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27/02/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (V)

(continuação da IV parte)

1ª Letras humanas


Direi só uma palavra, sendo-me fácil dizer muitas ao caso... O estudo das Línguas orientais no conceito da Europa sábia é de absoluta necessidade para quem capricha de se estremar dos Hotentotes, e Caraíbas. Quem soube, e sabe a fundo neste Reino a Língua Santa, a Língua Hebraica, se não os Frades? Se me vierem à mão com um dos mais egrégios sabedores desta Língua em nossos tempos, que era Cónego Secular do Evangelista, e morreu Bispo do Funchal, respondo que esse mesmo entra facilmente na regra geral que assinei tratando dos filhos de S. Filipe Néri, e S. Vicente de Paulo...

Quem duvida que o conhecimento da Língua Árabe é importantíssimo nesta Monarquia por amor das nossas relações com as Regências Barbacenas, em que vai muito a segurança do nosso Comércio, e o recobrarem a sua liberdade muitos dos nossos Compatriotas, que gemem nos ferros, e masmorras de Argel? Quem são os sabedores desta Língua? Os Frades da Terceira Ordem, e que por sinal as Côrtes Ordinárias tiraram ou furtaram o que lhes pertencia, e eles tinham ganhado à custa de mim trabalhos e perigos; e notarei de passagem que se a Academia Real das Ciências de Lisboa atraiu recentemente os louvores da Petropolitana deve-o aos escritos de um Frade mui perito nesta Língua.

2ª Agricultura

Dá-se uma volta, por todo o Reino, e onde influem, ou dominam Frades, aparece tudo no maior auge de perfeição, e cultura, empregam-se muitos braços, e subsiste muita gente de se aplanarem montanhas escabrosas, e até vive uma infinidade de pedreiros de se construirem grossas paredes, que obstem à fúria das correntes, e das inundações. As próprias terras, que pagam quarto e dízimo,  longe de serem abandonadas recriam os olhos pela sua formosura, e enchem os celeiros do Lavrador pela sua abundância. Comparem-se as quintas dos Jesuítas no seu estado actual ao que já foram algum dia, e ficará o ponto da agricultura resolvido de maneira, que não possa admitir mais objecção ou réplica.

3ª Socorro aos pobres, aos mendigos, aos enfermos, e a toda a casta de infelizes...

Há Ordens Religiosas especialmente destinadas para a redenção dos cativos, e para assistirem aos enfermos, e às Heroínas Cristãs filhas de S. Vicente de Paulo começam de assombrar a Capital do Reino com os prodígios de caridade já vulgares no resto da Europa. Ora neste particular quem será tão cego, e tão ousado, que negue os quotidianos bens físicos que as Ordens Monásticas e Mendicantes fazem de contínuo à pobreza? Haja vista às portarias dos Frades na hora de jantar, e ainda o que se vê, e admira, é o menos.... Haja vista aos remédios que se distribuem gratuitamente das suas boticas para os enfermos necessitados, haja as avultadas porções de alimentos que saem para muitas pessoas honestas e recolhidas; e se pudessem ver-se outras esmolas feitas no espírito do Evangelho, sem a esquerda saber o que faz a direita; esmolas não só das comunidades, mas também dos particulares; esmolas, que tantas vezes arrancam a pobre donzela das garras da indigência e do demónio, e livram a triste viúva de ver expirando à fome os seus queridos filhos... apareceria uma soma de benefícios capaz de impor silêncio aos maldizentes, e aos Pedreiros....

Mosteiro de S. Cruz de Coimbra, eu desafio todas as Casas Seculares, e Episcopais deste Reino para me apresentarem um só rival que chegue a ombrear contigo, e só me daria por vencido quando se pudesse mostrar, o que é impossível, que tu não és como o primeiro delegado da Providência na Cidade que te conhece te respeita, e que te professa um amor tão justo como encendido!!

4ª Ciência

Os Frades não sobressaem em todas, porque os não deixam matricular em todas. - Fossem Canonistas, e Legistas, assim como são Teólogos, e veríamos... Que progressos não fizeram na própria Faculdade de Medicina os Frades de S. João de Deus, enquanto lhe não fecharam a porta!! Se lançarmos uma vista de olhos para a Ciência que menos tolerava admitir Frades no seu grémio (que a dizer a verdade nem Rogério Boschovich era para a indispor contra os Frades, nem ao seu Criador neste Reino se podia tirar a nódoa Jesuítica) veremos que sendo necessário dar-lhe impulso e vida, entram nela um Frade Bento, um Frade Grilo, e um Frade de S. João de Deus.

Não me foge ao concluir, uma certa objecção que algum dos que presumem de oculatíssimos poderá fazer-me, e é que injuriei o Clero Secular no que tenho expendido!!! Olhe, meu tolinho, meu Pedreiro disfarçado, fiz ao Clero onde conheço muitos, e mui virtuosos Membros, e onde conheci e tratei de perto um D. Manuel de Aguiar, a mesma injúria que podia fazer aos Frades, quem ao ver o estado actual das nossas Missões Americanas se pusesse a gritar. Enfim venha quem vier... só Jesuítas faziam aqui milagres.... tudo aqui mostra e confirma, que Deus Nosso Senhor roborou a sua Igreja com o subsídio que lhe trouxe o glorioso S. Inácio.

Sobre Frades essenciais ou não essenciais à Igreja, sobre o não haver Frades na Igreja Primitiva, e sobre a propriedade nacional dos bens Fradescos, ainda se falará conforme a importância do sujeito, mas importa agora combater mais directamente os Pedreiros Livres.

Conclusão

O Despotismo é sempre abominável para mim, que lhe professo aquele horror, para que a razão e o Evangelho de sobejo me autorizam.

Quer ele me apareça vestido de farrapos constitucionais, quer de fardas azuis, ou vermelhas ricamente agaloadas, quer de púrpura, há-de ser o eterno sítio da minha indignação, e do meu desprezo. Nunca hei-de fazer tréguas com ele, ainda que me seja necessário mudar de pátria.... Por dois instantes, que me restam para viver, confio em Deus que me assistirá com os seus dons para nunca desmentir o meu carácter, e os meus princípios. Em França há Monges de S. Bernardo, e é quanto basta para quem não quer mais nada deste mundo.... Ninguém pois se deve ter por mais autorizado que eu para ser um eco da pura verdade.

Quando acabaram de crer os Reis da Europa que sobejas vezes têm sido enganados por seus Ministros, infames adeptos do Maçonismo, que tudo é carregar sobre os Frades, arrancar-lhes até os olhos da cara, enquanto eles se tratam à grande, e levantam casas mui opulentas à causa de uma venalidade, que seria indecorosa nos próprios gabinetes de Nero, e Calígula? Que serviços tem para alegrar as suas respectivas nações, que eles fizeram governar por Ateus, e Pedreiros Livres, dando-lhes os empregos mais honrosos e lucrativos, e porventura assinando a condição sine qua de ser Pedreiro Livre para entrar nos Ministérios Eclesiásticos, e Civis? Homens grimpas, e versáteis como as suas ideias ambiciosas, que só estas fazem a mola real de todos os seus procedimentos, são de ordinário os primeiros, que, fechando as bolsas quando se trata de acudir às necessidades da pátria, tudo é denunciarem os bens dos Frades, que muito embora pereçam de forme, em paga de terem sustentado o peso da indignação maçónica!!

Não é de presumir que entre nestas generalidades o Rei de Portugal, que tem um Soberano cordial amigo dos seus Povos, e sinceramente apegado às instituições antigas, e que (eu o afianço aos bons Portugueses) não ama os Pedreiros Livres, como se irá vendo cada vez melhor pelo decurso dos tempos. Ninguém sabe melhor que ele a que ponto subiram nesta época os sentimentos de lealdade nas Ordens Religiosas.... Quem premeia largamente os que só por breves horas desembainharam a espada a favor da Monarquia, não terá ânimo de castigar as Ordens Religiosas, por lhe terem sido extremamente fiéis, e por terem passado três anos de mortal agonia sempre com o cutelo na garganta, e prontas para o extermínio, para a desolação, e para a morte, o que lhes seria mais doce, que o apostatarem da fidelidade ao Trono. As Ordens Religiosas acham-se de todo exaustas; os povos ou foram exonerados pelas Côrtes de pagarem metade, ou para melhor dizer tacitamente o foram de pagarem um só real que fosse, pois a tanto chegaram os extremos do ódio, e da perseguição! (*) Gravalhas, e oprimi-las de novo será o mesmo que condená-las a um género de morte por ventura mais consumidor e mais tirano, do que esse que ameaçava infligir-nos o Sistema Constitucional; e aliviá-las será dar um devido prémio por sua fidelidade à Religião e ao Trono, e pelas injúrias e perseguições, que resignadamente sofreram: daqui resultaria uma grande utilidade pública, e um grande aumento à defecada agricultura, que assim como tem encontrado nos claustros o seu maior progresso, acharia também agora neles o seu restabelecimento; aliás virá a sentir em muitas Províncias as convulsões de um moribundo, com notável prejuízo do Reino: o que será um tremendo golpe sobre o mais interessante ramo da opulência nacional.

(continuação, VI parte)

29/01/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (III)

(continuação da II parte)

Mosteiro de Alcobaça
Brevíssima Enumeração, ou Indicação Dos Serviços Feitos Pelas Ordens Religiosas à Monarquia Portuguesa

Antes de começar este acto de justiça para com as Ordens Religiosas estabelecidas neste Reino, deverei protestar, que apenas escrevo o que tenho de memória, e que fica salvo o direito a cada uma das sobreditas Ordens para manifestarem ao público as suas utilidades pretéritas e presentes. Oxalá que este meu ensaio conseguisse animá-las todas, para que cheias de um nobre e santo ardor pela sua respectica glória, deputassem os seus mais beneméritos filhos para escreverem, ao menos resumidamente, sobre tão importante objecto! Destinando-me apenas a indicar-lhes a gravidade, e o interesse, repartirei os serviços dos Frades pelas épocas mais notáveis da História Portuguesa.

1ª Antes da Monarquia:

Quem foram os que sustentaram na antiga Lusitânia os restos de um atenuado, porém glorioso Catolicismo, senão os Frades? Quem foram os cooperadores da liberdade das Espanhas, quando mais inundadas de Mouros, senão Frades? Que foram as Ordens Militares das Espanhas em sua origem, senão Comunidades Religiosas, que incessantemente ou levantavam suas mãos ao Céu, ou brandiam nos campos a lança e a espada? Quem foram os que rebatiam a fúria dos Agarenos no campo de Montemor-o-Velho, senão os Frades capitaneados pelo Abade João? Quem foram os principais auxiliares da restauração de Coimbra nos dias de Fernando Magno, senão os Frades Bentos de Lorvão? Derramados estes por todas as Províncias do que então se dizia Portugal, fizeram então mesmo luzir na agricultura aquela Província onde tinham maior cópia de Mosteiros, e não esperaram que Portugal fosse Monarquia independente para lhe desbravarem as montanhas, e reduzirem a cultura as mais empinadas serras, e as mais ingratas penedias, de que pode ser ainda hoje testemunha o Mosteiro antiquíssimo de S. João de Pendorada.

2ª Fundação da Monarquia até ao reino do Senhor D. João I

Aí começam os Pedreiros a morderem-se de raiva, e a vomitarem toda a sua peçonha contra a que eles chamam exorbitantíssima doença feita pelo Senhor D. Afonso Henriques ao Mosteiro de Alcobaça.... E deveria pouco este Rei ao Santo Abade de Claraval, devendo-lhe a confirmação de um título, que conforme as ideias recebidas naquele tempo não irá por diante sem aquela poderosíssima intercessão? E ficará devendo pouco este Reino a uma colónia de Frades, que receberam uns matos povoados de feras, e dentro de um século, à força de cultivarem a terra por suas próprias mãos, apresentaram um jardim aos que vinham de longe pedir-lhes, debaixo de certos encargos, uma parte do fruto e consequência dos seus trabalhos?

Outro tanto se deve afirmar do Mosteiro de Santa Cruz; e só Pedreiros manhosos e refalsos terão cara para ninguém que foram estes dois grandiosos Mosteiros bem como o dourado berço, em que se embalou na sua infância o Trono Português, que sem o poderoso auxílio destes Frades mal poderia combater felizmente os muito e quase insuperáveis obstáculos que o cercaram ao nascer: pois que negócio grave se decidiu naqueles tempos onde não figurassem principalmente o Abade de Alcobaça, e o Prior de Santa Cruz?

É quanto basta para os Mações, que não admitem profecias nem milagres; que se eu escrevera somente para os bons Portugueses, contentava-me de os levar à prodigiosa escalada dos muros de Santarém, e a doação de Alcobaça por certo ficaria a mais justa, valiosa, e inabalável... Pedreiros, eu torno para vós... Quem sabia nesses tempos alguma coisa de Dialectica, de Física, e de Medicina?... Os Frades... e chamamos um Frade primeiro Médico de ElRei D. Afonso III? Quando se tratou de fundar-se uma Universidade, quais foram os principais instigadores de tão profícua e gloriosa lembrança? Os Frades Crúzios, Bernardos, e Bentos.... Não eram planistas em seco, de que abunda, e por extremo, a nossa idade... Concorreram com avultadas somas para o salário dos primeiros Lentes; e a Universidade de Coimbra não poderá levar-se nunca desta origem fradesca, grão desar para ela no conceito dos seus alunos Mações...

3ª Desde o Senhor D. João I até à perda do Senhor D. Sebastião nos campos de África

Quem era o digno restaurador do Trono Português ameaçado nos fins do séc. XIV de cair em mãos de estrangeiros? Era um Frade professo na Ordem de Avis. Quem luzio à frente dos seus aclamadores na Cidade de Coimbra? A Corporação Benedictina. Quem afrontou o poder de Castela, e o dos Alcaides de Óbidos, Torres Novas, e Leiria, que seguiam a voz da Infanta D. Brites [Beatriz], para sustentar a DelRei D. João I, acudindo com viveres ao seu exército postado em Aljubarrota, com um reforço de mil homens bem armados, e com a sua própria pessoa durante a fugida do exército Castelhano? O Abade de Alcobaça D. João Dornela.

Encontro os Frades inesperáveis desse glorioso Monarca em suas expedições ultramarinas: são Frades os seus principais Conselheiros, e muitas vezes fez descansar em Frades o prazo dos negócios públicos.

Mas adiante os Frades acompanham os nosso primeiros descobridores: são eles os que dirigem as Missões Africanas, e especialmente a do Congo; e os Reis de Portugal por indústria dos Frades tem já convertidos à Fé muitos Reis por seus tributários.

Os Frades, como Santo António de Lisboa, D. Fr. Álvaro Pais, e Fr. Vicente o Pregador insigne, e outros muitos precederam a desejada restauração das Letras? Se as humanas tanto medraram e floresceram neste Reino, deve-se o melhor dos seus frutos ao Dominicano Fr. André de Resende, ao Jerónimo D. Fr. Braz de Barros, e aos Crúzios D. Damião da Costa e D. Heliodoro de Paiva.

Se os nossos estudos teológicos darão então um grande brado por toda a Cristandade, quem ignora que os Dominicanos Fr. Francisco Foreiro, e Fr. Jerónimo da Azambuja; que os Eremitas Augostinianos D. Fr. Gaspar do Casal, e D. Fr. João Soares; que o Cruzio D. Pedro de Figueiró, e o Jerónimo Fr. Heitor Pinto, e outros muitos Frades, tiveram a maior parte nestes brasões do Reino Português?

Mas que fui eu dizer! Um Pedreiro, que não conhece o verdadeiro objecto da Teologia, como há de tomar interesse nos progressos da Rainha das Ciências? Um Pedreiro, que tacha de fanatismo as diligências que já tiverem feito ou possam fazer daqui em diante para ser exaltado o Nome de Jesus Cristo, já se enjoaria, e não pouco, das Missões do Cónego; e por isso não o irritemos com a lembrança das nossas Missões da Índia, do Japão, da China, e de toda a Costa de África, nem lhe desafiemos o seu riso de piedade, mostrando-lhe o crescido número de Frades Pregadores e Mártires de Jesus Cristo, e passemos ao exame dos trabalhos que ele mais preza, ou finge estimar.

Os Religiosos de Santa Cruz de Coimbra exercitam, cultivam, e animam por todos os modos a Arte Tipográfica, que mal pensavam eles em que viria a dar esse instrumento da propagação das luzes. Se os Frades Arrábidos, Dominicos, e outros, sabem morrer pelo seu próximo na chamada peste grande de 1569, também os que restaram daquele contágio souberam morrer ao lado delRei D. Sebastião nos campos de África, fechando gloriosamente, no meio das próprias desgraças, e época do maior florescimento das Ordens Religiosas deste Reino.

Debalde se quererão opor os nomes de João de Barros, D. António Pinheiro, e Francisco de Andrade, como verdadeiros Mestres da nossa linguagem, aos nomes dos Carmelitas D. Fr. Amador Arraes, e Fr. Simão Coelho, do Cisterciense Fr. Bernardo de Brito, do Jerónimo Fr. Heitor Pinto, e do Dominicano Fr. Luís de Sousa, que já em 1578 era homem feito nas Letras humanas.. Quem não vê deste ligeiro esboço que todas as glórias, excepto a das armas, competem ao grau mais eminente às Ordens Religiosas!

(continuação, IV parte)

25/01/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (II)

(continuação da I parte)

Mosteiro de Santa Cruz (Coimbra), um dos mais fortes resistentes à ordem de extinção
Rematado o Projecto de Reforma, seguiu-se pedirem ao Santo Padre Pio VI (ora reinante em a Igreja de Deus, e que este Senhor talhou expressamente para os dias mais calamitosos da sua querida Esposa) que o sancionasse com a sua notoriedade Apostólica, e o fizesse dar à execução neste Reino, e seus Domínios. Coroada seja do Pai das Luzes e heroica resistência do Santo Padre aos arestos das Sociedades tenebrosas! Glória ao Pai comum dos Fiéis, que não se abalou nem de promessas, nem de ameaças, e que por meio de repulsas tão judiciosas como oportunas acudiu à Igreja das Espanhas, salvando a de cair nos infernais boqueirões, que lhe abrira a Filosofia dos nossos tempos!! Rondam agora as Ordens Religiosas uma especial homenagem à Cadeira de S. Pedro, que se ela não fosse, teriam caído todas as deste Reino no sumidouro da extinção que foi jurada nas Lobregas e hediondas cavernas do Maçonismo. Declamem agora muito à sua vontade os Teólogos à Paviense, e os Canonistas à moda Gmeineriana contra as isenções e privilégios das Ordens Religiosas. Se por ventura não fossemos imediatamente sujeitos ao Vigário de Jesus Cristo, que seria de nós? Teriam os Bispos deste Reino assaz valor e firmeza para deixarem de lavar o Decreto da nossa extinção, quando isto dependesse unicamente da sua autoridade? A que parece nova Disciplina da Igreja, e que bastaria ser aprovada, e sancionada em Concílios Gerais, para que só este nome fosse uma espécie de mordaça na boca de alguns estouvados Canonistas, foi a nossa tábua de salvamento, pela qual deveremos instar e gritar todas as vezes que formos ameaçados de naufrágio.

Arrebatei-me um pouco; mas quem se atreverá a criminar-me de menos verdadeiro, ou de exagerado? Em todo o caso seria mui airoso para um filho a sair pela honra de sua Mãe ofendida e ultrajada; e qualquer excesso, a que em tais pontos se avalanche o amor filial, costuma ser facilmente perdoado. Continuemos.

Desesperados de conseguirem os Indultos Apostólicos, por que tanto forcejaram, e que lhe foram constantemente negados(no que pode a verdade histórica se deem os justos, e merecidos louvores ao Ilustríssimo Prelado D. José Cherubini, Delegado Apostólico em Lisboa, que informou exactamente o Santo Padre de todos os procedimentos arbitrários, e impios das Côrtes Lusitanas) rasgaram a máscara, e puseram de parte os princípios mais vulgares de honra, e de decência. Fiéis ao princípio geral Fernandino "de que tínhamos bulas para tudo quando quiséssemos" começaram de fazer por autoridade própria os esbulhos, as violências, as trasladações, e confusões para que não tinham podido da obediência ao seus legítimos, e verdadeiros Prelados, e os forçaram a prestar uma obediência contra aquela que tinham jurado na presença de Deus, e de todos os seus Santos... Confundiram os Religiosos de diversos institutos à sombra de uma analogia por eles sonhada, e logo erigida em fundamento dessas misturas conducentes ao fim de promover desordens, e fazer os Religiosos desprezíveis. Arrancaram de seus pacíficos asilos as virgens dedicadas ao Senhor, e as trasladaram para lugares distantes da Capital, onde lhes dava muito nos olhos a observância dos Conselhos Evangélicos que a todo o custo pretendiam acabar, e destruir.

Ora estes diferentes horrores apenas se indicam para terem lugar mas espaçoso em outro género de escritura; mas convém agora que lançadas, para assim o dizermos, estas primeiras delineações do edifício, nos demoremos um pouco não tanto em a questão geral já sobejante tratada, e por ventura exaurida em muitos escritos destes últimos tempos, como no exame das causas desse ódio figadal, dessa aturada perseguição dos Mações contra os Frades, e na sem-razão de tantos e tão iníquos procedimentos.

Eu temo, e por ventura mais que ninguém, cansar a paciência dos Leitores, e por isso mais de uma vez obrigo em qualquer destes números a minha pena a que deixe de correr à sua vontade. Sou breve mais pelo receio de enfadar, do que por falta de matéria. Examinemos pois:

I
Causas Gerais Que Reduzo Somente a Duas

Temporal, a saber, a cobiça dos bens, e riquezas dos Mosteiros. Não se lembram dos autores e fadigas, por que tiveram de passar os antigos Monges, para deixarem um bocado de pão aos actuais; não se lembram do sem número de bocas, que se mantêm às vezes do escasso rendimento de um só Mosteiro; nãos e lembram das grossas contribuições dos Mosteiros ricos para remédio das necessidades públicas; não se lembram de que não há mulheres rendeiros e feitores do Estado, do que são os Monges, e tudo lhes parece mal empregado neles. O que uma prudente economia fez guardar e poupar avulta de tal maneira diante destes olhos fascinados e prevenidos, que lhe parece estarem vendo em cada Mosteiro as delícias de Sardanapalo, ou as riquezas de Cresso. Diz Madona Stael que há uma classe de Pedreiros Livres ou Iluminados, cujo fim principal é assenhorear-se dos empregos mais lucrativos, e que em se vendo ricos, e fartos, andam contentes. Parece-me que são estes os sentimentos de todas as classes maçónicas; e a experiência demonstra que o seu grande princípio é este "O melhor bocado para nós e para os nossos, e o pior de roer para esses cães, para esses profanos".

2ª Moral, e vem a ser a profissão do Catolicismo. Esta ainda é mais forte que a primeira, segundo é lícito discorrer pelo que sucedeu na Revolução de França, onde o saque, e a profanação dos Mosteiros foi o menos, pois em verdade foi muito mais a solene, e jurídica abolição dos votos religiosos, e um dos motivos que fizeram protestar os Bispos Deputados à Assembleia nacional (que não foram cães mudos entre os gritos de morte - A Lanterna a guilhotina, e as espadas nuas, e as baionetas apontadas ao peito) os quais seguidos imediatamente da maioria dos Bispos que foram ao todo mais de cento e trinta (faltando só quatro) e roborados com a sanção do imortal S. Padre Pio VII, viram naquele Decreto mais pesada afronta ao Evangelho, e ao Supremo Legislador dos Cristãos.

É necessário que o Povo Português tenha os olhos abertos para ver o princípio da guerra mais ou menos activa, que há trezentos anos a esta parte se tem feito aos Frades. Os Luteranos, e Calvinistas, cujos maiores pela maior parte foram Ex. Frades, bramiram contra os seus antigos Irmãos. os Protestante não querem ver nem sombra de Frades, e por isso nos Teatros de Londres quando se quer apresentar uma figura ridícula e abominável, assoma algum Comediante vestido de Frade, assim como já o desenfreado Buchanan se vestiu de Frade para castigar a seu Discípulo depois Rei da Inglaterra e da Escócia Jacob VI, para infundir-lhe desde os mais ternos anos um entranhável ódio a quem vestisse hábito religioso. Os Puritanos aborrecem de morte os Frades, e que o digam os nossos Arrábidos que seguiram até Londres a Senhora D. Catarina Infante de Portugal, Rainha da Grã-Bertanha. Os Filósofos do séc. XVIII não têm papas na língua, para dizerem à boca cheia nas suas correspondências, e em milhares de obras impressas, que se devem extinguir os Frades, porque ensinam, confessam, prégam, catequisam, e são causa de que não possa ir abaixo a Religião Católica, segundo eles querem, e ardentemente desejam. Os Pedreiros Livres onde chegam a dominar, tudo é abater as Ordens Religiosas, tudo é intimar aos Reis que se apropriem os bens das Ordens, único remédio para se curarem as feridas da Pátria, que talvez só esses desalmados abrissem, levantando casas para seus filhos, que excedem às vezes em rendimento o de Ordem Religiosas que tem dez ou doze Mosteiros!! Fizeram a mais viva guerra aos Jesuítas, porque os Jesuítas ensinavam, e pregavam; e tudo isto era de graça, pois não custava aos povos nem cinco réis!!! E dado o caso que estes Frades dominassem os gabinetes, e influíssem nos negócios políticos mais alheios do seu estado, não haveria outro remédio para os coibir senão deitar a perder os mais fortes laços que prendiam os povos aos Reis, e estragar as Missões Americanas, Africanas, e Asiáticas? Quem lê a História Eclesiástica, não acha um só Reino convertido à Fé por industria dos Sumos Pontífices, em que não apareçam Frades, e por isso é que os Frades são perseguidos, e debaixo do pretexto de chamar as coisas à primitiva, hão de ser arrancados à obediência do Único que mais proveitosamente os pode empregar em serviço da Igreja Católica!! Até aqui são princípios gerais já sobejas vezes realizados em muitas Nações Europeias, que têm aprendido à sua custa o que são os Frades, e a grandíssima falta que logo se experimenta em todos os Reinos, que cometeram o indiscutível erro de os extinguirem: porém, é justo que desçamos a um rapidíssimo exame das causas do ódio, que se lhes professa neste Reino, onde eles contam inimigos até nas próprias classes onde só deveriam encontrar amigos, e defensores.

Serei o primeiro que se afoite a descobrir uma das principais causas deste ódio, que muitos saberão, e que por efeito de um medo pânico não se atrevem a denunciar. Importa-me agora ser breve, mas claro e terminante.

P: Porque Livros se estuda nas Escolas principais deste Reino a História dos Monges, o espírito das suas instituições, e a natureza de seus privilégios?
R: Nas Aulas por Gineiner, Cavallario, e Dannemair, e cá fora por Mosheim, Gibbon, e outros que tais.
P: Donde é tirado o que dizem Gmeiner, e Dannemair sobre as Ordens Religiosas?
R: De Mosheim, Bingham, e outros Protestantes, de que Dannemair se fez eco, não sabendo dizer senão o que eles dizem.
P: E onde param os Autores clássicos sobre a origem das Ordens Religiosas?
R: Ou são desconhecidos neste Reino, ou jazem no pó das Livrarias [bibliotecas], onde ninguém os consulta.
P: E que há de seguir-se de ais Mestres, alguns dos quais têm sido expressamente condenados pelos Sumo Pontífice?
R: O que nós vemos; e enquanto rejeitada e metida a bula a infalibilidade do Pontífice Romano, se acreditar cegamente na infalibilidade de Gmeiner, de Eybel, de Montesquieu, e Gibbon, e outras tais fontes da História Monacal, não se espere senão ódio mortal aos Frades.

Mutas graças devem eles a Nosso Senhor por terem escapado à tormenta pedreiral, e muito  devem rogar ao mesmo Senhor pela vida e segurança do Império de ElRei e Senhor D. João VI, que mais de uma vez se tem chamado a si próprio o único amigo das Ordens Religiosas. Confio da prudência dos nossos inimigos, que são todos ou Pedreiros ou defensores da Soberania do Povo, que hão de poupar-me o desgosto de aclarar mais e mais o que só por necessidade de sustentar a minha causa deixo apontado para se discutir algum dia mais largamente, e se me for possível, conforme a dignidade do assunto.

(continuação, III parte)

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