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07/03/15

SERMÃO SOBRE O ESPÍRITO DA SEITA DOMINANTE NO Séc. XIX (VI)

(continuação da V parte)

Padre José Agostinho de Macedo, o odiado dos liberais
Antes que adiante o meu discurso, e chegue com ele a pintar-vos os terríveis efeitos deste espírito de partido, não só pelo que pertence à Religião, mas pelo que pertencem à sociedade, deixai que eu vos diga que a maledicência assim como é a arma mais fácil, assim também é a mais comum do espírito de partido. Nem todos têm astúcia, nem todos têm cabedais, nem todos têm amizades poderosas com que façam guerra ao bem público, e sustentem uma opinião, ou persigam a mesma Pátria, que lhes deu o preço; mas todos têm uma língua com que rebatam um mérito, com que obscureçam um nome; e os mais imperitos a costumam ter sempre mais atrevida que os outros, e sem se ocuparem em discursos sobre coisas particulares, que pedem entendimento, e perícia, dirão uma louca malignidade. E tão poucas tenho eu ouvido? Dirão, para irem por diante com o partido, a rebatida fase do concelho dos fatuos nos doirados domicílios da crápula, que nós devemos sucumbir, porque o monstro recruta em toda a Europa, isto que é um perfeitísssimo delírio é o sinal menos equívoco do espírito de partido. Do Redentor do Mundo disseram estolidamente seus inimigos em Jerusalém: Nunquid potest aliquid a Nazareth boni esse? Eis aqui uma maneira bem compendiosa de confutar a santidade, a doutrina, e os milagres do Messias, dizer, que de Nazareth, donde ela era, não podia vir coisa boa. Pois os habitantes de Nazareth não são homens? Não têm entendimento? Não professam também a mesma lei santa, que os de Jerusalém professavam? Isto é verdade, mas de Nazareth não pode vir nem bom zêlo nem boa doutrina, nem causa que boa seja. Dissessem ao menos que um Nazareno, ou dois Nazarenos tinham podido errar como errariam outros tantos, e mais em Jerusalém. Mas dizer que todos! Constituir a todos na absoluta impossibilidade de obrar bem, de pensar bem, de falar bem! Isto que parece um portento de cegueira, e de inveja, tem sido sempre conhecido por um efeito naturalíssimo do espírito de partido. Mas qual é a intenção, ou o fim desta maneira de falar? O seu fim nem é, nem pode ser outro mais que denegrir, e abater a fama alheia, e fazer triunfar a obra da iniquidade. Uns murmuram no Mundo por dicacidade, outros por passatempo para que a conversão não seja muda, nem insípida a companhia; mas nenhum deste motivos obriga a falar, e discorrer esses inimigos do público sossêgo, esses fatais anarquistas, esses voluntários do Tirano, não querem mais que a propagação, e a dilatação do sistema destruidor, que para ser aborrecido basta unicamente ser conhecido, e contemplado. Se vós quiserdes, sem paixão, lançar um instante os olhos sobre seus efeitos, então vós podereis formar uma adequada ideia de sua infernal enormidade.

Considerai a Europa no estado, na situação, na época em que a quiserdes considerar, vós não descobrireis nela um quadro tão horroroso como agora se vos apresenta. Considerai-a naquela já de nós remota, e apartada época, em que se começou a estender, e engrossar o espantoso Império Romano, vós vereis a Germânia quasi vencida, as Gálias avassaladas, a Hespanha depois de pertinacíssimos combates de duzentos anos submetida ao jugo; passai com a imaginação o Adriático, vede o Epiro subjugado, a Grécia dividida, a Macedónia, a Tracia agrilhoadas, a Síria, e seus vastos Reinos assoberbados pelas Águias, tiranizados por orgulhosos Procônsules. Vede Cresso acometendo a Arménia, vede-o infeliz, mas destruidor entre os Partos. Vede Pompeu levando no coração a República, e a conquista, encadeando uma a uma as Ilhas do Mediterrãneo, arvorando as Águias até à vertentes, desfechando raios na aterrada Mesopotânia, e deixando por toda a parte cadeias, e pavor. Retrocedei um pouco com a imaginação, e vede na Mauritânia Tingitana os dois Cispiões, e após eles o ferocíssimo Mário conservando na condição plebeia o coração de César, e a magnanimidade de Alexandre, não deixando uma pedra sobre outra pedra nos levantados muros de Cartago. Vede antes dele a mesma Itália assolada pelas bárbaras Legiões Cartaginesas, comprando os Romanos uma só victória pela ruína de tantas Cidades, pelos lutos de tantas famílias, pela morte de seus ilustres Cônsules.... basta. Considerais a mesma Europa debaixo da dominação Romana no quarto, e quinto século da era Cristã, já dividido o vacilante Império, e oprimido da sua mesma grandeza, e com suas intestinas discórdias, abrindo as portas à aluvião dos Bárbaros, que do norte, e do levante da mesma Europa rebentaram como vulcões, e correram a vingar as não esquecidas, posto que antigas injúrias, que á sua natural liberdade tinha feito a soberba Romana. Vede aqueles densíssimos exames de Gépidas, de Seítas, de Unos, de Hérulos, de Vândalos, de Godos, derramando-se como impetuosas torrente das montanhas da Escandinávia, por onde quer que vem ponto os pés, não deixarem outros vestígios mais do que estragos, e cinzas. Já despedaçam o Império usurpador, e de cada pedaço formam um Reino, querendo a reguladora Província, que onde tinham chegado com o voo as Romanas Águias, aí chegassem também os vingadores dos ultrajes, e afrontas, que os conquistadores do Tibre tinham feito à Natureza, e à sociedade humana. Penetra, e transpõe os mares Genserico, e naquela mesma África, onde tantos troféus tinha levantado a vaidade Romana, levanta sobre suas ruínas um novo, e mais bárbaro Império. Considerai a mesma Europa no começo do oitavo século, e vede a mais espantosa vicissitude nos acontecimentos humanos. Já se haviam amaciado os costumes dos bárbaros; Teodorico, e Amalasunta fizeram leis, que ainda admiramos, e o celeste podre do Cristianismo desarmou a fúria Gótica, e viviam as Nações tranquilas: eis das montanhas, e dos areais da Arábia com a nova seita então levantada correm legiões de novos conquistadores, alaga-se de sangue a terra, e os mais florescentes Impérios da Europa gemeram pisados, e destruídos pela ferocidade dos Sarracenos. Eis os homens sujeitos a novas leis, e a novos dominadores, e passam os séculos sem mudarem de grilhões, e a terra não oferece outro espetáculo mais que o da miséria, e da escravidão. Pois nós podemos chamar a tantas catástrofes os séculos da felicidade, quando as compararmos com o quadro das calamidades, que nos oferece a Europa infelicíssima há vinte anos. Os estragos, que ela sofre, não parecem ser obra das mãos dos homens, mas dos Demónios. Vede a que se reduziu a majestade, grandeza, e constituição do Império Germãnico. Vede como está o poder guerreiro da guerreira Prússia; a independência da Polónia; a majestosa soberania da Holanda; a divisão tranquila, e equilibrada da Itália; o poder pacífico de Roma; a representação de Nápoles, a política, e diutura existente de Veneza, a confederação fraternal da Suíça, a liberdade do Piemonte, o majestoso, e venerável colosso da Monarquia Espanhola, a conservação triunfante de Portugal; vede tudo, e dizei-me, se pode outra, ou mais medonha, e espantosa a imagem, e representação do caos. Horrorizam-vos tantas cabeças decepadas, tanto sangue vertido, tantas lágrimas derramadas, tantos lutos consoantes, tantas prescrições sanguinários, tantos cativeiros injustíssimos, pasmais de ver a natureza ofendida, a liberdade encadeada, a Religião perseguida, os homens transformados em feras indómitas, e carniceiros Abutres? Pasmais de ver cadeias mais grossas, grilhões mais pesados, escravidão mais insuportável do que a que vira, e sentira a mesma Europa nos séculos mais bárbaros? Assombra-vos ver que homens, que se diziam fiéis, e Cristianíssimos, excedam no orgulho os Romanos, na ferocidade os Seítas, nas destruições os Vândalos, na desumanidade os Unos, na brutalidade sensual os Hérulos, no fanatismo revolucionários os Sarracenos, na conducta, nas blasfémias, nas profanações, nos desacatos, nos insultos feitos aos mortos, e às mesmas sombras dos sepulcros os Demónios? Pasmais de ver Canibais na Europa mais sedentos de sangue, mais vagabundos, mais carnívoros, mais incultos? Admirais-vos ver uma Nova Nação de Caraibas, sem pátria, sem lares, sem relações naturais, e humanas? Transportais-vos de horror vendo não nas bordas do Amazonas, mas nas margens do Tejo uma horda de Topinambás estúpidos, brutos, insensíveis, sem ideias da moralidade, cometendo assassinatos sem remorsos, roubos sem turvação, incêndios sem emoção. Tudo isto existe, tudo isto nós vimos, e sentimos já três vezes. E se vos não horrorisais muito, e quereis ver tudo isto junto em um só quadro, eu vo-lo mostro. Vêde, e observais bem de perto um apaixonado dos Franceses; seria honrá-lo muito dizer que é um Antropófago; se Satanás se torna visível, eu não sem quem seja mais o seu retrato... Perdoai-me mais que não cabe em mim a dor de ver o abismo em que iam lançando a nossa Pátria, o nosso Rei, a nossa Religião... Perdoai-me, e pois já me cansaram, ou se me secaram os olhos de chorar, tenha o meu abafado coração um desafogo pela língua. Eu detestarei, eu ensinarei todos os séculos a detestar estes malvados. Há quatro anos não derramei ainda uma só lágrima, que suas ímpias mãos as não espremessem de meus olhos. E se estes espantosos efeitos vos assustam, fugi, Povos, fugi, fugi da sua causa, que é, e somente é o Espírito de Partido.

DISSE.

04/04/14

SERMÃO SOBRE O ESPÍRITO DA SEITA DOMINANTE NO Séc. XIX (VII)

(continuação da VI parte)

Jesus de Nazaré
Antes que adiante o meu discurso, e chegue com ele a pintar-vos os terríveis efeitos deste espírito de partido, não só pelo que pertence à Religião, mas pelo que pertence à sociedade, deixai que eu vos diga que a maledicência assim como é a arma mais fácil, assim também é a mais comum do espírito de partido. Nem todos têm astúcia, nem todos têm cabedais, nem todos têm amizades poderosas com que façam guerra ao bem público, e sustentem uma opinião, ou persigam a mesma Pátria, que lhe deu o berço; mas todos têm uma língua com que rebatam um mérito, com que obscureçam um nome; e os mais imperitos a costumam ter sempre mais atrevida que os outros, e sem se ocuparem em discursos sobre coisas particulares, que pedem entendimento, e perícia, dirão uma louca malignidade, E tão poucas tenho eu ouvido? Dirão, para irem por diante com o partido, a rebatida frase do concelho dos fátuos nos doirados domicílios da crápula, que nós devemos sucumbir, porque o monstro recruta em toda a Europa, isto que é um perfeitíssimo delírio é o sinal menos equívoco do espírito de partido. Do Redentor do Mundo disseram estolidamente seus inimigos em Jerusalém: Nunquid potest aliquid a Nazareth boni esse? Eis aqui uma maneira bem compendiosa de confutar a santidade, a doutrina, e os milagres do Messias, dizer, que de Nazaré, donde ele era, não podia vir coisa boa. Pois os habitantes de Nazaré não são homens? Não têm entendimento? Não professam também a mesma lei santa, que os de Jerusalém professavam? Isso é verdade, mas de Nazaré não pode vir nem com zelo, nem boa doutrina, nem coisa que voa seja. Dissessem ao menos que um Nazareno, ou dois Nazarenos tinham podido errar como errariam outros tantos, e mais em Jerusalém. Mas dizem que todos! Constituir a todos na absoluta impossibilidade de obrar bem, de pensar bem, de falar bem! Isto que parece um portento de cegueira, e de inveja, tem sido sempre conhecido por um efeito naturalíssimo do espírito de partido. Mas qual é a intenção, ou o fim desta maneira de falar? O seu fim nem é, nem pode ser outro mais que denegrir, e abater a fama alheia, e fazer triunfar a obra da iniquidade. Uns murmuram no Mundo por dicacidade, outros por passatempo para que a conversação não seja muda, nem insípida a companhia; mas nenhum destes motivos obriga a falar, e discorrer esses inimigos do público sossego, esses fatais anarquistas, esses voluntários gratuitos, ou escravos emissários do Tirano, não querem mais que a propagação, e a dilatação do sistema destruidor, que para ser aborrecido basta unicamente ser conhecido, e contemplado. Se vós quiserdes, sem paixão, lançar um instante os olhos sobre seus efeitos, então vós podereis formar uma adequada ideia de sua infernal enormidade.

Considerais a Europa no estado, na situação, na época em que a quiserdes considerar, vós não descobrireis nela um quadro tão honroso como agora se vos apresenta. Considerai-a naquela já de nós remota, e apartada época, em que se começou a estender, e engrossar o espantoso Império Romano, vós vereis a Germânia quase vencida, as Gálias avassaladas, a Espanha depois de pertinacíssimos combates de duzentos anos submetida ao jugo; passai com a imaginação o Adriático, vede o Epiro subjugado, a Grécia dividida, a Macedónia, a Trácia agrilhoadas, a Síria, e seus vastos Reinos assoberbados pelas Águias, tiranizados por orgulhosos Proconsules. Vede Crasso acometendo a Arménia, vede-o infeliz, mas destruidor entre os Partos. Vede Pompeu levando no coração a República, e a conquista, encadeando uma a uma as Ilhas do Mediterrâneo, arvorando as Águias até às vertentes do Nilo; assustando o Eufrates, desfechando raios na aterrada Mesopotânia, penetrando triunfante pela Palestina, e deixando por toda a parte cadeias, e pavor. Retrocedei um pouco com a imaginação, e vede na Mauritânia Tingitana os dois Cipiões, e após eles o ferocíssimo Mário conservando na condição plebeia o coração de César, e a magnanimidade de Alexandre, não deixando uma pedra sobre outra pedra nos levantados muros de Cartago. Vede antes dele a mesma Itália assolada pelas bárbaras Legiões Cartaginezas, comprando os Romanos uma só victoria pela ruína de tantas Cidades, pelos lutos de tantas famílias, pela morte de seus ilustres Cônsules.... basta. Considerai a mesma Europa debaixo da dominação Romana no quarto, e quinto século da era Cristã, já dividido o vacilante Império, e oprimido da sua mesma grandeza, e com suas intestinas discórdias, abrindo as portas à aluvião dos Bárbaros, que do norte, e do levante da mesma Europa rebentaram como vulcões, e correram a vingar as não esquecidas, posto que antigas injúrias, que à sua natural liberdade tinha feito a soberba Romana. Vede aqueles densíssimos enxames de Gépisdas, de Ditas, de Hunos, de Hérulos, de Vândalos, de Godos, derramando-se como impetuosas torrentes das montanhas da Escandinávia, por onde quer que vem pondo os pés, não deixarem outros vestígios mais do que estragos, e cinzas. Já despedaçam o Império usurpador, e de cada pedaço formam um Reino, querendo a reguladora Providência, que onde tinham chegado com o voo as Romanas Águas, aí chegassem também os vingadores dos ultrajes, e afrontas, que os conquistadores do Tibre tinham feito à Natureza, e à sociedade humana. Penetra, e transpõe os mares Genserico, e naquela mesma África, onde tantos troféus tinha levantado a vaidade Romana, levanta sobre suas ruínas um novo, e mais bárbaro Império. Considerai a mesma Europa no começo do oitavo século, e vede a mais espantosa vicissitude nos acontecimentos humanos. Já se haviam amaciado os costumes dos bárbaros; Teodorico, e Amalasunta fizeram leis, que ainda admiramos, e o celeste poder do Cristianismo desarmou a fúria Gótica, e viviam as Nações tranquilas: eis das montanhas, e dos areais da Arábia com a nova seita então levantada correm legiões de novos conquistadores, alaga-se de sangue a terra, e os mais florescentes Impérios da Europa gemeram pisados, e destruídos pela ferocidade dos Sarracenos. Eis os homens sujeitos a novas leis, e a novos dominadores, e passam os séculos sem mudarem de grilhões, e a terra não oferece outro espetáculo mais que o da miséria, e da escravidão. Pois nós podemos chamar a tantas catástrofes os séculos da felicidade, quando as compararmos com o quadro das calamidades, que nos oferece a Europa infelicíssima há vinte anos. Os estragos, que ela sofre, não parecem ser obra das mãos dos homens, mas dos Demónios. Vede a que se reduziu a majestade, grandeza, e constituição do Império Germânico. Vede como está o poder guerreiro da guerreira Prússia; a independência da Polónias; a majestosa soberania da Holanda; a divisão tranquila, e equilibrada da Itália; o poder pacífico de Roma; a representação de Nápoles, a política, e diuturna existência de Veneza, a confederação fraternal da Suíça, a liberdade do Piemoute, o majestoso, e venerável colosso da Monarquia Espanhola, a conservação triunfante de Portugal; vede tudo, e dizei-me, se pode outra, ou mais medonha, e espantosa a imagem, e representação do caos. Horrorizam-vos tanto cabeças decepadas, tanto sangue vertido, tantas lágrimas derramadas, tantos lutos constantes, tantas proscrições sanguinárias, tantos cativeiros injustíssimos, pasmais de ver a Natureza ofendida, a liberdade encadeada, a Religião perseguida, os homens transformados em feras indómitas, e carniceiros Abutres? Pasmais de ver cadeias mais grossas, grilhões mais pesados, escravidão mais insuportável do que a que vira, e sentira a mesma Europa nos séculos mais bárbaros? Assombrar-vos ver que homens que se diziam fieis, e Cristianíssimos, excedam no orgulho dos Romanos, na ferocidade das Seitas, nas destruições os Vândalos, na desumanidade os Unos, na brutalidade sensual os Herulos, no fanatismo revolucionário os Sarracenos, na conducta, nas blasfémias, nas profanações, nos desacatos, nos insultos feitos aos mortos, e às mesmas sombras dos sepulcros os Demónios? Pasmais de ver Canibais na Europa mais sedentos de sangue, mais vagabundos, mais carnívoros, mais incultos? Admira-vos ver uma nova Nação de Caraíbas, sem pátria, sem lares, sem relações naturais, e humanas? Transportais-vos de horror vendo não nas bordas do Amazonas, mas nas margens do Tejo uma horda de Tupinambás estúpidos, brutos, insensíveis, sem ideias da moralidade, cometendo assassinos sem remorsos, roubos sem turvação, incêndios sem emoção. Tudo isto existe, tudo isto nós vimos, e sentimos já três vezes. E se vos não horrorizais muito, e quereis ver tudo isto junto num só quadro, eu vo-lo mostro. Vede, e observai bem de perto um apaixonado dos Franceses; seria honrá-lo muito dizer que é um Antropófago; se Satanás se torna visível, eu não sei quem seja mais o seu retrato... Perdoai-me que não cabe em mim a dor de ver o abismo em que iam lançando a nossa Pátria, o nosso Rei, a nossa Religião... Perdoai-me, e pois já me cansaram, ou se me sacaram os olhos de chorar, tenha o meu abafado coração um desafogo pela língua. Eu detestarei, eu ensinarei todos os séculos a detestar estes malvados. Há quatro anos não derramei ainda uma só lágrima, que suas ímpias mãos as não espremessem de meus olhos. E se estes espantosos efeitos vos assustam, fugi, Povos, fugi da sua causa, que é, e somente é o Espírito de Partido.

Disse."

(Sermão Sobre o Espírito de Seita Dominante no Século XIX. D. O. C. Ao Clero Português. Pe. José Agostinho de Macedo, Lisboa 1811)

28/03/14

SERMÃO SOBRE O ESPÍRITO DA SEITA DOMINANTE NO Séc. XIX (V)

(continuação da IV parte)

Esta causa que seguis, que em tudo vos impasse; que tanto vos atribula, e vos consome, que tanto baralha vossos pensamentos, que vos faz cometer tantos pecados de ódio, de maledicência, de contumélias, de temerários juízos, e de culpáveis complacências; esta causa, digo, não é vossa, nem vos toca por maneira alguma, mas e causa de um estrangeiro, de uma Nação, de um Príncipe, que não e o vosso, e que o não será jamais. E se eu vos disser ainda mais: Esta causa, porque tantos se decidem, e por quem têm tomado partido; é a causa de iniquidade, da perfídia, da opressão, do roubo, da violência, da irreligião, da ruína total de todos os Povos, de todas as leis, de todas as constituições, que os homens se haviam há tantos séculos formado, e à sombra das quais viviam tranquilos, e descansados? Para que vos martirizais, e consumis tanto? Para que vos privais voluntariamente de tantos cómodos? Para que vos expondes com ela, e por ela a tantas desgraças, não sem cano, e dano muitas vezes gravíssimo, e irreparável da vossa mesma Pátria que aborreceis como ingratos, e a quem perseguis como ferozes monstros? Mas inúteis são, e serão sempre meus brados, se eles forem dar nos ouvidos de alguns, que existirem tomados, e possuídos de tão cega, e abominável paixão. Vão sempre de abismo em abismo, nenhuma razão os convence, nenhuma experiência os desengana, nenhuma desgraça os contem, nenhuma infâmia os envergonha. Mostrai-lhes a Capital em sustos, mostrai-lhes as ruas, e as praças atulhadas de miseráveis desterrados, e fugitivos com os pés descalços, os vestidos imundos, os rostos macilentos, os olhos afogados, e quase extintos de pranto; fazei-lhes escutar os ais, que rompem de seus corações partidos com que pedem um pão, que lhe prolongue a imperfeita morte que consigo arrastaram, que já não e vida, e existência; mostrai-lhe tantas mães, ambulantes estátuas de desventura, apertando nos descarnados braços os filhos, ou cadáveres, que buscam lânguidos os defecados peitos, donde tiram não o leite, mas as últimas gotas de já nem tépido sangue; abri-lhes aquela porta da pobre casa, onde a meus olhos se ofereceu, e patenteou o mais terrível, doloroso, e sensibilíssimo espetáculo, que os séculos têm visto sobre esta grande cena de horror, e desventuras, que se chama Mundo; uma, e mais desgraçada mãe, mas já cadáver frio, com a gelada cabeça ainda encostada na descarnada mão, com os olhos mal fechados, os pés descalços, e estendidos, e um triste menino envolto em miseráveis panos, pegado ao frio peito lívido, e horroroso como a sepultura, mal sustendo nos trémulos beiços o último arranco, e procurando por um instinto natural conservar a vida sobre um despojo da morte. Levai-os aos mais levantados montes desta mesma Capital, e mostrai-lhes os arraiais dos bárbaros, e como indignada a terra debaixo de seus pés infecunda, e abrasada; mostrai-lhes os grossos turbilhões de fumo rasgados pelas labaredas da sacrílega conflagração de tantos Povos, de tantos Templos, de tantos Mosteiros, de tantos monumentos que o valor, e a Religião tinham levantado, e os séculos tinham respeitado; mostrai-lhes tantos campos talados, e ermos, onde nem túmulo encontram os que deles tiravam, e arrancavam com suor o sustento da vida: mostrai-lhes tantas donzelas violadas aos olhos de seus mesmos pais, tantas matronas profanadas na presença de seus mesmos esposos: mostrai-lhes os ardentes vestígios da lava, que seu seio vem vomitando o vulcão vandálico por onde quer que passa; mostrai-lhes... eu direi tudo, mostrai-lhes um só Francês, mostrai-lhes o inferno, e ouvir-lhe-eis dizer tranquilos, e barbaramente estúpidos, que tudo é preciso para se ultimar a paz marítima; que o bem de causa continental traz consigo estes ligeiros males, bem como a ordem, e formosura da Natureza traz consigo a oscilação da terra, e o pavoroso aparato da tempestade, e do raio; que se os homens conhecessem os seus verdadeiros interesses, que é aceder à causa continental para vir o futuro brilhante, e se começarem os canais a abrir, e os Poetas a ressucsitar, até haviam de apetecer, que esta conflagração, que reduziu a cinzas duas estéreis, e insignificantes Províncias, se estendesse a todas as manufacturas Britânicas... Oh Céus! E porque não direi que estas blasfémias contra a razão, e contra a Natureza talvez saíssem de algum daqueles asilos da piedade, que a mão de nosso primeiro Monarca levantara, e tão liberalmente enriquecera! Monstros vomitados pelo Inferno, desonra da espécie humana, e eterno opróbio do nosso perseguido Império! Corramos um véu espessíssisimo, e sombrio sobre estes horrores.

É pouco ver, como temos visto, tantos indivíduos tocados deste mal, levando-o consigo por onde quer que dirigem os passos para indicionarem, e corromperem os outros. Eu sei de algumas casas, e o tenho escutado de outras, que seriam por caridade fraternal, e por união de vontades uma viva imagem do Paraíso, se nela não houvesse penetrado o espírito de partido. Todos os ânimos ai existiam algum dia concordes; não se escutava a expressão do ódio, e da amargura; o discreto império, e a devida dependência conservavam no seu seio uma tranquilíssima paz. Mas a desgraça, ou mais depressa o Demónio, quis que um, ou dois daquela família se deixassem embair, ou arrastar do funesto partido dominante no Mundo, repentinamente fugiu a paz daqueles ditosos lares; o ódio, a alteração, a contumélia transformaram aquela casa num campo de batalha, ou numa fornalha sempre ardente de desordens, e dissabores, e talvez que não só para a geração presente, mas também para a geração futura.É possível que num Mundo, onde já são tantas as causas, e tão poderosos os motivos dos dissabores, e onde as paixões humanas, e os verdadeiros vícios dos homens semeiam tantas discórdias, e põe tantos obstáculos à caridade fraternal, queiram os homens acinte com este espírito de partido, chamar sobre si novos desgostos, novas inquietações, novos pecados, fazendo nossos os negócios alheios, nossas as causas da iniquidade, e da perturbação publica, e particular dos outros Povos, e Nações estranhas?

Ainda chega a mais sua demência, e frenesim: querem fazer próprias as ofensas alheias. Dilatam o excesso, e a loucura de ter, e de tratar como ofensores, e como inimigos aqueles, que ou são doutro partido, ou não são daqueles, que eles seguem. A este cúmulo de mal se chega em Lisboa, como se chegou em Jerusalém depois que se formou a liga, e o partido contra o Redentor do Mundo. Que razão havia para tratar como excomungado o mancebo cego de nascimento, e lançá-lo fora de Sinagoga? Nenhuma outra razão mais do que haverem sido restituído por Jesus Cristo como um milagre à luz do dia, de que nunca gozará: Et ejecerunt eum foras. E que razão havia para fulminar a mesma pena contra seus progenitores? Não havia outra mais que haverem estes cedido à evidência, e terem testificado por gratidão aquele milagre. Conspiraverant Judei, ut siquis eum consiteretur esse Christum extra Synagogam fierit. E que razão têm tantos, e tantos de separar-se, não sem escândalo, do ânimo, e da pessoa de um íntimo parente, de um honrado Concidadão, a quem são unidos com os laços de sangue, e a quem devem ser mais estreitamente unidos com as prisões da Caridade Cristã? Não há outra razão senão ser aquele um parente, um amigo, uma família, que não sentem como eles sentem, nem seguem aferradamente o partido que eles seguem. Ora eu não creio que alguém de vós me queira perguntar se as expostas hostilidades serão escandalosas fraudes, se tantas obras, e tantas palavras de quem é pai o espírito de partido, sejam pecados? Se esta pergunta fosse feita a algum engelho mais agudo, alguém entendimento mais ilustrado do que o meu,mas dominado desta paixão, e contaminado desta peste, eu fico que lhe diria que não eram pecados. Eis aqui outra não menos deplorável cegueira, que esta paixão derrama nos entendimentos, que chega a sufocar, e aniquilar neles os últimos vestígios da razão, e da justiça.

(continuação, VI parte)

25/03/14

SERMÃO SOBRE O ESPÍRITO DA SEITA DOMINANTE NO Séc. XIX (IV)

(continuação da III parte)

Eis aqui porque eu vos peço, que se vos é amável a verdade, que a todas as vistas vos deve ser amabilíssima, se é para vós apreciável o dote singularíssimo da razão que Deus vos há dado, eu vos peço, que vos não alisteis jamais, nem militeis debaixo das revoltosas bandeiras de qualquer partido; vede que se endurecerá de modo tal o vosso coração, que chegareis a ser dominados, e pisados como vis escravos. Vigiai sempre, e não vos deixeis levar senão da equidade; abri os olhos à verdadeira luz, segui sempre seu fulgor, e seus impulsos, por mais que contra vós se arme, e queira guerrear o empenho, a antipatia, ou a amizade, que em nenhum coração deve ter tanta força, e predomínio que o faça inimigo da verdade, ou menos parcial da justiça. Conheço perfeitamente, e até por experiência, que existem entre nós muitos, que querem escusar em si o espírito de partido com as leis da amizade; mais inútil, e indignamente o querem, porque as leis de uma verdadeira amizade são inimigas juradas de suas acções irracionais, e de seus cegos transportes. Onde, senão entre gente bárbara, e inculta, se viu, ou se escutou jamais este estranho modo de discorrer: aquele é do número de meus amigos, logo é preciso que eu entre sem outra razão em seus sentimentos, e paixões, é preciso que eu me vista de seu carácter, que me ponha da sua parte, e que por ele peleje; é-me preciso perseguir quem o persegue, infamar quem o infama, discorrer como ele discorre: ofenda-se emborra a Fé, a justiça, e a verdade. Onde, senão entre gente bárbara, e povos devastadores, se escutou este modo de pensar, e de sentir? E qual é o Povo, até à época do presente Vandalismo, onde se não escutou aquela contrária sentença nascida no mesmo seio da Idolatria: "Amigo até aos Altares", que quer dizer que é péssia, e detestável aquela amizade, a qual se sacrifica ou a verdade, ou a caridade, ou como acontece não raras vezes, a mesma Religião.

É neste passo que o zelo me referve na alma, e todo me abrasa o coração, e mo devora pelo bem da Pátria, e da Religião, me obriga a clamar contra as contradições em que andam consigo mesmo os modernos Filosofantes, cujo pestífero, e subtil veneno tantos indivíduos tem corrompido até no meio do fidelíssimo Povo Português. Estes Filosofantes com um dilúvio de palavras até corruptoras de nossa maternal linguagem, dizem em todos os lugares, e escrevem em todas as páginas, que o homem deve fazer uso da própria razão até nas mesmas matérias de Fé, e nos mais profundos Dogmas que ela nos ensina; e estes mesmos que assim clamam, que assim dogmatizam, e assim se assoalham por gravíssimos pensadores são os mais levados do espírito de partido, que é o maior, e o mais declarado inimigo de toda a razão. E é possível que não conheçam, que discorrendo desta arte fazem da própria razão um uso inútil, e arrogante, devendo fazer da mesma razão um uso proveitoso, e necessário! É necessário, e proveitoso o uso que se faz da razão humana nas coisas humanas, mas é arrogante, e inútil o que se faz da razão humana nas coisas divinas, e é tal a cegueira destes soberbíssimos átomos da sapiência gazetal, que quando falam das coisas humanas, falam, e sentem conforme a índole da paixão do partido que tomaram; e quando falam das coisas divinas, não querem acreditar senão naquilo que chega a compreender um entendimento órfão de luzes, e uma razão sempre envolta nas sombras da ignorância; duas vezes cegos, nas coisas humanas conde poderiam ver, e não querem; nas coisas divinas onde quereriam ver, e não podem: Videntes non vident, et audientes non inteligunt.

Mas tornando a vós com o discurso, eu vos considero bem alheios de quererdes introduzir o espírito de partido em matérias de Religião; mas se em outras matérias lhe dais lugar, é porque ignorais o que ele seja, e quão impróprio, e indigno pareça da razão humana; se o conhecêsseis, eu fico que não querereis fazer a vós mesmos uma tão grande injúria como é aquela de dever dizer sempre: eu amo, eu aborreço, eu louvo, eu reprovo, eu sigo este parecer, eu refuto aquele outro, mas não sei o porquê, nem outra razão me posso dar mais que um certo instinto semelhante àquele, que move as operações dos brutos, e que lhe moveria a língua, se tivessem o dom da palavra. mas se quereis desviar-vos desta manca da natureza e até do perigo da contrair, e se quereis para isso aceitar-me um maduro conselho, e escutar, e entender qual seja a praticar, e entender qual seja a prática mais segura, sabei que nas diversas, e encontradas opiniões que todos os dias surgem, e nas contínuas vicissitudes das coisas humanas, que todos os dias vão fazendo tão grande estrépito pelo Mundo, se vos não tocarem por algum respeito do vosso estado, e condição, não tomeis nelas parte nem com a obra, nem com a palavra, nem com o pensamento, se tanto vos for possível, se não quereis perder o tempo, e paz, a consciência, e faltar a vossos essenciais deveres por muito vos intrometeres nos alheios.

(continuação, parte V)

23/03/14

SERMÃO SOBRE O ESPÍRITO DA SEITA DOMINANTE NO Séc. XIX (II)

(continuação da I parte)

DISCURSO

Persuado-me que vos devo anunciar primeiro que tudo, que uma das propriedades, ou a principal propriedade do espírito de partido é não escolher deliberadamente, e com pleno conhecimento de causa aquele partido que se abraça, segue, e defende: esta adopção sempre se faz com os olhos tapados, ou por motivos que não têm relação alguma com o mérito, ou o demérito dos dois partidos. Quanto é contrário à razão, e ao entendimento humano um semelhante procedimento, vós mesmos o podeis conhecer, e compreender. A necessidade de escolher é não só frequente, mas necessária, e indispensável no homem, é uma necessidade de todos os dias, e de todas as horas: qualquer motivo ou de utilidade, ou de prazer nos obriga sempre, e efectivamente a fazer escolha ainda das coisas mais indiferentes, e pequenas, a tomarmos mais este do que aquele caminho, mais este do que aquele sustento, mais este do que aquele vestido; e se nos importa escolher bem para conservar a saúde do corpo, muito mais nos importa escolher bem para conservar a saúde da alma. mas isto nem é costume, nem é lei do espírito de partido: a sua lei, e a sua fundamental constituição é sempre o contrário, e o avesso de tudo isto. Somente o acaso, sem se consultar a razão, obriga o homem a inclinar-se a uma das duas partes, e a abraçá-la com constância, e pertinácia, (e pois eu falo a um século, que tanto mostra prezar as decisões da razão natural, ouçam as admiráveis expressões de um Gentio eloquente, qual era Cicero: De rebus incognitis judicant, et ad quamcumque sunt disciplinam quasi tempestate delati ad eam tamquam ad saxum adhaerescunt. Isto os conduz a extremos, não só indignos do homem Cristão mas do homem, que em tudo se diz, e em tudo quer ser conhecido como Filósofo. Dividem-se os doutos de uma Cidade em duas opiniões: ele se decide por uma, não porque entenda o que ela em si contem, nem a doutrina que encerra, nem as razões em que se funda, mas só porque é opinião de algum seu aderente, ou porque é a primeira de que ouviu falar, e foi imbuído, ou porque levado de um certo material instincto, se persuadiu que era a melhor, e a mais acertada. O mesmo digo de um acontecimento remoto, que de uns é afirmado, e de outros é negado, e controvertido; se o partido afirmativo o ganha, já para ele não é opinião, mas verdadeira ciência, ainda que as suas provas não sejam daquelas, que o público exige, isto é, capazes de desterrar do entendimento toda a sombra de dúvida. A maior desventura é, que uma vez que ele se haja declarado por um partido, ou tomado a afirmativa, ou a negativa, já mais dá lugar a exame, ou àquela indagação da verdade, que é indispensável para uma, ou outra coisa. Fica para sempre desprezada esta indagação, e em seu lugar aparece, como sempre vemos, uma animosidade intolerável, um discorrer frenético sobre o mesmo objecto, por mais que salte aos olhos a evidência do contrário. Se aparece um escrito, é fraudulento, como observamos em certos periódicos efémeros, e suprimidos, que apareceram entre nós; se neles vinha alguma alegação, era sempre truncada, e infiel, e só constante vemos num deles ainda a furto introduzido, como o mais incendiário de todos os papeis, uma fadiga, um afã quase perpétuo de língua para engrossar o tenebroso partido da revolução, e do caos. Qualquer dos adeptos deste monstro, que dá latido ao longe, foge como do Demónio de todos aqueles, que com a razão, e com a verdade o poderiam tirar dos braços da ilusão, e do engano. E quando se não pode esquivar de quem lhe rasga a funesta venda que lhe tapa os olhos, ouve as suas mais convincentes provas com torvo semblante, com riso amargo, e com todo o ar, e gesto de enjoo, e do fastio; e toda a sua reposta será uma rija trovoada de palavras, e horrenda tempestade de contumélias. Nenhum de vós se equivoca com este retrato; e eu não me admiro tanto da pertinácia com que um membro da confraria tenebrosa resiste à evidência das razões, quando da dureza com que persiste aferrado ao partido assolador, vendo, e sentindo em si mesmo as desgraças, os extermínios, as infâmias, que ele voluntariamente atrai sobre sua cabeça.

D. Pedro, que veio a "liderar" a ala
liberal contra a Monarquia Portuguesa
Estes que tendes ouvido, são os efeitos, e as obras do espírito de partido, que inficionam por certo, e endurecem a vontade; mas eu devo agora só falar-vos da infecção que trazem ao entendimento. Este contágio, ou contaminação o torna, a despeito da evidência, pertinazmente crédulo nas coisas, que são favoráveis a seu modo de sentir, e de entender, e pertinazmente incrédulos nas razões contrárias, ou opostas aos seus funestos princípios. Dizei a um destes malvados,que a revolução trouxe todos os males às presentes gerações; mostrai-lhe para provas desta verdade a Europa em cadeias, os tronos aviltados, ou aniquilados, a liberdade extinta, as leis escarnecidas; mostrai-lhe a terra húmida de sangue, e lágrimas de tantos miseráveis; monstrai-lhe o pranto de tantas viúvas, o desamparo de tantos órfãos, e consternação de tantos povos, o abatimento, e miséria de tantas Nações, o desprezo, e profanação de todos os direitos, a dispersão de tantas famílias; mostrai-lhes a Religião perseguida, os Templos desacatados, a moral vilipendiada, o Evangelho em problema na boca dos ímpios: olhar-vos-há com desprezo, e com um ultraje sorriso, a que chama a expressão da sua compaixão pela vossa imbecilidade; e se se dignar falar-vos, e responder-vos, dir-vos-há ou que sois atrevidos, e temerários (como a mim já se me disse) em querer penetrar os profundos arcanos de um monstro imperante, ou que tudo isso é preciso para o plano geral da causa continental, e para os grandes preliminares da paz marítima. Tanto cega, e tiraniza o espírito de partido. Falai a este mesmo homem em futuros brilhantes, e canais abertos, em Poetas ressuscitados, vereis como se lhe banha o impudente, ou estúpido rosto de riso consolador, clamando, que estes três grandes, e importantíssimo objectos realizados formariam a glória, e a felicidade deste Reino.

Ora saindo deste esfera dos acontecimento, que tanto nos atormentaram na ordem civil, para a esfera da Religião, a experiência de todos os séculos Cristãos me obriga a dizer, que uma alma invadida do espírito de partido, é de todas as mais disposta a rebelar-se, e a separar-se da crença Católica, porque não cede nem à autoridade, nem aos milagres. Ainda que vejam, diz Jesus Cristo, ressuscitar um morto, não acreditarão; e como se um verdadeiro Demónio a possuíra, tanto mais se obstina em sua cegueira, e propósitos, quanto é mais clara, e brilhante a luz da verdade oposta, que ela considera como inimiga.

(continuação, III parte)

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