Quando se trata de meter pelos olhos dentro à Nação Portuguesa, ou os
males gravíssimos, e incomensuráveis das Revoluções passadas, ou o tremendo
perigo de uma nova Revolução, que urdida, e executada por Mações lhe apagaria,
como tantas vezes tenho dito, até o seu próprio nome, é de força que um
escritor amante do seu Rei, e da felicidade da sua Pátria, mais de uma vez se
comova, e sinta perplexo, e sobremaneira angustiado; e por isso é absolutamente necessário, que busque de tempos a tempos certo desafogo, e que, passando de coisas tristes para as alegres, trabalhe, quanto nele for, para descobrir
nestas uma perspectiva agradável de futuros, que não se assemelhe com o que temos
experimentado, e sentido.
Este salto de umas coisas para outras muito diversas parecerá talvez a
certos leitores minimamente severos, e escrupulosos uma falta de ordem, assaz
digna de estranhar-se, e repreender-se; mas devem saber, que se permitem, e hão
de permitir sempre estas pequenas, ou grandes liberdades a um escrito, onde não
há esmero de satisfazer os preceitos da arte de escrever, e onde o coração faz,
para assim me explicar, todos os gastos da empresa literario-anti-Maçónica.
Além disto, se a esperança, e o medo costumam ser dois grandes moveis das
acções humanas, parece que não me desviarei do meu intento, se entresachar as
narrações lúgubres de outras aprazíveis, por tal arte, que os meus leitores
aborreçam de morte as causas das revoluções, e os seus péssimos efeitos, e se
afervorem cada vez mais na devida homenagem ao antes nosso Pai, e Libertador,
que nosso Legítimo Soberano.
Em poucos meses de Revolução, que tem experimentado a França? Em poucos
dias de Revolução, que amargos frutos tem já colhido a Bélgica? Ainda em menos
tempo de Revolução, qual será brevemente a sorte de Varsóvia, e dos seus
alucinados habitantes? E que lição está dando o pequeno Reino de Portugal, e
que gentes ilusas, estouvadas, e delirantes, que se deixaram arrastar das
persuasões, e ardis do Maçonismo? Quando eu espraio as minhas considerações por
todos esses Reinos agitados pela fúria das Revoluções, sinto-me passado de
terror, e de indignação... Olho para este Reino de Portugal, e para quem está
assentado no seu Trono, e logo me fortaleço, e reanimo; pois vejo tão
claramente impresso aos destinos do Mui Alto, e Poderoso Senhor D. Miguel I o
cunho de uma singular Providência, que desde a sua marcha pelos campos de
Santarém até a sua entrada no Porto de Lisboa não conto senão prodígios; assim
como desde 22 de Fevereiro de 1828 até ao dia 16 de Janeiro de 1831 vejo diante
de mim uma candeia estupenda, em que o número dos milagres fica muito acima do
numero dos dias, e oferece mais larga matéria ao justo assombro dos leais
Portugueses, do que os seus para sete séculos de duração, que já conta a
Monarquia Portuguesa. Se os nossos inimigos pudessem ter a sinceridade dos
Magos de Faraó, em vez de se assoalharem por meio de ridículos protestos a sua inépcia, e maldade, já teriam reconhecido à face da Europa, que o dedo do
Omnipotente figura, e como se imprime em todos os negócios do Senhor D. MIGUEL
I. Não me ocorreu fora de propósito esta lembrança dos Magos, que se estes à
força de prestígios, e supostas maravilhas contrariaram, quanto neles foi, os desígnios da Providência a favor de Moisés, e do Povo escolhido, também estes
Magos, (que é um grau honorífico entre os iluminados) moveram quantas pedras
havia para que um Príncipe, que não estava preso, mas que não estava livre, ou
nunca viesse para este Reino, ou viesse maniatado, e sem acção, que fosse
propriamente sua, e em todo o caso viesse um vaso estrangeiro!!!
O Mui Alto, e Poderoso Senhor D. MIGUEL I, assim como é, no meu
entender, o melhor dos Reis, também é por necessária consequência o mais
generoso; e saibam os seus inimigos, que este verdadeiramente Régio predicado
é que os livra de se parentearem à Nação Portuguesa essas odiosas tramas, de
que se envergonharia o próprio Machiavello, se hoje tornasse a escrever, esses
contínuos, e incessantes esforços de legações inteiras, (a quem pagava com a
mão larga o Reino de Portugal) que se esmeravam sobre modo, não para se
verificar a integridade do Território Português, quando mais convinha que se
fizesse, mas para que deixasse, ou acabasse de Reinar a Casa de Bragança!!
Quando os Portugueses souberam exactamente o que se passou desde o extermínio,
na Fragata Pérola, até ao regresso de Viena, hão de ficar assombrados, e
cairão por terra debulhados em lágrimas do mais puro agradecimento ao Deus dos
Exércitos, que nos guardou o nosso Restaurador, como já tinha guardado os
meninos na Fornalha da Babilónia; mas enquanto não chega o tempo, (e quando
virá ele?) de se falar despejadamente nestes assuntos, seja-me permitido lançar
mão das ideias vulgares, que até por estas poderemos verificar a existência do
milagre. Dizia-se geralmente neste Reino, quando o Senhor D. MIGUEL I passou
por alto os barracões, e atirou com a Sinagoga liberal aos infernos, que ele
certamente vinha encostado à Protecção
de uma grande Potência, e era dirigido pelas instrucções de um grande
homem de Estado... Assim falou, e errou muita gente boa, e o mais é que foi dos
erros chamados secundum artem. Foi esta a voz pública, , e a dizer a
pura verdade (porque eu nem sou impostor, nem blasono de ter grandes ideias
públicas) não deixei de aprovar estes ditos, que vogavam por todo o Reino.
Ora, já se viu pelos efeitos, que o Senhor D. MIGUEL I ao desembarcar em
Lisboa não esperou em outra coisa mais que no auxílio Divino, e em sua própria resolução, e valentia. Se os Reis da Europa o tivessem excitado, ou induzido a
ocupar o Trono, que lhe pertencia, por certo que seriam mui contraditórios, se
o não reconhecessem imediatamente por Soberano destes Reinos; e quanto mais se
retardar este passo de verdadeira política, tanto mais forte se há de tornar a
certeza, de que o Senhor D. MIGUEL I não contou, nem com Exércitos, nem com o
mais leve auxílio estranho, para debelar, como debelou, o maldito Sistema
Constitucional.
Escuso agora de ponderar o que eram de profundas raízes do tal sistema degenerador,
e de quão numerosas, e rápidas conquistas havia feito, não só em Portugal, mas
em toda a Europa, desde a púrpura até ao cajado; posto que daí se tirasse um
poderosíssimo argumento, para se mostrar até à evidência, que o Senhor D.
MIGUEL I, quando passou adiante, sem fazer caso dos memorandos barracões,
onde também não estaria preso, sem contudo estar livre, enrostou desde
logo a Maçonaria Europeia. Deixo em silêncio não só aquelas, porém outras
muitas coisas, visto que o meu fim não é de louvar neste N.º o Senhor D. MIGUEL
I, é sim o fazer entrar os Portugueses cada vez mais, se é possível, na
consideração do muito que são devedores a este novo Restaurador da Monarquia
Portuguesa.
Ora os exemplos costumam ferir mais, e provar melhor do que os
argumentos, e por isso eu tenho singular afeição aos Paralelos Históricos, que
são talhados para se conheceram demonstrativamente quaisquer semelhanças, ou
diferenças, que possa haver entre os diversos benfeitores das Nações. Como
estava o pequeno Condado de Portugal, quando o Senhor D. Afonso Henriques
principiou a governá-lo? Teve logo à sua disposição um Exército, que repetidas
vezes triunfara dos Mouros, e alentado com as dezassete batalhas, que vencera o
Senhor Conde D. Henrique de Borgonha, o qual até no seu falecimento em Astorga
nos deixou um claro testemunho, de que os Portugueses desses dias intentaram
coisas maiores, do que esses que lemos nas apoucadas notícias deste Soberano.
Teve pois à sua disposição um belicoso, e fidelíssimo Exército; a saber, os
conselhos, e a espada de Egas Moniz, e assim mesmo a victória do Campo de
Ourique foi um milagre visível, que eu ponho logo abaixo dos que se contam no
Evangelho.... Que viu de longe neste Reino o Senhor D. MIGUEL I, que no meu
conceito deveria contar os anos do seu Reinado de 6 de Março de 1826? Não viu
nesta época nem Exércitos armados em pró da Legitimidade, nem Egas Moniz que o
ajudasse igualmente com a espada, e conselho...... não viu, ou para melhor
dizer, não ouviu outra coisa mais, que os suspiros da Lealdade Portuguesa, que
lá chegavam a furto, e que lhe feriram por tal arte o Magnânimo Coração, que
lhe excitaram em continenti o mais vivo desejo de nos arrancar as sedentas garras
do Maçonismo, não menos vorazes, porém mais terríveis que as da morte, pois
estas cortam somente os fios da vida temporal, e aquelas trazem consigo os
males infinitos da mais espantosa eternidade. Grande coisa foi levantar-se o
Trono Português sobre os estragos da Mauritânia, porém ainda é coisa maior
esmigalhar o ceptro de ferro, com que os Mações o dominavam, ou tiranizavam, e
Mações poderosamente auxiliados por toda a Europa, sim iludida e cega, mas
obrando toda em sentido favorável ao Maçonismo Português.
Que temos nós de admirar no primeiro Restaurador da Monarquia Portuguesa
o Senhor D. João I? Que viu ele em Portugal na pouco sentida morte do seu Irmão
o Senhor D. Fernando? Um desgosto, e oposição geral ao detestado governo da
Rainha Regente, e uma tendência nacional, e como irresistível para a sua
Pessoa, que até os meninos o aclamaram Rei ao entrar em Coimbra, antes que as
Côrtes pronunciassem o seu voto em tão importante matéria. Que viu ele nas
Cidades deste Reino, e especialmente em Lisboa, em Coimbra, e no Porto? Viu na
primeira um amor, que trespassou os limites da razão, e da justiça; quando ali
soou falsamente que o Mestre de Avis fôra assassinado em Palácio; e nas outras
duas houve, se não igual, ao menos uma quase semelhante, mais explosão, que
demonstração de fidelidade.... Ora o que viu, ou podia esperar o Senhor D.
MIGUEL I das próprias Cidades, já se tem metido pelos olhos, e não posso neste
lanço maior prova de moderação, e até de caridade, talvez muito mal empregada,
do que apontar os sucessos de Maio de 1829, o armamento por duas vezes da
mocidade Académica, a mui felizmente debelada conspiração do Brigadeiro
Moreira, afora outras, que hão de saber-se a seu tempo, e consignar-se na
História Portuguesa, como outros tantos monumentos da intervenção celeste a
favor do mui Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I.
Não desconheço, que a segunda Restauração de Portugal foi muito mais
prodigiosa do que tinha sido a primeira. Achava-se este Reino em 1640
empobrecido, e quase exausto dos meios indispensáveis para a guerra; porém o
Senhor D. João IV foi logo reconhecido, e auxiliado pela França, que embora nos
preterisse, bem desairosamente para ela, no Tratado, ou Paz chamada dos Pirenéus, quando assim mesmo ( e não temo dizê-lo, por que sou mais amigo da
verdade que da minha Pátria) enviando para este Reino o Marechal de Schombery,
muito mais nos dava nos conselhos deste grande homem, que nos 10 ou 12 homens,
com que nos podia auxiliar. Que socorro estrangeiro teve o Senhor D. MIGUEL I
em os primeiros seis meses do seu Reinado? Que Potencias o recolheram? Achou
por ventura o Senhor D. MIGUEL um Exército penetrado dos mais puros sentimentos
de Lealdade para com a sua Augusta Pessoa, um Exército nacional a toda a prova,
qual o achou ElRei D. João IV, ou preparou dentro em poucos meses? O que ElRei
Nosso Senhor achou foi um Exército verdadeiramente Constitucional, governado
por Oficiais escolhidos ao tabuleiro, ad hoc pelo façanhoso Saldanha, e
não só achou o Exército nacional assim disposto, ainda achou mais outro que
fôra mandado por Canning, (que deste modo costumam ser enganados os Reis, e as
Nações mais generosas) para suster neste Reino a Maçonaria periclitante, e
derramá-la, quando melhor conviesse, em toda a Península.
Estou certo, que a Posteridade, a saber de todos estes obstáculos, a
qual deles maior, e mais assustador, que cercaram o Senhor D. MIGUEL I ao
entrar neste Reino, há de perguntar cheia de pasmo, e de assombro. Como foi
possível, que um só homem se desembaraçasse de tamanhas contradições, e de
tamanhos perigos? Não admira que assim venha a explicar-se nestes assuntos,
quando nós todos contemporâneos, e testemunhas oculares de tão grandes
acontecimentos já o perguntámos uns aos outros, como quem não sabe dar-lhes
outra saída, que não seja esta - O Senhor é quem há feito o que nós vemos, e
que por mais que o vejamos, e contemplemos, há de ser cada vez mais admirável
aos nossos olhos.
E terei eu dito o que poderia dizer em abono desta verdade? Nem a
centésima milésima parte.... E já que o prometeste aos Leitores, porque não desempenhas a tua promessa? (dirá talvez algum impaciente de saber quanto haja
de mais notável, e prodigioso nesta última Restauração) Porque ainda não convém
que se diga tudo, e porque seriam necessários pelo menos doze Números para
indicar a matéria; que o explaná-la dignamente, é uma tarefa maior, e própria
dos Historiadores; o caso é, que só para dar a entender, ao menos de longe, o
que tenho deixado em silêncio, atrevo-me a comparar os destinos do Senhor D.
MIGUEL I com os próprios da Igreja Militante. Esta Obra do Céu já teria caído
por terra em nossos dias, se fosse obra dos homens. O Senhor D. MIGUEL I já
teria caído do Trono, se a sua vocação ao Trono fosse obra humana.
Colégio do Espírito Santo em Coimbra
16 de Janeiro de 1831
Fr. Fortunato de S. Boaventura.