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25/01/16

1 de JANEIRO - AGIOLÓGIO LUSITANO - COMENTÁRIOS (I)

S. Félix eremita
COMENTÁRIOS DO AGIOLÓGIO LUSITANO AO DIA 1 de JANEIRO

a) Damos princípio ao Agiológio dos Santos de Portugal com S. Félix (dado que lhe não sabemos dia próprio) por ser o primeiro fundador, e pai da vida eremítica e monacal neste Reino. E suposto que a Igreja Católica chama a S. Paulo de primeiro Ermita, florescendo pelos anos de 300, contudo parece que o faz seguindo a mais universal notícia que há dos que viveram na Thebaida, Egipto e outras províncias Orientais, e não como definição Eclesiástica precisa, de que não houvesse outro nenhum antes em alguma parte do mundo; pois os antigos Breviários deste Reino, não só manuscritos, mais impressos nas lições de S. Pedro de Rates, e com eles todos os Autores que trataram sua vida (que são inumeráveis) afirmam que sendo martirizado a cruéis estocadas, deixando os ministros da maldade o S. corpo envolto em seu próprio sangue, e assim esteve alguns dias, até que um santo Ermita por nome Félix, que habitava naqueles desertos, olhando com atenção da diversas partes, viu por muitas vezes como resplandecentes raios de claridade desciam do céus sobre uma delas, e que ali parava sempre aquela luz. E notando que isto não era o caso, baixou da montanha, em demanda do lugar, onde o resplendor parava, e chegado, viu que aquela claridade divina cercava o corpo do S. Prelado. Maravilhado de tão manifesto testemunho do céu, que certificava quão amigo de Deus era S. Pedro entendeu, que aquela visão lhe mandava desse sepultura a seu santo corpo, e assim lha deu o melhor que pode, não e achando neste piedoso ofício mais que um sobrinho seu, que lhe fazia companhia na vida Eremítica.

O motivo primário que S. Félix teve para se apartar a fazer vida solitária que não constasse foi para mais livremente vocar a contemplação, evitando o túmulo do século, ou se por fugir o ateado fogo da persecução contra os novos professores da lei de Cristo se retiraria do povoado a esta alta montanha, para nela viver, oculto, aguardando que Deus desse paz a sua Igreja. mas de qualquer modo que fosse perseverou muitos anos nesta Angélica vida, e algumas centúrias antes que S. Paulo, pois o nosso Santo floresceu pelos anos 46 e S. Paulo no de 300, como fica dito.

S. Pedro de Rates
S. Félix foi sepultado na mesma Igreja que os fiéis levantaram sobre a sepultura do santo mártir, onde se vê ainda hoje a do santo Eremita, aquém os Portugueses chama S. Fins, e por esta causa as mais das Igrejas antigas que há desta inovação são dedicadas a ele, porque foi sempre costume dos naturais deste Reino dedicarem particulares Igrejas a seus próprios Santos. Porém com a translação das preciosas relíquias de S. Félix Diácono de Girona ao antigo Convento de Chelas junto a Lisboa que os Martirológios trazem ao 1 de Agosto) se perdeu, ou pelo menos confundindo a devoção do nosso S. Felix festejando-o no mesmo dia por se lhe ignorar o próprio. Mas na Ermida de S. Fins situada num alto monte que conserva o próprio nome, de que se descobre amor parte da terra de Fão até Matosinhos está a imagem deste Santo em hábito de Eremita, e dizem per tradição os naturais daquela comarca, que é daquele Santo, que deu sepultura a S. Pedro de Rates, e assim lhe fazem a festa neste dia. Tratam de S. Félix todos os Autores que escrevem de S. Pedro de Rates, que por não alega-los duas vezes se podem ver na vida do dito Santo em 26 de Abril. Por ora só citarei a D. Francisco de Padilha, que na história Eclesiástica de Hespanha, I. C. 16, lhe chama primeiro Eremita. E também António Brandão Cronista mor deste Reino na pág. 3 da Monarchia Lusitana (I 8 c. 32 e I 9 c. 9)

Resta agora darmos notícia desta igreja de Rates, a qual é sagrada, de três naves, de largura, e altura competente, e ao presente é Comenda da Ordem de Cristo; e antigamente foi mosteiro, cujo sítio est´um seco vale desviado de Vila do Conde légua e meia, e por seu respeito se fundou ali a vila de Rates, a qual em outro tempo foi mui principal, pois dela se denominaram os Ratinhos. Esta assolaram por vezes os Castelhanos nas entradas que fizeram neste Reino, e como a terra é geralmente pobre, é hoje coisa de mui pouca importância.

De que Ordem fosse este mosteiro, é mui fácil de averiguar; suposto que os Cónegos Regulares querem que seja da sua; não sei com que fundamento. Que fosse do Patriarca S. Bento não há dúvida, porque disto temos duas provas evidentes. A primeira de Marco Máximo no seu Chornicon pag. 209, o qual referindo os Prelados que se acharam no III Concílio de Toledo traz entre eles: "Sancrus Stepanus Abbas Ratensis Ordinis S. Bebedicti" (de quem trataremos em seu dia 13 de Fevereiro). A segunda do arquivo real 3 do Rei D. Dinis (fol. 94) onde se vê a doação que a Rainha D. Teresa fez aos monges da Caridade da Ordem Clunicense no ano 1100 que nele habitavam, donde consta claramente, que esta Rainha o reedificou no modo que hoje persevera, e dela é o vulto, que ali se conserva em nicho, vestindo ao modo antigo, com cetro na mão, e na da Rainha D. Mafalda como querem nossas Crónicas.

No cartório de S. Cruz de Coimbra temos também outras duas provas desta verdade. A primeira no livro velho dos óbitos, onde: 5 Kal. [?] Prior de Rates, e Monachus de Caritate. E. 1300. A Segunda é do livro santo  (pág. 71) em que se relatam as muitas demandas, que o mosteiro de S. Cruz teve sempre com os Monges da Caridade, que moravam em S. Justa de Coimbra: onde a palavra Monges numa e noutra parte, exclui a de Cónegos, além de que não parece haviam de ter demandas tão travadas, se não foram de tão diversas Religiões.

(continuação, II parte)

31/12/15

1 de JANEIRO - AGIOLÓGIO LUSITANO (I)

a) S. Félix Ermita: Em Rates o ditoso trânsito de S. Félix primeiro Ermita, discípulo daquela insigne pedra fundamental da Igreja Bracarense S. Pedro seu primeiro Bispos, o qual com sua presença, e assistência santificou os incultos desertos de entre Douro e Minho, abrindo larga estrada para que muitos o seguissem, e imitassem no caminho da perfeição, e vida monacal, a quem os naturais daquela comarca (porque a ele lhe foi revelado com luzes do céu, onde jazia o despedaçado corpo de seu santo mestre, a que deu sepultura com singular religião) levantaram templos, e consagraram altares.

- do comentário:
Damos princípio ao Agiológio dos Santos de Portugal com S. Félix (dado que lhe não sabemos dia próprio) por ser o primeiro fundador, e pai da vida eremítica e monacal neste Reino. E suposto que a Igreja Católica chama a S. Paulo de primeiro Ermita, florescendo pelos anos de 300, contudo parece que o faz seguindo a mais universal notícia que há dos que viveram na Thebaida, Egipto e outras províncias Orientais, e não como definição Eclesiástica precisa, de que não houvesse outro nenhum antes em alguma parte do mundo; pois os antigos Breviários deste Reino, não só manuscritos, mais impressos nas lições de S. Pedro de Rates, e com eles todos os Autores que trataram sua vida (que são inumeráveis) afirmam que sendo martirizado a cruéis estocadas, deixando os ministros da maldade o S. corpo envolto em seu próprio sangue, e assim esteve alguns dias, até que um santo Ermita por nome Félix, que habitava naqueles desertos, olhando com atenção da diversas partes, viu por muitas vezes como resplandecentes raios de claridade desciam do céus sobre uma delas, e que ali parava sempre aquela luz. E notando que isto não era o caso, baixou da montanha, em demanda do lugar, onde o resplendor parava, e chegado, viu que aquela claridade divina cercava o corpo do S. Prelado. Maravilhado de tão manifesto testemunho do céu, que certificava quão amigo de Deus era S. Pedro entendeu, que aquela visão lhe mandava desse sepultura a seu santo corpo, e assim lha deu o melhor que pode, não e achando neste piedoso ofício mais que um sobrinho seu, que lhe fazia companhia na vida Eremítica.
O motivo primário que S. Félix teve para se apartar a fazer vida solitária que não constasse foi para mais livremente vocar a contemplação, evitando o túmulo do século, ou se por fugir o ateado fogo da persecução contra os novos professores da lei de Cristo se retiraria do povoado a esta alta montanha, para nela viver, oculto, aguardando que Deus desse paz a sua Igreja. mas de qualquer modo que fosse perseverou muitos anos nesta Angélica vida, e algumas centúrias antes que S. Paulo, pois o nosso Santo floresceu pelos anos 46 e S. Paulo no de 300, como fica dito.

S. Pedro de Rates
S. Félix foi sepultado na mesma Igreja que os fiéis levantaram sobre a sepultura do santo mártir, onde se vê ainda hoje a do santo Eremita, aquém os Portugueses chama S. Fins, e por esta causa as mais das Igrejas antigas que há desta inovação são dedicadas a ele, porque foi sempre costume dos naturais deste Reino dedicarem particulares Igrejas a seus próprios Santos. Porém com a translação das preciosas relíquias de S. Félix Diácono de Girona ao antigo Convento de Chelas junto a Lisboa que os Martirológios trazem ao 1 de Agosto) se perdeu, ou pelo menos confundindo a devoção do nosso S. Felix festejando-o no mesmo dia por se lhe ignorar o próprio. Mas na Ermida de S. Fins situada num alto monte que conserva o próprio nome, de que se descobre amor parte da terra de Fão até Matosinhos está a imagem deste Santo em hábito de Eremita, e dizem per tradição os naturais daquela comarca, que é daquele Santo, que deu sepultura a S. Pedro de Rates, e assim lhe fazem a festa neste dia. Tratam de S. Félix todos os Autores que escrevem de S. Pedro de Rates, que por não alega-los duas vezes se podem ver na vida do dito Santo em 26 de Abril. Por ora só citarei a D. Francisco de Padilha, que na história Eclesiástica de Hespanha, I. C. 16, lhe chama primeiro Eremita. E também António Brandão Cronista mor deste Reino na pág. 3 da Monarchia Lusitana (I 8 c. 32 e I 9 c. 9)
Resta agora darmos notícia desta igreja de Rates, a qual é sagrada, de três naves, de largura, e altura competente, e ao presente é Comenda da Ordem de Cristo; e antigamente foi mosteiro, cujo sítio est´um seco vale desviado de Vila do Conde légua e meia, e por seu respeito se fundou ali a vila de Rates, a qual em outro tempo foi mui principal, pois dela se denominaram os Ratinhos. Esta assolaram por vezes os Castelhanos nas entradas que fizeram neste Reino, e como a terra é geralmente pobre, é hoje coisa de mui pouca importância.
De que Ordem fosse este mosteiro, é mui fácil de averiguar; suposto que os Cónegos Regulares querem que seja da sua; não sei com que fundamento. Que fosse do Patriarca S. Bento não há dúvida, porque disto temos duas provas evidentes. A primeira de Marco Máximo no seu Chornicon pag. 209, o qual referindo os Prelados que se acharam no III Concílio de Toledo traz entre eles: "Sancrus Stepanus Abbas Ratensis Ordinis S. Bebedicti" (de quem trataremos em seu dia 13 de Fevereiro). A segunda do arquivo real 3 do Rei D. Dinis (fol. 94) onde se vê a doação que a Rainha D. Teresa fez aos monges da Caridade da Ordem Clunicense no ano 1100 que nele habitavam, donde consta claramente, que esta Rainha o reedificou no modo que hoje persevera, e dela é o vulto, que ali se conserva em nicho, vestindo ao modo antigo, com cetro na mão, e na da Rainha D. Mafalda como querem nossas Crónicas.
No cartório de S. Cruz de Coimbra temos também outras duas provas desta verdade. A primeira no livro velho dos óbitos, onde: 5 Kal. [?] Prior de Rates, e Monachus de Caritate. E. 1300. A Segunda é do livro santo  (pág. 71) em que se relatam as muitas demandas, que o mosteiro de S. Cruz teve sempre com os Monges da Caridade, que moravam em S. Justa de Coimbra: onde a palavra Monges numa e noutra parte, exclui a de Cónegos, além de que não parece haviam de ter demandas tão travadas, se não foram de tão diversas Religiões.
 

b) Abade santo de Vilar: Em Vilar de Frades território de Barcelos o admirável rapto de um S. Abade daquele convento (cujo nome dado que a nós oculto, está escrito no livro da vida) varão de angélica pureza, e estremada santidade, o qual meditando um dia naquelas palavras do Salmista: Mille anni ante oculos tuos tamquam dies hesterna, quae praeteriit. Levado da contemplação da pátria celestial, para de todo se entregar a ela, partiu de seu convento ao romper d'alva para um ameno, e deleitoso bosque vizinho, no qual de repente, eis que lhe aparece uma ave de notável formosura, que cantava suavíssimamente, a qual voando de uma a outra parte o levou após si, até penetrar o interior do deserto, onde parou; e ele sentado à sombra de uma árvore, roubado, e suspenso de tão suave melodia esteve por espaço de setenta anos, que Deus o conservou naquele estado (...).

- do comentário:
Foi o Mosteiro de S. Salvador de Vilar de Frades, fundação de S. Martinho Damiense, debaixo do hábito e regra de S. Bento. Está situado na margem do rio Cávado, em lugar mui fresco, e delectável no Arcebispado de Braga, e assim podemos com verdade chamar a D. Godinho Viegas seu reedificador, posto que nome de fundador lhe dá o Conde D. Pedro tit. 52. Floresceram em seus claustros grandes servos de Deus nos primeiros séculos da Religião, entre os quais se avantajou a todos o Abade santo de que falamos, o qual teve sua sepultura no claustro, e nela de meio relevo esculpida sua figura com o Passarinho na mão em memória de tão maravilhoso sucesso. Porém desamparando este domicílio os Monges por causa das pestes, fez dele doação o Arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra (ano 1439) ao Venerável M. João fundador da Sagrada Congregação de S. João Evangelista neste Reino, anexando-lhe o mosteiro de S. Bento da Várzea, que dista meia légua de Barcelos, com mais doze igrejas. Depois o Arcebispo D. Luís Pires lhes anexou mais Sta. Maria de Góis, e ultimamente o Papa Nicolau V o Mosteiro de Manhete, também da mesma Ordem de S. Bento, fundações todas três de S. Martinho.

Igreja do Mosteiro de S. Sa.vador, em Vila de Frades (Portugal)
Tomando posse deste Convento Mestre João, vendo os muitos milagres que Deus obrava por este seu servo com a terra de sua sepultura, e a pouca decência com que estava, determinou colocar as santas relíquias na Igreja para serem dos fiéis mais veneradas (o modo, e ano diremos em 21 de Setembro, em que se fez esta translação) mas o mesmo foi transferirem-se elas à Igreja, que perder-se totalmente esta tão notável memória, como sucedeu a outras muitas, de que a cada passo nos havemos de queixar. Tratam deste santo Abade o livro intitulado Speculum Exemplorum (dist. 9 c. 65), e dele o refere o Báculo Pastoral (c. 45 pág. 234 exemplo 2), e o Pe. João Rebelo nas adicções à cartilha de M. Inácio (fol. 131), D. Rodrigo da Cunha no Catálogo dos Arcebispos de Braga (I p. c. 73), Fr. Leão de S. Tomás Geral que foi da Religião de S. Bento nos prologómenos que fez às Constituições desta província (c. 3). Finalmente anda esta história manuscrita no tratado que nos deixou o Pad. e Paulo religioso desta Congregação, dos varões ilustres em virtude, que floresceram em seu tempo.

Clausto do Mosteiro de S. Salvador, em Vila de Frades
 
c) B. D. Garcia Martins Maltes: Em Lessa junto da cidade do Porto, partiu para as eternas moradas o B. D. Garcia Martins, cavaleiro da mui ilustre milícia, e sagrada Religião de S. João Hierosolimitano [gentilício de Jerusalém], o qual sendo Português, e homem de vida santíssima, mereceu por suas heroicas proezas na guerra, e virtudes na paz, ser nela Bailio, e Grão Comendador, não somente em Portugal, mas em outros quatro Reinos de Hespanha, cujo santo corpo sepultado na Igreja do convento da dita Ordem em Lessa, foi por largo tempo, com grande frequência, e devoção visitado, e venerado dos fiéis daqueles contornos, ordenando a divina providência, honrá-lo depois da morte com a prerogativa de muitos milagres em testemunho de sua abalizada santidade.

- do comentário:
O corpo de B. D. Garcia Martins descansa na Igreja de Lefta, a qual tomou o nome do rio, que por ela passa, tendo seu nascimento além do Monte Corua. Fpoi antigamente mosteiro de Templários. Nela viveram depois Clérigos, Freires de Malta em comunidade; e hoje é Comenda, e Bailiado da mesma Ordem, edifício magnífico, que tem couto de jurisdição civil; a terra, e sítio é fresquíssimo, e tem com as Igrejas anexas mais de quinhentos vizinhos. Neste mosteiro recebeu ElRei D. Fernando por mulher a Rainha D. Leonor como diz a sua Crónica.
Faleceu este santo Cavaleiro pelos anos 1306. Consta de seu Epitáfio em Latim bárbaro daqueles tempos, e é o seguinte:

E. M.CCCXLIIII IN IESU XPI.
fide decessit in Reyno Fratri Domini Garcia Martini, gloria nostra Comendatori dos cinco Reynos de Hespania in coelico.

Os cinco Reinos de Hespanha de que foi Comendador, são Castela, Leão, Portugal, Aragão, e Navarra. Enganaram-se os Cronistas desta Ordem, dizendo que faleceu no ano 1286, pois do epitáfio consta o contrário. Além disto temos três escrituras originais, as quais todas mostram viver em Junho de 1302. A primeira do livro DelRei D Dinis (fol.20) o qual faz doação a D. Garcia da Igreja de S. Pedro de Baças no Arcebispado de Braga. A segunda se acha no l. 5 do mesmo Rei (fol. 32) onde D. Garcia confessa que o dito Rei fizera recompensa a ele e à sua Ordem das terras que lhe tomara para fundação de Vila Real no termo de Panoias. A terceira, e última e do terceiro livro da leit. nou. do cart. de e de Lisboa (fol.83) em que se refere uma composição entre ele, e o Bispo D. João sobre controvérsias, que traziam cerca de várias Igrejas, e com isto nos parece que temos provado contra os Autores que (mal advertidos) afirmam morrer o Beato D. Garcia no ano 1286 que são a maior parte dos que abaixo alegamos.
A temperatura que contem os epitáfio num monumento de pedra, que sustentam três leões no meio da Igreja, o qual cobre um pano negro com Cruz da Ordem. E sua imagem se vê de pintura no altar de S. João da invicta cidade de Malta entre outros Santo da Religião. É o nosso invocado dos moradores da comarca de Lessa, que o vêm ainda hoje visitar, e venerar o seu sepulcro com nome de Homem Santo, ou Homem Bons de Lessa se bem que antigamente era muito mais frequentado, pois a Infante D. Filipa, filha do Infante D. Pedro, e neta do DelRei D. João I, indo em romagem a Santiago de Galiza, foi também visitar as relíquias deste S. Cavaleiro, acompanhada de muita nobreza, e da maior parte dos Prelados do Reino, e ali com devoção se deteve uma novena, por causa de um célebre milagre, que o Santo obrou neste tempo num aleijado, de que se passaram autênticos instrumentos.
Tratam sua vida Abraão Bzevio no Annaes Ecclesiasticos (tom.13 ano 1286), Jacome Bozio nas Crónicas Gerais da Ordem (em italiano, l. 10) e no Compêndio dos Santos (da mesma pág.99), D. Fr. João Agostinho de Funes na Crónica de Malta (l.1 c.26),  Fr. Domingos Maria nos Triunfos da mesma Religião (l.2 c.4), Jerónimo de Marulha, dos Mestres da Ordem (pág.23), António de Sousa de Macedo no livro intitulado "Flores de Hespanha" (c. II excel 2) Faz dele também menção em dois lugares de suas antiguidades o Doutor João de Barros (pág.18 e 48). O mesmo traz M. António no seu Sumário que nos deixou, de entre Douro e Minho, ambos em livros m. s. se bem inadvertidamente contra a torrente de tantos escritores lhe chamam Joanne, sendo seu verdadeiro nome Garcia, como fica dito.
 

d) Sór Catarina Vaz, franciscana: Em S. Clara de Vila do Conde a muita religiosa Sor Catarina Vaz, tão observante da regra, amiga do choro, e pontual nas comunidades, que vindo uma noite tarde a matinas por haver adormecido, a tempo que na claustra ouviu entoar aquele verso: Te ergo quae sumus tuis famulis subveni, quos pretioso sanguine redemisti. O qual por louvável costume desta santa província as religiosas cantam de joelhos com as mãos postas; quando subitamente viu romperem-se os céus, e prostrarem-se os angélicos espíritos diante do trono da Majestade divina, repetindo o mesmo verso com grande reverência, donde ficou o santo costume na dita Ordem de dizer-se ele com maior solenidade. Faleceu pois esta serva de Deus de idade de centro e seis anos, gastados todos em louváveis, e santas obras, estando rezando as horas canónicas com outra religiosa de aprovada vida, a qual ela disse, dando princípio a hora sexta: "Madre façamos pausa, que é chegada a de Deus". E levantando as mãos, e olhos ao céu com grande serenidade espirou (para entrar de posse na glória perdurável) com admiração das circunstantes.

- do comentário:
Convento de Sta. Clara, em Vila do Conde

Na foz do rio Ave da banda do Norte, quatro léguas do Porto, está a Vila do Conde, ilustre pelo mosteiro de Feriras da Ordem de S. Clara, que a enobrece, ao qual deram princípio D. Afonso Sanches filho DelRei D. Dinis fora do matrimónio (o que teve as diferenças com o Príncipe D. Afonso) e sua mulher D. Teresa Martins filha do Conde D. João Afonso de Meneses, Senhor de Albuquerque, nesta de D. Sancho III Rei de Castela (ano 1318). Estes Príncipes pretendendo fazer um Castelo para defesa daquelas partes (como Senhores que eram da dita vila) sonharam que o fizessem com a escada para o céu, e entendendo o que Deus lhes queria significar com este sonho, fundaram este Convento, a quem deixaram esta vila, e outros lugares deporte, que possuíram as Religiosas dele muitos anos. No que floresceu de seus princípios o rigor da regular observância, e penitência, acompanhada de grande pureza de vida, e santidade, de maneira que mereceram suas religiosas ser-lhe revelada a salvação de seus fundadores, e que tiveram quinze anos de Purgatório.


Acha-se escrito nas memórias deste Convento que estando uma noite a Abadessa com algumas freiras em oração depois de matinas, ouviram bater nas sepulturas destes infantes, perguntou a Abadessa que queriam, e responderam: que eles eram os fundadores, que as vinham avisar da parte de Deus, que logo saíssem fora do convento com o preciso que tinham, porque às quatro horas da manhã entrariam nele os Castelhanos inimigos cruéis deste Reino, como na verdade aconteceu; pelo que na própria hora se passaram as Religiosas para o Mosteiro de S. Clara do Cabeçal no Porto, onde residiam dois meses, que os inimigos estiveram nele.


E porque não sabemos se teremos outro lugar de falar nestes infantes nos pareceu bem copiar aqui o epitáfio de seus sepulcros que é o seguinte:

Aqui jaz o muito esclarecido Príncipe D. Afonso Sanches, filho DelRei D. Dinis de gloriosa memória, Rei de Portugal, com a muito excelente Senhora sua mulher D. Teresa Martins, neta DelRei D. Sancho de Castela, primeiros fundadores deste Convento.




 
Referem a celestial visão de Sôr Catarina Vaz com grande estima de sua santidade: Fr. Lucas Waddingo (ad anno 1318, n.44), Gonzaga (pág.3, tít. Prou. Portug. convent. 14), Barezus (pág.4 Cron. . 4 c.40, ano 1565), Valerius de sanct. Foem. Ord. Min. l.4 c.41).



e) Pe. Afonso de Castro, Jesuíta: Em Trenate na Índia Oriental o insigne martírio do Pe. Afonso de Castro natural de Lisboa, a quem S. Francisco Xavier recebeu em Goa na Companhia, e em Maiorca lhe pregou na sua Missa nova, o qual depois de gastar nove anos na conversão das ilhas Maiorcas, em grande serviço de Deus, e proveito das almas, desejoso de dar o sangue por Cristo, se foi à de Ternate, onde preso dos Mouros, depois de o despirem, o ligaram todo com cordas, e lhe penduraram um grande pau ao pescoço, e desta maneira o tiveram cinco semanas, trazendo-o pelas ruas públicas, o que o santo mártir por sua honestidade em extremo mais sentia, além de que o persuadiam, já com ameaças, já com afagos, já finalmente com promessas, a deixar a lei de Cristo, as quais nunca puderam ter entrada em seu invencível peito:pelo que vendo-se os bárbaros frustrados de seu maldito intento, determinaram tirar-lhe a vida com cruel morte; e assim levado ao sacrifício este manso cordeiro, ia dizendo mil amores, e requebros ao cutelo com que havia de ser degolado, pedindo que lho afiassem, pois esta era a morte que sempre desejara; e então posto de joelhos, as mãos, e olhos no céu, depois de recebidas muitas feridas, que sofreu com grande paciência, esperando a última com não menos constância, lhe cortaram a cabeça, e logo aquela vitoriosa alma livre das prisões do corpo, voou gloriosa à triunfante bem-aventurança.
 
- do comentário:

(a continuar)

24/05/14

RELICÁRIOS da CAPELA DO D. ESPÍRITO S. E S. JOÃO BAPTISTA (I)

A capela do Divino Espírito Santo e S. João Baptista (da igreja de S. Roque - Lisboa) tem dois pares de relicários. Contem um dos pares as relíquias de S. Valentim e S. Próspero; o outro par contem as relíquias de S. Félix e S. Urbano.

os 4 relicários

O conjunto de relicários é da autoria de Carlo Guarnieri, são em prata dourada, medem pouco mais de 80cm de altura e pesa cada um por volta de 36kl.

Relicário de S. Félix

(continuação, II parte)

06/04/13

A MORTE É O FIM DE TODAS AS GRANDEZAS - Sto. Afonso de Ligório

2ª Consideração

TUDO ACABA NA MORTE

II
A Morte é o Fim de Todas As Grandezas

Quando Filipe II, rei de Espanha, estava prestes a expirar, mandou chamar o seu filho e descobrindo-lhe o próprio peito roído de vermes, disse-lhe: "Vêde, príncipe, como se morre e como acabam todas as grandezas do mundo!" Teodoreto disse com razão que nem riquezas, nem guardas, nem púrpura podem deter a morte, e que todos os homens, príncipes ou vassalos, estão sujeitos à lei da corrupção. Por isso aquele que morre, ainda que seja um rei, nada leva consigo para a sepultura ; deixa toda a sua glória no leito em que expira.

Refere Santo Antonino que, à morte de Alexandre Magno, um filósofo exclamara : "Eis o que ainda ontem calcava a terra com os seus pés, e hoje é a terra que o cobre e oprime ; ontem era pequeno para a sua ambição o mundo inteiro, e hoje sete palmos de terra lhe bastam ; ontem passeava os seus exércitos por todo o universo hoje é levado a enterrar por alguns servos". Mas escutemos de preferência o próprio Deus : Não vês, ó homem, que "és pó e cinza? Donde te vem esse orgulho?" (Quid superbit terra et cinis? - Eccli. 10, 9). Para que consomes o teu espírito, para que gastas os teus anos a elevar-te neste mundo? Virá a morte, e "então se dissiparão todos os projectos e todas as grandezas": In illa die peribunt cogítationes eorum (Ps. 145, 4).
 
S. Paulo ermita
Ó quanto a morte de S. Paulo ermita, que tinha vivido sessenta anos retirado numa gruta, foi mais suave que a de Nero, que vivera em Roma no trono imperial ! Quanto a morte de S. Félix, simples irmão capuchinho, foi mais feliz que a de Henrique VIII, cuja vida decorrera no meio dos maiores esplendores, mas também na inimizade de Deus !
 
Mas não o esqueçamos: para merecerem tão bela morte, os santos deixaram tudo, — a pátria, as esperanças que o mundo fazia brilhar aos seus olhos. Abraçaram uma vida pobre e desprezível, sepultaram-se vivos neste mundo, para não serem sepultados no inferno depois da morte. Ao contrário, os mundanos passam a sua vida no pecado, nos prazeres terrenos e no meio das ocasiões mais perigosas, — como poderiam esperar uma boa morte? Cairá sobre eles a ameaça que Deus dirige aos pecadores: "Haveis de procurar-me e não me encontrareis": Quaeretís me, et non invenietis (Jo. 7, 34).
 
Não haverá então mais tempo de misericórdia e chegará o da vingança, conforme a advertência que nos é feita: "Eu me vingarei, quando o tempo chegar": Ego retribuam in tempore (Deut. 32, 35). De resto, bastaria o bom senso para nos convencer disso. À hora da morte, o espírito encontra-se fraco e obscurecido; o mundano tem o coração demasiado endurecido por um longo hábito de pecar; as tentações assaltam-no com mais violência do que nunca: como lhes resistirá ele, que quase nunca tentou fazer frente ao inimigo, antes no decurso da sua vida foi vítima passiva de frequentes derrotas?
 
Seria necessária uma graça extraordinária que de repente lhe transformasse o coração. Mas estará Deus obrigado a conceder-lhe uma graça tal? Ou acaso a mereceu esse pecador com uma vida de desordens? E contudo lá vai ele ou para urna felicidade eterna, ou para uma ruína sem remédio! Será possível que um homem, que tem fé, pense nisto e não se decida a deixar tudo para se dar sem reserva a esse Deus, que há de julgá-lo e retribuir a cada um segundo as suas obras?

19/03/12

OS PRIMEIROS ANACORETAS DA CRISTANDADE (III)

CHRONICA
DOS
EREMITAS
DA SERRA DE OSSA

No Reyno de Portugal e dos que floreceram em todos os mais Ermos da Christiandade; dos quaes nos seguintes seculos se formou a Congregação dos Pobre de Jesu Christo; e muitos depois a Sagrada de S. Paulo primeiro Eremita, chamada dos Eremitas da Serra de Ossa.


LISBOA, M.DCCXLV


(CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO XVII)

"156. Temeridade grande seria a da nossa pena se quisesse impugnar tão glorioso e justo Principado estabelecido pela Igreja e pelas mais preciosas e firmes colunas que sustentam e defendem; e por isso só nos seja lícito repetir aqui em crédito e abono do mesmo Principado e satisfação, e reporta a tão grande argumento, as seguintes palavras do ilustre Autor do nosso Agiológio Lusitano: "É suposto que a Igreja Católica chame a S. Paulo primeiro Eremita, florescendo pelos anos 300 com tudo parece que o faz seguindo a mais universal notícia, que o faz seguindo a mais universal notícia, que há dos que viveram na Thebaida, Egipto e outros Provinciais Orientais, e não como definição Eclesiástica precisa, de que não houvesse outro nenhum antes em alguma parte do Mundo".  Esta tão douta, como verdadeira resposta, que dá Cardoso em defesa da primazia do Eremita S. Felix a respeito da de S. Paulo, devemos nós - veja o Leitor prudente se ainda com maior fundamento - repetir por justificação da primazia dos nossos santos Anacoretas da Serra de Ossa a respeito da dos dois nomeados, e mais conhecidos Príncipes e Mestres da solidão. Visto nos constar por autoridades, tradições, e documentos sólidos, que precederam a S. Félix nove, ou dez anos, ou ainda mais [anos], e a S. Paulo Tebeu mais de dois séculos: e assim como o Doutor Máximo da Igreja, a quem pela suma distância que medeia entre os desertos da Síria em que floresceu e os nossos da Lusitânia, não teve notícias algumas, dos Eremitas da Serra de Ossa, e só pelas vizinhanças, em que esteve dos de Tebásida, as teve de S. Paulo dadas pelos discípulos de seu grande discípulo S. Antão, as quais o moveram a dar-lhe o Principado do deserto; assim nós pelas que temos dos nossos cartórios, e por lermos as mesmas em Autores graves já acima citados neste Capítulo, dos quais expressamente consta serem os nossos Anacoretas da Serra de Ossa fruto espiritual da primeira pregação de S. Manços no ano 36 do Senhor; e também na segunda deste mesmo Santo Apóstolo da Lusitânia no ano de 92 temos sólido fundamento para os enobrecer com o glorioso título de primeiros Eremitas da Cristandade: para o que nos favorece muito a sublime pena, e doutrina do mesmo Doutor Máximo; o qual sem embargo de ter dado primeiro o principado do deserto ao grande Profeta Elias, e a seu Discípulo Eliseu ("Noster Principes Elias, noster Eliseus") o repete depois a S. Paulo Tebeu, e não duvidou extendê-lo também aos Antónios, aos Hiláriões, e aos Macarios, que lhe sucederam na glóriosa imitação da sua vida: "Nos autem (diz S. jerónimo) habemus propositi nostri Principes Paulos, Antónios, Hilariones, macarios", e nós seguindo o impulso de escritura, e pena tão outra e tão santa sem querer a nossa usurpar a Paulo e justa posse do seu Principado, o desejamos estabelecer também nos nossos Eremitas da Serra de Ossa que mais de 200 anos lhe precederam no tempo, posto que não nas virtudes.

159. Se os nossos veneráveis solitários da Serra de Ossa, sepultados nas grutas dela mais de dois séculos antes de S. paulo habitar as da Tebaida, viveram em notável distância naqueles desertos uns dos outros? Se prescreveram neles por toda a vida? E se estiveram sempre retirados do trato das gentes, sem que jamais houvesse ocasião que os necessitasse a comunicá-las, e a tornarem a ver os povoados? É matéria esta, cujos pontos nos não animamos afirmar, nem também negar; porque nem dos nossos cartórios, nem dos Autores achamos memória de tão perfeito modo de vida; porque ainda que o intentassem, como adiante veremos, não sabemos com certeza, nem probabilidade da sua pontual observância. Temos com tudo algumas conjecturas, de que o tiveram; porque começaram a viver como rigorosos, e verdadeiros Anacoretas, repartidos pelas covas, grutas, e cavernas daquela vasta montanha, muitas das quais ainda hoje conservam os nomes dos seus santos moradores, os quais, ou pelo habito perpétuo da sua altíssima contemplação, ou pelo natural temor das perseguições, e crueldades dos Idolatras, e Gentios, é muito crível, que nelas fariam perpétua morada em todo o decurso das suas vidas; e que por causa deste temor dos tiranos, e do excessivo amor, e trato familiar de Deus, nunca mais voltarão às Cidades, das quais não necessitavam para o seu sustento; porque não lhes faltava naquela solidão com grande abundância de aguas, ervas, e várias frutas silvestres, com o qual podiam conservar as vidas; porque de todas estas iguarias tão especiais para o gosto, e mortificação dos professores do Ermo, são certíssimos todos os seus montes, e vales; à vista de cujas razões temos por muito verosímil, que assim viveram, e serviram ao Senhor nos primeiros séculos de Anacoretas até passarem deste estado para o de Cenobitas, como irá mostrando esta nossa História. E porque temos satisfeito (ao que nos parece9 às gravíssimas dificuldades por parte dos primeiros Cristãos solitários da Alexandria, de S. Félix no Ermo de Rates, e do grande Paulo Tebeu no da sua Tebaida; fica à vista delas ainda mais gloriosa a primazia dos nossos santos Anacoretas da Serra de Ossa neste presente estado da lei Evangélica.

(terá continuação)

07/03/12

OS PRIMEIROS ANACORETAS DA CRISTANDADE (II)

CHRONICA
DOS
EREMITAS
DA SERRA DE OSSA
No Reyno de Portugal e dos que floreceram em todos os mais Ermos da Christiandade; dos quaes nos seguintes seculos se formou a Congregação dos Pobre de Jesu Christo; e muitos depois a Sagrada de S. Paulo primeiro Eremita, chamada dos Eremitas da Serra de Ossa.

LISBOA, M.DCCXLV


(CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO XVII)

154 Destas ilustres atestações de tão respeitáveis Historiadores bem se manisesta o grande direito, que este glorioso Anacoreta tem ao Principado da vida solitária, o qual certamente não seria menos decorozo, e agradável à nossa sagrada Congregação, e a toda esta Monarquia de Portugal, do que aquele, que já acima lhe assinalámos; visto nascer um, e outro de filhos seus; e sendo este segundo, que estabelecem Brandão, e os mais já citados Autores, dado a um Varão, a quem a Igreja passou das grutas dos Ermos para o sagrado dos seus altares; excelência que os outros da Serra de Ossa ainda não lograram, mais por falta de notícias autênticas que das suas heroicas virtudes tão ocultadas aos olhos do Mundo e tão patentes ao de Deus, que por elas os terá escrito com aractéres imortais, e gloriosos no eterno Livro da vida, no qual se veem estampados os seus nomes, porque nem destes temos memória; que como todos se deram à contemplação do Céu, nada quizeram deixar na terra; e por isso sepultaram nas concavidades, e grutas mais profundas dela não só as suas acções, mas com elas até os seus nomes, como mostrará o seguinte Capítulo. A estes pois, porque tiveram a primazia dos anos a respeito do Santo Anacoreta Félix, julgamos com os Autores já citados, ser-lhe por direito devida a da vida solitária, visto nos constar com aquela possível certeza, que póde caber na verdade da história, e admitir ponto tão antigo, que nove, ou dez anos, ou ainda muitos mais antes de 45 em que o Santo Ermita floresceu nos dezertos de Rates, segundo Brandão, ou no de 46 conforme o Autor do nosso Agiológio e os Padres Fonseca, e Fialho, ou ainda mais anos adiante, como afirma o Doutor Fr. Bernardo de Brito na segunda parte da Monarquia Lusitana, citando em favor da sua opinião a D. Fr. Bernardo Bispo Lugdonense, já havia inumeráveis Anacoretas nos Ermos da Serra de Ossa mandados para eles a primeira vez pelo primeiro Mestre, e Apóstolo da Lusitânica o glorioso S. Manços, convertidos por ele à nossa Santa Fé, e baptizados no ano 35 do Senhor, dois anos antes que o Sagrado Apóstolo Sant-Iago entrasse na Hispanha [Peninsula Ibérica], e baptizasse, e convertesse a S. Félix, como já fica dito acima no número 144 do Capítulo 16 deste primeiro Livro com o outo Faria, e Sousa; e mais largamente o repetimos em outros lugares com outros Autores de igual autoridade.

155 Ultimamente, não obsta contra esta a do Breviário, e Martiriológio Romano, que são os dois mais veneráveis, e infalíveis Oráculos da igreja em pontos históricos, aos quais se não póde opor pena alguma, ainda que ilustrada com grades letras, e exornada de todas as virtudes: maiormente quando todos os escritos dos Santos PP. e até as Bulas Pontifícias fazem maior a sua autoridade, e mais firme a sua certeza: afirmam pois todos com a mesma igreja na legenda do grande S. Paulo Thebeo, que ele é o Mestre, e o Autor da vida Eremítica: Paulus Eremitarum Author, et Magister, e a mesma Igreja, que lhe dá este Magistério, o chama primeiro entre todos os Eremitas do mundo Cristão. O Doutor Máximo seu digníssimo Cronista o julga também Principe dos dezertos, e Autor da vida Anacorética, e ao grande Antonio Egipcio o seu Ilustrador: demos as suas formais palavras: Anachoretae exeunt de Cenobio, et excepto pane, et sale, ad desuntm nihil proferunt amplius; ipsorum vite Author Paulus, Illustrator Antonius: e acrescenta o nosso Santo Doutor neste mesmo lugar citado, que não houve género algum de Eremitas na Igreja de Deus, senão aqueles, que da solidão do Egipto torouxeram o berço, o nascimento, e a santa disciplina do grande S. Paulo: Inveni sane multos apud AEgiptum, et alios in Palestina, ac tum in abundis laboribus tolerantiam; ad quorum obstupui precandi rigore, et constanciam, cum observarem quo pacto nec somno victi, nec aliqua necessitate deflexi sublimen semper, et invictum animi sensum, in fame, et siti, in  frigore, et munditate servarent, nec corpis rationem habentes, ipsi nec ad aliis eidem corpori aliquid cure impendi sustinentes; Id quasi aliena carne degerent, ipso opere ostendentes, quid sit in rebus hujus vite cum Paulo peregrinum esse, et conversationem in Caelo cum Cristo habere.

Por causa de todas essas expressões, e de muitas mais de outros PP. que seguindo a luz de Jerónimo, dão a Paulo o Principado, o Magistério, e a primazia da solidão, não falta Historiado, que referindo as glorias, e felicidades grandes, que Isaias vaticinou à memsa solidão, dizendo: Letabitur deserta, et invia, et exultabit solitudo, et florebit quasi lilum, germinans germinabit, et exultabi letabunda, et laudans; responde às perguntas que o mesmo Santo Profeta faz cheio de admiração, e de júbilo à vista do grande número sem número, e por isso quase infinito, de cultores, e professores da vida Ermítica: Quis genuit mihi istos? ego sterilis, et non pariens, et istos quis [?]? e responde totalmente esquecido dos Moisés no Monte Sinai, dos Davides na cova de Engadi, dos Elias nas grutas de Carith, e do seu Carmelo, e dos Baptistas nas Montanhas de Judá, dando não a estes, senão ao famoso Paulo Thebeo o único, e total princípio de tão prodigiosa, gloriosa, e espiritual produção: Quis genuit mihi istos? Quis? Paulus Eremitarum Author, et Magister.

(leia AQUI a continuação)

26/02/12

OS PRIMEIROS ANACORETAS DA CRISTANDADE (I)


CHRONICA
DOS
EREMITAS
DA SERRA DE OSSA
No Reyno de Portugal e dos que floreceram em todos os mais Ermos da Christiandade; dos quaes nos seguintes seculos se formou a Congregação dos Pobre de Jesu Christo; e muitos depois a Sagrada de S. Paulo primeiro Eremita, chamada dos Eremitas da Serra de Ossa.

LISBOA, M.DCCXLV



CAPÍTULO XVII

Prova-se Serem os Anacoretas daSerra de Ossa os Primeiros Eremitas da Cristandade

151 Neste precedente Capítulo deixamos provado com assaz evidência, que os primeiros Anacoretas, e Cenobitas no estado da Lei Escrita foram os grandes Profetas Samuel, Elias, e o Sagrado Percursos de Cristo; e no estado da Lei da Graça foram o mesmo Senhor, e todos os seus Sagrados Apóstolos. Resta agora no presente Capítulo mostrar com aquela certeza, ou conjectura provável, que contra tantos séculos de antiguidade, quais são aqueles esclarecidos Varões solitários, a quem (depois do seu Divino Exemplar, que Deus primeiro mostrou em figura da Moisés no deserto de um monte, e que depois de se unir à nossa passível natureza, foi levando na realidade para o monte de um deserto) se deva o principado deste, e a glória primazia da sua perpetua habitação neste santíssimo estado da Lei da graça? Resolvemos pois, que neste são os nossos Anacoretas da Serra de Ossa os primeiros, que depois de Jesus Cristo, e seus Sagrados Apóstolos, habitarão a solidão, e serão princípio ao estado Monacal. Todo o Capítulo 15 deste primeiro Livro, e Século, em que vamos escrevendo, é a mais eficaz prova desta nossa resolução, porque estabelecida a grande antiguidade dos nossos santos Ermitas, dela bem claramente se manifesta a sua primazia no presente estado da Lei da Graça. Neste, como temos dito, e provado, começaram a povoar os desertos da Serra de Ossa no ano 36 do nascimento do nosso Redentor, que foi o segundo da nossa copiosa redenção, e o segundo também da primeira Apostólica Missão do primeiro Pontífice Eborense, e Proto-mártir da Lusitânia o glorioso S. Manços: e como neste referido ano ainda não tinha começado a pregação dos Sagrados Apóstolos na Hispanha [Península Ibérica], bem se vê não haver nele ainda solitários conhecidos por tais, senão os nossos da Serra de Ossa filhos da Cidade de Évora, e mandados dela para aquele santo deserto pelo mesmo seu Mestre, e Apóstolo S. Manços, os quais não só têm a excelência de serem os primeiros Essénios, Offios, ou Cristãos, e Santos da Hispanha [Península Ibérica], mas também os primeiros Eremitas de toda a Cristandade. Assim o afirmam as nossas perenes tradições, os nossos sinceros cartórios, e o confessa o já citado acima P. Mestre Fonseca na sua Évora Gloriosa, na qual diz, que Os primeiros Eremitas de toda a Igreja Católica foram os Eborenses mandados por S. Manços para a Serra de Ossa; como também são os únicos, que se conservaram na Igreja, quando os outros se extinguiram, ou reformaram. O mesmo repete este doutíssimo Historiador mas adiante, afirmando, que Os Primeiros Eremitas de todo o Mundo Católico (como dissemos) foram os da Serra de Ossa, que nasceram no tempo de : Manços nos primeiros crepúsculo, e infâncias da Igreja, e viveram sempre com tanta inteireza varam.de vida, que extintos por diplomas Pontifícios todos os Eremitas da Hispanha [Península Ibérica], só os da Serra de Ossa se conservaram.

152 Este mesmo ilustre Jesuíta referindo a primeira perseguirão, que padeceram os primeiros católicos Eborenses, da qual se seguiu a segunda pregação, e o martírio do seu Apostólico Mestre S. Manços, diz as seguintes palavras: Não falta quem diga, que muitos destes afligidos Cristãos se embrenharam na Serra de Ossa, e deram princípio de vida Ermítica muito antes que S. Paulo, a que chamamos primeiro Ermitão, que proreceu em 245 o que se pode confirmar com a História de S. Félix, que já no ano de 46 era Ermitão com seu sobrinho Etc. Muitos anos antes do P. Mestre Fonseca tinha o Padre Manuel Fialho, já acima citado, dado também nos seus doutos, e difusos escritos a primazia da vida solitária aos nossos Eremitas da Serra de Ossa, a respeito de todos os mais da Cristandade, como bem se deixa ver das suas já referidas palavras, as quais aqui têm o seu próprio lugar, e são as seguintes: Também aqui na Serra de Ossa tiveram o seu primeiro princípio, e domicílio, primeiro que em toda a Hispanha os Monges Negros; e primeiro que eles desde o princípio da Fé floresceram na mesma Serra os primeiros Eremitas de toda a Cristandade pela pregação, e instrução do nosso glorioso, e primeiro Apóstolo, e Bispo S. Manços. E acrescenta depois o mesmo Padre, que Os primeiros Monges Negros da Hispanha, e os primeiros Eremitas de toda a Cristandade, foram os da Serra de Ossa. Bem confirma o parecer, e autenticidade destes doutíssimos Jesuítas o não se ler em Autor algum Eclesiástico, que antes da pregação do sagrado Evangelho fossem conhecidos alguns solitários em toda a Cristandade, senão os nosso da Serra de Ossa; e por isso se lhes deve só a eles, e não a outros, a primazia do sagrado Instituto Ermítico. Nem pode obstar a esta em primeiro lugar o afirmarem comummente os Historiadores, com o Doutor Máximo, que os primeiros Eremitas da Cristandade foram os do Egipto, primeiro instruídos, e depois mandados para aquelas vastas solidões pelo Evangelista S. Marcos: por quanto os tais Historiadores seguiram as notícias, que mais universalmente corriam daqueles Ermos; e não as tiveram dos nossos da Lusitânia por mais distantes; porque a tê-las, necessariamente haviam seguir a Cronologia dos tempos, segundo a qual consta que os solitários do Egipto começaram a habitar os seus desertos depois do ano 45 do Senhor; porque neste tal ano, diz o Cardeal César Barouio, que entrara o Sagrado Evangelho em Alexandria do Egipto, onde pelos anos seguintes mandou a muitos dos Gentios convertidos pela eficácia da sua pregação para o retiro dos Ermos: e os nossos Ermitas Eborenses, nove, ou dez anos antes, ou ainda mais, povoavam já os dezertos da Serra de Ossa como largamente fica provado; cuja antecedência de tempo dá a estes, e nega àqueles toda a primazia.

153 Não obsta por parte desta em segundo lugar dizerem o Breviário Bracarense na legenda do seu primeiro glorioso Arcebispo S. Pedro de Rates, os doutros Padilha na História Ecclesiástica de Hespanha; Manuel Severim de Faria na já muitas vezes citada Relação da Vida Ermítica; Cardozo nos Comentários do seu Agiológio Lusitano, e o Doutor Fr. António Brandão na sua, e nossa Monarquia Lusitana, que a vida Eremítica teve princípio neste Reino de Portugal por S. Feliz, o qual floresceu na solidão de um monte junto a Rates pelos anos 45 do Senhor: demos as palavras deste ultimo citado, as quais foram as seguintes. Uma das coisas que mais ilustram o Reino de Portugal é haver-se dado nele princípio de vida Ermítica, que tem sido de tanto proveito, e ornamento da Igreja Católica. Foi o primeiro, que instituiu esta vida um Santo Varão chamado Félix, o qual viveu num em um monte junto a Rates em tempo do primeiro Arcebispo de Braga S. Pedro, o qual (como é sabido) foi discípulo do Apóstolo S. Tiago, e faleceu pelos anos de Cristo de 45. De Félix, e seu modo de vida faz menção o Breviário de Braga na vida do mesmo S Pedro. Este Instituto de vida Eremítica floresceu depois por todas as partes da Cristandade, e aprece que se derivou de Portugal; por quanto em todas as Províncias se acha, que uzaram do mesmo nome, e hábito, que trouxeram os Eremitanos Portugueses antigos; e se conservou até nossos tempos nos Religiosos da Serra de Ossa. Até aqui o douto Brandão, cujo parecer seguem os famosos Antiquários D. Francisco de Padilha, Jorge Cardoso, manuel Severim de Faria, já acima citados; o primeiro e último dos quais reconhecem a S. Félix pelo primeiro Ermita de Hispanha; e o segundo começa a sua nunca assaz louvada História no Comentário ao primeiro de Janeiro por estas palavras: Damos princípio aos Santos de Portugal com S. Félix (dado, que lhe não sabemos dia próprio) por ser o primeiro fundador, e pai da vida Ermítica, e Monacal neste Reino.

(tem continuação)

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