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15/02/16

O REI E O PAI (IV)

Monsanto - Portugal
(continuação da III parte)

& 33

Feliz a Nação, que não ignorando os seus direitos tão autorizados, jura obediência aos seu Rei, e o alivia do peso enorme dum governo absoluto, como acontece ao Pai, que tem filhos discretos, e bem governados. Feliz a Nação, que jura obediência a uma Religião Santa, e às Leis fundadas em justiça e caridade; recompilação perfeita de todos os preceitos da Lei escrita, e da Lei da graça: obra imortal, de que só um Deus podia ser o Autor, a quem só pertence a regeneração dos homens, que ele criou para si, como centro da imortalidade.

& 34

É mais visível o merecimento humano nos conflitos da desgraça, que nos afagos da Fortuna. Uma Nação sobressaltada, que por impulsos da intriga mais dextra, e mais capciosa, e iníqua vai abismar-se, e que por movimentos de honra, e heroísmo espontâneo retrocede, e se salva do precipício, ombreia com as mais poderosas Nações do mundo; resistir às paixões, é o maior triunfo; esmagar a cabeça do Dragão, é a maior proeza.

& 35

Procedimento tão exemplar resolve dúvidas, e sufoca temores: com menos façanhas se fundaram Impérios, e com menos títulos se erigiram Padrões à Lealdade. Trabalho assíduo, sofrimentos pasmoso, privações incríveis para guardar um Reino à competente Dinastia, é um esforço de amor, que talvez não tenha exemplo na história; embainharam-se as espadas por preceito do Soberano até contra os inimigos: mas acrescentou-se a defesa com a fidelidade dos ânimos, que ainda preservaram com uma constância inimitável.

& 36

Não é um feudo violento: não é uma herança absoluta, e viciosa: não é um património ilimitado; e extorquido, que os Pais de famílias reservam para o seu chefe; é um donativo mais precioso: é um depósito mais sagrado, um penhor mais seguro, para firmar os direitos da Soberania, abalados, e ofendidos pela ausência, pela distância; e pela desconfiança, que reciprocamente suscita ciumes, entre os mesmos Irmãos: mas sem inversão dos direitos da Natureza, radicados no coração dos bons Súbditos.

& 37

Quando uma Nação [Pátria] se disputa maiores rasgos de patriotismo, ilesa será sempre a Pátria, e se não acrescentar terreno, levantará muralhas indestrutível, e inconquistável, com melhor sorte, que as Repúblicas antigas, corrompidas pela ambição, pelo luxo, pela sensualidade, e por aquela força destrutiva, que caracteriza melhor, que tudo, as coisas humanas.

& 38

Renovam-se os tempos dos milagres; uma Nação aflita, e perturbada por opiniões vagas, empobrecida por acontecimento, imprevisto, magoada pelos gemidos da pobreza, e pelos suspiros da orfandade, cai em convulsão; e nos transportes de sua agitação violenta, três ou quatro homens invocam o Deus dos Exércitos, clamam, oh Rei! oh Pátria!Retumba em todos os horizontes esta voz sagrada, e se repetem iguais clamores, que se ouvirão no Céu; desce portanto a Paz, que tudo cura, e tudo reanima.

& 39

Se isto não é milagre, invente-se outra palavra para explicar um acontecimento tão extraordinário, que não pode ter outra origem, que o poder de Deus. O segundo ainda parece mais transcendente da compreensão humana; porque o mesmo Entre, que se precipita, é o mesmo que se levanta, depois de abismado nos horrores da Anarquia.

& 40

Que outra palavra, além de milagre, compete à deposição dos Depositários Nacionais do poder supremo! E que admirável resultado! Aparecessem restituídos, quase no mesmo instante, em que foram depostos: é verdade, que se viu o Povo levá-los em triunfo ao Capitólio; mas quem incitou aquele Povo? Ainda se ignora, a não ser a nova graça, com que Deus ilustrou uma Nação [Pátria] privilegiada.

& 41

Não será milagre; mas qualquer outra palavra, com que se explique o motivo de tão extraordinário acontecimento, sempre há-de indicar, que os princípios motores são Divinos; está portanto meio caminho andado para uma regeneração política, advertindo-se porém, que ela é inseparável da regeneração moral. Imoralidade é a causa principal de todos os males Nacionais [Pátrios].

& 42

A desobediência à primeira Lei, despiu o homem das ricas vestes da graça, e mal coberto para esconder sua vergonha, e seu crime, apesar de seu arrependimento, contagiou sua decência, vindo a ser tão imortal, que se Deus fosse susceptível de pezares, ele se arrependeria de ter feito o homem livre.

& 43

Regenerou-se o homem, não pelas águas, em que foi submergido, mas pelas virtudes dos poucos justos, que escaparam ao naufrágio, autenticados pelos preceitos Noá[?]hicos, supostos por Grossio, e que são a mesma Lei natural, eterna, e imutável imposta a Adão, como parece muito racionávelmente ao imortal Coccei.

& 44

A imoralidade frustrou esta regeneração, e se Deus não prometesse, que nunca mais afogaria os homens, seriam tantos os dilúvios, como as tempestades; porque a Liberdade de que tanto se vangloria o ser humano, só lhe serve de pasto, e de estímulo para aniquilar-se.

& 45

É portanto muito dificultosa uma regeneração política, não sendo precedida de uma regeneração MORAL [o negrito é meu], sustentada pela força, que é o que significa o auxílio de braço secular prometido à Igreja: não se ofende a liberdade, quando se obriga o homem a fazer o que deve: este direito é o de Pai de famílias no estado primitivo, e bem se sabe, que os sacrifícios eram os mesmo em quanto ao objecto ou fossem bons, ou fossem maus os sacrificadores, donde se infere o poder paterno na direcção do culto ao Autor da natureza.

& 46

A liberdade tem um vasto campos, em que se exercita, e em que se empregou para recreio, e conservação do homem; tudo quanto se lhe proíbe em proveito seu, é tão precioso, e ainda mais que a mesma liberdade: o pomo proibido de Adão era nocivo à sua saúde, como se mostrou pela sua doença contagiosa, que ainda hoje se propaga por todos os seus descendentes.

& 47

O prazer mais lisonjeiro, e aprazível ao homem o deleita, e entristece; a posse de qualquer objecto, que lhe agrada o enfastia: geralmente se diz, que isto é uma desgraça, quando é a melhor fortuna. um ser limitado, rodando sempre em molas frágeis, há-de consumir-se: um espírito agrilhoado por impulsos, e cegos movimento da matéria, há de romper tão duro, e tão medonho cárcere, sublimando-se à força, ou à inércia da matéria.

N.B. No nº seguinte se darão as notícias políticas com a exposição dos sucessos presentes.

(a continuar)

07/01/16

O REI E O PAI (III)

(continuação da II parte)

§ 21

Que vergonha para os bons (...), ver (...) [o seu próprio Reino] dilacerado por intrigas, e inconsolável por suspeitas vagas contra o verdadeiro patriotismo! Que indignidade, dar princípio à mais importante regeneração Nacional, e confundi-la nos horrores da Anarquia! [nesta época, o autor ainda acreditava numa suposta regeneração para lá de uma simples correcção e aclaramento pontuais; eis a discreta influência do ambiente liberal sobre os próprios e declarados inimigos do liberalismo]

§ 22

Uma (...) [Pátria] significa o mesmo, que muitos Pais de famílias congregados a bem os seus domésticos por arbítrio espontâneo, como um chefe, simples depositário e executor dos direitos paternais: suponhamos que falece, ou é impedido nas suas funções o sumo Imperante; aquele direitos, como imprescriptíveis, tornam para as mãos, donde saíram: cada um pode separar-se da sociedade, a que pertencia, e habitar a terra, que não se achar ocupada, ou transigir com os seus possuidores.

§ 23

Tudo, que obsta a estes direitos, ofender a natureza, e resiste à Divindade, que criou o homem livre, e com a faculdade de ocupar todas as coisas, que não são possuídas "Res nullius" são todas as coisas criadas, antes de possuídas definição singular, que lhe deu o imortal Coecci, impugnada a preocupada opinião, que supôs tudo em comum: como se o ânimo de possuir fosse o mesmo, que o acto de ocupar.

§ 24

Pode o homem separar-se da sociedade, que o molesta injustamente; mas o monstro da Anarquia é tão bárbaro, que o impede, o por força há-de o homem sofrer os seus desvairos, e despotismos: eis a razão, porque de todos os males da sociedade o pior é a Anarquia, sendo antes preferível o sofrer um Nero, que os furores da populaça, mais cruel que todos os Tiranos.

§ 25

Eis a razão porque os espíritos fortes preferiram a vida selvagem à sociedade, e porque o grande Rousseau se precipitou no seu pacto social, fazendo proposições contra o bom senso e contra o estado actual da Europa: factos não induzem direitos: violências não provam razão: despotismos não alteram, nem revogam as Leis; recorra-se à natureza, e todas as dificuldades se aplanam, todas as dúvidas se resolvem: recorre-se à Natureza no seu estado primitivo, e a luz da verdade brilha a nossos olhos.

§ 26

O homem, ainda mesmo corrompido, conhece, que não é obra do acaso, e reconhecendo o seu autor, também reconhece dever-lhe obediência, e gratidão; isto basta para provar a existência de uma lei: e esta lei basta para provar a dignidade do homem superior a todos os animais; pois que não tem este conhecimento sublime, inspirado ao homem, como uma força centripeta, que o leva ao Céu.

§ 27

A ideia do Céu não é abstracta: o homem erigido do abatimento, em que nasce, olha para ele, e nas suas aflições não busca outro recurso; não é o encanto dos Astros, que o eleva, não é a formosura de um tecto abrilhantado, que o atrai, é a luz da razão, que lhe diz "A morada do teu Criador enche o Universo imenso, e infinito, e tu existes debaixo dos seus pés" é portanto mui natural, que o homem veja a terra como lugar de suplício, ou de experiência.

§ 28

Vê o homem os seus semelhantes sem rivalidade, em quanto não divisa a proferência; porém a gentileza, a robustez, a vivacidade de alguns homens, que lhe fazem sombra: entristece-se, e se vê, que lhe preferem por mais estimados, rebenta o ciume, que produz a guerra e a morte; assim pereceram nosso primeiro Progenitores, como Abel, cuja lembrança era bastante para desterrar nossa soberba.

§ 29

O Pai é o Rei, o Sacerdote, o legislador da sua família e para cumprir melhor estes direitos, umas vezes se associou a outros chefes de famílias, outras vezes se separou, como se prova pela exemplo dos Patriarcas; se cabiam no país, que habitavam, durava a união; senão cabiam, separavam-se para a direita, e para a esquerda por uma escolha amigável, que faz saudosos aqueles tempos de inocência, em que viviam ornados de virtudes, homens desclaços, e só cobertos de lã, e peles.

§ 30

Fundaram-se Pagos segundo a frase de Aristóteles, e até aqui temos por Fundadora a Natureza: edificaram-se Cidades, e se todas foram como as de Nembroth e Rómulo, são suspeitosas suas origens: mas de qualquer maneira consideradas, os Pais de famílias não perderam os seus direitos; seriam estes apenas estorvados pelo abuso, e pela violência, mas nunca extintos: por serem divinos, e sempre inseparáveis, da natureza do homem.

§ 31

O ser humano, não pode privar-se da vida, e da liberdade justa; porque a sua existência, essencialmente requer uma, e outra coisa; pode assim perder o direito a conservá-las, como diz Filangieri; mas os Réus contritos, arrependidos, e penitenciados voluntários recuperam os direitos da vida, e da liberdade; é portanto que a Igreja sempre advogou a sua Causa para livrá-los da pena de sangue; o que seria absurdo, se a Natureza o proibisse.

§ 32

Os direitos dos Pais de famílias são muito respeitáveis: David os reconheceu no segundo Salmo, quando lhes manda quebrar as cadeias da tirania, e sacudir o jugo da opressão: até lhes prometer que Deus zombará dos tiranos, e fará seu filho senhor absoluto de toda a terra, para governá-los com uma vara de ferro, e quebrá-los como vasos de barro.

(continuação, IV parte)

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