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04/07/18

O DEVER DA OBEDIÊNCIA MAIOR

Alfredo Pimenta, converso e com um percurso ao verdadeiro Tradicionalismo
"Estou onde estou, não por benefício pessoal, para conveniência própria, mas porque entendo que sirvo, assim, melhor, a Causa de Deus e a Causa da Pátria, que a Causa do Rei representa.

Diz o snr, Bispo de Bragança infalivelmente ingénuo: - é da responsabilidade do General a divisão que se dá entre os soldados obedientes e desobedientes ao Comando? É da responsabilidade de Deus a divisão que há entre os homens que cumprem os deus mandamentos ou conselhos e os que os não cumprem?

Ai snr. Bispo de Bragança! Snr. Bispo de Bragança! Não lhe tremeu a mão, do sacrilégio? Não se lhe partiu a pena, ao escrever a afronta? Então v. ex.ª Reverendíssima, por graça de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo de Bragança, ousa comparar o comando do general, aos mandamentos e conselhos de Deus? São da mesma natureza o comando do General, e os mandamento e conselhos de Deus, para que a obediência que devemos a estes seja idêntica à que podemos dever àquele? Ai snr. Bispo de Bragança, snr. Bispo de Bragança - o que lhe vale é ser Bispo e eu católico…

Pois lho digo: é, sim, da responsabilidade do General, a divisão que se dá entre os soldados obedientes e desobedientes ao comando - , quando este é contrário à moral, à consciência, à recta razão."

(Alfredo Pimenta, de: a política do Centro Católico e a minha resposta ao Senhor Bispo de Bragança e Miranda, 1925) 

22/02/17

Pe. JOSÉ MARIA LOPES NOGUEIRA - UM RESISTENTE

Este artigo ficará em aberto e será actualizado na medida em que formos obtendo mais dados biográficos do Pe. José Maria Lopes Nogueira, natural de Valverde (Fundão - Portugal), o qual foi atento doutrinador da Fé e perseguido pelas ostes republicanas.
 
1 - Fuga à República: Logo depois da imposição da república em Portugal, o Pe. José Maria escondeu-se numa pequena gruta subterrânea, conhecida por Fonte dos Leitões (já fora da Aldeia de João Pires). Paiva Couceiro no Norte havia proclamado a restauração da monarquia, e o Pe. José Maria Lopes Nogueira tinha afirmou também em seus domínios paroquiais a permanência da monarquia portuguesa - como tal, mandou hastear a bandeira na torre da igreja. A proclamação local foi de tal forma festejado pela população que as milícias republicanas, ao dar-se conta, deslocaram-se estase em força, desde Penamacor para colocar a população sob ameaça e prender-lhes o Pároco. O Pe. Lopes Nogueira refugiou-se em Monsanto (no meio de muita peripécia), depois em Espanha, finalmente foi para o Brasil. Em 1926 estava já em Portugal como Pároco de suas paróquias. Morreu e foi enterrado no Cemitério da Aldeia de João Pires, "e a sua memória é venerada". [a completar]

(vídeo: Aldeia de João Pires)

 
3 - Doutrinação: Nas paróquias deixou memória de insistente na doutrinação de todos, e seguindo o Catecismo de S. Pio X que era memorizado (este catecismo é organizado em perguntas e respostas, ele mesmo explicativo). Enviou alguns jovens ao seminário: dos seus paroquianos 4 foram ordenados estando ainda vivo, e 5 logo depois.
 
4 - Família: a) Filho de Eduardo Lopes Nogueira que se dedicou ao ensino de moços [há notícia de ter ensinado em Donas no Fundão, e ter catapultado a formação de José Leonardo Venâncio Saraiva], articulista no "A Gardunha" [?], proprietário de terras e casas por herança, costela brasonada, irmão ou sobrinho de um Prior de Santa Cruz de Coimbra. b) Tinha duas irmãs: Maria da Piedade Lopes Nogueira, que teve quatro filhos e duas filhas; Elisa Lopes Nogueira. [a completar].
 
5 - Música: tinha qualidades musicais e sabia tocar vários instrumentos (na privacidade tocava principalmente o violino e a flauta); o que leva a supor que tenha tido contacto com estes instrumentos em sua casa, antes da formação sacerdotal. [a completar]
 
(a actualizar)

07/12/16

O "ESTADO NOVO" não foi "REPÚBLICA NOVA"


Retirada de uma entrevista televisiva ao Prof. António de Brito (Dezembro 2009 - projecto "Direitas Radicais em Portugal"), a transcrição que se segue não significa uma subscrição de outras afirmações do Professor. Sirva este material como testemunho:

"[No Estado Novo] os "republicanos" eram "republicanos em banho-maria". Aí é que pode dizer que havia bastantes indiferentes... indiferentes. Que também nunca poriam resistência a uma restauração monárquica a sério, evidentemente, não a monarquia depois que os integralistas deram... a monarquia do Couceiro, e tal.; a uma monarquia autêntica, com uma certa indiferença não se oporiam. (...)

Salazar dizia que o grande apoio do Estado Novo são os monárquicos, são os católicos e alguns republicanos sidonistas. Os republicanos tinham o peso todo da tradição republicana, que era democrática, liberal, etc...  Eles lá iam fazer apelo ao governo de um só!? Eles eram [em geral] contra o regime que estava, exactamente por ser próximo de monarquia: ser o regime de um só, Salazar, mandar.
 
Nós gritávamos quando estávamos na Mocidade Portuguesa: "Quem manda? - Salazar, Salazar, Salazar! Quem vive? - Portugal, Portugal, Portugal!". Sempre o apelo a um chefe, ou a um ícone. Evidentemente que um republicano genuíno, como é que ele ia a... [apoiar]? Só se tivesse, como por exemplo agora... pode admitir-se porque um pretendente ao Trono não é pretendente a coisa nenhuma (...), não é monárquico, ele não é monárquico! Como dizia o [Alfredo] Pimenta, e muito bem: "eu sou monárquico sem Rei, temos que proclamar a excelência dos princípios e a cadência das pessoas".
 
Ideias a salientar:

- A Monarquia assenta no princípio do "mono" poder (poder de um);
- O Estado Novo não é nem se identifica com a república, e sim com a monarquia;
- A tradição republicana é democrática e liberal (ao ponto de nisto se apresentar como representante perante os outros sistemas e regimes)...

(outra parte da transcrição aqui, em VERITATIS)

08/06/16

REPUBLICANOS VETARAM "BARRIGAS DE ALUGUER"...

Agora, o Presidente da República-em-Portugal vetou a "lei das barrigas de aluguer", apresentando o argumento de ter sido esse o parecer do Conselho Nacional de Ética (tanto em 2012, como em 2016): "não estão salvaguardados os direitos da criança (...), nem é feito o enquadramento adequado do contrato [de gestação]. A esquerda descontentou-se, pois claro, contudo, é triste ver que nestes meios tão artificiais, com sorte, só se conseguem esgrimir argumentos muito "distante", e não se pode falar abertamente como o fizemos sempre (com o argumento simples e directo, apontando o mal e o erro moral ou doutrina). É o tempo em que se "pode falar", mas onde está previamente estabelecido aquilo a que se pode dar passo e ouvidos! ...

08/05/16

CONVENTO DE Sto. ANTÓNIO DO VARATOJO - A EXTINÇÃO (II)

(continuação da I parte)



NOVA EXPULSÃO E NOVO REGRESSO

Prolongou-se por meio século - 1861 a 1910 - a relativa tranquilidade dos religiosos varatojanos, apenas algum tanto perturbada com a dispersão das comunidades religiosas, imposta em decreto de 10 de Março de 1901, que proibia a existência das associações religiosas, respeitando porém os bens delas. A comunidade de Varatojo recebeu a visita e intimação do Governador Civil em 28 de Abril, após as festas da Páscoa. Ficou no convento o Guardião com dois sacerdotes e os irmãos leigos e donatos em trajo de criados. No princípio de 1902 reorganizaram-se as comunidades, consideradas, pelo mesmo Governo, como membros da Associação Missionária Portuguesa, invenção do nosso superior provincial, Doutor Padre Frei João da Santíssima Trindade, cujos estatutos organizara e para eles conseguira a aprovação civil, dada em 18 de Outubro de 1901. Em Janeiro de 1902 já estava reunida a comunidade de Varatojo, e em 1904 o noviciado.

Não se prolongou muito o sossego claustral. Durou apenas uns oito anos. Em 4 de Outubro de 1910 [os republicanos usurpavam o poder, impondo uma república em Portugal], que ressuscitou os decretos anticongreganistas de D. Pedro IV: a extinção de todas as ordens e congregações religiosas e expoliação de todos os seus bens. O decreto tem a data de 8 de Outubro de 1910. Devia de ser a primeira legislação daquela república (...).

A comunidade de Varatojo começou a dispersar em 7 de Outubro. Em 8 sacerdotes, 5 irmãos leigos, 6 noviços e 5 donatos. Ficou, para entregar as chaves, o Vigário do convento, Padre David das Neves, com o irmão leigo Frei Bernardo de Almeida, acto que se efectivou no dia 11 às 17 horas.

Não se conteve aquele Vigário na sua mágoa e protestou perante os representantes da "autoridade" civil, militar e judicial que se apresentaram. Seguiu-se o arrolamento de todo o recheio do edifício e da igreja e salagem das portas que davam entrada à casa e às suas dependências interiores.

O convento de Varatojo, bem como os outros dos franciscanos portugueses, tinham desde 1901 proprietário particular, escolhido pelos superiores provinciais, a quem fizeram escritura de venda meramente legal. Como os demais proprietários, o de Varatojo reclamou juridicamente a cerca e o edifício, mas inutilmente. As "autoridades" da republica converteram-no em asilo de idosos, com o nome de Asilo Latino Coelho, pouco depois da expulsão dos religiosos.

À sombra da "lei", que permitia aos religiosos viver junto em número menor que 4 sacerdotes no lugar, servidos por irmãos leigos disfarçados em criados. Celebravam a Missa e outros actos ministeriais em capela improvisada numa casa emprestada pelo benfeitor José Eduardo César e por fim na de uma senhora - Senhora Morna - deixada mais tarde em testamento aos religiosos, em cuja posse continua (a Província Portuguesa da Ordem Franciscana, na ocorrência dos 750 anos da morte de S. Francisco, em 1976, cedeu o uso desta casa à Fraternidade da Ordem Franciscana Secular de Varatojo para lar de pessoas da terceira idade. Foi o primeiro núcleo do Lar de S. Francisco que, já muito acrescentado, se vê pouco acima do convento). Logo após a exclaustração, cuidaram, por meio de pessoas amigas, de salvar a igreja e conseguiram que fosse considerada monumento nacional. [... monumento a quem, ou a que coisa!? ... hoje os edifícios são declarados "monumentos" mais parecendo isso uma forma de desvinculá-los da maior importância e finalidade para que foram feitos]. E, para não retardar nela o culto, idearam e conseguiram criar a Irmandade de Santo António, cujos estatutos foram aprovados pela autoridade eclesiástica em 28 de Março de 1918 e nesse mês remetidos à "autoridade" administrativa civil (...). Em 21 de Maio seguinte a mesma "autoridade" lhe (...) [devolvia] o templo, com suas dependências e objectos nelas [ainda] contidos. A confraria tomou posse, por auto assinado em 12 de Junho desse ano, véspera da festa de Santo António.

Em todos esses trabalhos teve iniciativa e principal actividade o franciscano Pe. José Pedro Ferreira, apaixonado zelador dos melhoramentos de Varatojo, ninho de seu nascimento. O povo levantou-lhe o seu busto em 4 de Outubro de 1953 num dos canteiros do largo fronteiro à portaria do convento.

Os religiosos eram capelães da irmandade e reitores da igreja. Demorou 10 anos esta situação. Em 1928 - decreto de 15 de Outubro - (...) [os republicanos devolviam] às Missões Franciscanas Portuguesas "o extinto convento de Varatojo e cerca anexa e todas as suas dependências, revertendo para a posse da Fazenda Pública, quando não tenha a aplicação a que foram destinados".

A comunidade dos novos regressos estava constituída em fins de Outubro, com o curso de teologia, mudado de Tuy, Galiza, para onde os franciscanos se refugiaram em 1910. Em 1940, (...) com a assinatura da Concordata e do Acordo Missionário, acharam os franciscanos poderem trazer para Portugal os sectores de formação que ainda tinham na Galiza, estabelecendo no convento de Varatojo o Noviciado. O Estudantado de Teologia passou para o Seminário da Luz, na altura aberto em Lisboa.

Assim, (...) o convento de Varatojo continua sendo o lar paterno para os filhos de S. Francisco em Portugal, unindo os de agora aos que, ao longo de quase oitocentos anos, encheram o país - e a sua história também - com a sua presença fraterna e benfazeja, desde que, em 1217, os primeiros chegaram a Alenquer. (...)


(aqui termina a transcrição da parte que mais nos interessou publicar da obra: Convento de Santo António de Varatojo - Frei Bartolomeu Ribeiro, Braga, 1990)

27/02/16

ASCENDENS AOS CATÓLICOS ASSARAPANTADOS

Conhecidos e amigos, que andais aflitos e mui assarapantados com as representações do Senhor Presidente da República em Portugal, repito, EM, em Portugal, tenho a perguntar-vos: desde quando a república em Portugal passou a ser legítima, e deixou de ser ofensa a Portugal!? [o Estado Novo não conta]

É lamentável, sem dúvida, que o Presidente da República EM Portugal se diga católico, e vá a "celebrações ecuménicas" em mesquitas. Não será menos lamentável haver católicos que tenham a República em Portugal como República de Portugal ou, pior, considerá-la como Portugal mesmo.

Aos católicos que costumam usar a designação "falsa Igreja", ou "Igreja do Concílio", como se se tratasse efectivamente de outra igreja, não seria esperado ouvir-lhes dizer "falso Portugal", ou "Portugal da Constituição Republicana", como se de outro efectivo Portugal se tratasse? Não é que eu recomende tal, mas enfim ...

As câmaras municipais, embora tomadas de republicanismo, são elas mais legítimas que a república e seus representantes; para que vejais, ou vos lembreis. Elas existem entre nós há séculos! Tanto assim é que, um certo grupo de monárquicos portugueses, recente, o qual não apoiamos, tem como um dos pontos principais da sua campanha o municipalismo; e outro grupo, mais antigo, já fala em república coroada. Anda já tudo muito republicanizado, são contra a república mas pensar à republicana, e não admira já que se tome o adverso como nosso e próprio. Pobre gente, que geme pelos efeitos, e nem um "ai" dá pelas causas e falsos princípios que os originaram.

Sim...! Alguns de vós, em tempo de eleições, votou, para exercer o seu direito de voto (maçónico), votos como que legitimam o Prof. Marcelo Presidente. Agora, logo no primeiro dia, os frutos podres aparecem, e sem que estes estejam contra a Constituição Republicana (a tal que vos dá o direito de voto que dizeis ter). Insurgir-se agora, contra aquele a quem elegeste por legítimo superior, o Presidente, não será murmuração, contradição,  superficialidade, e tantas outras coisas!?

O assarapantamento em Portugal não foi pouco! Tenho visto até "modernistas" e ateus, indignarem-se com a actitude do Prof. Marcelo. As vozes que se levantam agora contra, evidentemente, têm alguma razão aparente, no caso dos que se julgam católicos-republicanos em Portugal; mas tem apenas completa razão, no caso dos que apenas toleram a República e repugnam a democracia. Outros assarapantados há, que vivem em constantes ajustes com a conveniência: há aqueles que a) acham que o direito de voto é maçónico e ilusório, mas depois das eleições consideram o Presidente da República um representante de Portugal; b) outros acham que a república não é legítima, mas é legítimo o voto e o representante republicano, e clamam mais democracia que qualquer republicano; c) outros dizem-se monárquicos e católicos à sexta, mas são republicanos e heterodoxos à segunda!

As vozes da razão e da lucidez católica não servem apenas para dizer a verdade a quem a conhece e pratica, mas sim, e principalmente, para corrigir quem anda enganado. E é isto bem necessário, pois o que não falta é confusão e cumplicidade. Veja-se pois, que nestas matérias temos no blogue ASCENDENS publicado artigos e obras relativas à democracia e à república (contra a fome: pão).

Não confundir SER, e ESTAR (ou parecer, ou ter, ou fazer, etc...):

- Portugal É uma monarquia tradicional;
- A República é ocupante, e temos obrigação de correr com ela (enquanto tal, temos que nos ir sujeitando, tolerando no necessário, sempre que não se entre em contradição com o que Deus manda etc..).

Mas que dizer a esses que votaram e se queixam agora?! E que dizer aos que se calaram em criticar maus princípios, mas que apenas bradam para criticar os efeitos dos mesmos princípios?!

A quem É português, e não tem ANDADO português, ponha-se em linha!

30/10/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº4 (II)

(continuação da I parte)

MATRIMÓNIO – Também esta palavra tem perdido seu antigo significado, e o que agora tem entre os Democratas equivale ao que se chamava dantes um concubinato metódico, que é na realidade o único matrimonio do qual são capazes os libertinos. Para os matrimónios desta classe não se requer um amor constante, e racionável, que adoce mutuamente os infortúnios da vida. Também tem a vantagem, e comodidade de livrar da pesadíssima secatura da educação dos filhos. 

Nasce daqui uma séria dificuldade em outro género, que certamente não é fácil de explicar, a saber: que cousa se deve entender por bom Patriota, e bom Republicano, tão engrandecido, e louvado em a língua Republicana? Nos Escritos Republicanos sustenta-se com furor, que não se pode ser bom Patriota, Republicano, etc. etc. sem ser bom pai, e boa mãe, e assim o mais. Ora pois, nos matrimónios democráticos legítimos, legitimíssimos, a boa mãe, depois de três, ou quatro anos de casada, abandona republicana e amorosamente seus filhos, (o que nem ainda os mesmo tigres fazem) e vai a outra parte criar outros, para abandona-los da mesma maneira. Logo, se esta é a boa mãe, (e o é constitucionalmente) querer-me-hão dizer, que gentes perdidas e embusteiras não são o bom Patriota, e o bom Republicano? Mas em fim não há mal, que não venha para bem; pois daqui inferimos: que o Vocábulo bom passou magicamente à significação contraria; em cujo suposto não somente entendemos já, que cousa é em língua antiga bom Patriota, etc. mas sabemos também, que pertencem à conjuração todas as bondades havidas, e por haver, uma vez que sejam Democráticas.


LITERATO – Em boa versão corresponde a ímpio. A literatura Democrática, que é a mesma, que a moderna Filosofia, deve ser despreocupada; e não o pode ser filosoficamente, enquanto não comece por contar entre as mais desprezíveis preocupações  a Religião, a Moral e a existência de... Explico-me?... Em todas as Universidades Democráticas foram destruídas as Cadeiras de Religião, de Teologia, de Direito Divino, etc. Já se vê, como não são mais que chocarrices, e velhices indignas da literatura Republicana, e do alambicado engenho Democrático, que deve unicamente brilhar no campo do ateísmo, do sofisma, da impostura, e da contradição. Fóra ideias rançosas! A Sabedoria Democrática deve reduzir-se, e está já reduzida ao inocente e singelo método de embrulhar todas as ideias, de fazer do negro branco, e do branco negro, e de formar à força de sofismas, sarcasmos, mentiras, embustes, trapaças, e declamações uma nova Lógica Republicana, que sirva como de molde aos saltimbancos, e extravagâncias de engenho, de que há tanta abundância, e que são outrossim incapazes do antigo método, e sistema de reflexões sérias, e justas, e de sólidas deduções. Quando um Literato Democrático, à força de plagiatos, chegou a encaixar num livro uma sátira contra os Monarcas; um troço de Historia sacado violentamente de Montezuma, ou da Cruzada; um facto ou fingido, ou transtornado de algum Pontífice; uma diatribe contra a superstição (em sentido Republicano); uma declamação contra a tirania, uma passagem terna em graça dos lavradores; uma dissertação poética sobre a natureza humana, e seus imprescritível direitos; uma apostrofe emfatica sobre a Liberdade (in genere), e sobre as bondades, e excelência da Sancta Democracia, de repente é tido por um poço de Ciência, e sua obra qualificada uma produção original de literatura democrática, ainda que estejam nela os períodos como as nozes num costal, e ainda que os raciocínios estejam jogando os coices. Por desgraça há infinitos, e infinitíssimos obstinados desta classe, que se riem ás gargalhadas com este método literário democrático; porém ainda que não fora senão pela facilidade, com que em um abrir, e fechar de olhos se faz do mais estúpido um sábio, haviam de olhá-lo com mais respeito. Pobres petímetres, e bailarinos! Desgraçados tunantes, e rufiões! Infelizes tafues, espadachins, e franchinotes! Como, a não ser um método tão esquisito; havíeis de estar a estas horas amotinando os ouvidos, como outros tantos sinos em dias festivo, sobe o maravilhosos edifício da vossa encatadores, e loquacíssima Sabedoria?! Como havíeis de estar passando pelos homens mais sábios, e ilustrados, que tem tido o Universo, e havíeis de estar luzindo com  a vossa sempiterna loquacidade, sem embargo de terdes apagada a lanterna! Desenganemo-nos: onde há melhor cousa, do que fazer-se um sábio consumado, só com chamar superstição à Religião, e tiranos aos Monarcas, que é um estudo, que se faz em meio minuto?!

Um outro, e mais vasto campo há, em que como o lírio em os vales desponta com primor a literatura republicana, a saber: a decente, fina, e modesta linguagem republicana. Cousa excelente para confundir mentecaptos; para que nunca se saiba, qual é o ponto que se tracta, quando se escreve; para combater o que ninguém sustenta; e para sair-se airosamente da questão, atacando uma cousa debaixo do nome de uma outra. Porém depois de tudo, o ápice da perfeição, a flor, a nata, e a espuma da sublime ciência democrática consiste em dizer com uma cara escárnio quantas vilanias, e poucas vergonhas lhe vem aos cascos; em vociferar calúnias, e injúrias as mais grosseiras; em atestar livros inteiros de mentiras, infâmias, sarcasmos, e impropérios. Eis-aqui em que até agora ninguém tem havido que os iguale. O alvo de uma ciência tão eminente, como esta, é todo o homem de bem, honrado, e religioso: se bem, é verdade, que não poucas vezes os mesmos Democráticos se honram mutuamente com estas saudações, e comprimentos literários: supõe-se, que por motivo de ensaio, e para aperfeiçoar-se em a arte.

(continuação, III parte)

17/06/15

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 16 (II)

(continuação da I parte)

Livros

Ainda terei ocasião de patentear as equivocações e paralogismos das Côrtes Lusitanas sobre o artigo da censura dos livros, matéria esta em que os factos são mais poderosos que os raciocínios; e por agora satisfaço-me de ponderar que apenas os egrégios canonistas furtaram à Igreja todo o exame dos livros, nunca mais de pôde ter mão neles, para que não inundassem e pervertessem os reinos onde a autoridade civil se apossou daquela censura. Descansem por uma vez os engenhosos fabricantes de novas máquinas regeneradoras, que cedo ou tarde se voltará tudo contra eles, e uma desgraçada experiência os convencerá de que há certos interesses ligados intimamente à Fé, os quais só ficam bem nas mãos de uma Depositária fidelíssima, qual é a Igreja de Deus.

Um dos primeiros cuidados da nossa regeneração foi soltar os diques à torrente de maus livros, que até esse tempo se vendiam às ocultas e debaixo do capote, e dar amplíssima faculdade aos livreiros para terem sobre os mostradores A religiosa de Diderot, as obras mais ímpias de Voltaire e Freret; que as de Rousseau, não obstante o serem proibidas há muitos anos pela Real Mesa Censória, já se vendiam antes de 1820 sem rebuço, o que não admira, quando em Julho deste ano de 1823 se imprimia na Tipografia da Universidade o Contrato Social, porventura a fim de se radicar mais e mais a adesão e fidelidade ao Trono Português. Quase não havia neste Reino uma loja de livros, que não se tivesse mudado em em uma botica a mais bem sórdida de venenos, para se matar com eles quem se desgostasse de viver segundo os preceitos do Cristianismo. Para direcção dos novos costumes liberais tinha acudido um enxame de exemplares das Cartas do Lente de Matemática José Anastácio, onde se metem à bulha os dogmas do pecado original, da predestinação, das penas eternas (freio este que os Liberais tratam logo despedaçar a todo o custo), e a imortalidade da alma, e sua liberdade, etc. etc.. Guardarão a simples decência de lhe assinarem a cidade de Paris, como o lugar em que tinham sido impressas, quando por todos os exames e combinações se depreende claramente que tinha sido em Coimbra... Pois que impulso não deram à veneração das coisas santas, e à observância dos preceitos da Igreja um Cidadão Lusitano, e as Superstições descobertas?

Que nuvem de Santos de pau carunchoso não ameaçou procriar o licencioso retrato de Vénus? Que virtuosas donzelas, que boas mães de família não devia formar a piedosa leitura do Toucador das Senhoras, onde se lhes propinou desaforada e periodicamente o que há de mais venenoso em todos os escritos modernamente dedicados à obscenidade? Se algum destes livros, como notoriamente incurso nos abusos da liberdade de imprensa, era denunciado ao Júri, lá estavam os incorruptos e venerandos Jurados de Lisboa, que deixavam passar carros e carretas, e que, ouvindo a convicção íntima de suas melindrosas consciências, achavam que a licença franca de seguir os prazeres carnais, como outras tantas virtudes, e o escárnio das obras inspiradas e canónicas era um simples jogo de crianças!!! Pois um certo periódico mensal chamado Compilador, que meteu a salvo nessa farragem de inépcias quanto lhe veio à cabeça para mofar de tudo que é sagrado, e especialmente dos milagres, a que a devoção dos Portugueses tem dado há séculos inteiro crédito!! Pois o tom dictatório com que o Diário do Governo, ou das parvoíces, metia a sua colherada nos assuntos religiosos, confundindo e enxovalhando tudo!!! Os periódicos e mais impressos constitucionais seguiram a doutrina e sistema anti-religioso da Assembleia Francesa. Esta Assembleia extinguiu as ordens religiosas, e proibiu que os regulares trouxessem o hábito das ordens extintas. O Teólogo regular que escreveu as Memórias para as Côrtes Lusitanas decretou o mesmo: "Enfim (diz) o nome de Frade nunca mais deve lembrar, nem vestuário que o indique", e as Freiras são incluídas nesta extinção. O mesmo decretou o Dr. Apóstata; nas suas advertências úteis à pág. 30 n.º5, falando das Freiras, diz: "dispondo as coisas de modo, que com andar dos tempos se venham a extinguir" etc., palavras que declaram bem a sentença de morte contra os regulares. Mas outro ex-Frade e vagabundo Teólogo decreta a sua extinção com mais infâmia nas suas reflexões sobre um e outro Clero. Ele repete contra estas ordens respeitáveis os impropérios e calúnias dos hereges, e professa contra estas instituições religiosas o mesmo desprezo, ódio e rancor dos ímpios.

Este mesmo como o Teólogo Frade estabelecem todas as máximas da Assembleia Francesa, e justificam e autorizam o Congresso Português para as decretar. Ele quer a tolerância até ao ponto de se unir o Teólogo com o Filósofo: quer a extinção do Santo ofício: declara o Congresso autorizado para as reformas eclesiásticas: quer a extinção das imunidades, e o saque dos bens eclesiásticos, que declara nacionais e pertencentes à Nação. O ex-Frade zomba e escarnece de toda a Teologia; afirma que a Polémica tem feito hereges, a Mística doidos, e a Exegética até ateus. Ele quer que se desterre essa ciência, e que a Religião seja ensinada só por um Catecismo. Mas quem deverá fazer este Catecismo? Será um Teólogo e Mestre da lei? Isso não quer o ex-Frade. Chama questões de insignificância às que se suscitaram no séc. IV entre os Arianos e Católicos, e fala com desprezo delas, tendo em nenhuma monta a defesa de um dogma fundamental da Religião, como é o da Santíssima Trindade; nem é menos notável quando fala nos debates teológicos a favor da doutrina da Graça desde Santo Agostinho até nós.

D. Pedro de Alcântara, Imperador do Brasil, deu ordem de extinção de todas as Ordens religiosas em Portugal.

Para justificar a autoridade, que dá ao Congresso para as reformas eclesiásticas, não só calúnia os Concílios, e até os gerais, mas também afirma que sente mal destas Assembleias gerais. Ele as tem, como os Protestantes, por meramente humanas, isto é, não vê nelas senão homens, e as paixões dos homens, o que é injurioso ao Espírito Santo que as dirige, e às promessas de J. C. à sua Igreja, que tão positivamente nega. Este Teólogo confirma com a sua doutrina o que o Reformador da Itália dizia em 1769: que a Seita Teológica estava já adiantada em Portugal.

Item decretam contra os celibatários, e que ao Papa se peça licença para que os Frades e Freiras de pouca idade se casem. Podia-se-lhe repetir aquela sentença de Erasmo a Lutero: "A vossa reforma acaba, como as comédias, em casamentos, e provar com Bergier que é mais prejudicial à república civil e moral o celibatário da libertinagem do que o eclesiástico e religioso. Decreta mais a reforma das rendas dos arcebispos, Bispos, e Cónegos etc., e com poder mais que pontifício os põe a pão e laranja, e extingue os dízimos com fundamento de que não são de direito divino. Em consequência desta abolição manda sustentar o Clero secular pelos seus fregueses. Que política1 lançar uma nova contribuição ao povo para lhe tirar os dízimos a que estava acostumado: e que doutrina! J. C. ordenou que os que servem o Altar vivam do Altar, e proibindo-lhe o implicarem-se em negócios seculares, não lhe especificou e realizou esta côngrua e quota, e não pertencia à sua Igreja o realizá-la, quando isto se fez necessário? Pode haver autoridade mais legítima do que a Comissária de J. C. para todos os assuntos religiosos? E como estes dízimos não foram taxados por J. C., mas sim pela sua Igreja, decide que sejam abolidos, e até o seu nome. E quem não vê que pretendem nisto reformar mais o poder da Igreja que os Eclesiásticos? Nem um Concílio geral faria tanto. mas se por não serem os dízimos de direito divino devem ser abolidos, que outra coisa se lhes poderá substituir que não fique sujeita á mesma sentença de abolição dada pelo mesmo direito, e pelos mesmos juízes? Sustentem-se de pensões dadas ou pelos povos, ou pelo Estado; e afinal que teremos, senão decretos de direito humano para a sustentação do Clero? e por mais que se decrete para se substituir os dízimos, ficará sujeito à abolição pelo mesmo fundamento de que não é de direito divino. O fim destas reformas era, à imitação da revolução da França, tirar aos Eclesiásticos a sua côngrua sustentação, para que diminuísse e acabasse o Clero, e com ele a Igreja, porque esta não subsiste sem Ministros. e se a côngrua sustentação deles é de direito divino, não será contra direito divino tirar-lha? Veja-se Bergier sobre este ponto.

Item extinguiram estes dois Mações a Ordem de mala, e das Comendatarias, e até as músicas das Catedrais, e tão republicanos como os da Assembleia de França, queriam dar cabo dos vínculos, e nos eclesiásticos de toda a representação civil. Abolindo assim pelo primeiro decreto a Nobreza ou aquilo que a sustentava, e pelo segundo o que constitui o Clero um dos estados da Monarquia, reduzindo por estes dois decretos a Monarquia a um estado popular. Ambos decretam a tolerância universal, que é o mesmo que religião nenhuma.

O Reformador regular exclui, como a assembleia Francesa, o Papa da eleição e confirmação dos Bispos, cometendo-a a um Concílio nacional; e o Apóstata acrescenta que toda a dignidade eclesiástica será dada pelo Rei e pela Nação, e que nunca mais se torne a recorrer a Roma para a sagração de Arcebispos, Bispos, e Párocos (sagração de Parcos!!), porque (diz este fauto) não consta que J. C. desse mais poder ao Bispo de Roma que aos mais Bispos; seguiu o erro condenado de Mersilio de Pádua, e é Protestante, porque nega o primado de autoridade ao Sumo Pontífice, e é réu do Alvará de 30 de Julho de 1795, por igualar os Bispos ao papa seu Primaz. Uns tais Bispos não teriam Missão divina, e uma tal doutrina nasceu do espírito de insubordinação com que sacudiram o jugo das leis da Igreja, e lhe negaram o influxo do Espírito Santo. Fiquemos por aqui.

Eis aqui muito em grosso uma noção sucinta do que nós aproveitámos durante o Sistema Constitucional, que, se por nossos pecados, chega a ter mais um ano de duração, creio firmemente que seriam irreparáveis os seus danos. Entretanto será coisa bem lastimosa que não seque de todo a fonte que ainda corre dos países estrangeiros, e que o Império civil não desembainhe quanto antes a espada da lei para castigar os seus infractores; visto que será inútil qualquer outro remédio enquanto a nossa mocidade se imbuir das perversas doutrinas de tais mestres, que seriam os únicos autores de nossas maiores desgraças, se os mestres vivos, e existentes não fossem ainda mais para temer.

(continuação, III parte)

26/05/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (IV)

(continuação da III parte)

PÁTRIA – Em a linguagem antiga significava, e significa ainda o país, onde alguém nasce. Nome doce, e caro para todos, e que excita em os corações desejos de façanhas nobres, e virtuosas. Porém a moderna Pátria Republicana é de um cunho inteiramente novo, e perfeitamente diverso. Um Demónio saído do inferno não poderia cometer mais iniquidades, que as que a palavra Pátria faz cometer a um verdadeiro Filosofo Republicano. Regicídios, fratricídios, parricídios, injustiças, crueldades, roubos, heresias, blasfémias, extermínios, raptos, adultérios, leviandades, matanças, e quanto se pode imaginar de mais atroz, e iníquo, outro tanto é licito, e manda esta fúria infernal; e nada há tão virtuoso, louvável, e meritório para um Democrático da ultima moda como todos estes horrores, quando os consagra à digna Pátria. Poucas pátrias deste jaez bastariam para acabar com tudo, e aniquilar a linhagem humana. Em resumo de conta, a Pátria Republicana é tal, que todo o homem de bem, honrado, e virtuoso deve em consciência jurar-lhe um ódio eterno. 

PATRIOTA – Significa pessoa a propósito para a pátria republicana, quer dizer, cunha do mesmo pau. Nesta hipótese, será mais patriota aquele, a quem menos asco causam as iniquidades, perfídias, e blasfémias, e que quando a Pátria as manda, e até sem as mandar, ele lhas dedica com uma semblante o mais sereno, e risonho. Não se pode pois ser bom Patriota sem ser um ateu, um traidor, um inimigo, não só do legítimo Soberano, mas da Pátria verdadeira, de Deus, de seu próprio Pai, e até de seus mais caros Amigos, e Patrícios. Com estar provas de patriotismo pode estar seguro qualquer para conseguir emprego em a pátria republicana. Cuidado, que eu nada exagero em a explicação do Vocábulo Patriota; basta ter olhos, e lançar uma olhada à moderna Pátria. É claro que não se vêm em os empregos senão Patriotas; porém Patriotas desta estôfa.  Em o antigo idioma não há, nem se quer uma palavra, que explique plenamente o novo termo Patriota. Ela é a quinta essência da impiedade, da patifaria, e da pouca vergonha. Oh! e quantos Patriotas há, para quem desfeita como o sal em agua a cucanha de uma tal Pátria, chorão amargamente uma perda tão preciosa!... E oh! quantos há em lugares, que suspiram por uma cara Pátria, que ponha em exercício seus belos, e louváveis desejos! Mas não haja susto; são tigres, que mordem em vão sua cadeia.

O que seria maravilhoso ver, se fosse possível, era que se fizessem todos os patriotas em uma paiz. Num momento se acabaria a todo o patriotismo: e eis-aqui a prova.  Tudo o que ele tem de útil, e agradável é poder tiranizar, e roubar. Em quanto houverem não patriotas bem vai o caso, e a tirania, e o roubo, ou teriam que roubar-se, e tiranizar-se uns aos outros, e seria mui duvidosa a sua sorte. Mais claro: em quanto houverem borregos, a republica dos lobos há de ter certas as suas conveniências; porém reduzida só a lobos não pode deixar de ser mui miserável. 

Outra classe de Patriotas há, a quem podemos chamar solapados. Declamam fortemente contra as violências, opressões, e tirania, que ou sofrem, ou hão sofrido  por outros, sua pátria, e seus concidadãos. O que não vê por teia de cadarso, os terá por homens de bem; porém cuidado! que estes são os mais fanáticos, e perigosos Republicanos. Pobres Patriotas! A suspirada tirania, e os apetecidos roubos os tem feito, ou estão fazendo outros, e não eles; e são Tântalos atormentados de uma sede raivosa, que não podem provar a agua, que lhe escorre dos lábios. Quem palpitações do coração! Mugem como touros ao lembrar-se que outros lhes hão usurpado seu exclusivo direito de roubar; e tem havido homem, que até tem arrenegado da democracia, e com razão: porque, de que diabo serve uma democracia, onde não chega a minha vez de roubar? Olho à letra! Pois não é cousa nova que os ladrões não estejam de acordo: e um tunante não é um homem de bem, só porque fala mal de outro tunante.

REPÚBLICA – (Vid. Pátria) Há só uma cousa a advertir, e é que em a língua republicana parece estar sancionado que não possa haver pátria verdadeira, senão a que é Republicano-democrática. E na verdade, que em certo modo a proposição é mui justa; porque para inspirar sentimentos, que horrorizem a natureza, não basta uma qualquer pátria, mas sim é necessária uma pátria republicana.

CIDADÃO – Em o idioma antigo, habitante de Cidade. Em o moderno, todos (à excepção dos Frades) habitam na Cidade, ainda que nunca a hajam visto. Para entender pois este Vocábulo com a devida precisão, é necessário distinguir, e separar o Cidadão cidadão, do Cidadão vilão, e do Cidadão aldeão, etc.

Em as Republicas modernas todos os Cidadãos são iguais, ao menos de palavra; porque todos são Cidadãos. Porém pelo que toca à realidade, há duas classes de Cidadãos, tão distintas uma da outra como o Oriente do Poente; a saber: Cidadãos opressores, e Cidadãos oprimidos: Cidadãos ladrões, e Cidadãos roubados: Cidadãos verdugos, e Cidadãos assassinados. Quanto se comprazem os primeiros com um tal nome, e com os privilégios a ele anexos, outro tanto se horrorizam os segundos somente em ouvi-lo. Todo o homem de bem, pacífico, e religioso, especialmente se tem dinheiro, trema desde os pés até à cabeça só em ouvir o nome Cidadão.

Sans-culotte
Ainda não temos podido penetrar, porque a democracia moderna tinha escolhido este igualativo Vocábulo com a preferência a outros. Dizemos isto, porque para igualar qualquer palavra devia ser indiferente; e tão honorífico seria chamar aos habitantes de um país com o nome de cidadãos, como com o de brejeiros ou bandidos, com tanto que fosse comum a todos. Por ventura preferir-se-ia aquele por ser mais decente. Porém bem considerada a coisa,  é preciso confessar que o nome Cidadão parece assaz vil para manifestar toda a dignidade, e grandeza de um Povo essencialmente Soberano. Porque, vamos com clareza, não lhe caberia  melhor o de Majestade? Pelo menos assim lhe era devido na qualidade de Soberano verdadeiro. E então que entusiasmo tão exaltado não causaria em um malsim, um lacaio, ou um sans-culotte, o ver-se saudado com a expressão de sirva-se Vossa Majestade?! Pelo menos deste modo se união perfeitamente o decoro, e a igualdade.

(continuação, V parte

23/05/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (III)

(continuação da II parte)

DEMOCRATIZAR – Largo tempo se tem passado sem se poder compreender, que coisa significasse positivamente esta palavra republicana em o idioma novo. Julgou-se ao principio, que teria alguma relação com o que antigamente se chamava formar um governo popular. Porém, que loucura! A experiência mostrou imediatamente, quão errada era esta ideia, e o engano nascia principalmente da mudança de significado em a palavra Povo. Quando vimos democratizar aos Estados mais democráticos da Europa, compreendemos, que democratizar um Estado, em o moderno idioma, não quer dizer outra cousa, que denegrir, e abater o Governo, que existia, seja ele qual for; esbulhar dele os homens de bem, que mandavam pôr em seu lugar, ou tolos, ou ímpios e bandidos; formar destes o Povo, e ao verdadeiro Povo escraviza-lo; roubar quanto haja de precioso; e aniquilar a Religião, especialmente a Catoliciza; sem se esquecer um só instante de despojar e oprimir seus  Ministros, etc. etc. É por este modo, que hão sido constante e invariavelmente democratizadas as Flandres, a Holanda, Milão, Bolonha, Modena, Ferrara, etc. etc. Desta explicação se deduz naturalmente a inteligência de muitos Vocábulos derivativos, como 

DEMOCRÁTICO – Que pela activa significa ateu, ladrão, assassino, colocado em o mando e governo; e pela passiva, a parte honrada e religiosa de uma Nação ultrajada e oprimida, tiranizada e roubada por bandidos, ateus, e assassinos. 

DEMOCRACIA – Tem-se tentado dar a versão em idioma antigo com o nome etimológico de pirataria; porém não o explica perfeitamente, porque também se poder dizer ateistocracia, e ladrocacia. Convertidos num estes três Vocábulos, formam o verdadeiro equivalente da democracia moderna. De sorte que em lugar de democracia deveria dizer-se demoniocracia, ou antes governo de demónios. 

SEMI-DEMOCRÁTICO – São de duas qualidades: uns que em parte estão pela democracia moderna, porém unida à Religião, e à moral e com gente honrada no Governo: outro, pelo contrario, não querem Religião, nem costumes, porém que sejam homens que governam. Na linguagem antiga não se pode dar a estes outro nome que o de orates, e aos segundos ainda melhor que os primeiros; pois supõe que podem haver ateus, e libertinos, que sem homens de bem.

ARISTOCRACIA – Até agora conheciam-se quatro classes de Governo, Monarquia, Aristocracia, Democracia, e Misto, e se distinguiam real e verdadeiramente. Mas na linguagem moderna não se conhecem senão dois, Democracia, e Aristocracia, e nenhum significa o que dantes significava; porque por Democracia se entende o de morras, e por Aristocracia todo o Governo, que não se conforma com a Democracia; mais claro: todo o Governo no qual floresce a Religião, se respeita a ordem, a justiça, a boa-fé, a honra, os bens, e a vida. Daqui se colige que será aristocrata todo aquele, que tenha Religião, que possua bens, que seja regulado, moderado, honesto, e de boa-fé. Que será aristocrata todo aquele, que não for petulante, que insulte o Céu, e a terra, e todo o que se não assemelhe aos diabos na incredulidade, em ódio à Religião, à ordem, à humanidade, e aos costumes. 

POVO – Na linguagem nova quer dizer: as fezes, e a ultima relé de uma Nação. Tem Roma cento e setenta mil habitantes: trezentos foragidos, ímpios, e malvados, todos dignos da forca, e das galés, foram republicanamente chamados o Povo. Tem havido Cidades, onde dez ou doze malfeitores, tirados dos cárceres com algum jogador, ou tunante à frete, hão formado o Povo dos Republicanos.

(continuação, IV parte)

21/05/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (II)

(continuação da I parte)


FELICIDADE – A mudança de significado deste Vocábulo tem causado no mundo maiores males, que a peste. Tomando-o muitos no significado antigo, têm querido achar a felicidade por meio da desordem, julgando que este ente, tão buscado e rebuscado pela incontentabilidade humana, estaria porventura escondido na novidade; e milhares de ladrões e trapaceiros os confirmaram nesta falsa ideia. A experiência, todavia, há feito ver, que o que significa o Vocábulo felicidade é ultima ruína e miséria. Quando um Povo há sido despojado de tudo; quando os Santuários, e Estabelecimentos Públicos hão sofrido o mais completo saque; quando as enormes e contínuas contribuições hão posto a pedir o afazendado, e lançado a pique o comerciante; quando o lavrador e o artista hão sido obrigados a trocar o útil manejo da enxada, e da lançadeira pelo mortífero e homicida da baioneta e da espada; quando a Religião há sido insultada, e seus Ministros hão sido roubados, perseguidos, caluniados, e postos no maior desamparo e miséria; quando, finalmente, se hão dado os mais horrorosos escândalos, há chegado a seu cúmulo a relaxação dos costumes, hão sido oprimidos os bons e honrados cidadãos, e os tunantes e malsins se hão apoderado do governo, então é quando a felicidade republicana está na sua plenitude. A desgraça é, que o horrendo engano desde Vocábulo vai fazendo, que infinitos Povos corram a esta maldita felicidade republicana. Zelosíssimos são os Republicanos deste Vocábulo; e o não querer chamar felicidade à última ruína e miséria, tem custado a milhares de homens de bem desterros, prisões, cárceres, e guilhotinas. Apareça um só Povo, uma só Cidade, Vila, ou Cabana, e diga se há experimentado outra felicidade republicana, que não seja a que estamos definindo!! Desgraçados daqueles, que por uma vez sequer hão sido republicanamente felicitados! Quase que é este o único modo de ser feliz. 

Sem embargo, com estes três Vocábulos liberdade, igualdade, e felicidade se tem feito, e se vai fazendo uma prodigiosa caçada de pássaros. Na encantada selva da liberdade está estendida a rede da igualdade, e por isca (ou negaça) tem posta a felicidade. Os Patriotas são os pássaros do reclamo, e as corujas patriotas fazem também seu papel. A caça tem sido, e continua a ser, copiosa, sobre tudo de bobos, e toleirões, e não poucas aves de rapina têm caído igualmente na rede. Até agora ninguém tem encontrado mais felicidade, que a de ter sido depenado, andar assaltado de tiros, ou ter-se-lhe apertado o pescoço.

(* Que ideias cheias de indignação se nos não despertam, quando nos recordamos das promessas de felicidade, que os Regeneradores de todas as épocas nos tem apregoado?? E por outra parte, que luctuosos quadros se nos apresentam quando palpamos os males enormíssimos, e já hoje irremediáveis, que esta peste da felicidade pública tem espalhado neste malfadado Reino, sem dúvida digno de melhor sorte!! Quem fez que os Portugueses quebrassem pela primeira vez o laço da unidade moral, e o juramento de fidelidade ao seu Legitimo Soberano? Foi o fantasma da felicidade. Quem separou as Colónias da Metrópole, causando a ruína de ambas? A felicidade. Quem estagnou o Comércio? A felicidade. Quem accendeu o facho da guerra civil? A felicidade. Quem fez................... Ah! Suspendemos a pena ao contemplar a aluvião de males, que, qual torrente arrebatada, não reconhecendo limites, senão os que ela mesma forma, tem inundado, e continua a inundar este país! Felicidade!... Nome excecrável e blasfemo, quando proferido pelos liberais!... Fantasma ilusório! Tu és um veneno pestífero, que tens invadido todas as classes do Estado!! Tu prometeste aos Povos, que irão ter suas antigas Côrtes, para serem venturosos; e em troca destas lhes fizestes jurar um Código novo, antes de ser feito, cujas bases, eram as bases da impiedade, da irreligião, do indiferentismo, e a deslocação geral de todo o Sistema Monárquico, e Religioso, que por tantos séculos fez de Portugal um país de heróis!... Tu disseste aos Povos, que tinham direito para eleger seus Procuradores, que na qualidade de Deputados advogassem a Causa dos seus Constituintes; mas o votos foram comprados, os Povos nunca tiveram Procuradores, e toda a utilidade reverteu para eles!... Tu proclamaste a Religião de nossos Pais para vivermos tranquilos na nossa crença; mas bem depressa vimos o 1.º Pastor da Igreja Lusitana banido, e expatriado só por fazer algumas declarações, e restrições justas no seu juramento pela integridade da Doutrina Católica, e bem depressa se seguiu a profanação dos Templos, o aviltamento do Sacerdócio, e não tardaria a abolição do Culto Católico!! Tu disseste a um Rei pacifico, e inimigo de sangue, que o melhor meio de viver descansado, e tranquilo no meio de seus súbditos era concordar com eles, anuindo às suas propostas, confirmar os decretos do Supremo Congresso, dar amnistias quando eles quisessem, e acrescentaste mais "O Rei é inviolável" e à sombra da frondosa Árvore da Liberdade, gozaria sem cuidados nem sustos da paz de espírito, da tranquilidade d’alma, e como primeiro Magistrado da Nação teria ocasião de fazer muita gente feliz, que bem-dissesse o seu nome, chamando-lhe o Pai da Pátria; mas em lugar destas venturas, tu lhe deste a provar do amargoso cálice dos desgostos, semente da discórdia no meio da Família, armaste o braço Paterno contra o Filho Inocente, e a Esposa Carinhosa, atormentaste a seu espírito com revoluções imaginarias, e sonhadas conspirações, e quando pensaste, que era muito tempo de pôr à luz do dia aquele negocio, que há muito marchava nas trevas, descarregaste o ultimo golpe sobre uma vítima, que tantos perdões e amnistias tinha concedido! ... E então disseste "consumou-se a ventura de Portugal". As tuas promessas são semelhantes às da Serpente, que tentou os nossos Pais no Paraíso: "no dia em que comerdes da Árvore da Ciência do bem, e do mal, sereis como outros tantos Deuses, eritis sicut Dii"; mas qual foi o seu fruto?! A privação dos bens que possuíam, a desgraça, e a morte: assim tu seduzes os Povos "no dia em que comerdes o fruto da Revolução sereis outros tantos Deuses, independentes, absolutos, sábios, ilustrados, nobres, ricos, opulentos, a ninguém subordinados, mandando a todos, eritis sicut Dii!!" Mas apenas os Povos engolem o primeiro pomo de semelhante árvore, lá se vai o paraíso de delicias, que gozavam, desaparecem os bens, chovem os males, e a nudez bem depressa substitui o lugar da opulência!... Felicidade!! Na boca dos Revolucionários é o mesmo que paraíso na boca do Diabo. E ainda te atreves, fantasma ilusório, depois de proscrito, odiado, e anatematisado pela maioria da Nação Portuguesa, a assomar-te ao seu horizonte?! Embora te apresentes ornado com vestes imperiais, roçagantes, e qual outra Astrea, trazendo-nos a ventura, a paz, e fazendo reviver o reino de Saturno; não, tu não iludirás os Portugueses, demasiado conhecem eles as estranhas de tigre, e as garras de leão, que ocultas:  embora te apresentes com aspecto medonho e sanhudo, e qual outro Golas saias ao campo para insultar este segundo Israel de Deus, cá haverá um David, que só com tiro de funda te derrubará por terra...) D. Tr.

(continuação, III parte)

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