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14/07/16

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 31 (I)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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Nº. 31
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Ostendam gentibus nuditatem tuam

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O Axioma dos Pedreiros, Ou o Povo Soberano

Pois também eu, rançoso Teólogo, ousarei profanar o santuário impenetrável das Questões Políticas! Não admira, porque sou membro de uma Faculdade, que no sentir do Jurisperito de Setúbal foi sempre avessa de Ideias Liberais; e quando eu me pretendesse justificar da nota de ousadia, que fácil empresa tomava, se folheando o repertório geral das Sandices, fosse dar com a extraordinária, e verdadeiramente feia asserção de um soldado, que por ignorar o Direito Canónico, se julgou hábil para dissertar sobre matérias Eclesiásticas!! Pois eu não terei a mesma autoridade para me introduzir onde me não chamam, qual tiveram esses Mordomos por devoção, que se apelidaram Línguas da Magistratura, da Nobreza, do Comércio, do Corpo Militar, e do próprio Clero!! Não, Senhor, eu tenho mais jus de tratar a questão do que os tais enxertados Procuradores de quem não sabia de tal honra. A questão do Povo Soberano é mais que política; é também religiosa, e como tal foi tratada há mais de cem anos pelo maior dos Teólogos modernos. Este Sansão literário, antes de existirem Rousseau, Pradt, e Constants, deu com todos os sofismas destes heróis em terra; e faz dó que o género humano fechasse os olhos à bemfazeja luz, que desde o século XVII começava a apontar-lhe a verdadeira origem de seus males presentes e futuros [portanto, andam descuidados aqueles que nestes séculos só olharam o que disseram e fizeram os desencaminhados, e não ouvem o que foi dito pelos ortodoxos da época, preferindo recorrer aos ortodoxos incompletos muito posteriores]. Ora pois esta questão de alto cothurno há de ser tratada com vagar e madureza, como está pedindo a sua incontestável gravidade, pois uma vez que se cortem as verdadeiras raízes da árvore da liberdade, que remédio terá esta pobre senão esmorecer, definhar-se, e secar de todo? Começarei por alguns preliminares da questão, bem entendido que eu não falo a homens perversos e obdurados, falo somente aos que se deixaram iludir e arrastar daquela verdadinha, e que por felicidade são ainda Católicos.


Primeira proposição

"O respeito, a fidelidade, e a obediência que se devem aos Reis nunca se devem alterar por motivo nenhum." Quer isto dizer que se devem respeitar e servir constantemente, sejam eles como forem, bons ou maus. "Obedecei a vossos senhores, não somente quando eles são bons e moderados, mas também quando são ásperos e desabridos." (Epístola II de S. Pedro cap. 2, v. 18)

Periga o Estado, e o sossego público não tem nada de firme, se é permitido fazer levantamentos, por qualquer motivo que seja, contra os Príncipes.

A sagrada Unção está sobre eles, e o alto Ministério, que eles exercitam em nome de Deus, os preserva de todo o insulto.

Achamos David não só refusando atentar contra a vida de Saúl, mas tremendo por se ter atrevido a cortar-lhe a ponta do seu vestido, ainda que isto fosse para bom fim. "Deus me livre de eu levantar a minha mão contra o Unigénito do Senhor, e o coração de David ficou magoado, porque tinha cortado a ponta da cota d'armas de Saúl." (I Reis, c. 24, v. 6,7)

As palavras de Sto. Agostinho sobre esta passagem são notáveis. "Vós me argumentais (diz ele a Petiliano, Bispo Donatista) que aquele que não é inocente, não pode ter santidade; eu vos pergunto: se o Rei Saul não tinha a santidade do seu Sacramento e da Unção Real, que é o que causava nele veneração a David? Foi por causa desta Unção santa e sagrada que o honrou durante a vida; e lhe vingou a sua morte. E seu coração magoado tremeu, quando ele cortou a ponta do vestido deste Rei injusto. Estais vendo pois que Saúl, apesar de não ter inocência, não deixava de ter santidade, não a santidade de costumes, porém a santidade do Sacramento divino, que é santo ainda nos homens de maus costumes." (L. 2 Lit. 148 contra Petil.)

Chama-lhe Sacramento de Unção Real, ou porque ele dá este nome a todas as cerimónias sagradas, como é uso de todos os Padres, ou porque em particular a Unção Real dos Reis no povo antigo era um sinal sagrado instituído por Deus, para os fazer capazes do seu cargo, e para figurar a própria Unção de Jesus Cristo.

O que é todavia de mais importante é que Sto. Agostinho reconhece, fundando-se na Escritura, uma santidade inerente ao Carácter Real, que não pode ser apagado por algum crime.

Foi, diz ele, esta santidade, a que David, injustamente perseguido de morte por Saúl, David sagrado para lhe suceder, assim mesmo respeitou em um Príncipe reprovado por Deus, porque ele sabia que só tocava a Deus fazer justiça nos Príncipes, e aos homens o respeitarem o Príncipe, em quanto Deus o quiser conservar.

Por isso nós vemos que Samuel, depois de ter declarado a Saúl que Deus o tinha rejeitado, não deixa de o venerar. Disse-lhe Saúl: "Eu fiz mal; rogo-te porém que tomes sobre ti o meu pecado, e vás comigo para adorarmos o Senhor." Samuel lhe respondeu: "Eu não irei contigo porque rejeitaste a palavra do Senhor, e o Senhor também te há rejeitado, para que não sejas Rei de Israel. Samuel voltou as costas para se retirar, e Saúl pegou-lhe pela ponta do manto, que se rasgou. Samuel lhe disse "O Senhor separou de ti o Reino de Israel, e o deu ao teu próximo, que é melhor do que tu. Deus, poderoso e vitorioso, não se há de desdizer nunca, pois não é como um homem para se arrepender dos seus desígnios." Respondeu Saúl: "Pequei, honrai-me porém disante dos Anciãos do meu povo, e diante de todo o Israel, e voltai comigo, a fim de que eu adore o Senhor teu Deus." (I Reis, c. 15 v. 24 a 31)

Não se pode dizer mais claramente a um Príncipe que está reprovado; mas Samuel por fim se deixa comover, e consente em honrar Saúl diante dos Grandes, e diante dos povo, mostrando-nos por este exemplo que o bem público não permite que se exponha um Soberano ao desprezo.

Roboão trata muito mal o povo; e contudo a revolta de Jeroboão, e das dez tribos que o seguiram, ainda que permitida por Deus em castigo dos pecados de Salomão, não deixa de ser detestada em toda a Escritura, onde se declara: "Que voltando-se contra a casa de David, eles se revoltavam contra o Reino do Senhor, que ele possui pelos descendentes de David." ( II [?] c. 13, v. 5 a 8)

Todos os Profetas que viveram no governo dos maus Reis, Elias, Eliseu no tempo de Acab, e Jesabel em Israel; Isaias no tempo de Acaz, e Manessés; Jeremias no tempo de Joaquim, de Jeconias, e de Sedecias; numa palavra todos os Profetas no governo de tantos Reis ímpios e malvados, nunca falharam na obediência, nem inspiraram à rebelia, mas sempre à submissão e respeito.

Ouvimos Jeremias, depois da ruína de Jerusalém, e da total ruína do trono dos Reis de Judá, falar ainda com um profundo respeito de seu Rei Sedecias: "O Ungido do Senhor, que nós considerávamos como se fosse nossa própria respiração, foi prezo, por nossos pecados, quando nós lhe dizíamos: Viveremos à vossa sombra entre os gentios." (Lament. c. 4, v. 20)

Os bons vassalos não se julgavam dispensados do respeito que deviam ao seu Rei, nem depois que o seu Reino estava destruído, e que ele próprio foi levado cativo com todo o seu povo. Respeitavam ali nos ferros, e depois da queda do trono, o carácter sagrado da autoridade Real.

(a continuar)

22/06/16

CONTRA-MINA Nº 40: A Estátua da Fé (a)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 40
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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A Estátua da Fé

Não tem os Demónios do Inferno mais aversão, e horror ao sinal da Cruz, do que os Pedreiros Livres deste Reino aos dois "I. J." vogal, e consonante. E que mistério se envolverá debaixo destas duas letras do Alfabeto, que possa atemorizar peitos destemidos, e afrontadores de toda a sorte de contradições, e de tormentas? Um "J" consonante é inicial de certo nome, que passava neste Reino por injuriosíssimo; e este nome era o de Judeu, que ainda sem ter havido o grande esforço, que houve, para se lhe tirar neste Reino, pelo menos, alguma parte do que nele era mais odioso, já se teria verificado em nossos dias, em que o afrontado nome de Judeus, perdendo 50% da sua natural enormidade, arreasse bandeira diante do nome de Pedreiro Livre; e com efeito, chamando-se a um homem Pedreiro Livre toca-se o último ápice da injúria; e se no entender do Príncipe da Eloquência Romana faltavam a esta as devidas expressões, que designassem a torpeza de um atentado, que era "Crucificar um Cidadão Romano" também cá em meu tão pobre, como fraco entender, quanto disseram os nossos antepassados, até das Cadeiras da verdade, sobre o epíteto "Judeu" pareceria facilmente um elogio quando nos lembrássemos de o recomendar aos Pedreiros Livres. Não tem pois a Língua Portuguesa cores assaz negras, com que pinte uma classe de animais, incógnita neste Reino até 1750, e que de então para cá nos tem feito maiores estragos, do que fez a invasão de Átila nos diferentes Estados da Itália, nos princípios do quinto século da Igreja. Disse que pareceria facilmente um elogio, porque dizer hoje aos Pedreiros Livres deste Reino, que elas acreditem a Divina Legação de Moisés, e que só pela mais cega de todas as pertinácias deixem de acreditar a outra Divina Legação mais sublime, e autorizada, qual é o próprio Filho de Deus, que outra coisa era se não dizer-lhes, que acreditavam uma parte da Revelação, desdenhando, e rejeitando outra? E não seria isto fazer-lhes um desmesurado elogio? Um Pedreiro Livre, merecedor desta, no seu conceito, honrosíssima qualificação, despreza tudo quanto lhe cheire a sobrenatural, e Divino, até o nome Revelação lhe faz nojo; não admite senão uma coisa vaga, a que ele chama natureza, tudo o mais lhe parece um refinado servilismo intelectual, que se deve eliminar para sempre da face da terra.... Ora desempate-nos já, Senhor Contra-Mineiro, que temos mais que fazer, e diga-nos por uma vez, que nome é esse começado por "J" que faz medo aos Pedreiros Livres deste Reino? Ainda que por esta impaciência, como que me deitaram água na fervura, quando eu estava para lhe referir uma história galante de um Judeu Português, que no séc. XVIII deu novo ser às próprias Lojas Maçónicas de França.... que para tudo há homens em Portugal!!... não há outro remédio senão contentar o Povo.... Esse nome, que faz arrepiar os cabelos, e gelar todo o sangue aos Pedreiros, é o nome "Jesuíta" para o que bastaria entrar na sua composição o Santíssimo, e por extremo adorável nome de Jesus; porém acrescem outras razões ponderosíssimas, e gravíssimas, por que este nome se faz insuportável, e até impronunciável a um Pedreiro Livre. Pois que mal faz aos Pedreiros Livres uma Sociedade de homens, qual é a dos Jesuítas, que toda se emprega em assuntos de caridade, ora educando os Meninos, ora chamando os Selvagens ao próprio ser humano. Nestes "oras" é que se encerra a verdadeira água tofana, que mata os Pedreiros Livres, e por isso eles não podem levar à paciência, que se instaure em qualquer Estado Católico uma Ordem Religiosa, que tanto custou a derrubar, sendo necessário, que três numerosíssimas Legiões de Demónios combinassem os seus esforços, para que fosse abatida uma coluna da Fé, e a principal dos Tronos da Europa.... Visto isso não há neste mundo senão Jesuítas, que possam educar a mocidade, e tudo o mais é ocioso, e inútil na Igreja de Deus! Tal não digo, nem direi nunca; mas direi, e clamarei, sendo necessário, que a esta Ordem, tão célebre pelos seus grandes serviços, como pelos seus grandes desastres, foi concedida uma graça, e vocação especial para certos fins, que até para castigo das gerações humanas foi subtraída a outras normas de ensino público, que sucedeu progressivamente umas a outras, sem nunca pararem, nem aquietarem, deram a conhecer todos os dias as sua insuficiência, e nulidade.... O caso é este, e não é difícil pôr em toda a luz a mira principal dos Pedreiros Livres... Porque aborrecem eles figadalmente os Jesuítas, que nem escudados pelo Nome, e Protecção a mais Augusta podem escapar à virulência de suas peçonhentas línguas? Porque uma vez que se lhes entregue a educação da Mocidade Portuguesa, adeus esperança de inocular, ou enxertar o Maçonismo nos Colégios, onde até agora se fizeram abundantíssimas colheitas; adeus esperanças de se plantarem, e arraigarem nos corações ternos, para nunca mais saírem deles, as Ideias Liberais. Que será do género humano se perecerem as ideias Liberais? Até aqui, por mais activas que fossem as diligências do Governo, para que se limpassem as Escolas, já de Mestres Pedreiros, já de Doutrinas Maçónicas, tivemos quase sempre a fortuna de vermos empoleirados alguns dos nossos, que, por baixo de mão, nos ofereciam a sua para nos resgatarem da opressão, e do abatimento.... Quantas vezes conseguimos intermear de Católicos, e Pedreiros as funções do Magistério... Quantas vezes alcançámos introduzir no Magistério da primeira infância homens provados, e de nossa escolha, que havia muitos anos eram recrutadores para a Seita, e que a tinham enriquecido de centenares de ilustres mancebos? Não tivemos nós um Aristides encarregado de instruir, ainda mais no Sistema Constitucional, do que nos princípios da Latinidade, um crescido número de jovens, que até em seus temas semanais bebiam a longos sorvos as Ideias Liberais? E não tivemos nós a fortuna, ainda maior, de contarmos um Frade Preceptor, e Educador Público, que não exortava aos seus Discípulos outra lição, que não fosse Rousseau, de Voltaire, e do Barão de Holbach, e de outros da mesma farinha? Ora vão lá esperar, que um Frade Jesuíta se preste a obrar por nós tamanho sacrifício...... Poder-se-hão contar vinte e depois Jesuítas, que na primeira Revolução Francesa deram a vida por Jesus Cristo, porém não se conta um só Jesuíta Pedreiro!!! Ideia por certo a mais desalentadora para quem se interessa no bem estar dos homens, na queda ruidosa dos Tronos, e na total extinção do Cristianismo.... Aqui temos pois o cardo rei, e como a peanha, em que assenta o figadal, e mais que vaticiano ódio aos Jesuítas, que é soprado constantemente dos Infernos, que bramem de que lhes possa escapar uma geração nova, que só teria de beber em charcos imundos, caso triunfasse a Constituição de 1826.



Mas que é feito da Estátua da Fé, ou que ligação pode ter o caso dos Jesuítas com a Estátua da Fé, que é o indicado, e prometido sujeito deste Número?... Valha-me Deus! Aí tornam a quebrar o fio das minhas ideias, e no melhor da festa, quando eu me enfeitava para perguntar aos Sabichões deste Reino, (que são exclusivamente, e como de juro, e herdade os Jansenistas) se por acaso seria possível, que escapasse aos Mestres Jesuítas uma História de Filosofia, uma Ética do Protestante Heinécio, que tantas vezes se tem impresso neste Reino, e a segunda até em linguagem [português], onde aparecem erros monstruósos, e formais heresias? Porém não tenho remédio senão fazer a vontade aos Leitores Portugueses, e Cristãos, cuja impaciência é agora muito, e muito de louvar, porque talvez já estivessem receosos, de que até em meus Escritos padecesse a Estátua da Fé algum sumiço, que rivalizasse com o próprio, que lhe deram os Pedreiros em 1823... Ódio aos Jesuítas é ódio formal à propagação da Fé, e dos bons princípios Religiosos; e onde quer que lance profundas raízes este ódio, seguir-se há necessariamente o ódio a todos os Símbolos, a todos os Emblemas, e a todas as Figuras, que de algum modo a façam lembrar. Suponhamos, que em todo este Reino se procedia a uma cotação geral sobre estes dois pontos:

1º Deverá levantar-se, e repor-se no seu antigo pedestal a Estátua da Fé?
2º Deverão reestabelecer-se os Jesuítas em Portugal?

Sairão estas duas votações uniformes, ou quase uniformes. Dois milhões, ou a grande maioria dos Portugueses a favor; e o resto, e bem resto contra; e por isso, no meu entender, o objecto da renovação dos Jesuítas, para assim o dizer, compenetra-se com o da Estátua da Fé, para o que me ocorrem certas analogias, que me cumpre tocar, e aproveitar.

Há mais de dois anos, que os Jesuítas foram chamados a Portugal, por Quem tinha sobeja autoridade para dispensar todas as formas, e certas legalidades, com que os Sabichões, ou Jansenistas nos fazem tanta bulha, e nos matam o bichinho do ouvido. Simulam, ou fingem o mais vivo interesse por eles, os que mais entranhadamente aborrecem o seu Instituto; e pode ser, que mostrem cá por fora os mais ardentes, e empenhados, porque se execute a vontade do Soberano, esses próprios, que ocultamente lhes promovem o descrédito, e lhes empecem um asilo, onde mostrem ser, que são ainda uma Comunidade Religiosa. O certo é, que depois de vaguearem por muitos domicílios, conseguem, e não foi sem mistério, um Coleginho, onde existem restirados, e ainda como feridos da antiga maldição, e sem ousarem dizer, ou proferir, o que são actualmente nestes Reinos... Mas que disse eu, movido de uma temerária impaciência de ver os Jesuítas geralmente acatados, e respeitados.... Porventura não são eles já o melhor, que podiam ser, porque são tudo, o que deles queria dispor o mui Alto e mui Religioso Soberano, que já honrou com a sua presença, e com as mais edificantes provas do seu afecto, e cordial interesse pela Santa Religião dos nossos Maiores, a sua nova residência, que foi o berço dos Jesuítas em Portugal? Estão abraçados com o Trono Português, e caindo este, (o que Deus nem por longe mostra querer, antes bem de perto, e como que pelos olhos nos mete o contrário) cairá necessariamente a Fé nestes Reinos. Caindo a Fé, como que se executa neste Reino antecipadamente o Juízo Universal, e os Jesuítas hão de ter um sem número de companheiros, quer seja na morte, quer seja na fugida....

Mui parecidos com este destino dos Jesuítas hão sido os destinos da Estátua da Fé. Grande, e por certo nunca visto, e que parece impróprio de almas grandes é o modo, que os Pedreiros Livres têm à Estátua da Fé.... Se fosse alguma Estátua de Vénus, a mais lúbrica, que adornasse o frontispício de algum Palácio, nem se quer lhes passaria pela imaginação os fazerem-na apiar. Os homens tinha bôjo para causas ainda maiores, como de feito eles tiveram para o transporte, mutilação, e profanação das Imagens dos Santos... porém Estátua da Fé, nem sonhada! A totalidade dos ilustres Preopinantes tinha mais, ou menos com a Estátua da Fé, que lhe desse muito que recear, e que entender. Uns tinham aprendido nos Livros Elementares da universidade de Coimbra, que a Inquisição se devia extinguir, como aposta, que diziam ser, ao espírito de mansidão, que prevalece no Evangelho; e quando já no presente século se adoptou para texto das Prelecções de História Ecclesiástica um novo Compêndio, aí se propinou logo aos Estudantes do primeiro ano Teológico a venenosa frase "O Tribunal horrendo da Inquisição"; outros, e não poucos tinham aparecido nos bancos do Tribunal, dando razão da sua Fé, e explicando-se sobre várias proposições, mais que suspeitas, que lhes tinham escorregado imprevistamente do coração para fora, e não queriam passar outra vez por outra surra do mesmo jaez.... Outros finalmente deram as mãos a estes inimigos da Fé, talvez por julgarem ociosa, e inútil de todo a peleja; porém destes é que eu sempre me queixarei ainda mais amargamente, que dos primeiros, e segundos. Pois há de haver em Portugal um chamado Congresso, (que duvido fosse pior sendo composto de Demónios) há de propor-se a abolição de um Tribunal erecto por Autoridade Apostólica, e aprovado legalmente pelos Senhores Reis de Portugal... dizem à boca cheia os Membros deste Congresso, que são Católicos, que o seu Rei verdadeiro, e Legítimo, é o Senhor D. João VI; há entre os Membros do Congresso muitos Bispos, e muitos Sacerdotes, e depois dos mais caluniosos, e falsos relatórios, que nunca se ouviram neste mundo, bastou a autoridade de um leigo, e bem leigo em tais matérias, e que foi sustido do célebre Inquisidor Castelo-Branco, para que não faltasse nesta Cena, mais que trágica, o decantado - (Tu quoque Brute) e seguiu-se em continente, por unanimidade de votos, a extinção do Tribunal do Santo Ofício!!! Moura ou Argelina foi a decisão de um Califa, que se podia chamar Abukeker, depois do Maomé Fernandes, e que reprovou afinal a Inquisição, por ser uma coisa inútil! Outros que tal conceito haviam merecido ao furibundo sequaz de Mafoma [Maomé] os numerosos Livros da Biblioteca da Alexandria; e bom é que notemos de passagem estes pontos da semelhança entre os Sarracenos do séc. VI, e os do séc. XIX. Inútil chamavam, (e nesse ponto eram coerentes) chamavam, digo, um Tribunal, que o era com efeito para os adiantamentos da Maçonaria, pois em tudo quanto respeita à Venerável Ordem é precioso, que nos sirva como de farol esta observação, tirada como das próprias entranhas do primordial, e nunca desmentido Regimento da Seita. O mundo só é feito para o gozarem plena, franca, e ilimitadamente os Pedreiros Livres. Os que o não forem, isto é, os Profanos, são todos uns Idiotas, uns escravos. Nós, dizem eles à boca cheia, nós é que somos talhados para o governo; tudo quanto se fizer, ou dispuser sem o nosso influxo é ocioso, é inútil, e até prejudicial ao género humano; somos nós, e somente nós a medida do bem, e do mal, e o verdadeiro contraste das acções, que só da sua maior, ou menor tendência para os fins da Seita, é que podem tirar a sua verdadeira moralidade. Toda a hora, todo o posto Militar, toda a autoridade Civil, toda e qualquer dignidade, que se confira a um dos não iniciados na nova Eleusis, está fora do seu lugar, e parece estar gritando por seu dono, isto é, por algum Pedreiro, que as ocupe, e que as desempenhe. Quando exaltamos o bem desta, ou daquela Instituição só temos em vista os progressos da Maçonaria. Liberdade de Imprensa quer dizer, Liberdade somente para nós; que se algum profano tiver a ousadia de querer atribuir a si este nosso inauferível privilégio, e armando-se com ele tentar descobrir os pés de barro, ou as misérias do nosso Grão Mestre, ou Nabuco, será acusado, preso, e posto a tormento, por abusar da Liberdade de Imprensa; que se fosse dos nossos, ainda que blasfemasse de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou canonizasse o próprio adultério, chamando-lhe virtude, ou menoscabasse as mais insignes virtudes Cristãs, havia de conseguir um passe, uma inteira absolvição; e para que nenhum dos meus leitores, ou por esquecido, ou por minimamente favorável ao seu Próximo, entre em alguma suspeita, de que estou a fazer arguições temerárias, e infundadas, aí tem nos Diários do Governo plenamente justificado, e absolvido o Autor do Retrato de Vénus, e lá mesmo encontrará, que os ilustres Jurados de Lisboa eram sobremaneira escrupulosos, e inexoráveis, contra quem havia dado a entender, que o Patriarca da regeneração já se esquecia do tempo, em que fora Sopista dos Frades, a quem nesse tempo (1822) fazia a mais crua guerra.

(continuação, parte b)

13/04/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº1 (VI)

(continuação da V parte)


FLOREAL, FRUCTIDOR, etc. – A confusão da língua tem chegado ao ponto de não se entenderem os mesmos Revolucionários Republicanos no modo de contar os tempos. Sem dúvida a causa desta obscuridade e confusão foi o gostinho, que tomaram ao setembrizar, e que os excitou a setembrizar todo o ano, meses e semanas. Suas verdadeiras vistas, sem embargo, são setembrizar a Religião e suas Festas.

MUNICIPALIDADE – Segundo o puríssimo anagrama quer dizer: Capi mal uniti, cabeças mal unidas. Como quer que seja, ou o anagrama tenha sido formado do vocábulo, ou este do anagrama, o certo é que a Europa não há visto outras Municipalidades que capi mal uniti, cabeças mal unidas, e unidas para o mal. Para que se veja que nem ainda a etimologia dos vocábulos republicanos se deve desprezar.

ORGANIZAR – Significa roubar por princípios, e dispor uma Nação para que seja saqueada com o método.

(* Bem organizado foi o nosso Portugal com acréscimo espantoso da divida publica; com os Títulos desta divida, que na mente dos Regeneradores foram preparados para com eles se comprarem os bens dos Frades, que bem depressa iriam à praça, porque eram bens da Nação; e comprados com estes Títulos, ficavam os Frades sem propriedades, o Estado sem dinheiro, e eles senhores de tudo sem nada lhes custarem, ou uma ridicularia, que era a quinta parte do seu valor. Bem organizado ficou o nosso Portugal com dois empréstimos consideráveis, cujos resultados são diminuir consideravelmente os rendimentos do Erário, que se aplicam para a quinta Caixa. Isto é organizar, segundo a linguagem republicana: bela organização!... Quem os não conhecer que os compre.) D. Tr.

Jacobinos
JACOBINO - Vocábulo enérgico, que significa o mais esquisito dos termos, ateu, ladrão, libertino, traidor, cruel, rebelde, regicida, opressor, e revolucionário endiabrado. De maneira que ele só sobrepuja a quanto até aqui se tem visto de ímpio, e de malvado. As Repúblicas Filosofico-Democráticas devem sua origem a estes ilustres fundadores, que podem ser considerados como seus Platões, Solões, e Licurgos. Os Rousseaus, D'Alembert, e Raynal não deram senão os borradores, do que os Jacobinos têm sabido perfeitamente pôr em limpo. Alguma coisa fizeram aquele na especulativa; porém a glória da execução deve-se completamente a estes. Agora já se lamentam os Jacobinos (e creio que com muita razão) da ingratidão republicana, porque depois de terem eles, com tanto suor próprio, e sangue alheio, fundado, e estabelecido as Repúblicas Democráticas, não têm recebido de seus ingratos filhos outro prémio que perseguições, e ódios, chegando ao excesso de arrastarem muitos à guilhotina em recompensa de seu exaltado zelo patriótico. Porém que outro prémio podiam esperar? Porventura não sabem os Jacobinos que as víboras não parem senão viborices, cuja inclinação natural é despedaçar as entranhas de suas mães?! Com que; tenham paciência, porque as lamentações contra a Natureza são inúteis.

FRATERNIZAR: AMOR FRATERNO, ABRAÇOS FRATERNOS, ÓSCULOS FRATERNOS, etc. - A verdadeira, genuína, e autêntica explicação destes termos antonomásticos, genuína, e autêntica explicação destes termos antonomásticos foi dada no dia 18 de Março de 1794 na Convenção Nacional. O Club dos Cordilheiros estava em rotura com os Jacobinos; mandaram estes uma Deputação para concertar o negócio; convieram os Cordilheiros: Fraternizou-se, houve uma inundação de beijos, e de abraços fraternos: no dia seguinte foram presos os chefes dos Cordilheiros, e guilhotinados prontamente. Maravilhado disto um que não entendia a língua, perguntou: como é isto?! Ontem beijos, e abraços, e hoje guilhotina!!.. Mas respondeu-se-lhe concisamente: este é o verdadeiro fraternizar. Hoje beijos, e abraços, e amanhã um punhal, que te vare o coração. Oh! quão fraternalmente beijada, e abraçada tem sido a desventurada Itália!

(* Um facto semelhante a este foi a rotura, que houve em Lisboa, entre a Loja do Grande Oriente, e a da Regeneração, cujo Manifesto corre impresso; e um monumento é este não só da existência dos Mações reunidos, e arregimentados obrando debaixo de plano, mas de que são eles os únicos autores, mestres, e directores de todas as nossas desgraças.... o que só faltou em Lisboa para se copiar o modelo de Paris foi a guilhotina; mas não tardaria este flagelo de humanidade para acabar de fraternizar a nossa desventurada Lusitânia, se acaso a Providência não tivesse marcado os limites à Revolução, além dos quais lhe não seria lícito avançar os seus passos, e se lhe não tivesse intimado, como no começo dos dias ordenou às tumultuosas ondas do Oceano: Usque huc venies, et non procedes amplius. Viva Deus, que suscitou o Nosso Amado Soberano o Senhor D. MIGUEL I para ser a confusão dos Mações, o terror da impiedade, o vingador da Justiça, o defensor da Religião, o Modelo dos Reis, o Pai dos seus Povos, e um Novo David, a cujos pés caiu rendido o soberbo Golias Revolucionário, e que saberá ainda vencer as maquinações de um reprovado Saúl.) D. Tr.

(continuação, VII parte)

07/04/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº1 (III)

(continuação da II parte)

ADVERTÊNCIAS NECESSÁRIAS

Ainda que em nova confusão de línguas se tem conservado no geral, o material idioma antigo, não obstante se hão introduzido algumas vezes vozes novas, que exigem uma explicação particular, e por elas se dará principio a este Vocabulário.

Ainda há outra advertência que fazer, e é que a língua republicana democrática está dividida em diferentes dialectos, a saber: o democrático moderado, o terrorístico, o jacobino, e semidemocrático, o libertino puro, o gonsístico, e quiçá muitos outros. Por isso um só Vocábulo tem muitas vezes diversas significações, ainda que na mesma linguagem republicana. Por tanto procuraremos dar todas as explicações possíveis, confessando ser embargo de boa fé, que apesar de todas a as diligências, sempre ficaram muitos vozes (e talvez por toda a eternidade) de um significado confuso e incerto, e isto pelo pouco que convém aos democráticos dar-lhe uma genuína e clara explicação. Apesar de tudo, nós lhes daremos a mais provável, segundo o que a experiência tem confirmado, sobre a qual em todo o caso fundaremos este Vocabulário. Se não tivermos entendido perfeitamente alguns Vocábulos, será esta uma falta tanto mais perdoável, quando é mais verdade que nem os mesmos Republicanos muitas vezes se entendem uns aos outros.


VOCÁBULOS NOVOS

PACTO SOCIAL — Termo jamais ouvido antes de Rousseau, ao menos em sentido antonomástico. Ele é o fundamento primordial do edifício, e da linguagem republicana, pelo que merece uma explicação bem difusa.

Segundo os princípios filosóficos de Rousseau, e seus ilustrados sectários, todos os homens nasceram selvagens, e sem vislumbre de razão, e por tanto iguais aos brutos no modo de obrar. É verdade que todas as historias desmentem um tal estado de bestialidade, porém por mais que os desmintam não têm duvida que os homens deveriam nascer selvagens; (para chegar ao fastígio filosófico, que sem um tal suposto se reduziria a pó) ou se nasceram de outro modo, foi uma extravagancia da Natureza, que a mesma filosofia tem direito de corrigir. Pois como segundo uma tal (impossível) hipótese, quando os homens eram selvagens, eram naturalmente independentes, e a Filosofia perdoa à Natureza (por motivos que ela sabe) a notória injustiça de ter colocado os filhos na absoluta necessidade de te que depender do Pais até à idade, pelo menos, de outro ou dez anos: cousa, que ela tivera feito mui bem, se a evitasse, fazendo-os nascer do esterco, como aos insetos. Porém voltando à nossa historia, não somente eram independentes os homens, mas iguais, e todos tinham uns mesmos direitos, que é como se disséramos, que todos tinham direito a tudo. Livres, pois iguais, e independentes todos os homens, e tendo cada hum em si todos os direitos, não lhes era natural o estado social, nem tinham obrigações de o formar, como não têm os tigres, nem as pantearas. Conheceram, não obstante, as vantagens, que lhes traria viver em sociedade, e trataram, convieram, e resolveram, abandonar a selvajaria com todos os direitos a ela anexos de independência e liberdade, renunciando cada hum por si, e em nome de seus sucessores a certas partesinhas do sobredictos direitos de selvagens, para se unirem todos debaixo de certas condições, e ajustes; e eis-aqui o que se chama, nem mais nem menos, Pacto social.

Para analisar todo este embrulho, segundo o modo antigo de raciocinar, é necessário expô-lo assim.

Os homens nasceram, ou deverão nascer num estado contrario à sua natureza, à razão, e à Providência; todos nasceram, ou deverão nascer com direitos contradictórios, e destruictivos entre si; nenhum teve a obrigação mais leve de guiar-se pela razão, pois neste estado, quando os homens eram bestas, ou deviam sê-lo, conheceram as vantagens de hum outro estado, de que não tinham a menor ideia, e renunciaram a alguma porção dos direitos de besta, por convicção daquela mesma razão, que não usavam, e antes de estar em sociedade, entraram nela, para deliberar, e convir sobre a formação da sociedade: oh! E com graça de que já tinham palavras para explicar ideias, que jamais haviam conhecido. O mais belo é, que se os homens entraram em sociedade, foi porque renunciaram a uns direitos, que se chamam inalienáveis, e porque se contentaram em conservar as raízes de todos os direitos de feras, não obstante que estes fossem contrários à sua razão, seus deveres, e sociedade. Eis-aqui o Pacto Social em seus verdadeiros termos.

Isto é hum caos de confusão, (dirá qualquer homem, que não tenha endoidecido de todo) de que nada se pode entender. Porém se assim não fora. Como havia de ir bem filosoficamente? De hum absurdo não se pode entender senão uma só cousa, a saber, que é hum absurdo. Ponhamos a cousa em mais alguma clareza.

Segundo os Filósofos, o homem nasce livre: ninguém pode priva-lo desta liberdade: ele só é quem pode ceder alguma porção dela. Se é livre, pode fazer ou não fazer sociedade com os outros homens, e renunciar em beneficio dela. Alguma parte de sua liberdade e seus direitos. Se assim o faz, fá-lo sem obrigação, e vem a formar hum pacto livre e espontâneo com os outros homens, que é o que cabalmente se chama pacto social. Por tanto, todo o homem, que se acha em sociedade, se acha nela por hum pacto, que fez, porque lhe deu na vontade.

Façamos um argumento idêntico. O homem nasce livre; ninguém pode priva-lo desta liberdade: se é livre, é senhor de conservar sua vida, ou de não  a conservar; ninguém o pode obrigar a isso; por conseguinte ele tem a liberdade de matar-se, sempre, e quando lhe faça conta. Se conserva a vida o faz sem alguma obrigação; e vem a formar um pacto livre, e espontâneo  consigo mesmo, em virtude do qual renuncia ao natural direito, que tem de matar-se: todo o homem pois, que ainda vivo sobre a terra, não vive senão em virtude de um pacto social, que fez consigo mesmo: todos se riem deste pacto: e porque nós não riremos deste outro sonhado pelo Cidadão Genebrino, e que se funda nos mesmos principio de independência, e liberdade?!

Uma vez que se cometa o erro, e se tenha a pouca vergonha de se fazer consistir a liberdade humana unicamente na potencia física de fazer mal; e esta dê, outrossim, ao homem direito de fazê-lo, e de ir contra os ditames da razão, do dever, da justiça, e da consciência  jamais fará o homem nenhuma acção justa, e virtuosa, senão em virtude de algum pacto, ou consigo, ou com outros homens. Sempre terá direito e liberdade para matar-se a si mesmo, e para matar os outros. Sempre terá faculdade para roubar, enganar, caluniar, e fazer quantas iniquidades lhe sejam possíveis; e nunca se absterá disto senão em virtude de algum pacto, contrario à sua liberdade e seus direitos. Oh! E quantos pactos sociais restam que fazer aos Democráticos, como o demonstra por toda a parte uma funesta experiência! ...

Porém se a liberdade do homem não consiste em a só potencia física de fazer mal, mas sim em uma faculdade dependente em tudo da razão, do dever, e da justiça, tão livre é o homem em estar na sociedade, em que a Natureza, a Providência, e o amor à ordem o hão colocado, como o é em matar-se a si mesmo, e a todos os outros homens. Contra a razão não há liberdade, que valha, e todos os pactos e direitos contra a justiça e os deveres são nulos, por cuja causa, tanto é pacto a sociedade, como é o conservar-se a vida, ou abster-se de toda a acção injusta e iníqua. É hum absurdo ridículo forjar pactos livres daquilo mesmo, que é uma obrigação, imposta pela razão, pela justiça, pela natureza, e pela necessidade; e forja-lo unicamente, porque se tem a potencia física de fazer o contrario. Logo o pacto social de Rousseau, e de seus ímpios Discípulos é uma verdadeira quimera, que jamais existiu senão na sua escaldada, e sempre contraditória imaginação, indigna da razão, a quem degrada, injuriosa à Natureza, a quem ultraja, falsa em sua existência, infame em suas consequências, e disparatadíssima em sua invenção.
(continuação, IV parte)

03/02/15

CONTRA-MINA Nº 12: Liberalismo Contra a Restauração de Luís XVIII ... (II)

(continuação da I parte)

Vê-se de um relatório exactíssimo, o qual se dirigiu ao Ministro dos Negócios do Reino, que o número total de obras ímpias, e licenciosas, estampadas em França desde 1817 até ao fim de 1824, deitava a 2.741.400 volumes!!! E que mais poderia trabalhar uma Fábrica de venenos, que se instituísse para se dar cabo da espécie humana! Descansamos todavia a certas particularidades, que não deixam de vir muito ao acaso, para se medirem, e calcularem exactamente as forças deste poderosíssimo agente, e derramador das luzes, ou das ideias Liberais. Dentro daquele breve período de sete anos, publicaram-se doze edições de Voltaire, e treze de Rousseau, e de cada uma se tiraram 2000 a 3000 exemplares; e note-se, que além destas edições completas das obras destes corifeus da Maçonaria, só avulsas do Emílio se fizeram seis, e do Contracto Social nove, entrando nestas umas cinco em castelhano, que se publicaram no intuito de "alumiar" a Península das Hespanhas; o que não admira, pois as versões portuguesas desta obra já são pelo menos três, uma abafada no nascedouro, e as outras duas impressas, uma em Paris, e outra em Lisboa. Contou no mesmo período sete edições o compêndio da obra grande sobre a origem dos Cultos, e oito edições o Systema da Natureza, e dez edições o Livro das Ruínas de Volney.... Deixou esta boa alma um legado de 30 a 40$ [40.000 ?] cruzados, para se divulgar, quando fosse possível, a dita obra, e por isso os executores desta última, e piedosa vontade, mais deram que venderam as tais Ruínas, e bem ruínas! Não devem ficar de parte as Novelas do Ministro do Rei Nerónimo, ou do Pigault-Lebrun, que nos dobreditos anos encheram um total de 128.000 volumes; que muitos destes vieram ter a Coimbra, e aí fizeram os estragos, que eu sei, e que eu deploro.....

"Que Estado, e que Sociedade (assim escrevia em 1825 um Francês Cristão) poderá resistir a uns tais elementos de discórdia, e de ruínas? Quando a revolução rebentou em 1789, o perigo se entoava menos terrível. Não havia nesse tempo mais que duas edições de Voltaire, e outras tantas de Rousseau, e estas edições só chegavam aos homens ricos, ainda não se tinham ideado as edições económicas, que derramam o veneno em todas as condições da Sociedade; ainda não era conhecido o Voltaire das pessoas menos abastadas, o Voltaire das choupanas; ainda não se tinham posto em venda as obras de outros ímpios em um tamanho, e preço, que as fizesse chegar a todos. Se estes livros pois, que ainda não eram vulgares, fizeram tais estragos, e contribuíram muito para o geral transtorno, efectuado naqueles dias, que deverá suceder agora, quando é tão desmedido o seu número, quando não há quem deixe de os ter, uma vez que os queira, e às obras antigas sucedem outras muito mais atrevidas; quando todas as barreiras estão arrombadas, todos os laços quebrados, todas as leis estão nulas, e sem força, quando os papeis volantes, e os periódicos trabalham todas as manhãs por exaltar, e irritar os ânimos; quando enfim tudo conspira para que se desencaminhar a mocidade, e serem os Povos iludidos? Como se há-de resistir a tantos agentes combinados para o mesmo fim, que é a dissolução da Sociedade? E tudo se cala, e olha-se friamente para os trabalhos do crime; e até se mostra um receio de o inquietar nas sua tarefa! Esta insensibilidade dos Governos, esta espécie de tranquilidade na própria boca do precipício, é um fenómeno, que mal se pode explicar humanamente. À vista de um estupor assim tão fora do ordinário, perguntar-se, acaso terão eles ouvido aquela voz, que anuncia às nações o seu fim "Nunc finis super te" (de Ezequiel) e esperamos a tremer aqueles sucessos, que este repouso de terror, e da cegueira nos pressagia?"

Luís XVIII, Rei de França
Ora estes grandes males, tão fielmente descritos, e pintados em 1825, caminharam progressivamente até 1830, a ponto de que neste ano já era mui fácil calcular, ou não tivessem existido as mui tardias providências de Julho passado, em todo o caso, havia de ter o seu complemento, e reduzir o sucessor de Luís XVIII à condição de um simples particular, e de um homem proscripto, e desterrado.

(a continuar)

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