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09/04/19

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 32 (I)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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N.º 32
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Ostendam gentibus nuditatem tuam


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HISTÓRIA DO MAÇO FÉRREO ANTI-MAÇÓNICO


Creio que haverá muita gente persuadida de que o Maço Férreo, este desperdiçado dos Mações, só teve por assunto desmascarar esses infames, que tão infelizmente nos regiam. Apesar de que o erro não é substancial, pois tanto vale dizer deu-te na cabeça, como na cabeça te deu, convém que estas coisas apareçam agora no seu verdadeiro ponto de vista.

Quando o sistema começou a bambalear pela inépcia e maldade dos que o traçaram e dirigiam, acudiu o Patrão da Larcha, deitou a mão ao leme, ofício que lhe era natural, e tratando de escapar ao naufrágio, meteu-se a Periodiqueiro, e de parelhas com outros Natuas Argelinos e Mouros fez sair o Independente, nome mil vezes bem posto, que segundo mostrou a experiência tudo o que saía de tais penas era independente de noções de Lógica, de princípios religiosos, e muito acima de todas as leis repressivas de liberdade da imprensa, que se fizeram só para a vil canalha dos Cristãos e dos Realistas. Ora os tais novos Redactores bem quiseram cobrir com ramalhos esta como peça de artilheria, para que os malditos Corcundas nem soubessem donde lhes vinha o mal, nem presumissem que os tracalhazes ou postilhonas da Majestade se aviltavam a ponto de exercerem as humildes funções de Periodiquistas; porém como os ramalhos eram delgaditos, e a sua folhagem não dava para cobrir peças de quarenta e oito, rompe-se logo o tal segredo, e já desde o N.º 2º eu sabia quem eram os Redactores. Prosseguia a obra mui felizmente, quase tomava a dianteira ao Diário do Governo, e trazia bocadinhos de ouro sobre alguns assuntos Cristãos, e nomeadamente sobre a tolerância. Caso estupendo! Maravilha peregrina! Sem lhe valer a égide dos mais claros nomes da História Constitucional houve Padresinho tão audaz, que os moeu sobre o artigo tolerância, e o fazia com tal arte, sagacidade, e força de raciocínio, que julguei escusado sair nessa ocasião com o meu fato à rua. Chegou-se ao N.º 45, sem que eu me resolvesse ainda a encetar a peleja; mas tanto que li no Suplemento ao dito N.º as palavras seguintes:
"Qual será a razão por que se não lança mão das rendas de tantos Conventos inúteis, e até prejudiciais à regeneração que Portugal tem empreendido, e à nossa felicidade geral? Qual será a razão por que a Comissão de reforma eclesiástica não apresenta um plano de reunião (ao menos quando não seja de extinção total) desses inimigos declarados da Nação Portuguesa? Qual há de ser a razão por que os Frades Bernardos hão de conservar trinta, ou quarenta, ou mais Conventos de ambos os sexos com rendas exorbitantíssimas para sustentar viciosos inimigos do bem público? Porque não se hão de fazer sair daqueles clubs os homens que quiserem vir para o século, reunir todos os mais em uma ou duas casas, onde exercitem o seu instinto como monges, e não como perseguidores da humanidade? E porque se não há de praticar este plano como todas as religiões monacais, tendo todas o mesmo interesse em transtornar o nosso actual sistema, e empregar as rendas das casas suprimidas em favor dos juros da dívida pública? Qual há de ser a razão por que as ordens militares não hão de ficar reduzidas a simples honorífico, e aplicar tudo o que é útil e rendoso a bem dos juros da dívida pública? Por ventura esses bens e essas rendas não são da Nação Portuguesa? Acaso pode considerar-se nelas algum privilégio maior que o interesse público? Acaso pode considerar-se nelas algum privilégio maior que o interesse público? Não posso, confesso ingenuamente, acomodar-me a que se não adopte este plano: quem deixará de emprestar os seus cabedais a uma Nação tão decidida pelo sistema constitucional, e que tem em si tais recursos, e tão sólidas garantias?...…. Demais, ara que se conservam ainda tantas prebendas e conezias nas catedrais de Portugal? Pois para que o culto divino se pratique será necessário que haja centos de Cónegos, e que estes tenham três, quatro, e seis mil cruzados de renda para ir cantar, entretanto que um empregado público percebe um ordenado que lhe não chega para três meses do ano? Não bastariam seis ou oito beneficiados, a quem se dessem duzentos ou trezentos mil réis, e não mais? Para que servirá que tantos Prelados diocesanos tenham quarenta, sessenta, e cem mil cruzados de renda? Não bastaria dar a cada um doze ou quinze mil cruzados? Não bastaria dar a cada um doze ou quinze mil cruzados, e aplicar toda a mais rendas aos juros da dívida pública, e desse empréstimo! Que aplicação mais útil, e mais santa? A mim parece-me, e não me engano certamente, que tudo isto se fazia em meia folha de papel; e que em resultado teríamos não só o indispensável empréstimo dos capitalistas e Portugueses, mas até dos estrangeiros; porque realmente nenhuns os podem empregar com mais segurança, nem com tanta vantagem; e a Nação Portuguesa estabelecia o seu crédito, e teria logo dinheiro para fazer face às suas indispensáveis despesas, e diminuía o número de seus inimigos. Quais serão os perigos que se receiam de lançar mão deste plano e destas rendas, que presentemente estão gozando as ordens religiosas e corporações eclesiásticas? Porventura não são rendas nacionais? Porventura haverá entre nós alguma coisa que não seja da Nação Portuguesa? Não têm eles gozado até agora com detrimento, e o maior prejuízo da mesma Nação? Que bens vêm à Nação Portuguesa da conservação de tais estabelecimentos, trono a repetir? Dar-se-há caso que ainda se julgue necessário, para se adoptar este plano, recorrer à Cúria Romana? Não se acha já determinado que a Nação Portuguesa é livre e independente, e que não pode ser património de alguma casa ou família? Como o há de ser então da Cúria Romana? É preciso acabar um dia com estas imposturas, e reconhecer por uma vez que as nossas Côrtes estão autorizadas para todo o género de reformas, e que esta é a mais interessante a bem da causa pública, e que sem ela chegar a efeito, todas as mais operações são secundárias. É preciso reconhecer a nossa independência, e tomar um caracter firme e decidido pelo bem geral; caia embora o raio onde cair; esta é a tábua da nossa salvação, que não depende do arbítrio ou vontade estrangeira, depende unicamente do convencimento destas verdades, até agora ocultas nas trevas da ignorância, mantida pelo fanatismo político, que se apoderou com arte dos governos para escravizar a humanidade: essa época porém passou, graças à mão virtuosa e liberal, que soube aproveitar o momento para nos salvar do naufrágio, a que um governo perverso e despótico nos havia conduzido. - Ass. um verdadeiro Constitucional."
Senti reverdecerem todas as minhas feridas, vi tão claramente enunciado o projecto da destruição do Catolicismo neste Reino, que peguei logo da pena, e mui determinado a expatriar-me se fosse necessário arrostei com o Mestre dos Naufrágios, e mandei apra a Gazeta Universal o que se publicou em o N.º 67, e é, sem mais nem menos, o que se segue:
"Senhor Redactor da Gazeta Universal - Que bulas terá o Redactor do Independente para nos empurrar à carga cerrada artigos impolíticos, desbocados, e em manifesta oposição às Bases da Constituição? - Mandam-lhos inserir, e o pobre figura só de Moço de Feitos. - Seja assim muito embora, mas enquanto o Soberano Congresso não decidir que o tal Independente é órgão da verdade, o zenith do bom gosto, o Sete-Estrelo da erudição, e o non plus ultra da sabedoria, hei de lhe ir à mala com quanta pólvora houver no meu armazém. Assentemos uma peça de calibre três: é quanto basta; que o mais chama-se gastar cera com ruim defunto… Fogo à espoleta… Aí sabe-o."

1.º Monitório ao Constitucional enxertado no Suplemento ao N.º 45 do Independente.

Não serei temerário, Senhor Constitucional enxertado, se enxergar em V. m. um irmão gémeo do tolerantismo. Epiménides, que está arrebentando por ver em Lisboa Sinagogas, Mesquitas, Pagodes, e Procissões de Trolhas, como verdadeiras fontes da riqueza e prosperidade nacional… Ora V. m. feito eco dos Garats, dos Barnaves, e dos Robespierres, assentando lá para si que em falando desde o alto da sua trípode ninguém mais há de abrir boca!.. Não há de ser assim. Eu tenho língua para falar, mãos desembaraçadas para escrever, e armas de sobejo para combater os seus delírios. Ninguém o pode livrar das minhas mãos. Ainda que eu visse o cutelo já pendente sobre minha cabeça, ou quase lavrado o decreto da minha expatriação, nem assim mesmo poderia calar-me. Sou necessitado a desviar e repelir o injusto agressor, que tendo porventura gozado nos Mosteiros deste Rino todas as distinções e benefícios da mais carinhosa hospitalidade, se converte agora em um raivoso tigre disposto a atassalhar o crédito de quem nunca o ofendeu, e a usurpar os bens que nem lhe pertencem, nem jamais deveria pertencer-lhe… Ah! liberdade, liberdade! (exclamava a infeliz Madama Roland, pouco antes de entregar a cabeça ao ferro da guilhotina) quantos crimes se fazem  mais declarada guerra ao Catolicismo, e para levarem ao cabo os demandos fins dessa hidrópica sede de ouro que os atormenta! Falemos claro.

A opulência de certos Mosteiros é o seu maior crime, assim como a influência dos Jesuítas nos Gabinetes dos Príncipes foi o seu mais grave delito, que assim o afirma o Patriarca de Ferney, talvez para V. m. texto irrefragável.. Foi jurada (eu o sei) nas hediondas e lobregas cavernas do Maçonismo a extinção das ordens religiosas, que oferecem um abundante pasto à insaciável cobiça dos Veneráveis e Rosa-Cruzes. - Este Senhores (que infelicidade para o género humano!) carecem ainda dos meios necessários para consolidarem a facção dos Trolhas nas quatro partes do mundo. Quisesse V. m., Senhor Constitucional sans culote, dizer a verdade, que por certo conviria comigo. Ora V. m. bem mostra haver folheado o Amigo do Povo (é o de lá, que saiu da forja de Marat) e outras emanações impuras da cáfila de Ateus, que desmoralizou, inundou de sangue, e cobriu de cadávers a desditosa França… Ter V. m. o descaramento de chamar aos Frades inimigos do bem público, e anunciar a lembrança de reduzir Ordens inteiras a um só Convento… Meu amigo vamos a contas: quanto deu ou dá V. m. para o Erário nacional? Quem sabe se V. m. chegando lá quereria meter-lhe os braços até ao cotovelo!.. Veio já tarde com esses pérfidos conselhos, que depois de turbarem o socego de muitas famílias respeitáveis acabariam por atear neste Reino as vorazes chamas da discórdia e da guerra civil.

Não é incompactível a existência dos Frades com a felicidade dos Povos; e se lhe concedêssemos que a extinção, por que V. m. tanto suspira, chegasse a aliviar momentaneamente o Povo, não tardaria dez anos que o Povo não gritasse contra quem os iludira, e os expusera a terem de passar por encargos mil vezes maiores e mais pesados que os antigos. Os Mosteiros são uns como fiadores nacionais, que acodem à pátria quando ela se vê ameaçada de inimigos. Quebrando estes fiadores quem há de receber e hospedar as tropas? O Povo. Quem há de pagar novos e exorbitantes Povo. Quem há de pagar dez e vinte vezes mais do que pagava no tempo em que havia dízimos e Frades? Quem há de morrer de fome, estancados todos os mananciais de beneficência ordinários nos claustros? O Povo. Quem há de suprir a falta desses úteis cidadãos, que pela judiciosa e económica administração de suas rendas contribuíam eficacissimamente para o bem comum, a que eles atentavam mais que ao seu particular? Ninguém. - Ah! Povo, Povo, o mais leal e o mais heroico do universo, guarda-te destes perversos conselheiros, que trazem por fora a capa de ovelhas mansas, que parece não viverem nem respirarem senão para te constituírem rico e venturoso em suas promessas; mas lá por dentro são uns lobos esfaimados, que depois de tragarem os bens dos Mosteiros, se conseguissem os seus desejos, haviam de empolgar os teus, e reduzir-te aos últimos apertos da indigência e da miséria…

Que terá V. m. que dizer a isto? Já sei…. Fora Corcunda, Servil, agente dos Mandões! - Bravo que Dialectica! Faria inveja a Descartes, se este sábio tivesse o gosto de o ouvir. - Ou há de gritar: fora fanático, supersticioso, intolerante. - Bravo, que eloquência! Se o grande Cícero a tivesse aprendido deste calibre por certo que se livraria das unhas do Triumviro Marco António. Fora graças, concluo eu, antes quero todos esses nomes, depois que um grande Mestre me ensinou os seus verdadeiros e exactos sinónimos, do que os hábitos de Avis, Torre e Espada, Garroteia, Tosão de Ouro, e da saudosa Coroa de Ferro…

De V. m. Etc.
O Maço Férreo Anti-Maçónico

Margens do Mondego
2 de Março de 1822

(a continuar)

28/03/19

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 31 (III)

(continuação da II parte)



Segunda Proposição

A impiedade declarada, e até a perseguição nunca eximem os vassalos da obediência devida aos Príncipes.

Provas

O Caracter Real é santo e sagrado ainda que seja nos príncipes infiéis; pois temos visto que Cyro é chamado por Isaías o Ungido do Senhor (Isaías C.45 v.2º)

Nabucodonosor era ímpio e orgulhoso a ponto de se querer emparelhar com Deus, e de fazer morrer os que se refusavam a este culto sacrílego; e Daniel todavia lhe diz estas palavras: "Vós sois o Rei dos Reis, e o Deus do Céu vos tem dado o Reino, o Poder, o Império, e a Glória."

É por esta razão que o Povo de Deus orava pela vida de Nabucodonosor, de Baltasar, e de Assuero.

Acab e Sesabel tinham feito morrer todos os Profetas do Senhor. Elias queixa-se ao Senhor, porém fica sempre obedecendo ao Rei.

Os profetas nesse tempo fizeram prodígios assombrosos para defenderem o Rei, e o Reino (III Reis. Cap. 19 v. 1 10 14 - III Reis C. 20).

Eliseu fez outro tanto no governo de Jorão filho de Achab, também ímpio como seu pai (IV Reis C. 3 v. 6 7).

Ainda não houve quem chegasse à impiedade de Manasses, que pecou e fez pecar Judá contra Deus, tratando de lhe fazer extinguir o culto, perseguindo os Fiéis Servos de Deus, e alagando de seu sangue a Cidade de Jerusalém. Entretanto Isaías e os Profetas Sagrados, que o repreendiam de seus crimes, nunca excitaram contra ele o mais leve tumulto (IV Reis C. 21 v. 2 3 16). Esta doutrina continuou na Religião Cristã.

Foi no governo de Tibério, não só infiel, mas de mais a mais perverso, quando Nosso Senhor disse aos Judeus: Dai a César o que é de César (Mateus C. 22 v. 21)

S. Paulo apela para o César, e reconhece a sua autoridade (Actos C. 25 v. 10 11 etc). Manda fazer orações pelos Imperadores, ainda que o Imperador no tempo em que assim o mandava era Nero, o mais ímpio e malvado de todos os homens (I a Tim. C. 11 v. 12).

Assina como fim desta oração a tranquilidade pública, porque esta exige que se viva em paz até no governo de Príncipes perseguidores.

S. Pedro, e ele (S. Paulo) determinam aos Fiéis que estejam submissos às Potestades (Ep. Aos Romanos C. 13 v. 5- I Pedro C. 2 13 14 17 18). Temos visto as suas palavras, e temos visto quais eram as Potestades desse tempo, nas quais os Santos Apóstolos faziam respeitar aos fiéis a ordem de Deus.

Em consequência desta doutrina Apostólica os primeiros Cristãos, ainda que perseguidos por espaço de três séculos, não fizeram nunca o mais pequeno motim e alvoroto no Império. Somos inteirados destes sentimentos por Tertuliano, e nós os achamos por todo o decurso da História Eclesiástica.

Continuavam a orar pelos Imperadores até no meio dos suplícios, a que eram condenados injustamente. "Ânimo (diz Tertuliano) arrancai aos bons Juízes, arrancai aos Cristãos uma alma que faz votos pelo Imperador" (Tertul. Apolog.).

Constâncio, filho de Constantino Magno, ainda que protector dos Arianos, e perseguidor da Fé Niceana, achou na Igreja uma fidelidade inviolável.

Juliano Apóstata, seu sucessor, que restabeleceu o paganismo condenado pelos seus predecessores, não achou os Cristãos nem menos fiéis, nem menos zelosos do seu serviço; tanto sabiam eles distinguir a impiedade do Príncipe do Caracter Sagrado da Majestade Soberana.

Tantos Imperadores hereges, que vieram depois; um Valente, uma Justina, um Zenão, um Basilisco, um Anastácio, um Heráclio, e um Constante, ainda que expulsassem das suas Sés os Bispos Ortodoxos, e até os Papas, e enchessem a Igreja de mortandades, e de sangue, não viram nunca a sua autoridade atacada ou enfraquecida pelos Católicos.

Enfim, por espaço de 700 anos nunca se vê um só exemplo de um povo que tenha desobedecido aos Imperadores debaixo do pretexto de Religião. No oitavo século todo o Império conserva a sua fidelidade a Leão Isáurico, Chefe dos Iconoclastas, e perseguidor dos fiéis. No governo de Constantino Coprónimo seu filho, que lhe sucedeu na Coroa, na heresia, e violência, os Fiéis do Oriente não opuseram senão paciência a estas perseguições. Na queda porém do Império, quando os Césares mal chegavam a defender o Oriente, onde estavam encurralados, Roma, entregue quais dois anos ao furor dos Lombardos, e constrangida a implorar a protecção dos Franceses, foi obrigada a separar-se dos Imperadores.

Padeceu-se por muito tempo antes que se chegasse a uma semelhante extremidade; e só o fizeram quando a Capital do Império foi tratada pelos Imperadores com um país devoluto a quem quisesse ocupar, e deixado ao desamparo.


Terceira Proposição

Os Vassalos não têm que opor à violência dos Príncipes senão representações cheias de respeito, sem alvoroto nem barulho; e orações para que eles se convertam.

Provas

Quando o Senhor quis libertar os Israelitas da tirania do Faraó, não permitiu que eles procedessem por via de facto contra um Rei, cuja desumanidade para com eles era inaudita. Pediram respeitosamente licença de saírem, e de irem sacrificar a Deus no deserto.

Já temos visto que os Príncipes devem ouvir até os particulares, e mais forçosamente devem ouvir o povo, que lhe faz chegar as suas justas queixas pelos meios lícitos.

Faraó, apesar de endurecido e de tirano que era, não deixava todavia de escutar os Israelitas. ouvia a Moisés e a Arão. Admitiu à sua audiência os Magistrados dos povos de Israel, que lhe vieram queixar em altos gritos, dizendo-lhe: "Por que tratais assim os vossos servos" (Êxodo V VIII - ibid. v. 15).

Seja embora lícito ao povo oprimido recorrer ao Príncipe pelos seus Magistrados, e pelas vias competentes; mas que se faça isto respeitosamente.

As representações acompanhadas de acrimónia e de barulho são um princípio de sedição, e não se devem sofrer. Assim os Israelitas murmuravam contra Moisés, e nunca lhe fizeram uma representação com Sossêgo.

Moisés nunca deixou de os ouvir, de os amaciar, e de rogar por eles, e deu um exemplo memorável de benignidade com que os Príncipes devem tratar o seu povo; mas Deus para manter a ordem castigou severamente estes sediciosos (Números XI XIII XIV XX XXI etc.)

Quando eu digo que estas representações devem ser cheias de respeito, entendo que elas o sejam efectivamente, e não em aparência, como foi a de Jeroboão, e das dez tribos que disseram a Roboão "Vosso Pai nos põe um jugo insuportável: diminuí um pouco este jugo tão pesado, e nós seremos vossos vassalos fiéis" (III Reis XII - 4 - II Par. X - 4).

Havia nestas representações algum sinal exterior de respeito, em que eles só pediram uma pequena diminuição, e prometiam ser fiéis; mas era um princípio de motim o fazerem depender a sua fidelidade de mercê que eles pediram.

Não se vê coisa assim nas representações que os Cristãos perseguidos faziam aos Imperadores. Tudo nelas é comedido, tudo é modesto, e a verdade Divina aí se diz livremente; porém estes discursos tão longe estão de serem concebidos em termos sediciosos, que ainda hoje não se podem ler, sem que logo se sinta inclinação à obediência.

A Imperatriz Justina, Mãe e tutora de Valentiniano II, quis obrigar Santo Ambrósio a que desse uma Igreja na cidade de Milão, residência do Imperador, aos Arianos que ela protegia. Todo o povo se reuniu ao seu Bispo, e juntando-se na Igreja, esperava o êxito do negócio. São Ambrósio nunca excedeu os limites da modéstia própria de um Vassalo e de um Bispo. Fez a sua representação ao Imperador "Não julgueis, lhe dizia, que tendes autoridade de tirar a Deus o que é seu. Eu não posso dar-vos a Igreja que me pedis; no caso porém que a tomeis, eu não devo resistir". E acrescentou "Se o Imperador quer ter os bens da Igreja, pode tomar conta deles, nenhum do nós se opõe a isso, que no-los tire, se assim o quer; eu não lhos dou, porém também lhos não refuso" (Ambr. de Basilicis non tradendis). "O Imperador, continuava ele, está na Igreja, porém não é acima da Igreja. Um bom Imperador, longe de rejeitar o auxílio da Igreja, procura-o." Dizemos estas coisas com respeito, porém julgamos ser da nossa obrigação expô-las com liberdade.

Continha ele por tal arte aquele ajuntamento no devido respeito, que nunca lhes escapou um só termo insolente. Oravam e cantavam os louvores de Deus, esperando o seu auxílio.

Eis aqui uma resistência digna de um Cristão e de um Bispo. Entretanto como o povo estava unido ao seu Pastor, dizia-se no Palácio que este Santo Pastor aspirava à tirania. Respondeu a isto "Eu tenho uma defesa, porém é só nas orações dos pobres. Estes cegos, estes coxos, estes estropeados, e estes velhos, são mais fortes que os vossos soldados mais corajosos. Eis aqui as forças de um Bispo, eis aqui o seu exército" (Ibid.). 

Possuía mais outras armas, a saber, a paciência e as orações que fazia a Deus. "Como se trata isto de tirania?".

"Eu tenho armas, (dizia ele) tenho o poder de oferecer o meu corpo em sacrifício. Nós temos a nossa tirania e o nosso poderia. O poderio de um Bispo é a sua fraqueza. Eu sou forte quando sou fraco, dizia S. Paulo" (Ambr. L. II - Ep. 13)

Enquanto não rebentava essa violência de que a Igreja era ameaçada, o Santo Bispo estava no altar pedindo ao Senhor com lágrimas que não houvesse efusão de sangue, ou pelo menos lhe aprouvesse dar-se por satisfeito com o seu. "Comecei (diz ele) a chorar amargamente, oferecendo o sacrifício, rogando ao Senhor que nos ajudasse de tal maneira que não houvesse sangue derramado em uma causa da Igreja, e que ao menos fosse o meu derramado, não só pelo povo, mas até pelos ímpios" (Ibid.).

Deus ouviu umas orações tão ardentes, e a Igreja ficou vencedora sem custar sangue de pessoa alguma.

Pouco tempo depois, Justina e seu filho, quase abandonados de toda a gente, recorreram a Santo Ambrósio, e não encontraram nem fidelidade nem zelo do seu serviço senão em o próprio Bispo, que se tinha oposto aos seus intentos na causa de Deus e da Igreja.

Eis aqui o poder das representações respeitosas; eis aqui o que podem as súplicas. Assim fazia a Rainha Ester, tendo concebido o desígnio de abrandar Assuero seu marido; depois que ele se resolvera a sacrificar todos os Judeus à vingança de Aman, ela mandou dizer a Mardocheo "Ajuntai todos os Judeus que poderdes achar em Susa, e orai por mim. Não comais nem bebais por três dias e três noites; eu jejuarei da mesma sorte com as minhas criadas, e depois me exporei à morte, e falarei ao Soberano contra a lei, sem esperar que ele me chame" (Ester IV - 16).

Quando ela apareceu diante do Rei, os olhos chamejantes deste príncipe anunciaram a sua cólera; Deus porém, lembrando-se das orações de Ester e dos Judeus, trocou em brandura os furores do Rei. Os Judeus foram livres em atenção à Rainha (Ibid.).

Da mesma sorte quando o Príncipe dos Apóstolos foi prezo por Herodes, toda a Igreja orava a Deus por ele sem interrupção; e Deus enviou o seu Anjo para o libertar. Eis aqui as armas da Igreja: votos e orações com perseverança (Act. XII - 5 e seguinte) S. Paulo encarcerado por Jesus Cristo não tem senão este socorro e estas armas. "Preparai-me um quartel; que espero que Deus me há de entregar às vossas orações" (II Tim. IV - 17)

Com efeito saiu do cárcere, e foi livre das garras de Leão. Dá este nome ao Imperador Nero, inimigo não só dos Cristãos, mas também do género humano.

Que se Deus não atende às orações dos seus fiéis, se para experimentar e castigar os seus filhos permite que se acenda a perseguição contra eles, neste caso devem lembrar-se de que Jesus Cristo os mandou como ovelhas para o meio de lobos (Mateus X - 16)

Eis aqui uma doutrina verdadeiramente santa, verdadeiramente digna de Jesus Cristo, e dos seus Discípulos.

Até aqui o novo Agostinho: e voltando agora às suas últimas palavras contra os promotores, conselheiros, e cúmplices das rebeliões antigas e modernas - Eis aqui o motivo principal, porque o ódio ao Cristianismo é inerente a todas as seitas filosóficas-políticas, ou criadas nos silêncio das trevas do Maçonismo. Esta cáfila de Ateus, que desde os princípios do séc. XVIII estuda, forceja, e toda se afana para destruir os alicerces da sociedade, tomou logo a peito quebrar esse freio, que os incomodava, que os magoava por extremo, a ponto de lhes fazer espilrar sangue. Bem certos de que nem Deus nem o Evangelho queriam outra coisa senão uma inteira obediência aos Príncipes, e que todas as fúrias da ambição, quais ondas entumecidas e assobreadas, haviam de quebrar necessariamente no rochedo incontrastável das lições da própria Divindade, esta mesma renunciaram e maldisseram; que a tanto chegaram os delírios do átomo desprezível, que no seu nome tem uma lição bem expressiva do seu nada, mas que insensível a tudo alardeia e presume de assentar como Lucifer o seu trono sobre as alturas do Firmamento!! Penetrarem-se todos os Soberanos de uma verdade a mais profícua e vantajosa para eles, se a quiserem aproveitar; fechando os olhos de uma vez a esses medonhos quadros da opulência Sacerdotal, e a esses quiméricos e sonhados perigos que ela pode causar ao trono e realeza, e tapando os seus ouvidos à manhosa insinuação de que a Igreja aspira a dominar sobre eles, e a invadir e usurpar as suas mais eminentes prerrogativas. Quem deixará de conhecer as baterias e aproches, de que a seita há lançado mão para armar os Reis contra os mais sólidos apoios da Majestade? Quem poderá encontrar sem horror e aperto de coração esses Reis chamados Católicos, mas adeptos da filosofia moderna, que os empurrava para o fiel cumprimento da sua traças impias e revolucionárias, mas que aplaudia em segredo; e que eles para se mostrarem filósofos se condenassem a desaparecerem mui prestes do catálogo dos Soberanos? Ainda é o tempo… mas foi necessário que Deus lhes abrisse os olhos, e destapasse os ouvidos; porque doutra maneira todos eles por indústria e más artes do Maçonismo seriam iguais no destino a Carlos I de Inglaterra, e a Luís XVI de França! O Senhor, que ainda se dignou sustentar as Monarquias, e não consentiu que uns homens de nada, e filhos de Belial, se jactassem de o ter escarnecido e humilhado na pessoa de seus verdadeiros Representantes, e seus Ungidos, parece que está chamando aos Reis pela voz de tão extremado benefício: "Só a minha dextra, só o poderoso influxo de uma Religião, vossa especialíssima benfeitora, vos tem conservado na posse dos tronos que o Maçonismo queria ver destruídos, ou, para me servir dos seu estilo, afogados em mares de sangue, para que nunca mais fossem vistos à superfície do globo. Assaz vos tem mostrado a experiência o que desde tempos antigos eu vos tinha afiançado.

Por mim, e só por mim, é que ainda hoje reinam os Príncipes no séc. XIX… Está na vossa mão, ou conservar, ou perder os tronos… Só farei milagres quando me aprouver; nem sempre devereis contar com eles… Curai extremamente de que os povos obedeçam ao Evangelho, e nunca mais surdirá a peste de vassalos intrigantes e rebeldes. Florença o Cristianismo; e a seita que de presente lhe é mais contraria, perderá todos os dias grande parte da sua força, a ponto de ser brevemente sepultada nesse caos, onde cedo ou tarde vem a jazer todas as seitas inimigas do Cristianismo."


Conclusão

Portugueses de todas as classes, de todos os sexos, idades, e condições, aqui tendes exposta e demonstrada pelo maior homem dos séculos modernos a intrínseca malícia do façanhoso levantamento do Porto, que foi radicalmente um acto de usurpação de autoridade Real, e uma rebeldia manifesta e contrária às leis do Cristianismo! Fiquem pois mui impressas na vossa lembrança as bem defendidas teses, ou proposições, que sem os atavios da chamada eloquência moderna, e assim mesmo invulneráveis aos tiros de pólvora seca, e às balas de papelão, ou de papelões, que nesta conta devem entrar os pomposos raciocínios do Contrato Social, não deixam mais nada para desejar, pondo em toda a luz o nefando crime que teve inumeráveis cúmplices e admiradores! É porém de minha competência reforçar agora os invencíveis argumentos de Bossuet, não para lhes acrescentar um só grão de força e solidez, o que era impossível ao meu fraco engenho, mas para firmar sobre eles os argumentos que chamaram a fortiori, e que deixaram mais patente a enormidade do crime que se perpetuou a 24 de Agosto de 1820. É dever do Cristianismo prestar obediência aos Reis, por maus e díscolos que sejam, e mais vale sofrer a pé quedo as injúrias e maus tratamentos, do que despica-las à custa do sangue de muitos cidadãos, que necessariamente há de correr em tais conflitos;  qualquer dos fiéis da Igreja primitiva se julgaria reu de pecado mortal só de consentir o pensamento de conspirar para que um Nero fosse deposto do trono que indignissimamente ocupava. Sendo pois assim, como se tem mostrado por argumentos irrefragáveis, de que horrorosa infâmia não devem cobrir-se, e ficarem manchados para em quanto houver mundo, esses perversos e desalmados, que postergando os estímulos do dever, da consciência, e até da própria gratidão, se fizeram e aclamaram reis em lugar dos Rei mais benigno da Europa… Será porventura necessário folhear os autores estrangeiros, como por exemplo a Viagem do Professor Linck e estes Reinos, para sabermos que a bondade do coração e um enternecido amor aos seus vassalos são, para assim dizer, o património da Augustíssima Casa de Bragança? Qual desses furiosos mais acesos contra o que eles chamam Despotismo não deixa de ter na sua mão talvez multiplicados testemunhos da generosa beneficência do mui alto e poderoso Rei o Senhor D. João VI? Praza aos Céus que esta lembrança com a virtude de uma seita lhes traspasse os fementidos corações, para que chegue a entrar neles, quando não seja o arrependimento, ao menos a confusão de terem procedido, não como homens, porém como feras as mais indómitas, e talvez piores, visto que nas Histórias também há exemplo de tigres e leões agradecidos.
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LISBOA: NA IMPRESSÃO RÉGIA. 1823
Com licença da Real Comissão de Censura

17/04/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº17 (II)

(continuação da I parte)


TESE

A Igreja é verdadeira e rigorosa proprietária, e nunca os seus bens se deverão ter na conta de nacionais.

Prova-se

- Pela voz da natureza.
Já mostrei de passagem (nº 14 deste Punhal) que a sustentação dos Bispos, Sacerdotes e outros Ministros do Culto Católico, uma vez admitido e reconhecido por único verdadeiro, nacional, protegido e favorecido pelos Reis e legislação fundamental do País que o admitiu, é uma dimanação clara e evidente do direito natural: e como um dos principais deveres do método escolástico é o tremendo non repetat, addat, que se fosse aplicado e formalmente imposto aos nossos sabichões ficariam amarelos, enfiados, e com as suas veneráveis cabeças a razão de juro, pois, coitadinhos! o seu minguado saber não se estende a mais do que a trazerem o mesmo cozido, assado, frito, e guisado por mil diversas maneiras; tratarei agora de recomendar pela primeira vez aos Mações Lusitanos que não se pejem de revolver os monumentos principais da antiguidade pagã, onde se encontram mil factos que devem encher de assombro e confusão os inimigos da propriedade dos bens eclesiásticos.
É falso dizer-se que o encargo dos dízimos e primícias começou na Lei Escrita... São mui anteriores os factos de Melquisedech Rei de Salem, e de Abraão, Pai dos verdadeiros crentes, donde se vê que não eram os Judeus a única Nação obrigada a satisfazer os dízimos e primícias... Acha-se na maior parte dos Filósofos e Historiadores pagãos a certeza de que os dízimos se pagavam exactamente desde tempos remotíssimos, quais puderam alcançar as tradições humanas que serviram de fundamento aos primeiros Historiadores. Poderia eu citar em abono desta verdade muitos Escritores antigos, como Tucídides, (liv. 3º) Passanias, (Eliac. et Phoc.) Diodoro de Sicília, (liv. 5º) Plutarco, (in Camilo, Scylla, Lucullo, etc.) Aristóteles, (CEcon. liv. 2º) Justino, (liv. 18-20) Cícero, (de natura Deorum (liv. 3º) mas atentando pela brevidade e concisão própria do método que vou seguindo, apenas citarei algumas passagens terminantes e decisivas dos Historiadores Gregos e Latinos. Comecemos por Heródoto, em cujo primeiro livro (pag. 45 da Edição de P. Wyseligio) se lê o seguinte conselho, que o Rei vencido (Cresso) deu a Ciro: Siste ad singulas portas aliquod ex tuis satelitibus custodes, qui auferentes vetent deddendae sint... que vem a dizer em suma que se ponham guardas ao saque feito em Sardes, para que não se desencaminhe, visto ser de absoluta necessidade o pagar dízimo de tudo a Júpiter. (1) Segue-se Xenofonte, que no liv. 5º de Expeditione Cyri, tratando de um templo que se erigia em honra de Diana, acrescenta: Prope fanum pila erecta, quae has Literas continet. Fundus Dianae Sacer. - Hoc qui possessor fruitur, quotannis consecrato decumam. (Edit. Leunclavii Paris. 1625 pag. 351).
Na oração de Agesiao Rege (pag. 657) Ipse de hostili fructus eos percepit, ut intra biennium decumam Delphico Deo consecraret C. talentis ampliorem.
Na História Grega, (liv.3º pag. 493) Delphos profectos Agis quum decumam obtulisset, etc.
Não seria grande injúria aos Pedreiros reduzir a linguagem esta versão fiel do Grego; mas demos de barato que eles poderão achar-lhe sentido (apesar de quem uma indicação feita ao já definido Congresso queria acabar o Latim de todo, como se ele não estivera já bem morto em Portugal)... e note-se para uso do povo, que eram invioláveis os Campos dedicados a Diana, e tidos por sacrílegos os que não pagavam exactamente o dízimo dos frutos, e que o Rei Agesilau, sendo, como era, um pagão, tivera do despojo feito aos inimigos a exorbitante soma de cem talentos, que considerados no seu justo valor, e segundo a raridade de certos metais naqueles tempos, fazem-me necessariamente romper nesta exclamação. "Reis gentios, a quem falava a Luz da verdade, pudestes sem a mais leve censura dos povos, antes com aplauso de todos, consagrar Templos às falsas Divindades, assinar-lhes espaçosos campos donde se tirasse a subsistência dos que os serviam, e repartir com mãos larga de todas as vossas conquistas e novas aquisições para o esplendor do culto... e hoje se um Rei Católico, sem defraudar os seus povos, sem o os vexar e oprimir com tributos, sem faltar à devida sustentação dos empregados públicos, manda fazer um templo em honra do Deus verdadeiro, que se ele desembainhar a espada, lhe franqueia das entranhas da terra abundantíssimas riquezas... critam, é mau Rei, é um sacristão... é indigno de reinar!!! E hão de levar-me uma injúria se eu lhes chamar estonteados, delirantes, ímpios, e blasfemos!! Continuemos, já que a indignação me fez exorbitar das regras que eu protestara seguir... Dionísio de Halicarnasso no livro primeiro das Antiguidades Romanas (Edic. de Emílio Porto - 1588 pag. 8), falando dos Pelasgos: Et Decimas ex maritimis proventibus, siqui alii, splendidissimas Delphos Deo mittebant. Aqui temos direitos de pescado admitidos e satisfeitos por aquela Nação antiquíssima, que teve de vir ao mundo séculos e séculos antes que se ouvisse no Salão das necedades que o ar, e o mar, ou as águas eram livres para todos!!
O mesmo A. no liv. 4º (pag. 133) tratando da expedição de Tarquinio Soberbo contra os Sabinos, e dos ricos despojos que por esse motivo se colheram, acrescenta: Et Decimae argenti Diis sacratae non minorem summam quam quadringentorum tolentorim efficerent (2).
Dos Autores Latinos contento-me de citar Tito Lívio, e de remeter os meus Leitores para o liv. 5º cap. 23 e 25, e aí poderão ver no facto de Camilo sobre o saque da cidade de Veios, que prometera aos Deuses se ficasse vitorioso, e nos debates subsequentes a este voto ou promessa, qual era a fidelidade dos antigos Romanos em tudo o que pertencia às suas divindades.
Donde veio pois a tantas e tão diversas nações este consentimento unânime de que se deviam pagar à Divindade, ou verdadeira ou reputada como tal, os dízimos, não só dos frutos da terra, porém de todos os boné adventícios, sem exceptuar os próprios colhidos na guerra aos inimigos?
Se este consentimento não é expressão clara e inteligível dos sentimentos da natureza, que outro nome lhe daremos? Será acaso esta reunião de pareceres e vontades? Acaso é sempre o subterfúgio dos tolos, que não ficará bem aos verdadeiros filhos da Luz... Será bebida nos livros sagrados dos Judeus? Não é admissível esta doutrina para quem sabe que muitos dos factos apontados são anteriores à primeira Tradução Grega do Antigo Testamento, e por isso deixemos aos Pedreiros a tarefa de examinarem as coisas verdadeiras deste fenómeno religioso, e aos falsos Cristãos, que furtam os dízimos, e não querem pagá-los, a mais vergonhosa inferioridade aos próprios Gentios.
Não era dificultoso juntar novos testemunhos, de que nem veio nunca à imaginação dos povos antigos que os bens liados aos serviço dos templos estivessem dependentes da fantástica Soberania do Povo, antes este olhou constantemente como sacrílegos até os próprios, que sob o pretexto de extrema necessidade se apropriaram do que fora primitivamente oferecido à Divindade. Quem sabe o horror de todas as Nações ao sacrilégio, que nem aos próprios heróis e Reis, coo Hercules, e Dionísio o Tirano perdoava estas violações de uma propriedade firmíssima e sagrada, e tem lido nas orações de Cícero o que foram de mal vistas e censuradas acremente as depredações de alguns Procônsules Romanos, que atentaram contra o que era sagrado, ou havido nesta conta, ficará plenamente convencido de que todo o esforço por se mostrar que os bens da Igreja não são nacionais é a mais severa repreensão do tenebroso século, em que tivemos a desgraça de nascer e presenciar tantas cenas de desprezo das coisas sagradas, e de indiferença para tudo o que mais importava que fosse tratado com o profundo acatamento, que merecem todas as coisas onde se imprimiu o caracter augusto de única-verdadeira Religião, que não tem de presente maiores inimigos que seus próprios, mas degenerados filhos.

(continuação, III parte)

16/04/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº17 (I)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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Nº. 17
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Ostendam gentibus nuditatem tuam

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DEMOSTRAÇÃO DA IGNORÂNCIA, DA MÁ FÈ, E DA PERVERSIDADE COM QUE OS MAÇÔES PROCEDEM NA FAMIGERADA QUESTÃO SOBRE A NATUREZA DOS BENS ECLESIÁSTICOS


PRELÚDIO

Entre os outros ardis e maranhas de que lançaram mão as seitas modernas para o ataque geral e desesperado contra o maior bem do género humano, que é a Divina Religião de Jesus Cristo, sem a qual seria de presente mui difícil estremar os homens das mais embravecidas feras, tratou-se com singular afinco e perseverança de eliminar das aulas, exercícios e certames literários o método escolástico. Obrigava este a uma precisão e dedução tal de princípios, que seria impraticável sustentar-se qualquer opinião sobre que se tivessem feito estudos superficiais; e como além disto era inimigo de atavios e enfeites, e amava somente a verdade numa e crua, de que arte poderia servir a homens cuja ciência era toda fundada em castelos de vento, recheada de imposturas, e naturalmente inimiga da Polémica, isto é de se meter ao fogo? Pretextarão ou fingirão meter nas aulas o método socrático, de que logo mostraram não ter a menor ideia, pois quando nos é permitido alcançar dos Diálogos referidos por Xenofonte, Platão, e outros, aquele homem a certos respeitos extraordinário, e diante de quem são zero os mais decantados filósofos modernos, era consequente nos meus princípios, não divagavam fora da questão, e as suas ideias levavam sempre o caminho direito para a verdade, do qual se extraviavam quando mais não podia ser, e lhes faltava absolutamente o único farol que os livraria de enganos, e a que mais sábios dos Atenienses se mostraria mais agraciado que os nossos Filósofos se tivera a fortuna de o conhecer. Não haja medo que os nosso Sabichões Pedreiros queriam disputas em forma, nem o antigo estilo do objicies primo, objicies secundo. Cheira-lhes tudo isto a um ranço intolerável, e da mesma sorte que um estudo de mês e meio os fez sábios, autores, e oráculos da Nação, também um risinho de dois segundos os livra de se meterem em camisas de onze varas, isto é, na forma silogística, de que sairiam não só pouco airosos, mas até envergonhados e corridos. Enfim no que respeita à sabença dos modernos tenho assentado numa analogia, que a meu ver é exactíssima. Quando os homens estudavam por livros grandes, por livros in folio, saiam homens grandes, homens in folio (magni in folio); porém logo que principiaram a ter séquito os livros pequeninos, e muito enfeitadinhos, saíram os homens pequeninos em ciência, apesar de enfeitados de ouropel, missangas, e outras quinquilharias; aquela matrona que devia respirar em tudo decência, compostura, e gravidade, apareceu nos trajes de uma desenvolta e ridícula prostituta. Serei eu acaso um defensor do método escolástico, e tratarei de o vingar até em seus próprios abusos, e nas intrincadas e ociosas questões com que ele enredou singularmente a Dialética e Metafísica, donde passaram e se comunicaram infelizmente à própria Teologia? Não, e Deus me livre de tal ideia; sustento porém, e sustentarei sempre, que o método escolástico, fosse como fosse, ao menos era método; e eu hoje no modo por que se levam ordinariamente as questões, na rude e indigesta máquina de espécies amontoadas fora de propósito, e nas misérrimas evasivas que se costumam dar aos argumentos em contrário, não posso ver nem sequer uns longes do método socrático, aliás excelente para se descobrir e sustentar a verdade, quando os combatentes são judiciosos, estudaram a matéria, procedem de boa fé, e pretendem aclarar, e não confundir ou escrever.

Tenho pois dado a minha satisfação aos leitores sisudos, para que não estranhem a nova ordem que intento guardar na presente discussão. No que toca aos Pedreiros, Iluminados, Liberais, Radicais (e tudo o mais que acaba, e deve por certo acabar em ais!!!), serei tanto mais afortunado, quanto for maior a estranheza que eu lhes fizer; pois eu, que por cartas anónimas (as quais brevemente hão de sair a lume para crédito imortal da Seita) sou o maior dos profanos, ignorante chapado, porque não sou iniciado nos mistérios grandes e pequenos da nova Ceres Eleusina, ou da sapientíssima Jardinagem, obrarei sempre como quem sou, como parecido aos Gregos na falta de honra e probidade, e terei dado no vinte quando faça enraivecer a maldita Pedreirada.

Começarei pois de estabelecer uma tese geral, e de a ilustrar com as mais escolhidas provas (que será lástima serem deduzidas de outra parte que não seja a única ciência humana, e ciência dos gafanhotos, mas que lhe hei-de eu fazer se esta minha inimizade com a luz já agora tem de fazer-me companhia até à sepultura?) Proporei as objecções principais da Maçonaria; aparecerá e dançará na corda (ah! que gravíssimos danos, que males hoje irreparáveis se teriam poupado se Luís XVI tivesse feito arcabuzear ou dançar por uma vez na corda o Excelentíssimo Conde de Mirabeau, de quem eu falo, quando as leis e uma sentença formal o condenavam à morte, que ele merecia de sobejo!!)

O mais fino que se havia dito na Assembleia Nacional de França contra a propriedade dos bens da Igreja, ainda que já velho e sediço, entrará hoje em cena com seu vestidinho francês, que só ele cativa os nossos papalvos, assim como a devassidão de seus autores é uma eficacíssima e irresistível carta de recomendação para muitos dos nossos Mondeguistas...

(continuação, II parte)

10/04/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (VII)

(continuação da VI parte)


"Tendo informado a Vossa Majestade sobre o negócio dos Padres de Maceira Dão com aquela honra e verdade que é própria do meu caracter, recebi pelo Correio a carta inclusa do Dr. Juiz de Fora de Viseu, na qual me participa que as testemunhas do Sumário, que eu reperguntei, pediram ao Dr. Corregedor da mesma Cidade que lhe mandasse tomar termo de reclamação dos juramentos que deram perante mim, alegando mentiras e falsidades, para delas tirarem partido favorável aos seus dolosos fins; fazerem suspeitosa a minha imparcialidade, e apoiarem aquele Ministro no procedimento que intentou contra os ditos Padres; porém o mesmo Sumário, que foi por mim cotado e a mais que consta dos autos, é bastante para refutar o concloio e a maldade destas testemunhas, que em Mangualde, onde as inquiri, andavam publicamente de sociedade e companhia com o denunciante; e que vindo depois de inquiridas participar ao Dr. Corregedor o aperto e tortura em que as meti com as minhas perguntas e instâncias, para lhes fazer dar a razão de seus ditos, assentaram, que para triunfarem todos lhes convinha arguir e queixar-se de minha inteireza, que lhes não fazia conta, encaminhando-se somente ao descobrimento da verdade; mas V. Majestade, a cuja penetração nada é oculto, dará a estas pueris maquinações e malícias (que só servem de confirmar o que indiquei na minha informação) o valor que merecem, e fará ao meu caracter a justiça que lhe é devida, e de que nenhum homem honrado jamais duvidou.
    Lamego 6 de Fevereiro de 1822 - O Corregedor de Lamego Joaquim Manuel de Faria Salazar."

Resultado da Consulta do Desembargo do Paço depois desta Informação.

"Certidão. Nesta Secretaria da Mesa do Desembargo do Paço, e Repartição dos negócios da província da Beira, se acha uma Consulta, que se fez a S. Majestade a requerimento do D. Abade Geral da Congregação de S. Bernardo, em que se queixa das falsas arguições, feitas pelo Corregedor da Comarca de Viseu João Cardoso da Cunha Araújo e Castro contra os Religiosos de Maceira Dão indistintamente, representando-os como opressores dos povos, como manifestamente opostos e repugnantes aos Decretos das Côrtes, e finalmente como pública e escandalosamente imorais e relaxados: em consequência do que D. Majestade em Portaria de 20 de Julho do ano próximo passado de 1821 ordenou que se fizesse dispersar aqueles Religiosos, pondo a casa em administração, ao que se satisfez; sucedendo depois dar o Corregedor nova conta a S. Majestade, por ver o povo daquele distrito a favor dos Padres, o que se declarou no Diário do Governo, que os Religiosos culpados haviam sido somente quatro, confessando que o D. Abade era bom Religioso, e homem de probidade; mas fora ainda com visível malícia que ele figurou serem somente três inocentes, e quatro culpados, ficando ainda sete reconhecidos sem culpa: pedindo o suplicante se mandasse restituir ao Mosteiro aqueles sete Religiosos; como também estranhar ao Corregedor, procedera informação do Corregedor de Lamego: em vista de todos os papeis, em que respondeu o Desembargador Procurador da Coroa e Soberania Nacional, e se fez a dita Consulta a S. Majestade, que foi servido, por sua Real Resolução de 11 de Junho próximo do corrente ano, declarar que os Padres pronunciados deviam prosseguir o seu livramento competentemente; porque o processo criminal começado só podia terminar legitimamente por sentença definitiva, proferia com pleno conhecimento de causa, e não por meio de averiguações extraordinárias; porque só no julgado deviam esperar o desagravo de qualquer injustiça que entender se lhe tenha feito. E Para consultar o referido se passou a presene Certidão.
Lisboa 20 de Julho de 1822 anos - Pedro Norberto de Sousa Padilha e Seixas."
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LISBOA: na Impressão Régia 1823

06/04/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (VI)

(continuação da V parte)

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(*) Conserva-se uma carta original de um execrável Deputado às Côrte, pela qual se conhece, que ele aconselhava, e auxiliava a insurreição dos povos para não pagarem coisa alguma aos Donatários. Por esta carta, que casualmente eu vi, se podem conjecturar as intenções, e tramas daquele malvado ajuntamento, que se arrogou o título de "Côrtes Soberanas" dendo aliás ele somente uma mera Deputação, ainda que subordinadíssima, do povo, que fingiram, e intitularam soberano, para melhor iludirem, não conservando porém ele mais que o título da soberania, e gozando-o de facto na sua plenitude os deus Deputados. Que ilusão e terrível engano, e traição ao mesmo povo, que pretendiam trazer a seu partido!!
    Desengane-se pois o povo, e todo o Mundo com ele, que o fim dos Mações, Carbonários, Comuneros, e Radicais, e outros tais Coimbrãos, não é senão derribar todo o Governo, aniquilar a Religião, e enriquecerem-se e entronizarem-se: e para conseguirem seus depravados intentos, nem se poupam a fadigas, nem se embaraçam com a legitimidade dos meios, tendo por princípio fundamental, que o fim justifica os meios, e por isso tem ele sancionado em seus tenebrosos Clubs, como coisa necessária, e por isso justa (porque lhes é útil) Que se iluda o povo com o aparatoso, ainda que fantástico, título de soberano, e com a promessa de diminuição (momentânea) de direitos territoriais, e de grandes felicidades futuras, quando ele lhe preparavam os duros ferros da sua escravidão, o horroroso peso das contribuições, e o flagelo da sua pobreza; eis aqui as felicidades, que o esperavam. Que se acabe com todos os Soberanos, ou antes com todos os Governos, conservando-se contudo um como fantasma deles, enquanto lhes convier, para melhor estabelecerem o seu império universal. E principalmente que se destrua, a anarquia a Religião, que os repreende e castiga, e liga a todo o homem com os vínculos internos da Fé, Esperança, e Caridade.
    Para o poderem conseguir descreditavam, injuriavam, e caluniavam os Ministros do Altar, imputando-lhes os crimes e delitos mais atrozes. Assim o fizeram na França, na Itália, na Espanha e em Nápoles, e enfim na minha Pátria. Sirva-me de prova a Informação abaixo escrita de um Ministro sábio, honrado, incorrupto e virtuoso, (o Corregedor de Lamego Joaquim Manuel de Faria Salazar) sobre a estrondosa acusação dos Religiosos de Maceira-Dão. Esta informação pelas circunstâncias do tempo, em que foi feita, e depois dos ilegais e precipitados procedimentos do extermínio dos Padres, sem os ouvir, nem convencer, dá tanto a conhecer a inteireza e firmeza de carácter deste Ministro 3º informante, quanto patenteia a ignorância, má fé e perversidade do outro Ministro 1º informante, e juntamente acusador dos Padres e agente da facção, (o Corregedor de Viseu João Cardoso da Cunha Araújo e Castro [Portocarreiro] [1, 2, 3, 4]) bem como da Comissão das Côrtes, e do Secretário exterminador. E deixando agora de mencionar outros muitos bem sabidos aleives, v. g. a prisão de muitos Frades inocentes em horrorosos cárceres, as falsificadas certidões de Missas, as armas e exercícios militares dentro dos conventos, os avultados dinheiros mandados para Trás-os-Montes, etc. etc., volto ao fio do principiado discurso.
    Item, para o conseguirem perseguem de morte os ditos Sagrados Ministros, macimè os Regulares, (na conformidade da carta de Frederico II a Voltaire: deve começar-se por destruir os Frades, que são os que mais fomentam o fanatismo (a Religião) no coração dos Povos...) prendendo, desterrando e assassinando uns, e reduzindo outros a nímia pobreza; ora vociferando que seus bens são da nação (como que se os direitos, por que eles os adquiram não fossem tão justos e legais, como os dos mais cidadãos) ora decretando a sua ruinosa reforma (extinção) por serem, dizem, inúteis, e prejudiciais à sociedade (dos Pedreiros livres sim) quando os Frades ensinaram e aumentaram a agricultura, as artes e as ciências, catequizaram e civilizaram os povos, propagaram e mantiveram a Religião, e mitigando a ferocidade de uns, contém outros na devida sujeição às Leis.
    Item, decretam ao mesmo tempo (para se segurarem com todas as amarras) em Portugal, que as Corporações paguem uma 2ª décima para amortização da divida pública, e já tinham determinado mais uma 3ª décima nas segundas Côrtes.... Permita-se-me agora aqui uma reflexão, e com ela acabarei esta aflitiva recordação de males.
    As Congregações Religiosas, que desde 1797 [interessante notar a data] pagam a décima e quinto, que convencionaram, que desde 1801 lhes foi acrescentada, sendo assim obrigadas a apagar muito mais que a décima: que no tempo do intruso Governo Francês pagaram pelo menos um terço da contribuição do resgate das propriedades, e suportaram as perseguições e os roubos daquela tropa, e os estragos da invasão de 1810, além das despesas na passagem das tropas restauradoras antes e depois do dito ano: que pela Portaria de 7 de Junho de 1809 foram colectadas em 3 décimas, além da que já pagavam, e no terço de seus rendimentos pelas Portarias de 2 de Agosto de 1819, e de 10 de Abril de 1811, que se efectuaram até o S. João de 1815: que em virtude destas décimas, e contribuições, lançadas com um rigor extraordinário, e não com aquela moderação, que se pratica com os Seculares, se acham atrasadas e muito empenhadas com a Fazenda Real, não podendo satisfazer a encargos tão horrorosos, apesar de se terem reduzido a uma escrita económica: as Corporações enfim, que têm perdido a maior parte de seus rendimentos, pelas alterações, que têm havido sobre Banais e Forais, chegando até nem se lhes pagar em muitas partes os dízimos e foros, hão de ser, digo, obrigadas a pagar uma segunda décima, e até ameaçadas com 3ª!!!
    Isto só o podia decretar um ajuntamento de homens, que tivesse por instituto aniquilar estas Corporações; porque não se pode descobrir em tal decreto razão alguma de direito, de justiça, ou de proporção: de direito, porque não pediram, ou não obtiveram Bulas, e o Concílio Tridentino no §25 de Refor. cap. XI lhes tira todo o poder nos bens Eclesiásticos, et in super, clara, e expressamente anatematiza toda e qualquer pessoa, que usurpa os bens Eclesiásticos, ou para isso aconselha ou concorre, como igualmente os mesmos Eclesiásticos, que nisso consentem, ou não empregam todas as suas forças para a sua manutenção. Quem acreditar o poder da Igreja, não pode duvidar disto. De justiça, porque esta segunda décima é aplicada para o pagamento da dívida pública, e não sendo ela contraída, nem aumentada por causa das Corporações, não deve recair sobre elas este ónus, e muito mais quando estão tão atenuadas: se é necessário pagar-se esta dívida, pague-a todo o Reino. De proporção, porque as Congregações já pagavam uma décima muito rigorosa, e os Seculares uma moderada, porque estes não forma tão oprimidos com as contribuições de 1808 a 1815, nem tem agora perdido tanto como elas por ocasião do determinado sobre direitos Banais e sobre Forais, antes têm alguns deles utilizado com grave detrimento delas.
    Que se seguiria pois destes decretos tão ímpios, como destruidores? o que pretendia: e vem ser a indigência, a fome e a miséria das Corporações, e por consequência o seu  desprezo e abatimento, e a sua morte civil e natural. Mas a providência, que tudo dirige, permitiu que acabasse o governo desta raça de víboras, antes que pusesse de todo em prática os seus danados projectos, e que fosse restituído aos seus Direitos Majestáticos o nosso amado, e religiosíssimo Monarca o Senhor D. João VI, que desfará num momento tão nefandas determinações.

Informação do sobredito Corregedor de Lamego Joaquim Manuel de Faria Salazar, sobre a acusação de Maceira Dão:

    SENHOR, Manda-me V. Majestade informar, com o meu parecer, sobre o requerimento e papeis juntos do D. Abade Geral da Congregação de S. Bernardo, e sobre a resposta e documentos com que o Dr. Corregedor da comarca de Viseu instruiu sua defesa a respeito da denúncia dada pelo Juiz da Vintena de Fragozela contra os Religiosos do Convento de Maceira-Dão, a qual o dito Ministro afirmou ser verdadeira, e estar plenamente provada tanto no Augusto Congresso Nacional, como na Real Presença de V. Majestade; devendo por isto ser punidos todos os Padres daquele Convento com castigo exemplar.
    Vendo eu, Senhor, e examinando atentamente a afectação e frase estudada das testemunhas do sumário junto, a inverosimilhança e animosidade de seus ditos, e ao mesmo tempo a incúria e ilegalidade com que foram inquiridas sobre tantos factos criminosos e estupendos, que imputaram aos ditos Padres, não se perguntando a nenhuma delas a razão de seus ditos, que é a alma de todo o juramento, nem o que recomenda a Ord. Liv. 1 T. 86 §1 debaixo de graves penas; dando-se todo o valor de prova plena e perfeita ao que elas referiam pelo ouvir, por ser constante, por ser público, e por ser notório, que é o mesmo que nada dizer nem provar; vendo que pareciam marchar de acordo, e falar pela mesma boca (como V. Majestade melhor observa) tanto aquele denunciante, que não sabe ler nem escrever, e por isso assinou de cruz, como as testemunhas do sumário, que ele nomeou e ajeitou, e o Dr. Corregedor, que copiando em sua representação o requerimento do denunciante, e o dito, tal e qual, da segunda testemunha do sumário, inimigo capital dos Padres, por ter sido executado por eles, ainda o exagerou e encareceu mais em entrar no amago e na substância das coisas, para aclarecer a verdade, pela qual só devia trabalhar, cegando-se e precipitando-se tanto, que deu por provados todos esses diversos crimes, sem que o fossem, nem contasse da sua existência por meio de exames e corpos de delito, a que devia proceder primeiro que tudo, como bases de todo o procedimento criminal, e sem as quais o mesmo é nulo na forma de Direito; deixando até de dar-se o juramento àquele denunciante, que o era de casos que lhe não tocavam, e cuja omissão faz nula a mesma denúncia, na forma das Ord. Liv. 5 Tit. 117 § 6 Tit. 2 § 5 Tit. 118 §2, e do Cap. 44 do Regimento dos Portos secos, resultando, apesar de todas estas faltas essenciais, ser tida por verdadeira a representação do dito Ministro, e produzir logo o lamentável efeito de serem desacreditados e punidos à face da Nação inteira todos os Religiosos do dito Convento, e mesmo os inocentes reconhecidos e declarados depois tais por ele mesmo na sua segunda representação, que se lê impressa no Diário do Governo nº186, o qual vai junto; vendo a mentira com que este denunciante diz, e o Corregedor confirma, que os Padres só tinham o direito da pesca em metade do alveio do rio, quando o contrário se prova da Certidão junta da sua Doação; e que eles ordenavam a seus criados que matassem todos os indivíduos que encontrassem caçando ou pescando, não nomeando criados alguns, nem individuo morto pelos mesmos; que o Padre Fr. João de Morais, com que foi a briga dos Arestas, vinha com facas de pontas no dia 6 de Julho, sendo impossível não usar delas, como não usou, para ofender ou se defender dos ferimentos e pisaduras que lhe fizeram, e constam do exame junto, pois que os peritos declararam nos exames fol. 3 e 4 v. serem todos feitos com instrumento contundente; vendo o dolo com que este denunciante ajuntou ao requerimento de sua denúncia os autos de Exames, e Corpos de Delito de ferimentos, que não foram feitos pelos Padres, e dos quais os feridos se não queixavam, como se vê a f. 6 e 7 v. para com esta acumulação de crimes iludir melhor a V. Majestade, fazendo os Padres autores de quantos delictos ali se perpetravam, ainda que eles os não praticassem; vendo a malícia, e arte com que o mesmo denunciante, para desculpar o crime dos ferimentos feitos pelos Arestas àquele Religioso, inventou a fábula de se agarrar este às partes genitais do filho, que diz andava pescando no rio nu, e de caírem assim ambos pelos despenhadeiros daqueles sítios, nos quais foi ferido, e pisado o dito Padre (o que é repugnante, e manifestamente falso, não só porque no exame judicial que se fez a f. nada apareceu nessas partes, nem ele se queixou de coisa alguma nelas; como, porque se ele estava no rio nu, onde andava pescando, e aí foi agarrado, não podia estar nu nos despenhadeiros das suas margens, nem era natural que pudesse trepar para eles depois de agarrado no rio por tais partes, e como facas de ponta em mãos encarniçadas, como diz o denunciante, estando o pai, e o filho nus, e desarmados; vendo a inverosimilhança, ou para melhor dizer, a maldade com que o denunciante diz em seu requerimento que os Padres publicam, sem declarar a quem, aonde e em que tempo, que o Soberano Congresso lhes não pode abolir a sua coutada, quando da atestação jurada do Pároco de Moimenta, que vai junta, se prova que o D. Abade pregava aos povos o contrário, louvando as Côrtes por este sábio decreto; vendo enfim que este denunciante pedia ao Dr. Corregedor que levasse ao conhecimento do Soberano Congresso o seu requerimento, e que este, saltando porcima dos meios ordinários estabelecidos para descobrimento e castigo de todos os delictos, e que fazem cessar sempre os extraordinários, assim o tinha feito, e agravado tudo ainda mais por um modo inaudito e inacreditável, causando aos Representantes da Nação um tão grande desgoso, e ao Paternal Coração de V. Majestade a dolorosa necessidade de punir os delictos daqueles Religiosos, que julgou provados pelo sumário, e pela afirmativa daquele Ministro; assentei logo, Senhor, que o requerimento deste denunciante era filho de grande intriga, caluniosa e perversa, cuja origem e molas encobertas tratei de descobrir; julgando de absoluta necessidade reperguntar às testemunhas do umário para lhe fazer dar a razão de seus ditos, que se lhes não perguntou, o tempo e lugar em que tinham visto ou ouvido que praticassem os Padres aqueles crimes, e as circunstancias todas que os acompanharam, a fim de fazer aparecer a verdade em todas as suas luz, rtemovendo as sombras com que a malignidade afectada, e disfarçada com os visos de justiça, parecia querer encobri-la a V. Majestade.
    E com efeito, Senhor, cheguei a alcançar que este denunciante foi calunioso, e que só obrou por espírito de vingança contra os ditos Padres, pois tendo sido penhorado e executado pelos mesmos, como se prova dos autor juntos, que fiz trasladar, lhes maquinou em desforra esta denúncia de acordo com os de Fragozela, para os perseguir e vexar, como inimigo capital que é deles; sendo por isto proibido de denunciar na forma das Ord. Liv. 3 tit. 56 §7, e Liv. 5 tit. 117 §2º, que põem a pena de nulidade a toda a querela, ou denúncia só por este princípio. E foi tal a malícia do denunciante, que para prova de sua denúncia nomeou a 1º testemunha do Sumário António Luiz, que disse ser trabalhador, ocultando que era quadrilheiro do denunciante, e tão pouco acreditável no que disser, como jura a testemunha Manuel Viegas, Cura que foi de Fragozela; nomeando também a 2ª testemunha do Sumário António Lopes de Almeida, inimigo capital dos Padres, por ter sido penhorado e executado por eles este ano passado, segundo se prova dos autor juntos; sendo tais as outras testemunhas que se inquiriram no Sumário, que manifestamente juraram falso; como foi a testemunha António Lopes de Jesus, que se contradisse, e falou por diferente linguagem na devassa, que envio, no Sumário, e na repergunta, que lhe fiz; sendo a verdade a que declararam as testemunhas da devassa, que tirou o Dr. Juiz de Fora de Mangualde em virtude da Precatória do Juiz de Fora de Viseu: as quais testemunhas jurando que Fr. João de Morais levava na mão uma tarrafa ou rede para pescar peixe, e que ia na companhia de depois meninos, uma de oito, outro de catorze anos, demonstram o ânimo pacifico com que este Padre ia divertir-se, e convencem de mentirosas e perjuras as testemunhas de Fragozela; principalmente o dito António Lopes de Jesus, que jurou que este Padre levava facas, espingarda, e que dera com um pau, não usando com tudo daquelas armas em defesa da própria vida, porque de certo as não levava.
    Nomeou também o denunciante a testemunha 5ª José de Almeida, que tendo jurado de vista no Sumário a fol. 15, jurou de ouvida quando a reperguntei; não provando nada as mais testemunhas daquele Sumário, algumas das quais disseram na minha repergunta não terem dito nem jurando o que se achava escrito no Sumário, como é a testemunha Manuel Ferreira, Barbeiro, António Luiz, e António Lopes de Jesus. Quando o dito destas testemunhas seja acreditável, V. Majestade lhe dará com a sua alta penetração e sabedoria a gravidade que ele merece, e formará exacto juízo do espírito que animou e regulou todo este procedimento, que eu por decoro me calo neste ponto.
    O facto, que por um concurso de circunstâncias as mais extraordinárias deu em toda a Nação um brado tão clamoroso, foi uma simples briga entre Fr. João de Morais, e um rapaz de catorze anos, que o acompanhava, com se prova de certidão junta, e João António Aresta, e seu filho Bernardo de Fragozela; mas qual fosse o agressor ou o agredido, qual o culpado ou o inocente nesta briga, não consta até ao presente, ainda que eu me persuado firmemente que foram os tais Arestas os culpados; porque se estes sempre, e mesmo quando os Padres eram sós Senhores daquele rio, dentro do seu couto lhes disputaram a pesca de peixe (que tem por agência, como diz o denunciante), chegando a usar de espingarda, e a apontá-la contra os criados do Convento, a fim de pescarem à força no rio, então dos Padres, pelo que foram condenados, segundo se prova do processo que envio, e a insultar e correr a pau os Padres do mesmo Convento Fr. José Barbosa, e Fr. António de Albuquerque, como juraram as testemunhas da justificação junta, muito maiores arrojos, e atrevimentos praticariam agora com o dito Padre depois de extinto a estes Religiosos o direito exclusivo da pesca naquele rio.

    O certo é, Senhor, que o Dr. Corregedor culpou em sua pronúncia, além destes, outros Padres que não figuraram nesta briga, nem cometeram delicto algum provado, e ao dito Fr. João de Morais, e ao rapaz que o acompanhava, e absolveu aos Arestas do crime, dando-lhes provimento no agravo, como consta dos autos juntos, tomando por fundamento o dito da testemunha falsa António Lopes de Jesus, e o dito da outra, José Marques de Almeida, que nada prova para o fim do dito Ministro, nem disse que o Padre fosse o agressor, sendo portanto esta sentença em graça dos tais Arestas por aquele fútil fundamento, e em ódio deste Religioso, a quem os ditos Arestas podiam assim matar impunemente, e com aplauso do mesmo Corregedor.
    É verdade que a Ord. Liv. 5 tit. 35 permite até o matar sem pena alguma em necessária defesa, mas as testemunhas nada dizem sobre esta necessidade, nem consta se eles excederam ou não a temperança que deveram, e puderam ter, para segundo o seu excesso ou moderação serem punidos ou absoltos; sendo portanto inconsiderada aquela sentença, assim como tudo o mais deste processo.
    O meu parecer, Senhor, é que esta Denúncia e Sumário foi um procedimento ilegal, injusto, e escandaloso, no qual o Dr. Corregedor, em vez de se revestir de toda a prudência, e do sangue frio da Lei, para obrar sem paixão, que é sempre inimiga do acerto, se fez parte, e apoio da malícia do denunciante, e dos indivíduos de Fragozela, que julgaram oportunas as circunstâncias do tempo, para com tais intrigas (em que foram muito auxiliados) cevarem suas vinganças contra estes Religiosos, em cuja perda e ruina muito interessavam, ou julgavam interessar, para se livrarem de pagar-lhes os foros que devem aos mesmos, e pelos quais muitas vezes tem sido executados; devendo julgar-se tudo nulo, não só pelas razões expostas, mas principalmente pela falta de Corpo de Delito, sendo estranhada a este Ministro a leveza e inconsideração com que falou no Augusto Congresso Nacional, e na Real Presença de V. Majestade, pela boca dos inimigos capitais dos Padres, contra os mesmos Padres, e afirmando falsamente que todos delitos estavam plenamente provados, quando assim não era; deixando V. Majestade aos mesmos Padres o direito salvo para a satisfação das suas injúrias, e das perdas e danos que sofreram, contra o denunciante, contra o Corregedor, e contra as duas testemunhas António Lopes de Jesus, e José de Almeida, 4ª e 5ª do Sumário; pois que assim o requer a justiça e a Lei, e a reputação de tantos Religiosos punidos e infamados, que depois foram declarados inocentes pela própria boca, e confissão deste mesmo Ministro, seu maior acusador.
    A verdade, Senhor, não tem mistérios, nem enigmas, e a que alcancei cuidadoso é esta, clara e pura: e ela só, e não a contemplações algumas humanas, sacrificarei eu sempre tudo com o mais firme valor sobre o Altar da justiça: Lamego 4 de Fevereiro de 1822 - o Corregedor de Lamego Joaquim Manuel de Faria Salazar.

(continuação, VII parte)

27/02/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (V)

(continuação da IV parte)

1ª Letras humanas


Direi só uma palavra, sendo-me fácil dizer muitas ao caso... O estudo das Línguas orientais no conceito da Europa sábia é de absoluta necessidade para quem capricha de se estremar dos Hotentotes, e Caraíbas. Quem soube, e sabe a fundo neste Reino a Língua Santa, a Língua Hebraica, se não os Frades? Se me vierem à mão com um dos mais egrégios sabedores desta Língua em nossos tempos, que era Cónego Secular do Evangelista, e morreu Bispo do Funchal, respondo que esse mesmo entra facilmente na regra geral que assinei tratando dos filhos de S. Filipe Néri, e S. Vicente de Paulo...

Quem duvida que o conhecimento da Língua Árabe é importantíssimo nesta Monarquia por amor das nossas relações com as Regências Barbacenas, em que vai muito a segurança do nosso Comércio, e o recobrarem a sua liberdade muitos dos nossos Compatriotas, que gemem nos ferros, e masmorras de Argel? Quem são os sabedores desta Língua? Os Frades da Terceira Ordem, e que por sinal as Côrtes Ordinárias tiraram ou furtaram o que lhes pertencia, e eles tinham ganhado à custa de mim trabalhos e perigos; e notarei de passagem que se a Academia Real das Ciências de Lisboa atraiu recentemente os louvores da Petropolitana deve-o aos escritos de um Frade mui perito nesta Língua.

2ª Agricultura

Dá-se uma volta, por todo o Reino, e onde influem, ou dominam Frades, aparece tudo no maior auge de perfeição, e cultura, empregam-se muitos braços, e subsiste muita gente de se aplanarem montanhas escabrosas, e até vive uma infinidade de pedreiros de se construirem grossas paredes, que obstem à fúria das correntes, e das inundações. As próprias terras, que pagam quarto e dízimo,  longe de serem abandonadas recriam os olhos pela sua formosura, e enchem os celeiros do Lavrador pela sua abundância. Comparem-se as quintas dos Jesuítas no seu estado actual ao que já foram algum dia, e ficará o ponto da agricultura resolvido de maneira, que não possa admitir mais objecção ou réplica.

3ª Socorro aos pobres, aos mendigos, aos enfermos, e a toda a casta de infelizes...

Há Ordens Religiosas especialmente destinadas para a redenção dos cativos, e para assistirem aos enfermos, e às Heroínas Cristãs filhas de S. Vicente de Paulo começam de assombrar a Capital do Reino com os prodígios de caridade já vulgares no resto da Europa. Ora neste particular quem será tão cego, e tão ousado, que negue os quotidianos bens físicos que as Ordens Monásticas e Mendicantes fazem de contínuo à pobreza? Haja vista às portarias dos Frades na hora de jantar, e ainda o que se vê, e admira, é o menos.... Haja vista aos remédios que se distribuem gratuitamente das suas boticas para os enfermos necessitados, haja as avultadas porções de alimentos que saem para muitas pessoas honestas e recolhidas; e se pudessem ver-se outras esmolas feitas no espírito do Evangelho, sem a esquerda saber o que faz a direita; esmolas não só das comunidades, mas também dos particulares; esmolas, que tantas vezes arrancam a pobre donzela das garras da indigência e do demónio, e livram a triste viúva de ver expirando à fome os seus queridos filhos... apareceria uma soma de benefícios capaz de impor silêncio aos maldizentes, e aos Pedreiros....

Mosteiro de S. Cruz de Coimbra, eu desafio todas as Casas Seculares, e Episcopais deste Reino para me apresentarem um só rival que chegue a ombrear contigo, e só me daria por vencido quando se pudesse mostrar, o que é impossível, que tu não és como o primeiro delegado da Providência na Cidade que te conhece te respeita, e que te professa um amor tão justo como encendido!!

4ª Ciência

Os Frades não sobressaem em todas, porque os não deixam matricular em todas. - Fossem Canonistas, e Legistas, assim como são Teólogos, e veríamos... Que progressos não fizeram na própria Faculdade de Medicina os Frades de S. João de Deus, enquanto lhe não fecharam a porta!! Se lançarmos uma vista de olhos para a Ciência que menos tolerava admitir Frades no seu grémio (que a dizer a verdade nem Rogério Boschovich era para a indispor contra os Frades, nem ao seu Criador neste Reino se podia tirar a nódoa Jesuítica) veremos que sendo necessário dar-lhe impulso e vida, entram nela um Frade Bento, um Frade Grilo, e um Frade de S. João de Deus.

Não me foge ao concluir, uma certa objecção que algum dos que presumem de oculatíssimos poderá fazer-me, e é que injuriei o Clero Secular no que tenho expendido!!! Olhe, meu tolinho, meu Pedreiro disfarçado, fiz ao Clero onde conheço muitos, e mui virtuosos Membros, e onde conheci e tratei de perto um D. Manuel de Aguiar, a mesma injúria que podia fazer aos Frades, quem ao ver o estado actual das nossas Missões Americanas se pusesse a gritar. Enfim venha quem vier... só Jesuítas faziam aqui milagres.... tudo aqui mostra e confirma, que Deus Nosso Senhor roborou a sua Igreja com o subsídio que lhe trouxe o glorioso S. Inácio.

Sobre Frades essenciais ou não essenciais à Igreja, sobre o não haver Frades na Igreja Primitiva, e sobre a propriedade nacional dos bens Fradescos, ainda se falará conforme a importância do sujeito, mas importa agora combater mais directamente os Pedreiros Livres.

Conclusão

O Despotismo é sempre abominável para mim, que lhe professo aquele horror, para que a razão e o Evangelho de sobejo me autorizam.

Quer ele me apareça vestido de farrapos constitucionais, quer de fardas azuis, ou vermelhas ricamente agaloadas, quer de púrpura, há-de ser o eterno sítio da minha indignação, e do meu desprezo. Nunca hei-de fazer tréguas com ele, ainda que me seja necessário mudar de pátria.... Por dois instantes, que me restam para viver, confio em Deus que me assistirá com os seus dons para nunca desmentir o meu carácter, e os meus princípios. Em França há Monges de S. Bernardo, e é quanto basta para quem não quer mais nada deste mundo.... Ninguém pois se deve ter por mais autorizado que eu para ser um eco da pura verdade.

Quando acabaram de crer os Reis da Europa que sobejas vezes têm sido enganados por seus Ministros, infames adeptos do Maçonismo, que tudo é carregar sobre os Frades, arrancar-lhes até os olhos da cara, enquanto eles se tratam à grande, e levantam casas mui opulentas à causa de uma venalidade, que seria indecorosa nos próprios gabinetes de Nero, e Calígula? Que serviços tem para alegrar as suas respectivas nações, que eles fizeram governar por Ateus, e Pedreiros Livres, dando-lhes os empregos mais honrosos e lucrativos, e porventura assinando a condição sine qua de ser Pedreiro Livre para entrar nos Ministérios Eclesiásticos, e Civis? Homens grimpas, e versáteis como as suas ideias ambiciosas, que só estas fazem a mola real de todos os seus procedimentos, são de ordinário os primeiros, que, fechando as bolsas quando se trata de acudir às necessidades da pátria, tudo é denunciarem os bens dos Frades, que muito embora pereçam de forme, em paga de terem sustentado o peso da indignação maçónica!!

Não é de presumir que entre nestas generalidades o Rei de Portugal, que tem um Soberano cordial amigo dos seus Povos, e sinceramente apegado às instituições antigas, e que (eu o afianço aos bons Portugueses) não ama os Pedreiros Livres, como se irá vendo cada vez melhor pelo decurso dos tempos. Ninguém sabe melhor que ele a que ponto subiram nesta época os sentimentos de lealdade nas Ordens Religiosas.... Quem premeia largamente os que só por breves horas desembainharam a espada a favor da Monarquia, não terá ânimo de castigar as Ordens Religiosas, por lhe terem sido extremamente fiéis, e por terem passado três anos de mortal agonia sempre com o cutelo na garganta, e prontas para o extermínio, para a desolação, e para a morte, o que lhes seria mais doce, que o apostatarem da fidelidade ao Trono. As Ordens Religiosas acham-se de todo exaustas; os povos ou foram exonerados pelas Côrtes de pagarem metade, ou para melhor dizer tacitamente o foram de pagarem um só real que fosse, pois a tanto chegaram os extremos do ódio, e da perseguição! (*) Gravalhas, e oprimi-las de novo será o mesmo que condená-las a um género de morte por ventura mais consumidor e mais tirano, do que esse que ameaçava infligir-nos o Sistema Constitucional; e aliviá-las será dar um devido prémio por sua fidelidade à Religião e ao Trono, e pelas injúrias e perseguições, que resignadamente sofreram: daqui resultaria uma grande utilidade pública, e um grande aumento à defecada agricultura, que assim como tem encontrado nos claustros o seu maior progresso, acharia também agora neles o seu restabelecimento; aliás virá a sentir em muitas Províncias as convulsões de um moribundo, com notável prejuízo do Reino: o que será um tremendo golpe sobre o mais interessante ramo da opulência nacional.

(continuação, VI parte)

07/02/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (IV)

(continuação da III parte)

4ª Desde a perda de África até ao ano 1668

Frei Heitor Pinto - intelectual covilhanense
exilado em Castela
Abrem a cena destes infaustos dias, em que principiou a nossa escravidão, muitos Frades vítimas da sua lealdade ao Trono de seus Reis naturais; e basta-me apontar os nomes do Jerónimo Fr. Heitor Pinto, zelosíssimo propugnador dos direitos da Casa de Bragança, do Cisterciense Fr. Crisóstomo da Visitação, impertérrito seguidor da mesma causa, e que à imitação do primeiro acabou seus dias no desterro, e do ilustre Dominicano Fr. José Teixeira, que de envolta com outros Religiosos da sua Ordem foi exceptuado da amnistia que o intruso Filipe I concedera aos partidistas do Senhor D. António Prior do Crato.

Sem trocarmos agora no serviço de se fomentar por todo o Reino, e por todos os modos, a nunca interrompida afecção à Sereníssima Casa de Bragança, que maior extremo de lealdade pôde haver que o executado pelo Monge de Alcobaça Fr. António Brandão, quando se atreveu a divulgar as Cortes de Lamego, que cortavam pela raiz os supostos direitos do Rei Castelhano? Se a Monarquia surge debaixo das ruinas em que a sepultara a dominação estrangeira, acodem prontas e fervorosas as Ordens Monásticas, para lhe darem a mão--- e as rendas dos Mosteiros se empregam na justa revindicação dos nossos direitos; e quando seja necessário que os Frandes acudam aos exercícios de Marte, um frade Bernardo os afugentará da Província do Minho, e outro Frade Bernardo, pela confissão dos Autores estrangeiros, deixará em problema se lhe fica melhor o bago, se a espada.


5ª De 1668 até ao presente

Durante as épocas de segurança, de paz, de tranquilidade, assim interna como externa, custam mais a aparecer os relevantes serviços das Ordens Religiosas. A ocasião do perigo e das calamidades públicas é sempre aquela, em que melhor desenvolvem e manifestam as suas virtudes patrióticas. Eu poderia citar neste longo intervalo de mais de um século entre os Cistercienses um Historiador digno de seguir as pisadas dos Britos, e dos Brandões; entre os Theatinos uma sociedade de Atlantes, que podem com o peso do Dicionário da Língua, e da História Geanealógica da Casa Real; entre os da Terceira Ordem um D. Fr. Manuel do Cenáculo, assaz louvado quando se nomeia, e um D. Fr. Caetano Brandão, que não é só Filantropo na língua e na pena, mas que o é nas obras, aplicando os rendimentos da sua Mitra a fundações pias de todo o género, para meninos órfãos, para mulheres do mundo, para velhos doentes e estropeados, e até dando prémios a quem sobressaia em certos ramos de agricultura; cheguemos porém à Invasão Francesa, e aqui se decidirá de todo a nossa causa.

Que fizeste, Pedreiro, quando a tua Pátria se viu tantas vezes ameaçada, e afinal invadida? Mostraste uma alegria indecente e escandalosa, porque eram chegados os nossos Regeneradores; não houve serviço humilde, nem baixeza que de com grado não praticasses, a fim de teres propícios os vencedores de Marengo, e da Austerlitz...

E que fizeram os Frades? O que tu não terias ânimo de fazer, ainda que tivesses debaixo de tua chave os tesouros do Grão Mogol... Deram para a guerra quanto podiam, e mais que podiam; e tal Corporação houve, que se empenhou em mais de duzentos mil cruzados para coadjuvar o Estado (Alcobaça), e para não ficarmos regidos pelo Código Napoleónico, já muito bem traduzido em linguagem pelo sábio Jurisconsule Moura, que assim veio escarrado no então oráculo das Nações Europeias, o Monitor...

Este punhal, por mais que corte e despedace, nunca se lhe embotam os fios, e ainda vai fazer das suas na

Conclusão

Contribuir tão poderosa como eficazmente para a fundação da Monarquia Portuguesa; não só dirigir, mas executar com as próprias mãos os trabalhos mais pesados da agricultura; promover os estudos neste Reino à custa da própria fazenda; sair a campo não só com os dinheiros, mas também com risco das próprias vidas, todas as vezes que Portugal foi ameaçado de perder a sua gloriosa independência; opor um muro de bronze à tentativas de heresia e da impiedade, assim no século XVI, como nos séculos XVIII e XIX; civilizar nações estranhas, e conseguintemente sujeitá-las de bom grado à nossa Monarquia... Tais são os nossos títulos abonados por inumeráveis Escritores, e presenciados por uma infinidade de testemunhas...

Pedreiros, quais são os vossos? No curto espaço de menos de três anos, em que vossas mãos trémulas e incapazes de tudo o que é bom, sustentaram o leme dos negócios públicos, foi acima das areias do mar o de vossos delírios e atrocidades... Se continuais um ano só que fosse... nunca mais seríamos Portugueses... A vossa infâmia e a vossa incapacidade acham-se escritas de maneira indelével na desmembração do Brasil, no deficit enorme das rendas públicas, e no esgotamento da riqueza nacional; e será mais fácil meter o mar numa concha, ou fazer do preto branco, do que mostrar, ainda sofisticamente, que sois ou podeis ser úteis ao Estado.


Utilidades Religiosas, e Políticas que provém actualmente dos Mosteiros.

Ainda torno a falar convosco, eus Pedreiros, nem convinha que eu vos deixasse facilmente sem vos ter pago, quando em mim fosse, e dívida imensa em que haveis posto as Ordens Religiosas. Ficam estas para sempre enobrecidas pelo vosso ódio, exaltadas pelo vosso desprezo, cada vez mais seguras pelo vosso furor de extinções, e mais profundamente arraigadas pelos vossos Projectos de Reforma. Pode tanto a infâmia de que estais oprimidos à face da geração presente; não se começaria a propósito a demonstração das "utilidades Religiosas, e Políticas dos Mosteiros" sem que fosse apontada na cabeceira do rol porventura o mais nervoso de quantos argumentos podem trazer-se para o meu sujeito. Somos perseguidos pela Maçonaria Portuguesa, tem esta jurado abolir os Frades, porque os Frades advogam a causa da Religião Católica todas as vezes que ela é insultada e combatida, porque os Frades são adidos ao Trono, que os favorece, que os eleva, e a quem devem tudo que são de presente, enfim porque os Frades são contrários às suas obras más, tenebrosas e nefandas..... É tanto isto verdade, que mal apareceram outra vez os Jesuítas, e o S. Padre Pio VII derrogou a Bula do Papa Clemente XIV andavam tais que pareciam furiosos, e o seu trombeta Mr. de Pradt (o inimigo dos trabalhadores de Mr. Vhateaubriand sobre as vantagens, e belezas do Cristianismo) já disse que mal do género humano se estes Padres tornam a propagar-se; que infelizmente já os vê na Hungria, na Boémia, nos Estados da Casa de Áustria, no Piemonte, na Lombardia, em Nápoles; e que para mais penas sentir, já se vão metendo pela França, e que adeus ideias liberais, que esses malditos não deixaram frutificar, nem progredir.... É pois de eterna verdade, que por esse ódio figadal dos Pedreiros aos Frades se conclue necessariamente que os Frades são úteis por extremo à causa dos Reis, e à causa da Fé; e ainda que os nossos maiores não tivessem feito uma inumerável cópia nos pôr em toda a luz, como defensores natos da Igreja, e da Monarquia. Vamos pois insistindo nas propostas utilidades, e comecemos pelos que são de maior vulto para quem ainda crê que há Deus, que há Céu, que há Inferno, e que a Religião é o primeiro dever do homem inteligente, e criado para um fim sobrenatural.

Não se pode encobrir que por influência das opiniões modernas tem caído num certo desprezo a vida Eclesiástica, e o que ainda é mais de estranhar, nem todos os Clérigos se esmeram por adquirir e conservar os conhecimentos indispensáveis para o Estado Sacerdotal. Há tal rapazinho (e só aqui fica bem este nome) que sendo filho de pobres cavadores de enxada, todo se anoja de lhe falarem em ser Padre; assim como há Sacerdotes que só de terem lido sem atenção, e meramente por satisfazer, alguns princípios do Larraga se têm na conta de sabichões, que já não carecem de estudar mais nada para o tão árduo como delicado Ministério do Sacramento da Penitência. O próprio Voltaire conheceu tanto esta verdade que chegou a dizer que a extinção dos Frades o poria em termos de levar ao fim quanto premeditava sobre a Igreja Católica, e que nem o Clero Secular, nem os Bispos o assustavam com esses corpos numerosos, que faziam maciços impenetráveis para sustentarem a todo o custo a existência do fanatismo.

Recai pois de necessidade nas Ordens Religiosas a maior parte das confissões, e pregações; acaso as tais Ordens fossem abolidas, se experimentaria logo em todo esse Reino a maior falta de socorros espirituais, e por certo que uma grande parte dos fiéis chegaria cedo à terrível e duríssima extremidade de pedir o pão, sem haver quem lho repartisse. Nem se diga que os Frades não eram expulsos do Reino, e que reduzidos aos Estado Secular podiam assistir como dantes aos fiéis, e ministrar-lhes igualmente os socorros da vida cristã: pois quem discorre desta maneira ou não sabe, ou afecta não saber o tempo que costumam roubar os cuidados ordinários da vida, e que mui diferente coisa é o viver exonerado de procurar o necessário para a subsistência, e poder entregar-se todo às obras do Ministério Sagrado, ou descer a todos os cuidados, que traz consigo a substância, que não seria ela tão firme, e segura no reino constitucional, que desobrigasse os Ex Frades de procurarem outro modo de vida sob pena de morrerem todos à fome.

Deus livre esta Monarquia de experimentar uma carestia absoluta de Frades!! Alguns Povos, que em nossos dias têm experimentado, como são nomeadamente os Belgas Católicos, ainda hoje estão gritando por eles, e protestando que os Frades eram todo o seu remédio, e toda a sua consolação; e o mesmo ouviremos ainda hoje lastimar aos velhinhos dos colégios dos Jesuítas neste Reino, se porventura ainda existem, como é provável, muitos anciãos daquele tempo. 

Concluída que fosse entre nós a extinção dos Frades, não tardaria muito que um grande número de fiéis não perecessem destituídos do conforto dos últimos sacramentos, e que pelo menos aldeias, e povoações inteiras ficassem ao Domingo sem Missa, e que todo este Reino se fosse aproximando insensivelmente do estado a que os Mações o queriam reduzir.

Se estas vantagens puramente religiosas se fossem discutindo miudamente, por certo que não seria uma das menos consideráveis a que merece grandes aplausos a um Liberal (Mr. Mercier = Tableau de Paris), e vem a ser a assistência dos Frades aos infelizes réus desde que se lhes intima a sentença de morte até subirem ao patíbulo; nem ficariam no último lugar os deliciosos frutos, que por esta ocasião têm colhido os Frades, e de que a nossa História podia subministrar contínuos, e assinalados testemunhos.....

Onde são mais pomposas as grandes Festividades do Cristianismo, do que nos Mosteiros? Onde se ouve mais frequentemente a palavra do Senhor, que nos Mosteiros? Onde é mais fácil receber os Sacramentos da Penitência, e da Eucaristia, que nos Mosteiros? Onde há maior cópia de oradores Evangélicos não menos distintos pela ciência do que por uma vida exemplar, do que nos Mosteiros? Quem semeia a palavra de Deus tão felizmente como os virtuosos Missionários de Varatojo, e as mais filiações deste Sagrado Instituto? Se alguns Santos fundadores quiseram habilitar melhor o Clero Secular para que se empregasse frutuosamente nos mesmos trabalhos, deram-lhe a forma de Religiosos, fazendo-os viver em Mosteiros, observar a vida comum, etc., etc., etc.. Por isso nenhuma destas fundações, como por exemplo a dos Missionários do Instituto de S. Vicente de Paulo, ficaria em pé no meio da queda geral das Instituições Monásticas; e também por isso a Casa do Espírito Santo em Lisboa, que é de Clérigos Seculares, os quais se empregam com um zelo, e caridade acima de todo o elogio, na conversão, e direcção das almas, e que não tem nada com as Instituições Monásticas, assim mesmo por oito ou dez dias de livrou de experimentar o raio da extinção já despedido pelos Mações contra ela.....

Acrescendo que não veríamos tão perdida neste Reino,  por certo confiada tantas vezes a sujeitos inábeis, desacreditados, e viciosíssimos, se os nossos sabichões conseguissem moderar o espírito filosófico, que lavrado há cinquenta anos em Portugal influe onde menos se devia crer ou esperar.... mas fique para outras vez esta punhalada, em que se podem dizer bocadinhos de ouro!!!

Entremos pois nas vantagens políticas, e a fim de se evitar quanto couber no possível o tédio dos Leitores, reparta-se a matéria em pequenos artigos....

(a continuar)

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