Mostrar mensagens com a etiqueta Mosteiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mosteiro. Mostrar todas as mensagens

18/09/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XVII)

(continuação da XVI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

Cap. XVII
A Vida Religiosa

1. Convém que aprendas a contrariar-te em muitas coisas, se queres ter paz e concórdia com os outros.
Não é pouco habitar nos mosteiros, viver neles sem queixas, e preservar fielmente até à morte.
Bem-aventurado aquele que vive bem nesse lugar e ditosamente acaba. Se queres permanecer e aproveitar, considera-te deterrado e peregrino sobre a Terra. Convém fazeres-te louco por amor de Cristo, se queres seguir a vida religiosa.

2. O hábito e a tonsura pouco importam. A mudança dos costumes e a perfeita mortificação das paixões fazem o homem verdadeiro religioso.
Aquele que busca outra coisa mais que puramente a Deus e a salvação da sua alma, achará só dor e atribulação. Não pode estar em paz quem não procura o ser mínimo e sujeito a todos.

3. Vieste para servir e não para governar; sabe que foste chamado para te exercitares no trabalho e no sofrimento, e não para gastar o tempo em conversações ociosas.
Aqui, finalmente, se provam os homens como na fornalha o ouro. 
Aqui ninguém pode estar senão quem, de todo o coração, se quiser humilhar perante Deus.

14/05/14

CONVENTO DE Sto. ANTÓNIO DO VARATOJO - A EXTINÇÃO (I)


D. Pedro I do Brasil, ou "D. Pedro IV"
"Foi atrasada, para não dizer suspensa, a acção missionária dos Varatojos, com o assalto do convento e expulsão dos seus religiosos, levado a efeito pelo governo liberal. O decreto da extinção de todas as ordens e congregações religiosas e da expropriação de todos os seus bens é assinado por D. Pedro IV em 28 de Maio de 1834. No ano anterior tinha dispersado a comunidade de Varatojo, certa da violência daqueles políticos anticongreganistas (1)

A fuga efectuou-se em 25 de Julho de 1833. Eram 21 os sacerdotes, 6 irmãos leigos e 6 irmãos donatos. Em Novembro desse ano o Juiz de Fora da comarca de Torres Vedras iniciava o arrolamento do recheio do convento. As pratas da igreja, custódia, cálices e cibórios foram salvos, graças à habilidade corajosa de um jovem religioso, dizia mais tarde um vizinho do convento, que supomos ser o Doutor José Eduardo César da quinta da Marinha. Toda a mobília do convento foi aleiloada, informa o mesmo doutor, e diz que a biblioteca fora poupada na ocasião, mas, em 1837, a maior parte dos seus livros foram transportados em 50 caixotes, para a biblioteca pública de Lisboa e os restantes abandonados à cobiça dos curiosos (2). A igreja, diz o mesmo informador, foi poupada, devido ao zelo e cuidado do Prior de S. Pedro de Torres Vedras, António Joaquim Alves Castelo Branco, que nela conservou sempre o Santíssimo e sustentou missa dominical.

O edifício conventual, excluída a igreja, foi comprado com a cerca, em hasta pública, em 1845, pelo Barão da Torre de Moncorvo, embaixador de Portugal em Londres. Durou 28 anos a solidão clausural daquele convento, cuja existência subia a três séculos e meio. Por milagre de Santo António, seu Padroeiro e titular, voltou aos seus antigos usufrutuários e ao antigo destino missionário em 1861. Dos 160 conventos franciscanos existentes no Continente, o de Varatojo foi o único restituído ao seu primitivo apostolado. Foi comprado nesse ano, incluída a Igreja, ao Conde Barão de Moncorvo, herdeiro do referido proprietário, pelo Padre Frei Joaquim do Espírito Santo, antigo egresso varatojano, por três contos e quatrocentos mil reis, cerca de 250 contos da moeda actual (3). A escritura foi assinada em Lisboa de 24 de Dezembro de 1860, mas o auto de posse realizou-se no convento de Varatojo a 16 de Fevereiro de 1861.


No dia 29 de Março seguinte, já era habitado por três sacerdotes e dois irmãos leigos, antigos "egressos" da comunidade varatojana. Juntaram-se-lhes mais tarde outros três sacerdotes dos antigos confrades de Varatojo. Iniciaram estes seis "regressos" a antiga vida austera da comunidade em que tinham sido criados e o apostolado das missões gratuito, como o dos seus antigos mestres, e como eles a celebração gratuita das missas diárias. Conservaram esta antiga disciplina durante 22 anos, 1861-1883.

Em Maio deste último ano receberam a visita do Ministro Geral de toda a Ordem, Pe. Frei Bernardino do Porto Romantino, que resolveu os austeros varatojanos a amaciar um tanto as austeridades da sua comunidade e a adquirir o convento de S. Bernardino da Atouguia da Baleia, Peniche, e o de Bracanes em Setúbal, para iniciar a criação da Província dos Santos Mártires de Marrocos em Portugal. Foi proclamada a inauguração desta Província à comunidade de S. Bernardino em 18 de Novembro de 1891 e à comunidade de Varatojo no dia seguinte.

A necessidade de sustentar colégio de preparatórios e coristados de filosofia e de teologia obrigou os antigos varatojanos à aceitação de esmola pela celebração das missas e pela pregação.

(continuação, II parte)

19/03/12

OS PRIMEIROS ANACORETAS DA CRISTANDADE (III)

CHRONICA
DOS
EREMITAS
DA SERRA DE OSSA

No Reyno de Portugal e dos que floreceram em todos os mais Ermos da Christiandade; dos quaes nos seguintes seculos se formou a Congregação dos Pobre de Jesu Christo; e muitos depois a Sagrada de S. Paulo primeiro Eremita, chamada dos Eremitas da Serra de Ossa.


LISBOA, M.DCCXLV


(CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO XVII)

"156. Temeridade grande seria a da nossa pena se quisesse impugnar tão glorioso e justo Principado estabelecido pela Igreja e pelas mais preciosas e firmes colunas que sustentam e defendem; e por isso só nos seja lícito repetir aqui em crédito e abono do mesmo Principado e satisfação, e reporta a tão grande argumento, as seguintes palavras do ilustre Autor do nosso Agiológio Lusitano: "É suposto que a Igreja Católica chame a S. Paulo primeiro Eremita, florescendo pelos anos 300 com tudo parece que o faz seguindo a mais universal notícia, que o faz seguindo a mais universal notícia, que há dos que viveram na Thebaida, Egipto e outros Provinciais Orientais, e não como definição Eclesiástica precisa, de que não houvesse outro nenhum antes em alguma parte do Mundo".  Esta tão douta, como verdadeira resposta, que dá Cardoso em defesa da primazia do Eremita S. Felix a respeito da de S. Paulo, devemos nós - veja o Leitor prudente se ainda com maior fundamento - repetir por justificação da primazia dos nossos santos Anacoretas da Serra de Ossa a respeito da dos dois nomeados, e mais conhecidos Príncipes e Mestres da solidão. Visto nos constar por autoridades, tradições, e documentos sólidos, que precederam a S. Félix nove, ou dez anos, ou ainda mais [anos], e a S. Paulo Tebeu mais de dois séculos: e assim como o Doutor Máximo da Igreja, a quem pela suma distância que medeia entre os desertos da Síria em que floresceu e os nossos da Lusitânia, não teve notícias algumas, dos Eremitas da Serra de Ossa, e só pelas vizinhanças, em que esteve dos de Tebásida, as teve de S. Paulo dadas pelos discípulos de seu grande discípulo S. Antão, as quais o moveram a dar-lhe o Principado do deserto; assim nós pelas que temos dos nossos cartórios, e por lermos as mesmas em Autores graves já acima citados neste Capítulo, dos quais expressamente consta serem os nossos Anacoretas da Serra de Ossa fruto espiritual da primeira pregação de S. Manços no ano 36 do Senhor; e também na segunda deste mesmo Santo Apóstolo da Lusitânia no ano de 92 temos sólido fundamento para os enobrecer com o glorioso título de primeiros Eremitas da Cristandade: para o que nos favorece muito a sublime pena, e doutrina do mesmo Doutor Máximo; o qual sem embargo de ter dado primeiro o principado do deserto ao grande Profeta Elias, e a seu Discípulo Eliseu ("Noster Principes Elias, noster Eliseus") o repete depois a S. Paulo Tebeu, e não duvidou extendê-lo também aos Antónios, aos Hiláriões, e aos Macarios, que lhe sucederam na glóriosa imitação da sua vida: "Nos autem (diz S. jerónimo) habemus propositi nostri Principes Paulos, Antónios, Hilariones, macarios", e nós seguindo o impulso de escritura, e pena tão outra e tão santa sem querer a nossa usurpar a Paulo e justa posse do seu Principado, o desejamos estabelecer também nos nossos Eremitas da Serra de Ossa que mais de 200 anos lhe precederam no tempo, posto que não nas virtudes.

159. Se os nossos veneráveis solitários da Serra de Ossa, sepultados nas grutas dela mais de dois séculos antes de S. paulo habitar as da Tebaida, viveram em notável distância naqueles desertos uns dos outros? Se prescreveram neles por toda a vida? E se estiveram sempre retirados do trato das gentes, sem que jamais houvesse ocasião que os necessitasse a comunicá-las, e a tornarem a ver os povoados? É matéria esta, cujos pontos nos não animamos afirmar, nem também negar; porque nem dos nossos cartórios, nem dos Autores achamos memória de tão perfeito modo de vida; porque ainda que o intentassem, como adiante veremos, não sabemos com certeza, nem probabilidade da sua pontual observância. Temos com tudo algumas conjecturas, de que o tiveram; porque começaram a viver como rigorosos, e verdadeiros Anacoretas, repartidos pelas covas, grutas, e cavernas daquela vasta montanha, muitas das quais ainda hoje conservam os nomes dos seus santos moradores, os quais, ou pelo habito perpétuo da sua altíssima contemplação, ou pelo natural temor das perseguições, e crueldades dos Idolatras, e Gentios, é muito crível, que nelas fariam perpétua morada em todo o decurso das suas vidas; e que por causa deste temor dos tiranos, e do excessivo amor, e trato familiar de Deus, nunca mais voltarão às Cidades, das quais não necessitavam para o seu sustento; porque não lhes faltava naquela solidão com grande abundância de aguas, ervas, e várias frutas silvestres, com o qual podiam conservar as vidas; porque de todas estas iguarias tão especiais para o gosto, e mortificação dos professores do Ermo, são certíssimos todos os seus montes, e vales; à vista de cujas razões temos por muito verosímil, que assim viveram, e serviram ao Senhor nos primeiros séculos de Anacoretas até passarem deste estado para o de Cenobitas, como irá mostrando esta nossa História. E porque temos satisfeito (ao que nos parece9 às gravíssimas dificuldades por parte dos primeiros Cristãos solitários da Alexandria, de S. Félix no Ermo de Rates, e do grande Paulo Tebeu no da sua Tebaida; fica à vista delas ainda mais gloriosa a primazia dos nossos santos Anacoretas da Serra de Ossa neste presente estado da lei Evangélica.

(terá continuação)

07/03/12

OS PRIMEIROS ANACORETAS DA CRISTANDADE (II)

CHRONICA
DOS
EREMITAS
DA SERRA DE OSSA
No Reyno de Portugal e dos que floreceram em todos os mais Ermos da Christiandade; dos quaes nos seguintes seculos se formou a Congregação dos Pobre de Jesu Christo; e muitos depois a Sagrada de S. Paulo primeiro Eremita, chamada dos Eremitas da Serra de Ossa.

LISBOA, M.DCCXLV


(CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO XVII)

154 Destas ilustres atestações de tão respeitáveis Historiadores bem se manisesta o grande direito, que este glorioso Anacoreta tem ao Principado da vida solitária, o qual certamente não seria menos decorozo, e agradável à nossa sagrada Congregação, e a toda esta Monarquia de Portugal, do que aquele, que já acima lhe assinalámos; visto nascer um, e outro de filhos seus; e sendo este segundo, que estabelecem Brandão, e os mais já citados Autores, dado a um Varão, a quem a Igreja passou das grutas dos Ermos para o sagrado dos seus altares; excelência que os outros da Serra de Ossa ainda não lograram, mais por falta de notícias autênticas que das suas heroicas virtudes tão ocultadas aos olhos do Mundo e tão patentes ao de Deus, que por elas os terá escrito com aractéres imortais, e gloriosos no eterno Livro da vida, no qual se veem estampados os seus nomes, porque nem destes temos memória; que como todos se deram à contemplação do Céu, nada quizeram deixar na terra; e por isso sepultaram nas concavidades, e grutas mais profundas dela não só as suas acções, mas com elas até os seus nomes, como mostrará o seguinte Capítulo. A estes pois, porque tiveram a primazia dos anos a respeito do Santo Anacoreta Félix, julgamos com os Autores já citados, ser-lhe por direito devida a da vida solitária, visto nos constar com aquela possível certeza, que póde caber na verdade da história, e admitir ponto tão antigo, que nove, ou dez anos, ou ainda muitos mais antes de 45 em que o Santo Ermita floresceu nos dezertos de Rates, segundo Brandão, ou no de 46 conforme o Autor do nosso Agiológio e os Padres Fonseca, e Fialho, ou ainda mais anos adiante, como afirma o Doutor Fr. Bernardo de Brito na segunda parte da Monarquia Lusitana, citando em favor da sua opinião a D. Fr. Bernardo Bispo Lugdonense, já havia inumeráveis Anacoretas nos Ermos da Serra de Ossa mandados para eles a primeira vez pelo primeiro Mestre, e Apóstolo da Lusitânica o glorioso S. Manços, convertidos por ele à nossa Santa Fé, e baptizados no ano 35 do Senhor, dois anos antes que o Sagrado Apóstolo Sant-Iago entrasse na Hispanha [Peninsula Ibérica], e baptizasse, e convertesse a S. Félix, como já fica dito acima no número 144 do Capítulo 16 deste primeiro Livro com o outo Faria, e Sousa; e mais largamente o repetimos em outros lugares com outros Autores de igual autoridade.

155 Ultimamente, não obsta contra esta a do Breviário, e Martiriológio Romano, que são os dois mais veneráveis, e infalíveis Oráculos da igreja em pontos históricos, aos quais se não póde opor pena alguma, ainda que ilustrada com grades letras, e exornada de todas as virtudes: maiormente quando todos os escritos dos Santos PP. e até as Bulas Pontifícias fazem maior a sua autoridade, e mais firme a sua certeza: afirmam pois todos com a mesma igreja na legenda do grande S. Paulo Thebeo, que ele é o Mestre, e o Autor da vida Eremítica: Paulus Eremitarum Author, et Magister, e a mesma Igreja, que lhe dá este Magistério, o chama primeiro entre todos os Eremitas do mundo Cristão. O Doutor Máximo seu digníssimo Cronista o julga também Principe dos dezertos, e Autor da vida Anacorética, e ao grande Antonio Egipcio o seu Ilustrador: demos as suas formais palavras: Anachoretae exeunt de Cenobio, et excepto pane, et sale, ad desuntm nihil proferunt amplius; ipsorum vite Author Paulus, Illustrator Antonius: e acrescenta o nosso Santo Doutor neste mesmo lugar citado, que não houve género algum de Eremitas na Igreja de Deus, senão aqueles, que da solidão do Egipto torouxeram o berço, o nascimento, e a santa disciplina do grande S. Paulo: Inveni sane multos apud AEgiptum, et alios in Palestina, ac tum in abundis laboribus tolerantiam; ad quorum obstupui precandi rigore, et constanciam, cum observarem quo pacto nec somno victi, nec aliqua necessitate deflexi sublimen semper, et invictum animi sensum, in fame, et siti, in  frigore, et munditate servarent, nec corpis rationem habentes, ipsi nec ad aliis eidem corpori aliquid cure impendi sustinentes; Id quasi aliena carne degerent, ipso opere ostendentes, quid sit in rebus hujus vite cum Paulo peregrinum esse, et conversationem in Caelo cum Cristo habere.

Por causa de todas essas expressões, e de muitas mais de outros PP. que seguindo a luz de Jerónimo, dão a Paulo o Principado, o Magistério, e a primazia da solidão, não falta Historiado, que referindo as glorias, e felicidades grandes, que Isaias vaticinou à memsa solidão, dizendo: Letabitur deserta, et invia, et exultabit solitudo, et florebit quasi lilum, germinans germinabit, et exultabi letabunda, et laudans; responde às perguntas que o mesmo Santo Profeta faz cheio de admiração, e de júbilo à vista do grande número sem número, e por isso quase infinito, de cultores, e professores da vida Ermítica: Quis genuit mihi istos? ego sterilis, et non pariens, et istos quis [?]? e responde totalmente esquecido dos Moisés no Monte Sinai, dos Davides na cova de Engadi, dos Elias nas grutas de Carith, e do seu Carmelo, e dos Baptistas nas Montanhas de Judá, dando não a estes, senão ao famoso Paulo Thebeo o único, e total princípio de tão prodigiosa, gloriosa, e espiritual produção: Quis genuit mihi istos? Quis? Paulus Eremitarum Author, et Magister.

(leia AQUI a continuação)

26/02/12

OS PRIMEIROS ANACORETAS DA CRISTANDADE (I)


CHRONICA
DOS
EREMITAS
DA SERRA DE OSSA
No Reyno de Portugal e dos que floreceram em todos os mais Ermos da Christiandade; dos quaes nos seguintes seculos se formou a Congregação dos Pobre de Jesu Christo; e muitos depois a Sagrada de S. Paulo primeiro Eremita, chamada dos Eremitas da Serra de Ossa.

LISBOA, M.DCCXLV



CAPÍTULO XVII

Prova-se Serem os Anacoretas daSerra de Ossa os Primeiros Eremitas da Cristandade

151 Neste precedente Capítulo deixamos provado com assaz evidência, que os primeiros Anacoretas, e Cenobitas no estado da Lei Escrita foram os grandes Profetas Samuel, Elias, e o Sagrado Percursos de Cristo; e no estado da Lei da Graça foram o mesmo Senhor, e todos os seus Sagrados Apóstolos. Resta agora no presente Capítulo mostrar com aquela certeza, ou conjectura provável, que contra tantos séculos de antiguidade, quais são aqueles esclarecidos Varões solitários, a quem (depois do seu Divino Exemplar, que Deus primeiro mostrou em figura da Moisés no deserto de um monte, e que depois de se unir à nossa passível natureza, foi levando na realidade para o monte de um deserto) se deva o principado deste, e a glória primazia da sua perpetua habitação neste santíssimo estado da Lei da graça? Resolvemos pois, que neste são os nossos Anacoretas da Serra de Ossa os primeiros, que depois de Jesus Cristo, e seus Sagrados Apóstolos, habitarão a solidão, e serão princípio ao estado Monacal. Todo o Capítulo 15 deste primeiro Livro, e Século, em que vamos escrevendo, é a mais eficaz prova desta nossa resolução, porque estabelecida a grande antiguidade dos nossos santos Ermitas, dela bem claramente se manifesta a sua primazia no presente estado da Lei da Graça. Neste, como temos dito, e provado, começaram a povoar os desertos da Serra de Ossa no ano 36 do nascimento do nosso Redentor, que foi o segundo da nossa copiosa redenção, e o segundo também da primeira Apostólica Missão do primeiro Pontífice Eborense, e Proto-mártir da Lusitânia o glorioso S. Manços: e como neste referido ano ainda não tinha começado a pregação dos Sagrados Apóstolos na Hispanha [Península Ibérica], bem se vê não haver nele ainda solitários conhecidos por tais, senão os nossos da Serra de Ossa filhos da Cidade de Évora, e mandados dela para aquele santo deserto pelo mesmo seu Mestre, e Apóstolo S. Manços, os quais não só têm a excelência de serem os primeiros Essénios, Offios, ou Cristãos, e Santos da Hispanha [Península Ibérica], mas também os primeiros Eremitas de toda a Cristandade. Assim o afirmam as nossas perenes tradições, os nossos sinceros cartórios, e o confessa o já citado acima P. Mestre Fonseca na sua Évora Gloriosa, na qual diz, que Os primeiros Eremitas de toda a Igreja Católica foram os Eborenses mandados por S. Manços para a Serra de Ossa; como também são os únicos, que se conservaram na Igreja, quando os outros se extinguiram, ou reformaram. O mesmo repete este doutíssimo Historiador mas adiante, afirmando, que Os Primeiros Eremitas de todo o Mundo Católico (como dissemos) foram os da Serra de Ossa, que nasceram no tempo de : Manços nos primeiros crepúsculo, e infâncias da Igreja, e viveram sempre com tanta inteireza varam.de vida, que extintos por diplomas Pontifícios todos os Eremitas da Hispanha [Península Ibérica], só os da Serra de Ossa se conservaram.

152 Este mesmo ilustre Jesuíta referindo a primeira perseguirão, que padeceram os primeiros católicos Eborenses, da qual se seguiu a segunda pregação, e o martírio do seu Apostólico Mestre S. Manços, diz as seguintes palavras: Não falta quem diga, que muitos destes afligidos Cristãos se embrenharam na Serra de Ossa, e deram princípio de vida Ermítica muito antes que S. Paulo, a que chamamos primeiro Ermitão, que proreceu em 245 o que se pode confirmar com a História de S. Félix, que já no ano de 46 era Ermitão com seu sobrinho Etc. Muitos anos antes do P. Mestre Fonseca tinha o Padre Manuel Fialho, já acima citado, dado também nos seus doutos, e difusos escritos a primazia da vida solitária aos nossos Eremitas da Serra de Ossa, a respeito de todos os mais da Cristandade, como bem se deixa ver das suas já referidas palavras, as quais aqui têm o seu próprio lugar, e são as seguintes: Também aqui na Serra de Ossa tiveram o seu primeiro princípio, e domicílio, primeiro que em toda a Hispanha os Monges Negros; e primeiro que eles desde o princípio da Fé floresceram na mesma Serra os primeiros Eremitas de toda a Cristandade pela pregação, e instrução do nosso glorioso, e primeiro Apóstolo, e Bispo S. Manços. E acrescenta depois o mesmo Padre, que Os primeiros Monges Negros da Hispanha, e os primeiros Eremitas de toda a Cristandade, foram os da Serra de Ossa. Bem confirma o parecer, e autenticidade destes doutíssimos Jesuítas o não se ler em Autor algum Eclesiástico, que antes da pregação do sagrado Evangelho fossem conhecidos alguns solitários em toda a Cristandade, senão os nosso da Serra de Ossa; e por isso se lhes deve só a eles, e não a outros, a primazia do sagrado Instituto Ermítico. Nem pode obstar a esta em primeiro lugar o afirmarem comummente os Historiadores, com o Doutor Máximo, que os primeiros Eremitas da Cristandade foram os do Egipto, primeiro instruídos, e depois mandados para aquelas vastas solidões pelo Evangelista S. Marcos: por quanto os tais Historiadores seguiram as notícias, que mais universalmente corriam daqueles Ermos; e não as tiveram dos nossos da Lusitânia por mais distantes; porque a tê-las, necessariamente haviam seguir a Cronologia dos tempos, segundo a qual consta que os solitários do Egipto começaram a habitar os seus desertos depois do ano 45 do Senhor; porque neste tal ano, diz o Cardeal César Barouio, que entrara o Sagrado Evangelho em Alexandria do Egipto, onde pelos anos seguintes mandou a muitos dos Gentios convertidos pela eficácia da sua pregação para o retiro dos Ermos: e os nossos Ermitas Eborenses, nove, ou dez anos antes, ou ainda mais, povoavam já os dezertos da Serra de Ossa como largamente fica provado; cuja antecedência de tempo dá a estes, e nega àqueles toda a primazia.

153 Não obsta por parte desta em segundo lugar dizerem o Breviário Bracarense na legenda do seu primeiro glorioso Arcebispo S. Pedro de Rates, os doutros Padilha na História Ecclesiástica de Hespanha; Manuel Severim de Faria na já muitas vezes citada Relação da Vida Ermítica; Cardozo nos Comentários do seu Agiológio Lusitano, e o Doutor Fr. António Brandão na sua, e nossa Monarquia Lusitana, que a vida Eremítica teve princípio neste Reino de Portugal por S. Feliz, o qual floresceu na solidão de um monte junto a Rates pelos anos 45 do Senhor: demos as palavras deste ultimo citado, as quais foram as seguintes. Uma das coisas que mais ilustram o Reino de Portugal é haver-se dado nele princípio de vida Ermítica, que tem sido de tanto proveito, e ornamento da Igreja Católica. Foi o primeiro, que instituiu esta vida um Santo Varão chamado Félix, o qual viveu num em um monte junto a Rates em tempo do primeiro Arcebispo de Braga S. Pedro, o qual (como é sabido) foi discípulo do Apóstolo S. Tiago, e faleceu pelos anos de Cristo de 45. De Félix, e seu modo de vida faz menção o Breviário de Braga na vida do mesmo S Pedro. Este Instituto de vida Eremítica floresceu depois por todas as partes da Cristandade, e aprece que se derivou de Portugal; por quanto em todas as Províncias se acha, que uzaram do mesmo nome, e hábito, que trouxeram os Eremitanos Portugueses antigos; e se conservou até nossos tempos nos Religiosos da Serra de Ossa. Até aqui o douto Brandão, cujo parecer seguem os famosos Antiquários D. Francisco de Padilha, Jorge Cardoso, manuel Severim de Faria, já acima citados; o primeiro e último dos quais reconhecem a S. Félix pelo primeiro Ermita de Hispanha; e o segundo começa a sua nunca assaz louvada História no Comentário ao primeiro de Janeiro por estas palavras: Damos princípio aos Santos de Portugal com S. Félix (dado, que lhe não sabemos dia próprio) por ser o primeiro fundador, e pai da vida Ermítica, e Monacal neste Reino.

(tem continuação)

17/11/11

O ÓRGÃO - O INSTRUMENTO DA IGREJA, EM PORTUGAL (IV)

Igreja do Mosteiro dos Jerónimos

Lisboa

(Portugal)





.

16/08/11

NOTÍCIAS LONGÍNQUAS DO MOSTEIRO E CASTELO DE GUIMARÃES

De uma escritura de que consta haver um burgo junto ao mosteiro, e da fundação do Castelo de Guimarães

Castelo de Guimarães

"1. O traslado da escritura da fundação do Castelo em seu latim bárbaro é o seguinte: Post in multo u tempis pd hunc feries testamentti in et spectu multo [… etc…]

A sentença é esta: Pouco tempo depois que este testamento se confirmou em presença de muitos, os gentios entraram furiosamente no burgo deste nosso mosteiro e antes disso, com o medo deles, edificamos o Castelo chamado S. Mamede no monte latito, lugar sobredito que está encima deste mosteiro e concedemo-lo para sua defesa aos frades, e freiras, que nele moraram de tal maneira que se acontecer que meus filhos, Gonçalo e Oneca, quiserem entrar nele o não possam alhear do mosteiro. E os ditos meus filhos o tenham em sua vida debaixo do seu amparo e protecção. E depois de sua morte o tenha por parte do santo mosteiro qualquer dos seus netos que os frades e freiras elegerem. E se (o que Deus não queira) como já encima dissemos, meus filhos, netos, irmão ou qualquer de minha geração alhear o dito Castelo de modo que seja impedimento ao mosteiro para não usar dele, esta confusão, que de cima vem, venha sobre ele nesta presente vida, e depois de sua morte seja lançado no inferno. E este feito tenha sempre vigor e firmeza. Foi notório aos quatro de Dezembro Era de mil e seis, Mumadona de boa e livre vontade confirmo outra vez este meu voto. Os que fomos presentes e concedemos esta confirmação. Gonçalo Mendes, e os mais acima escritos. Àquela Era responde o ano do senhor 968.


2. Que gentios fossem os que entraram no burgo da Condessa não muito tempo depois de fazer o seu testamento, ou doação, não me consta expressamente, mas no ano do Senhor 965, que são 30 anos depois, Alcoraxi Mouro Rei de Sevilha destruiu Portugal e entrou por Galiza até Compostela assolando tudo, de que trata Vaseo em sua história. E temendo a Condessa estas entradas, e outras muitas que fez Almanzor, se preveniu edificando o Castelo que dotou ao mosteiro para sua defesa depois de entrar Alcoraxi três anos, e é credível que naquela entrada as freiras e frades se salvaram nele."

TEXTOS ANTERIORES