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30/05/17

IMAGEM PEREGRINA - MARAVILHAS NA DIOCESE DA GUARDA - 1950 (II)

(continuação da I parte)
 
Gouveia
Transcrevo do título "O nobre exemplo de Gouveia - Uma procissão de 2 horas, sob uma chuva torrencial":

"Badalaram as onze da noite.
A escuridão é espessa, impenetrável.
Do Céu cai chuva copiosa, que inunda as estradas e os campos.
Que fará Gouveia que se aproxima? De longe, ao subir a rampa que leva de Vinhó a Gouveia, dir-se-ia, que a vila-fábrica, tão agitada sempre no tumulto das suas máquinas, da sua população trabalhadora, dormia calma, alheia à visita que iria receber. Breve se dissipou a ilusão. um grupo de morteiros mostrou que Gouveia velava, e pouco depois, Gouveia surgia, na agitação tumultuosa da sua ansiedade e do seu fervor. Ali, aos balcões, ao limiar do seu casario, Gouveia está em peso, com suas autoridades, com seus patrões, com os seus operários, com o seu comércio, com os seus lares. E lá dentro, apenas luzes, muitas luzes, flores muitas flores, arcos, legendas, uma decoração e uma iluminação eufórica.
A empresa que fornece a luz electrica declarou que ninguém pagaria a luz daquela noite, que podia toda a gente gostar a que quisesse. Essa seria a homenagem da empresa a Nossa Senhora! E Gouveia foi toda uma mancha branca a esgarçar a treva daquela noite tão escura no espaço como branca nas almas. Chovia, chovia sempre. Mas as manifestações continuavam, cheias de ardor, com fé e entusiasmo, como se a luz do luar de uma noite calma e acolhedora, caísse, doce e meiga, sobre Gouveia. E lá vai a Senhora na sua berlinda, para que a chuva copiosa a não molhe. E a chuva não cessa, nem os cantos, nem as aclamações. Cresce a chuva não cessa, nem os cantos, nem as aclamações. Cresce a chuva e cresce o entusiasmo, num desafio dinâmico. Mas um momento, a chuca, como querendo dar ao fervor das almas o último desafio, desatou a cair a potes, em catapultas. Dir-se-ía que as fontes do céu se haviam rompido e uma tromba de água contínua desabava sobre a terra.
A estrada fez-se ribeiro e todos caminhavam encharcando os pés e as cabeças. Quem recua?
Ninguém. Quando a chuva é mais abundante, verdadeira cascata, um grupo de homens, com aplauso da multidão, faz parar a berlinda, arranca dela a imagem, coloca-a sobre os ombros, e, com cânticos mais ardentes e aplausos, prossegue a procissão, sob a mesma fúria da chuva, que logo abrandou ....
E foi assim, sob chuva copiosa, que a Virgem Peregrina prosseguiu durante duas horas, pelas ruas da vila, cuja população a seguir, sem afrouxar no seu ardor e na suas manifestações. Não cremos que prova de Fé, mais viva, mais impressionante se tenha dado ou venha a dar-se no decurso da peregrinação de Nossa Senhora em qualquer outra parte do mundo.
Poderia esperar-se que, chegando à igreja, a turba debandasse a tomar roupa seca, enxuta. Pois não. A igreja encheu-se de lés a lés e, com o padre Marcos no púlpito, a rezar, a pregar, a cantar, a turba ficou a pé firme até de manhã.
Quando o sol começa a espreitar Gouveia por entre nuvens que forravam o céu, Gouveia estava aos pés de Cristo: - uma comunhão, que se avalia feita por mais de um milhar de pessoas. O capuchinho Vilas Boas preparara as almas e as almas responderam ao apelo do Céu. Todos os actos do programa da manhã correram com devoção e brilho. A nota destacante da jornada foi a Missa Campal. Não é fácil descrever essa magnificente manifestação. Umas vinte mil pessoas se juntaram naquele vasto campo, que sobe da avenida para o Senhor do Calvário, ao alto do que se erguia o altar do Sacrifício.
Momento a momento, a turba engrossa e todo o amplíssimo recinto se enche completamente de uma multidão copiosa e ondulante. Erguem-se bandeiras ao céu, trovejam as aclamações, rasgam-se cânticos de piedade. A multidão reza, canta e espera.
Ao lado, um friso comovente de doentinhos: crianças, adultos, velhos - gama impressionante de todas as misérias. Mas a turba não cessa de rezar nem de cantar. E a missa começa, dialogada, através de altos falantes no meio de uma ordem e compostura edificantes. Poucas vezes temos visto a massa da população, que em verdade estava ali Gouveia em peso: uma lição a colher e guardar para tanta coisa que é preciso que se faça com urgência. (...)
E foi depois a consagração da vila e do Concelho a Nossa Senhora, feita pelo ilustre Presidente da Câmara (...), entregando no coração de Nossa Senhora os destinos de todo o Concelho, para quem pediu as melhores graças e bênçãos. E logo se procedeu à bênção dos doentinhos (...)
A meio da piedosa cerimónia, correu um alvoroço pela multidão. Uma criança doente teria recuperado a saúde. Não obtivemos mais notícias do acontecimento.
Mas para tornar grande e histórica aquela jornada gloriosa, não precisava Gouveia de outro milagre que o da sua presença em apoteose aclamadora, naquela montanha sagrada. (...)
Se é verdade que português igual a católico, com igual verdade, português igual a devoto de Maria, até porque, nessa devoção bem compreendida, está toda a economia da Redenção. (...)
O cântico do adeus, com a revoada de lenços que se agitavam em sentimento comunicativo, explica bem as lágrimas que de tantos olhos caiam em catadupas. E já a Senhora descia a rampa para Rio Torto e ainda, lá cima, os lenços, em adejo ardente, se agitavam em saudade.
 
[em continuação veremos com em Celorico Nossa Senhora recebe as Chaves da vila]
(continuação, III parte)

10/04/17

PROCISSÃO DAS 7 DORES DE N. SENHORA - Mafra

Algumas fotos da Procissão das Sete Dores de Nossa Senhora, em Mafra (9 de Abril de 2017). Desta, descartámos as fotos menos adequadas.. Eis a selecção:




 


























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A Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra, por ocasião das comemorações dos 300 anos do Convento de Mafra, montará o trono para a exposição do Santíssimo (na Quinta Feira Santa) no altar da Sagrada Família
(este trono é muito raro ser montado nos dias que correm)

27/05/16

PROCISSÃO DE CORPUS CHRISTI, EM DOCUMENTOS DA CÂMARA DE LISBOA

Para quem se interessa por saber a respeito da famosa procissão do Corpus Christi de Lisboa, aqui encontrará alguns dados, quase todos retirados dos vários volumes da mesma obra. Centrei-me apenas no período joanino, para diminuir a extensão do artigo.

D. Manuel, segurando a vara primeira do pálio, na procissão de Corpus Christi, em Lisboa
"Quinta-feira, 20 do corrente, acompanha S. Majestade a procissão do Corpo de Deus da Santa Igreja Patriarcal, e nela há de pegar, com os Senhores Infantes, nas varas do pálio; e é servido que V. Mercê como Ministro que serve de presidente do Senado da Câmara desta cidade, por mais antigo, pegue na vara que lhe toca em semelhante função, que é a que se segue a Suas Altezas, até fora da porta do pátio, onde a há de largar, e na volta da procissão há de V. Mercê tornar a pegar na mesma vara, no dito sítio até à Santa Igreja; e trará V. Mercê o manto de que for cavaleiro." (Carta do Secretério de Estado Diogo de Mendonça Côrte Real ao Vereador do Senado Ocidental Jorge Freire de Andrade - 18 de Junho de 1726)

Vamos agora a outro assunto, que depois voltaremos às varas do pálio.

Com a mesma data, Diogo de Mendonça Côrte Real, envia uma carta ao Escrivão do Senado da Câmara, na qual recomenda que as ruas, por onde passará a procissão, estivessem bem limpas e enxutas, de modo que quando fossem areadas, não houvesse ali humidade alguma.

Pelas contas podemos ver que uma das partes mais dispendiosas para Câmara Municipal de Lisboa, relativamente à procissão de Corpus, era com os toldos, colunas, e armações. Uma parte menor, ia para cera (esta servia ainda para alguns Ofícios divinos, e outras procissões anuais). Menor que estas era o concerto das calçadas da cidade (este era o momento do ano em que as calçadas estavam no seu melhor). As fontes e escoamentos públicos tinham que estar bem concertados, e gastava-se nisto bastante. O Rei fazia muita questão da limpeza.

Parece que a Câmara tinha andado a poupar nas madeiras dos pórticos colocados para a procissão, pois mandou-os fazer em madeira de pinho. Com os anos, o artefacto deu mostras de degradação e, consultado o Rei, ordenou-se que este pórtico fosse desmanchado e desfeito em achas de madeira e paus, e vendido este material a quem mais pagasse. A nova madeira foi só achada no souto do Rei (para os lados da Barquinha), porque eram necessários troncos de castanho altos e muito direitos. Estes pórticos eram dourados a folha de ouro, e neles havia outros elementos, como tecidos. Em 1727 a base começou a ser pintada numa tonalidade parecida com o ouro, pois o contacto com o solo danificava esta parte facilmente.

"Logo que a procissão do Corpo de Deus recolhia à Sé, e conforme velho estilo, a imagem do Santo defensor do Reino, com toda a sua comitiva e estado da cavalariça da Casa Real ricamente ajeazado, era levada ao castelo de S. Jorge, nome que D. João I, em homenagem ao mesmo santo, deu ao antigo castelo de Lisboa, depois de o haver restaurado, como já em outro lugar dissemos.
À porta do castelo era o Santo recebido pelo Alcaide-mor de Lisboa, o qual lhe entregava as chaves da fortaleza e lhe conduzia o cavalo à mão; a guarda, depois de lhe apresentar armas, punha-se em marcha com tambor e bandeira, precedendo o cortejo que assim seguia pelo castelo até à praça de armas, levando o santo sempre as chaves na mão, as quais o Alcaide-mor novamente recebia quando, com as devidas continências, o santo retirava pela mesma porta por onde entrára, indo, com o pomposo estado e comitiva, até ao lugar do seu depósito.
Depois da extinção do cargo de Alcaide-mor de Lisboa por alvará régio de 6 de Novembro de 1769, era o Governador do castelo que fazia a entrega das chaves com todo o cerimonial do formulário.
Actualmente já essa cerimónia se não realiza, mas o santo, quando vai para a procissão, ainda com o seu estado dá volta à praça de armas e recebe as continências do estilo.
Data do ano de 1387, como também já dissemos, ano em que se verificou o casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre, filha do Duque de Lencastre, João de Gaunt, o costume de ir a imagem do glorioso Mártir S. Jorge, a cavalo, na procissão de Corpus Domini.
Nos anos de 1846 e 1847 não saiu a imagem de S. Jorge, porque a procissão se não realizou, facto que igualmente sucederia no ano de 1523, por causa da peste, o que, em tal conjuntura, denota bom senso da parte do governo de D. João III, posto que este monarca não quisesse inteiramente sobrecarregar a sua consciência com semelhante acto, e deixasse à Câmara a maior responsabilidade, como se vê na seguinte carta régia:
Vereadores, Procurador e Procuradores dos Mestres, Nós ElRei vos enviamos muito saudar. Porque por experiência está visto que dos ajuntamentos de muita gente, quando morrem nesta cidade de peste, se segue maior dano e se acrescenta mais o dito mal, nos pareceu bem vos antecipar que se devia escusar o ajuntamento da Festa do Corpo de Deus, e que somente bastaria fazer a dita Festa, o melhor que se pode fazer, na Sé e em cada Igreja com os fregueses dela, e assim nos mosteiros, sem outro maior ajuntamento de toda a cidade, por se escusar mais principal dano da peste, que está visto por experiência, como dizemos, que disso se segue: E houvemos por bem vos notificar nosso parecer, e, pelo muito que desejamos a saúde da cidade, folgaremos de praticardes em câmara isto que vos expomos. Etc...
(das notas do Elementos Para a História ...)

Voltemos agora às varas do pálio, e em tempos em que D. João V ainda não tinha entrado na situação. Dizem as notas do mesmo Elementos

"No ano de 1683, por ocasião da procissão do Corpo de Deus, suscitou-se mais uma daquelas transcendentes questões que eram frequentes nas procissões que a Câmara tinha oficialmente de acompanhar.
Muitos desses incidentes resolvia a Câmara de pronto e não tinham mais consequências, nem deles ficava memória; outros, porém, davam até origem a pleitos, como sucedeu com aquele a que nós estamos referindo, e que, não obstante a sua mínima importância, é mais uma prova da tenacidade com que os mestres defendiam os seus direitos e regalias.
Tomemos conhecimento do caso pela narrativa que dele mandou fazer a Casa dos Vinte e Quatro num dos seus livros régios:
Estando todo o Senado na igreja da Sé, para dar princípio à procissão da cidade, dando o Vedor das Obras as varas aos Ministros do Senado, e devendo dá-las juntamente aos Mestres, o dito Vedor as não quis dar, alegando que não estava em posse de as dar, nem ele, nem seu pai, nem seu avô, pelo que requereram os ditos Mestres logo ao Presidente, para que dissesse ao dito Vereador que désse as varas aos Mestres, e com efeito mandou o Presidente ao Vedor que désse as varas, e com efeito as deu aos ditos Mestres, pelo que protestou logo o dito Vedor (...), e se lhe mandou tomar [registar] o seu protesto, o qual consta da mesma sentença ser feito aos 24 de Maio de 1683; e correndo litígio, os ditos Mestres com o Vedor, e dando-se prova e documentos de parte a parte, se sentenciou a causa no Senado, cuja sentença é a seguinte: Acórdão em vereação, etc. deferindo a petição do suplicante Francisco Tavares da Silva, Vedor das Obras da cidade (fs. 2), de que, pelo despacho deste Senado (fs. 3) se mandou dar vista aos Procuradores dos Mestres para responderem a ela, ao que satisfizeram (fs. 12), e como por parte do dito Vedor das obras se alega estar ele e seu pai e avô, que serviram o mesmo ofício [na procissão] e dele foram proprietários, em posse de nunca darem as varas nas procissões aos Procuradores dos Mestres, e lhe não poder prejudicar esta antiga posse o que alguns serventuários em contrário obrassem, por quanto, no caso em que estes algumas vezes dessem aos suplicados as ditas varas nas procissões, seria por sua particular conveniência ou dependência que deles teriam, ao que atendendo, e protesto que o suplicante fez (fs. 4) quando, por ordem deste Senado, foi, a requerimento dos suplicados, obrigado a que desse as varas, sem embargo da posse em que alegou que estava: e como esta se não impugna por parte dos suplicados em sua resposta, e os assentos do Senado (fs. 5 e 10) não façam a declaração que, conforme a direito, se requer, para o suplicante ser tirado da antiga posse em que está, por si e seus antecessores, de nunca darem as ditas varas aos suplicados, mandam que nela seja conservado, e o hão por desobrigado, para dele poderem tratar pela via que lhe parecer. Lisboa, 22 de outubro de 1683. Desta sentença do Senado agravaram para o Desembargo do Paço os ditos Mestres, onde tiveram provimento na forma de sentença do dito Desembargo do Paço, a qual sentença é a seguinte: Agravados são os agravantes pelos Vereadores do Senado da Câmara, em mandrem conservar ao agravado na chamada posse não dar as varas aos agravantes, provendo em seu agravo, visto os autos; e, como pelos documento juntos neles se mostra que, por assentos multiplicados do mesmo senado, tinham os vedores das obras obrigação de dar as varas aos agravantes, e que assim se praticou por serem eles partes integrantes do mesmo Senado, contra a qual disposição não pode provalescer nem é bastante a chamada posse de se não observar esta forma em alguns actos, portanto, e mais dos sitos autores, mandam que o Vedor das Obras seja obrigado a dar as varas aos agravantes, e o faça com efeito. Lisboa, 14 de Janeiro de 1684."
A idade também colocou limites a quem cabia levar as varas:

"Os Senados me ordenam que diga a V. Mercê, para que o faça presente a S. Majestade, que os Vereadores que hoje se acham nos mesmos Senados, são o Desembargador Jorge Freire de Andrade, António Pegado de Lima e Jerónimo da Costa de Almeida, e que o Vereador mais antigo, Jorge Freire de Andrade, a quem toca pegar na vara do pálio na procissão de Corpus, se escusa de o fazer, por se achar impossibilitado, e o mesmo faz o Vereador António Pegado de Lima, dizendo que não só está incapaz de pegar na vara do pálio, mas de acompanhar a procissão, pelos muitos achaques que padece, para que seja o dito senhor servido ordenar que pegue na vara do pálio o Vereador Jerónimo da Costa de Almeida, por ser o que só se acha capaz de o fazer, e que o vereador Jorgue Freire de Andrade vá na procissão da cidade oriental, porque o Cabido a não faz sem que a acompanhe um Vereador [do Senado Ocidental]." (carta do Escrivão do Senado da Câmara a 29 de Maio de 1733)

Posto isto, Diogo M. Côrte-Real envia carta ao Vereador do Senado Ocidental, Jerónimo da Costa de Almeida, a 2 de Janeiro de 1733:

"Quinta-feira, 4 do corrente, acompanha Sua Majestade a procissão do Corpo de Deus da Santa Igreja Patriarcal, e nela há de pegar com o Príncipe, nosso Senhor, e os Senhores Infantes D. Francisco e D. António nas varas do pálio; e por se acharem impedidos Jorge Freire de Andrade e António Pegado de Lima, Vereadores mais antigos do Senado, é servido que V. Mercê pegue na que toca ao mesmo Senado em semelhante função, que é a que se segue aos Senhores Infantes, até fora da porta do pátio, onde a há de largar; e na volta da procissão há de V. Mercê tornar a pegar na mesma vara, no mesmo sítio, até à mesma Santa Igreja: e trará V. Mercê o manto das sua Ordem, para o levar na procissão."

Saída das mitras, seguida da saída de um das várias basílicas
A irregularidade das ruas de Lisboa era algo indesejado. A regularidade das ruas, com era já intenção de D. João V que fosse, ou viessem a ser, facilitava o trabalho e poupavam custos à Câmara:

"... e que feita regularmente a referida obra, como V. Majestade ordena no seu real decreto, se facultem as licenças. Seria também desnecessário usar-se de mastros em dia da procissão de Corpus, para encher aquele vão que, além de ser por este modo mais laborioso, sempre fica com disformidade que atalhará a boa obra, e correrão direitas as armações e ficará a rua formosa, como assim insinua o real decreto..."

A Câmara chegava a não ter como pagar as despesas que tinha para que a procissão corresse nos moldes que o Rei tinha estabelecido:

" [...] Os Senados, de cinco anos a esta parte, têm tomado sobre as suas rédeas, a razão de juro, por decretos e resoluções de V. Majestade, que executaram com pronta obediência, o melhor de quinhentos mil cruzados para pagamento das obras e concertos das calçadas dos caminhos e estradas de Mafra, feitas nos termos destas cidades e fora deles além de perto de cento e setenta mil cruzados que também haviam tomado a juro para a colunata e toldos da procissão de Corpus, da cidade Ocidental, de que se acham obrigados a pagar cada ano, de juro, perto de trinta e quatro mil cruzados, e, fechando os Senados os olhos ao incómodo que haviam de experimentar de futuro, por se não acharem com rendas suficientes para satisfacção das dívidas que contraíram, só atenderam a dar cabal cumprimento a tudo o que era do real agrado de V. Majestade. E, quando a esta quantia não podiam suprir as rendas das cidades e sobejos dos reais da água e realete, lhes acresceu o ficarem devedores a vários calceteiros (a quem não pôde chegar para seu pagamento o dinheiro tomado a juro) de muito grandes quantias que importam, sem dúvida, em mais de quatrocentos mil cruzados, cujos credores, ou seus cessionários, vendo que os Senados lhes não pagam, têm usado dos meios ordinários contra a fazenda das cidades, penhorando-lhes suas rendas, em tal forma que quase toda ela, e ainda os sobejos referidos, se acham consignados ou penhorados, a instância dos mesmos credores, de que procede não ficar rendimento algum para satisfacção dos juros mencionados, nem dos antigos, porque o que fica ainda não basta para pagamento dos ordenados das pessoas que servem nos Senados (...) lhes é forçado recorrer a V. Majestade, como único remédio de seus vassalos que na falta dos pagamentos, a que os Senados não podem acudir, experimentam um irreparável dano, por serem muitos dos credores pobres e necessitados, que se vêem vexados e perseguidos, e, sendo matéria tão importante por ser em prejuízo de terceiros, lhes não podem os senados por nenhuma via dar remédio. etc..."

Anos depois, os atrasos nos pagamentos eram tema ordinário:

"Os Senados me ordenam remata a V. Mercê a petição inclusa, do Mestre Carpinteiro João Pereira, arrematante da armação da colunata, para que, vendo-a V. Mercê faça presente a S. Majestade que a armação dos toldos e a da dita colunata fazem uma grande despesa, por estarem trabalhando há mais de um mês sem se lhe ter pago coisa alguma, e que sem se lhe dar dinheiro não quer trabalhar; e como os Senados o não têm, nem meios para o poderem fazer, e sem se trabalhar não cabe no tempo poder-se acabar a referida armação para o dia da procissão de Corpus, é preciso que o dito senhor, com a brevidade possível, ordene aos mesmos Senados o que devem fazer neste particular. (Carta do Senado da Câmara a Diogo de M. Côrte-Real - 25 de Maio de 1735)

Não bastou... Veja-se logo 2 dias depois noutra carta dos mesmos para os mesmos:

"Os Senados me ordenam que diga a V. Mercê que Lucas Nicolau Tavares da Silva que, como Vedor das Obras, tem a incumbência da armação da colunata para a procissão de Corpus, fizera esta manhã presente na mesma que todos os oficiais de carpinteiro que andavam trabalhando nela, se despediram, por haver quatro semanas, com a que finda amanhã, que trabalhavam e se lhes não tinha pago; e como o tempo passa e estes homens, sem se lhes dar dinheiro, não continuam no dito trabalho, e com o temporal de ontem se romperam dois painéis, de tal sorte que é preciso fazerem-se de novo, esperam os mesmo Senados que V. Mercê seja servido dar conta a S. Majestade de todo o referido, etc..."

... mas estavam a bater à porta errada, porque o pagamento da colunata era afinal a cargo do Almoxerife do Real d'Água do vinho.

"Foi no ano de 1719, como já foi dito, que pela primeira vez se levantaram as colunatas e pórticos no Terreiro do Paço e no Rossio e se armaram e toldaram as ruas do transito da procissão de Corpus Christi de Lisboa Ocidental, conforme o projecto elaborado pelo Arquitecto alemão João Frederico Ludovice que, pela direcção dos trabalhos no dito ano e no de 1720, recebeu cento e vinte mil réis, ajuda de custo que os Senados lhe mandaram pagar por virtude da ordem régia, de que trata a carta do Secretário de Estado de 31 de julho de 1720 (Elementos... tomo XI, pag. 419)

Despesas em cera, colunata, toldos e outros gastos, no ano de 1738 (eliminemos os números):

"- Ao Mestre Carpinteiro João Pereira, de armar e desarmar, por arrematação, a colunata do Terreiro do Paço e do Rossio, e recolher-la ao armazém.
- A Francisco Ferreira da Rosa que tomou de arrematação armar e desarmar os toldos e por e tirar os mastros das ruas da cidade ocidental;
- A Bento Gonçalves de Oliveira que arrematou o concerto dos toldos das ruas;
- A Manuel Carneiro Rangel, por fornecimento de bríns para o concerto e reforma de toldos;
- Ao dito, pelo fornecimento de meia-lona para os novos oleados do tecto da colunata;
- A Manuel Mário da Costa, arrematante da armação dos mastros e da colocação das medalhas na colunata e nas fronteiras dos Paços do Concelho das cidades Ocidental e Oriental [Lisboa Oriental, e Lisboa Ocidental, ais quais tinham sido divididas por D. João V em cidades distintas];
- A Inácio de Brito, pelo fornecimento da madeira de castanho para o concerto da colunata, e para cavaletes, andaimes, etc., "respeitando-se ao pouco tempo que havia até ao dia da procissão";
- A António Nunes de Oliveira, pelo fornecimento de vários lotes de pinho para os ditos concertos e andaimes;
- A João Gonçalves Cabeleira que se obrigou a fornecer e transportar areia da banda de além, e a espalhá-la pelas ruas do trânsito das procissões;
- A João Ferreira da Costa, de fornecer, por arrematação, e transporte da banda d'além até ao Cais da Pedra espadanas e alecrim;
- A Agostinho Rodrigues, por conduzir e espalhar o alecrim e as espadanas nas ruas [da espadana diz o dicionário "..., com ela, se junção as igrejas por festa"; A. Herculano (en Monge de Cister, cap. 17) descreve: As ruas por onde esta havia de passar estavam desde a véspera varridas e cobertas de junco e espadanas"], conforme arrematara;
- A Bento Gonçalves de Oliveira, de dobrar e recolher os toldos da cidade ocidental, como arrematara, entrando o concerto de um que se rasgou com a tempestade;
- A Bartolomeu Gonçalves da Cunha, cereiro das cidades, pela cera que forneceu;
- A Lucas Nicolau Tavares da Silva, Almoxarife da colunata e toldos, do seu ordenado vencido em Junho deste ano;
- A Manuel da Silva Tavares, escrivão da receita e despesa do mesmo almoxarifado, pelo seu ordenado do dito ano;
- A António Dias, pelo trabalho que tomou de arrematação, de abrir e fechar as cadeias que se puseram nas embocaduras das travessas nas ruas do trânsito da procissão da cidade ocidental, e pelos carretos das mesmas cadeias;
- A Francisco Xavier de Melo, Escrivão das Obras das cidades, que despendeu, a saber; 12$000 réis com os oito cavaleiros que levaram as oito varas do pálio da procissão do Corpo de Deus da cidade oriental, a 1$500 réis a cada um; 1$200 réis ao Padre que na dita procissão levou o descanso, e 4$000 réis que se dão ao mesmo escrivão por ajuda de custo, anualmente, pelo trabalho que tem em assistir ao espalho das espadanas, alecrim e flores pelas ruas da mesma cidade oriental;
- Aos carpinteiros que trabalharam no concerto da colunata;
- Aos pintores que renovaram a pintura da colunata;
- Ajuda de custo a Pedro Homem de Menezes, Escrivão da Receita e Despesas dos Senados, por escriturar as despesas destas procissões;
- Ao Porteiro do pátio das casas do Arcebispo por abrir a porta, cedo, todos os dias para se trabalhar nos toldos, e à noite fecha-a;
- A Lucas Nicolau Tavares da Silva, Vedor das Obras, por assistir de noite ao espalhar das espadanas, alecrim e flores nas ruas do trânsito da procissão da cidade ocidental;
- A Martinho da Costa, Carpinteiro, de ajuda de custo para os gastos que fez no seu tratamento, em consequência da queda que deu de cima da colounata, de que esteve sangrando;
- A Domingos da Silva, Marinheiro, de ajuda de custo, porque caiu abaixo da colunata, de que esteve muito enfermo;
- A Simão Antunes, Cordoeiro, pelas cordas que forneceu para os toldos;
- A Domingos Gonçalves Antunes, por tintas, óleo, pincéis e outros artigos de pintura;
- A João Fernandes, Contínuo dos senados, para pagar o aluguer das bestas, em que foi por duas vezes ao Campo Grande e Chelas dar recado aos juízes dos hortelões, para trazerem flores para as ruas das procissões, ocidental e oriental;
- A Victorino Mendes Pereira, Meirinho das cidades, 4$500 réis de ajuda de custo pela despesa que fez com a sua pessoa, indo acompanhar os bandos que se lançaram para se não deitarem águas nas ruas das procissões e se porem armações; e 10$400 para pagar aos trombetas e porteiro, e algures de bestas em que foram no mesmo acto;
- A Francisco Xavier de Melo, Escrivão das Obras, pela compra de oito varas de fitas para atar as varas do pálio da procissão da cidade ocidental;
- A Miguel Rodrigues, Esparteiro, por 12 bestas de esparto para espias dos mastros;
- Ao Desembargador Jerónimo da Costa de Almeida, superintendente da colunata e toldos, pelas rúbricas em dois livros, um de receita e outro de despesa;
- Custo de um cofre para nele se arrecadar o dinheiro das novas licenças."

Pela demora, e porque já foi ontem a Festa do Corpo de Deus, não me posso demorar mais, e faço já a publicação deste.

19/05/16

I PROCISSÃO DO SANTÍSSIMO NA PARÓQUIA DE S. MAMEDE (ÉVORA), em 1564

Igreja de S. Mamede, Évora
"Jhus+. No ano de 1564, no quarto Domingo depois do Pentecostes, a 18 de junho nesta cidade de Évora e Igreja de S. Mamede: sendo Cura dela António Roiz natural da vila de Viana, Beneficiado Diogo Miz, Ecónomo Domingos Ferreira e Tesoureiro André Dias; na Confraria do Santíssimo Sacramento situada na dita Igreja, sendo Juiz e Escrivão Baltazar fragoso, Mordomos Domingos Fernandes Pombro e Adão Fernandes. (...), se fez e ordenou a primeira procissão da dita Confraria concedida pelo Reverendo Senhor Marcos Ferreira e provisor deste Arcebispado à instância e petição dos ditos mordomos e fregueses da dita igreja.

Saíram pela porta principal tomando a rua Direita da mouraria acima, dobrando à direita pela rua D'Avis abaixo até ao cabo da rua das Fontes, entrando por ela toda até se recolherem à rua de S. Mamede. Tornaram a entrar pela mesma porta principal, depois da pregação que fez o Doutor Jorge Serrão, da Companhia de Jesus. Levou nela o Santíssimo Sacramento o dito Cura. Levavam o pálio seis clérigos com suas capas de borcado, outros muitos diante com suas sobrepelises e cinquenta e duas tochas ardendo, e muita outra cera, quatro cruzes das freguesias maiores. Diante do pálio, à direita, o dito Provisor Marcos Ferreira, e da outra banda o Visitador Mestre João Sardinha e Mestre André de Resende. Detrás acompanhava muita gente honrada.

Houve charamelas e trombetas, as ruas todas paramentadas de ricas tapeçarias de Raaz, stofa, veludo e borcado. Além de serem todas espadanadas enramadas e embandeiradas todas as portas, becos e janelas, algumas cheias de altares de ricas invenções e custos grandes. Havendo em cada um novas coisas que ver e considerar, (...). De maneira que sendo a primeira procissão (...) foi dos fregueses com tanto alvoroço festejada que foi a mais solene e sumptuosa que até agora se fez nesta cidade, tanto em aparato como de invenções e gente. Disto se fez aqui assento para que se soubesse o princípio desta solenidade feita em glória do nosso Deus, e seu preciosíssimo corpo, para que com seu favor, se aumente e veja em crescimento a devoção de seus fiéis fregueses desta sua Igreja, com a qual confundam os danados heréticos ânimos pela qual mereçam sua santa glória. Ámen." (o original pertence à Confraria do Santíssimo da paróquia de S. Mamede)

15/04/15

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (III)

(continuação da II parte)


Sé do Porto
Aconteceu na Sé da Cidade do Porto (Refere este caso Gabr. Per. de Carv. De Man. Reg. P 2ª Cap. 53 n. 24 fol. 331) em 11 de Maio de 1614. Foi roubado do Sacrário o Sagrado Vaso com as Sagradas Fórmulas. Nunca pôde ser descoberto o executor do delito.

Fez-se por este motivo uma grande Procissão de Penitência de noite, em que foram descalços o Bispo D. Gonçalo de Morais, e o Governador, que então era das Justiças, Diogo Lopes de Sousa 4ª da Relação daquela Cidade (ó tempos, ó costumes). Semelhantes demonstrações de desagravo se fizeram em Lisboa, Coimbra, e por todo o Reino.


Sucedeu em Lisboa, na Freguesia de Santa Engrácia, na noite de 15 de Janeiro de 1630. Foi arrombado o Sacrário, e roubadas as Sagradas Formas de um Cofre de tartaruga guarnecido de prata, e de um Vaso também de prata sobre-dourado; e roubados também alguns ornatos dos Altares.

O réu, que se supôs deste delito, foi sentenciado a ir arrastado pelas ruas públicas até ao lugar, onde cometeu o crime, a serem-lhe ali cortadas as mãos, e queimadas à sua vista; e depois ser ele queimado vivo, e as cinzas lançadas ao mar.

Por este motivo se instituiu uma Irmandade composta de cem Irmãos, da principal Nobreza da Côrte, com o título de Escravos do Santíssimo Sacramento, que costumam fazer todos os anos um Tríduo na Real Capela da Ajuda, e costuma também ElRei assistir à Festa do primeiro, e último dia.


Aconteceu na Igreja da Freguesia do Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas, na madrugada do dia 11 de Maio de 1671, tempo da Regência de ElRei D. Pedro II (Refere este caso o Advogado, que foi nomeado para defender o réu, Manuel Alves Pegas, no seu Tratado Histórico, e Jurídico).

Foi arrombado o Sacrário, e foram roubados dois Vasos Sagrados, um de prata sobre-dourada, com as Fórmulas consagradas, e outro de prata lisa. Foram roubadas outras muitas coisas, e ornamentos das Imagens dos Santos, e Altares.

Por Decreto do Príncipe Regente, foi nomeado para Juiz da devassa deste delito o Regedor das Justiças, Conde de Vilar maior, e Escrivães os Desembargadores Diogo Marcão Temudo, Corregedor do Crime da Côrte, e João Leitão de Andrade. Descobriu-se o delinquente, e foi condenado a ser arrastado pelas ruas públicas até à Praça do Rossio, e ali depois de cortadas as mãos em vida, e queimadas à sua vista, morrer de garrote, e seu corpo reduzido a cinzas.

Por este motivo se fizeram muitas demonstrações públicas, e Procissões de Penitência, e Desagravo. A primeira foi desde a Sé até à Freguesia de Santa Engrácia, em que foi o Príncipe Regente, toda a Côrte, o Clero, e todas as Comunidades Religiosas. Seguiram-se Procissões semelhantes em todas as Freguesias de Lisboa, e outros muitos actos públicos de piedade, e Religião.

E 16 de Junho do mesmo ano foram achados casualmente no caminho de Odivelas para Lisboa, no silvado de uma vinha os dois Vasos Sagrados embrulhados num lenço, e um embrulho com muitos dos ornamentos roubados, o que tudo foi levado ao Juiz da devassa.

Fizeram-se novas diligências, tendo-se já feito muitas, e prometido o Príncipe Regente grandes prémios a quem descobrisse o delinquente; mas tudo em vão, até que na noite de 16 de Outubro, sentindo uma criada do Mosteiro de Odivelas andar gente na cerca, pelas dez para as onze horas da noite, deu parte, chamaram-se os Religiosos, e criados do Mosteiro, que fica contíguo ao das Religiosas, entraram na cerca, e encontraram um homem, que declarou ter entrado com intento de furtar galinhas, como já tinha feito mais vezes. Foi preso, e sendo buscado pela Justiça, entre outras coisas que se lhe acharam, foi dentro de uma bolsa com algum dinheiro, uma Cruz de prata dourada, embrulhada num papel, que, sendo reconhecida, achou-se ser aquela, que fôra quebrada do Vaso do Sacrário.

O que tudo sendo levado ao Conde Regedor, e fazendo-se exame judicial da Cruz com o Vaso por dois Ourives, se achou ser a mesma que ali faltava; e por este indício se presumiu ter sido este preso o autor do roubo. Acharam-se depois num embrulho de fato do mesmo réu o resto dos ornamentos roubados, que ainda faltavam; e fazendo-se-lhe perguntas, suposto negou ao princípio, veio por fim a confessa ter sido o autor, e perpetrador daquele roubo, por cuja confissão foi condenado na forma que já se disse.

Em 1744 um devoto, chamado António dos Santos, erigiu um Oratório, em memória deste acontecimento, no sítio onde apareceram os Vasos Sagrados, cujo se chama hoje o Senhor Roubado.


Sucedeu na Vila de Palmela, na Igreja da Freguesia de Nossa Senhora do Castelo, que hoje existe na Ermida de S. João Baptista, extra muros da mesma Vila.

Eis aqui o caso, conforme a conta, que deu o Presidente do Real Convento, e Ordem de Palmela, Clemente Monteiro Bravo, à Rainha Fidelíssima a Senhora D. Maria I:

"Senhora,
na noite de 13 do corrente mês de Maio, dia da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, para o dia 14, a Ermida denominada de S. João Baptista, fronteira a este Convento, e contígua a esta Vila, que há muitos anos serve de Freguesia de Santa Maria, Matriz da mesma; se achou roubada, segundo dizem, por três ladrões, que espoliando-a quase de toda a prata, e alfaias, e por ela difundindo os Santos Óleos, deixando as Âmbulas com as bocas em terra, passaram ao horrendo atentado de abrirem o Sacrário, donde levaram um Cofre com uma Hóstia, e cinco Fórmas consagradas, nele depositadas, e uma Pixide com cento e três Partículas consagradas, deixando além disso muitas dispersas pelo altar do mesmo Sacramento. Peço a V. Majestade a sua Real Resolução, com a brevidade que o caso pede, para a minha última, e acertada determinação. Convento Real de S. Tiago da Espada de Palmela 15 de Maio de 1779.
O Presidente do Real Convento da Ordem de S. Tiago: Clemente Monteiro Bravo."

(continuação, IV parte)

24/11/14

A PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS EM LISBOA no INÍCIO DO séc. XVIII

Custódia Patriarcal (Sé de Lisboa), em dia de Corpo de Deus
"A procissão do Corpo de Deus faz-se há anos com uma pompa e solenidade, que excede tudo o que se pratica nos outros lugares da cristandade.


As ruas por onde passa, estão juncadas de verdura e de flores, e guarnecidas de tropa. As casas estão cobertas de parte a parte na altura dos telhados de damasco carmesim forrado por cima de toldos linho. De distância a distância vêem-se grandes lustres, e magníficos altares de descanso.

D. Manuel, segurando a vara direita do pálio. Procissão do Corpo de Deus (Lisboa)
Há neste dia no Terreiro do Paço e no Rossio uma colunata de madeira em arcada muito larga e muito elevada, em forma de algo de triunfo todo pintado, e ornado de belos painéis, por baixo do qual passa a procissão, como em todo o resto do trânsito, a coberto das injúrias do tempo. As casas estão armadas de seda; às janelas vêem-se as damas riquissimamente enfeitadas, e é defeso aos homens aparecer às janelas.

ElRei assiste à cerimónia acompanhado de todos os grandes da Côrte, e precedido de todas as confrarias, dos cavaleiros de Cristo, de Avis, e de S. Tiago, de todas as ordens eclesiásticas, e do patriarca com seu clero, a que dão grande realce os principais mitrados.


A Rainha nesta ocasião vai para casa do Ministro, a qual está situada de maneira que Sua Majestade fica no centro da procissão; porque a descobre ao longe vindo da esquerda, donde se estende depois pela grande rua dos ourives do ouro, que está em frente das janelas que ela ocupa; e depois vê-se dar volta pela rua dos mercadores, que lhe fica à direita. Esta procissão mete tanto povo que há já uma boa parte de volta antes da outra ter acabado de desfilar neste sítio; de maneira que a Rainha descobrindo a procissão toda de ponta a ponta a igual distância das janelas, que ocupa, vê-a assim em forma de cruz, formando um soberbo espectáculo." (Description de la ville de Lisbonne - Paris, 1730, I vol, 12º.)

D. Carlos segurando a vara direita do pálio

08/07/14

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE AIRES - ROMARIA A CAVALO

Altar do Santuário de Nossa Senhora de Aires
(Viana do Alentejo)
Ano após anos tem acontecido a romaria ao Santuário de Nossa Senhora de Aires (Viana do Alentejo - Portugal), para pedir a bênção para o gado.




07/04/14

EVANGELIZAÇÃO NA SERRA LEOA

Serra Leoa
CAPÍTULO XXIII

"Parte da Serra leoa para a Ilha de Santiago, arriba à costa da Guiné, e do que obrou até chegar à dita Ilha.

1. Depois de ter o Padre Baltazar Barreira como um novo Sol alumiando as espessas trevas da Serra Leoa, feito laboriosas peregrinações naqueles Reinos, das quais recolheu copiosos frutos, lhe foi necessário voltar à Ilha, como para outras muitas coisas do serviço de Deus, que dependiam de sua presença. No caminho se lhe deram cartas de seus Superiores, que o mandavam voltar a Cabo Verde; com isto se consolou muito, por entender ser esta jornada toda de Deus, por apenas disposição sua, mas da santa obediência, que é o norte dos homens Religiosos. Ao terceiro dia depois de sair do porto, se tornou a recolher a ele, por lhe quebrar o mastro grande com a força do vento. Concertado o mastro, se fez na mesma viagem; e posto que os ventos eram pouco favoráveis, e as águas os encaminhavam para uns baixos perigosos, foi Deus servido, que se livrassem.

2. Oito dias depois lhe sobreveio um acidente repentino, durou-lhe poucos dias, mas com grandes febres, e fastio. Não lhe aplicou remédio humano, porque ali só havia o da confiança em Deus; esta lhe assistiu, e por ela o livrou Deus de um inchaço de estranha grandeza, que lhe tinha causado o acidente. Dezanove dias gastou em chegar até à altura da Ilha; mas nem a de Santiago, nem alguma outra encontravam; porque a corrente das águas os fez descair para a parte do levante, ficando-lhe as ilhas atrás para a parte do Poente. Vendo os marinheiros, serem os ventos contrários, e ir-se acabando a matalotagem, puseram proa na terra firme, que corre do rito Cenega para Cacheo. Em menos de vinte e quatro horas chegaram à vista dela. Depois quando o Padre dali a tempos chegou à Ilha, contando este desvio da jornada, lhe disseram, que fôra uma grande Providência de Deus; por quanto naquele tempo andava um corsário á vista da Ilha, e se o Padre chegara, sem dúvida lhe cairia nas mãos. isto sentiram os naturais da Ilha; porém ao Padre lhe pareceu, que Deus o levara à terra firme, para bem de muitas almas, como se viu no futuro, que nelas fez. Assim o diziam também os Portugueses, depois que viram os proveitos, que se seguiam nas vidas, e costumes dos que negociavam na terra firme. Aquela costa é habitada de gente infectada com a maldita seita de Mafoma [Maomé]. Tem dois portos principais, um se chama Ale, outro Joala. neles comerciavam Ingleses, Holandeses, Franceses, e Portugueses. Em Joala saíram em terra. Festejaram muito os Portugueses a vinda do Padre. Deram-lhe casas junto a uma como Igreja, que ali tinham. Um deles tomou à sua conta prover o Padre; e o fez com tanta largueza, que lhe não custou pouco ao moderar.

3. Os dias que ai esteve, se ocupou em confessar, pregar, e fazer doutrinas. Depois sabendo o Visitador do Bispado, que era um Cónego de Cabo Verde, e estava em Aler, ter chegado o Padre àquela costa, o mandou convidar, e pedir, se viesse a Ale, porque se achava indisposto, e necessitava de sua ajuda para o bem dos Cristãos. Saiu a recebê-lo com os Portugueses, e também o Governador Mouro. Ao passar na praia por uma Cruz grande, que nela estava arvorada, ajoelhou, o mesmo fizeram os Cristãos. Para maior glória da Santa Cruz, ali costumou daí por diante ir fazer as doutrinas. Também por ser paragem muito frequentada de toda a sorte de gente. os hereges, e Mouros, que concorriam, eram mais, que os Cristãos. Dizia o Padre muitas coisas na doutrina dos erros, assim dos Hereges, como dos Mouros. Todos estavam com tanta atenção, como se fossem Cristãos devotos. Desejava o Padre formar procissão da santa Doutrina com solenidade; e isto disse o Visitador, e os mais Cristãos, que como o Rei, e naturais eram mouros, e havia na terra muitos Cassizes, podia isto ter algum efeito em contrário aos seus desejos. Todavia assentiram, que a fizessem uma vez, e esta os ensinaria.

4. Saiu pois um Domingo de tarde com a procissão da santa doutrina pela rua principal da povoação, levando diante a campainha, e depois um Crucifixo de vulto acompanhado dos Portugueses com suas luminárias em duas ordens. Cantavam dois meninos a doutrina, e todos os mais respondiam. Ia por fora das fileiras grande multidão de Mouros; e passando pela praça, as negras que estavam vendo, recolheram em suas gigas, tudo o que nelas trouxeram, e pondo-as à cabeça, foram seguindo a procissão.. Fez a sua doutrina, e voltou com a mesma solenidade, como se a terra fora de Cristãos. Alegraram-se muito os Portugueses com o bom sucesso contra os seu receio. Depois falou o Padre por vezes com os Mouros principais. Estes lhe diziam, que só a lei de Cristo era verdadeira, que tudo quanto os seus Cassizes diziam, era embuste. Acrescentavam, que se não temeram perder as rendas, que ElRei lhes dava, todos se baptizariam."

[...]

("Imagem da Virtude, em o Noviciado da Companhia de Jesus do Real Colégio do Espírito Santo de Évora do Reino de Portugal...", Pe. António Franco. Lisboa, M.DCC.XIV)

06/04/14

REGIMENTO DOS OFICIAIS DA CASA REAL DelRei D. JOÃO IV (II)

(continuação da I parte)


XIX
Se ElRei for à oferta sendo dia disso, estará prestes um Reposteiro com uma Almofada de veludo, e beijando-a a dará ao Reposteiro-mor, e ele tomando-a em ambas as mãos, e beijando-a a porá aos pés do Celebrante que disser a Missa, que estará no derradeiro degrau do Altar; e se a Rainha estiver presente, lhe porá a Almofada para ela na mesma forma o seu Vedor. Ali irá ElRei com a Rainha, e o Celebrante lhe dará a Imagem a beijar, e lhe deitará a bênção, e se for Bispo lhe dará também o anel beijar, e o Esmoler que estará diante do Subdiácono lançará a oferta no prato, com que se tornará ElRei à cortina; e quando sair, se sairá o Príncipe e Infantes, e estarão em pé fora da cortina, até que S. Majestade volte; e quando passar lhe farão mesuras, e se tornarão a seus lugares; e isto mesmo usarão com o Príncipe, excepto ElRei, e a Rainha, que hão-de ficar nos seus lugares; e os Embaixadores, Duques, e mais pessoas em pé afastados dois passos dos seus lugares; e o mesmo farão ao Príncipe: depois dele irão os Infantes, cada um por sua idade, e em quanto forem e vierem, se não sairá ninguém da cortina; e os Infantes se porão os joelhos fora do altar.

XX
Se a oferta for em dia da Cruz, ou de missa nova, irão primeiro oferecer os Prelados por suas antiguidades, e toda a Capela depois deles; e então ElRei, Príncipe, Infantes, Embaixadores, Duques, Marqueses, Condes, e Fidalgos.

XXI
Em dia de Reis se fará a oferta nesta mesma forma, e só difere em que o Esmoler dará oferta ao Príncipe, e ele a ElRei que a lançará por sua mão no prato; e ao Príncipe dará a oferta um Infante havendo-o, e em todos os outros dias lançará sempre a oferta o Esmoler.

XXII
Em dia da Conceição em que S. Majestade vai à oferta, sai o Príncipe da cortina, e fora dela em pé, espera que S. Majestade volte, e com ele se torna a recolher.

XXIII
Em dia de Nossa Senhora das Candeias vão primeiro tomar as velas os Prelados e Capela, e depois vai ElRei, e estando a Rainha e Infantes, se faz tudo na forma referida. As velas dá quem faz o Ofício, e depois que ElRei vem do Altar a entrega ao Capelão-mor, e ele a dá a um moço fidalgo; e quando quiser sair a Procissão a torna a dar o moço fidalgo ao Capelão-mor acesa, e ele a dá a ElRei; e nesta forma se há-de fazer sempre que S. Majestade levar vela; e se estiverem presentes Rainha, Príncipe, e Infantes se fará o mesmo. A vela que se dá a ElRei será de uma vara e duas terças de cumprimento, e de cinco arrateis de peso. A da Rainha de uma vara e duas terças de cumprimento, menos um terço de uma sesma ["sesma", ou "sesmo", é a 6ª parte de algo], e quatro arretéis e meio de peso. A dos Infantes de vara e meia e de três arretéis e meio de peso. A dos Embaixadores e Duques de vara e terço e de três arretéis. A dos Arcebispos e Marqueses de vara e sesma e de dois arreteis e meio. A dos Bispos e Condes de uma vara e de dois arretéis. A do Conselho de uma vara menos uma sesma e arretel e meio; e assim a da Camareira-mor da Rainha não sendo Título, e sendo-o conforme ao título que tiver. A das Damas, Fidalgos, e Desembargadores de duas terças de vara e de três quartas; e para as outras pessoas de meia vara de cumprimento, e de quatro em arretel de peso.

XXIV
Na Procissão de dia das Candeias detrás do Bispo irá S. Majestade com os Comendadores com seus Mantos; e havendo alguns Prelados irão no coise dos Capelães diante do Celebrante; e os Fidalgos que não tiverem hábito ou Manto irão depois das pessoas que têm lugar detrás de ElRei.

XXV
Em dia de Cinzas a vai S. Majestade tomar ao Altar mor na mesma forma em que vai às Ofertas, e com as mesmas cerimónias; e depois que o Bispo a dá às Pessoas Reais, para o que lhe tiram a Mitra, a torna a pôr, e a dá aos Embaixadores, Duques, Marqueses, e Condes estando em pé; e depois se assenta, ea dá aos Oficiais da Casa, Fidalgos, e mais gente.

XXVI
Em dia de Ramos vão as Pessoas Reais tomar a Palma ao Altar, que lhe dá o Celebrante, e depois que se recolhe à cortina a dá ao Capelão-mor; e depois vão os Embaixadores e mais Corte na forma referida.

XXVII
Em dia de Páscoa dá o Mordomo-mor a vela a ElRei para ir com ela na Procissão; e quando se recolhe a torna a dar ao Mordomo-mor, e ele a entrega a um moço fidalgo; e isto mesmo se faz todas as vezes que ElRei leva vela que não vai tomar ao Altar, e o comprimento, e peso das velas nas festas que as há, sempre será o mesmo, que as de dia das Candeias. ElRei vai na Procissão com o Manto; e porque vai nela o Santíssimo, não lhe leva o Camareiro-mor a fralda, e a põe sobre os cabos da espada deixando-os porém desembaraçados; e o mesmo faz em todas as Procissões em que for o Santíssimo. Os Comendadores vão com seus Mantos do Pálio para traz e S. Majestade no couse de todos, seguindo-se junto a ele de uma e outra parte as Dignidades da Ordem, e depois os mais por suas antiguidades. Depois da Ordem de Cristo se seguirá a Ordem de Santiago, e depois dela a de Avis, ambas na mesma forma. Os Oficialis da Casa não terão nesta Procissão lugar, senão conforme a antiguidade do hábito que tiverem; e os da Cana, a não levarão, e se algum não tiver hábito, irá detrás delRei depois dos Criados que têm ali lugar.

(a continuar)

23/04/12

COMEMORAMOS A 25 de ABRIL... (I)


Sto. Anselmo da Cantuária

"S. Anselmo, Arcebispo de Cantuária, italiano de nação e Beneditino de profissão, morreu aos 25 de Abril do ano de 1109." (pág. 216). "Bento XII, natural de Savadurno, na Diocese de Tolosa en França, e Monje de Cister, foi assumpto ao Pontificado no ano de 1334, aos 20 de Dezembro, Governou a Igreja 7 anos, 4 meses, e 6 dias. Morreu no ano de 1342 aos 25 de Abril." (pág. 167) - ("Epitome Cronologico, Genealogico e Historico...", Pe. António Maria Bonucci, LISBOA, M, DCCVI)


[Nascimento de D. Afonso II] - "Neste dia, ano de 1185, nasceu em Coimbra o Infante D. Afonso, depois Rei II do nome, filho dos Reis D. Sancho e D. Dulce. Sendo menino caiu numa perigosa enfermidade da que se livrou, por intercessão de Santa Senhorinha a quem seus pais recorreram naquela grande aflição, e depois agradeceram o benefício com piedosos cultos, e muito grandiosas ofertas ao sepulcro da mesma Santa. 


II [Coroação de D. Inês de Castro] - Sentiu ElRei de Portugal D. Pedro I com raros extremos da mágoa, e amargura a cruel morte de sua querida D. Inês, Entendeu-se geralmente, que o peso da dor e da saudade, sem dúvida lhe tiraria a vida, ou o juízo. (...) Buscou na vingança algum desafogo, e soblevou-se contra ElRei seu pai, e contra todos os que seguiam as suas partes, tratando-os como a mortais inimigos. (...) Seguindo este pensamento, saiu com uma fineza tão rara que não se lhe acha exemplo igual nas Histórias. Procurou primeiro justificar com testemunhas, e documentos, que havia sido legitimamente casado com D. Inês, e logo se resolveu a lhe dar os tratamento de Rainha. Fez desenterrar o cadáver e ligar artificialmente os ossos, de forma a que ficou inteira, e ordenada a organização do corpo, e vestida com Ópa Real, Coroa na cabeça (ou caveira) empunhando o Ceptro, a fez colocar num Trono eminente, e nesse dia, ano de 1361 colocada em público, ordenou, que lhe beijassem a mão todos os Prelados, Títulos, Cavaleiros, e principais do povo, que se achavam em Coimbra, onde então assistia a Corte. Feita a notável cerimónia, e nunca outra vez vista, mandou levar o coroado cadáver, desde a mesma Cidade até ao Mosteiro de Alcobaça, que dista dela dezasseis léguas,com soleníssima pompa, e aparato fúnebre, que discorreu em tão larga distância por meio de mais de cem mil homens formados em duas fileiras com tochas acesas nas mãos. Tinha feito ElRei erigir na famosíssima Igreja daquele Real Mosteiro um mausoléu, túmulo de finíssimo mármore, lavrado com admirável primor e nele foi colocado o corpo de D. Inês, e no alto se vê a sua figura, tirada ao natural, com insígnias de Rainha. Junto do mesmo túmulo mandou ElRei edificar outro igual para si, querendo prosseguir, ainda depois de sepultado, aquele doce, e suave companhia, de que em vida fizera tão alta estimação.

III [Batalha de Trancoso (Btalha de S. Marcos)] - Tentava ElRei D. João I de Castela entrar em Portugal, com poderoso excito para ressarcir a perda de gente, e reputação, que havia padecido no cerco de Lisboa. A este fim mandou ajuntar as tropas de todo o seu Reino, conduzidas por senhores da primeira qualidade; E uma boa parte delas impaciente da dilação entrou logo pela província da Beira, e chegou até Viseu, Cidade aberta, e sem prejuízo, e em muitas Vilas e lugares, fizeram os Castelhanos grandes destruições, mas com mais utilidade que honra, porque o haviam com gente popular e desarmada. [Ora] assistiam na Beira, naquele tempo, dois ilustres Cavaleiros, que por leves causas viviam confrontados entre si, em grande prejuízo da defensa da mesma Província. Um era Martim Vasquez da Cunha, que governava a Vila de Linhares, e outro era Gonçalo Vasquez Coutinho, que governava a de Trancoso, Estes eram os que, por caprichos particulares, persistiam teimosamente divididos, sem atenção ao dano da República [palavra a tomar não no sentido ideológico-partidário]. Entrou porem João Fernandes Pacheco, Cavaleiro não menos ilustre, que os dois, e mais prudente, que ambos, a mediar entre um e outro, e conseguiu a concórdia, mas com a condição de que Gonçalo Vasquez precederia no mando, em que cedo generosamente o Cunha, ficando por isso mesmo mais airoso: Porque se ambos venceram os inimigos, ele, antes dessa vitória, conseguiu outra maior, quando se venceu a si. Ajuntaram valorozamente trezentas lanças, e alguma gente de pé, a quem uniram com número de lavradores, mais para fazerem vulto do que corpo, Com este poder se resolveram a esperar os inimigos num lugar distante (quase meia légua da Vila de Trancoso). Marchavam os Castelhanos naquela volta, bem desavizados do grande mal que os esperava. Eram quatrocentas lanças, duzentos ginetes, e bom número de besteiros e homens de pé [piões]. Traziam setecentas cargas das coisas mais preciosas, que tinham saqueado, e muitos Portugueses homens, e mulheres, que levavam prisioneiros. Encontraram-se em tal forma, que nenhuma das partes podia furtar-se ao perigo (o que os Castelhanos intentaram) vieram, enfim, às mãos, e se travou uma asperríssima batalha. Os nossos lavradores mais certos em cortarem a terra com o arado que os inimigos com lança, encomendaram-se aos pé, que não lhe valeram, porque os ginetes Castelhanos, tomando-lhe o pasto, mataram neles à vontade. Ao mesmo tempo chocavam os dois campos furiosamente, deliberados aos, ou a morrer, ou a vencer. De uma e outra parte, eram os Capitães tão ilustres como valerosos, e cada um repetia o seu apelido, para que esta memória excitasse nos seus soldados o valor. Durou o conflito grande parte do dia começando logo de manhã até que a fortuna se declarou a favor dos Portugueses, ficando os Castelhanos vencidos tão fortemente derrotados, que se afirma que dos quatrocentos homens de armas (coisa dura de referir, e de crer) não escapou nem um só com vida, e dos Portugueses, (coisa ainda mais dura) que nem uma perdeu, exceptuando os lavradores, que por sua fraqueza e temor foram mortos ao princípio. É sem dúvida que os Castelhanos padeceram grandíssima perda, e que os despojos foram restituídos aos Portugueses, e postos em sua liberdade os prisioneiros dos quais muitos, tocada a sorte, prenderam aos que os traziam presos. A infelicidade mais lamentável para os Castelhanos, foi morrerem nesta batalha, muitos, e grandes senhores, e que ocupavam grandes postos na Casa Real. Como João Rodrigues de Castanheda, Pedro Soares de Toledo, Álvaro Garcia de Albernoz, Pedro Soares de Quinhones, Afonso de Trugilho, e outros. Esta foi a famosa vitória, chamada de Trancoso, sucedida neste dia, ano de 1385 e uma das mais gloriosas que o berço Português conseguiu dos Castelhanos, se se considerar a desigualdade do número, a duração do combate, a grande perda dos inimigos, e a pouca dos nossos." ("Anno Historico, Diario Portuguez, Noticia Abreviada...", Lourenço Justiniano da Anunciação, Tomo I, LISBOA, M DCC XLIV, pág. 676)

"Havendo uma grande falta de água no mês de Abril, por não ter chovido muitos tempos, por essa razão as novidades daquele ano se perdiam todas: se bem, que se tinham já feito muitas Procissões públicas a este intento, sem que Deus deferisse a elas com sua misericórdia, de que todos andavam como pasmados, por se verem em tão manifesta necessidade, e aflição. Pelo que, ao clamor do Povo, e às grandes instâncias, que se fizeram ao Padre Mestre Fr. Damião da Costa (que era Provincial) houve ele por bem dar licença, que saísse fora em Procissão esta Santa Imagem, pois nela tinham todos postas as esperanças de seu remédio: o que se aceitou em 25 de Abril do dito ano [1501], fazendo muitas Irmandades com seus círios, e grande quantidade de tochas acesas, diante da qual iam muito disciplinantes." - ("Chronica dos Carmelitas da Antiga, e Regular Observância nestes Reynos de Portugal, Algarves, e seus Domínios...", Fr. Joseph Pereira de Sta. Ana. Tomo I, LISBOA, M DCC XIV, pág. 693)

"Carta infame que Manuel Caetano de Albuquerque escreveu ao Bispo de Coimbra em 25 de Abril de 1765, sendo um dos seus principais Directores espirituais; para o induzir a desviar os seus Diocesanos de denunciarem aos Tribunais da Inquisição os Fractores do Sigílo Sacramental, e os Solicitante." ("Collecção das leys Promulgadas, e Sentenças Proferidas nos Casos da Infamne Pastoral do Bispo de Coimbra D. Miguel da Anunciação: Das Seitas dos Jacobeos, e Sigillistas..." , LISBOA, M DCC LXIX,"pág. 71)

"De LIVROS de história do BRASIL - comprei, por 40$00, a "História da fundação da cidade de SALVADOR", obra póstuma de Teodoro Sampaio, Baía, 1948; e os dois volumes das "MEMÓRIAS..." ou Anais do Rio-de-Janeiro (1808-1821), Rio-de-Janeiro, 1943, 2ª edição, por 60$00. O seu autor - cónego Luís Gonçalves dos Santos, por alcunha o PADRE PERERECA - faleceu no dia primeiro de Dezembro de 1844, e tinha nascido em 25 de Abril de 1767."("Cinzas de Lisboa, Terceira série, LISBOA, 1640,pág. 147)

23/02/12

O SACRILÉGIO EM SANTA ENGRÁCIA (LISBOA - 1630)

"Ainda estava bem viva a memória deste desacato [ver aqui], quando de 15 a 16 de Janeiro de 1630 se comete novo sacrilégio, no Mosteiro de Santa Engrácia.

Nessa noite,parece que os elementos se tinham conjurado contra a cidade, fazendo desabar sobre ela medonho temporal (*) que ajudou a cometer o crime, abrindo ao criminoso as portas da modesta igreja, sede da nova freguesia que Pio V fundara em 30 de Agosto, a pedido da Infanta D. Maria, que tinha ali perto, no Campo de Santa Clara, o seu palácio.

Ao centro aquela que depois foi a igreja de Santa Engrácia hoje transformada em Panteão Nacional, por ironia profanado.

Na manhã do dia 16, viu-se que tinha sido arrombada a porta do Sacrário e que foram roubados um cofre com 10 Partículas e uma Hóstia, um Vaso de prata dourada contendo também 25 Partículas e outra Hóstia, e uma cruz que servia de remate ao último cibório.

A notícia deste desacato espalhou-se rapidamente na Capital onde causou a maior dor.

Como penitência e desagravo, esteve na Sé o Lausperene, durante oito dias, por ordem do Arcebispo D. Afonso Furtado Mendonça. A igreja estava ornamentada de panos reais da tomada de Tunes e celebravam-se Missas e ofícios e pregava-se. Terminando este oitavário num domingo, fez-se nesse mesmo dia uma solene procissão a que concorreram clero, e nobreza e povo, sendo tanta a gente, que principiando a sair da Sé ao meio-dia, só à noite chegou a Santa Engrácia, depois de ter percorrido muitas ruas (**).

Na igreja de Santa Engrácia, conservou-se o Lausperene outros oito dias. A despesa da festa de cada dia foi custeada pelos diferentes fidalgos. A igreja ficou depois interdita, passando a sede da freguesia para a ermida de Nosso Senhora do Paraíso.

Instituiu-se então uma grande confraria de fidalgos, intitulada Escravos do Santíssimo Sacramento, cujos estatutos foram assinados no dia 19 de Maio do mesmo ano. O seu presidente era o Rei e os Irmãos eram apenas 100 fidalgos.

Nos dias 16, 17, e 18 de Janeiro de cada ano, a Irmandade fazia uma festa ao Santíssimo Sacramento, a que assistia El-Rei, o Patriarca e o Cabido. As despesas do primeiro dia ficavam a cargo da Família Real e as dos outros dias eram pagas pela Irmandade. A festa deste tríduo terminava com procissão, em que as pessoas reais se incorporavam. Durante as festas do desagravo, os Irmãos traziam ao pescoço pendente de fita escarlate, uma medalha de cobre dourado representando o Sacrário arrombado e a custódia com o Santíssimo Sacramento e vários anjos. No verso, lia-se esta jaculatória: BENDITO E LOUVADO SEJA O SANTÍSSIMO SACRAMENTO.

Ainda como acto de reparação, surgiu também uma procissão, a chamada Procissão dos Ferrolhos, que se fazia todos os anos na noite de 15 para 16 de Janeiro à meia-noite do Convento do Desagravo - Clarissas do Desagravo - então fundado, para a igreja da Penha de França."


(*) - Corografia Portuguesa, pelo Padre Carvalho da Costa, vol. III, pág. 256.

(**) - Portugal-Dicionário, por Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, pal. Santa Engrácia.

20/02/12

ATENTADO SACRÍLEGO de 1552 - REPARAÇÃO MANDADA POR D. JOÃO III de PORTUGAL

"Sempre os portugueses demonstraram o maior amor e a mais profundo respeito pela Sagrada Eucaristia. Os grandes erros antieucarísticos não tiveram entre nós consideração aceitável, até mesmo o que pôs a Europa em fogo desde o século dezasseis, com o protestantismo, e o jansenismo. As primeiras controvérsias acerca da Eucaristia, desde o século XI até à Reforma, pode dizer-se que não deixaram quaisquer sinais duradouros entre nós. Compreende-se, por isso, com que sentimentos de horror e de mágoa o país deplorava qualquer atentado contra as Sagradas Espécies sacramentais [presença real de Nosso Senhor]. O primeiro desacato [crime] sacrílego foi o cometido por uma mulher de Santarém, em 1226 (?), na igreja de Santo Estêvão; o segundo registou-se na catedral de Coimbra, em 1362, mas o que de facto mais impressionou a nação ocorreu na Capela Real, em 11 de Dezembro de 1552, penúltimo domingo do Advento.

Festejava-se imponentemente o casamento do Príncipe D. João, filho de D. João III, com a Princesa D. Joana, filha de Carlos V. Estava a Família Real, Prelados e toda a Nobreza a assistir à Missa solene. Quando o sacerdote, Julião Soares, capelão de El-Rei, levantou a Hóstia, após a consagração, um calvinista inglês, chamado Roberto Gardner ou Gardines, judeu mercador de Bristol, velocíssimo como diabo que era (*), sobe pelas costas do oficiante, que era de alta estatura, tira-lhe das mãos a sagrada Hóstia, atira-a ao chão e derruba o cálice que ia ser consagrado.

D. João III
Todo o Reino vibra de intensa dor, ao saber do nefando crime. Em Lisboa, fez-se logo uma devota procissão de desagravo em que o Soberano, descalço e vestido de luto religioso, foi a pé da Sé até S. Domingos, seguido de todos os Nobres e Cavaleiros que se encontravam na Corte, por motivo do casamento.

As Ordens Religiosas e o povo também se incorporaram na procissão,descalços e vestidos de luto.

D. João III esteve muitos dias encerrado no seu gabinete, sem ver a luz do dia, nem receber ninguém na sua presença. Nunca mais o viram alegre, nem depôs o luto e não tornou a comer senão em louça de barro, até que morreu em 11 de Junho de 1557. Fizeram-se ainda outras devotas procissões e penitências públicas."

(fonte: MANUEL VAZ GENRO, O Lausperene em Portugal )


(*) Carta de Mons. Pompeu Zambecari, Bispo de Volva e Sulmona, representante da Santa Sé em Portugal, ao Santo Padre, datada de 30 de Dezembro, transcrita no 3º vol., pg. 194-202, de Portugal no Concílio de Trento, por Mons. José de Castro.

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