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25/08/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (VII)

(continuação da VI parte)

Dizei-me por último, e não vos importuno mais: um armistício entre duas potências beligerantes deixou jamais de ter o fim de se armarem com mais força, e deixou jamais de terminar por uma guerra encarniçada, em que uma delas fica superior, e outra arruinada??.. Pois eis aqui o fiel retrato das vossas Cartas Divinais: é um perfeito armistício entre o Soberano Legítimo, e o Povo Soberano: neste tempo só se trata de dar armas ao Povo Soberano, e para isso é que servem as Lojas Maçónicas; e quando este segundo Soberano estiver com forças para começara a lutar, tira-se-lhe o obstáculo intermédio, que é a Câmara dos Pares, e começa a guerra contra o Legítimo Soberano, o qual atraiçoado, ou iludido terá que ceder indispensalmente ao seu rival, o Soberano Povo, que lhe dará a corte, que deu a Luís XVI!!

Talvez aos nossos leitores pareçam exageradas estas consequências; mas para se desenganarem lancem uma vista de olhos pela Europa no momento actual, e vejam onde tem rebentado a Revolução!! Não tinha a França uma Representação Nacional, uma Carta, e duas Câmaras?! Mas foi bastante que o Rei quisesse conter a desenfreada liberdade da imprensa para se fazer uma Revolução! e uma Revolução, que depois de ter devorado milhares de vítimas, ameaça envolver no seu vórtice a Europa inteira!! Então onde está esse preservativo das Revoluções democráticas?! Então porque não susteve a Câmara Alta as erupções populares, para que não chegassem ao Trono?! Não é ela o antemural da Realeza?! Tudo isto assim se diz; mas na prática o que se vê é, que onde há Cartas Constitucionais, há mais facilidade, e mais destreza em se fazer a Revolução: os actores desta comédia estão a postos, corre-se o pano, aparece a cena: em duas palhetadas tiram-se Rels, põe-se Cidadãos Reis, proscreve-se uma Religião, que data com a Monarquia, desriscam-se os nomes de Pares, nomeiam-se outros, que são partidários, destrói-se a Dignidade Hereditária de Par, e em poucos meses se destrói o que fôra obra de séculos!!

Não tinha a Bélgica sua Carta, sua Representação, e seus Deputados?! Em que alterou o Rei dos Países Baixos a Constituição?! Não tinha a Polónia a sua Carta, e uma Representação Nacional tão honrosa, que merecia que o mesmo Autocrata de todas as Rússias viesse muitas vezes presidir às suas deliberações?! E em que faltou este Monarca aos ajustes, e convénios de seu Magnânimo Irmão, o Grande Alexandre?!!... Em anda alteraram estes Soberanos a forma de governo estabelecida. Mas como estas Cartas não eram senão umas tréguas entre o Povo, e os Soberanos, logo que o Grande Oriente de Paris deu o sinal para a batalha, começou-se a peleja, e a guerra democrática aparece em todo o seu furor!!...

Não tem a velha Inglaterra a sua antiquíssima Magna Carta, e não deveria por isso mesmo estar isenta dos males, que os outros Impérios sofrem?! Mas ai mesmo se nota uma guerra intestina, uma exaltação de partidos, uma pertinácia radical, que espanta, e que deverá tarde ou cedo trazer a decadência, e a ruína daquele Colosso Marítimo!! E se não vemos ali o mesmo que na França, Bélgica, e Polónia, é porque a Carta não é feita no século das luzes, é feita quando ainda haviam honra, e Religião, é porque as eleições não são simplesmente populares, e feitas na razão do grande número, mas sim pelos Privilégios Municipais, em que os Nobres têm a maior influência: cedam estes, e deixem os Lords passar o Bill da reforma, que não consiste senão nisto, e verão em quanto lhe sucede o mesmo, que aos outros países, onde existe a Carta Constitucional à moderna. É necessário fazer uma distinção verdadeira entre o Governo Representativo Inglês, e o Governo Representativo da França, e mais outros à moderna; nestes a Câmara, que tem mais influência no Governo, e que é perfeitamente deliberante, é a Câmara Baixa, porque a dos Pares é nula, e sempre arriscada a ser destruída; naquele, a Câmara insolente, e deliberantes é a dos Lords, porque a dos Comuns é inteiramente subordinada, e dependente, e pode-se quase chamar nula; porque a maioria é sempre movida pelos Lordes: esta é a razão única por que a Magna Carta tem durado tanto, quando as outras Cartas estão sempre em desordem; mas se passa o Bill da reforma veremos incendiado na guerra civil aquele país, que parece ser o Mestre da política governativa.

Vejam-se ao contrário os países, que chamam despóticos, e absolutistas, contra quem tanto gritam os Filósofos moderadores, e que dizem estar sempre arriscados a revoluções, como se tornam sobranceiros à mania revolucionária!.. Veja-se a Rússia, a Prússia, e a Alemanha, como se apresentam impávidas borbulhando em armas, que todas se apontam para a Revolução de Julho! Admire-se a Holanda, que tendo pouco mais de dois milhões de almas, subjuga em menos de quinze dias quatro milhões, que tem a Bélgica; e de todo os desbarataria se a França não mandasse cinquenta mil homens, etc. mas o Príncipe de Orage despediu-se até à volta: e talvez não tarde...

Apareceu, é verdade, a Revolução nos Estados Pontifícios, e na Baixa Itália; mas foi sol de pouca dura; porque as Águias Austríacas fizeram debandar aquele bando de estorninhos. Assomou-se, é verdade, às fronteiras de Espanha, desse Reino, a quem os Liberais descrevem com cores mais escuras, e medonhas do que o Império de Nero, ou Calígula; mas como lá não havia Carta Divinal, nem lá governam os Moderadores hipócritas, afogou-se à nascença: e os planos Minescos tão cheios de alabancias fugiram atropelandamente, quando viram una foerca trabalhando provisoriamente, e quando ouviram os canhonaços, que al infierno mandavam seus autores. (Bem hajas Fernando VII).

Contra Portugal luta há mais de três anos esta hidra medonha, mas que partido tem tirado?!... É para nós admirável que esta luta tenha durado tanto, quanto por via de regra há muito deveria ter acabado. Qual será a razão? Será porque os Liberais Portugueses são mais valentes, e mais espertos?! Não sem dúvida: ao contrário são os mais fracos, e mais tolos do mundo. Será porque os Realistas de Portugal são fracos, e ignorantes?.. Nós os sabemos, e a causa desta prolongada campanha nos é tão clara como a luz do meio dia. Não podemos por outra manifestá-la, porque não convém fazer público o segredo de quem governa "Sacramentum Regis abscondere gonum est".

Desenganem-se portanto os Povos que não há outro governo, em que estejam mais isentos das Revoluções, do que no Governo Paternal de seus Reis: o contraste, que oferece a Europa é visível, e palpável: convençam-se os Nobres que os Governos Representativos é uma cilada, que lhes armam os Democratas seus inimigos jurados, para melhor os atraiçoarem: conheçam por uma vez os Soberanos que dar uma Carta é o mesmo que meter em casa um criado ladrão, e falsário, o qual logo que toma posse da casa abre com toda a facilidade a porta aos seus companheiros, para o roubarem a seu salvo: o mesmo acontece a respeito dos Revolucionários num Governo Carteiro. Desenganem-se finalmente os mesmos Moderadores, e partidários deste Governo, que se é indispensável que a Carta é uma estado de tréguas entre os dois partidos; e se é igualmente indubitável que o grande Oriente Parisiense rompeu, e mandou romper a guerra, já não há meio, há-de correr-se a sorte das armas; e se quem tem mais força é quem vence, fácil é prever que as Águias do Norte, e os Leões da Península hão-de esmagar o Colosso revolucionário, que apesar de ter cabeça de ouro, braços de prata, e peito de bronze, tem contudo os pés de barro: e então, adeus Carta, adeus Divinal, lá vai a obra mais perfeita, que produziu o século das luzes.

Para concluirmos esta Nota, que antes parece uma dissertação, juntaremos aqui uma valente Ironia do nosso Macedo, talvez a melhor de tantas, em que abundam os seus escritos, e que ainda não apareceu em público, porque a possuímos numa Carta particular, que ele mesmo nos dirigiu quando o consultámos sobre certos livros no ano 1826. Diz assim "o Livro dos livros, o Codex por excelência é a nossa Divinal Constituição; fonte próxima, ou vertente de toda a felicidade, manancial de todas as luzes, ilustração do Mundo, desvelo dos sábios, parto único da humana sapiência, raio brilhante, e quase emanado da luz celeste; e como Horácio com os exemplares Gregos, a volvo, e revolvo com mão divina, e nocturna: com ea me amanhece, com ela me anoitece, nela medito, nela aprendo, e digo com o mencionado Horácio "Totus in hoc sim". Todo eu estou nela, e ela em mim; com ela vejo, como me ensinam os papeis públicos, abertos os canais, e abertos para a Agricultura, e para o Comércio, que são os nossos verdadeiros nervos, e do Estado, ela nos tirou do abismo, como dizem os mesmos papeis, e pôs esta mesquinha Hora dos Portugueses na linha, e na lista das Nações; só me escandaliza dizerem os sobreditos papeis que sou da quarta ordem, como na Constituição passada, e demagógica dizia o sábio Couto do Juiz do Povo, e seu Escrivão, chamando-lhe Magistrado da quarta ordem." Se a força da Ironia é mostrar o contrário do que se diz, vejam os Senhores Carteiros que conceito nos merece a sua Divinal!!) D. Tr.

ETERNIDADE - Quer dizer: coisa de um ano até dois, quando a eternidade é uma eternidade desesperada. Pode ter-se por milagre quando algum regulamento democrático chega a esta eternidade.

INDIVISÍVEL - Até agora significava o que não se pode dividir; porém em língua moderna significa o que se pode, e deve dividir. Por isso não é para admirar que as indivisíveis Cispadana, e Traspadana se dividissem in infinitum, e deixassem sua indivisibilidade a sua filha Cisalpina.

(* O que o Autor diz a respeito das Constituições da Itália, em referência ao Piemonte, é  que nós podemos dizer da nossa Olisiponense relativamente à Gaditana, de quem era filha.) D. Tr.

(Fim do Nº2)
(o nº3, aqui

18/06/15

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 13 (II)

(continuação da I parte)


APPENDIX

Extrato de um projecto da Revolução, composto pelo Conde de Mirabeau, apanhado em casa de Madame Grai, por Le Grande seu doméstico, e vendido a Mr. Houle, Oficial no regimento de Dragões da Rainha, impressos depois com os outros escritos do mesmo género com o título Mistérios da Conspiração.

"Uma nação junta não se muda; só tem em vista o interesse comum para o estabelecer. Deve destruir toda a resistência: e atendei bem para isto. Nada pode ofender a justiça quando se trata do bem geral. Eis aqui o princípio. Trata-se agora de saber qual seja o caminho que é preciso tomar para chegar à restauração geral. É preciso destruir toda a ordem, suprimir todas as leis, anular o poder, e deixar o povo em anarquia. As leis que fizermos não terão logo todo o vigor, não o terão talvez depois; mas é preciso restituir a força ao povo: ele resistirá por sua liberdade, persuadido que a pode conservar. É preciso lisonjear seu amor próprio, e sua esperança, e prometer-lha a felicidade depois dos nossos trabalhos. É preciso iludir seus caprichos, e os sistemas que ele tem feito à sua vontade, porque o povo legislador é muito perigoso, só estabelece leis que coalisam com suas paixões. E como não haja mais que uma alavanca, que os legisladores movem à sua vontade, é preciso que nos sirvamos dele, fazendo-lhe odioso tudo o que quisermos destruir. É preciso semear a ilusão em todos os seus passos; comprar todas as penas mercenárias, que propagarão os nossos meios, e lhe farão ver que nós não atacamos mais que os seus inimigos.
O Clero, sendo o mais poderoso na opinião, não pode ser destruído, senão metendo-se a ridículo a Religião, tornados odiosos seus Ministros, e dando-os a conhecer como outros tantos monstros hipócritas; porque Mafoma, para estabelecer a sua Religião, começou por infamar o Paganismo, que os Árabes, os Sarmatas, e os Seytas professavam. É preciso que a todos os instantes os Libelos abram um novo caminho ao ódio contra o Clero: é preciso exagerar suas riquezas, tornar gerais os crimes, e os erros dos particulares, atribuir-lhe todos os vícios, a calúnia, o assassínio, a irreligião, e o sacrilégio. Nada de delicadeza, tudo é permitido nas Revoluções.
Venhamos à Nobreza. É preciso evitá-la, e dar-lhe uma origem odiosa. É preciso estabelecer um gérmen de igualdade, que não pode existir; mas que lisonjeará o povo.É preciso sacrificar os mais preocupados, incendiar, e destruir suas propriedades, para intimidar os outros. Senão pudermos destruir inteiramente a preocupação da Nobreza, no menos a enfraquecermos, e o povo vingará seu amor próprio, e seu ciume, com todos os excessos, que obrigam os Nobres a fazer o que nós quizermos.
Enquanto à Côrte, é preciso eclipsá-la aos olhos do povo, anulando todas as leis, que a protegem. O Duque de Orleães não omitirá causa alguma para dar explosão à sua vingança. É preciso degradar a Corte até tal ponto, e com tanto excesso, que em lugar de veneração, o povo não tenha mais que ódio, e aversão a seus Soberanos. É preciso que os considere como seus inimigos, e que esteja pronto a se vingar. É preciso lisonjear o soldado, levantá-lo contra a autoridade legítima, fazer-lhe odiosos seus Oficiais, e os Ministros: aumentar seu soldo, fazendo-o o homem da Nação, e não do Rei: enviar-lhe emissários, que o instruam nos nossos projectos, e fazê-lo patriota. E não vedes vós que sem isso nossos inimigos iludiriam todas as nossas vistas, todas as nossas combinações, todos os nossos meios, pela força das armas? Passemos aos Parlamentos.
É preciso representar ao povo sua venalidade, que recaiu sempre sobre o mesmo povo. É preciso mostrar-lhe os Magistrados como déspotas altivos, que vendem até os seus mesmos crimes. O povo ignorante e bruto só vê o mal, e não o bem das coisas. Não digo nada dos Financeiros. Será infinitamente fácil convencer o povo que tudo são abusos na administração da fazenda, e que só merecem indignação os que a ela presidem. Notai bem que o Rei, e os Grandes procurarão frustrar a nossa Revolução com guerras intestinas, ou com as Estrangeiras. É preciso pois para que isto tenha um completo êxito levar o espírito de independência a todos os povos circunvizinhos. Isto não será coisa muito difícultosa. O Espanhol é muito inflamável, e geme há muito tempo debaixo do jugo tirânico do Despotismo, e da Inquisição. Os Italianos são tão arrebatados como os Franceses, e depois que começou a lavrar entre eles o espírito Filosófico, desprezam a Tirania. O Alemão é mais difícil de se mover; porém sua escravidão o indigna contra seus déspotas. É preciso espalhar ouro em Alemanha. Todos os que se deixarem corromper, propagarão a insurreição. O Brabante se inflamará com o mais leve assopro. A Holanda é toda nossa. A Inglaterra nutrirá, e sustentará nossas desordens. Seu ódio natural contra os Franceses não lhe deixará tomar um partido generoso para defender nossos direitos, se neste partido não divisar seu próprio interesse. Quando o Gabinete de S. Jaime nos queira fazer guerra, opor-se-hão os Comuns, porque nós lhes diremos que o que pretendemos é destruir o Despotismo, e a Hidra feudal, e fazermô-nos livres, como eles são. A Prússia tem vistas, que poderão  prejudicar; este Reino não nos deve meter medo; não é uma Potência, que possa afrontar um grande povo ardente, e impetuoso como são os Franceses. É preciso aguerrir este povo. É preciso mais que tudo fixa-lo na defesa das fronteiras, e para isto cumpre nutrir e acender seu furor, alentar suas esperanças com a supressão dos impostos: intimar-lhe surdamente a matança, e extermínio dos inimigos da Revolução, como um dever útil ao Estado. Nós devemos exigir o juramento a todos aqueles, que se juntarem a nossos projectos, e formar diversas sociedades, que em suas sessões tratem o mesmo assunto, discordando (para disfarçar) de opinião.
Enfim importa admitir o povo nos estabelecimento, que devemos criar, concedendo-lhe a voz deliberativa nas Assembleias gerais; isto lhe dará um veículo de honra, que lhe fará andar a cabeça a roda. Mas é preciso não deixar às Cameras mais do que um poder limitado. Se lhes deixarmos muita força, seu Despotismo será muito perigoso. Lisonjeemos o povo com uma justiça gratuita; prometa-mos-lhe uma diminuição de impostos, e uma repartição mais igual. Estas vertigens o hão de fanatizar, e removerão toda a resistência.
Ah! Que importam as vítimas e seus números, as espoliações, as destruições, os incêndios, e todos os efeitos necessários de uma Revolução? nada nos deve ser sagrado!" (Tirado da Refutação dos Princípios Metafysicos, pág. 222).

Este Documento original e autêntico contêm em si todos os princípios de irreligião, e imoralidade: os Pedreiros Livres o pertenderão negar; mas o que eles praticaram na França, na Itália, em Espanha, e em Portugal, manifesta bem a sua autenticidade, e que este é o seu Cresto, ou Cartilha, por onde se governam, e querem deste modo arrancar de entre os homens a Religião, e os bons costumes, e precipitá-los no abismo de todos os males: são portanto os maiores inimigos do género humano. Só poderemos ser felizes pela Religião, e pelos bons costumes; e como esta infernal seita trabalha por destruir estes dois princípios, somente com o extermínio dela poderemos aspirar à nossa felicidade.

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LISBOA: NA IMPRESSÃO RÉGIA. 1823
Com licença da Real Comissão de Censura.

17/06/15

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 16 (II)

(continuação da I parte)

Livros

Ainda terei ocasião de patentear as equivocações e paralogismos das Côrtes Lusitanas sobre o artigo da censura dos livros, matéria esta em que os factos são mais poderosos que os raciocínios; e por agora satisfaço-me de ponderar que apenas os egrégios canonistas furtaram à Igreja todo o exame dos livros, nunca mais de pôde ter mão neles, para que não inundassem e pervertessem os reinos onde a autoridade civil se apossou daquela censura. Descansem por uma vez os engenhosos fabricantes de novas máquinas regeneradoras, que cedo ou tarde se voltará tudo contra eles, e uma desgraçada experiência os convencerá de que há certos interesses ligados intimamente à Fé, os quais só ficam bem nas mãos de uma Depositária fidelíssima, qual é a Igreja de Deus.

Um dos primeiros cuidados da nossa regeneração foi soltar os diques à torrente de maus livros, que até esse tempo se vendiam às ocultas e debaixo do capote, e dar amplíssima faculdade aos livreiros para terem sobre os mostradores A religiosa de Diderot, as obras mais ímpias de Voltaire e Freret; que as de Rousseau, não obstante o serem proibidas há muitos anos pela Real Mesa Censória, já se vendiam antes de 1820 sem rebuço, o que não admira, quando em Julho deste ano de 1823 se imprimia na Tipografia da Universidade o Contrato Social, porventura a fim de se radicar mais e mais a adesão e fidelidade ao Trono Português. Quase não havia neste Reino uma loja de livros, que não se tivesse mudado em em uma botica a mais bem sórdida de venenos, para se matar com eles quem se desgostasse de viver segundo os preceitos do Cristianismo. Para direcção dos novos costumes liberais tinha acudido um enxame de exemplares das Cartas do Lente de Matemática José Anastácio, onde se metem à bulha os dogmas do pecado original, da predestinação, das penas eternas (freio este que os Liberais tratam logo despedaçar a todo o custo), e a imortalidade da alma, e sua liberdade, etc. etc.. Guardarão a simples decência de lhe assinarem a cidade de Paris, como o lugar em que tinham sido impressas, quando por todos os exames e combinações se depreende claramente que tinha sido em Coimbra... Pois que impulso não deram à veneração das coisas santas, e à observância dos preceitos da Igreja um Cidadão Lusitano, e as Superstições descobertas?

Que nuvem de Santos de pau carunchoso não ameaçou procriar o licencioso retrato de Vénus? Que virtuosas donzelas, que boas mães de família não devia formar a piedosa leitura do Toucador das Senhoras, onde se lhes propinou desaforada e periodicamente o que há de mais venenoso em todos os escritos modernamente dedicados à obscenidade? Se algum destes livros, como notoriamente incurso nos abusos da liberdade de imprensa, era denunciado ao Júri, lá estavam os incorruptos e venerandos Jurados de Lisboa, que deixavam passar carros e carretas, e que, ouvindo a convicção íntima de suas melindrosas consciências, achavam que a licença franca de seguir os prazeres carnais, como outras tantas virtudes, e o escárnio das obras inspiradas e canónicas era um simples jogo de crianças!!! Pois um certo periódico mensal chamado Compilador, que meteu a salvo nessa farragem de inépcias quanto lhe veio à cabeça para mofar de tudo que é sagrado, e especialmente dos milagres, a que a devoção dos Portugueses tem dado há séculos inteiro crédito!! Pois o tom dictatório com que o Diário do Governo, ou das parvoíces, metia a sua colherada nos assuntos religiosos, confundindo e enxovalhando tudo!!! Os periódicos e mais impressos constitucionais seguiram a doutrina e sistema anti-religioso da Assembleia Francesa. Esta Assembleia extinguiu as ordens religiosas, e proibiu que os regulares trouxessem o hábito das ordens extintas. O Teólogo regular que escreveu as Memórias para as Côrtes Lusitanas decretou o mesmo: "Enfim (diz) o nome de Frade nunca mais deve lembrar, nem vestuário que o indique", e as Freiras são incluídas nesta extinção. O mesmo decretou o Dr. Apóstata; nas suas advertências úteis à pág. 30 n.º5, falando das Freiras, diz: "dispondo as coisas de modo, que com andar dos tempos se venham a extinguir" etc., palavras que declaram bem a sentença de morte contra os regulares. Mas outro ex-Frade e vagabundo Teólogo decreta a sua extinção com mais infâmia nas suas reflexões sobre um e outro Clero. Ele repete contra estas ordens respeitáveis os impropérios e calúnias dos hereges, e professa contra estas instituições religiosas o mesmo desprezo, ódio e rancor dos ímpios.

Este mesmo como o Teólogo Frade estabelecem todas as máximas da Assembleia Francesa, e justificam e autorizam o Congresso Português para as decretar. Ele quer a tolerância até ao ponto de se unir o Teólogo com o Filósofo: quer a extinção do Santo ofício: declara o Congresso autorizado para as reformas eclesiásticas: quer a extinção das imunidades, e o saque dos bens eclesiásticos, que declara nacionais e pertencentes à Nação. O ex-Frade zomba e escarnece de toda a Teologia; afirma que a Polémica tem feito hereges, a Mística doidos, e a Exegética até ateus. Ele quer que se desterre essa ciência, e que a Religião seja ensinada só por um Catecismo. Mas quem deverá fazer este Catecismo? Será um Teólogo e Mestre da lei? Isso não quer o ex-Frade. Chama questões de insignificância às que se suscitaram no séc. IV entre os Arianos e Católicos, e fala com desprezo delas, tendo em nenhuma monta a defesa de um dogma fundamental da Religião, como é o da Santíssima Trindade; nem é menos notável quando fala nos debates teológicos a favor da doutrina da Graça desde Santo Agostinho até nós.

D. Pedro de Alcântara, Imperador do Brasil, deu ordem de extinção de todas as Ordens religiosas em Portugal.

Para justificar a autoridade, que dá ao Congresso para as reformas eclesiásticas, não só calúnia os Concílios, e até os gerais, mas também afirma que sente mal destas Assembleias gerais. Ele as tem, como os Protestantes, por meramente humanas, isto é, não vê nelas senão homens, e as paixões dos homens, o que é injurioso ao Espírito Santo que as dirige, e às promessas de J. C. à sua Igreja, que tão positivamente nega. Este Teólogo confirma com a sua doutrina o que o Reformador da Itália dizia em 1769: que a Seita Teológica estava já adiantada em Portugal.

Item decretam contra os celibatários, e que ao Papa se peça licença para que os Frades e Freiras de pouca idade se casem. Podia-se-lhe repetir aquela sentença de Erasmo a Lutero: "A vossa reforma acaba, como as comédias, em casamentos, e provar com Bergier que é mais prejudicial à república civil e moral o celibatário da libertinagem do que o eclesiástico e religioso. Decreta mais a reforma das rendas dos arcebispos, Bispos, e Cónegos etc., e com poder mais que pontifício os põe a pão e laranja, e extingue os dízimos com fundamento de que não são de direito divino. Em consequência desta abolição manda sustentar o Clero secular pelos seus fregueses. Que política1 lançar uma nova contribuição ao povo para lhe tirar os dízimos a que estava acostumado: e que doutrina! J. C. ordenou que os que servem o Altar vivam do Altar, e proibindo-lhe o implicarem-se em negócios seculares, não lhe especificou e realizou esta côngrua e quota, e não pertencia à sua Igreja o realizá-la, quando isto se fez necessário? Pode haver autoridade mais legítima do que a Comissária de J. C. para todos os assuntos religiosos? E como estes dízimos não foram taxados por J. C., mas sim pela sua Igreja, decide que sejam abolidos, e até o seu nome. E quem não vê que pretendem nisto reformar mais o poder da Igreja que os Eclesiásticos? Nem um Concílio geral faria tanto. mas se por não serem os dízimos de direito divino devem ser abolidos, que outra coisa se lhes poderá substituir que não fique sujeita á mesma sentença de abolição dada pelo mesmo direito, e pelos mesmos juízes? Sustentem-se de pensões dadas ou pelos povos, ou pelo Estado; e afinal que teremos, senão decretos de direito humano para a sustentação do Clero? e por mais que se decrete para se substituir os dízimos, ficará sujeito à abolição pelo mesmo fundamento de que não é de direito divino. O fim destas reformas era, à imitação da revolução da França, tirar aos Eclesiásticos a sua côngrua sustentação, para que diminuísse e acabasse o Clero, e com ele a Igreja, porque esta não subsiste sem Ministros. e se a côngrua sustentação deles é de direito divino, não será contra direito divino tirar-lha? Veja-se Bergier sobre este ponto.

Item extinguiram estes dois Mações a Ordem de mala, e das Comendatarias, e até as músicas das Catedrais, e tão republicanos como os da Assembleia de França, queriam dar cabo dos vínculos, e nos eclesiásticos de toda a representação civil. Abolindo assim pelo primeiro decreto a Nobreza ou aquilo que a sustentava, e pelo segundo o que constitui o Clero um dos estados da Monarquia, reduzindo por estes dois decretos a Monarquia a um estado popular. Ambos decretam a tolerância universal, que é o mesmo que religião nenhuma.

O Reformador regular exclui, como a assembleia Francesa, o Papa da eleição e confirmação dos Bispos, cometendo-a a um Concílio nacional; e o Apóstata acrescenta que toda a dignidade eclesiástica será dada pelo Rei e pela Nação, e que nunca mais se torne a recorrer a Roma para a sagração de Arcebispos, Bispos, e Párocos (sagração de Parcos!!), porque (diz este fauto) não consta que J. C. desse mais poder ao Bispo de Roma que aos mais Bispos; seguiu o erro condenado de Mersilio de Pádua, e é Protestante, porque nega o primado de autoridade ao Sumo Pontífice, e é réu do Alvará de 30 de Julho de 1795, por igualar os Bispos ao papa seu Primaz. Uns tais Bispos não teriam Missão divina, e uma tal doutrina nasceu do espírito de insubordinação com que sacudiram o jugo das leis da Igreja, e lhe negaram o influxo do Espírito Santo. Fiquemos por aqui.

Eis aqui muito em grosso uma noção sucinta do que nós aproveitámos durante o Sistema Constitucional, que, se por nossos pecados, chega a ter mais um ano de duração, creio firmemente que seriam irreparáveis os seus danos. Entretanto será coisa bem lastimosa que não seque de todo a fonte que ainda corre dos países estrangeiros, e que o Império civil não desembainhe quanto antes a espada da lei para castigar os seus infractores; visto que será inútil qualquer outro remédio enquanto a nossa mocidade se imbuir das perversas doutrinas de tais mestres, que seriam os únicos autores de nossas maiores desgraças, se os mestres vivos, e existentes não fossem ainda mais para temer.

(continuação, III parte)

12/04/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº1 (V)

(continuação da IV parte)
E que poderemos dizer de um sistema, em que cada um se acha na dependência absoluta de uma multidão desenfreada, que só respira o roubo, e os assassínios, de um sistema em que não há outra lei, que a força, outra liberdade, que as paixões, nem outra regra, que nossos desejos; no qual por nossas absurdas constituições estabelecemos o Mundo Moral com os pés para cima, e a cabeça para baixo; em que por meio da regra do grande número se fazem os homens senhores do Todo-Poderoso, os filhos dos pais, os criados de seus amos, os vassalos de seus Soberanos, os membros da cabeça, os exércitos de seus Generais, os diocesanos de seus Bispos, os pobres dos ricos, as últimas famílias das primeiras, os que nada têm dos que alguma coisa possuem; de um sistema em que os  princípios mais evidentes da natureza e do nascimento, das sociedades e da subordinação são destruídos, despedaçadas todas as leis da Moral, e da Religião, arruinadas as autoridades Divina, e Humana, lançados por terra, e arrancados os limites da licença; em que a ínfima ralé de tudo recebemos de seus mãos, bens, honras, e poderes: em que Deus nada figura; pelo qual (sistema) não lhe devemos nem culto, nem adoração, nem sacrifícios; pelo qual os Templos são destruídos, arruinadas as Igrejas, alvitado o Sacerdócio, e assalariados seus Ministros; pelo qual se pode adorar, ou não adorar; fazê-lo cada um a seu modo, seguir suas leis, ou não as seguir, ter fé, ou não a ter; um sistema, pelo qual a ínfima ralé, em razão do grande número, tudo domina, tudo governa, e tudo decreta; pelo qual pode fazer quanto lhe vier à  vontade, amotinar-se, reunir-se, assassinar, pedir partilhas das terras, esbulhar a seus Legisladores, e pedir outros Representantes; saquear as casas, e degolar os proprietários; pelo qual é preciso contemplá-lo em suas mesmas sedições; um sistema finalmente, em virtude do qual não é lícito enviar tropas contra este Povo sem fazer-se culpado de Lesa Majestade Soberana?! .... Tudo isto é uma consequência necessária do princípio deste absurdo, chamado pacto social!.....
“Oh ! Vós todos, que tanto apreciais as vantagens dos Governos Representativos, (sejam de uma, ou duas Câmaras, porque na essência são o mesmo) conheceis bem seus  elementos, e tendes profundado suas consequências?!.... Vós, que pedis  seu estabelecimento, Soberanos ou súbditos, grandes e pequenos, quem quer que sejais, sabeis por ventura o que desejais? Tendes pensado bem, que assim será a ínfima relé quem vos dará a lei; a ínfima plebe senhora de cada hum de vós por si, ou por meio de seus Representantes?! E que esta ínfima plebe, que nada tem, não pode deixar de respirar o saque, e o roubo, os atentados, e os assassínios; que o inferno com toda a sua perversidade não podia imaginar uma cousa mais desastrosa; e que merecem os últimos suplícios todos os que insistem em pregar esta monstruosa doutrina?!....”
Até aqui o grande Apóstolo das legitimidades o Abade Torel. Na verdade não se pode mostrar com uma lógica mais convincente o excessivo, e contraditório absurdo do Pacto Social, nem se pode mostrar com uma eloquência mais triunfadora os tristes resultados de tão nefandos princípios. Oxalá que nas mãos de todos os Portugueses, que se jactam de ilustrados e Realistas, se encontrasse este Livro Divino, ele seria o antemurak contra as invasões democrático-filosóficas, e o escudo invulnerável, que preservasse os Povos dos tiros da Maçonaria. Para ele remetemos os Leitores desejosos de se instruírem cientificamente sobre tão importante matéria. Talvez nos arguam de prolixos nesta  digressão; mas só tudo achamos pouco quando se trata da Causa de Deus, e dos Reis, e quando é necessário desenganar os Povos, para que jamais deem atenção, a quem no meio deles se apresentar lisonjeando-lhe os seus direitos, e oferecendo-se para seus advogados "fugite partes adversae".

N.B. - Em Português acha-se traduzida esta Obra, hoje rara, porque os Pedreiros, e Contrabandistas Sociais a consumiram; mas esta Tradução não é de muita estima, porque foi feita sobre a 1.ª Edição: o Autor fez 2.ª e 3.ª, a qual não só é muito mais aumentada, mas segue outro plano, a melhor método: de maneira que, a que se acha vertida em hermoso Castelhano, belo tipo, e excelente papel, e se Deus o permitir, e os meus Compatriotas não desestimarem este meu trabalho, que a eles consagro, ainda poderão ter em linguagem esta 2.ª Edição, para que nela vejam arrancados pela raiz todos os princípios democráticos. É já tempo de que as nossas ideias se fixem sobre a verdadeira base da sociabilidade. D. Tr. 

SETEMBRIZAR [Septembrisar] - Este Vocábulo foi um dos primeiros enfeites, e adornos da Língua Republicana. É de origem Francesa, e significa matar inocentes, porém de um modo que horrorize até aos tigres. Em sentido rigoroso não convém inteiramente à Itália; porém no sentido lato, como é, despojar, oprimir, tiranizar, etc. etc. optimamente lhe convém; porque neste sentido não só tem sido Setembrizada, mas ainda Novembrizada, e Dezembrizada, e por quantas horas, dias, e meses tem o ano. Daqui é que praticamente se introduziu na Língua a Democrática.

(* Podemos dizer o mesmo de Portugal, que o Autor diz da Itália. Entre nós não chegou a ter o seu verdadeiro e rigoroso sentido a palavra Setembrizar; (graças à Providência que nos livrou, servindo-se de um instrumento visível, que foi o Senhor D. MIGUEL) mas em sentido mais extenso, isto é, de despojar, oprimir, tiranizar, etc. etc. claramente a vimos posta em prática pelos nossos Regeneradores Políticos (isto é, ladrões descarados). Foi a nossa Pátria Augustizada pela Revolução de 1820, em que se abriram os diques à impiedade, à blasfémia, e em que o país clássico da fidelidade foi profanado pela perfídia de uns monstros, cujos nomes e feitos serão sempre execráveis à posterioridade!.... Foi Setembrizada quando em Lisboa retumbou o eco medonho da Revolução Portuense, com um escândalo sem igual, fazendo que o dia sempre memorável da Restauração Portuguesa contra o Tirano da Europa tivesse o nefando contraste de uma perfídia, que arrancou o Septro do Poder das Mãos, que legitimamente o empunhavam, para o entregar a uma cáfila de bandidos, pérfidos, e rebeldes, que em nome do Povo Soberano começaram o saque geral dos direitos, propriedades, e vidas. Foi Novembrizada pela célebre desavença entre os nossos Regeneradores, que não chegando os altos empregos, a que todos aspiravam, para tantos empregadores da fortuna alheia, pretenderam uns suplantar os outros, e pela boca dos canhões, e pela eloquência das baionetas se quis anunciar a Constituição Espanhola! Com a maior justiça se deu a este grande feito da Regeneração o nome de Martinhada, e seria talvez melhor chamar-lhe Borracheira Maçónica. Foi finalmente Dezembrizada por todas as horas, dias, e meses, em que ditaram as Leis ao próprio Soberano, dilapidaram os Mosteiros, profanaram os Templos, etc. etc.. E se da primeira Época Revolucionária passássemos à segunda, ou Carteira, veríamos a mesma farsa, sem dúvida mais perversa do que a primeira; porque o crime nunca é tão terrível como quando se cobre com a capa da virtude; nem a revolução tão medonha como quando se apresenta com os enfeites e atavios de Legitimidade! As carnes de Soldados fieis caindo a pedaços na praça de Alcântara (sed multa sileo!...) é um monumento eterno desta verdade.) D. Tr.

(continuação, VI parte)

24/03/15

MASTIGÓFORO - INTRODUÇÃO (III)

(continuação II parte)

Ninguém definiu melhor as amnistias do que um Rei, que vinha sentar-se num trono, rubicado com o sangue do seu malfadado Pai. Quando propuseram a este Rei (Carlos II de Inglaterra) a amnistia, e o esquecimento, disse para os circunstantes "Entendo; amnistia para os meus inimigos, e esquecimento para os meus amigos." Já notei em outra parte dos meus escritos, que esta amnistia pareceu tão excessiva, e desaresoada ao Parlamento, que exceptuou dela os matadores de Carlos I, para que a Europa não julgasse pelo esquecimento, ou perdão de tal crime, que a nação fora cúmplice de Cromwel, e seus sequazes. Muito mal trazidas foram pelo discursador as amnistias de Henrique IV de França, e de Filipe V de Espanha. Teve aquele Rei muitos contradictores à sua elevação ao trono, por ser Protestante, logo que cessou este motivo, cessaram as maiores contradições; e os que fugiam de Henrique IV ainda herege, vieram deitar-se aos pés de Henrique IV já católico, e seria preciso nestas circunstâncias, que o Rei desmentisse a profissão de católico, para negar o perdão, aos já convertido sem seus amigos: Filipe V sabia perfeitamente, que nem o ódio à sua pessoa, nem o desprezo da última vontade de seu antecessor, eram o fundamento da viva oposição, que lhe fizeram algumas Cidades, e Fidalgos de Espanha, e não mostraria ser próximo descendente de Henrique IV se punisse severamente qualquer adesão ao seu competidor, e por ventura como dotado que era de alma nobre, teria sobejos motivos para admirar a constância dos que intimamente persuadidos da justiça do Arquiduque, tinham feito os maiores esforços para sustentarem o que lhe parecia direito; só o traidor que se vende a todos os partidos, merece o desprezo de todos, porque nenhum servirá de coração, e como importa... É pois audácia Maçónica levada aos últimos apuros, o quererem tais homens comparar-se aos homens de outro tempo, em cujas almas nunca frutificaram as venenosas sementes do mais descarado Ateísmo. Se Henrique IV, e Filipe V tiveram a desgraça de encontrar no seu Reino pessoas imbuídas de princípios anti-sociais, como são os Pedreiros Livres, teria mais que cortar a espada, que feriu o Marechal Biron, e muito mais que escrever a pena, que lavrou a sentença do Almirante de Castela... Enfim, se os Pedreiros querem amnistias das novas, que possam ter certa analogia com a que eles tão ansiosamente demandam, e meter à cara, limitem-se ao caso da revolução Francesa, e à triste necessidade, que obrigou Sua Majestade Cristianíssima, a olhar benignamente, e até contemplar com mercês, e favores, os próprios que cortaram ao ferro da guilhotina a cabeça do seu Augusto Irmão Luís XVI. Mas que vantagens tirou ele desse generoso, e nunca visto esquecimento de injúrias feitas ao trono? A sua primeira amnistia aos Franceses, depois de restituído ao trono dos seus maiores, produziu o efeito de se trabalhar em Paris, a cara descoberta, no regresso do usurpador, e tal amnistia, que bem longe de o firmar no trono, o fez baixar dele, não é das que favorece o discursador. Se voltarmos para a segunda, é certo que os mais envolvidos na segunda entronização do usurpador, se evadiram pela fuga à severidade das Leis, que se eles tivessem ficado em Paris, ou em qualquer outra parte de França, teria o Marchal Ney mais companheiros na sua desgraça. Da segunda amnistia foram exceptuados os regicídios, pois ninguém dirá, que o ser arrojado para fora da sua pátria, seja um galardão, e uma felicidade; no meio porém de tudo isto importa sabermos qual é a opinião dos homens sisudos da França em pontos de amnistia. Eu começaria agora pelo testemunho de Mr. de Chateaubriand, se o verídico, e eloquente Abade de Vilar (Luís Gaspar Alves Martins - Na sua excelente Dedicatória a ElRei Nosso Senhor, que vem à frente da tradução da Questão nacional do Abade Barruel, e onde a linguagem do coração, arrebata, e faz extasiar os verdadeiros amigos da pátria, por mais vezes que a leiam, e meditem) não tivesse já escolhido o melhor, e mais terminante de quanto diz a este propósito aquele grande homem de Estado; e por isso deverei cingir-me a outras autoridades menos respeitáveis sim; mas nem por isso menos verdadeiras.

Luis XVI
Ninguém a meu ver tem discorrido mais a propósito sobre as amnistias, do que um anónimo Francês, o qual depois de se lastimar com toda a razão, de que a palavra amnistia tinha sido 25 anos como o sinal de novas desgraças, por tal modo, que proferida desde os primeiros ensaios da revolução Francesa, acarretou logo as mortandades de Avinhão, após esta os furores de Setembro, e imediatamente o regicídio de Luís XVI, acrescenta o seguinte "Se um homem cuja habitação se tivesse alagado, querendo logo a toda a força viver debaixo de coberto, edificasse outra com os próprios entulhos da primeira, dispostos quase da mesma sorte, em que a sua queda os deixará,, o viajante que ali passara no tempo do desastre, voltando poucos dias depois, certamente se admiraria de ver ao longe o novo trabalho, e da prontidão com que se fizera, mas chegando-se perto, havia de trocar a sua admiração em lástima. É preciso, diria ele, que seja bem grande a cegueira do dono desta casa, pois não vê que ela há-de cair assim como a primeira.... Reflectindo sobre a nossa revolução , o povo Francês, edificando uma nova constituição, apenas outra, apesar de todas as suas diligências, lhe tem escapado, e pondo o esquecimento do passado, e a conservação de todas as injustiças, como o principio fundamental de todas as constituições, parece-me aquele homem de que há pouco falei, todo embebido em reconstituir a sua casa, e tomando cuidados inúteis para a livrar de outra queda." (Du Minist. par. Leopold de Massacré, pag. última.)

Ora aqui está o conceito em que os bons Franceses têm essas decantadas amnistias, e se parece ao Discursador, que a indulgência de Luís XVIII o tem consolidado no trono dos seus maiores, engana-se torpemente. Já observámos o que ele tirou da amnistia, concedida no ponto de reassumir o ceptro dos seus maiores. Tudo ia ás mil maravilhas, tudo eram incensos, e adorações ao vivo retrato de bondade de Henrique IV, e vai senão quando aparece o homem da Ilha de Elba, conquista a França sem dar um tiro, e vai enxovalhar segunda vez o trono dos Borbons na França, convulsa, e atemorizada, porém quieta, e sem se mexer, quando o seu Rei fugia, ou se retirava. Não fosse o poder dos exércitos Aliados, não fossem os heroísmos, obrados no campo de Waterloo, e veríamos quem ainda hoje ocupava o trono da França! Se Luís XVIII já tem conseguido espezinhar o monstro, que insuflara o General Breton, e os Liberais, ou Pedreiros, seus cúmplices, deve-o muito menos ao amor dos Franceses, do que aos seus poderosos Aliados. Sucedesse, o que Deus não permita, que os magnânimos Alexandre, Francisco, e Frederico, entregavam a França ao seu destino, e protestavam abrir mão de sustentarem à força de armas o princípio da legitimidade, e veríamos a que ponto chegava ainda a influência revolucionária, naqueles já sobremaneira escarmentados povos "Eu sou chamado invencívelmente (escrevia a este propósito um Autor Francês em 1815) para as ideias, que nunca me deixam, e que me perseguem em toda a parte; eu lhe acrescentarei novas explanações, pois nisto é que está o perigo todo, e só desta arte poderemos achar salvamento. Já pintei o mais vivamente que pude, essa inaudita harmonia, que se dá em os numerosos agentes da revolução; eu os mostrei, formando no meio do estado, outro povo sujeito a Leis particulares, estabelecidos em uma hierarquia maravilhosa, para mandar, e obedecer, tão despótica em mandar, como servil em obedecer, e que tem por este modo a dobrada organização de uma sociedade secreta de Iluminados, e Pedreiros, que medra, e se fortifica no seio das trevas; e de uma potência política, que manobra com estampido, logo que é necessário, e quando é necessário. Nesta combinação a mais infernal, que nunca inventou a malícia humana, poderá a Irmandade fazer quanto quiser, enquanto o principio da sua existência não for atacado, e toda a potência, que enviarem contra ela, e que não trate senão de a combater por meio de concessões, e mudanças tímidas, e parciais, não poderá ter senão uma existência frágil, e passageira. Com efeito apenas derem a esta máquina política, e misteriosa, chefes que lhe sejam estanhos, logo os chefes verdadeiros se acolhem à sombra, e por meio de uma simples comunicação, como alguns dos principais subalternos, as relações directas acham-se imediatamente restabelecidas; se intentarem romper-lhe as fileiras, metendo-lhe de permeio, alguns sujeitos, hábeis na dissimulação, procuram no mesmo instante entre os irmãos Pedreiros, e atrevo-me a dizer, quase por instinto, o ponto de contacto mais próximo, para entrarem desta sorte no movimento comum, que leva tudo consigo: Foi por este encadeamento habilmente combinado de tantas molas, dirigidas todas ao mesmo fim, que durante o ano da primeira restauração, Savary pôde governar a polícia, Maret, ou Carnot o interior, e cada Perfeito adido a Bonaparte, o departamento vizinho daquele, onde tinham posto por escárnio um Perfeito Realista. Assim a execrável aranha restaura com uma actividade incessante as mínimas alterações, que experimenta o seu mortífero tecido, e escondida no centro deste laço inexticável, sente o mais pequeno abalo de seus fios os mais imperceptíveis, embrulha neles a sua preza, e depois de assassinar cobardemente, pode devorá-la sem perigo." (Des Revolutionaires, Paris 1815)

Daqui se vê claramente a índole dos Pedreiros na França, que é propriamente o centro da Maçonaria Europeia, e bem sei que a tudo isto se chama terrorismo ou exageração de princípios, mas nisso mesmo se descobre o espírito da seita, cujo fim é adormentar e iludir, para que ninguém pressinta a bulha que fazem os seus trabalhos subterrâneos, e o mais é que os mesmos da confraria lá de tempos a tempos deixam escorregar da pena algum dos seus melhores segredos. Reparem os meus leitores neste que lhes vou meter pelos olhos dentro, e vejam que tais são os amigos de trolha: "Todos os homens grandes foram intolerantes, e é necessário, que o sejam. Quando se encontre no caminho um Príncipe benigno, é necessário prégar-lhe a tolerância para ele cair no laço, e para que o partido esmagado tenha tempo de se levantar pela tolerância que se lhe concede, e de esmagar o adversário pelo seu turno." (Correspondance de Grimm 1. juin 1772, 1 part. Tom 2. pag. 242, et 243)

(continuação, IV parte)

17/02/15

CONTRA-MINA Nº 8: Os Maçons Financeiros (IV)

(continuação da III parte)

Foi necessário aos Jacobinos, e Maçons o dinheiro de metal para os fins seguintes:

1º - Comprar o Exército, e por isso começaram em 1790 por lhe dobrarem o soldo. Os Exércitos são os defensores naturais dos Reis, e das Monarquias. A maior parte da Oficialidade era sinceramente Realista, e bem o mostrou na emigração, por isso foi necessário espalhar grossas somas entre os Oficiais inferiores, para que estes desencaminhassem os Soldados, e assim mesmo custou muito a pervertê-los, o que ainda tractareis mais difusamente, quando me suceda falar no Exército Português;

2º - Assalariar os indivíduos, a quem a fome escaldava os cérebros, e fazia gritar sem tom, nem som pela igualdade, e que diariamente concorriam nas lojas, e clubs, para assim o dizer de capa em colo, e de barriga aventureira. Ora uns destes eram destinados para corromper o povo miudo, já da Capital, já das Províncias, e por isso careciam de seu trem, e aparato, e que nada lhes faltasse para desempenharem as suas comissões à vontade dos seus constituintes;

3º -  Para se dar um tanto por dia aos gritadores das galerias, e aos bandos armados, que vagavam pelas ruas de París, e por todos os Departamentos à caça dos Nobres, e dos Padres, e para outras comissões do mesmo jaez;

4º - Para semear a discórdia entre as Potências, que se tinham aliado contra a França, compras de Generais, de Ministros de Estado, já para ajudarem a Revolução, já para dormitarem nos seus respectivos empregos;

Propriedade privada do Banco privado Reserva Federal
5º - Para abonarem as grandes despesas da Propaganda Revolucionária, que tinha o seu sito principal nas Côrtes, e Cidades mais populosas, e Universidades, onde espalhava as suas doutrinas, e promovia o azedume dos Povos contra os Reis. N. B. Foge-me aqui da pena o emissário Barbanção, que se degolou em Lisboa com a navalha de barba, e outro de marca maior, o que escapou aos malsins do Intendente Pina Manique, de industria das pessoas, que menos o deviam proteger; e até me foge o Negociante Alemão da calçada de Coimbra, onde se alistaram Pedreiros Livres alguns Estudantes, que assim o têm consignado em letra bem redonda;

6º - Para satisfazerem as avultadíssimas somas prometidas aos Regicidas; pois que foi esta uma das primordiais aplicações do dinheiro Francês, colhe-se a posteriori de morte violenta de Gustavo III Rei da Suécia, e de outros que fizeram menos estrepitosamente, quero dizer, com veneno, de que por ora bastará somente pôr o ramo em Viena de Áustria, e na Pessoa do Imperador Leopoldo; e caso houvesse neste particular a mais leve hesitação, o sobredito relatório do Ministro St. Just é capaz de abrir os olhos a quem os não quiser ter fechados inteiramente à Luz: "O dinheiro mais bem empregado é o que se destina para nos desfazermos dos tiranos, e restituirmos ao Povo o direito imprescriptível de escolher quem os governe.".

Por mais espantoso, e horrível que tudo isto pareça aos meus Leitores, devem saber, que não se limitou somente ao que deixo expendido a insaciável cobiça que atormentava os rebeldes Franceses [um rebelde francês não é já um verdadeiro francês]. Bem sabem eles o poder dessa arma, que tem ganhado muitas batalhas, e rendido muitas praças, (que já dizia um bom entendedor antigo, que nenhuma era inconquistável, quando lá pudesse entrar um jumento carregado de ouro) e por isso tentando eles nada menos que republicanizar o mundo, forçosamente haviam de extorquir para este fim todas as riquezas Nacionais. De muito lhes entendiam à maneira de um antigo tirano, que estendia as suas victimas sobre um leito de ferro, mutilando umas, e deslocando os ossos a outras, para chegarem à perfeita igualdade, (e assim lho deitou na cara um ilustre Preopinante Mr. Vergignaud) e daqui veio que um certo Jan Fernandes, ou Cambon, Presidente do Tesouro Nacional de França, blasonava de cunhar moeda nas praças, onde se arvorara a Guilhotina, e que estas praças faziam as vezes de Casas da Moeda, onde as cabeças dos ricos eram outras tantas barras de prata.

(continuação, V parte)

16/02/15

CONTRA-MINA Nº 8: Os Maçons Financeiros (III)

(continuação da II parte)

Gritavam nesse tempo, e gritavam mui alto os Bergasses, e os Maurys contra a mais nociva, e mais escandalosa de todas as delapidações antigas, e modernas; porém um Fidalgo, um Marquês, um Montesquieu aplanou todas as dificuldades, trovejou desde a tribuna contra a orgulhosa aristocracia; (porque os Fidalgos Maçons costumam ser os mais abjectos servidores da Seita, para darem provas de adesão sincera) e fazendo subir os milhões da receita (só vocalmente e nada mais) fez uma risonha pinta do excesso da opulência, a que os trabalhos da Assembleia tinham levado a Nação Francesa; e a Nação Francesa ouviu e queixo caído as mais solenes imposturas, que nunca se ouviram, ainda aos mais resolutos, e mentirosos preopinantes. Quem poderá negar, que é esta numa parte dos castigos, que o Céu costuma infligir às Nações, que o têm ultrajado... A Nação Francesa é o povo mais rico do Universo, dizia o tal Montesquieu do alto da Tribuna, depois de ter afirmado, que as Rendas públicas estavam no melhor estado possível....

Enfim, dos Relatórios impressos de Montesquieu, e de Camus, se pode ver, que em lugar do alcance anual de 56 milhões de Francos, motivo este por que se fizera uma Revolução, deixou a Assembleia Constituinte, para demonstração da sua rara perícia, e habilidade em curar as feridas da Pátria, um alcance anual de 300 milhões de Francos!!! E seria mais feliz neste ponto a segunda Legislatura, ou a Assembleia Legislativa? Muito pior, visto que em menos de onze meses fez subir o alcance a mais 100 milhões: - decretou que o papel moeda chegasse a 3$ [ 3 mil ?] milhões; e mais desaforada, e sacrílega, que a primeira, saqueou à cada descoberta, e fez deduzir a moeda os próprios relicários, e urnas em que jaziam os Santos!!!

Luís XV
Porque fatalidade só avultou no conceito dos Franceses o Livro vermelho de onde constavam as tenças, e gratificações, que Luís XVI pagava talvez a sujeitos indignos, porém que lhe tinham sido pintados como credores destes subsídios, e o Livro vermelho não razava senão de 28 milhões anuais de despesas? Porque fatalidade, torno a dizer, se encareceram, a ponto de se fazer a Monarquia odiosa, os gastos de Luís XIV, que tinha em armas 500$ [500 mil ?] homens, e que não deve ser julgado somente pelas obras de luxo, e ostentação, mas pelas de conhecida utilidade, que imortalizaram o seu Governo? Porque fatalidade se engrossaram as depredações cometidas debaixo do nome de Luís XV, sem que do interior da França se levantasse um milhão de homens armados, que apontando as baionetas ao peito dessa cáfila de Maçons, lhes dissesse: "Tendes cara para que tão agramente censureis os vossos Soberanos, pela sua má administração, deixaria absolvido de toda a culpa o vosso Rei Luís XVI, ainda que ele tomasse anualmente do Erário de 28 milhões, para atirar com eles à corrente do Sena? Tendes olhos para ver, e não tendes visto;
que a Assembleia Legislativa em onze meses deixou a perder de vista essas chamadas prodigalidades de Luís XV?
que os gastos anuais do Governo deste Soberano deitavam a 800 milhões de francos, e que a Convenção não só o igualou, mas por certo o excedeu no curto espaço de um mês; pois mês houve, em que ela despendeu 900 milhões de Francos?"

Cheguei às campanhas Financeiras da Convenção, e não só fica dito o necessário para se conhecer, que ela em género de roubos, assim como nas outras violências do estilo, se há posto mui acima da sua antecessora, e predecessora; mas penetrando o coração de muitos dos meus leitores, parece-me que lhes noto uma certa desaprovação, de que eu desça a tantas miudezas Financeiras. Eu sei a razão porque assim o fiz, e tenho esperança firme, de que todos os meus leitores conhecerão em breve, que ainda fui o mais sucinto, e resumido que era possível...

Fizeram os Jacobinos Franceses toda esta série de latrocínios, para aumentarem, ou principiarem a sua fortuna individual, pois bem sabido é, que a maioria destes farrapões nem tinha beira, nem telha, nem ramo de figueira, nem donde caíssem mortos, ou a que pudessem chamar seu. Fizeram é certo. E não se adiantaram a mais as suas vistas, e observaram em si todas essas avultadas somas? Não, não e é necessário emendar certo erro, desgraçadamente mui vulgar, e que pode ser para o futuro de mui perniciosas consequências. Quando ouço dizer que a França já se empobreceu em tão poucos dias de revolução, pois ainda já de sacola na mão a pedir empréstimos, que dizem os papeis Franceses deitaram a 1500 milhões de Francos; e que os novos árbitros de França já roubaram, e converteram para os seus usos os milhões chegados de Argel.... dá-me vontade de rir, pois em que eles sejam, e tenham sido finíssimos ladrões, concordo eu; mas apélo para um certo relatório impresso do sanguinário, e antes monstro de que homem, ou representante de uma Nação polida, quero dizer St. Just. Foi este quem rasgou inteiramente o véu para se conhecer de uma vez qual fosse a principal, e genuína aplicação de tanto dinheiro de metal, que desapareceu de França.

(a continuar)

15/02/15

CONTRA-MINA Nº 8: Os Maçons Financeiros (II)

(continuação da I parte)

Mirabeau
Necker
Qual era a Dívida Nacional da França no chamamento dos Estados Gerais? Dois mil e seiscentos milhões de Francos, o que certamente exigia um remédio pronto, a fim de se atalhar, quando fosse possível, o progresso do déficit anual de 56 milhões, (que vem a dizer, o excesso da despesa sobre a receita andava por 56 milhões anuais) .... O principal arbítrio, que se tomou para este fim, consistiu em que o Protestante, e destruidor da igreja, e da Monarquia Francesa, o apupado dos Clubs, e das Lojas Mr. Necker, propusesse a venda dos Bens do Clero, que já tinham sido proclamados Bens Nacionais .... Decretou-se pois que se procedesse à venda parcial dos tais Bens Eclesiásticos, que produzisse 400 milhões de Francos, para se extinguir por este modo uma boa parte da Dívida Nacional. Ofereceu-se o Clero a satisfazer esses 400 milhões em dinheiro de contado; porém sendo como era o principal fim dos Conspiradores, como o é de todos os Revolucionários modernos "a extinção do Catolicismo" rejeitaram a proposta do Clero, e efectuaram a seu sabor, e sem a mais leve contradição a venda projetada. E por quanto andava o dinheiro de metal, que nesse tempo girava em França? Por 3 mil milhões de Francos. Enquanto eram avaliados os Bens do Clero? Em 2 mil milhões de Francos. E chegaria todo este dinheiro para satisfazer a insaciável cobiça dos Ladrões Jacobinos, ou Pedreiros? Não, pois logo traçaram o plano de fazerem girar 2 milhões de Francos em papel moeda, a que serviriam de hipoteca os Bens do Clero .... Não faltaram no recinto da Assembleia poderosos antagonistas, de que basta nomear o então simples Clérigo, e o mais ilustra defensor da Causa do seu Rei, e do seu Deus, e que depois já feito Cardeal foi um sórdido incensador de Bonaparte, (que a tanto chega a fraqueza humana!) quero dizer o Cardeal Maury; porém o infame, o adultero, o licencioso, o Ímpio Mirabeau, zombou de tudo, e prevaleceu a tudo, não tanto por força de sua eloquência, mas aparente, que verdadeira, quanto pela mais bem sucedida eloquência dos gritos, e assuadas das Galerias, e ameaças, e gritos de morte, que são uns meios decididos para se conseguir uma votação espontânea, e como se queria, e desejava. Passou a final, e foi aprovado por uma grande maioria de Deputados o Decreto dos assinados, ou papel moeda, que se levou à contra fixa de mil e duzentos milhões de Francos .... Já nesse tempo se tinham recolhido grossas somas da Contribuição chamada Patriótica, e apesar de todos estes grandes recursos, era tal o sumiço, que levava o dinheiro, que no mês de Maio de 1790, se mandaram tirar da caixa do desconto 28 milhões, procedentes do dinheiro de metal, com que aí tinham entrado vários Accionistas, e Particulares, que tinham trocado pelo papel, que corria em Paris ... Não tardou muito que o Banqueiro, e Financeiro Mor. Necker apresentasse o seu Mapa da Receita, e Despesa dos meses de Abril e Maio .... Foi tão bom, ou tão mau, que o fez decair de todo na opinião pública, e ser alvo de injúrias e sarcasmos, quando até esse tempo o havia sido de uma espécie de culto, e dos aplausos gerais da França degenerada. Foi então que a Assembleia proclamou a todos os Cidadãos, e Cidadans, que acudissem à liberdade periclitante, com todos os seus tratasse de ouro, prata, e diamantes, e outras preciosidades; e tal era o delírio dos [maus] Franceses nesta Época, que as Mesas da Assembleia se atulharam destas riquezas, havendo nesta ocasião cenas mui dignas de Plauto, e Molier, principalmente da parte das Cidadãs, que se lhe dá para Constitucionais, costumam ser Megeras ou Furias. Tudo isto porém foi uma gota de água doce que caiu no mar, e que é como se nunca tivera existido, porque daí a pouco, isto é em Agosto do próprio ano de 1790, foi necessário lançar mão de 40 milhões de bilhetes do Banco, para suprimir as despesas do Tesouro Nacional, enquanto não circulavam os assinados; e mal se tinham passado dois meses, tornou a pagar a Caixa de desconto mais trinta milhões; e não chegando esta quantia, voltaram-se à Caixa do extraordinário, que se criara para amortizamento, ou extinção da dívida pública, e daí tiraram 48 milhões em Outubro do próprio ano de 1790, e 80 milhões em Fevereiro do ano seguinte...... Já corriam os assinados, tinha desaparecido o dinheiro de metal... Pediu-se por bem a todos os Cidadãos, que levassem à casa da moeda todos os seus trastes de ouro, e preta para se trocarem por assinados; - e como este meio não produzira efeito, combinou-se a pena de confisco, e ainda outras mais graves, a quem não satisfizesse in continenti os votos da Assembleia. Renovaram-se os tributos abolidos; e em Março de 1791 procedeu-se ao saque geral de todas as pratas das Igrejas, que se reduziram a moeda corrente, e não lhe escaparam os sinos, que foram apeados, e convertidos em dinheiro. Entretanto o número dos assinados verdadeiros, e falsos já tinha subido muito acima do que se dispusera na sua criação, assim como diariamente subiam em descrédito, pois o rebate de 50% não distou muito da sua primeira introdução na França, e bem depressa chegou a 80 e 90%.

(continuação, III parte)

18/01/15

CONTRA-MINA Nº 12: Liberalismo Contra a Restauração de Luís XVIII ... (I)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 12
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Esforços da Impiedade, ou Liberalismo Para Anular os Efeitos da Milagrosa Restauração de Luís XVIII

"Luís XVIII, restituído por 700 mil homens armados ao Trono de seus Maiores, só deveria Reinar como tinham Reinado os seus antepassados, e nunca deveria ter sacrificado ao gosto inglês das suas Câmaras o interesse da sua Família, e a prosperidade da nação ["Reino"] da França. Quando ele sancionou com a sua aprovação a Liberdade de Imprensa, descarregou o primeiro golpe de machado sobre o tronco da Legitimidade, e apressou, quanto nele era, a sua própria desentronização, e a dos seus mais próximos Sucessores. Se toda a Europa em armas ditou leis à França, e humilhou as Águias do Império Francês, não menos temerosas, e formidáveis para as nações, de que tinham sido as Romanas, é certíssimo, que poderia levar ao fim a obra mui felizmente começada, se por acaso não prevalecesse em certo Gabinete a influência das doutrinas Liberais, e o desejo, a meu ver insensato, de se cumprir a ideia primordial do Ministro Pitt; como se fôra possível, que todas as nações da Europa se amoldassem à Constituição Inglesa!

Fosse porém muito embora, ou político, ou necessário, que não se exasperassem os ânimos de uma povoação de trinta milhões de habitantes, e que uma Família até esse tempo errante, e vagabunda, e talvez sem outra esperança, que não fosse a de imediatos auxílios do Céu, houvesse de ceder uma boa porção de suas essenciais prerogativas, para melhor, e mais facilmente se assegurar a paz do mundo; porém logo que raiaram os cem dias, e que o Trono de S. Luís tornou a ficar vago, quase sem o menor indício de resistência desses milhões de habitantes, que até ai juravam morrer em defesa do Rei Legítimo, parece que esta nova, e cada vez mais persuasiva lição da adversidade deveria abrir os olhos de Luís XVIII, e das Potências da Europa, outra vez influentes na própria Capital, e destinos da França. Para que deixar tão cheio de vida, e forças um corpo, que nem cede, nem cederá nunca senão a outras maiores? Deviam contar, que a França acharia em si própria mui fáceis remédios, não só para estancar o sangue, que lhe tiravam, mas também para adquirir, em menos anos do que foram os da sua ocupação pelos Exércitos inimigos, muito maior cópia de santue, do que fôra o perdido. Esta tão boa ocasião, já não digo de se coarctar, ou reprimir, mas de se cortar pela raiz a Liberdade de imprensa! Sofram os meus leitores, que eu me explique nesta grande questão, mais como religioso do que como político. Não entendo que seja possível, que um Rei Cristianíssimo, ficando tal, como efectivamente soa este glorioso título, possa admitir a Liberdade de Imprensa, que de necessidade traz consigo as horrorosas consequências, de que abaixo tratarei... Não me armo com isto em Juiz, ou Árbitro dos Soberanos: expresso, sem os ofender, o que sinto em minha consciência, e já agora assim espero acabar os meus dias.

E que direi da suma indulgência de Luís XVIII para com os rebeldes?Concede-lhes uma inteira amnistia.... (nunca se gastou melhor cera com defuntos mais ruins!) e pela sua vontade quisera perdoar mais outra vez aos que tinham condenado à pena última o desgraçado Luís XVI!.... Foram as Câmaras, e não ele quem exceptuou os Regicidas!! Ah! dispensem-me os leitores certa ordem, que eu me proponha seguir em minhas ideias, pois aqui não é fácil, que eu resista a um súbito, e fortíssimo desejo de lhes interromper o fio.... Um Decreto de amnistia geral concedida no séc. XIX, e concedida a Liberais, ou Pedreiros, faz um sentido equivalente a estas clausulas.... Vendo que não fostes bem sucedidos na vossa empresa, e lastimando a vossa desgraça, eu vos concedo agora o tempo necessário, para que restaureis as vossas perdas, torneis a concentrar as vossas perdas, torneis a concentrar as vossas forças, e vos prepareis ocultamente para algum dia cairedes de chofre em cima dos defensores do Altar, e do Trono, nem podem fazer senão à voz do Soberano. Não obstante a prova antecedente, e claríssima de que todas as amnistias, que até hoje vos foram concedidas, somente vos fizeram cada vez mais atrevidos, e pertinazes em o vosso sistema, hei-de esquecer-me de todo o mal, que tendes feito, porque desta vez chorareis de arrependimentos, e nunca mais tornareis a fazer outra... Basta, basta, que já foi corte demasiado (já, digo, nas minhas ideias, que nos Pedreiros tudo é pouco.)

A estas beneficentíssimas providências de Luís XVIII seguiu-se aquele dizer "o amalgamento dos partidos" Ficarão à testa das Repartições, ou tendo nelas uma parte não secundária, mas principal, as mesmas figuras, que tinham representado os mais hediondos papeis nos diversos Governos da França; e com estes elementos assim disparatados, e heterogeneos é que se pretendeu consolidar o Trono de S. Luís! Os Liceus, e Colégios, em que não basta renovar o toque dos sinos, ou campainhas, e desterrar os tambores, que isso é o menos, ficarão quase sem a mais leve diferença do que antes eram. Trabalhou-se incessantemente por desviar as Corporações Religiosas do ensino da mocidade, desfechando a tormenta sobre os Padres das Escolas Pias, e ainda com mais força sobre os Jesuítas...... Ao ver estes em França trepidou o já triunfante Liberalismo, e arrancando um gemido ab imo pectore, chamou às armas toda a Confraria, à qual pertenceu o segredo, que o trazia perplexo, confuso, e atormentado, como se lhe dissera.... "Se os Jesuítas vão educar a mocidade Francesa temos Cristãos inumeráveis em França, consguintemente adversários nossos também inumeráveis... É necessário acudir-lhes a tempo, se não, choraremos sem remédio a queda total do sistema."

É um Rei, que os chamara, que os protegia, e que neles considerava um dos esteios principais do seu Trono, viu-se obrigado a expulsá-los da França! Respirou por certo o Liberalismo com esta desejada expulsão, e como senhor, que era de todas as molas, que sustentam, e dirigem a máquina do Estado, e principalmente de todos os corações da estudiosa mocidade, fez todos os dias novos prosélitos, e achou-se em 1830 com uma força respeitável à sua disposição, e pronta a investir à primeira voz, e derrubar o Trono de S. Luís. Em vão o famoso Abade La Mennais, a quem os Pedreiros Franceses chamam "Santo Padre dos Molinistas e Ultramontanos", avisou a França inteira do preciício, em que fatalmente se despenhava; em vão alguns Prelados Franceses, com o Cardeal de Clermont à sua frente, expuseram humildemente ao Rei Cristianísssimo, em 1828, os seus bem fundados temores; nem aquele, nem estes defensores da boa Causa foram atendidos; pois o Liberalismo em tais circunstâncias sabe o como, e quando há de impingir a nota de rebeldes, e atentadores contra as Liberdades Galicanas aos Sacerdotes, e Bispos, que mais acatamento, e submissão professarem à Sagrada Pessoa do seu Monarca.

Lamennais
Assim mesmo desatendidos não esmoreceram, antes faziam sem diferença do passado, o que neles era, para manterem o Trono de S. Luís; porém tudo era baldado, e só lembraria o remédio heroico, e decisivo, quando havia de trazer a morte... Pareceu coisa estranha, e mui desusada, que uma Nação aparecesse quase toda Liberal.... que surdissem como debaixo da terra milhares de esquadrões armados, que soubessem enrostar as mais bem disciplinadas tropas; mas quem olhar imparcialmente para a ocasião, que tiveram os Liberais Franceses de minarem o edifício, de trabalharem a coberto de inquietações, e surpresas, no espaço de quinze anos, em que mais de uma vez aprenderam nas concessões, que se lhes faziam, quando era o medo, que eles inspiravam, e quão pouco disputada seria a victoria, quando encetassem a peleja, só terá de admirar, que esta segunda revolução se demorasse até 1830. Ora neste empenho, que era sabido em França, que nem se atalhava, nem já se podia atalhar, foi o Liberalismo poderosamente auxiliado pela sua íntima, e poderosíssima Aliada a "Liberdade de Imprensa" e aqui mesmo vou dar uma noção breve de seus serviços à Revolução de 1830.

(continuação, II parte)

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