Mostrar mensagens com a etiqueta Requiário. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Requiário. Mostrar todas as mensagens

26/07/16

PORTUGUESES E ESPANHA - O REI REQUIÁRIO

Rei Requiário
O título deste artigo esteve para ser "Portugal e Espanha ...", mas não seria certo. O que têm os portugueses e a Espanha que ver com o rei Requiário? Os castelhanos tanto o querem que, nos jardins do palácio real do Prado (Madrid), edificaram uma belíssima estátua em honra deste rei suevo, o qual sempre viveu e reinou em terras de Portugal.

Vou meter-me com os franceses: Requiário é o primeiro rei com reino cristão, no orbe latino! Calma.... calma.... darei uma fatia de bolo a cada um... A conversão do reino dos suevos (aqui em Portugal), e de seu rei Requiário, data de 499 d.C (antes de Clovis). Parte dos portugueses de hoje são este mesmo povo. O reino suevo foi ocupado, e a sua monarquia dissolvida; o reino dos francos foi por isso o segundo, contudo o primeiro que, como reino durou, enquanto que dos suevos apenas permaneceu o povo (mesmo que sempre tenham mantido uma nobreza rural, uma identidade familiar unificadora).

E os "Estados Unidos de Castela" (a actual Espanha), porque erguem estátuas a Requiário!? Direi:
a) porque lhe reconhecem o valor; b) porque, como dirá um amigo brasileiro, o castelhano tende a achar que: tudo o que é teu e é bom, é dele... tudo o que é teu e é mau, é mesmo teu... e tudo o que é mau e dele, do qual não se consegue livrar, é "complexamente bom"; c) finalmente, porque há alguns motivos sérios: independentemente dos povos, e donos das terras, o território pertencia-lhes politicamente (nisto há dúvidas). Neste último ponto perdem alguma razão, visto que um dos motivos pelo qual a Santa Igreja reconheceu tão facilmente o Reino de Portugal foi a existência, e a permanência dos povos e senhores anteriores, que nunca tinham podido ou querido eleger um monarca comum, os quais nunca integraram ou aprovaram reis de fora [fica isto bastante resumido].

A história, é linda!

No título disse "Portugueses", porque somos nós, a população, os filhos dos filhos dos filhos, a descendência, a identidade; e disse apenas "Espanha", e não "espanhóis", por se tratar somente duma demarcação política, que alguém lhe apeteceu inventar...

Alguma vez rezou pela alma deste nosso ilustre e antiquíssimo Rei? Experimente... (reze por ele uma Avé-Maria, agora mesmo).

19/10/14

DE REQUIÁRIO A D. AFONSO HENRIQUES

Requiário
"(...) tem Portugal outra antiguidade muito nobre, e de estimar na Religião, que é ter sido o primeiro Reino do mundo que de forma geral recebeu a Fé Católica, o qual se prova, porque os reis Suevos da Galiza e grande parte de Portugal, e que na cidade de Braga tiveram sua Côrte, aos quais ainda antes dos Godos receberam perfeitamente a Fé Católica com todos os restantes portugueses, e Reino universalmente, sendo seu Rei Requiário, no ano de 448 como o afirma S. Isidoro e como se lê em Fr. Bernardo de Brito, e no autor Madera (o qual prova que nesse tempo não havia reino no mundo que todo em geral fosse cristão, porque o Rei de França Ludovico Clodoveu converteu-se depois no ano de 499. E ainda que Inglaterra pudesse fazer contradição pelos seus antigos britanos, tornou-se ela por muitos anos idólatra nos anglos, que a conquistaram, perdendo-se de todo a nossa Sagrada Religião, que foi mister, que S. Gregório Magno enviasse prégadores àquela ilha, que de novo lhe dessem notícias da Fé, pelo qual foi chamado Apóstolo daquela província; (...) mas Portugal na antiguidade da origem, e continuação da Fé excede todos." ("Flores de España, Excelencias de Portugal...A La Magestad del Rey Catholico de las Españas Don Philippe IV" - Parte I. António de Sousa de Macedo. Coimbra, 1737)

Moeda sueva (ente 410 a 500 d. C)

Acrescento: se a Fé continuou dos Suevos até D. Henrique de Borgonha, Leão não tinha prioridade sobre nós. Não cabe o mais dentro do menos. D. Afonso Henriques, Venerável da Santa Igreja, tentou devolver o corpo a estes antigos cristãos, e para tal orientou-se pelos Suevos e Lusitanos. Assim se explicam as tentativas de recuperação dos territórios mais a norte! 88

Moeda sueva (entre 469 a 500 d.C.)

19/06/14

O CONCEITO DE "CRISTANDADE" QUE NOS FOI LEGADO (I)

Pode ser que o conceito de "cristandade" tenha sido deslocado desde o séc. XIX, e que muitos são aqueles que agora seguem opiniões amavelmente forjadas naquele tempo. Segundo estes teria havido uma "cristandade" apenas, e que teria durando mais ou menos até Isabel a Católica.

A melhor forma de ajudar a recolocar o conceito é oferecer transcrições antigas onde "cristandade" e "cristandades" são usadas. Portanto, não falo por mim:

Requiário de Braga, o primeiro a ser rei de um reino católico na Orbe Latina

- ( Cinco Livros da Década Doze da História da Índia. de Diogo do Couto. PARIS, 1645):

"No fim da onzena Década no capítulo do livro deixamos partida para a China a naus da viagem de Japão do de quem era capitão mor Nuno de Mendonça, onde foram embarcados o Bispo D. Luís de Sirqueira religioso da Companhia de Jesus. Foi eleito para a Índia para Bispo do Japão por morte do Bispo D. Pedro Martins, também da Companhia, lhe sucedeu no Bispado: Porque com aquela cristandade era ainda nova e muito tenra, arriscava-se muito se ficasse alguns anos sem Bispo. E por isso ElRei de Portugal, providenciou desta forma por ser de extremo zelo ao aumento da santíssima fé católica."

"Com estas coisas tornaram os padres da companhia a refolgar e tomar alento, para aquela grande cristandade ir por diante, e reedificarem-se templos e seminário: e tanto foi Deus nosso Senhor cumprindo os bons intentos deste obreiros do Evangelho, que os restantes reis lhe ofereceram lugares para igrejas, chamando-os cada um para si: porque folgavam de comunicar com homens de tanta virtude e exemplo."

"Estes e outros milagres obrou o santo por todas estas partes, e converteu grande número de idólatras à lei de Cristo. E suas escrituras afirmam que o santo se passara dali as terras do Mogor, e à província do Industão, onde reinava aquele Rei chamado Chefe-trigal que também está nomeado na pedra do milagre entre os que ele converteu. Também dizem que passou à China; e China grande onde fizera muita cristandade."

" E poucos anos depois da fundação da cidade de Coulão: deste fundamento, como já disse, contam os Malabares suas Eras: e nesta de 1611 em que escrevo isto, são de sua fundação a de 722 por ordem vai a nossa conta diante 889 anos, em que foram ter aquela cidade dois caldeus de Babilónia chamados Mar Xabio, e Mar Prod, Secazes da ceita nestoriana, que foram bem recebidos daqueles cristãos, e estimados daquele Rei por mostrarem muita santidade, que governaram aquela cristandade, não sei se com nome de Bispos, ainda que julgo que isto é o mais certo, e que repartiram todas aquela aquela cristandade em dois Bispados em que levantaram muitos templos."

"Com este homens cresceu esta cristandade tanto, e vieram a ter tanta posse, que levantaram entre si reis, porque quem foram muitos anos regidos e governados, sem se quebrar a direita sucessão, e veio aquele reino ao Rei de Diamper. Com ele passou ao de Cochim por perfilhação que tinha feito com aquele Rei como temos bem mostrado no nosso Epílogo das coisas da Índia."

"E tirando o Arcebispo D. Fr. Aleixo de Meneses inquirição deste Bispo, achou ser herege e culpado em gravíssimos erros. E por que estava já em idade tão decrépita, que não se levantava da cama. E sabendo que tinha mandado a Babilónia pedir sucessor, dissimulou com ele e mandou em Ormuz ter tantas inteligências, e nos portos da Índia para que não passasse aquela cristandade nenhum bispo da Babilónia, que vindo um a suceder ao Mar Abraão, parece que foi avisado deste negócio: pelo que houve por mais acertado conselho para que tornasse à Babilónia."


- (Terceira Década da Ásia. de João de Barros. LISBOA, 1543):

"Uma das coisas que ElRei D. Manuel muito encomendava aos governadores da Índia, era que mui particularmente soubessem o que tinha aquela cristandade do oriente da vida do Apóstolo S. Tomé, e se era verdade que o seu corpo jaz naquelas parte: e outro tanto mandou ElRei D. João seu filho depois que reinou. E porque atrás prometemos dar razão das coisas que esta cristandade tinha deste Apóstolo santo, padroeiro nosso naquelas partes da Índia, como S. Tiago e da cristandade de Espanha: aqui o queremos fazer: por D. Duarte de Menezes ser primeiro que nisso fez diligência que veremos. Posto que Nuno da Cunha o ano de 1533, sendo governador da Índia, por cumprir o mandado de ElRei: mandou tirar uma inquirição em Paleacate por Miguel Ferreira que lá estava por capitão. A qual ele tirou por uns apontamentos que lhe ElRei de cá mandou, em que já escrita a vida de S. Tomé, segundo a em a Igreja Romana: para ver se a cristandade daquelas partes tinha alguma conveniência com Ela.

"E que o Apóstolo S. Tomé embarcara na cidade Bafsora situada junto ao rio Eufrates: e navegara pelo mar Parseu, fora à ilha Socotorá onde pregára o Evangelho: e feitos muitos cristãos disso foi à Índia àquela cidade Meliapor, que naquele tempo era das mais notáveis da Índia. E feita ali muita cristandade embarcara para a China em navios de Chijs, e foi a uma cidade de nome Cambalia: onde convertera muita gente e fez templos para honrar a Cristo.


- (Chronica de ElRei D. Sebastião. de Fr. Bernardo da Cruz.):

"; e não se dando por seguro de Mulei-Maluco vir sobre ele, mandou pedir a ElRei D. Filipe de Castela para se recolher dentro na fortaleza: mas ElRei, vendo o perigo da pessoa de Xarife porto em campo, a risto de ser salteado do inimigo, posto que lhe desejasse dar remédio, não quis com segurança alheia aventurar a sua fortaleza, tão importante à cristandade;"

"Tal era a necessidade de atalhar os males esperados a Portugal e Castela, e ainda a toda a cristandade, da entrada dos turcos em África, e apossarem-se dos lugares marítimos, principalmente Larache, ponto capaz de muitas galés, que não houve príncipe cristão, nem pessoa que sentisse bem os inconvenientes,"

", e Portugal e Castela ficarem com os mesmos perigos, ou por ventura maiores, e do Maluco se esperava segurança na cristandade, e ódio contra os inimigos dela; pois por não cumprir com as obrigações do tributo, em que ficou com Amurate, como estava capitulado, de força se havia de tratar guerra entre eles, com que pela ventura, os turcos seriam molestados, sendo Malucos esperto capitão e experimentado nas mesmas armas, e em esta involta ElRei de Castela teria ocasião de fazer algum assalto em Argel, e tirar um cisinho, tão danoso e prejudicial e Espanha e Itália; e esta foi a causa de se não efectuar o prometimento das cinquenta galés, e cinco mil homem, que ElRei D. Sebastião, e mais por elas estarem em Itália fronteiras ao turco, a quem resistiam em guarda da cristandade e seria perda desamparar onde ficavam mais acomodadas para algum efeito de cometer Argerl, ou dar nas costas aos turcos, se se tratassem com Mulei-Maluco: o que tudo sua majestade fez com zelo da cristandade, como do particular temporal de Castela e Portugal."

":um padre da companhia com outros soldados o puseram numa carreta, onde lhe arremessaram muitas lanças e muitas arcabusadas, sem lhe acertarem, o qual Deus guardou por obra de tanta cristandade e lealdade, como tinha usado com ElRei."

"O Cardeal, que sempre zelou o bem comum de toda a cristandade, com aceso ardor de fé católica, e em particular o da república de Portugal, vendo e desconfiadas, com toda a brevidade se pôs ao caminho da cidade de Lisboa,"

", por causar danos temporais e espirituais das guerras, principalmente em tempo que o estado da cristandade estava tão quebrado com guerras e alterações."

", e os portugueses com pouco crédito, dando isto grandes ocasiões de disseções de guerras, não somente no Reino, mas boliria toda a cristandade, dando entrada a outros muitos males temporais e espirituais: as quais considerações fizeram tanta impressão no religioso peito de ElRei D. Henrique, que, rompendo o amor natural que tinha a seu sobrinho, que criou em sua casa, pondo os olhos na consciência e no bem comum, procurou com zelo de justiça atalhar todos os desenhos prejudiciais ao serviço de Deus e proveito do povo."


- (Cronica do Muyto Alto e Muito Poderoso Rey Destes Reynos de Portugal D. João o III deste nome. de Francisco de Andrada. 1613):

", e que os ídolos ao outro dia foram amanhecer com os paus em Coulão, onde fizeram a igreja num chão que o Rei lhe dera por amor de Deus, em que passaram a vida pregando, e fazendo muitos milagres, com que fizeram muita gente cristã, e nela morreram, e foram enterrados, e ainda agora na praia de Coulão se vê um penedo em que se diz que eles se iam por em oração e desta cristandade que estes santos homens semearam por aquela terra há ainda hoje nela alguns cristãos, que pelo longo decurso de tempo, e por falta de doutrina, tem já agora mais de gentilidade que de cristandade, e com tudo as gerações destes vivem apartado-as das outras gente."

"Este Embaixador doube representar tão bem ao Imperador perante os do seu conselho, quão importante coisa era lançar de Tunes àquele poderoso inimigo, onde se metera por engano para dali desinquietar e destruir, se pudesse, toda a cristandade, e deu para isso tantas e tão vivas razões, que o Imperador ponderando-as com largo discurso e consideração e achando-as com muito bom fundamento movido primeiramente do zelo da religião Cristã..."

", e determinou desentender-se com oito portugueses que tinha consigo, porque a gente da cidade, que já renunciara a cristandade que recebera, lhe não quis dar ajuda,"

"Daí a três dias chegou Obarnegais com embaixada do Preste, que o governador recebeu com muita honra, de que a substância era pedir-lhe o mesmo socorro que o patriarca lhe tinha pedido, declarando-lhe por extenso o miserável estado daquele império, já quase todo entregue em poder de mouros, o perigo daquela cristandade, a destruição dos templos, de que já nenhum estava em pé, a desinquietação dos religiosos, em que já não havia recolhimento, por lhes ser forçado andarem espalhados, e escondidos pelos desertos, com tanta afronta do nome Cristão, a que ele tinha obrigação de dar socorro,"

", assim por não se arriscar o crédito dos portugueses, que tanto importava conserva-se e aumentar-se, como principalmente pela esperança que se tinha que com exemplo da conversão e cristandade daquele Rei se convertessem também outros muito poucos daqueles cegos e bárbaros gentios, de que Deus e ElRei haviam de ser muito servidos."

(a continuar)

15/02/13

O NOSSO REI REQUIÁRIO (III)

REQUIÁRIO DE BRAGA
O PRIMEIRO REI CATÓLICO DO ORBE LATINO

Pelo Dr. Sérgio da Silva Pinto

(continuação da II parte)

3. Príncipe Católico

Balcónio, Bispo de Braga, Metropolita da Galécia,encontra-se no centro da Nação sueva. Já escrevemos que, apesar de todas as desgraças, continuara "heroicamente no seu posto. Herói no meio dos estragos dos pagãos e da anarquia dos hereges" (26). E demonstrámos que a sua ortodoxia era não só segura, mas conhecida e apreciada (27).

Por isso, junto dos Suevos, em particular entre os magnates e a família real, gradualmente subiria a sua influência. Que assim foi prova-o a "intervenção episcopal", de que fala Idácio, para a paz de 233, entre os Suevos de Braga e os Galaicos das civitates e castelos de leste, onde campeavam os partidários anti-suévicos e pró-romanos.

A Igreja bracarense, que defendia a pureza da fé contra os dissidentes, Priscilianistas e Originistas, cujos focos principais se achavam a norte e a sul - nos Conventos de Lugo e Astorga e nas dioceses da Lusitânia -, começa a inclinar-se para os Suevos. Não sendo cristãos, não eram heréticos. Podiam converter-se mais facilmente e tornarem-se elementos restauradores da cultura romana e da sociedade provincial em decadência. Povo relativamente são, ainda não contagiado pela corrupção e pelos sistemas heterodoxos, se devidamente orientado, talvezsalvasse a civilização romana.

Ora é neste ambiente de anceios renovadores, que o própximo futuro confirma; é neste meio nada selvícola, que decorre a infância e a mocidade do Príncipe Requiário.

Que o seu espírito não é o de um moço selvagem, deve inferir-se do próprio facto de se haver convertido ainda na idade juvenil, como se verá. Inferência legítima se, metódica e provisóriamente à Descartes,  [infelizmente, acaba aqui o que tenho do texto].

12/02/13

O NOSSO REI REQUIÁRIO (II)

REQUIÁRIO DE BRAGA
O PRIMEIRO REI CATÓLICO DO ORBE LATINO

Pelo Dr. Sérgio da Silva Pinto

(continuação da I parte)


2. Vida Externa e Interna do Reino dos Suevos

Depois dum biénio de assolações (409-411), descrito combriamente por Idácio, os Bárbaros repartiram, entre si, as províncias para nelas viverem em paz: os Suevos e os Vândalos Asdingos ocuparam a Galécia; os Alanos, a Lusitânia, talhada pelos Romanos a sul do Douro, e a Cartaginense; e os Vândalos Silingos, a Bética, actual Andaluzia (9).

Na Galécia, região nortenha da Lusitânia primitiva, pré-romana, pré-romana (10), os Suevos estabeleceram-se na parte ocidental e marítima, acantonados sobretudo no Convento bracarense; e os Vândalos Asdingos, na parte leste ou central, dependente de Lugo e Astorga (11).

Em 416-418, os Visigodos, aliados dos Romanos, vêm à Península combater, em nome do Império, os outros Bárbaros. Aniquilam os Silingos e os Alanos. Por seu lado, os Asdingos da Galécia passam à Bética, (419) e pouco depois, capitaneados por Geiserico, o Apóstata, saem para o Norte de África (12). Ficam os Suevos sós em campo, fortalecidos, decerto, pelos restos de Alanos e outros grupos.

O primeiro Rei do Estado suévico da Galécia, Hermerico, governa cerca de 30 anos (13), absorvido em lutas e negociações políticas, para a posse de todo o Ocidente - a Lusitânia, não a diminuída pelos Romanos com a desembração dos territórios galáicos, mas a espontânea sobre toda a orla atlântica. Desiderato alcançado por seu filho Réquila.

É no tempo de Hermerico que o historiador Idácio, Bispo de Chaves e romófilo intransigente (14), passa às Gálias para suplicar aos Romanos que socorram a Hispânia contra os Suevos (15). Entretanto o Rei suevo, "mediante intervenção episcopal", como informa Idácio, (16) concerta a paz com os Galaicos. O Bispo que estava, então, em melhores condições para essa intervenção era Balcónio de Braga,  - o único que mantinha relações directas com os Suevos. Os bispos da Galécia Central (Lugo, Astorga, Chaves) seguiam política pró-romana e anti-suévica; e as dioceses do Porto, Orense e Tui ainda não existiam. Por isso se deve concluir, como algures notámos, que Balcónio foi, nessa altura, o príncipal negociador da paz (17).

Pouco depois, Hermerico enviou aos Romanos o Bispo Sinfósio, que fracassou na sua embaixada (18). Ninguém sabe donde ele era. Reinhart chama-lhe erradamente Bispo de Braga (19). É possível, porém, que estivesse em Braga, deslocado da sua Sé, ou mandado pelos Romanos. Uma coisa é certa: nem ele, nem Idácio, entraram no ajuste de paz entre Suevos e Galaicos. Idácio não podia ser pessoa grata ao Rei suevo, e não se conta a si próprio na referida intervenção episcopal; não fala também em Sinfósio, quando duas linhas adiante o menciona a propósito da sua incumbência junto da Corte dos Romanos. Reforça-se, assim, como é óbvio, a atribuição das negociações a Balcónio.

A Monarquia sueva não era electiva, como brilhantemente o demonstrou Francisco José Velozo,um dos mais seguros historiadores contemporâneos da Alta Idade Média pré-portuguesa (20). "Estava longe de ser um estado bárbaro e caótico, mesmo nos momentos de crise" (21). E, consequentemente, os seus Reis não eram selvagens. Braga, opulentada de monumentos e instituições romanas, tornara-se capital da Nação sueva, como já o provámos (22). Os Reis tinham nela a sua corte, o seu palatium e, o que é mais, o seu thesaurus. Nesta cidade, passados os primeiros anos de violências, os Reis suevos procuram viver em paz com os Galaicos-Romanos: episcopado, aristocracia e povo. "Fazem-se amigos dos Romanos" (leia-se Galaico-Romanos), atesta Orósio. "Trocam a espada pelo arado" e, embora se constituam proprietários de terras, inicialmente na região bracarense, mercê de partilhas ou expropriações impostas aos possessores romanos, estes acham-se agora com maior liberdade do que antes (23).

Em Braga, os Suevos respeitam, quanto podem, a organização romana. Entretanto, pouco a pouco, o Estado suevo integra classes e instituições não suevas. Os nobres das duas raças - magnates suevos e aristocratas romanos, a que está adito o alto clero - cedo se dão as mãos e se entrelaçam na capital do Reino; são, indistintamente, os Principais; e o Rei, o Principal dos Principais, segundo nos elucida Velozo (24).

Os Romanos de Braga tornam-se, assim, os naturais intermediários entre os Suevos e o "Povo" da restante Galécia, ainda não submetida.

Como se vê nada de barbárie ou selvagismo.

Ora, por estas alturas (433 - paz concentrada entre Suevos e Galaicos), o Príncipe Requiário, aclamado Rei em 448, já era de certeza nascido, embora, embora fosse menino. Seu pai é o Princípio Réquila, filho de Hermerico (25).

(continuação, aqui)

08/02/13

O NOSSO REI REQUIÁRIO (I)

REQUIÁRIO DE BRAGA
O PRIMEIRO REI CATÓLICO DO ORBE LATINO

Pelo Dr. Sérgio da Silva Pinto



Requiário, o primeiro cristão a cunhar moeda
1. Uma Biografia em Causa

Em outros estudos ou artigos (1), mostraremos que, nos princípios do séc. V, ao entrarem os Bárbaros na Península, o Bispo de nome Balcónio, que então existia em Braga, capital romana da Galécia, era já Metro polita de toda a Província - do Douro ao Cantábrico -, vulto proeminente de ortodoxia, entre as heresias desenfreadas; e que durante a prelazia do mesmo, e na própria sede episcopal, sob a sua direcção, os Suevos, com o Príncipe Requiário à frente, se converteram ao Catolicismo.

Assim este Povo germânico, que primitivamente se havia localizado na região de Entre-Douro-e-Minho, e depois ocupado toda a Galécia e todo o Ocidente, juntando-se aos Lusos-Galaicos, constituiu o primeiro Reino católico do Orbe latino.

Porque seria que esta verdade histórica tão notável, que se extrai de elementos heurísticos absolutamente positivos, se não exarou em termos claros nas mais antigas crónicas? O carácter sucinto e esquemático destes escritos não explica, só por si, a omissão. Menendez y Pelayo dá-nos, sem dúvida, a melhor resposta: "a Monarquia sueva foi quase olvidada por nossos historiadores, antentos só ao esplendor da visigoda" (2). Esta é, por certo,a principal causa de se ter esfumado na História tão extraordinário acontecimento.

Nem Idácio, nem Santo Isidoro o referem, directamente: dizem só que Requiário já era católico no momento em que sucedeu ao pai (3), e mencionam, com indignação, a queda subsequente dos Suevos na heresia ariana, durante o reinado de Remismundo (4).

Ora isto - a aversão dos piedosos cronistas pela queda transitória dos Suevos na apostasia, - também nos explica porque se apagaram nas brumas do tempo os nomes de Balcónio e Rquiário.

A falta de fontes de origem suévica, ou pelo menos sem tendências contrárias (5), fazem dos Suevos "um povo desconhecido e sacrificado", como bem diz Mgr. Augusto Ferreira (6). Além disso, o preconceito goticista da historiografia espanhola ainda nos leva geralmente a reboque.

Requiário, sem embargo de ter sido o primeiro Príncipe bárbaro a aceitar o Catolicismo, e a perseverar nele, e a fazer da sua nação o primeiro Reino católico do Mundo romano, é ignorado, senão maltratado, na literatura histórica da Península, decerto por não ser visigodo; e, na Europa, talvez por não ser franco.

No entanto, o Estado católico dos Suevos, no Ocidente peninsular, criado por Requiário, assinala, no perfeito comentário do Dr. Francisco José Velozo "o verdadeiro começo da Idade Média... Prenuncia o batismo de Clóvis e dos Francos... marca o início da Era católica romano-germânica da Europa" (7).

Impõe-se, assim, rever sériamente a figura histórica de Requiário. Teria sido um bárbaro na acepção vulgar do termo: selvagem, imoderado, deleal aos pactos, como soem pintá-o; ou antes um Principe já embuído da civilização romana e da mensagem do Cristianismo?

Mas previamente esclareça-se um equívoco.

Marcelo Macias chega a contestar a prioridade da conversão de Requiário: "antes dele, abraçou a fé católica o vândalo Geiserico" (8). Há porém que distinguir. Geiserico (se é exacto ter sido alguma vez católico) apostatou, mal começou a reinar; não perseverou na fé, nem encaminhou para ela a sua nação; antes foi perseguidor feroz e sanguinário do Catolicismo. Se algum dia se converteu, foi uma conversão individual e frustrada. Será, proventura, justo assemelhá-lo a Rquiário?

Consideremos, sem mais delongas, e dentro do seu quadro histórico, com a maior objectividade, a biografia deste Rei suevo.

(continuação, aqui)

20/03/11

REI REQUIÁRIO (I)


Estátua de Requiário,
mandada colocar pelos monarcas castelhanos frente
ao palácio real (Madrid)

Em brevíssimas palavras, mas que pelo menos fiquem alguns alarmados, Requiário, Rei suevos, é o primeiro a converter-se ao cristianismo juntamente com o seu povo. Assim, o povo portucalense é o primeiro a converter-se com o seu Rei 50 anos antes de Clóvis Rei dos francos.

Requiário é o primeiro Rei da Europa a cunhar
moeda com o seu nome.
Mais informações serão dadas em breve...

TEXTOS ANTERIORES