureza, recebeu juntamente para o conseguir uma potência sobrenatural que se chama graça.

69. Além da graça, que mais dera Deus ao homem?
R: Além da graça Deus dera ao homem a isenção das fraquezas e misérias da vida e da necessidade de morrer, contando que não pecasse, como infelizmente fez Adão, cabeça da humanidade, comendo do fruto proibido.

70. Que pecado foi de Adão?
R: O pecado de Adão foi um pecado grave de soberba e de desobediência.

71. Que danos causou o pecado de Adão?
R: O pecado de Adão privou-se a ele e a todos os homens da graça e de qualquer outro dom sobrenatural, deixando-os sujeitos ao pecado, ao demónio, à morte, à ignorância, às más inclinações e a todas as outras misérias, e excluindo-os do paraíso.

72. Como se chama o pecado ao qual Adão sujeitou os homens com a sua culpa?
R: O pecado ao qual Adão sujeitou os homens com a sua culpa chama-se original, porque, cometido no princípio da humanidade, se transmite com a natureza a todos os homens na sua origem.

73. Em que consiste o pecado original?
R: O pecado original consiste no privação da graça original, que, segundo a disposição de Deus, deveríamos ter, mas não temos, porque a cabeça da humanidade com a sua desobediência se privou dessa graça a si e a todos nós, ses descendentes.

74. Como é que o pecado original é voluntário e portanto culpa para nós?
R: O pecado original é voluntário e portanto culpa para nós, só porque voluntariamente o cometeu Adão como cabeça da humanidade; e por isso Deus não castiga, mas simplesmente não premeia com o paraíso aquele que tenha só o pecado original.

75. O homem, por causa do pecado original, devia ficar excluído para sempre do paraíso?
R: O homem, por causa do pecado original, devia ficar excluído para sempre do paraíso, se Deus para o salvar, não houvesse prometido e mandado do céu o próprio Filho, isto é, Jesus Cristo.

(a continuar)

30/03/13

DOMINGO DE PÁSCOA - Sermão de Sto. AFONSO DE LIGÓRIO


DOMINGO DE PÁSCOA

- Desgraçado Estado da Recaída -
"Não temais; buscai a Jesus Nazareno que foi crucificado; ressuscitou, não está aqui"
 (Marcos 16. 6)

Espero, ó cristãos, meus irmãos, que, no Santo dia da Páscoa em que Jesus está ressuscitado, estejais também ressuscitados da morte do pecado pela confissão. mas tomais atenção ao que diz S. Jerónimo, que muitos começam bem e poucos perseveram: "Há muitos para começar e poucos para perseverar". Além destas palavras, o Espírito Santo avisa-nos que, não é o começo de boa vida mas sim a perseverança que nos salva: Quem perseverar até ao fim, este será salvo (Mat. 24, 13). A Coroa do Paraíso, diz São Bernardo, é somente prometida àqueles que começam; mas não é dada senão àquele que perseveram (Sermão 6, A Maneira de Bem Viver). Ora, meus irmãos, visto que estais determinados a entregar-vos a Deus, ouvi o que vos diz o Espírito Santo: "Filhos, entrando no serviço de Deus, preparai a vossa alma para a tentação." (Ecles. 2, 1). Não acrediteis que já não há tentações para vós. Preparai-vos, ao contrário para combater e guardai-vos de cair nas mesmas faltas das quais vos tendes já confessado; porque se perdeis de novo a graça de Deus, será mais difícil de a recuperar. Eis o que quero mostrar-vos hoje; O estado infeliz daqueles que cometem novamente as mesmas faltas que lhes foram remetidas na confissão.

1. Quando vos tendes confessado, cristão, meus irmãos, Jesus Cristo diz-vos tal como ao paralítico: Eis que estás são; não peques mais, para que não suceda coisa pior (João 5, 14). Pela confissão, a vossa alma foi curada; está curada, mas ainda não salva; porque se voltais ao pecado perdê-la-eis de novo, e o mal da recaida será muito maior do que o das quedas precedentes: Ouvi, diz S. Bernardo, é pior recair do que cair. Se, depois de ter sido curado duma doença mortal, se cai a recair nela, as forças estão tão esgotadas que, desta vez, é impossível restabelecer-se. Assim acontece àqueles que recaem no pecado: voltando ao vómito, sto é, voltando ao pecado que tinham como que vomitado na confisão, ficam tão fracos que tornam a ser boneco do demónimo. Santo Anselmo diz que o inimigo dos homens adquire sobre nós um tal império pelas recaídas, que a seguir nos faz cair e recair, como quer, de maneira que nos tornamos semelhantes a estas aves tornadas boneca nas mãos das crinaças, que lhes permitem elevar-se no ar de vez em quando, mas que de novo trazem consigo quando quiserem, puxando o fio que as prende. Assim lida o demónio com aqueles que recaem. Mas porque estão presos pelo inimigo, aqueles que volvem no mesmo vício, serão derrubados.

2. Lemos em S. Paulo que os inimigos que temos de combater, não são homens de carne e de sangue como nós, mas príncipes dos infernos: Porque nós não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os Principados e Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso e contra os espíritos malignos espalhados pelos ares (Efesios 6. 12). Nesta passagem, avisa-nos que não somos assaz fortes para resistir aos poderes do Inferno, e que o auxílio de Deus nos é absolutamente necessário, sem o qual seríamos sempre vencidos. Ao contrário, quando Deus nos ajuda, tudo nos é possível e triunfamos, dizendo com o mesmo Apóstolo: "Tudo eu posso n'Aquele que me conforta." (Filipenses 4. 13). Mas este auxílio, Deus não concede senão àqueles que Lho pedem pela oração: "Pedi e vos será dado; buscai, e achareis, batei, e abrir-se-vos-á." (Mat. 7. 7). Aquele que o não pede, não o obterá. Assim não nos fiemos nas nossas boas resoluções; se buscarmos o fundamento nelas, estamos perdidos; mas quando estamos tentados de recair no pecado, invistamos toda a nossa confiança no auxílio de Deus que ouve sempre aquele que Lhe reza.

3. "Quem, pois julga estar de pé, veja se não caia." (1 Cor. 10, 12). Aquele que entrou na graça de Deus, deve, como diz aqui S. Paulo, estar atento em não recair no pecado, sobretudo se anteriormente cometeu pecados mortais; porque a recaída daquele que já perdeu a graça torna o seu estado pior que o primeiro: "E o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro." (Lucas 11. 16).

4. Lê-se na Sagrada Escritura que o inimigo oferece sacrifício à sua nassa (para a pesca) e queima oferendas à sua rede, para que por elas é abundante a sua porção, e o seu manjar escolhido (Habacuc 1. 16). Estas passagens, S. Jerónimo no-las explica dizendo que o demónio tenta prender todos os homens nas suas redes, para os sacrificar à justiça Divina, operando a condenação deles; todavia não deixa enlaçar com novas correntes estes homens já presos, fazendo-os cometerem novos pecados; mas, seu manjar escolhido, a presa que ele prefere, são aqueles que se reconciliarem com Deus; Com estes ele redobra o esforço e tentação, para os trazer consigo à escravidão e os fazer perder o bem que adquiriram. S. Dionísio-le-Chartreux escreve: Quanto com mais força alguém se esforça em servir a Deus, tanto mais enérgico contra ele se enfurece o inimigo. Quanto mais um cristão se une a Deus e se esforça em seri-l'O, tanto mais o inimigo redobra de raiva e tenta entrar nas sua alma, donde foi expulso, dizendo, como se lê em S. Lucas: "Quando o espírito imundo saiu de um homem, anda por lugares áridos, buscando repouso. Não o encontrando, diz: voltarei para minha casa, donde saí." (Lucas 11. 24). E se conseguir entrar nela, não entra sozinho, mas com companheiros, para consolidar a sua posição aí, de maneira que este segundo cativeiro da alma seja pior do que o primeiro: "Então vai, toma consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando ali, se instalam. E o último estado do homem torna-se pior do que o primeiro." (Lucas 11. 26).

5. Noutro lado, Deus irrita-se mais da recaída dum ingrato que o Seu amor chamou e perdoou, e que Ele o vê abandonar-se de novo ao pecado e renunciar à Sua graça, esquecendo a Sua misericórdia que Ele exerceu para com ele: Se Me tivesse ultrajado o inimigo, tolerá-lo-ia... "Mas tu, um homem igual a Mim, Meu amigo e familiar com quem partilhava comida doce." (Salmo 54. 13). Deus diz assim: Se tivesse sido ofendido por um inimigo, teria Eu menos indignação, mas ver que tu te viras contra Mim, tu que eu fiz sentar à minha mesa e alimentei com a minha própria carne, isso irrita-Me mais e leva-Me a punir-te. Ah! desgraçado, aquele que do estado de amigo de Deus no qual desfrutava de tantas graças, passa voluntariamente ao estado do Seu inimigo! Em breve, será atingido pelo gládio da vingança Divina: "E aquele que passa da justiça ao pecado, a este último reservou Deus para a romphaeam (espada longa)." (Eclesiástico 26. 27).

6. Alguém responderá: Mas se recaio, reerguer-me-ei prontamente, porque tenciono confessar-me logo. A este acontecerá tal como a Sansão, que enganado por Dalila, e despojado da sua cabeleira que fazia a sua força, dizia ao despertar do sono: "Desembaraçar-me-ei deles como das outras vezes. Ignorava Sansão, acrescenta a Escritura Santa, que o Senhor Se tinha retirado dele." (Juízes 16. 20). Contava libertar-se das mãos dos filisteus, como fazia até então, mas privado da sua força, foi reduzido por eles em escravidão; os filisteus vazaram-lhe os olhos primeiro e ecerraram-no carregado de correntes numa jaula. Assim o pecador, depois da recaída, perde a sua força de resistir às tentações, porque o Senhor Se tinha retirado dele: O Senhor abandona-o, e priva-o do seu auxílio, sem o qual não pode resistir, e assim o desgraçado fica cego e mergulhado no seu pecado.

7. "Ninguém, que depois de ter metido a mão no arado e olhar para trás, é apto para o reino de Deus." (Lucas 9. 62). Isto é a imagem do pecador que recai. Notai bem esta palavra ninguém: Ninguém, diz Jesus Cristo, que Me quer servir, e que volta para trás, é apto para entrar no paraíso. Origenes diz que juntar um pecado a um pecado  é juntar uma ferida a uma ferida (Orig. Hom.. 1. em Salmos). Se alguém apanha um golpe violento sobre um membro, com certezaeste membro não terá o mesmo vigor; mas se apanha ainda um segundo, o membro perderá toda a sua força, todo o movimento, sem esperança de ver as forças renascer. Eis o grande mal que a decaída causa na alma: que é o de a enfraquecer, e de deixar ficar impotente contra as tentações; São Tomás d'Aquino diz: "Cada pecado, uma vez perdoado, deixa sempre a ferida causada pela falta cometida." (1. Pars p. 86. art. 5). A tal ponto que se uma nova ferida se junta a uma passada, sesta última enfraquece a alma a tal ponto que sem uma graça especial e extraordinária do Senhor, é-lhe impossível resistir às tentações.

8. Trememos portanto, meus irmãos, para não recair no pecado, e não abusemos da misericórdia de Deus em continuarmos a ofender Deus. Santo Agostinho diz: Deus que prometeu o perdão ao penitente, não prometeu a graça de se arrepender. A contrição é um puro dom de Deus; se nos recusa este dom, como vos arrependereis? E sem arrependimento, como obtereis o perdão? "Cautela porque não se zomba de Deus: não vos enganeis: de Deus não se zomba" (Gal. 6.7). Santo Isidro diz que quem recai no pecado do qual se arrependeu, já não é penitente, mas zomba de Deus (S. Isidoro, De Summo Bono). Acrescentai esta palavra de Tertuliano: "Lá onde não há melhoramento, não houve arrependimento verdadeiro." (Tertull. De paenitencia).

9. S. Belarmino pregava assim: "Arrependei-vos pois, e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados" (Actos 3.19). Muitos arrependem-se, mas não se convertem; têm alguns remorsos da sua vida desregrada mas não regressam a Deus sinceramente. Confessam-se, batem no seu peito, prometem emendar-se, mas sem tomarem uma firme resolução de mudar de vida. Aquele que toma uma firme resolução preserva nela, ou ao menos mantém-se longo tempo em estado de graça. Mas aqueles que, depois da confissão, logo caiem, mostram que se arrependeram mas não se converteram, como diz S. Pedro, e chegam por fim a uma morte funesta. S. Gregório escreveu: "A maior parte dos maus arrepende-se assim para a justiça, tal como a maior parte dos bons é tentada para a culpa." (Past. P. 3 Admon. 31). Quer dizer por isso, que da mesma maneira que os bons sentem muitas vezes tentações para o mal, mas sem pecar, porque a sua vontade está toda inclinada ao contrário; assim também os pecadores sentem inclinações para o bem, mas que não basta para determinar a sua conversão. O sábio avisa-nos que a misericórdia de Deus não está adquirida para quem comente confessa os seus pecados, mas para quem ao mesmo tempo, os confessa e se desapega deles. "Aquele porém que os confessar e se retirar deles alcançará misericórdia." (Provérbios 28, 31). Aquele portanto que depois da confissão continua a pecar, não obtem a misericórdia, mas morrerá vítima da Justiça Divina; Como aconteceu a um jovem na Inglaterra, segundo o que se encontra na história deste reino. Era possuído duam paixão desonesta, na qual recaía sem cessar, confessando-se e recaindo sempre; chegando à hora da morte, confessou-se de novo e pareceu morrer com os sinais da salvação. Mas quando um sacerdote Santo celebrava o ofício ou se preparava a fazê-lo para o auxílio da sua alma, o jovem apareceu-lhe e diz-lhe que estaca condenado; Acrescentou que ao instante da morte, apanhado por um mau pensamento, sentiu-se forçado a aderir a ele, como costumava fazer nos tempos decorridos, e assim se perdeu.

(Amanhã continuará, se Deus quiser).

30/11/12

I DOMINGO DO ADVENTO - Sermão de STO. AFONSO DE LIGÓRIO


I DOMINGO DO ADVENTO

- O Juízo Derradeiro -
"Então aparecerá o sinal do Filho do Homem no Céu com muito poder e majestade"
(Mateus 24.30)


Hoje em dia Deus é desconhecido, assim os pecadores desprezam-n'0, como se Ele não pudesse, quando quisesse, vingar-se dos ultrajes que Lhe foram feitos. Eles pensam: que nos pode fazer o Omnipotente? (Job 22. 17). Mas o Senhor fixou irrevogavelmente um dia, que as Sagradas Escrituras chamam o dia do Senhor, em que o soberano Juiz deve enfim mostrar-se tal como é. O senhor manifestou-se, fez justiça (Salm. 9. 17). Este dia também é chamado dia de cólera, dia de tribulação, de angústia, dia de calamidade e de miséria. (Sofonias 1. 15). 

l° No primeiro ponto: o comparecer diferente dos justos e dos pecadores
2º O Exame de consciência
3°A sentença dos justos e dos danados. 

I
O COMPARECER DIFERENTE DOS JUSTOS E DOS PECADORES 

1. O início deste dia será marcado pelo fogo que descerá do Céu e queimará todos os homens ainda vivos e todas as coisas deste mundo: E os elementos com o calor se dissolverão e a terra e todas as obras que há nela serão queimadas (2 Pedro 3. 10). Tudo isso apenas será um montão de cinzas. 

2. Os homens, estando mortos, a trombeta soará e todos ressuscitarão, como o diz o Apóstolo: Num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta, os mortos ressuscitarão incorruptíveis (1 Cor. 15. 52). São Jerónimo exclama (In S. Mateus cap. 5): Cada dia considero eu o dia do Juízo, tremo. Quer eu coma, beba ou faça qualquer coisa, sempre parece que os meus ouvidos ouvem este terrível som da trombeta: Levantai-vos mortos, vinde ao julgamento. E Santo Agostinho confessa que nada o arrancava aos prazeres da terra a não ser o temor do julgamento. 

3. Ao som desta trombeta descerão do Céu as almas puras dos eleitos, para retomar a forma com que serviram a Deus na terra; surgirão do inferno as almas culpáveis dos danados, para revestir o maldito corpo com que ofenderam a Deus na terra. Quão diferentes serão eles uns dos outros ! Os danados aparecerão feios e pretos como outros tantos tiçãos do inferno; e os eleitos irradiarão como outros tantos sóis. Então resplandecerão os justos como o sol no reino do Seu Pai (Mateus 13. 43). Ó quão poderão alegrar-se então os que terão mortificado a sua carne pela penitência. Podemos convencermo-nos pelas palavras que São Pedro de Alcântara dirigiu a Santa Teresa, quando lhe apareceu depois da morte: Ó feliz penitência que me valeu tamanha glória ! 

4. Logo depois da ressurreição, os homens serão chamados pelos anjos no vale de Josafat para ser julgados: (Joel 3. 14). Os anjos virão a seguir para separar os justos dos danados, colocando os justos à direita e os danados à esquerda. Será assim no fim do mundo, virão os anjos e separarão os maus do meio dos justos (Mateus 13. 49). Oh ! Que vergonha sentirão então os miseráveis danados, escreveu o autor do livro das Obras imperfeitas (Hom. 54). Como imaginar a confusão dos danados ao ser separados dos justos para serem condenados ! Só este castigo, nos diz São João Crisóstomo, basta para equivaler a todos os tormentos do inferno: Se nada além disso fosse revelado, esta única vergonha bastar-lhes-ia como pena (In S. Mateus cap. 24). O irmão será separado do irmão, o marido da sua mulher, o filho do seu pai, etc. 

5. Mas eis que os céus se abrem, os anjos ao descerem para assistir ao julgamento, levando o sinal da Cruz e os outros instrumentos da paixão do Nosso Divino Redentor, como o escreve São Tomás, o doutor angélico: Na vinda do Senhor para o Juízo, aparecerão o sinal da Cruz e as outras coisas da paixão (S. Tom. Opusc. 2 cap. 244). Isso está confirmado pelas palavras de São Mateus (24. 30). Então aparecerá o sinal do Filho do homem no Céu, e todas as tribos da terra chorarão, e verão o Filho do Homem vir sobre as núvens do Céu com grande poder e majestade. Os pecadores derramarão lágrimas amargas e cruéis dos remorsos, vendo a Cruz do Salvador e, como diz São João Crisóstomo dirigindo-se para o ímpio, os cravos se queixarão de ti, as chagas e a Cruz levantarão contra ti a sua voz poderosa (Homil. 20. In Mateus). 

6. A este Julgamento assistirão também a Rainha dos Anjos, a Santíssima Virgem Maria e enfim aparecerá o Juiz Soberano, levado sobre as núvens, resplandecente de luz e de majestade. E verão o Filho do homem vir sobre as núvens do Céu com grande poder e majestade (Mateus 24. 30). Oh que grande tormento para os danados ao ver face a face o seu Juiz ! À sua vista ficam atormentados os povos (Joel 2. 6). São Jerónimo escreve que a presença de Jesus Cristo será para eles um suplício mais terrível do que os do próprio inferno. Assim, neste dia supremo, como profetizou São João: dirão aos montes que caiam sobre eles, e que os ocultem à vista do seu Juiz irritado: E diziam aos montes e aos rochedos: caí sobre nós, e escondei-nos da face daquele que está sentado sobre o trono e da ira do Cordeiro (Apoc. 6. 16). 

II
O EXAME DE CONSCIÊNCIA 

7. Procedeu-se ao Julgamento e foram abertos os livros (Dan. 7. 10). Os livros da consciências serão abertos e o Julgamento começará. Nada de escondido ficará então: O Apóstolo diz que o Senhor porá às claras o que se acha escondido nas trevas (1 cor 4. 5). Deus mesmo diz pela boca do profeta Sofonias (1. 12). Esquadrinharei Jerusalém com lanternas. A luz desta lanternas iluminará todas as coisas escondidas. 

8. Lê-se em São Jerónimo (Homil. 3. In David). O dia do Juízo é terrível para os pecadores, mas desejável e suave para os justos. Deus fará a cada um dos justos o elogio merecido das boas obras (1 Cor 4. 5). O Apóstolo diz que os eleitos serão neste dia arrebatados no ar sobre as núvens para avolumar o cortejo dos anjos que acompanham o Salvador: seremos arrebatados juntamente com eles sobre as núvens ao encontro de Cristo nos ares (1 Tess. 4. 16). 

9. Os mundanos, que dantes taxavam de loucura os santos, agora mortificados humilhados, fazem cair sobre eles próprios esta mesma injúria, e exclamam: Nós insensatos considerávamos a sua vida uma loucura e a sua morte uma ignomínia, ei-los que são contados entre os filhos de Deus e, entre os santos está a sua sorte? (Sabed. 5. 4). Neste mundo, reputamos felizes aqueles que possuem as riquezas e as honras enquanto que a única fortuna é se tornar Santo. Alegrai-vos, almas cristãs, que levam uma vida cheia de tribulação: Haveis de estar triste, mas a vossa tristeza há-de converter-se em alegria (João 16. 20). No vale de Josafat, estareis colocado perto do trono de Glória. 

10. Inteiramente ao contrário, os pecadores serão colocados à esquerda, como outros tantos bode impuros, destinados ao talho; estão à espera da sua última condenação. No tempo do julgamento, diz São João Crisóstomo, a misericórdia não terá lugar. Já não há, no grande dia do Juízo, esperança de misericórdia para os desgraçados pecadores. Santo Agostinho nos diz: A grande pena do pecado é de perder a memória e o medo do grande dia do Julgamento de Deus. Aquele que perde a graça no mesmo tempo perde com ela também a memória e o medo do Juízo de Deus. (Serm. 20 de temp). Sabe, sabe desgraçado pecador, obstinado no pecado, diz o Apóstolo, que por esta obstinação amontoas um tesouro de ira Divina para o grande dia do Julgamento de Deus. Mas a tua dureza e coração impenitente acumula para ti um tesouro de ira no dia da ira e da manifestação do justo Juízo de Deus (Rom. 2. 5). 

11. Então, diz-nos Santo Anselmo, os pecadores que quereriam debalde esconder- -se, serão forçados a comparecerem diante do seu Juiz, sentindo uma dor insuportável. Impossível esconder-se, intolerável comparecer. Os demónios farão os seus ofícios de acusadores e dirão ao Juiz, segundo as palavras de Santo Agostinho: Julga este escravo meu, que não quis ser o Teu. Os danados ouvirão testemunhar contra eles: 1º a sua própria consciência: Dando-Ihes testemunho a sua própria consciência (Rom 2. 15). 2°as criaturas, porque as muralhas próprias das casas em que pecaram falarão e desvendarão os seus crimes: Porque a pedra da parede clamará (Habac. 2. 11). 3°o próprio Juiz que lhes diz: Eu sou o testemunho e o Juiz (Jer. 29. 23). Ele dirá Especialmente aos cristãos reprovados, assim como narra São Mateus: Ai de ti Corozaim ! Ai de ti Betsaida, porque, se em Tiro e em Sidónia tivessem feito os milagres que se realizaram em vós, há muito tempo que eles teriam, feito penitência em cilício e em cinza (Mateus 11. 21). Cristãos, dirá Ele, se Eu tivesse feito aos turcos e idólatras as mesmas graças que haveis recebido de Mim, teriam feito penitência das suas culpas, ao passo que vós perseverais no pecado até a morte. E então Ele fará aparecer aos olhos de todos os seus crimes mais escondidos. Eis-Me contra ti, diz o Senhor dos exércitos ! Vou lançar sobre o teu rosto e mostrar a tua nudez às nações, aos reinos a tua vergonha (Naum 3. 5). Desvendará e tornará públicas as suas injustiças e crueldades escondidas. Farei recair sobre ti as tuas obras (Ezeq. 7. 4). 

12. Que desculpa fundada, que desculpa qualquer, poderia ele apresentar ? Toda a maldade fecha a sim boca (Salm. 106. 42). Assim em vez de buscar desculpas, pronunciarão eles mesmos a sua própria condenação. 

III
SENTENÇA PRONUNCIADA SOBRE OS ELEITOS E SOBRE OS DANADOS

13. São Bernardo diz (Serm. 8 in Salm 90). que a sentença que concerne aos justos será proferida em primeiro lugar, e chamá-los-á a desfrutar da glória celeste afim de agravar a pena dos reprovados pelo espectáculo do bem que perderam. Jesus Cristo portanto virar-se-á para os eleitos e dir-lhes-á com amor e serenidade: vinde benditos do Meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde a criação do mundo (Mateus 25. 34). Benzer-lhes-á todas as lágrimas derramadas na penitência, todas as boas obras, orações, mortificações, comunhões: sobretudo benzer-lhes-á a parte de dor que sentiram da Sua Paixão e do Sangue derramado por Ele pela salvação deles. Todos glorificados por esta bênção, os eleitos, cantando aleluia, aleluia, entrarão no Paraíso para aí louvar e amar a Deus eternamente. 

14. Virando-se depois para o lado dos reprovados, o soberano Juiz pronunciará a sua sentença com estas palavras: Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno (Mateus 25. 41). Será portanto amaldiçoado por Deus e como tal separado de Deus e condenado a arder para sempre no fogo eterno: E esses irão para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna. (Mateus 25. 46). Depois desta sentença, diz Santo Éfrem, os danados serão forçados a dizer um último e eterno adeus aos seus parentes, no Céu, aos Santos, à Santíssima Mãe de Deus: Adeus Justos, adeus Cruz, adeus Paraíso, adeus pais e filhos. Já nunca mais nos vamos ver de novo: adeus também Maria Virgem e Mãe de Deus (S. Éfrem de variis serm. Inf.). Depois um abismo abrir-se-á no meio do vale, em que os danados vão ser engolidos, e sentirão por detrás deles fechar-se as portas que nunca vão tornar a abrir-se durante toda a eternidade. Ó funesto pecado, ao qual fim miserável hás-de arrastar um dia tantas almas, resgatadas pelo sangue precioso de Jesus Cristo ! Ó almas desgraçadas, que fim lamentável vos é assim reservado ! 

Mas vós, cristãos, alegrai-vos; vós para quais Jesus Cristo é ainda um pai, e não um Juiz; Está pronto a perdoar ao pecador arrependido. Imploremos portanto o perdão salutares (Aqui, mandamos o povo rezar actos de penitência e de resoluções para uma vida melhor e a oração a Jesus e a Maria para obter a graça da perseverança final. Estes actos devem fazer-se ao remate de cada sermão).

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