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23/07/16

ASCENDENS NA RÚSSIA

Por curiosidade, revelamos aos leitores que a Rússia alcançou o IV lugar no número de visitantes do blog ASCENDENS.

Interessante... Curioso...

Segundo sei, há vários leitores nossos de língua portuguesa na Rússia, tanto portugueses como brasileiros. E a todos esses, boa continuação e obrigado pela vossa companhia. Coragem! ;)

30/10/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº4 (III)

(continuação da II parte)


RAZÃO – Segundo os Democráticos, a razão está vinculada a eles, e é o fundo principal de seu morgado. É deste modo, que podem fazer quanto lhes vier à cabeça (e nunca é cousa boa); e ainda que cometam as mais altas perfídias, os enganos mais vis, as mais horríveis traições, e mais tirânico despotismo, e ainda que matem,  roubem, blasfemem, a e façam quantas graças não faria o mesmo demónio, sempre tem razão. E dizem muito bem; porque como no idioma democrático razão e força são sinonimamos, já V.m. vê.... É verdade que algumas vezes tem errado a conta, e que, buscando a pedra, foram dar com o amolador, como lhes sucedeu em Alexandria: porém como há de ser? Não há costa acima, que não tenha sua costa abaixo. Mas, deixando isto de parte, (por não molestar os sensibilíssimos, e humaníssimos corações filosóficos) é por causa sentada, que razão em sentido antigo está capitalmente desterrada, não só do Vocabulário, mas até de toda a mente, vontade, e acção de um verdadeiro Democrático. 

(* O que o Autor diz a respeito de Alexandria, todos sabem que se refere à perda que experimentou Bonaparte no Egito: este facto contemplado em si mesmo nada tem de estranheza, atendendo à incerteza das Expedições, principalmente quando são marítimas; mas o motivo, pelo que se torna digno de reflexão este acontecimento, é pelo tom elevado, com que os liberais apregoam as suas victorias ainda antes de conseguidas: a razão do seu procedimento, a justiça da sua causa, e perícia de suas armas, o que tudo combinado deve produzir sempre um resultado victorioso para o seu partido. Mas coitados, muitas vezes lhes tem saído o gado mosqueiro. Ainda a empresa Egiptana se não tinha começado, nem o Corso audaz tinha alinhado os batalhões republicanos, já na mente, e até nos Periódicos dos Franceses se lhe representava o Cairo submisso às suas ordens, Memphis, e Tanais abrindo as suas cem portas, as altas e soberbas Pirâmides inclinando a elevada cerviz às Águias Francesas, os antigos canais, e lados de quarenta léguas desobstruídos, e navegáveis para o Comércio Francês: o Nilo prodigalizando suas enchentes a beneficio dos novos vencedores; a peste, e a febre amarela, em que tanto abundavam aqueles países, fugindo confundidas na presença da Civilização, e asseio, que um nova ordem de coisas ia estabelecer naquela, até ali infeliz região do mundo; e o que é mais que tudo: aberto o Isthmo de Suez, subjugado o Mogol, (e que pechinxa não eram os seus tesouros?!) e o Comércio do Oriente todo, tendo por empório a Republica Francesa!... Já se lhe representavam as Colónias, Estabelecimentos, e Feitorias Inglesas lançadas por terra, e começando a desmaiar o Colosso Marítimo, que privado de suas bases deveria de necessidade precipitar-se sobre a sua mesma ruína, etc. etc. Mas assim se cantam as glórias. Todas estas victórias, interesses, vantagens comerciais, e políticas, de que estavam cheias as cabeças, e papeis franceses, reduzirão-se a fugir Bonaparte em traje de marujo por entre a frota inimiga, e aparecer em França com uma mão atrás da outra!!... Ora um facto semelhante a este, não se circunstâncias, mas em relações liberais acaba de patentear-se, e um desar talvez pior do que aquele acaba de sofrer a política revolucionária. Pelas ordens, e pelo dinheiro do grande Oriente Parisiense [maçonaria] fez-se a revolução da Polónia, o que se comprova pelas figuras, que apareceram na Cena, pelas correspondências, que foram parar às mãos do Imperador Nicolau, e pelo dinheiro argelino, que nesses dias começou a girar em Varsóvia; (descansem que não perdem o juro nem o capital... a seu tempo se colhem as peras) apenas este facto manifestou, para logo serão os Politicões Peridioqueiros: temos um baluarte em nossa frente, que ninguém pode superar; a Polónia reunida, e combinada é capaz não só de resistir a toda a força da Rússia, mas até pela sua posição geográfica, pela valentia de seus soldados, pela arrogância de sua Cavalaria, e máxime pelos auxílios que lhe havermos ministrar é capaz de invadir qualquer dos três Reinos vizinhos, e tornar-se aquilo, que Napoleão quis que ela fosse. Em virtude destas ideias quixotescas todos os dias se assoalhava o valor dos Polacos, em todos os Cafés se defendiam Conclusões acerca dos limites, que havia que ter o novo Império, se havia que ser Monarquia, ou República: uns dias por outros apregoava-se uma batalha ganhada pelos Polacos, em que 60$ destes tinham derrotado 200$ Russos; e quando se era possível que isto acontecesse? respondia-se com um ar majestático: "Pois como não há de ser assim, se eles defendem uma Causa santa e justa, estão unidos, a guerra é nacional, e tem toda a razão  nas suas pretensões?"  Muitas vezes amotinava-se o Povo, gritando  "Vivam os Polacos, morram os Russos!"  e entre estes grupos se viu, e se ouviu muitas vezes o Ex-Imperador Brasiliense [D. Pedro I] com uma voz estrondosa aplaudindo estas orgias revolucionarias; e até o Ministro Perrier, e Companhia, subia muitas vezes à Tribuna para dar as noticias da Polónia: já passava por axioma a fraqueza dos Russos, a invencibilidade dos Polacos, e o próximo reconhecimento da sua independência, etc. Mas em último resultado mudam-se as cenas! e em troco de um Império, ou República triunfante, aparece um país desolado, ultrapassado o invadiavle Vistula, invadidos todo os baluartes, penetradas três grandes linhas de defesa, e tomadas à baioneta cento e vinte peças d’artilheria! Ó lá!... como é isto? Foi a má política, dizem, do Nosso Governo, que há muito devia ter destacado 200$ homens para coadjuvar os Polacos, e então outro galo nos cantára. Sim, isto é muito bom de dizer: quem dera tivesse acontecido; talvez a esta hora se tivesse levantado o véu à alta policia do Norte, e talvez tivesse caído a máscara a alguns Gabinetes Hipócritas, que ostentando que não intervêm em cousa alguma, em tudo se metem, auxiliando sempre os descontentes, ou revolucionários da Europa, etc.  Já se saberia a esta hora quais eram os inimigos, contra quem a Legitimidade Universal tem que levantar  as armas... Mas em fim não tarda quem vem: o Vencedor, e Príncipe de Varsóvia disse aos seus soldados: "Novos triunfos vos esperam."  Pois então esperemos pela Primavera, que é o tempo da flores; agora não se pode, nem deve intentar qualquer empresa Militar, a não ser de Ilhéus, e foragidos, comandados pelo Ex-Imperador, Ex-Rei, General em chefe, e bis-Rei dos degenerados Portugueses: essa sim; a toda a hora que vierem está tudo feito: até o tempo há de enfrentar as suas tempestades, o mar aplacar as suas ondas, e os inóspitos rochedos hão de quebrar por si, para darem franca passagem, e receberem em seus braços os nossos argonautas, que vem tirar as cadeias à sua Pátria. Assim o contemplam, e assim o afiançam. 
Na verdade, não há nada que exaspere mais, e faça ferver tanto o sangue, como é, a estupidíssima altivez, com que a este respeito se explicam os patifes de lá, e os toleirões de cá. Faz criar sangue de carrapato a qualquer homem, que ainda estudasse Lógica à velha, e ouvi-los falar de semelhantes forma. Venham cá, patifes, e desavergonhados, pois não vêm como vão saindo frustradas todas as profecias revolucionárias, como os Povos estão desenganados a este respeito? Pois não sabem que a Revolução de Julho está inteiramente desacreditada, e que por toda a parte é rebatida, e então só em Portugal é que há de achar apoio, só cá, é que hão de ser bem sucedidas as promessas; só cá é que não hão de fazer obstáculos?! Pois então na vossa política era invencível a Polónia, porque seguia uma (na vossa opinião) boa causa, e porque era guerra de Nação, e de Independência, e Portugal não há de poder defender-se, há de sucumbir para logo, e há de render-se à discrição?! Oh! Que estúpidas são as gentes, que assim pensam! Qual Causa será mais Santa, qual guerra será mais Nacional, a nossa, a da Polónia?! Eles eram revoltosos, pugnavam contra um Soberano Magnânimo, Legitimo, Poderoso, e que nada tinha alterado a tranquilidade do País, e que antes a tinha afiançado, mantendo os seus direitos, e imunidades, e advogavam uma liberdade quimérica; por isso não poderão vencer: e nós pelejamos contra uma horda de foragidos, condenados à morte pelas leis do Reino, contra um chefe ilegítimo, odiado pela Nação, nosso perseguidos, traidor à Pátria, fraco como uma abóbora, sem virtudes, nem Morais, nem políticas, nem Religiosas; mau pai, mau filho, mau marido, mau irmão, mau Rei, e péssimo... a lembrança de que é Irmão d’ElRei Nosso Senhor, é que nos suspende a pena; por isso de certo havemos de vencer. Como poderá ter força moral para sustentar um Reino de macacos?! Esta a única lembrança é bastante ridículo todas as suas empresas: e porque pugnamos?! Pugnamos pela Liberdade sólida, e Legal da Nossa Pátria; pugnamos por aquelas leis, que já contam quase sete Séculos; por aqueles usos, e costumes, que em Portugal produziram homens como foram os Gamas, os Alburquerques, os Pachecos, os Castros, os Cunhas, os Ataides, e tantos outros, que foram o assombro do Século de 500; pugnamos pela Causa, que pugnaram D. Nuno Alvares Pereira, e João das Regras, um com armas, outros com as letras; pugnamos pelo mesmo, que pugnaram os quarenta Aclamadores em 1640; pugnamos finalmente pela Causa de um Rei, que é o melhor dos Reis, a quem Deus protege, a Providência defende, e a Nação adora, cujo Trono são os corações de seus vassalos, o Muito Alto e Poderoso Rei Senhor D. MIGUEL I.: este Nome Angelical, Símbolo da Victoria, só por si levado ao meio das fileiras de 80$ homens que para a Sua, e nossa defensa se armam, será bastante para afugentar as invasões de Xerxes, e produzirá nos arraiais inimigos o que nos arraiais do Filisteus produzi a Arca Santa, quando foi conduzida aos ombros dos Levitas. Venit Deus in castra diziam aqueles incircuncisos, quando apoderados de um terror pânico abandonavam o Campo; e estes nossos rivais nem isso saberão dizer, porque são Ímpios, e Ateus.) D. Tr.

(continuação, IV parte)

18/06/15

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 16 (III)

(continuação da II parte)

Os Mestres

Ninguém suspeita que a nossa Religião favorece a ignorância como sua aliada. A nossa Religião que desde o seu berço sustentou os mais renhidos combates com a sabedoria humana, e cantou a vitória sobre os Celsos, Porfírios, e Julianos, como há de temer o bando de petimetres, e de ignorantes, que têm querido mais insultá-la, e vilipendiá-la, que combatê-la nestes últimos tempos? Quer, e deseja ardentemente a nossa Religião, que seus filhos sejam, ainda mais que nas ciências humanas, instruídos na ciência dos Santos; nem a que acompanhou os Justinos, os Atenágoras, os Crisóstomos, e os Agostinhos, foi jamais exclusiva de toda a variedade de conhecimentos humanos, que fazem parte das coisas que Deus entregou à livre discussão dos Sábios. Tudo o mais que se divulga sobre esta matéria, como se a Religião Cristã fosse inimiga do crescimento das luzes, quando ela só é inimiga das trevas, e do que se gera e inculca no seio das trevas, procede ou de ignorância, ou de malícia, e importa que este aleive se desminta por todos os modos, que estiverem ao alcance dos sinceros amigos da sua Pátria, e se declare à face dos Ceus e da terra o que são os Mestres devassos de costumes, e seguidores de perversas doutrinas. E como se há de haver com seus discípulos um mestre que só considera nas tenras plantas, que lhe foram entregues, uma coisa bem pouco acima dos vegetais, que nasceu para viver e morrer, e que não deve ter esperanças de uma vida futura? E desgraçadamente há cópia de dais mestres no Reino de Portugal!!! Daqui vem, que no ensino da Filosofia racional e moral se omite por muitos Professores, como desnecessária, e supérflua a terceira parte da Metafísica, que trata de Deus, e nem uma só palavra se estuda dos últimos capítulos da Ética de Heinécio, que são os mais importantes, visto que se trata neles dos meios para se conseguir a felicidade. Tenho presenciado muitas vezes a decadência dos estudos, sem lhe poder acudir, nem dar remédio!!! Não pára aqui o arrojo de tais Mestres, que demais a mais inábeis e incipientes, nem os seus pecados são meramente de omissão, sobem de ponto os de comissão por certo mais agravantes, e mais escandalosos! Que há de fazer um pobre Discípulo, que escuta o seu mestre, como se fosse um oráculo, se este oráculo anuncia nas aulas menores os princípios de um refinado materialismo (é inizivel a astúcia com que os próprios mestres de Latim podem insinuar a seus ouvintes os mais errados e perversos documentos. Queixa-se um sábio escritor Francês (Mennais) de que os sobredictos Mestres são traduzirem a passagem de Virgílio Auri sacra fames, o faziam deste modo: Sacra fames, a fome Sacerdotal auri do ouro, e assim começavam de acender as primeiras faiscas do incêndio com que eles queriam abrasar a Igreja de Deus), e nas maiores, que é desnecessária a revelação, que o Catolicismo tem sido sempre o mantenedor, e a capa do despotismo, e que o Concílio Tridentino apertou as cadeias, que os Reis tinham lançado ao género humano; que este Concílio não foi ecuménico, que os Sacerdotes não carecem de jurisdição para confessarem, e absolverem validamente, que a doutrina vulgar das Indulgências é um tecido de erros, e de superstições, etc. etc.? Pois que diremos dos Sapientíssimos Lentes, e Professores infectos do maçonismo? E dos aspirantes ao Magistério, seduzidos com a esperança de suplantarem, e fazerem depor seus mestres, cujo maior erro tinha sido habilitar para o magistério estas crianças na ciência, e nos anos? Estamos para ver se ainda continuam a ensinar os Mestres conhecidamente Pedreiros Livres, que será este o final extremo... e se as providências tomadas sobre o exame do liberalismo dos mestres se reduzem a simples formulário, e temos justiça de compadres, sairá brevemente do exercício das aulas uma nova geração, quase toda Maçónica, e por conseguinte desafeiçoadíssima ao Trono, e inimiga do Altar...


Para que os meus Leitores não fiquem assentando que eu sou exagerado nos meus receios, devem saber que em algumas casas de educação já se ia abolindo de facto o Sacramento da Penitência, e que era necessário aos alunos, que ainda professavam o Catolicismo, saírem como a furto, ou darem outros pretextos da saída; e eu mesmo encontrei alguns nestas louváveis empresas, durante os poucos dias de Junho, que residi na Capital do Reino; e era voz constante que nesta última Quaresma, e já na antecedente ficaram por desobrigar muitos alunos, porque não só os não mandavam, mas até os arguiam de que se quisessem confessar. Notei igualmente que o Método de Lencaster, ou Ensino mútuo, que se plantou modernamente em Lisboa, ainda prossegue, e com aplauso; o que me fez pensar que talvez ainda se ignore neste Reino que ele já foi proibido em muitos lugares, onde reina o Catolicismo, e tem contra si alguns dos mais abalisados, e religiosos escritores do nosso tempo. Oxalá que os Portugueses, e nomeadamente os Pais de Família se resolvam de uma vez a abrir os olhos, e se convençam de que uma barquinha lançada a um mar tormentoso, sem direcção, e sem leme, forçosamente há de padecer naufrágio. Que importa que seus filhos sejam umas águias, que adornem os seu espírito de muitos e variados conhecimentos, se é quase inevitável perderem as almas!!! Que tesouros, e dignidades podem ressarcir os mancebos de tão lastimosa perda!!! Carecemos de uma inteira reforma de estudos em Mestres, e em Livros, e já é tempo de seguirmos o exemplo da Áustria, e Nápoles, e do Piemonte; e se estes reinos se antolharem a certos Leitores, como possuídos de fanatismo, dignem-se ao menos de imitarem Frederico II Rei da Prússia, e Catarina II da Rússia, que sendo o primeiro Ateu, e a segunda Cismática, não temeram confiar a Frades Católicos a direcção dos estudos da mocidade de seus reinos. 

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LISBOA: NA IMPRESSÃO RÉGIA. 1823

Com licença da Real Comissão de Censura

27/03/15

CONTRA-MINA Nº 9: D. Miguel I no Trono, Por Milagre

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 9
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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O Senhor Dom MIGUEL I Está Milagrosamente Assentado no Trono de Portugal

Quando se trata de meter pelos olhos dentro à Nação Portuguesa, ou os males gravíssimos, e incomensuráveis das Revoluções passadas, ou o tremendo perigo de uma nova Revolução, que urdida, e executada por Mações lhe apagaria, como tantas vezes tenho dito, até o seu próprio nome, é de força que um escritor amante do seu Rei, e da felicidade da sua Pátria, mais de uma vez se comova, e sinta perplexo, e sobremaneira angustiado; e por isso é absolutamente necessário, que busque de tempos a tempos certo desafogo, e que, passando de coisas tristes para as alegres, trabalhe, quanto nele for, para descobrir nestas uma perspectiva agradável de futuros, que não se assemelhe com o que temos experimentado, e sentido.

Este salto de umas coisas para outras muito diversas parecerá talvez a certos leitores minimamente severos, e escrupulosos uma falta de ordem, assaz digna de estranhar-se, e repreender-se; mas devem saber, que se permitem, e hão de permitir sempre estas pequenas, ou grandes liberdades a um escrito, onde não há esmero de satisfazer os preceitos da arte de escrever, e onde o coração faz, para assim me explicar, todos os gastos da empresa literario-anti-Maçónica. Além disto, se a esperança, e o medo costumam ser dois grandes moveis das acções humanas, parece que não me desviarei do meu intento, se entresachar as narrações lúgubres de outras aprazíveis, por tal arte, que os meus leitores aborreçam de morte as causas das revoluções, e os seus péssimos efeitos, e se afervorem cada vez mais na devida homenagem ao antes nosso Pai, e Libertador, que nosso Legítimo Soberano. 

Em poucos meses de Revolução, que tem experimentado a França? Em poucos dias de Revolução, que amargos frutos tem já colhido a Bélgica? Ainda em menos tempo de Revolução, qual será brevemente a sorte de Varsóvia, e dos seus alucinados habitantes? E que lição está dando o pequeno Reino de Portugal, e que gentes ilusas, estouvadas, e delirantes, que se deixaram arrastar das persuasões, e ardis do Maçonismo? Quando eu espraio as minhas considerações por todos esses Reinos agitados pela fúria das Revoluções, sinto-me passado de terror, e de indignação... Olho para este Reino de Portugal, e para quem está assentado no seu Trono, e logo me fortaleço, e reanimo; pois vejo tão claramente impresso aos destinos do Mui Alto, e Poderoso Senhor D. Miguel I o cunho de uma singular Providência, que desde a sua marcha pelos campos de Santarém até a sua entrada no Porto de Lisboa não conto senão prodígios; assim como desde 22 de Fevereiro de 1828 até ao dia 16 de Janeiro de 1831 vejo diante de mim uma candeia estupenda, em que o número dos milagres fica muito acima do numero dos dias, e oferece mais larga matéria ao justo assombro dos leais Portugueses, do que os seus para sete séculos de duração, que já conta a Monarquia Portuguesa. Se os nossos inimigos pudessem ter a sinceridade dos Magos de Faraó, em vez de se assoalharem por meio de ridículos protestos a sua inépcia, e maldade, já teriam reconhecido à face da Europa, que o dedo do Omnipotente figura, e como se imprime em todos os negócios do Senhor D. MIGUEL I. Não me ocorreu fora de propósito esta lembrança dos Magos, que se estes à força de prestígios, e supostas maravilhas contrariaram, quanto neles foi, os desígnios da Providência a favor de Moisés, e do Povo escolhido, também estes Magos, (que é um grau honorífico entre os iluminados) moveram quantas pedras havia para que um Príncipe, que não estava preso, mas que não estava livre, ou nunca viesse para este Reino, ou viesse maniatado, e sem acção, que fosse propriamente sua, e em todo o caso viesse um vaso estrangeiro!!! 

O Mui Alto, e Poderoso Senhor D. MIGUEL I, assim como é, no meu entender, o melhor dos Reis, também é por necessária consequência o mais generoso; e saibam os seus inimigos, que este verdadeiramente Régio predicado é que os livra de se parentearem à Nação Portuguesa essas odiosas tramas, de que se envergonharia o próprio Machiavello, se hoje tornasse a escrever, esses contínuos, e incessantes esforços de legações inteiras, (a quem pagava com a mão larga o Reino de Portugal) que se esmeravam sobre modo, não para se verificar a integridade do Território Português, quando mais convinha que se fizesse, mas para que deixasse, ou acabasse de Reinar a Casa de Bragança!! Quando os Portugueses souberam exactamente o que se passou desde o extermínio, na Fragata Pérola, até ao regresso de Viena, hão de ficar assombrados, e cairão por terra debulhados em lágrimas do mais puro agradecimento ao Deus dos Exércitos, que nos guardou o nosso Restaurador, como já tinha guardado os meninos na Fornalha da Babilónia; mas enquanto não chega o tempo, (e quando virá ele?) de se falar despejadamente nestes assuntos, seja-me permitido lançar mão das ideias vulgares, que até por estas poderemos verificar a existência do milagre. Dizia-se geralmente neste Reino, quando o Senhor D. MIGUEL I passou por alto os barracões, e atirou com a Sinagoga liberal aos infernos, que ele certamente vinha encostado à Protecção de uma grande Potência, e era dirigido pelas instrucções de um grande homem de Estado... Assim falou, e errou muita gente boa, e o mais é que foi dos erros chamados secundum artem. Foi esta a voz pública, , e a dizer a pura verdade (porque eu nem sou impostor, nem blasono de ter grandes ideias públicas) não deixei de aprovar estes ditos, que vogavam por todo o Reino. 

Ora, já se viu pelos efeitos, que o Senhor D. MIGUEL I ao desembarcar em Lisboa não esperou em outra coisa mais que no auxílio Divino, e em sua própria resolução, e valentia. Se os Reis da Europa o tivessem excitado, ou induzido a ocupar o Trono, que lhe pertencia, por certo que seriam mui contraditórios, se o não reconhecessem imediatamente por Soberano destes Reinos; e quanto mais se retardar este passo de verdadeira política, tanto mais forte se há de tornar a certeza, de que o Senhor D. MIGUEL I não contou, nem com Exércitos, nem com o mais leve auxílio estranho, para debelar, como debelou, o maldito Sistema Constitucional.

Escuso agora de ponderar o que eram de profundas raízes do tal sistema degenerador, e de quão numerosas, e rápidas conquistas havia feito, não só em Portugal, mas em toda a Europa, desde a púrpura até ao cajado; posto que daí se tirasse um poderosíssimo argumento, para se mostrar até à evidência, que o Senhor D. MIGUEL I, quando passou adiante, sem fazer caso dos memorandos barracões, onde também não estaria preso, sem contudo estar livre, enrostou desde logo a Maçonaria Europeia. Deixo em silêncio não só aquelas, porém outras muitas coisas, visto que o meu fim não é de louvar neste N.º o Senhor D. MIGUEL I, é sim o fazer entrar os Portugueses cada vez mais, se é possível, na consideração do muito que são devedores a este novo Restaurador da Monarquia Portuguesa.

Ora os exemplos costumam ferir mais, e provar melhor do que os argumentos, e por isso eu tenho singular afeição aos Paralelos Históricos, que são talhados para se conheceram demonstrativamente quaisquer semelhanças, ou diferenças, que possa haver entre os diversos benfeitores das Nações. Como estava o pequeno Condado de Portugal, quando o Senhor D. Afonso Henriques principiou a governá-lo? Teve logo à sua disposição um Exército, que repetidas vezes triunfara dos Mouros, e alentado com as dezassete batalhas, que vencera o Senhor Conde D. Henrique de Borgonha, o qual até no seu falecimento em Astorga nos deixou um claro testemunho, de que os Portugueses desses dias intentaram coisas maiores, do que esses que lemos nas apoucadas notícias deste Soberano. Teve pois à sua disposição um belicoso, e fidelíssimo Exército; a saber, os conselhos, e a espada de Egas Moniz, e assim mesmo a victória do Campo de Ourique foi um milagre visível, que eu ponho logo abaixo dos que se contam no Evangelho.... Que viu de longe neste Reino o Senhor D. MIGUEL I, que no meu conceito deveria contar os anos do seu Reinado de 6 de Março de 1826? Não viu nesta época nem Exércitos armados em pró da Legitimidade, nem Egas Moniz que o ajudasse igualmente com a espada, e conselho...... não viu, ou para melhor dizer, não ouviu outra coisa mais, que os suspiros da Lealdade Portuguesa, que lá chegavam a furto, e que lhe feriram por tal arte o Magnânimo Coração, que lhe excitaram em continenti o mais vivo desejo de nos arrancar as sedentas garras do Maçonismo, não menos vorazes, porém mais terríveis que as da morte, pois estas cortam somente os fios da vida temporal, e aquelas trazem consigo os males infinitos da mais espantosa eternidade. Grande coisa foi levantar-se o Trono Português sobre os estragos da Mauritânia, porém ainda é coisa maior esmigalhar o ceptro de ferro, com que os Mações o dominavam, ou tiranizavam, e Mações poderosamente auxiliados por toda a Europa, sim iludida e cega, mas obrando toda em sentido favorável ao Maçonismo Português.

Que temos nós de admirar no primeiro Restaurador da Monarquia Portuguesa o Senhor D. João I? Que viu ele em Portugal na pouco sentida morte do seu Irmão o Senhor D. Fernando? Um desgosto, e oposição geral ao detestado governo da Rainha Regente, e uma tendência nacional, e como irresistível para a sua Pessoa, que até os meninos o aclamaram Rei ao entrar em Coimbra, antes que as Côrtes pronunciassem o seu voto em tão importante matéria. Que viu ele nas Cidades deste Reino, e especialmente em Lisboa, em Coimbra, e no Porto? Viu na primeira um amor, que trespassou os limites da razão, e da justiça; quando ali soou falsamente que o Mestre de Avis fôra assassinado em Palácio; e nas outras duas houve, se não igual, ao menos uma quase semelhante, mais explosão, que demonstração de fidelidade.... Ora o que viu, ou podia esperar o Senhor D. MIGUEL I das próprias Cidades, já se tem metido pelos olhos, e não posso neste lanço maior prova de moderação, e até de caridade, talvez muito mal empregada, do que apontar os sucessos de Maio de 1829, o armamento por duas vezes da mocidade Académica, a mui felizmente debelada conspiração do Brigadeiro Moreira, afora outras, que hão de saber-se a seu tempo, e consignar-se na História Portuguesa, como outros tantos monumentos da intervenção celeste a favor do mui Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I. 

Não desconheço, que a segunda Restauração de Portugal foi muito mais prodigiosa do que tinha sido a primeira. Achava-se este Reino em 1640 empobrecido, e quase exausto dos meios indispensáveis para a guerra; porém o Senhor D. João IV foi logo reconhecido, e auxiliado pela França, que embora nos preterisse, bem desairosamente para ela, no Tratado, ou Paz chamada dos Pirenéus, quando assim mesmo ( e não temo dizê-lo, por que sou mais amigo da verdade que da minha Pátria) enviando para este Reino o Marechal de Schombery, muito mais nos dava nos conselhos deste grande homem, que nos 10 ou 12 homens, com que nos podia auxiliar. Que socorro estrangeiro teve o Senhor D. MIGUEL I em os primeiros seis meses do seu Reinado? Que Potencias o recolheram? Achou por ventura o Senhor D. MIGUEL um Exército penetrado dos mais puros sentimentos de Lealdade para com a sua Augusta Pessoa, um Exército nacional a toda a prova, qual o achou ElRei D. João IV, ou preparou dentro em poucos meses? O que ElRei Nosso Senhor achou foi um Exército verdadeiramente Constitucional, governado por Oficiais escolhidos ao tabuleiro, ad hoc pelo façanhoso Saldanha, e não só achou o Exército nacional assim disposto, ainda achou mais outro que fôra mandado por Canning, (que deste modo costumam ser enganados os Reis, e as Nações mais generosas) para suster neste Reino a Maçonaria periclitante, e derramá-la, quando melhor conviesse, em toda a Península.

Estou certo, que a Posteridade, a saber de todos estes obstáculos, a qual deles maior, e mais assustador, que cercaram o Senhor D. MIGUEL I ao entrar neste Reino, há de perguntar cheia de pasmo, e de assombro. Como foi possível, que um só homem se desembaraçasse de tamanhas contradições, e de tamanhos perigos? Não admira que assim venha a explicar-se nestes assuntos, quando nós todos contemporâneos, e testemunhas oculares de tão grandes acontecimentos já o perguntámos uns aos outros, como quem não sabe dar-lhes outra saída, que não seja esta - O Senhor é quem há feito o que nós vemos, e que por mais que o vejamos, e contemplemos, há de ser cada vez mais admirável aos nossos olhos. 

E terei eu dito o que poderia dizer em abono desta verdade? Nem a centésima milésima parte.... E já que o prometeste aos Leitores, porque não desempenhas a tua promessa? (dirá talvez algum impaciente de saber quanto haja de mais notável, e prodigioso nesta última Restauração) Porque ainda não convém que se diga tudo, e porque seriam necessários pelo menos doze Números para indicar a matéria; que o explaná-la dignamente, é uma tarefa maior, e própria dos Historiadores; o caso é, que só para dar a entender, ao menos de longe, o que tenho deixado em silêncio, atrevo-me a comparar os destinos do Senhor D. MIGUEL I com os próprios da Igreja Militante. Esta Obra do Céu já teria caído por terra em nossos dias, se fosse obra dos homens. O Senhor D. MIGUEL I já teria caído do Trono, se a sua vocação ao Trono fosse obra humana. 

Colégio do Espírito Santo em Coimbra
16 de Janeiro de 1831 

Fr. Fortunato de S. Boaventura.

15/08/14

"JUDEUS E MAÇÕES" - Artigo, 1906

Da católica e aprovada revista mensal "Voz de S. António" (mês de Janeiro, 1906):

"Judeus e mações. - Completamente distintos historicamente, no campo das ideias e interesses, judeus e mações, entendem-se admiravelmente, unindo-se harmoniosamente em defesa duma causa, que parece comum.

Ninguém suspeitaria esta liga de elementos, que a todas as luzes pareciam heterogéneos, se os factos a não tivessem revelado, e por uma forma a não deixar dúvida.

A revolução da Rússia oferece mais um facto a favor desta afirmação. É sabido - todos os jornais têm dito - que os judeus têm sido perseguidos na Rússia, pelo povo, que mata e incendeia a torto e a direito sem dó nem compaixão.

O que, porém, se não sabe talvez, é que a maçonaria, que em França sacrifica, com prazer e voluptuosidade tigrina, milhares de vítimas inocentes, sujeitando-as a torturas piores que a morte, se sentiu profundamente magoada, na delicada sensibilidade do seu altruísmo, pelos morticínios de seus irmãos israelitas na Rússia!

Foi tão funda, sincera e pungente esta dor, que a suprema direcção maçónica enviou, desde Roma, circulares a todos os Grandes-Orientes, mandando que os judeus sejam por toda a parte protegidos e considerados, para todos os efeitos, como irmãos, patenteando-se-lhes a entrada nas lojas (salvo seja!) por forma que possam conhecer e utilizar-se do sinal de socorro, nas revoltas populares, e por esse modo ser socorridos por seus irmãos.

Este sinal de socorro é hoje bem conhecido e assás divulgado no mundo profano. Consiste, segundo leio numa revista estrangeira, em cruzar as mãos sobre o peito com as palmas voltadas para fora. É a cruz que dizem entrar em várias cerimónias maçónicas, mas sempre deturpada e profanada."

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