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25/03/16

A SEMANA SANTA - Sto. AFONSO DE LIGÓRIO VI (Sexta Feira de manhã)

(ver anterior: Quinta Feira)


SEXTA FEIRA SANTA (pela manhã)
Morte de Jesus

Et inclinato capite, tradit spiritum - "E inclinando a cabeça, rendeu o espírito" (Jo. 19, 30).

Sumário - Contempla como depois de três horas de agonia, pela veemência das cores, as forças faltam a Jesus; entrega o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira. Alma cristã, diz-me: não merece porventura todo o nosso amor um Deus, que para nos salvar da morte eterna, quis morrer no meio dos mais atrozes tormentos? Todavia, como são poucos os que o amam e muitos o que, em vez de o amarem, lhe pagam com injúrias e ultrajes.

I. Considera que o nosso amável Redentor é chegado ao fim da sua vida. Amortecem-se-lhe os olhos, o seu belo rosto empalidece, o coração palpita debilmente, e todo o sagrado corpo é lentamente invadido pela morte. Vinde, anjos do céu, vinde assistir à morte do vosso Deus. E vós, ó Mãe dolorosa, Maria, chegai-vos mais próxima à cruz, levantai os olhos para vosso Filho, e contemplai-o atentamente, porque está prestes a expirar.

Pater, in manus tuas commendo spiritum meum - "Pai, em vossas mãos encomendo o meu espírito". É esta a última palavra que Jesus profere com confiança filial e perfeita resignação com a vontade divina. Foi como se dissesse: Meu Pai, não tenho vontade própria; não quero nem viver nem morrer. Se é vossa vossa vontade que eu continue a padecer sobre a cruz, eis-me aqui, estou pronto para obedecer sobre esta cruz, eis-me aqui, estou pronto para obedecer; em vossas mãos entrego o meu espírito; fazei de mim segundo a vossas vontade. - Tomara que nós disséssemos o mesmo, quando temos alguma cruz, deixando-nos guiar pelo Senhor, conforme o seu agrado. Tomara que o repetíssemos especialmente no momento da morte! Mas para bem o fazermos então, devemos praticá-lo muitas vezes em nossa vida.

Entretanto, Jesus chama a morte, que por deferência não ousava aproximar-se do autor da vida, e lhe dá licença para lhe tirar a vida. E eis que finalmente, enquanto treme a terra, se abrem os túmulos e se rasga o véu do templo, eis que pela veemência da dor natural, falha a respiração, Jesus abandona o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira: Et inclinato capite, tradidit spiritum - Parti, ó bela alma do meu Salvador, parti e ide nos abrir o paraíso, fechado até agora, ide apresentar-vos à Majestade divina, e alcançai-nos o perdão e a salvação.

As pessoas presentes, voltadas para Jesus Cristo, por causa da força com que proferiu as suas últimas palavras, contemplamo-no com atenção silenciosa, vêem-no expirar, e notando que não se move mais, dizem: Morreu, morreu. Maria ouve que todos o dizem, e ela também exclama: Ah, Filho meu, já morrestes; estais morto.

II. Morreu! Ó Deus! Quem é que morreu? O Autor da vida, o Unigénito de Deus, o Senhor do mundo. Ó morte, que fizeste pasmar o céu e a natureza! um Deus morrer pelas suas criaturas! - Vem, minha alma, levanta os olhos e contempla esse homem crucificado. Contempla o Cordeiro divino já imolado sobre o altar da dor; lembra-te de que ele é o Filho dilecto do Pai Eterno, e que morreu pelo amor que te tem dedicado. Vê esses braços abertos para te acolher; a cabeça inclinada para te dar o ósculo de paz; o lado aberto para te receber. Que dizes? Não merece ser amado um Deus tão bom e tão amoroso? Ouve o que do alto de sua cruz te diz o Senhor: Meu filho, vê se há alguém no mundo que te tenha amado mais do que eu, teu Deus!

Ah, meu Jesus, já que para minha salvação não poupaste a vossa própria pessoa, lançai sobre mim esse olhar afectuoso com que me olhastes um dia, quando estáveis em agonia sobre a cruz; olhai-me, iluminais-me, e perdoais-me. Perdoai-me em particular a ingratidão que tive para convosco no passado, pensando tão pouco na vossa paixão e no amor que nela me haveis mostrado. Dou-Vos graças pela luz que me concedeis de compreender através de vossas chagas e de vossos membros dilacerados, como por entre umas grades, o afecto tão grande e tão terno que ainda guardais para comigo.

Ai de mim, se depois de receber estas luzes deixasse de Vos amar, ou amasse outra coisa que não a Vós.

Morra eu, assim Vos direi com São Francisco de Assis, morra eu por amor de vosso amor, ó meu Jesus, que Vos dignastes morrer por amor de meu amor. Ó Coração aberto de meu Redentor, ó morada feliz das almas amantes de meu Redentor, ó morada feliz das almas amantes, não vos dedigneis receber agora a minha mísera alma.

Ó Maria, ó Mãe de dores, recomendai-me a vosso Filho, a quem vedes morto sobre a cruz. Vede as suas carnes dilaceradas, vede o seu Sangue divino derramado por mim, e concluí disto quanto lhe agrada que lhe recomendeis a minha salvação. A minha salvação consiste em que eu ame, e este amor vós mo deveis impetrar, mas um amor grande, um amor eterno.

(continuação, Sexta Feira Santa à tarde)

18/12/15

DA RELIGIÃO EM GERAL (II)

(continuação da I parte)

5. O filho recebe com docilidade as semente da Religião: o velho se lembra sempre dela, mas a idade de mancebo muitas vezes embaraça a fecundidade. A Irreligião cresce, e se diminui com as paixões: sufocadas elas, todo o homem se alistará sob os estandartes da Religião. Custa a ser homem de bem, mas, dizia um Autor, facilmente o homem de bem é Cristão!

6. A Irreligião parte da mesma origem que o Ateísmo: a liberdade do coração é o desditoso pai de ambos estes erros. É incrédulo aquele homem que o quer ser: e quer.se ser, porque interessa as paixões (amara sunt vitiosis ac male viventibus praecepta justitiae. Lectanct. lib 1 de Falsa Relig. n. 4). Cuidam em apagar em si as ideias da Religião, para não ser perturbado no meio dos prazeres, pelos remorsos. "O tempo da nossa vida é curto, e perigoso, dizem os ímpios". O homem depois da morte nada tem bom que espere: não se conhece ninguém que voltasse dos infernos. Nós nascemos como ao acaso; e depois da morte, nós nos tornaremos em nada. Vinde pois; gozemos dos bens peressentes; apressemo-nos a usar das criaturas, enquanto somos moços; embebedemos-nos com excelentes vinhos, perfumemos-nos com esquisitos cheiros; e não deixemos passar a flor da nossa idade; coroemos-nos de rosas, antes que murchem , assim falam as paixões.

7. Um Poeta moderno, que viveu a maior parte da sua vida na libertinagem (Rousseau; Casta a M. Racine); entrando em si mesmo descreve assim, depois da experiência, os graus, pelos quais a impiedade chega a corromper o espírito:

........ Tout libertinage
Marche avec ordre, et sou vrai personage
Est de glisser par degrés son poison
Des sens au coeur, du coeur à la raison.

O homem ainda que pecador não nasce ímpio; mas a corrupção dos costumes o faz. Em todos os tempos as trevas têm sido o fim, e o castigo do deleite. O voluptuoso considera, e vê os objectos só por meio dos sentidos (in homine carnali tota regula intelligendi est consuetudo cernendi. Quod solent videre, credunt: quod non solent, non credunt. S. Aug. Sermon 242 in dieb. Pasch. serm. 13 cap. I a I pag. 1009 ib. v. Edit. Beaed.): julga das coisas como deseja que sejam, não como o são na verdade. O seu espírito enganosamente é arrastado pelo seu coração. O apetite desordenado tudo leva após de si, até o mesmo modo com que ajuizamos.


8. Quando eu seguia os desvairos de uma louca sabedoria, dizia um belo Engelho do século de Augusto, eu desprezava em demasia o culto dos Deuses. Estou agora resolvido a mudar de vida, e a seguir de novo o caminho deixado. Tal é o quadro da maior parte dos Libertino, quando se acham adiantados em idade. Contra sua vontade buscam a Religião, que só parece ofiosa ao Incrédulo, quando o deleite o cativa (quamdiu blanditur iniquitas, et dulci est iniquitas, amare est veritas. S. August. Serm. 15 3 de verb. Ap. c. 8 n. 10). No tempo da mocidade um desinquieto apetite sufoca a voz da razão. Diz-se então em ar de Filósofo, que a Religião não é outra coisas mais que uma invenção da Política, para subjugar o povo crédulo aos seus deveres. Muitas vezes até se pronuncia, que não há Deus, e vive-se como se não houvesse. Mas quando a idade tem acalmado o tumulto das paixões, então insensivelmente a razão toma o ascendente. Semelhante àquele homem, que despertando de um profundo sono, abre os olhos, admirado reflete em tantas testemunhas da existência de Deus, quantos são os objectos, que se vêm: entra em si mesmo, e acha novas provas desta pasmosa verdade; reconhece-se o ser que tanto se tem blasfemado; e finalmente se confessa que Deus existe, que ele merece os nossos cultos, e se lhe consagram as fraquezas da velhice, depois de se ter dado à Irreligião, e à liberdade todo o fogo da mocidade; conversam na verdade equívoca; mas Deus é rico de misericórdia (Efésios c. 2, v. 1).

9. Quase todos aqueles, diz o famoso Bayle (ao artigo Bion, reflexão E), que vivem na Irreligião, sempre duvidam, e nunca chegam à certeza. Vendo-se no leito da enfermidade, onde a Irreligião de nada lhes serve, tomam o partido mais seguro, que é aquele que promete a felicidade eterna, caso que seja verdadeira, e que nada se arrisca sendo falsa. Ora bem: mas porque causa senão hão de adoptar na saúde os sentimentos, com os quais se quer morrer? Cada instante da nossa vida pode ser o último. Que perigo pode causar a Religião na saúde? Ela livra-nos de cairmos no crime, e de gostarmos dos prazeres criminosos: são estes pois os inconvenientes, que se devem evitar?

10. O homem piedoso, e o Ateu sempre falam da Religião: um fala pelo que ama, o outro pelo que teme. Este pensamento é de M. de Montesquieu. Poder-se-lhe-ia acrescentar que o fim de um é de inspirar amor; e o objecto do outro é de arruinar os homens no espírito.

(continuação, III parte)

07/11/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XXIII)

(continuação da XXII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis
Cap. XXIII
Meditação Sobre a Morte 

1. Bastante rápido se concluirá contigo este assunto; por isso, olha como vives. Hoje está vivo ò Homem, amanhã terás desaparecido da Terra. Perdido de vista, breve estarás perdido na lembrança de todos os que te conheceram.
Ó descuido e dureza do coração humano, que cuida só das coisas presentes e não olha para as futuras! De tal modo te deves ter em tuas obras e pensamentos, como se houvesses de morrer hoje.
Uma boa consciência não teme a morte. É, pois, melhor fugir do pecado que da morte. Se hoje não estás pronto, como estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto, e como sabes que ele te é concedido?

2. De que aproveita viver muito tempo, quando tão pouco o aproveitamos em emendar-nos? A vida longa não emenda sempre, antes muitas vezes aumenta a culpa. Prouvera a Deus que, ao menos por um dia, vivêssemos bem neste mundo! Muitos contam os anos da sua conversão, mas na verdade é pouco o fruto da sua emenda. Se é tanto para recear o morrer, pode ser que seja mais perigoso o viver muito.
Bem-aventurado o que traz sempre diante dos olhos a hora da sua morte e cada dia se dispõe para ela.
Se viste morrer alguém, considera que também passarás por aquele transe.

3. Quando te levantares pela manhã, cuida que talvez não chegarás à noite; e em chegando à noite, não te prometas a certeza de chegar até à manhã. Por isso anda sempre aparelhado e vive de tal modo que nunca te apanhe a morte desapercebido.
Muitos morrem repentinamente, porque, na hora em que menos se imagina, há-de vir o Filho do Homem. Quando vier aquela hora, volverás o teu pensamento à vida passada e sentirás muito ter sido frouxo e negligente.

4. Que ditoso e que prudente é aquele que procura ser tal na vida qual deseja que Deus o ache na morte! Porque o perfeito desprezo do mundo, o fervoroso desejo de aproveitar nas virtudes, o amor à observância  dos deveres, a prontidão da obediência, o trabalho da penitência, a negação de si mesmo e o sofrimento das adversidades por amor de Cristo lhe darão grande confiança de morrer feliz.
Muitas boas obras podes praticar estando são, mas, enfermo, não sei o que poderás. Poucos melhoram com as enfermidades e poucos os que lucram com as peregrinações.

5. Não confies em amigos e parentes, nem dilates para um futuro incerto o negócio da tua salvação, porque, mais depressa que imaginas, se esquecerão de ti os homens. Melhor é agora fazer com tempo, seguro e previdente, boas obras, que leves diante de ti, do que esperar pelo socorro dos outros. Se não és cuidadoso contigo mesmo, como fiar dos cuidados dos outros? Eis que o tempo agora é precioso, os dias agradáveis, porque são os da tua salvação. Mas ai!, tu não gastas com proveito esse tempo, do qual depende o teu viver por toda a eternidade. Tempo virá em que desejes um dia, ou uma hora, para a tua emenda, e não sei se a alcançarás.

6. Caríssimo, de quantos perigos te poderias livrar e de quantos temores fugir se sempre estivesses temeroso e suspeitoso da morte! Trata agora de viver de tal modo que na hora da morte te possas antes alegrar que temer.
Aprende agora a morrer para o mundo. Aprende a desprezar tudo para que então possas ir livremente para Cristo. Castiga agora o teu corpo pela penitência, para que possas ter uma confiança certa.

7. Ah, louco! Para que pensas que hás-de viver muito tempo, quando não tens algum dia seguro? Quantos se enganaram morrendo quando menos imaginavam!
Quantas vezes ouviste dizer: "Aquele morreu de uma punhalada, aquele afogou-se, aquele quebrou a cabeça caindo do alto, aquele comendo ficou gelado, aquele jogando expirou?" Outro morreu a fogo, outro a ferro, outro de peste, outro às mãos dos ladrões, e desse modo a morte é o fim de todos e a vida do homem passa ligeiramente como a sombra.

8. Quem se lembrará de ti depois de morreres? Quem rezará por ti? Faz agora, caríssimo, o que puderes, pois não sabes quando morrerás e ignoras também o que te sucederá depois da morte.
Enquanto tens tempo, ajunta riquezas imortais. Seja o teu único cuidado tratar da tua salvação e das coisas de Deus.
Granjeia agora por amigos os Santos, venerando as suas memórias e imitando os seus exemplos, a fim de que, quando saíres desta vida, venham ao teu encontro e te recebam nas moradas eternas.

9. Considera-te como hóspede e peregrino sobre a Terra, ao qual nada devem importar os negócios do mundo.
Conserva o teu coração livre e levantado para Deus, convencido de que nada é permanente na vida terrena.
Dirige ao Céu as tuas orações e gemidos de cada dia, oferece a Deus os teus suspiros e as tuas lágrimas, para que mereça o teu espírito, depois da morte, passar ditosamente ao Senhor.

02/11/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XXI)

(continuação da XX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis
Cap. XXI 
Compunção do Coração

1. Se queres progredir em virtude, conserva-te no temor de Deus e não procures excessiva liberdade; mas refreia com a razão todos os teus sentidos e não te entregues à vã alegria.
A compunção descobre muitos bens que a dissipação faz perder.
É de espantar que um homem possa alegrar-se completamente nesta vida, se considerarmos como desterro e ponderando os muitos perigos que ela oferece à nossa alma.

2. Pela inconstância do nosso coração e por não nos lembrar-mos dos nossos defeitos, não sentimos as dores da nossa alma; por isso, muitas vezes rimos, quando, com mais razão, deveria-mos chorar
Não há verdadeira liberdade nem perfeita alegria se não no temor de Deus e na paz da consciência.
Ditoso aquele que pode apartar de si todas as distracções e recolher-se em santa compunção.
Ditoso aquele que se afasta de tudo o que o pode manchar ou trazer-lhe peso à consciência.
Peleja, pois, varonilmente. Se sabes deixar os homens eles te deixarão a ti para que faças as tuas obras.

3. Não te ocupes  com assuntos alheios nem te aflijas com os negócios dos teus superiores. Vigia, primeiro, sobre ti mesmo e admoesta-te com mais rigor do que a todos os teus amigos.
Não te entristeças se não logras favores humanos; só te seja penoso se te não tratas com tanta cautela como convém a um servo de Deus e a um devoto religioso.
Muito util e seguro é que um homem não tenha consolações nesta vida, principalmente as que o são segundo a carne. Preocupados com elas, não logramos consolações divinas, pois não as buscamos, antes nos deixámos levar pelas vãs esperanças exteriores.

4. Conhece que és indigno da consolação divina e merecedor de muitas tribulações. Quando alguém está verdadeiramente contrito, logo se lhe apresenta o mundo bem diverso.
Quem é bom acha sempre matéria para se doer e chorar. Porque ou se considera a si, ou ao seu próximo, vê que ninguém passa esta vida sem tribulações. E tanto mais sentidamente chora quanto mais a si e aos outros considera.A matéria do nosso desgosto e da interior compunção e tristeza são os nossos pecados, os nossos vícios, aos quais tão miseravelmente estamos presos que raramente podemos contemplar as coisas do Céu.

5. Se mais vezes pensasses no dia da tua morte do que te julgares fadado a longa vida, não duvido que mais fervorosamente te emendasses. Se também meditasses sobre as penas do Inferno ou do Purgatório, creio que sofrerias de boa vontade qualquer trabalho ou dor, e que não recearias quaisquer asperezas da vida. Mas, porque estas coisas não entram no coração e ainda porque amamos os regalos da vida, ficamos frouxos e preguiçosos. 

6. Da falta deste espírito decorrem tão fàcilmente as queixas do nosso corpo. Pede, pois, ao Senhor, com humildade, que te conceda uma profunda contrição,  dizendo-Lhe como o Profeta: "Sustentai-me, Senhor, com o pão de lágrimas e dai-me das mesmas lágrimas uma bebida adequada aos males que padeço."

24/02/14

EXERCÍCIO QUOTIDIANO - VIDA DA ALMA

Exercício Quotidiano

"Em despertando qualquer Irmão da Boa morte, pela manhã, faça o sinal da Cruz, e diga com toda a reverência devida:

"Louvada seja a Santíssima Trindade, Padre, Filho e Espírito Santo, três Pessoas, e um só Deus verdadeiro. Bendito, e louvado seja o Santíssimo Sacramento, e a Imaculada Conceição da Virgem Maria Senhora nossa concebida sem mácula do pecado original."

Reze um Padre nosso, e uma Avé Maria ao Anjo da guarda, e outro tanto ao Santo do seu nome, para que o livre de todos os perigos da alma, e do corpo.

Enquanto se está vestindo, lembre-se, que algum dia o não há-de poder fazer, antes outros os vestirão com uma mortalha para ir em pés alheios para a sepultura, e com esta consideração evitará naquele dia tudo, o que na hora da morte não quereria ter obrado.

Depois de vestido, a primeira diligência deve ser buscar o seu oratório, ou lugar, onde tenha alguma Imagem Santa, e devota, e diante dela dar graças a Deus nosso Senhor, por todos os benefícios, e mercês, que lhe tem feito. E logo fará acto de Fé, Esperança, e Caridade, que poderão ser nesta forma:

"Creio, Senhor, tudo o que crê, e ensina a Santa Madre Igreja de Roma, e nessa Fé protesto que quero viver, e morrer, pois só nela há salvação. Espero na vossa misericórdia, e nos merecimentos de meu Senhor Jesus Cristo que hei-de alcançar a Bemaventurança, e gozar da vossa soberana companhia, para a qual fui criado. Amo-Vos, meu Deus Trino, e uno, sobre todas as coisas criadas, e me pesa de todo o meu coração de vos ter ofendido; proponho, Senhor, de nunca mais vos ofender, por serdes vós a suma bondade só digna de ser amada. Eu vos ofereço, meu Senhor, a minha alma com todas as suas potências, e sentidos, eu vos ofereço todas as minhas obras, palavras, e pensamentos, que neste dia, e em todos os de minha vida obrar, falar, e cuidar, desejando que tudo se ordene, como desde agora o ordeno à maior honra, e glória vossa. E para ser mais agradável esta oferta diante do vosso Divino Acatamento, apresento juntamente com ela o Santíssimo Sangue de meu Senhor Jesus Cristo por mão da Virgem Maria minha Senhora, e Mãe vossa. E vós, meu Senhor Jesus Cristo Redentor, e Salvador meu, lembrai-vos do Sangue, que por esta alma derramastes, e não permitais, que se malogre o infinito preço de vossos merecimentos, por estes vos peço que me deis graça eficaz, para que sempre viva, como verdadeiro Cristão, e na hora da morte, entregando a minha alma nas vossas mãos acabe a vida temporal para começar a eterna. Virgem Maria Mãe do meu Senhor Jesus Cristo, pelo amor, que lhe tivestes, e tendes, vos peço que sejais meu amparo neste dia, e em todos os de minha vida; para que nunca o ofenda, para que sempre o ame, e conserve a sua graça."

Saindo de Casa procure, que o primeiro caminho, que fizer, seja para a Igreja; e então como em todas as vezes, que entrar nela, faça oração ao diviníssimo Sacramento, à Virgem Senhora, e aos Santos, a que tiver devoção. E não se esqueça de vezes respeitadas visitar os cinco Altares, para lucrar as Indulgências, que são mui proveitosas, para livrar das penas do Purgatório; advertindo que enquanto estiver na Igreja, que é Templo, e casa de Deus, esteja com muito recolhimento, modéstia, e devoção.

Não saia da Igreja, sem que primeiro ouça Missa; assistindo a ela com toda a atenção, e devoção devida, acompanhando o Sacerdote em tudo, o que obra naquele altíssimo Mistério, ou rezando pelas suas Contas.

Ouvida a Missa com a sobredita devoção, se irá ocupar nas coisas de seu ofício, ou obrigação; sendo muito liso, e verdadeiro nos seus negócios: dando toda a expedição devida, ao que tem a seu cargo, e em todas as suas obras tendo sempre diante dos olhos, o não fazer pecado algum, nem coisa, que desagrade aos Divinos olhos.

Todas as vezes, que ouvir o relógio dar horas, levante o pensamento a Deus, fazendo alguma breve jaculatória, e se estiver ocupado em algum negócio em companhia de outros, a pode fazer interiormente, sem que alguém a perceba.

Quando ouvir fazer sinal com as badaladas às Avé Marias, ou seja de madrugada, ou ao meio dia, ou à boca da noite, reze sempre, como se costuma, a fim de ganhar as Indulgências; e se estiver na rua, pare enquanto reza.

Procure estar sempre ocupado, e nenhum tempo ocioso, porque a ociosidade é origem de todos os males.

Quando na sua encontrar o diviníssimo Sacramento, ou que vaia em procissão, ou a servir de viático a algum enfermo, o acompanhe sempre, porque lucra muito na veneração deste altíssimo Mistério.

Quando encontrar algum defunto, que levam a sepultar, não deixe de rezar por sua alma, ao menos um Padre nosso, e uma Avé Maria, e recolhendo-se dentro de si, considere, que também lhe há-de chegar a sua hora em que seja visto naquele estado, e tenha muito cuidado de ser devoto das Almas, oferecendo por elas tudo quanto puder, porque são muito agradecidas.

Haja-se com todos com muita afabilidade, e benevolência, tendo o devido respeito aos maiores, mais graves, e mais velhos; e com mais especialidade aos Prelados, e Sacerdotes reconhecendo neles a pessoa de Cristo, lembrando-se, que dizia o Santo Padre S. Francisco que se encontrara na rua, juntamente a S. João Baptista, e a um Sacerdotes, primeiro havia de fazer veneração, e reverência ao Sacerdote, que ao Santo.

Aos pobres, que lhe pedirem esmola pelo amor de Deus, ou pelas Chagas de Cristo, ou por outro qualquer motivo, santo, e bom, manda sempre contentes, e com alguma coisa; e quando não tiver que lhes dar, os despeça com muita caridade, e benevolência, para que o exterior seja indício da vontade interior, que tinha de os favorecer.

As suas práticas sejam sempre ou de coisas indiferentes, do que possa pelo Mundo, ou do que ouvem nos Sermões, e Práticas, do que lêm nos livros espirituais, e devotos, e de nenhuma sorte falem palavras jocosas, nem desonestas, e muito menos descubram faltas alheias, nem murmurem do seu próximo.

Recolha-se para casa antes da noite, e faça, que na sua família (se tiver) se conserve sempre o santo temor de Deus, atendendo muito à boa educação de seus filhos, e de seus escravos, evitando-lhes toda a ocasião de culpa, e fazendo que rezem todos os dias o Santíssimo Rosário da Senhora, ou a Coroa, ou o Terço com a Ladainha da mesma Senhora.

As devoções, que tiver, cumpra todos os dias para ter em seu favor sempre os Santos, de quem é devoto; e não se deite nunca sem primeiro fazer exame de consciência, para ver como naquele dia se houve em obras, palavras, e pensamentos, e com muito maior excepção, e cuidado, na véspera do dia, que se houver de confessar, e para que o faça com perfeição, pomos aqui o modo como o pode fazer."

("Breve Direcção Para o Santo Exercício da Boa Morte...". Pe. José Aires. LISBOA OCIDENTAL, 1726)

06/04/13

A MORTE É O FIM DE TODAS AS GRANDEZAS - Sto. Afonso de Ligório

2ª Consideração

TUDO ACABA NA MORTE

II
A Morte é o Fim de Todas As Grandezas

Quando Filipe II, rei de Espanha, estava prestes a expirar, mandou chamar o seu filho e descobrindo-lhe o próprio peito roído de vermes, disse-lhe: "Vêde, príncipe, como se morre e como acabam todas as grandezas do mundo!" Teodoreto disse com razão que nem riquezas, nem guardas, nem púrpura podem deter a morte, e que todos os homens, príncipes ou vassalos, estão sujeitos à lei da corrupção. Por isso aquele que morre, ainda que seja um rei, nada leva consigo para a sepultura ; deixa toda a sua glória no leito em que expira.

Refere Santo Antonino que, à morte de Alexandre Magno, um filósofo exclamara : "Eis o que ainda ontem calcava a terra com os seus pés, e hoje é a terra que o cobre e oprime ; ontem era pequeno para a sua ambição o mundo inteiro, e hoje sete palmos de terra lhe bastam ; ontem passeava os seus exércitos por todo o universo hoje é levado a enterrar por alguns servos". Mas escutemos de preferência o próprio Deus : Não vês, ó homem, que "és pó e cinza? Donde te vem esse orgulho?" (Quid superbit terra et cinis? - Eccli. 10, 9). Para que consomes o teu espírito, para que gastas os teus anos a elevar-te neste mundo? Virá a morte, e "então se dissiparão todos os projectos e todas as grandezas": In illa die peribunt cogítationes eorum (Ps. 145, 4).
 
S. Paulo ermita
Ó quanto a morte de S. Paulo ermita, que tinha vivido sessenta anos retirado numa gruta, foi mais suave que a de Nero, que vivera em Roma no trono imperial ! Quanto a morte de S. Félix, simples irmão capuchinho, foi mais feliz que a de Henrique VIII, cuja vida decorrera no meio dos maiores esplendores, mas também na inimizade de Deus !
 
Mas não o esqueçamos: para merecerem tão bela morte, os santos deixaram tudo, — a pátria, as esperanças que o mundo fazia brilhar aos seus olhos. Abraçaram uma vida pobre e desprezível, sepultaram-se vivos neste mundo, para não serem sepultados no inferno depois da morte. Ao contrário, os mundanos passam a sua vida no pecado, nos prazeres terrenos e no meio das ocasiões mais perigosas, — como poderiam esperar uma boa morte? Cairá sobre eles a ameaça que Deus dirige aos pecadores: "Haveis de procurar-me e não me encontrareis": Quaeretís me, et non invenietis (Jo. 7, 34).
 
Não haverá então mais tempo de misericórdia e chegará o da vingança, conforme a advertência que nos é feita: "Eu me vingarei, quando o tempo chegar": Ego retribuam in tempore (Deut. 32, 35). De resto, bastaria o bom senso para nos convencer disso. À hora da morte, o espírito encontra-se fraco e obscurecido; o mundano tem o coração demasiado endurecido por um longo hábito de pecar; as tentações assaltam-no com mais violência do que nunca: como lhes resistirá ele, que quase nunca tentou fazer frente ao inimigo, antes no decurso da sua vida foi vítima passiva de frequentes derrotas?
 
Seria necessária uma graça extraordinária que de repente lhe transformasse o coração. Mas estará Deus obrigado a conceder-lhe uma graça tal? Ou acaso a mereceu esse pecador com uma vida de desordens? E contudo lá vai ele ou para urna felicidade eterna, ou para uma ruína sem remédio! Será possível que um homem, que tem fé, pense nisto e não se decida a deixar tudo para se dar sem reserva a esse Deus, que há de julgá-lo e retribuir a cada um segundo as suas obras?

04/04/13

BREVIDADE DA VIDA - Sto. Afonso de Ligório

3ª Consideração

A BREVIDADE DA VIDA

"Quae este vita vestra? Vapor modicum parens." (Jac. 4, 15)
"O que é a vossa vida? Um fumo que aparece num momento"

I
Depressa Chega a Morte

Ó que é a vida humana! O Espírito Santo compara-a a um fumo que se dissipa ao menor sopro e que não volta. Ninguém ignora que há-de morrer, mas a ilusão dum grande número é imaginarem a morte tão afastada que quase se lhes afigura que não vem.

É um grande erro. Job nos adverte que a vida humana é curta: "O homem — diz ele — vive pouco tempo... é semelhante à flor que apenas desabrocha é calcada aos pés": Homo brevi vivens tempore, quasi flos egreditur et conteritur (Job 14, 1).

A Isaías mandou o Senhor que pregasse a mesma verdade: "Levanta a tua voz e clama; Toda a carne é erva... Em verdade a humanidade não é senão feno; seca-se a erva e cai a sua flor" : Clama... Omnis caro fenum... Vere fenum est populus; eacsiccatum est fenum, et cecídit fios (Is. 40, 6). Um pecíolo de erva, eis o que parece ser a vida do homem; vem a morte e faz secar essa erva, corta o fio da nossa vida, e lá cai a flor do alto de toda a grandeza e de todas as vantagens mundanas.

"Passaram os meus dias mais velozes que um correio": Dies mei veloctores ,fuerunt cursore (Job, 9, 25). Vem para nós a morte mais rápida que nenhum correio, e nós corremos sem parar ao encontro da morte. Cada um dos nossos passos, cada urna das nossas respirações nos aproxima dela. "O momento em que vos escrevo" - dizia S. Jerónimo - "é diminuído à minha vida", é mais um passo para a morte. "Todos morremos e corremos pela terra, como águas que não retrocedem mais": Ornnes morimur, et quasi aquae clilabimur ia terram, quae non revertuntur (2. Reg. 14, 14).

Vedes lá em baixo o rio que corre se lançar ao mar? Assim como as suas águas desligam sem parar e não voltam para trás, assina também, irmão meu, os vossos dias passam, encurtando cada vez mais a distância que vos separa da morte. Passam os prazeres, os divertimentos, as festas, os louvores, os aplausos, e que resta? "Uma sepultura - responde Job - e nada mais": Solum mihi superest sepulchrum (Job 17, 1). Despojados de tudo e lançados numa cova, seremos entregues à corrupção.

No momento da morte, a recordação de todos os prazeres passados, de todas as honras gozadas, só servirá para agravar as nossas ansiedades e afrouxar a nossa esperança da felicidade eterna. Então dirá o mundano de si para si : passados poucos instantes, a minha casa, os meus campos, os meus jardins, o meu mobiliário de tanto gosto, essas ricas pinturas, nada será meu! Uma sepultura é tudo quanto me resta.

Oh! então todos os bens terrenos enchem de amargura o coração que os amou desordenadamente, e essa mesma amargura é mais um perigo para a salvação. Com efeito a experiência nos mostra que as pessoas, assim presas às coisas temporais, só querem ouvir falar da sua moléstia, dos médicos a consultar e dos remédios a empregar.

Se lhe falardes da alma, mostrarão enfado, pedindo-vos que as deixeis, porque lhes dói a cabeça, e não podem ouvir-vos; se vos responderem, será dum modo confuso; fica-se a pensar que não sabem o que dizem. Muitas vezes os confessores absolvem-nas, não porque as julguem dispostas, mas porque não é possível demorar. Assim morrem os que pensam pouco na morte.

30/03/13

DOMINGO DE PÁSCOA - Sermão de Sto. AFONSO DE LIGÓRIO


DOMINGO DE PÁSCOA

- Desgraçado Estado da Recaída -
"Não temais; buscai a Jesus Nazareno que foi crucificado; ressuscitou, não está aqui"
 (Marcos 16. 6)

Espero, ó cristãos, meus irmãos, que, no Santo dia da Páscoa em que Jesus está ressuscitado, estejais também ressuscitados da morte do pecado pela confissão. mas tomais atenção ao que diz S. Jerónimo, que muitos começam bem e poucos perseveram: "Há muitos para começar e poucos para perseverar". Além destas palavras, o Espírito Santo avisa-nos que, não é o começo de boa vida mas sim a perseverança que nos salva: Quem perseverar até ao fim, este será salvo (Mat. 24, 13). A Coroa do Paraíso, diz São Bernardo, é somente prometida àqueles que começam; mas não é dada senão àquele que perseveram (Sermão 6, A Maneira de Bem Viver). Ora, meus irmãos, visto que estais determinados a entregar-vos a Deus, ouvi o que vos diz o Espírito Santo: "Filhos, entrando no serviço de Deus, preparai a vossa alma para a tentação." (Ecles. 2, 1). Não acrediteis que já não há tentações para vós. Preparai-vos, ao contrário para combater e guardai-vos de cair nas mesmas faltas das quais vos tendes já confessado; porque se perdeis de novo a graça de Deus, será mais difícil de a recuperar. Eis o que quero mostrar-vos hoje; O estado infeliz daqueles que cometem novamente as mesmas faltas que lhes foram remetidas na confissão.

1. Quando vos tendes confessado, cristão, meus irmãos, Jesus Cristo diz-vos tal como ao paralítico: Eis que estás são; não peques mais, para que não suceda coisa pior (João 5, 14). Pela confissão, a vossa alma foi curada; está curada, mas ainda não salva; porque se voltais ao pecado perdê-la-eis de novo, e o mal da recaida será muito maior do que o das quedas precedentes: Ouvi, diz S. Bernardo, é pior recair do que cair. Se, depois de ter sido curado duma doença mortal, se cai a recair nela, as forças estão tão esgotadas que, desta vez, é impossível restabelecer-se. Assim acontece àqueles que recaem no pecado: voltando ao vómito, sto é, voltando ao pecado que tinham como que vomitado na confisão, ficam tão fracos que tornam a ser boneco do demónimo. Santo Anselmo diz que o inimigo dos homens adquire sobre nós um tal império pelas recaídas, que a seguir nos faz cair e recair, como quer, de maneira que nos tornamos semelhantes a estas aves tornadas boneca nas mãos das crinaças, que lhes permitem elevar-se no ar de vez em quando, mas que de novo trazem consigo quando quiserem, puxando o fio que as prende. Assim lida o demónio com aqueles que recaem. Mas porque estão presos pelo inimigo, aqueles que volvem no mesmo vício, serão derrubados.

2. Lemos em S. Paulo que os inimigos que temos de combater, não são homens de carne e de sangue como nós, mas príncipes dos infernos: Porque nós não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os Principados e Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso e contra os espíritos malignos espalhados pelos ares (Efesios 6. 12). Nesta passagem, avisa-nos que não somos assaz fortes para resistir aos poderes do Inferno, e que o auxílio de Deus nos é absolutamente necessário, sem o qual seríamos sempre vencidos. Ao contrário, quando Deus nos ajuda, tudo nos é possível e triunfamos, dizendo com o mesmo Apóstolo: "Tudo eu posso n'Aquele que me conforta." (Filipenses 4. 13). Mas este auxílio, Deus não concede senão àqueles que Lho pedem pela oração: "Pedi e vos será dado; buscai, e achareis, batei, e abrir-se-vos-á." (Mat. 7. 7). Aquele que o não pede, não o obterá. Assim não nos fiemos nas nossas boas resoluções; se buscarmos o fundamento nelas, estamos perdidos; mas quando estamos tentados de recair no pecado, invistamos toda a nossa confiança no auxílio de Deus que ouve sempre aquele que Lhe reza.

3. "Quem, pois julga estar de pé, veja se não caia." (1 Cor. 10, 12). Aquele que entrou na graça de Deus, deve, como diz aqui S. Paulo, estar atento em não recair no pecado, sobretudo se anteriormente cometeu pecados mortais; porque a recaída daquele que já perdeu a graça torna o seu estado pior que o primeiro: "E o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro." (Lucas 11. 16).

4. Lê-se na Sagrada Escritura que o inimigo oferece sacrifício à sua nassa (para a pesca) e queima oferendas à sua rede, para que por elas é abundante a sua porção, e o seu manjar escolhido (Habacuc 1. 16). Estas passagens, S. Jerónimo no-las explica dizendo que o demónio tenta prender todos os homens nas suas redes, para os sacrificar à justiça Divina, operando a condenação deles; todavia não deixa enlaçar com novas correntes estes homens já presos, fazendo-os cometerem novos pecados; mas, seu manjar escolhido, a presa que ele prefere, são aqueles que se reconciliarem com Deus; Com estes ele redobra o esforço e tentação, para os trazer consigo à escravidão e os fazer perder o bem que adquiriram. S. Dionísio-le-Chartreux escreve: Quanto com mais força alguém se esforça em servir a Deus, tanto mais enérgico contra ele se enfurece o inimigo. Quanto mais um cristão se une a Deus e se esforça em seri-l'O, tanto mais o inimigo redobra de raiva e tenta entrar nas sua alma, donde foi expulso, dizendo, como se lê em S. Lucas: "Quando o espírito imundo saiu de um homem, anda por lugares áridos, buscando repouso. Não o encontrando, diz: voltarei para minha casa, donde saí." (Lucas 11. 24). E se conseguir entrar nela, não entra sozinho, mas com companheiros, para consolidar a sua posição aí, de maneira que este segundo cativeiro da alma seja pior do que o primeiro: "Então vai, toma consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando ali, se instalam. E o último estado do homem torna-se pior do que o primeiro." (Lucas 11. 26).

5. Noutro lado, Deus irrita-se mais da recaída dum ingrato que o Seu amor chamou e perdoou, e que Ele o vê abandonar-se de novo ao pecado e renunciar à Sua graça, esquecendo a Sua misericórdia que Ele exerceu para com ele: Se Me tivesse ultrajado o inimigo, tolerá-lo-ia... "Mas tu, um homem igual a Mim, Meu amigo e familiar com quem partilhava comida doce." (Salmo 54. 13). Deus diz assim: Se tivesse sido ofendido por um inimigo, teria Eu menos indignação, mas ver que tu te viras contra Mim, tu que eu fiz sentar à minha mesa e alimentei com a minha própria carne, isso irrita-Me mais e leva-Me a punir-te. Ah! desgraçado, aquele que do estado de amigo de Deus no qual desfrutava de tantas graças, passa voluntariamente ao estado do Seu inimigo! Em breve, será atingido pelo gládio da vingança Divina: "E aquele que passa da justiça ao pecado, a este último reservou Deus para a romphaeam (espada longa)." (Eclesiástico 26. 27).

6. Alguém responderá: Mas se recaio, reerguer-me-ei prontamente, porque tenciono confessar-me logo. A este acontecerá tal como a Sansão, que enganado por Dalila, e despojado da sua cabeleira que fazia a sua força, dizia ao despertar do sono: "Desembaraçar-me-ei deles como das outras vezes. Ignorava Sansão, acrescenta a Escritura Santa, que o Senhor Se tinha retirado dele." (Juízes 16. 20). Contava libertar-se das mãos dos filisteus, como fazia até então, mas privado da sua força, foi reduzido por eles em escravidão; os filisteus vazaram-lhe os olhos primeiro e ecerraram-no carregado de correntes numa jaula. Assim o pecador, depois da recaída, perde a sua força de resistir às tentações, porque o Senhor Se tinha retirado dele: O Senhor abandona-o, e priva-o do seu auxílio, sem o qual não pode resistir, e assim o desgraçado fica cego e mergulhado no seu pecado.

7. "Ninguém, que depois de ter metido a mão no arado e olhar para trás, é apto para o reino de Deus." (Lucas 9. 62). Isto é a imagem do pecador que recai. Notai bem esta palavra ninguém: Ninguém, diz Jesus Cristo, que Me quer servir, e que volta para trás, é apto para entrar no paraíso. Origenes diz que juntar um pecado a um pecado  é juntar uma ferida a uma ferida (Orig. Hom.. 1. em Salmos). Se alguém apanha um golpe violento sobre um membro, com certezaeste membro não terá o mesmo vigor; mas se apanha ainda um segundo, o membro perderá toda a sua força, todo o movimento, sem esperança de ver as forças renascer. Eis o grande mal que a decaída causa na alma: que é o de a enfraquecer, e de deixar ficar impotente contra as tentações; São Tomás d'Aquino diz: "Cada pecado, uma vez perdoado, deixa sempre a ferida causada pela falta cometida." (1. Pars p. 86. art. 5). A tal ponto que se uma nova ferida se junta a uma passada, sesta última enfraquece a alma a tal ponto que sem uma graça especial e extraordinária do Senhor, é-lhe impossível resistir às tentações.

8. Trememos portanto, meus irmãos, para não recair no pecado, e não abusemos da misericórdia de Deus em continuarmos a ofender Deus. Santo Agostinho diz: Deus que prometeu o perdão ao penitente, não prometeu a graça de se arrepender. A contrição é um puro dom de Deus; se nos recusa este dom, como vos arrependereis? E sem arrependimento, como obtereis o perdão? "Cautela porque não se zomba de Deus: não vos enganeis: de Deus não se zomba" (Gal. 6.7). Santo Isidro diz que quem recai no pecado do qual se arrependeu, já não é penitente, mas zomba de Deus (S. Isidoro, De Summo Bono). Acrescentai esta palavra de Tertuliano: "Lá onde não há melhoramento, não houve arrependimento verdadeiro." (Tertull. De paenitencia).

9. S. Belarmino pregava assim: "Arrependei-vos pois, e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados" (Actos 3.19). Muitos arrependem-se, mas não se convertem; têm alguns remorsos da sua vida desregrada mas não regressam a Deus sinceramente. Confessam-se, batem no seu peito, prometem emendar-se, mas sem tomarem uma firme resolução de mudar de vida. Aquele que toma uma firme resolução preserva nela, ou ao menos mantém-se longo tempo em estado de graça. Mas aqueles que, depois da confissão, logo caiem, mostram que se arrependeram mas não se converteram, como diz S. Pedro, e chegam por fim a uma morte funesta. S. Gregório escreveu: "A maior parte dos maus arrepende-se assim para a justiça, tal como a maior parte dos bons é tentada para a culpa." (Past. P. 3 Admon. 31). Quer dizer por isso, que da mesma maneira que os bons sentem muitas vezes tentações para o mal, mas sem pecar, porque a sua vontade está toda inclinada ao contrário; assim também os pecadores sentem inclinações para o bem, mas que não basta para determinar a sua conversão. O sábio avisa-nos que a misericórdia de Deus não está adquirida para quem comente confessa os seus pecados, mas para quem ao mesmo tempo, os confessa e se desapega deles. "Aquele porém que os confessar e se retirar deles alcançará misericórdia." (Provérbios 28, 31). Aquele portanto que depois da confissão continua a pecar, não obtem a misericórdia, mas morrerá vítima da Justiça Divina; Como aconteceu a um jovem na Inglaterra, segundo o que se encontra na história deste reino. Era possuído duam paixão desonesta, na qual recaía sem cessar, confessando-se e recaindo sempre; chegando à hora da morte, confessou-se de novo e pareceu morrer com os sinais da salvação. Mas quando um sacerdote Santo celebrava o ofício ou se preparava a fazê-lo para o auxílio da sua alma, o jovem apareceu-lhe e diz-lhe que estaca condenado; Acrescentou que ao instante da morte, apanhado por um mau pensamento, sentiu-se forçado a aderir a ele, como costumava fazer nos tempos decorridos, e assim se perdeu.

(Amanhã continuará, se Deus quiser).

04/10/12

MOMENTO DA MORTE DE D. JOÃO III

El-Rei D. João III, de Portugal

"Uma vez (foi, por sinal, uma sexta feira 11 de Janeiro de 1557), caiu o Soberano com um ataque apoplético. Eram duas horas da tarde. Foi um reboliço indescritível no paço da Ribeira; juntos em consulta os médicos todos à cabeceira do Real Enfermo, presididos pelo Físico mor, declararam urgente uma sangria, e perigoso o mal. A Rainha D. Catarina, com a sua energia costumada, não sossobrou; mandou chamar sem demora ao seu mosteiro da Graça o Bispo de Leiria D. Frei Gaspar do Casal, para confessar el-Rei. Confessou-se, e comungou. Foi geral o sentimento de Lisboa inteira; fecharam-se as lojas, e começaram preces em todas as igrejas, e imponentes procissões, entre as quais uma concorridíssima, desde a Sé até S. Domingos, à boca da noite.

O estado do Rei agravava-se. Teve a Rainha o valor de querer ouvir aos homens da ciência a verdade, fosse qual fosse; e eles disseram, que no estado del-Rei só Deus podia influir: aquela vida preciosa via-se condenada. Foi então que a irmã de Carlos V mostrou quem era, como mulher animosa, e como esposa dedicada, refreando as lágrimas, e tomando entre as mãos um Cruxifixo, aproximou-se devagarinho ao leito do agonisante, e acordando-o suavemente do letargo em que jazia, entregou-lhe a Cruz, e disse-lhe, cheia de douçura, mas com antoridade maternal: Vamos! Animo! Lembrai-vos de que morreis.

O Rei, entreabrindo os olhos, escutava pela última vez aquela voz amiga, e parecia atender ao que lhe ouvia. A Rainha continuava com exortações espirituais, lembrava àquele poderoso da terra o que valem as grandezas mundanas, e mostrava-lhe Deus como termo desta vida transitória. Mandou vir a Unção, que foi administrada ao enfermo.

Achavam-se na câmara muitas pessoas, alêm da Rainha; a grande Infanta D. Maria irmã del-Rei; a Infanta D. Isabel, filha do Duque D. Jaime e viúva do boníssimo Infante D. Duarte; seu filho o senhor D. Duarte; o Cardeal infante D. Henrique; D. Frei Gaspar do Casal, e muitas donas do paço. Pediu el-Rei, como pôde, ao seu amigo o excelente Jorge da Silva o ajudasse a bem-morrer, recitando com ele o Crsdo; acabado isso, a Rainha, vendo seu marido a entrar em artigo de morte, poz-lhe ela própria na mão uma vela benta, e esteve com ele até ao fim. A respiração foi quebrando a pouco e pouco, intercortando-se, e seriam nze e meia da noite quando o filho del-Rei D. Manuel rendeu a alma ao Creador.

Foi logo um pranto horroroso na câmara. A varonil Rainha, que tão animosamente cumprira os seus amargos deveres, caiu então de toda a sua dor, e levada em braços foi encerrar-se no seu oratório.

O terreiro do paço enchera-se de gente. A Cidade inteira jazia em funeral.

Vestido o Cadáver como hábito da milícia da Ordem de Cristo, e posto ao seu lado o estoque e o escudo de Cavaleiro, chamados a Lisboa muitos Grandes que então se achavam nas suas terras, como o Duque de Bragança, o Marquez de Villa-Real, e outros, logo na tarde do seguinte dia, sábado, foram os Reais despojos colocados num ataúde de veludo negro, sobre duas mulas ajeazadas de luto; e entre inumerável concurso de gente, e elas intermináveis de monges, nobres, e povo, foi o despojo do senhor D. João III levado ao mosteiro de Belém."

11/10/11

"SILABÁRIO DO CRISTIANISMO" - (Capítulos XV) Recapitulação




(Capítulo XV)
"O Além"
Recapitulação






1 - A alma é imortal; separando-se do corpo, já não poderá mudar o estado em que se encontre no momento da morte. não haverá então possibilidade alguma de arrependimento reparador ou de aquisição de novos méritos. Portanto, a morte é o momento do qual depende a eternidade.

2 - Quem morre sem a graça, portanto, em pecado mortal, é condenado ao Inferno, ou seja, à separação eterna de Deus (pena de dano), e a outros tormentos (pena de sentido).

3 - Quem morre em graça, mas tem culpas, veniais ou uma pena temporal que cumprir pelos pecados cometidos, vá ao Purgatório e ali permanece até que a Justiça divina seja satisfeita.

4 - Os que morrem em graça e não têm culpas nem culpas veniais, nem penas que purgar - como também as almas do Purgatório terminada a expiação - são admitidos no Paraíso, ou seja à visão intuitiva de Deus, o amor perfeito e imutável, a felicidade completa. O grau de visão, de amor e de felicidade em proporção ao grau de graça adquirido em terra.

5 - Ao fim dos tempos, no Juízo universal, Jesus Cristo encerrará a história da humanidade e terá seu justo e total triunfo. Todos os Filhos de Deus, fieis nas provas desta vida, constituirão com Jesus Cristo a Igreja triunfante, e mediante o Filho, estarão unidos ao Pai com o amor do Espírito Santo pelos séculos dos séculos e viverão na alegria da divinização completa.

(Índice da obra, AQUI)

07/10/11

"SILABÁRIO DO CRISTIANISMO" - (Capítulos XIV) Recapitulação




(Capítulo XIV)
"O Catecismo da Morte"
Recapitulação






O Cristianismo ensina-nos não só a viver, como também a morrer.

1- A morte, meditada à luz sobrenatural, é o caminho que conduz ao filho de Deus à glória. A visão sobrenatural beatífica só se dá ao que morre em estado de graça. Por isso,a coisa mais importante e essencial, é morrer em estado de graça.

2 - Para obter esse fim, o verdadeiro cristão trata de estar sempre sem pecado mortal, e assim que a morte não o apanhe desprevenido e não seja causa da sua eterna perdição. Quando está seriamente doente, apressa-se a receber os últimos Sacramentos: a Confissão, o Viático, a Estrema Unção.

A benção papal, tem por objectivo purificar a alma do enfermo d toda a pena devida pelos pecados cometidos, e com a recomendação da alma, a Igreja entrega-nos à Trindade, pedindo pelos nós no paraíso.

(Índice da obra, AQUI)

28/09/11

STº. AFONSO MARIA DE LIGÓRIO - RESUMOS V

A BREVIDADE da VIDA


Da 3ª consideração
A Brevidade da Vida
"Quae est vita vestra? Vapor modicum parens" (Jac. 4,15) ("O que é a vossa vida? Um fumo aparecido por um momento")

I
Depressa chega a morte
"O que é a vida humana! O Espírito Santo a compara a um fumo que se dissipa ao menor sopro, e não volta. Ninguém ignora que tem de morrer, mas a ilusão dum grande número é imaginarem a morte tão afastada que quase se lhes afigura que não vem.

É um grande erro. Job nos adverte que a vida humana é curta: "O homem - diz ele - vive pouco tempo... é semelhante à flor que apenas desabrocha e é calcada aos pés": Homo brevi vivens tempore: quasi flos egreditur et conteritur (Job 14, 1).

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