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10/08/15

MÁXIMAS DE Sto. INÁCIO DE LOYOLA e SENTIMENTOS DE S. FRANCISCO XAVIER (II)

(continuação da I parte)


MÁXIMAS
Para o Proceder dos Cristãos em Geral

I

Os verdadeiros cristãos devem submeter-se ás decisões da Igreja com simplicidade de criança. Para isto é preciso persuadir-se bem de que é o espírito de Nosso Senhor JESUS CRISTO que anima a Igreja sua esposa, e que o mesmo Deus que deu outrora os preceitos do Decálogo aos Israelitas governa hoje a sociedade dos fieis.

Bem longe de impugnar o que está em uso entre os católicos, devem-se ter sempre razões prontas para defendê-los contras os ímpios e libertinos.

II

Por mais esclarecidos que sejamos, nunca devemos julgar as cousas divinas por vistas humanas; mas devemos submeter sempre o nosso juízo aos princípios da fé e à autoridade da Igreja, não sendo justo que as cousas certas sejam reguladas pelas que são duvidosas, e sendo, ao contrário, razoável que as cousas duvidosas se decidam pelas que são certas.

III

No tocante à religião, as novidades mais plausíveis são muitas vezes as mais perigosas. As razões que apoiam uma doutrina não a fazem católica; e, até que a Igreja haja decidido o que se deve crer dessa sorte de opiniões, cumpre resguardar-se de julgar ou falar delas favoravelmente.

IV

Devem-se receber com profunda submissão as ordens dos superiores eclesiásticos; e, quando a vida deles não fosse tão pura quanto deveria ser, devemo-nos abster de falar contra eles, porque essa espécie de invectivas causa sempre escândalo e revolta as ovelhas contra os seus pastores.

V

Não pode estimar demais a ciência de teologia, tanto a escolástica quanto a positiva. Os antigos Padres tiveram principalmente em mira excitar os corações ao amor e ao serviço de Deus; mas santo Tomás e os outros doutores dos últimos séculos propuseram-se reduzir os dogmas da fé a um método exacto, para refutar com segurança as heresias.

VI

Tudo o que vem dos hereges deve ser suspeito, que os livros sobretudo, por melhores que sejam; porque, quando lemos um bom livro de um mau homem, insensivelmente nos afeiçoamos ao autor, até crermos ás vezes que tudo quanto tal autor é razoável e ortodoxo.

VII

Se não houvesse outra vida senão a vida presente, nem outra gloria que a do mundo, ter-se-ia talvez razão de só pensar em aparecer em se elevar entre os homens; havendo porém uma eternidade, como seguramente há uma, a que é que se pensam limitar aqui os próprios desejos? e porque preferir aquilo que passa como um sonho ao que não findará nunca?

VIII

Já que não estamos na terra para gozar os prazeres dos sentidos, nem para adquirir riquezas, glórias, conhecimentos curiosos, senão que o homem foi criado para servir o Senhor seu Deus, e todas as criaturas feitas para conduzir o homem ao seu fim, não devemos andar atrás ás cousas do mundo nem usar delas senão enquanto nos ajudam a honrar e a amar a Deus.

IX

As cousas que servem de meios para um fim tiram todo o seu preço, não daquilo que são em si mesmas, mas daquilo que são em relação em fim a que se destinam. Importa pois julgar das riquezas e da pobreza, da glória e da humilhação, da saúde e da doença, não pelo bem ou pelo mal que delas recebemos na vida presente, mas pelas vantagens que nos dão ou pelos danos que nos causam para a eternidade.

X

Devemo-nos ainda manter em perfeita diferença a respeito de todas essas cousas, de sorte que não procuremos antes a saúde que a moléstia, que não prefiramos as riquezas à pobreza, a honra ao desprezo, uma vida longa a uma vida curta. Se, contudo, nos tivermos que determinar por um lado mais do que o outro, a razão quer que escolhamos aquilo que nos leva direito ao nosso fim.

XI

O exame particular é um dos meios mais seguros de reformar uma alma mundana. Consiste em fazer guerra ao vicio que mais nos domina, atacando-o só, combatendo-o sem trégua por uma atenção contínua sobre si mesmo para vão cair nele, e por um volver doloroso para Deus todas as vezes que nele se cai.

XII

Poucas pessoas há que compreendam bem o que Deus faria delas se elas o deixassem agir. Um tronco de árvore rude e informe torna-se uma bela estátua nas mãos do escultor. Vários vivem apenas como Cristãos, os quais seriam santos se se não opusessem aos desígnios de Deus e ás operações da graça.

XIII

Não nos devemos deixar seduzir por um certo zelo que nos torna intranquilos sobre as desordens do mundo; devemos começar por nos reformarmos a nós mesmos; e ver em seguida, para o que diz respeito aos outros, o de que Deus nos pedirá contas no dia do juízo universal.

XIV

Não temos razão de nos queixarmos das infidelidades do mundo; enganando-nos, ele não fez mais do que costuma fazer, ou, antes, não é enganar-nos propriamente o fazer-nos conhecer o que é a côrte dos príncipes, e quando aí mal infundadas as esperanças. Este mundo ingrato, e que tão mal recompensa os nossos serviços, adverte-nos por si que o devemos abandonar.

XV

Nada há mais importante do que a escolha de um estado ou e uma forma de vida, e eis aqui os tempos que são próprios para fazer essa escolha: 1.º quando Deus toca de tal sorte o coração, que não resta a menor dúvida de que seja uma vocação divina, e tal como sucedeu a São Mateus, a São Paulo e alguns outros santos; 2.º Quando a impressão da graça não é tão forte, mas o é todavia bastante para dar uma espécie de segurança de que é o Espírito Santo que nos chama; 3.º quando a alma esclarecida pelas luzes da  fé, e isenta de perturbações que a possa induzir a falsos juízos, está em estado de resolver o que lhe será melhor para a sua salvação.

XVI

Aquele que consulta Deus para saber o que Deus quer de si, seja na escolha de um estado de vida, seja em outras cousas que dizem respeito à sua salvação, deve primeiro por diante a sua salvação, deve primeiro por diante dos olhos o fim para que foi criado, e conservar-se tanto quando puder numa perfeita indiferença relativamente à cousa sobre que delibera, sem perder nem para um lado nem para o outro, na disposição, não obstante, de abraçar generosamente aquilo que conhecer mais conveniente à glória de Deus e à salvação de sua alma.
   
Depois, pedindo humildemente a Deus a sua luz sobre o negócio que se trata, deve pesquisar as razões que são pró e contra, opô-las umas ás outras, pesando a força de cada uma, encarando-as todas em vista da eternidade e na relação que tem com o fim ultimo do homem. Que, se após essa discussão restar alguma dúvida no tocante ao partido que se tem a tomar, haverá então que pensar diante de Deus o que é que se aconselharia a outro em tal emergência, e o que nós próprios quiséramos ter feito na hora da morte e no dia do juízo.

XVII

Se tivéssemos uma vez estabelecidos numa situação fixa e imutável tal como é o sacerdócio ou o matrimónio, não mais cumpre arrazoar sobre o partido que se tomou, quando mesmo a nossa fixação se tivesse feito por motivos muito humanos; cumpre porém trabalhar por adquirir a perfeição que reclama o estado em que nos achamos.

XVIII

Para não tomar mau partido nos próprios negócios, e é a propósito encara-los como se foram os negócios de outrem, e julgar deles sem nenhum interesse. Mas depois de haver considerado a cousa em apreço segundo todas as regras da prudência, nada se deve concluir sem a haver examinado diante de Deus segundo os princípios da fé; porquanto amiúde sucede que, com todas as vistas da prudência humana, não pode a gente discernir cousas que a oração humilde e fervorosa faz conhecer, ou que a luz das verdades eternas manifesta por si mesma.

XIX

Aquele que não é chamado por Deus a esse sublime e primeiro grau da perfeição que consiste em não possuir nada neste mundo, deve esforçar-se em não possuir nada neste mundo, deve esforçar-se por chegar ao segundo, que consiste em não ser escravo daquilo que se possui. Se não deixamos os nossos bens por amor de Deus, tenhamos ao menos o coração desapegado deles, e deles façamos bom uso.

XX

Quando sacrificamos os nosso interesses ao serviço de Deus, ele adianta mais os nossos interesses do que os adiantaríamos nós próprios se houvéssemos preferido os nossos interesses ao serviço dele.

XXI

Para não condenar várias acções do próximo que parecem criminosas, deve-se recorrer á intenção, que é muitas vezes inocente. Mas, quando a acção é tão evidentemente má que se lhe não pode dar um bom sentido, devemo-la desculpar com a violência da tentação, e dizer-nos ao mesmo tempo que faríamos outro tanto se fôssemos tentados daquele modo, que faríamos talvez pior em tentação mais leve.

(a continuar)

02/08/15

MÁXIMAS DE Sto. INÁCIO DE LOYOLA e SENTIMENTOS DE S. FRANCISCO XAVIER (I)

MÁXIMAS
de
SANTO INÁCIO 

Fundador da Companhia de Jesus

e

SENTIMENTOS
de
SÃO FRANCISCO
XAVIER

 
Apóstolo das Índias


 RIO DE JANEIRO
1934

Sto. Inácio de Loyola


PREFÁCIO


Firmado por A. Carayon, a edição francesa de 1860, de que traduzimos este opúsculo, traz o seguinte antelóquio:

“Duas edições das Máximas de Santo Inácio e dos Sentimentos de São Francisco Xavier esgotaram-se em pouco tempo. O êxito deste opúsculo, que traz em seu titulo nomes tão venerados, a ninguém surpreenderá. O P. Bouhours, reunindo estas máximas, fez não somente obra de piedade filial, como bem mereceu de quantos deixam gostosamente os livros cheios de sentimentos afectuosos, para se nutrirem dos mais másculos ensinamentos da fé; deu armas a esses homens de coragem cuja dedicação e piedade se mostram menos por palavras do que por actos marcados pelo cunho da virilidade humana.
Muito pudéramos ter acrescentado a este opúsculo, aumentando-o com grande numero de passagens tiradas da Vida de Santo Inácio, que publicaremos proximamente: melhor havemos porém julgado fazer cingindo-nos a reproduzir exactamente a edição de 1683. Por mais pequeno que seja este volume, contém tesouros inesgotáveis de direcção: não é um livro de leitura, senão que uma fonte de meditações, um arsenal cheio das melhores armas. As cousas que nos diz uma vez e tão brevemente podem todo dia vir-nos em auxílio em meio aos nossos desfalecimentos, e restituir-nos ao coração primitiva energia. Foi à força de repetir a São Francisco Xavier a mesma verdade, as mesmas palavras, que Santo Inácio fez de um homem vaidoso e cativado por ambições humanas um religioso, um apóstolo, cujos trabalhos e êxitos têm sido tantas vezes comparados aos dos primeiros e mais ilustres propagadores do Evangelho”.

Revela-nos este preâmbulo que o nosso livrinho data de 1683, com reprodução exacta na edição de 1860, donde o transladamos. Tem assim todo o sabor e encanto das coisas antigas e preciosas, na colenda vetustez dos seus já 250 anos.

Vadiando séculos, põe-nos em contacto com a alma e o coração de dois grandes luzeiros da Igreja, pedras angulares da Companhia de Jesus. E, com isto, é com a própria alma da Companhia que nos põe em seu contacto; que essa grande alma realmente se retraça nestas singelas páginas, impregnadas todas da frescura e da força viva das nascentes.

Livrinho de grande valor ascético e directivo (e nem menos, talvez, de valor literário), “substractum” dessa doutrina vigorosa que tem feito da milícia inaciana, através dos tempos, a milícia de invictados “vândalos sublimes do cordeiros”, dos “Átilas da fé”, o nosso opúsculo está destinado a difundir o beneficio de uma orientação espiritual sublime, plasmada no mais puro sentimento de Deus; orientação prática e segura, que tem gerado múltiplos e óptimos frutos de santidade, e de cuja eficácia o grande Apóstolo das Índias se erige em exemplo eloquente, prestigiando com a mais feliz das experiências, sancionando com a mais bela prática a teoria do mestre.

Surgindo no ano em que, com todo o carinho, se celebra em nosso país a glória do imortal Anchieta, pela condigna comemoração do IV.º Centenário do seu nascimento, surge em ocasião muito oportuna esta edição vernácula; pois, ocioso é frisa-lo, celebrar Anchieta é magnificar o espírito e a doutrina dos seus fundadores.

Por bem inspirada tenho, pois, a minha empresa, só me restando esperar que mereça realmente aplaudida e resulte realmente benfazeja.

Rio – Março de 1934.
Luiz Leal Ferreira

(continuação, II parte)

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