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19/07/16

MASTIGÓFORO - INTRODUÇÃO (V)

(continuação da IV parte)

E quem a introduziu na Europa, quem a fomentou por artes, e manhas que parecem ter escapado à mesmíssima perspicácia de Satanás, excedido nesta parte pelos Mações, seus principais agentes neste mundo? Quem desencaminhou o mais pacífico, e leal de todos os povos para deslizar dos caminhos da honra e do apego aos seus Reis naturais, que lhes abriram os seus maiores, e que ele próprio havia trilhado com esse lustre, que reflectiu nas margens do Niemen e do vístula e de lá  mesmo foi atrair novos defensores da melhor de todas as causas? Quem iludiu os Portugueses com fantásticas promessas, abusando sacrilegamente do próprio amor, que eles têm do fundo da alma ao Senhor D. João VI para os fazer instrumentos do vilipêndio, ou antes mudas e lastimosas testemunhas do aviltamento das Sagradas Pessoas dos nosso Reis? Quem tratou uma Soberana digna dos respeitos e homenagens do mundo inteiro pela sua heróica oposição aos sistemas ímpios e revolucionários, de um modo com que não ousariam tratá-la os déspotas de Argel de Marrocos, pois já um destes mandou tratar como pessoa Real o Duque de Barcelos, que caia em seu poder depois da calamitosa jornada de Alcácer? Quem se atreveu a despedaçar o vínculo sagrado que prendia o Eminentíssimo Cardeal Patriarca à Santa Igreja de Lisboa sua Esposa que ele abrilhantou com a sua resistência aos mandados das insolentes pestíferas e facciosas Côrtes? Quem excitou à força de maus tratamentos, e de estúpidas ameaças os nossos Irmãos do Brasil para se desligarem da Mãe Pátria, e quem brindou aqueles remotos climas com o presente da Liberdade sempre funesto aos povos, e mormente aos que mal acabam de sair da infância do estado social, e que se uma especial providência não atentar pela conservação da integridade dos domínios da Coroa de Portugal, em ambos os hemisférios, não tardará a oferecer as lastimosas cenas de furor, e de carnagem, que um igual presente da revolução Francesa produziu na Ilha de São Domingos? Quem fez assoalhar as más doutrinas que há cinquenta anos a esta parte começaram de espalhar-se neste Reino ainda em subterrâneas, e com a capa das trevas, mas que em todo aquele período não fizeram tantos, e tão graves danos, como fez desgraçadamente o primeiro Semestre do regime constitucional? Quem concedeu uma inteira liberdade de pensar, de escrever, e de imprimir, que inadmissíveis num Reino Católico, devem trazer necessariamente consigo a irrisão das coisas sagradas, o menoscabo do sacerdócio, e a maior devassidão de costumes? Quem protegeu abertamente a publicação do Catecismo de Volney, as superstições descobertas, o Retrato de Vénus, o Compadre Matheos, a Vénus Maçona, as cartas de José Anastácio, o Cidadão Lusitano e cópia de mais escritos licenciosos, ímpios, e tendentes à corrupção geral da mocidade Portuguesa? Quem fez ensinar pelos Mestres de primeiras letras, que a nossa alma deve morrer com o corpo; que não há outra vida depois desta, que Nosso Senhor Jesus Cristo era apenas um herói, um homem grande, como foram Zoroastro, Confússio, Mafoma [Maomé]? Quem foi causa de se meterem à bulha todos os preceitos da Igreja, de se ir quase abolindo em muitas partes do Reino, a Confissão Sacramental, e de se escarnecer o Mistério do Corpo e Sangue de Jesus Cristo, por modos e palavras, que fazem arrepiar os cabelos, e gelar o sangue? Quem aplaudiu, e folgou de ver impressas as Ladainhas Constitucionais, em que os seus autores devassos e estragados substituíam outros como eles, aos Santos do Paraíso, rematando-as com uma oração talvez a mais insultadora que se pode fazer à Majestade Divina, e que só ficaria bem nas sacrílegas penas de um Voltaire, de um Parny, ou de um Pigault de Brun?

O que tinha começado como plano implementado pela Maçonaria foi concretizado por mão papal a partir da segunda metade do séc. XX
Quem tomou a peito obstar por todos os modos a que se imprimissem os escritos, onde se declaravam as manobras da Seita, e fez perseguir os autores dos já impressos, como réus de sedição, por chamarem os povos à doutrina dos seus maiores? Quem animou com elogios, e com promessas de honrar, dignidades e mitras, essas nódoas do Sacerdócio, que se prostituíram, e desonraram a ponto de chamarem Santa, Divina e caída do Céu, uma obra que desde 1791 fôra denunciada como pestilente e vomitada dos Infernos? Quem expulsou dos seus Mosteiros os pacíficos Cenobitas, quem arrancou as virgens, dedicadas ao Senhor, dos próprios asilos, que tinham escapado à invasão Francesa? Quem inventariou as pratas, e alfaias das Casas de Deus, sem exceptuar os próprios cálices já tidos, e havidos como bens nacionais, e que se trocariam cedo em moeda, que pagasse aos novos Heliodoros o trabalho de desmantelarem e saquearem as nossas Igrejas? Quem se abalançou a sondar os arcanos do Tribunal da Penitência requerendo dos fiéis que se erigissem em denunciantes dos seus Confessores? Ah! que a minha pena desfalece não por cansada, mas porque tantos desvarios, impiedades, e balsfêmias não cabem no estreito âmbito da refutação a que me propus! Ora quem fez tudo isto e espera ainda hoje fazer mais, quem não terá sossego, em quanto não se verificarem os intentos de converter por exemplo a Igreja de S. Domingos em Templo da razão, onde alguma prostituta ocupando os altares do Deus vivo seja adorada como foi outra que tal no melhor templo da Cidade de Paris, quem afronta os raios do Céu, que ditosamente hão fulminado a obra das trevas, e se lisonjeia ainda como o cego, e obstinado Lúcifer, de colocar sobre os astros o seu trono, e de esmagar todos os adversários do Sistema Constitucional? Que merece? E confundido agora com as turbas, quer fazer como nacional o crime dos Pedreiros, lamentando o necessário efeito da corrupção dos nossos costumes! Nunca os Portugueses teriam acedido à Liga Maçónica, se lhe penetrassem logo os seus intentos, quando ela se jactava de curar as feridas da pátria, de melhorar a educação, e remediar todos os nossos males.... e agora que nos deixam a pátria nos últimos paroxismos, a educação viciada até às raízes, os nossos males agravados a um ponto, que assusta, e horroriza, vem muito fagueiros em tom de Demónios feitos prégadores, e calmando "Foram os nossos pecados, que fizeram tudo isto, haja virtudes (já se sabe as republicanas como as dos Manlios, e Regulos, e outras que tais citadas no Discurso, pois Santo que esteja no Céu, nem a pão o tiram, ou da língua, ou da boca dos Pedreiros) ... e por fim amnistia, e mais amnistia, perdões, e mais perdões, e não se olhe para o passado" como se do passado não se tirassem as melhores lições para acertar no futuro!!

E que dirão os Pedreiros a tudo isto? O que costumam dizer os seus irmãos em toda a parte do mundo. Espírito de intolerância, e de perseguição, ou como se exprime o Discursador, espírito ambicioso de quem deseja pescar em águas turvas!!! Alto lá meu amigo, que nessa parte há muito que dizer, e insta-me a obrigação de uma justa defesa, a que eu justifique a minha vocação para tratar estes assuntos, e me livre da nódoa que se lança gratuitamente no meu proceder.

Faço viagem embarcado nesta grande nau do Estado, e como tenho direito para acautelar, e evitar quanto em mim for, os seus riscos, e naufrágios, estou vendo ao pé de mim uns loucos, e desatinados, que forcejam por arrombar a nau, e levarem-na a pique. Ora nestes lances deverei eu ficar muito sossegado sobre a coberta da nau, e por mais que ouça trabucar os Pedreiros, e arrombadores, fazer que não ouço, e deitar-me a dormir? Eis aí o que eu não posso conseguir de mim, hei de falar sempre, hei de gritar contra os Pedreiros, que tentam arrombar a nau... e suceda o que suceder. Não digo, nem disse nunca, que os tolinhos serventes de pedreiro, sejam incluídos nas penas que os Mestres, como acinte desafiam, porém não levo à paciência, que os réus dos maiores crimes, que o Céu tem sofrido escapem à vara da Justiça, e andem por aí muito inchados, e senhores do seu nariz, insultando os Realistas, e porventura pedindo remuneração dos serviços feitos à nau, que eles só tratavam de escangalhar, e de arruinar, e que por milagre de Deus, e de Nossa Senhora da Rocha, não se afundiu no pélago constitucional. Expuz-me como todos sabem ao peso das vinganças constitucionais, porque o meu grito foi sempre: Antes morte do que tal constituição...... Não desconheço a estrada que levou Fernão de Magalhães à Côrte dos Reis Católicos, e tenho para mim, que não é vedado a qualquer Português o expatriar-se, e desnaturalizar-se.... Entretanto eu sempre quisera fazer alguma diferença nos motivos que impeliram aquele nosso conterrâneo a um passo tão violento, e desesperado. Pediu ele mercês ao seu Soberano, e indisposto de uma negativa, ou repulsa, que julgava não merecer, levou a sua espada, e os seus talentos a um Soberano estrangeiro... Eu não peço nada senão o meu repouso, depois de tantas lidas, e peregrinações, a que me condenou o infausto, e execrado Sistema Constitucional. Desafio a todos os Portugueses, incluso o Ministério d'ElRei Nosso Senhor, que mostrem algum papel em que eu requeresse mercês, ou galardões.... Nem o fiz, nem o espero fazer, e se a minha desgraça subir a tal ponto, que ainda eu chegue a contrair a manha dos pedreiros, que não querem outra coisa senão mandar, e governar, para terem mais ocasião de irem solapando as instituições políticas, e religiosas, já peço com instância aos Ministérios d'ElRei, que desprezem, e rasguem sem dó o meu requerimento, e me tratem de louco, e de insensato. Poucos haverá, (deixem-me ter uma pequena vaidade) que conheçam os pedreiros melhor do que eu, e ninguém receia menos doque eu as suas vinganças, pois não temo os que matam os corpos, só temo os que podem matar a alma.... Quem professar como eu a Divina Religião de Jesus Cristo, necessariamente há de pedir o castigo destas víboras, e pestes das suas Sociedades Religiosas, e Civil. Quem for tolerante com eles deixa-os trilhar à sua vontade o caminho da perdição, e cortar-lhe pela raiz todos os meios de se conhecerem, e emendarem, sem o que vivem e morrerm impenitentes, e não sei que isto seja querer-lhes bem, e desejar-lhes grandes venturas. Outro fora eu que desde o princípio das minhas investigações, e Lucubrações Anti-Maçónicas, tivesse seguido diferente rumo. Outro fora eu, que cingindo-me ao conselho de um Frade Bento, que perguntando por certo Monarca Aragonês sobre o que devia fazer a uns rebeldes, como estudioso que era do silêncio, levou o emissário a uma outra, e puxando de sua face, cortou o que não estava ao nível das outras plantas, arbítrio este, que segundo nos conta Aristóteles (Politic. L. 3 cap. 9), já fôra dado a Trasíbulo, num caso semelhante! Outra fôra eu, que expendendo bem os casos em que as penas se devem, ou temperar, ou executar, ou ainda agravar, mostrasse com evidência, que os Pedreiros Livres, em matéria de crimes, levam as alampadas aos incendiários, aos ladrões de estrada, aos fabricantes de moeda falsa, e a outros com quem nunca se deve usar de condescendência, ou piedade; mas que tenho eu feito?

(a continuar)

12/06/16

CONTRA-MINA Nº 44: Estranhas Multidões, e Gabinetes de Duas Caras

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 44
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Estranha Multidão de Homens, Cidades, e Gabinetes de Duas Caras

Não se publicou até hoje uma Obra, que tanto azedasse, incomodasse, e ferisse o Protestantismo, como foi a de Bossuet sobre as Variações dessa chamada Igreja Verdadeira; e se lhe juntarmos a situação actual do Protestantismo, que saiu incorporada na moderna História das Seitas Religiosas do século XIX, não há mais que desejar nesta matéria; e sem que seja necessário possuir grandes erudicções teológicas, bastará que o Leitor seja entendido, para que tire daquele inexausto armazém, não só cópia de lanças, e dardos, com que atrevesse o próprio coração do Luteranismo, e Calvinismo, porém a clava de Hércules, com que, abatendo-o de um só golpe, o deixe morto, e sem esperanças de nunca mais renascer.... Tal costuma ser o maravilhoso efeito da evidência dos factos que, não se podendo negar, forçosamente hão de concorrer para a destruição da Seita, que não se envergonha de andar com todos os ventos, a fim de captar a benevolência dos Grandes, e especialmente dos Soberanos do Norte. Estava um destes já enfadado de sua legítima Consorte; e desejando por isso contrair novo matrimónio, que seria, exactamente falhado, um verdadeiro concubinato, faz uma Petição aos novos Reformadores, que presavam de seguir o puro Evangelho; e, não é nada, concedem-lhe um despacho favorável; e por este modo tão adulatório, como escandaloso, e ofensivo dos princípios Religiosos, autorizam a Bigamia simultânea, e já desde o berço da pretensa Reforma se dão a conhecer por homem de duas caras, que nunca poderiam chamar ao seu partido, senão outros que tais como eles.... Já por vezes me tem lembrado escrever uma História sucinta das Variações dos nossos grandes Políticos modernos, em que apareceriam tantos homens, não só de duas caras, porém de meia dúzia de caras, à proporção de seus interesses, que é a mola real, até das chamadas grandes virtudes cívicas, ou patrióticas... Um destes Galões de água doce, enfurecido contra os Reis propõe hoje, por exemplo, que nos livremos dessa raça maldita, e amanhã quer, insta, forceja porque se levantem Estátuas a um Rei, ou Imperador; e assim Republicano desenfreado em 1822, apareceu um advogado pertinaz da Realeza em 1826! Se por ventura quisermos apontar um Unicáristas de 1822, que se fizeram Biscamaristas em 1826, seria uma lista de nomes tão prolixa, como enfadonha, e o mais é, que na primeira destas datas, só a lembrança de que se instituíssem duas Câmaras fez das tais badaladas ao sino grande das Côrtes, que parecia vir abaixo a Sala das Conferências; e nessa parte lhe fizeram boa companhia as mais sinetas, e garridas do Congresso, que na de 1826 tocaram diferentemente em aplauso das duas Câmaras, que era um dos mais bem traçados alçapões da Divinal Cartilha.

Estes perversos, que a fim de guardarem os seus poleiros estão sempre como à primeira das duas, tem muito que agradecer aos Escritores, que defendem os interesses de Portugal, e que têm usado para com eles de uma contemplação, respeito, e caridade, que eles por certo não merecem.... Que trabalho mais fácil do que extractar desses montões de papeis da Era Constitucional os respectivos serviços de muitos, agora zelosíssimos, e mui ardentes Realistas? Scripta manent.... Os Diários de Côrtes gritam contra a segunda cara de muitos Empregados Civis; e os Boletins do Exército Constitucional são outros tantos corpos de delito para muitos Empregados Militares, que são hoje muito fiéis ao Senhor D. MIGUEL I, porque assim lhes faz conta, e é necessário conservar, ao todo o custo, a Influência, o Saldo e a P[?]. Não é pois tão d[?] esturro de certos Escritores, que perturbe as cabeças, ou desmanche prazeres.... Ah! se o fosse, e se algum deles escrevesse um Dicionário dos Grimpas Lusitanos, à imitação do Dicionário dos Grimpas de Franceses, que gritarias, que lástimas não iriam pôr essas ruas, indignados de que houvesse entre nós pessoas tão falta de caridade Cristã, que reimprimisse as falas contraditórias dos mais ilustres Corifeus da Liberdade Portuguesa! Continuemos a pôr o ramo em outra parte; e já que assim comecei, assim também hei de concluir a minha tarefa... Que Liberal, e que Realista haverá nas quatro partes do Mundo, que não conheça o nome, e as relevantes prendas de Mr. Canning? Pois este mesmo foi homem de duas caras, e por isso já em outro Número lhe chamei versátil, como quem esperava ser mais largo para outra vez na explanação, ou desenvolvimento de tão amarga, e aparentemente insultadora frase... Em 1794 era ele um esturrado inimigo, não só da Revolução Francesa, porém até dos próprios Franceses. Em 1796, quando saiu sub-Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, requintou em ódio à França; e tal era o seu azedume contra esta Nação perturbadora do repouso, e tranquilidade das outras, que em 1798 se fez parceiro de Mrs. Frer, e Ellis na redacção do Periódico intitulado "Anti Jacobino". Daí a pouco despejou toda a sua cólera sobre o que ele chamou "Ídolo de três dias, ou Bonaparte" e em 1801 tão pouco lhe agradava a Paz de Amiens, que não duvidou apelidá-la "O Suicídio da Inglaterra". Quando chegou ao que ele mais desejava, que era o Ministro dos Negócios Estrangeiros, foi ele quem dirigiu as Expedições contra Copenhague, e Flessinga, o que ainda não prova, que tivessem franqueado, ou minguado os seus primeiros sentimentos de aversão à França.... Porém lá chega o ano de 1816, que na própria França, e numa das suas principais Cidades, (Bordeaux) (e por sinal, que regressava de Lisboa, onde fez um papel de Comédia) depois de um jantar lauto, sem que lhe tivessem encomendado o Sermão, fez um para mostrar, que a boa harmonia entre França, e a Inglaterra era necessária para o sossego da Europa; e o mais é que tinha razão às carradas, pois os mortos não falam, nem brigam; e que melhor, e menos alterável sossego pode haver, que o dos túmulos? Não se opôs à Invasão das Espanhas em 1823, porque, dizia ele, seria mui dispendiosa para a França, quando realmente foi outro o motivo da sua inacção, qual foi contar demasiadamente com o valor dos Patriotas Castelhanos, e talvez assentando, que é o mesmo palrar na Tribuna, que brandir a espada no campo. Só não deu nada pelo valor dos Patriotas Lusitanos, e por isso mandou apressadamente um Corpo de seis mil Ingleses, às Ordens do General Clinton, para defender Portugal de uma Invasão Estrangeira, que nem se quer se premeditava, quando realmente só vinha para defender, e salvar da guerra aberta, que faziam à Constituição os próprios Nacionais deste Reino, e sobre todos o exemplar da lealdade, o ínclito Marquês de Chaves, que, se por acaso não chegasse o socorro Britânico, não se esperaria pelo tão desejado regresso do Senhor D. MIGUEL I, para se desfazerem as Câmaras, as Côrtes, e todas essas armadilhas de embustes, de falsidades, e de traições. Ora aqui têm os meus Leitores mais uma prova, de que até os homens grandes, e os próprios Corifeus do Liberalismo já tiveram cara primeira, e cara segunda, e cara terceira, e contariam até milhares, se as vicissitudes, ou mudanças políticas chegassem a este número. E quantos exemplos do mesmo jaez me oferece, e, para assim o dizer, mete pelos meus olhos a História novíssima deste Reino?.... Seria necessário, pelo menos, um cento de Contra-Minas, só para um Repertório das falas, já em sentido Monárquico, já favoráveis a Pompeu, já favoráveis a César, já de Brutes, já de Marcos Aurélios, de que vêm cheias as numerosas páginas de tantas Colecções in folio, que para mim não têm estado em folha, porque as tenho esquadrinhado, e compilado, para desfazer em tempos conveniente certos Edifícios de lealdade, e patriotismo, que do presente ameaçam tocar as nuvens, mas que, bem examinada a coisa, lá tem no alicerce bastante areia; uma felicitaçãosinha às Côrtes, uma assinatura em papeis Revolucionários, um papel, que correu anónimo, sobre a pretensa Legitimidade de D. Pedro, (o inimigo mais furibundo, que nunca teve este Reino, deve ser apeado até das mais vulgares decências.... Chamei-lhe já muitas vezes Senhor, por obséquio ao Verdadeiro Senhor desta Coroa; porém d'ora em diante só lhe chamarei D. Pedro, em obséquio à justiça, e à verdade) são por certo, são estes homens de duas caras, aqueles com quem D. Pedro conta, para levar ao fim a sua tresloucada empresa; e como ele bem sabe, que são muitos, por isso é que se fortalece cada vez mais em seus propósitos... Mas, felizmente para nós, esse desgraçado Príncipe não sabe ainda o que são os Portugueses.... Deixou-me, quando apenas contava nove anos de idade, e mal podia então conhecer, e avaliar a ingénita coragem, e lealdade dos Portugueses... Esses muitos, com que ele conta, são homens devassos de costumes, homens brutais, e destituídos de sentimentos Religiosos, são homens tão abatidos no moral, como no físico, são verdadeiros paninhos de armar, são esqueletos vivos, são a imagem da fraqueza, e da cobardia, são, direi tudo por uma vez, são Pedreiros Livres; e um Pedreiro Livre é essencialmente cobarde; não é afoito, nem destemido, antes, logo que lhe cheira a combate sério, volta as costas, foge com a ligeireza dos Gamos, encerra-se num Barco de Vapor, e nem sequer espera a notícia de que se possam defender as mais fortes posições.... Ora o Povo Lusitano, a cuja imprevista resistência protestaram eles, que se devia atribuir àquela precipitada fugida, é todavia o mesmo, ou, para melhor dizer, é mais alguma coisa; dobrou em forças, em vigilaneia, em actividade, e no mais que pode constituir um Povo naquela situação, em que se espera somente uma das duas, ou vencer, ou morrer.... Estamos quase reduzidos à própria condição, a que o intrépido Fernão Cortez levou os seus companheiros de armas. Não há Marinha suficiente para resistir a forças Navais muito poderosas, quando estas se lembrassem de coadjuvar a Esquadrilha de D. Pedro; porém há peças de artilharia, há braços robustos, há baionetas bem afiadas, e é quanto nos basta; e no meio de tudo isto, temam, e tremam os homens de duas caras..... que são apontados..... que são geralmente conhecidos..... Vejam lá como fazem a sua, pois os melhores cálculos podem falhar; e, quando menos se cuide, volta-se o feitiço contra o feiticeiro. Deixemos o futuro, e voltemos ao passado.

Pois também há Cidades de duas caras? Há certamente, e eu as conheço por dento, e por fora. Citarei o exemplo de uma, que já não perde o crédito, porque já o não tem, e só por estes sinais parecerá ocioso nomeá-la, o que só faço, por temer, que outras deste Reino, e que não passam de duas, cheguem a presumir, que as denuncio de traidoras ao Senhor D. MIGUEL I. É a Cidade do Porto; mas diga-se primeiro, em obséquio da verdade, que aí mesmo se encontram não poucos verdadeiros Realistas, que apurados nesta espécie de crisol, merecem uma particular distinção; e que assim como se dizia outrora "É Grego, e não é mentiroso" também se diga presentemente "É do Porto, e é afeiçoado ao Senhor D. MIGUEL I" pois dizendo-se isto, chega a dizer-se, que este Portuense já tocou os últimos ápices da lealdade Portuguesa. Ora essa mui famosa Cidade das Revoluções, que noutras eras fez outro papel bem diferente, ainda em 1799 fazia cunhar, para memória do dia, em que o Senhor D. João VI começou a Governar estes Reinos em Seu Real Nome, uma excelente Medalha, onde se lia esta breve, porém expressiva, e bem adequada inscrição:

"Joanni Portug. et Algarb. Principi
Suscepto inter procellas imperii clavo
Civit. Potuc.
D.

Foi apresentada esta Medalha ao Príncipe Regente pelo Desembargador Vicente José Ferreira Cardoso, que fez nesta ocasião arenga do estilo, a qual rematou com estas frases "Se eu não puder contá-los todos, (os benefícios, que o Príncipe fizera à Cidade, e por sinal que os empregou muito bem) posso ao menos afiançar isto a Vossa Alteza Real, e ouso segurar-lhe, que a minha fiança será abonada para com a posteridade a par desta Medalha com a História do Respeito, Amor, e Fidelidade, que à Vossa Alteza Real, e à Real Família há de tributar sempre a Cidade minha Constituinte, em nome da qual tenho a honra de beijar muito reverente a Vossa Alteza Real a sua Real Mão."

Assim dizia o Orador; e já nesse tempo o Grão Tomás, e a Sociedade dos Beneméritos da Pátria se dispunham para serem algum dia os principais pagadores da tal dívida, o que efectuou a 24 de Agosto de 1820, em que a Cidade do Porto abonou solenemente o Profeta, que anunciara de tão longe os heroísmo da sua lealdade à Coroa Portuguesa.... Mais outra vez (quero dizer em 1828) se abonou a veracidade da Profecia, e pode ser que então mais solenemente, que da primeira, Nesta conspirou tudo para se consumar felizmente a projectada rebelião; porém da segunda vez era notável a dissidência de muitas pessoas, e das mais autorizadas; porém nada obstou, para que se realizassem os nefandos intentos da revolução, e do crime... Até as formosas Damas, à força de Vivas à Constituição, enrouqueciam, e ficavam sem voz, e desengonçavam os braços a bandearem os lenços Constitucionais.

Seguia-se falar um pouco dos Gabinetes de duas Caras, que tem sido a peste das Sociedades humanas; porém que Leitor haverá, que não conheça a fraudulência, e traição constante de certos Gabinetes para com os seus mais antigos, e fiéis Aliados.... Ah! Filipe de Macedónia, Filipe de Macedónia, se passaste largos Séculos por modelo, ou tipo dos negociadores pérfidos, e atraiçoados... Já perdeste essa odiosa qualificação.... Eras um Santinho em comparação do que se tem feito nos Séculos modernos, e no tempo da civilização, e das luzes.... Quando poderei eu aliviar o meu coração de um pezo, que o traz comprimido, e como esmagado... Nunca me será lícito definir o que é "A não Intervenção" que se entende somente com os Grandes, que podem voltar dente, e não com os pequenos, que impunemente são maltratados, e espezinhados? Já houve quem ousou escrever uma História dos Conclaves, e que por sinal é um tecido perpétuo de absurdos, e calúnias; e quando haveria um Escritor, que somente com olhos fitos na verdade ponha em pratos limpos a verídica História das patifarias dos Gabinetes de duas Caras, que facilmente se reduzem à História dos Pedreiros Livres, influentes nos Gabinetes da Europa?

É bem natural que os meus Leitores me acompanhem neste momento, e participem comigo da viva mágoa, a que me reduz a necessidade de observar o mais rigoroso silêncio então delicados assuntos; mas para me reanimar juntamente com eles, direi que Portugal tem ainda muitos homens de um só rosto, e que ainda os tem desde as Classes médias até às mais altas condições da Sociedade; e posto que não seja excessivo o seu número, só a lembrança de os possuirmos me reanima, e consola. Homem de um só rosto chamo eu, por exemplo, àquele, que durante o maior, e o mais activo furor da tempestade revolucionária, ousou imprimir a Bula do Santíssimo Cardeal Patriarca desterrado em Baiona, as várias Apologias do procedimento da Senhora D. Carlota Joaquina, e que antes quis ser encerrado nos Segredos do Limoeiro, e ser expulso deste Reino, do que transigir, ou capitular com os mais infames de todos os rebeldes. Este homem, seja qual for a sua presente condição, é para mim, tão respeitável, ou mais, do que se fosse Marquês, Duque, ou Príncipe....

Homem de um só rosto é aquele, que enrostando não só com as vozerías aterradoras de um Congresso ímpio, e malévolo, ergueu a voz para defender a inocência da Rainha mais vilipendiada, que nunca houve em Portugal; e que vendo luzir os punhais, com que devia ser atravessado ao sair da Conferência, nem por isso balbuciou, ou mudou de voz; antes cada vez mais a levantou para defender a maior nódoa, que tem caído sobre o crédito da Nação Portuguesa: homem de um só rosto é aquele, que tem seguido invariavelmente a voz da sua consciência, e que por mais que o acompanhe o glorioso ferrete da maldição Maçónica, antes quisera uma vida pobre, e obscura, do que unir-se a Pedreiros Livres, ou mendigar deles o prémio assaz merecido de seus incessantes, e heróicos trabalhos...

Oxalá que este Reino de Portugal tivesse ao menos quatro ou cinco mil destes, outrora chamados Portugueses velhos!..... Desgraçadamente não os tem, e pode lembrar a este propósito a engraçada anedota do Religioso Francisco, que ao ver meia dúzia de grãos de bico flutuantes numa grandiosa tigela de caldo, exclamou:

Apparent rari nantes in gurgite vasto.

E com efeito, que Corporação há, que menos interessem na intentada ressurreição do Sistema Constitucional, do que os Tribunais, que ele trata de ociosos, e supérfluos, e dá por extintos; do que os Cabidos, para os quais reserva igual tratamento; do que as Ordens Religiosas, que devem ser as vítimas de seus primeiros, e terríveis golpes? Assim mesmo (que tal é o excesso da cegueira humana!) em todas estas Classes há muitos desejosos das Cebolas do Egipto, e que antes querem a mendicidade Constitucional, do que a opulência Monárquica!!! O maior brasão, que pode ter actualmente auqleuqe Ordem Religiosa é este. Quantos Malhados [maçons] tem esta Ordem? Ao que responde afoitadamente qualquer dos Observantes Filhos da Santa Teresa.... Nenhum! Oxalá que todos os mais pudessem responder outro tanto! Porém a grande maioria está sã, e alguns há, que nesta hora estão fazendo os mais assinalados Serviços à Causa do Muito Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I, ora imprimindo à sua custa os Escritores, que favorecem a boa Causa, ora traduzindo, e ampliando Obras primas de Autores Estrangeiros, como sucede com o Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, que devia espalhar-se neste Reino, o mais que fosse possível, para aumentar o justo, e implacável ódio, que os bons Portugueses já professam, e devem professar à tortuosa, e refalçada linguagem, com que os Pedreiros Livres trataram sempre de nos embaçar, e de nos iludir....

E não haverá entre nós alguma Cidade unifronte, ou de um só rosto? Custa muito a aparecer quem mereça esta mui honrosa denominação; pois quando a Maçonaria bebida nas Lojas Coimbrãs, por certo as mais daninhas, e fatais de todo o Reino, há conseguido, por indústria dos seus aprendizes, estender-se, e propagar-se nas mais pequenas Aldeias, como será possível designar uma Povoação grande, uma Cidade, onde não haja Pedreiros em grande número? As Cidades Camaleoas, que mostram igual prazer, ou alvoroço, quer seja aclamado Rei o Senhor D. MIGUEL I, quer se proclame à ponta da espada o intruso S. Pedro de Alcantara, não devem lembrar a um Escritor público, senão para serem amaldiçoadas, e confundidas com o pó da terra, a que as tem feito descer a estranha vilania dos seus Moradores.... Porém torno a dizer, nem só quer para mezinha das minhas dores, e amarguras, haverá neste Reino pelo menos uma Cidade, que possa jactar-se de um só rosto? Não vai a ofender nenhuma, pois não é do mesmo ânimo ultrajar-las, ou deprimi-las, nem ainda levemente. Grandes notícias tenho da lealdade da maioria dos habitantes da Guarda, de Leiria, e de Évora, e outras; porém como a própria avidez do Filósofo antigo, que procurava um homem, procuro eu uma Cidade, não menos antiga, do que a todas as luzes respeitável, quero dizer, à Cidade de Braga.... Ao menos esta, quando sucedeu levantar-se, ou sublevar-se a força armada, para fazer a aclamação de um Rei intruso, a despeito dos solenes Juramentos, que prestára ao Legítimo Sucessor da Coroa, portou-se heroicamente, guardando o silêncio próprio dos Tumultos, não rompendo das suas janelas um só Viva, nem à Constituição, nem a D. Pedro, e somente quebrando aquele rigoroso silêncio à prima noite, quando prosseguia em seu louvável exercício da Reza pública do Terço de Nossa Senhora, alternado de umas para outras janelas.... Apesar de tudo isto ficarei ainda perplexo, e indeciso... Talvez a Maçonaria tenha actualmente em Braga um bom trintário de adeptos.... E o tão douto, como virtuoso Bispo de Charres, se ainda vivesse, não me deixaria mentir... [como perdeu ele a vida?]


Lamego, Santuário de N. Senhora dos Remédios

Acaso estará limpa de Mações a Cidade de Lamego? Não sei, porque não tenho, nem uso, nem experiência de tratar com os Moradores desta Cidade, à qual, ou a foice da morte, ou o desterro voluntário tem arrancado uns certos, e não vulgares Agentes da Maçonaria; porém o Batalhão dos seus Voluntários Realistas, recém-chegado a esta Capital, fez amarelecer de tal modo os Pedreiros Livres, que se torna um índice favorável das excelentes disposições daquela Cidade, e de toda a sua Comarca.... Desde que se encetou em 1828 a profusa luta, em que estamos envolvidos, nunca se me tira da memória o denodo, e coragem dos Realistas da Vila de Taboaço, que dirigidos, e capitaneados pelo seu Juiz de Fora (hoje Corregedor de Tomar) apareceram nas margens do Vouga, e na posição do Marnel, e apareceram na Vanguarda e nos Postos avançados, disparando tiros, e fazendo estragos a um inimigo, consideravelmente superior em forças. Mal sabem os da Esquadrilha formada de toda a carta de animal, que sorte os aguarda neste Reino! Ah grande Oriente de Lisboa, grande Oriente de Lisboa, a quem espero chamar ainda em meus dias "Grande Poente de Lisboa", adveria, e repara bem, que já te carrega sobre o espinhaço o Batalhão dos Voluntários Realistas de Lamego, e o Regimento de Caçadores da Beira Baixa.... Faltam-me ainda os Batalhões de Vila Real, Mangualde, e Castro Daire; porém já se colocaram nos lugares, que mais convinham, para o fim de se guardar bem uma Costa dilatada, e em vários pontos acessível.

Desterro, 5 de Janeiro de 1832

Fr. Fortunato de S. Boaventura

04/02/15

CONTRA-MINA Nº 12: Liberalismo Contra a Restauração de Luís XVIII ... (III)

(continuação da II parte)

Clemente XII
Os discípulos de Voltaire, de Volney, e de Rousseau, estão dando as cartas em Paris, e o mesmo tem sucedido em outras cidade principais da França. O mesmo se viu em Turim pelos anos de 1820, e o mesmo se viu em outras cidades da Itália, como por exemplo em Alexandria, na mesma época; e ainda haverá quem diga, que a seita Universitária é um sonho dos Bispos de Roma; assim como já o foi em o Santo padre Clemente XII, o acreditar a existência de Padeiros Livres? Haverá sim, porque há homens para tudo; porém os factos repetidos, constantes, e indubitáveis clamam, e provam demonstrativamente a existência de tal "Seita Universitária"; e ditosos por certo são aqueles Soberanos, que têm conseguido atalhá-la, e sopeá-la por quantos modos, e artes cabem no seu poder.... Ainda não ouvi que os Estudantes de Alcalá, de Granada, ou de Salamanca fizessem ajuntamentos proibidos, e quisessem dar a Lei a seu Soberano; e porque será isto? Porque a Teologia estudada por S. Tomás, que ainda não decaiu, nem decairá jamais do seu bem merecido título de Anjo das Escolas, porque o direito canónico [refere-se ao direito canónico em geral, na sua Tradição, e não a uma codificação deste direito, que veio a acontecer só no séc. XX por mãos de S. Pio X], estudado pelas doutras preleções do Prelado Devoti, nunca há-de fazer os estudantes ingratos, e rebeldes para com os seus legítimos Soberanos.

Não fosse tão acrisolada a vigilância do Governo Hespanhol [refere-se aos dois Governos na Península Ibérica] sobre a entrada de Livros estrangeiros, mormente desde 1823 até ao presente, e veríamos o que já teria sucedido a estas horas. Bem sei, e não me foge, que os anos constitucionais alagaram à Península com uma enxurrada de livros franceses [vindos da França, entenda-se], ou castelhanos [vindos de Castela, entenda-se] estampados em França; porém os voluntários Realistas, e as diferentes autoridades civis, e eclesiásticas de Hespanha têm dado uma caça geral aos possuidores de tais livros; e graças a N. Senhora, ainda os bons poderão ter a consolação de verem tais pestes desterradas para sempre da Península, o que nos afiança a piedade, e zelo incansável dos Reis Fidelíssimo, e Católico; que se o Rei Carlos X tivesse governado à castelhana, assim como governou à francesa, isto é, debaixo de ideais de tolerância, e amalgamento, ainda hoje estaria assentado no Trono dos seus Maiores. E cuidará talvez o Rei Cristão, porque vê os estudantes da Polytechica mui dóceis à sua voz, que está mui bem seguro no Trono, e que o há de transmitir aos seus descendentes? Quanto se engana! Os Estudantes liberais não querem nem sombras de título de Rei; e mais dia menos dia mostrarão os seus verdadeiros intentos; pois já não pode ficar em problema, quais sejam os da "seita universitária", que têm duas bases, ou princípios fundamentais: 1º o Ateísmo, 2º Atravessar o coração de todos os reis. Quem se espantar do negrume de tão abomináveis princípios, ou é estúpido, ou também folga na taberna, e é como eles.

Colégio do Espírito Santo em Coimbra
22 de Janeiro de 1831.

Fr. Fortunato de S. Boaventura

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