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23/01/17

LICENCIATURA EM "GÉNERO E DIVERSIDADE", NO BRASIL!!!


Na Universidade Federal da Bahia podem os desgraçados formar-se em "Género e Diversidade":

"O Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade é uma graduação pioneira no país, cuja primeira turma entrou em 2009. Essa formação universitária surge a partir da iniciativa do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM/UFBA) e vem responder a uma demanda crescente por profissionais capazes de formular, acompanhar e monitorar projetos e ações de materialização de direitos, imbuídos de uma perspectiva crítica de gênero e diversidade, ou seja, em suas interfaces com raça/etnia, idade/geração, sexualidade/orientação sexual etc. Nesse sentido, é um campo de trabalho em expansão, vide o envolvimento cada vez mais intenso de agências de cooperação internacional, organismos internacionais, organizações governamentais e não-governamentais, órgãos e instituições públicas, empresas, dentre outras.
Um(a) bacharel(a) analista em gênero e diversidade pode se inserir em setores bastante diferentes, uma vez que as questões de gênero e diversidade vêm se transversalizando cada vez mais, conforme indica a formalização de acordos internacionais e pactos nacionais e estaduais. No entanto, pode-se dizer que a incorporação dessas questões têm se dado com maior força em agências de cooperação internacional, organismos internacionais, organizações governamentais e não-governamentais, órgãos e instituições públicas, mas também em empresas, por exemplo, que assumam projetos de responsabilidade social e equidade.
Embora não se constitua no único campo de trabalho possível, pode-se dizer que há uma perspectiva mais favorável para esse(a) profissional ao se especializar no setor público, devido ao crescimento do número de Secretarias, Superintendências e demais organismos governamentais dirigidos à garantia dos direitos das mulheres, das populações negras, juventude, entre outros segmentos.

Saiba Mais

Habilitação: Bacharel em Gênero e Diversidade
Unidade Acadêmica: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
Campus: São Lázaro – Federação
Turno: Noturno
Vagas por ano: 50

Número de semestres: 6 (mínimo) / 14 (máximo). Recomendado: 8
Veja currículo e fluxograma".

02/09/16

"ABSOLUTISMO" - CONTRIBUTOS PARA O SEU ESTUDO (I)


À imagem do que fizemos com as palavras "violência", "bons costumes" etc. será agora com a palavra "absolutismo". Contudo há um fenómeno intransponível que nos detém: os livros e documentos antigos registam em Portugal pelo menos DOIS USOS diferentes da mesma palavra, anteriormente à vitória liberal (ano 1834). Iremos também fazer o que hoje se faz: discriminar um usos, mas dando destaque apenas ao uso não liberal; o uso não liberal, anti-liberal é a linha mais desconhecida actualmente (eis o motivo de preocupação desta série de artigos). Ao longo das transcrições, quando for caso disso, juntaremos pequenos comentários para melhor precisar. Recorreremos também à comparação com textos liberais da época, para que o leitor possa melhor assentar na realidade e proteger-se da conhecida propaganda dos vencedores (ou nos que escreveram longe da época e são talvez inocentes vítimas).

1 - Cartas de José Agostinho de Macedo [um dos "terríveis absolutistas"] ao seu amigo J.J.P.L. (1827):

"... ; a Junta Apostólica quer, e promove aquelas sagradas e veneráveis leis, que fizeram grande a Espanha por catorze séculos desde Ataúlfo seu primeiro Rei até Fernando VII seu actual Soberano; a Junta Apostólica quer com afinco sustentar a Religião, e absolutismo... eis aqui as funções da Junta Apostólica, segundo diz o Lençol, e seu apaniguados, e trombetas. Pois a Junta Apostólica, segundo o mesmo Lençol no Manifesto da Catalunha, e em seus detestáveis, e abominandos, e nefandos Comentários, quer uma total sublevação dos Povos contra os Reis; a Junta Apostólica chama a Nação à rebelião e às armas; a Junta Apostólica quer fazer a guerra àquele mesmo Exército Francês, que ela conserva, e que ela paga; quer destronar, banir, desterrar aquele mesmo Fernando, que ela tem defendido a expensas de seu próprio sangue; a Junta Apostólica quer fazer passar o seu ceptro às mãos de seu Irmão; a Junta Apostólica quer arremessar o jugo da obediência. A Junta Apostólica é a fautora de todos os partidos revolucionários, a promotora principal da anarquia; a Junta Apostólica é uma alcateia de lobos, um covil de ladrões, que querem beber o sangue, e despojar todos os bons Espanhóis da suas sagradas propriedades; a Junta Apostólica abusa do nome de J. Cristo e dos sagrados Apóstolos S. Pedro e S. Paulo para destruir a Religião, cometer Regicídios e parricídios, lançar os Espanhóis no abismo da escravidão, da penúria, da miséria, da ignorância, e do desprezo.
Eis aqui, meu amigo, o que é a Junta Apostólica na boca e na pena dos que cozem as costuras do tal lençolinho." (Cart. 3, pág. 5) [Não é lugar para tratar da Junta Apostólica, mas a respeito dela é oportuno transcrever uma notícia da época: "Ciceron, e Narcia, dizendo-se pertencer à Junta Apostólica, formada no reino de Galiza para obrar contra o sistema constitucional em voga na Espanha, retiraram-se a Portugal, entrando por Valença em 19 de Julho de 1820, onde obtiveram passaporte com o qual chegaram ao Portugal a 4 de Agosto seguinte. O Governo extinto aquém o encarregado dos negócios daquele Reino em Lisboa tinha requerido, mandou-os prender por aviso de 7 do mesmo mês; porém da relação do Porto, a pedido do cônsul espanhol daquela cidade. O presidente do tribunal superior de Galiza tem declarado a entrega dos presos na forma da convenção que observou sempre entre os dois reinos, e é de saber que eles se acham ali condenados à morte, segundo diz em sua informação o Intendente geral da polícia. Todavia a Comissão que não acha documento algum autêntico deste facto não julga possível que o julgado (a existir) se execute sem audiência dos réus, porque eles como ausentes não foram ainda admitidos a defesa." Linda coisas do Triénio Liberal na Espanha, que pretendeu dar fim aos resistentes do "absolutismo", inimigos do Liberalismo e constitucionalismo - onde estavam então os tradicionais e ortodoxos católicos da época se não estavam do lado liberal!? Atenda-se também como em 1827 estes anti-liberais da Junta Apostólica consideravam Fernando VII de Espanha reinante em monarquia tradicional, a quem os liberais tinham por "absolutista" (assumam-se primeiro os factos, e eis tantos factos que contradizem a versão hoje difundida hoje por grande parte dos "tradicionais católicos" da Espanha, e não apenas; certamente que se trata de um fenómeno à margem da culpabilidade; já na época os autores portugueses "absolutistas", testemunhos e não teóricos, anteriores à derradeira vitória do Liberalismo em Portugal (1834), deveriam ser ouvidos religiosamente, pelo menos pelos portugueses. É importante ler estes documentos na época, e não posteriormente segundo a letra dos vencedores, ou seus filhos.
Usa de ironia o Pe. Macedo expondo o que diziam os liberais a respeito da Junta Apostólica.]

"Em sentido nos Reis, nos Gabinetes, nos Ministérios alguma oposição, isto é, quando não podem cavalgar, e sopear ["adular"] os Reis, os Gabinetes, e os Ministérios, gritam que o ouro dos Apostólicos, e Jesuítas os têm comprado para estabelecer o Império do Arbítrio, e apagar as Luzes do Século, frustrando os progressos da civilização. Eu espero ouvi-los gritar às Potências do Norte, que se acautelem, que o General Chaves, e o Vice-Geral Canelas já passaram os Pirenéus, para irem levantar o Estandarte Jesuítico do Absolutismo, e do Arbítrio nas muralhas de Cronstadt, e de Arcangel." (Cart. 7, pág. 5) [E que tal? Um "absolutista" da época que nos conta como os liberais associavam "absolutismo" e "jesuitismo", entre outros, e até o "livre arbítrio". Os "absolutistas" aqui apresentados pelos liberais como inimigos das "Luzes" do Iluminismo - e é certo. Como veremos, quase todos os nomes aplicados pelos liberais aos "absolutistas" são não neologismos propositados, e comportam irrealismo: tão irreais que nos deveríamos achar-nos perante uma sui generis criação de "lenda negra". Alexis de Tocqueville (1805-1859, França), conhecido pelas sua análises à Revolução Francesa e da evolução das democracias assume que "a Revolução Francesa baptizou aquilo que aboliu" referindo-se à designação e caracterização de "Antigo Regime"... Na verdade, embora com recurso a alguns aspectos reais, nasceram nomenclaturas difamantes, complementadas com o horrível que a imaginação enfermada tende a produzir, e introduziram uma má ideologia apresentada como antídoto contra o monstro imaginário que criaram; sendo que, ao fim da linha eram a monarquia tradicional e o pensamento e doutrina católica os alvos.]

"Andam estes regeneradores do Mundo, estes Propagandistas da civilização do Globo, estes zelosos salvadores dos Direitos do Cidadão, prégando em missão aos Povos: "Filhos, nós vimos emancipar-vos, vimos tirar-vos das cadeias do servilismo, despotismo, e absolutismo; vimos apagar as fogueiras da Inquisição; vós não sentireis mais o pesado jugo do Fanatismo."" (Cart. 7, pág. 6) [Como vemos, as sementes dos males do nosso tempo já ali estavam e eram conhecidas como malignas pelos "absolutistas" de melhor ortodoxia. A "opressão", a "Inquisição", tudo isso era já tema de ódio explorado não só pelos liberais, mas anteriormente pelos Luteranos... O liberalismo, além dos falsos princípios onde assenta, tem também terreno adequado no Protestantismo; lamentável é que Juan Manuel de Prada, teimosamente radicado no infeliz conceito liberal de "absolutismo", que o tradicionalismo espanhol nunca chegou a expurgar de si, por motivo de ódios não ultrapassados em tempos de Filipe V, se recuse a aceitar a existência de vários usos do mesmo conceito na época, e imponha assim o espanhol como único que para todos terá de servir... Lamento, e esperemos que mude de opinião, assumindo que factos são factos, e que em Portugal houve outro uso, e que provavelmente na Espanha houve o mesmo quem em Portugal!]

"Lá vai um Apostólico.... diz uma voz, que sai de uma bodega, ou do pescado seco, ou do pescado molhado; chegam todos à porta para verem a nova Phenix, que todos dizem, que existe, e que ninguém viu ainda; já vai... quem é? É aquele Clérigo!! Olha que dinheirama da Junta Apostólica! Lá vai, vamos atrás dele.... lá vai andando com umas botas velhas, com uma sobrancasaca que por cinquenta e sete terças feiras esteve pendurada na Feira da Ladra, com um chapéu, que tem andado por vinte cabeças, direito à Sacristia de S. António da Sé buscar seis vinténs, que estavam esperando por ele em cima do bofete. Pois este miserável, que vai comer atrás da porta de uma escada meio pão com um queijo de Montemor, ou meio arretel de ginjas [230g.], é um Apostólicos nadando em dinheiro, que vai levar o Prel para o inflame Guerrilheiro Vasconcelos; e bem se vê que é um inimigo da Legitimidade, e da Carta, e que quer o Absolutismo, e as fogueiras da Inquisição para viver de abusos, com os válidos, e lisonjeiros, e os outros zangãos do Estado. E quem diz isto é comprado pelo ouro da Junta Apostólica para iludir os incautos com estes papelórios, e chapelórios." (Cart. 7, pág. 9)

"Digam-me, ignorantíssimos, os Apostólicos não são Europeus? Não dizem VV. mm. que os Europeus querem alguma coisas? Os Apostólicos da Espanha, com uma opulência, e profusão espantosa de Tesouros, pugnam pelo Rei, e não querem Rei? Não querem Rei, nem absoluto, nem Constitucional, não querem Rei de sorte nenhuma (só se estes Apostólicos são os do Português), e matam-se e empobrecem pelo Rei, e não o querem? Se querem o Absolutismo, então querem um Rei; e onde irão construir este Absolutismo? Quem o há de exercitar? Ignorantes!! Ou fanáticos da Democracia!" (Cart. 9, pág. 5) [Será oportuno lembrar que a mente liberal, não acostumada em sujeitar-se à Verdade, quando usa da razão sai-lhe racionalismo... nada mais!]

"Em três continuadas, e consecutivas noites, de 24, 25, e 26 do próximo passado Julho, esteve Lisboa em mortal, e lastimosa agitação; e, se as vigorosas providências do Governo não acudissem a reprimir a sedição popular (atiçada pelos agentes da revolução Democrática) com a força armada, e a inevitável a iminente ruína: isto é uma verdade demonstrada; dentre os grupos dos pacíficos Cidadãos, como V. m., e os da Liga lhes chamam, rompiam aterradores, e funestos gritos: "morra este, e morra aquele, porque esta era a humildade, e respeitosa Petição, com que se requeria à Sereníssima Senhora Infanta Regente e re-integração do Ex. Ministro João Carlos de Saldanha, sem a qual o Reino não podia ser Reino, nem ter Governo, nem ter Representação, nem a Nação Portuguesa ser Nação, nem permanecer na linha das Nações, quebrando o jugo do absolutismo, debaixo de cujo jugo tinha por tantos séculos gemido. A estes pavorosos gritos dos Cidadãos pacíficos, e tranquilos se misturavam os insultos, e assaltando-se o domicílio dos Magistrados; e isto com o direito de Petição garantindo na Carta!" (Cart. 12, pág. 2) [A falácia que hoje conhecemos do "lá fora já se faz... lá fora já se aceita..." vem realmente de uma linha de "pensadores" não muito recente. Ainda há dias, uma beligerante guerreira do semi-tradicionalismo distribuiu um "papelinho" com o qual tentava espalhar a ideia de que o Povo era anticlerical em dada altura...; não obstante tanta caridade distributiva, haveria a mesma incendiária dar outro "papelinho" com este texto do Pe. Macedo, onde vemos que aqueles que do Povo se revoltavam eram pesas fáceis dos Revolucionários...; viu-se bem que esta gente gritava segundo pontos estratégicos da ideologia e por aqueles "santos" que desconhecia mas que eram estratégicos para a revolução! ... Aos portões de Versalhes também forma protestar ternas mulheres e meigas crianças, as primeiras da frente até bigode farto tinham...; eis aqui boas mascotes para o travestismo... Claro... no 25 de Abril.... "foi o Povo"!] 

"Antes de rebentar o Vulcão Democrático de 1820, que se ouviu por muito tempo? Espalhadas murmurações por entre os Povos, queixas do Despotismo, do absolutismo, da arbitrariedade, de abusos, de dilapidações; clamores surdos de que era preciso um Governo enérgico para remediar tantos males; que não podíamos sair da escravidão, sem convocação de Côrtes Gerais, Extraordinárias, e Constituintes para reformar a Constituição da Monarquia. Que as riquezas do Estado eram comidas pelos Mandões, e pelos Zangões. Que os Áulicos, e os Lisongeiros se assenhoreavam de todos os Empregos, e iludiam o Monarca. Que a ilustração do século, o derramamento das Luzes, e os progressos da civilização, faziam conhecer aos Povos que era chegado o momento de reassumirem os inauferíveis direitos da sua liberdade, e viveram só debaixo do império da Lei; e outros que tais palavrões, com que deram agora em explicar tudo, ou em pretextar a revolta; palavrões, que servem para tudo, e com que trazem enredados, e confundidos os Povos, dispondo-os assim para fantásticos melhoramentos, imaginadas reformas, e quiméricas inovações, fontes de todos os bens, e de todas as venturas;"(Cart. 12, pág. 6) [É normal que hoje os da "Monarquia" Liberal e os da República disputem o título de colocadores da democracia em Portugal, ovo posto pelo mesmo espírito que os levou aos dois. Que fique o registo de que a febre democrática é que os chocou aos dois, e a "igualdade" mostrou-nos a pena do comunismo... Mais uma vez Agostinho de Macedo faz-nos uma pequena caricatura do pensamento dos opositores do "absolutismo".]

"A Gazeta Constitucional, sem eu haver bolido com ela, (porque eu nunca fui agressor) começou gritando contra mim muito constitucionalmente; continua a gritar, e a descompor com uma raiva verdadeiramente canina; e o tema para as infames descompostudas, ou ataques pessoais, é a Junta Apostólica, que existe, depois que os Senhores Pedreiros Livres começaram a sentir que o género humano já cansado, e enjoado, começou a mostrar que já não podia aturar tantos desaforos, chamados derramamento de luzes, progressos da civilização, liberdade, emancipação, e melhoramentos das humanas Sociedades, oprimidas com o Absolutismo, Despotismo, Fanatismo, Servilismo, Jesuitismo, Apostolicismo, Fogueirismo, Inquistorismo, e todos os ismos mais; mas não tanto como com o Pedreirismo." (Cart. 14, pág. 1) ["Pedreirismo", portanto é a Maçonaria, os "Pedreiros Livres"]

"É verdade, que eu já estava com pena de ir deixando tão pouco espaço nesta Carta para zurzir como merece este o maior, e o mais dementado de todos os Hipócritas que aparece tão contraditório em seus escritos para melhor ser conhecido. V. m. terá reparado que desde que os Foliculários Priodiqueiros começaram a assoprar a revolta, a baralhar as ideias, a enredar os Povos, e a dispor, ou desenrodilhar as armas para a mais patifa de todas as revoluções, que vem a ser levantar a Democracia sobre as ruínas da Monarquia, tem andado sempre em cena, o velho Marquês de Pombal, Sebastião José de Carbalho. Se querem exagerar o Despotismo, o Absolutismo, e o Fogueirismo, vem o Marquês de Pombal; se lhes convém invectivar os Ingleses, com quem se enganaram, apesar dos vivas, e foguetes do dia primeiro deste ano, vem o Marquês de Pombal, e a rebatida, e já nauseante história da Bahia de Lagos." (Cart. 17, pág. 4) [Há tempos ouvi uma novidade: começa-se a dizer em Portugal que a nossa tradicional Monarquia é democrática, quando os documentos da época nos mostram como a democracia era tida como um desprezível recurso, deixado apenas a menor importância quando não podia ser melhor. É tão fácil provar mostrar o contrário, e mostrar que tipo de gente é que anteriormente tentou esse tipo de ideia ... !!! A tentativa de abandeirar o Marquês de Pombal, contra quem não queria o o novo modelo de "monarquia", era uma tentação dos liberais que no fundo acabavam por dar um caso onde o problema foi o Rei ter mandado muito pouco, ou quase nada!]

"A ideia do Absolutismo é nova entre os Portugueses. Esta infernal palavra, nunca por tantos séculos entre nós ouvida, é o grande, e o mimoso pretexto de todas as Revoluções, havidas, por haver, e sempre intentadas, e prosseguidas nas sociedades secretas, que juraram guerra exterminadora aos Altares, e aos Tronos. O Despotismo Asiático, o Absolutismo Sultânico, nunca foi a partilha dos Chefes da grande família, ou sociedade Europeia, mas com o fim único dos trabalhos das sociedades secretas é a dominação geral dos Povos, como só a isto aspiram, como temos visto, ocupando eles só os primeiros lugares; o meio mais próprio, e mais apto para o conseguirem, é persuadir os Povos, que até agora têm sido dirigidos, e governados com um poder arbitrário, e absoluto; e que os Reis, a quem chamam Tiranos, os têm reduzido a abjecta, e desgraçada condição de escravos; e que a coisa, que mais devem aborrecer, é o Absolutismo, que vem a ser o exercício da própria vontade, e do princípio arbítrio, sem respeito, e sem consideração alguma às Leis, aos foros, e aos pactos sociais feitos na origem das Monarquias, entre os Governantes, e os governados. E para que inspiram os Povos este horror a este fantástico e suposto absolutismo nos Soberanos da Europa? Para os disporem às Revoluções a títulos de melhoramentos úteis, e de reformas necessárias." (Cart. 26, pág. 10) [A semelhança com o que hoje dizem é pura coincidência ...!]

"Por muito superficial que seja qualquer homem observador, por menos atenção que haja dado aos horríveis acontecimentos, de que temos sido testemunhas desde 1820 até o dia de hoje 20 de Outubro de 1827, terá visto que ainda até este momento a praga Periodical não se tem calado com o Absolutismo, e com a reforma dos abusos provenientes, dizem eles, do Absolutismo. E que querem com isto estes Pregoeiros das Sociedades Secretas? Querem que ao Governo Monárquico suceda a Democracia, ou o Governo Republicano; para isto pressupõe sempre demonstrada a máxima absurda, e monstruosa, que o Poder governativo existe essencialmente na família, e não no par da mesma família. Para isto parece-me que era preciso demonstrar primeiro que o Absolutismo, nome, com o qual tanto querem assustar os Povos, pode existir em um, que governe, e nunca em muito, mais absolutos que os próprios Sultões, que usurpem o Governo, a si mesmos se chamem a Côrtes, façam para si Constituições, e ditem Leis, de que eles zombem, exercitando tiranicamente o Poder, que sacrílega, e revolucionariamente roubaram. Não tem havido Periodiqueiro por mais miserável que seja, desde que o Inferno vomitou sobre Portugal este flagelo, que não haja gritado contra o Absolutismo, e na sua abolição para o sagrado fim das necessárias reformas dos abusos do mesmo Absolutismo. Em França fizeram os revolucionários a coisa mais sumária, levaram Luís XVI ao cadafalso; em Portugal, falemos a verdade, porque está escrito, e está impresso; e se lhes custa a repetição, não o dissessem, não o imprimissem, clamaram "Desfaçamo-nos deles". As Secretas Sociedades querem fazer detestar o Monarquismo, e para isto procuram fazer aborrecer, e abominar o que eles chamam "Absolutismo" que nunca existiu, nem pelas Instituições do mesmo Reino desde a sua origem até este momento, em que as mesmas Instituições estão instauradas, e reformadas, pode existir. Se este pregão contínuo do Absolutismo não andasse sempre na boca pestilente dos Periodiquieiros, as revoluções, e as conspirações nenhum efeito teriam, porque os conspiradores sempre contam com as disposições dos Povos, e estas disposições são obras dos Periódicos, que tão claramente dizem que o Absolutismo anda essencialmente unido ao Monarquismo; dizem que é preciso o Governo representativo, mas a seu modo, e não como agora o temos, e sempre tivemos, ainda que com diversas fórmulas; mas o representativo dos revolucionários é o primeiro degrau do Republicanismo, ou Democracismo, como vimos em 1820. Tirar um Rei de repente, era arruinar a sua mesma obra ["sua" deles, do inimigo]; não têm os Periódicos tanto poder, que de repente arrancassem do coração de todos os Portugueses a adesão, e o amor, que sempre tiveram, e ainda conservam aos seus Monarcas; fizeram do Rei um Ente, que não tinha acção própria, os seus movimento tinham impulsão estranha; não se iluda Portugal, o Poder Executivo, que aqueles monstros deixaram ao Rei, não é Poder, porque executar o que se lhe manda não é livre exercício da vontade própria, é cumprimento do que determina a vontade alheia; neste caso ter Monarquia, e não ter Monarca vem a ser o mesmo. Monarca é o que manda só; e eles mandavam ao Monarca "Mande-se ao Executivo", como diziam eles." (Cart. 29, pág. 3) [Destaca-se a influência da propaganda para fazer acreditar que a monarquia tradicional era "absolutista", ao mesmo tempo que se fazia propaganda a uma nova ideologia social (liberal e democrática, republicana ou um intermédio para chegar à República); evidentemente que hoje se faz o oposto: dizer que a monarquia tradicional é o que nunca foi, e que a absolutista não é a tradicional...]

"Desesperados por verem arrancar do Santuário o sinal de abominação; que a impiedade revolucionária ali tinha levantado, vingam-se com o desprezo, e perseguição daqueles, que mostraram, seguindo o Rei, a sua adesão ao Trono, e o seu respeito ao Altar. Chegou a tanto este insulto público pelo espaço dos já passados quinze meses, que muito honrados Portugueses, para evitarem novos insultos, e talvez que um princípio de motim com tanta ânsia provocado, esconderam a mesma Medalha, ao menos quanto pelas obrigações da existência, e subsistência se viam obrigados a entrar no centro da Cidade chamada baixa, e atravessarem os fatais arruamentos, ou as Academias destes ilustrados Publicistas. Mosteiros há, onde por amor de dois, ou três Orates, um Tecleiro, e outros Picadores, se não pode ainda entrar com a Medalha, sem correr o mesmo risco. Esta Medalha, dizem eles, é um sinal, ou pregão permanente de que levou o Diabo o nosso adorado, e adorável Sistema regenerador, de tornarmos outra vez da liberdade para a escravidão, e da sublimidade do Democratismo para a voragem do Absolutismo. A isto chamo eu o mais execrado, e punível de todos os insultos; a memória do Rei lhe vilipendia, a fidelidade dos Portugueses reputada um crime. Se todas as Medalhas de Condecoração são dadas pelo Rei, porque só o Rei as pode conceder como prémios de serviços, como são as mesmas de Campanha em seus diferentes graus, porque não insultam eles todas estas, e unicamente aquela? Porque estes feros Republicanos não querem, e protestam não querer nunca um Rei livre, mas um Rei escravo; não querem um Rei com os direitos da Soberania, mas um Fantasma despojado deles. Não querem um Rei que os governe a eles, querem uma Autómato, que eles governem, e tiranizem. Em quanto eu tiver esta espada na mão, dizia um Padre Cívico, não há de aqui entrar um Rei com "Veto". Tão insensato me pareceu sempre o tal Padre, que nem o que quer dizer Veto ele entendia. Só uma coisa me admira, que, levando Malco uma orelha cortada, este Malco as quisesse cortar aos outros." (Cart. 30, pág. 6) [... graduações em número de 33!?...]

"São inumeráveis as Histórias, que existem já impressas, e publicadas, da Revolução Francesa, e sendo um só objecto, e única a matéria, por todos é tão váriamente tratada. Nós os Portugueses, sobre tudo indolentes, muito mais o temos sido sobre a nossa [entenda-se "nossa" para identificá-la como tendo ocorrido em Portugal, e não como coisa própria portuguesa] Revolução Democrática de 1820: ainda não apareceu nem um esboço ligeiro deste acontecimento tão único, como escandaloso em nossos Anais. Será isto delicadeza em nossos Escritores, que não quererão ofender as virtudes, e sobre tudo a exemplar, e conhecida modéstia dos Autores da mesma Revolução ainda vivos, e permanecentes entre nós? Parece-me, que é muito fora de tempo, e de lugar esta melindrosa delicadeza, em nossos Escritores, porque os mesmos Corifeus da Revolução nunca quiseram deixar seu escrito em mãos alheias, começaram eles mesmos desde logo a se chamar Pais da Pátria, Salvadores da Nação, que por um heróico, e violento impulso de Patriotismo quiseram arrancar do abismo da desgraça os infelizes Portugueses, dizendo-lhes, que não podiam subsistir por mais seis dias com aquele Pacto primordial e com aquelas leis com que tão gloriosamente tinham permanecido por seis contínuos séculos, prometendo, que vinham, com suas sábias instituições, por o Povo Português na linha das grandes Nações, donde nenhuma grande Nação, nem todas as Nações grandes juntas o haviam tirado. Disseram com fraqueza mais que Republicana, que se muito tinham feito a Portugal D. João I em o livrar da violenta posse, que dele queria tomar o Rei Castelhano, desbaratando-o em uma memorável batalha campal; e se muito tinha feito a Portugal ElRei D. João IV livrado o Reino de uma dominação estranha, que havia durado sessenta anos, aceitando a Coroa do mesmo Reino; muito, e muito mais faziam eles em livrar o mesmo Reino do mais pesado, e ferro jugo do Absolutismo, em que os seus Monarcas com seus Cortesãos, e lisonjeiros o conservavam. Disseram ainda mais de si, e não deixaram mentir ninguém; disseram que com sua sabedoria vinham dar uma nova face à Nação, abrindo, e desentupindo todos os canais donde lhe podia correr, e comunicar-se-lhe todo o seu bem, e ventura, começando pela Instrução Pública, coisa até desconhecida neste Reino, porque eles para serem, como eram, tão exímios Doutores tinham com dispendiosas viagens, e reiteradas fadigas, ido estudar, e aprender fora deste Reino, que sempre tinha sido a Séde principal da ignorância, e da barbaridade, assim como da superstição, e do fanatismo, insuperáveis obstáculos para o derreamento das Luzes, e progressos da civilização! Que eles vinham promover a cultura da terra, a navegação dos mares, a actividade do Comércio, o aperfeiçoamento das Artes, e das Ciências, e sobre tudo fazer adiantar a Indústria na criação das Fábricas com que nos tirassem da vergonhosa dependência das produções, e manufacturas estrangeiras. Prometeram ainda mais, e eles mesmos o disseram, que vinham simplificar o Culto Religioso, livrando-o de todo o peso, e aparato da magnificência, e majestade externa, reduzindo-o a puro acto intelectual. E sobre tudo nos afirmaram que o motivo mais poderoso, que os obrigara a vir daqui tantas léguas, uns a cavalo, outros em calças, e alguns em liteiras, fazendo marchas forçadas, sem pararem, e se demorarem senão nos Colégios, e conventos de Coimbra, e em Alcobaça, foi unicamente acudir ao lastimoso estado de Finanças, ao qual as tinha reduzido a malversação dos Empregados pouco experientes, e a indiferença da Regência, que pintavam indolente sobre este sagrado objecto; coisa que com efeito à risca cumpriram, distribuindo de tal arte o dinheiro todo, que nunca mais se soube onde ele parava, a não ser nas mãos dos novos, e ilustrados Financeiros, que desceram do Céu para limpar a Terra. Sem ninguém lhes perguntar, eles mesmos disseram que vinham nivelar as condições humanas, reduzindo tudo à perfeitíssima igualdade natural, pois eles nem tinham, nem conheciam outra diferença, que não fosse aquela, que davam os talentos, e as virtudes, e que só às virtudes, aos talentos, e ao pessoal merecimento, e nobreza, eles mesmos vinham dar os lugares honoríficos, e lucrativos, e não aos Aulicios, e aos lisonjeiros, desterrando para sempre o patronato; e na verdade eles tinham afilhados de sobejo!"  (Cart. 32, pág. 3) [fala um testemunho da época não um teórico, muito conhecedor da sociedade de então, que escreve antes de 1827... Aqui está resumido o programa ideológico que até aos nossos dias tem vindo a ser implementado pelos vencedores do Liberalismo em diante, em tão poucas linhas, apenas como testemunha do que se ouviu da boca do próprio inimigo, e com um acerto tão grande que parece estarmos perante uma profecia acertada. Eis uma maravilha documental de valor incalculável, mas que só poucos reconheceram antes de terem visto a concretização!]

"Em que melhorou este Reino com semelhante revolta de 1820? Com ela se abriu a porta a todas as calamidades. Compare-se o Portugal dantes com o Portugal depois!! Prometiam Liberdade, nunca estiveram mais atulhados de Cadeias. Prometiam justiça direita sem suborno, sem patronato, nunca as Terras de degradados viram dentro de si mais gentes, que não conheciam. Nunca os segredos tiveram inquilinos forçados por mais tempo; nunca houve tantas denúncias, nem mais rigorosa inconfidência, nunca passearam metendo a cabeça por todas as portas, os espiões mais descarados, e impudentes; nunca os homens de bem viveram mais assustados, nunca houve um Povo mais infeliz, e miserável, nunca o Reino todo sofreu mais perdas; e uma palavra, nunca o verdadeiro absolutismo, e despotismo pesou mais sobre os Portugueses, nunca foram mais escravos, e nunca se chamaram mais livres, nunca deles se fez mais afrontosa zombaria; nunca a Religião sofreu mais descobertos ataques, e insultos, nunca os senhores do engenho, e seus moleques, do que foram tratados por meia dúzia de Bacharéis aqueles nobres, grandes, e magnânimos Portugueses, diante dos quais na África, e na Ásia tremiam os Poderosos do Mundo, obrigando-os a trocar a magnificência, pompa, e esplendor de seus antigos vestidos, e ornamentos honoríficos em saiotes, balandraus, e roquelós de pano da serra, e azeitada saragoça até no pino do vetão, verdadeira pantomina, ou impostura. Fique para sempre este desengano, e nunca mais se aturem, ou se conheçam tais Framengos à meia noite. Este fermento ainda não acabou de todo, porque talvez ainda hajam hipócritas, que dando vivas ao novo estado de Governo Político, que temos, o mais justo, e o mais aproximado pela matéria, e pela forma, às nossas primordiais Instituições, conservam na alma o fanatismo, ou aventesma de uma República, entre o Governo Monárquico da Europa, o que tem dado a conhecer." (Cart. 32, pág. 11)

(continuação, II parte)

06/04/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº1 - Introdução (II)

(continuação da I parte)


NOVO VOCABULÁRIO
FILOSÓFICO-DEMOCRÁTICO


Cum desolationem faciunt, pacem appellant.
TACITO

INTRODUÇÃO

Todos os homens, que em outro tempo habitavam a terra, viviam unidos no campo de Sennaar: tinham todos umas mesmas ideias, a mesma linguagem, e os mesmo costumes. Multiplicados de maneira, que lhes foi necessário separarem-se pela falta de subsistências, empreenderam, antes de o efectuarem, fabricar aquela famosa Cidade, e Torre, que deviam servir de testemunho eterno, não menos de comum origem, que da sociabilidade, cultura e mutuo amor, que desde o principio havia unido a linhagem humana para confusão de alguns abortos da natureza, que com o discurso do tempo haviam querer confundir a origem do homem com a das feras, e deduzir desta suposta original bestialidade humana a liberdade, a sociedade, e os direitos dos homens.

Mas, nem porque estes vissem que lhes era necessária a separação, lhes deixava de ser amarga, e mui de propósito iam dilatando um negócio, donde lhes resultava um desgosto, que assim não podam evitar. Todos se empregavam em celebrar com demonstrações de alegria os últimos momentos de união, fazendo ver com isto que nunca o bem nos causa tão sensíveis, e doces impressões como nos últimos instantes, em que se nos avizinha a sua perda.

Porém, no comenos que os cuidados e trabalhos humanos se prodigalizavam em um só lugar, a terra por todas as partes deserta reclamava habitadores e indústria: e a Providência soube obrigar os homens a separar-se sem lesão do belo desejo de viverem unidos. Chegou finalmente o dia destinado por ela para o complemento de um prodígio, que por modo algum podiam imaginar. Despertam do sono, e se dispõe aos seus costumados mestres: falam uns com outros, os pais, e os filhos, o maridos, e a mulher, os vizinhos, e os parentes; entende-se mui bem; julgam falar a mesma linguagem que dantes, e falam outra inteiramente diferente: chegam à grande fábrica, falam-se; alguns particulares entendem-se; porém a comum confunde-se, e articula vozes sem comunicar pensamentos. A inocente discórdia não ofende a Natureza: todos estão conformes em máximas, em vontade, em amor, em desejos, e somente em vozes discordam. A Providência mesma já tem sinado, os que devem unir-se, e os que devem separar-se. Despedem-se os homens para multiplicar as Nações; e o ultimo adeus, que podem dar-se à despedida, é de mudos abraços, e ternas lágrimas.

Tal foi o prodígio da confusão em Babel; grande na verdade, porém inocente, e útil. Mas, oh! Quam diverso teria sido o resultado, se em vez da mudança das vozes correspondentes às idas, se houvessem mudado as ideias correspondentes ás vozes?! A suceder assim, seguir-se-ia que julgando os homens entender-se, pois não usavam de palavras senão bem conhecidas, nem se entenderiam, nem fariam outra cousa que enganarem-se. E então que confusão! Que discórdia! Que fatais distúrbios se não teriam originado!!...

Pois esta perniciosa confusão de línguas é a que, de algum tempo a esta parte, se há descoberto com surpresa universal em todos os idiomas da Europa! É verdade que as vozes são as mesmas, porem é igualmente certo que muitíssimas delas, e as de mais importância, não significam já o que antes significavam. É verdade, repito, que são as mesmas vozes, porém também é indubitável que um sem número delas, longe de explicar, o que até aqui hão explicado, não têm outro uso que significar o contrario do que soam. Desta confusão pois, tão fatal em ideias e vozes, tem nascido justamente o universal transtorno social, que tanto à nossa custa palpamos. Ela é que tem feito que muitos Povos, enganados por falsos e mal intendidos Vocábulos, hajam corrido direitos àquilo mesmo, que na realidade detestavam; e só hajam encontrado a escravidão a miséria, a desgraça, onde pensavam achar o porto da liberdade, da felicidade, e o supremo poder, com que tantos os lisonjeavam.

É demasiado interessante este acontecimento, para que se esqueça sua história, com razão pode ser considerado como uma espécie de prodígio. Ele é uma nova confusão de línguas, e se não se há obrado instantânea e milagrosamente, como o de Babel, é sem embargo muito mais importante, funesto, e doloroso para todo os Género Humano, do que foi aquele.

Sua origem remota quiçá pode buscar-se nos tempos de Cromwel, ou de Hobes, e Espinosa; porém a mais recente se deve fixar com segurança nos de Rousseau, e sua contraditaria pena.

Havia já muito tempo que certos entes ridículos, que se diziam Filósofos, maquinavam a ruína da Religião, da ordem, dos costumes, e das Soberanias Legítimas; mas esta empresa era mui difícil, e não devia pôr-se em pratica, sem que o engano mais delicado houvesse antes preparado o caminho. É por esta razão que muitos tentaram a carreira, porém com infeliz sucesso. Só Rousseau teve a glória de inventar uma vereda capaz de confundir os cérebros, e de fazer que todos os homens corressem após aquilo mesmo, que mais aborreciam.

Inventou um absurdo agradável, e chamou-se "Pacto Social": fundou este pacto social sobre a liberdade humana: a liberdade humana sobre os direitos do homem: os direitos do homem sobre a natureza; e a natureza sobre o que ninguém entende, nem há podido compreender, senão ele.

Porém como a Religião, a razão, e os deveres estavam em oposição manifesta com a sua liberdade, e seus direitos, deixando a um lado a definição verdadeira daquela, e destes, armou tal confusão de linguagem (algarabia), e faltou tão contradictoriamente da Religião, da liberdade, dos deveres, e dos direitos, que jamais se chegará a saber o que foi, o que ele entendeu por semelhantes nomes. Mas ao mesmo tempo que com estes Vocábulos se confundia a razão, se foi introduzindo uma linguagem doce, que mansamente ia lisonjeando as paixões mais vivas, e despertando o orgulho, e o desejo da independência, e insubordinação. O método foi qualificado de excelente por todos aqueles, que suspiravam por precipitar o género humano em o ateísmo, no desenfreamento, e a libertinagem. O charlatão Filósofo teve infinitos sequazes, discípulos, e defensores; e transtornadas as cabeças, começou todo o mundo a gritar: pacto social, liberdade, igualdade, direitos, sem saber, nem entender o que significavam estes Vocábulos. Ultimamente, a geringonça há sido tal, que não somente se hão transtornado os cérebros dos ignorantes e estúpidos, mas até os de muitos, que se jactavam de doutos e raciocinadores.

Nada menos se pretendia que uma tal confusão, para ir pescando os homens. Falava-se, escrevia-se, e até se apregoava liberdade, soberania, direitos, governo, leis, religião, superstição, fanatismo, e outros infinitos Vocábulo; e falavam-se, e escreviam-se de uma maneira, que perdendo insensivelmente seu verdadeiro significado, e conservando do antigo nada mais que o som, excitaram em os Povos e disparatado entusiasmo, e a extravagante mania de caminhar em direitura à irreligião, à imoralidade, à escravidão e pobreza, imaginando que iam lançar-se em os braços da liberdade, e da ventura.

Atónitos ficaram os homens, quando, instruídos finalmente pela experiência, viram que a liberdade se opunha à razão, os direitos do homem a seus deveres, a natureza a si mesma, sua sonhada soberania à sua felicidade, e as grandiosas promessas aos factos. Foi então quando conheceram de algum modo a inopinada confusão de línguas, sem com tudo descobrir a origem de um tal prodígio.

Já a este tempo estavam repartidos esquadrões de Filósofos, que, reunidos em lugares determinados, trabalhavam com o santo fim de fazer-se tiranos debaixo do nome de libertadores, e de fundar o despotismo, e a escravidão debaixo do nome de Democracia, ou Republica. Mas como a Religião era para isto um estorvo, começaram a combatê-la debaixo do nome de superstição, e a denegri-la cobrindo-a de opróbrios, e dictérios. Assim foram seguindo seu infernal plano de roubar os Estados e os Reinos, debaixo do nome dos fazer livres e felizes; de destruir as propriedades com o pretexto de igualdade, e de induzir os Povos para que preferissem a bestialidade democrática aos pequenos defeitos da Monarquia. Esta perversa linguagem tem chegado a propagar-se de maneira, que não somente é já comum em todas as Republicas democráticas, mas a estas horas se acha espalhada por todo o mundo. Tem-se tornado por tanto necessário formar, e publicar um Vocabulário da língua antiga, e da moderna democracia e republicana, não só para impedir que os Povos, enganados pela semelhanças das palavras, vivam eternamente deslumbrados; mas para que se entendam os republicanos, e para que se destruam os seus embustes.

A experiência, que é a mestra mais segura em todas as coisas, é mui especialmente sobre isto que nos fala com toda a clareza: sirvamo-nos de um exemplo: um cão, que logo depois da voz "pau" provou os seus repetidos golpes, chega perfeitamente a entender o que significa, e foge apenas ouve a tal palavra "pau". E se isto assim é, porque razão a experiência não há de ter ensinado aos homens o verdadeiro significado dos Vocábulos republicanos? Por ventura não tem eles palpados o que constantemente se tem seguido às palavras dos republicanos liberdade, propriedade, soberania, etc.?!

Algumas objecções se podem fazer a este Vocabulário, a que convém responder. Dir-se-há, por exemplo, a língua republicana se irá enriquecendo cada dia mais: logo o presente Vocabulário é imperfeito. Não temos a menor duvida a este respeito; porém isso quer dizer que haverá matéria para novos Tomos; e por esta causa poremos em frontispício deste = Tomo primeiro.

Um agudo Jacobino sustentou em um Café, que um Vocabulário Republicano era inútil, pois que daqui a duzentos anos, e talvez antes, teriam voltado os Vocábulos a seu antigo significado; e se agora p. ex. Felicidade dos Povos, significa extrema ruína e miséria, daqui a dois séculos significará, ainda que republicanamente, o que antes significava.

Porém apesar de tudo, sobram-nos fundamentos para crer que os sucessores dos ilustres autores da linguagem republicana, se existe (o que Deus não permita) por todo esse tempo, terão sumo cuidado de conservar a língua em sua primitiva pureza. Além de que, como a presente geração não há de ter a honra de falar com os Republicanos, que hão de viver daqui a dois séculos, a deseja vivamente entender aos que agora vivem, por esta causa o presente Vocabulário não pode deixar de ser de suma utilidade.

(continuação, III parte)

22/02/15

CARTA DE UM VASSALO NOBRE AO SEU REI (I)

CARTA
DE
UM VASSALO NOBRE
AO
SEU REI

Duas Respostas à Mesma,

NAS QUAIS SE PROVA QUAIS SÃO AS CLASSES
MAIS ÚTEIS DO ESTADO.


(pelo Pe. José Agostinho de Macedo)

LISBOA
1820


I CARTA
De Um Vassalo Nobre ao Seu Rei

A Paz geral da Europa, traz consigo o sossego das armas; mas as questões que os sediciosos excitaram, não se decidiram: os males políticos que causaram, não se acabarão, e hão de produzir uma crise violenta, se os Reis, e os Grandes não derem as mãos para dissipar esse fenómeno fatal da dissolução das Monarquias. (Note-se, que a presente Carta, não foi escrita na época da Revolução Francesa, mas [...?] ou 16 anos depois.)

Tratar aos Príncipes com a verdade, é tão rigorosa obrigação, que em quase todos os Códigos se encontra a pena de morte para os que mentem ao seu Rei. Eu bem sei, Senhor, que esta verdade se requer no Vassalo, quando é consultado; mas quando as circunstâncias apertam, quando um verdadeiro zelo fala, não há que recear falar de respeito, porque a grandeza do Reino, não pode manter com o mais escrupuloso acatamento o Autor da ordem Política, que é o Soberano.

Esta preciosa liga do Príncipe, e seus Magnatas, esta dependência mútua dos Reis, e seus imediatos, é um terrível obstáculo para os malvados, que pretendem de salto conseguir as honras, sem trabalho de as merecer; e não querendo subir às Hierarquias pelo antigo, e honrado preço de nossos maiores, intentarão fazer um perigoso cisma entre os Reis, e os primeiros súbditos. Este cisma foi introduzido com muita arte, e este artifício deve descobrir-se ao Pai comum da Nação para que não lavrem entre nós os males que incendiaram a Europa, e abalaram quase todos os Tronos.

Eis aqui, meu Senhor, o que me obrigou a escrever este papel, cheio de lealdade, de respeito, e de amor ao meu Soberano, que, por fortuna nossa, não tem nenhum vício, é cheio de virtudes Reais, e passa a maior parte da sua vida no laborioso exercício do seu Augusto Ministério.

O primeiro artifício consistiu em perseguir as Corporações Religiosas, que são intimamente unidas com a Nobreza, e com ela conspiram ainda para a felicidade temporal dos Povos. A educação Religiosa, e civil, a melhor cultura das terras, a perpetuidade de sua duração, antiguidade de seu estabelecimento, e sobre tudo a Santidade de seu Ministério, tudo convidava a serem perseguidos homens a quem importava a existência da Monarquia. Querendo pôr os Frades em descrédito, notaram os seus abusos, e fraquezas, e viram-se com admiração gentes, que não criam em Deus, serem muito zelosas da observância da Lei, que detestavam. Toquei este objecto neste lugar, o mais digno, e não me demoro neste assunto, porque a Piedade dos nossos Reis afiança nesta parte a nossa fortuna. Além de que os tesouros, o descobrimento do Oriente do Senhor D. Manuel, e as Minas do Senhor D. João V são provas de que o Omnipotente enriqueceu os Fundadores dos estabelecimentos, religiosamente consagrados ao seu Santo Nome.

O segundo artifício dos perturbadores do sossego do Estado consiste em persuadir aos Príncipes, quanto eram intolerantes as etiquetas da Côrte; quanto embaraçavam à popularidade que os Soberanos ganham, cedendo do esplendor do Trono, para se fazerem mais acessíveis a seus humildes Vassalos, e até para se divertirem sem o peso de um triste cerimonial.

Ah! Senhor! Como são astutos os sistemas dos Cortesãos, quando não tem por objecto o sólido bem de quem os honra com a sua privança! O conhecimento do coração humano, e a ordem necessária para a duração do Governo, qualquer que ele fosse, obrigou a dor uma forma Política aos Estados, revestida de certas exterioridades, mais indispensáveis nas Monarquias. Ninguém diz que o que é substancialmente do Caracter do Rei, necessite de externo aparato para a nossa vassalagem, mas também ninguém me pode negar, que é necessário conformar-mo-nos com a debilidade dos nossos sentidos, e fazer-lhes respeitar o que é respeitável. Bem o entenderam assim em todas as idades os espíritos revolucionários, e por isso Gregos, Romanos, e Franceses, depois de pregarem a abolição das etiquetas, vida frugal, igualdade de condições, quando por fruto destas sediciosas práticas destruíram os Governos estabelecidos, apareciam os Imperantes com muito maior cortejo, e o Povo, instrumento cego de todas as desordens, sofria lei mais dura, contente com a mudança de nome. Convencidos todos os homens do quanto importa a cerimonial do Paço; para infundir o maior respeito àquele que nos dá Lei, e que a há de fazer executar, ainda resta mostrar, quanto interessa ao Rei, e à Sociedade, a boa, e invariável regra deste mesmo cerimonial.

O desejo de distinguir-se na Sociedade é paixão comum, e de que pode tirar-se grande partido. O Cofre do Rei mais poderoso, é fácil esgotar-se na menor calamidade: como poderá então um Príncipe Justo ter vassalos beneméritos, sem o tesouro importante das distinções! Os Campos da África alagaram-se de sangue, para que nossos Avós tivessem Comendas, e Governos. Os riscos do Oriente buscavam-se, para entrar depois de serviços próprios, ou herdados na casa do Docel. Um sinal sensível da estima do Rei, é uma autêntica, ou um modo de fazer invariável a avaliação do Público, ou de acreditar quanto reputa com justiça o merecimento do Cidadão. Mas como o que chamamos reputação, sendo o mais nobre preço de acções, não basta para alimentar as virtudes, por isso o Chefe da Nação uniu a estes sinais de distinção algumas utilidades sensíveis. os sinais de distinção consistem especialmente no modo pelo qual o Vassalo é considerado pelo Rei, ou Paço, ou Trono, ou nos Tribunais. Eis aqui pois a origem do cerimonial, e a sua importância; o decoro do Rei o necessita; e como acções nobres nobremente devem pagar-se, sem distinção, o Trono de V. Alteza Real, nem será elevado, nem seguro.

No infeliz século, que há pouco acabou, e que nos quis acabar, convidavam os Filósofos os Reis a serem homens, para os homens serem Reis, e o pior é que o conseguiram. A humanidade, Senhor, é muito diferente da familiaridade, e como a igualdade natural não pode sustentar-se dois dias em qualquer sociedade, devem os Reis, à imitação de Deus, sustentar o seu alto respeito em benefício da Ordem Pública, e promover as Ordens, e Hierarquias do Estado, que não podem durar, sem se conservarem os sítios políticos, e cerimoniais da Côrte, que ainda quando são penosos, custam com tudo mais aos que os não sofrem, e por isso os pretendem destruir, com inveja, ainda mais vil que o seu nascimento.

Vossa Alteza Real, mesmo quando por sua incomparável Generosidade despacha o representante de alguma antiga Família, quase sempre usa da expressão: "Por esperar que me sirva como como aqueles de quem vem", Eu fui Senhor, um destes, e animado do zelo de meus maiores, e do que me inspiram os meus iguais, dos quais em amor, e respeito a Vossa Alteza Real, estimo não me poder distinguir, venho a beijar Seus Reais Pés, e dizer-lhe com juramento, que a Sua causa é a nossa, a Sua Vida a nossa felicidade, e o nosso interesse a segurança da Monarquia.

O Marquês de .....

(a continuar)

28/06/14

OS MÁRTIRES DA IMPIEDADE

S. Sebastião, mártir
A Este firmíssimo, argumento tendente a provar a divindade da nossa Fé, pretendem responder loucamente os ímpios ou os néscios que as outras "religiões" tiveram seus mártires.

Quais mártires, nem meios mártires! Para ser tal bastará derramar o sangue num patíbulo? Se assim fosse, os facinoras e criminosos também seriam mártires gloriosíssimos. Não, querido leitor; para que se possa dar o nome de "mártir" a qualquer urge que morra pela verdade, que morra como um santo, e não como um demónio.

E se não, vamos a contas: quem foram esses mártires? Já sabemos: alguns, pouquíssimos, hereges queimados por orgulhosa obstinação e pertinácia, segundo as leis penais que estavam em uso nesse tempo, e tudo por castigo de terem escandalizado o povo com suas deletérias doutrinas perturbando a paz das consciências e a boa ordem da sociedade. E como morreram? Não, morreram, certamente, com a inalterável paz, própria dos santos mártires, mas cheios de furor e ira, e com a indignação própria de homens criminosos, ou raivosos como demónios.

Os autores que nos relatam, como testemunhas oculares, os suplícios dos nossos santos mártires; afirmam-nos sempre, e como coisa pública e notória, que aquelas vítimas inocentíssimas sofreram os mais terríveis tormentos com tranquilidade de espírito tão admirável, e com semblante tão agradável e alegre, que aumentava a fúria dos tiranos, espantava os carrascos, e infundia admiração e pasmo ao povo que assistia àquelas horríveis carnificinas; porquanto os cruéis soldados e esbirros cevavam neles a sua bárbara selvajaria, e deslocavam-lhes os ossos nos equeleos, rasgavam-lhes as carnes com unhas de ferro, punham-lhes sal nas chagas, queimavam-lhes as costas, com lâminas candentes, davam-lhes a beber chumbo derretido, e os queimavam em grandes fogueiras ou a fogo lento para que mais prolongada fosse a dor acerba do suplício, eles não soltavam um queixume, nem perdiam sua venerável compostura, nem diziam palavra senão para louvarem a Deus, ou para pedirem por seus inimigos. E esta incrível fortaleza, esta paciência invencível, não se admirava apenas nos homens adultos e robustos, mas nas mulheres, nos meninos e meninas mimosos e frágeis; e isto espalhava tal espanto e respeito entre os próprios pagãos, que, muitas vezes, se convertiam só com estes milagres da constância, não carecendo doutros estupendos prodígios que o Senhor frequentemente operava nos seus mártires.

Inútil será, dizer-te que, na morte dos hereges que sofreram tormento pela causa de sua seita, nada disso se notou; ao contrário como declaram os próprios que os viram morrer, tiveram morte desastrada e inglória. Alguns que alardeavam valor, e andavam apregoando que queriam morrer como filósofos estoicos, quando estavam na fogueira e sentiam a violência do fogo, mostravam semblante feroz e horrendo, soltavam gritos lamentosos e destoados, faziam gestos ameaçadores e descompostos, fazendo, em tudo, compreender ao povo que expiravam no maior desespero e que Deus não estava com eles. E se algum deles revelou extorso maior por seu caráter robusto e extremado fanatismo, a verdade é que nenhum edificou o povo com seu exemplo e virtude sobrenaturais, e que a maioria deles não tiveram ânimo para nada o mais vulgar e comesinho era renegarem logo e logo todos seus erros para obterem o perdão, e prometerem a emenda da vida quando se lhes lia a sentença, ou quando sentiam já o espirrar da fogueira, e empalideciam quais tímidas e fracas mulheres na presença dos tormentos.

Tais foram os mártires que a moderna impiedade festeja, e tais os assomos de heroísmo, pelos quais os distinguem, com o apelido de espíritos fortes.

Se a este resumidíssimo número de hereges, que morrem como animais raivosos, juntamos uma turba de revolucionários e facciosos, que, engodados mais por ódio à Religião verdadeira, morreram desgraçadamente em diversos recontros por detrás das barricadas, teremos traçado todo o martirológio da impiedade moderna. Uns "santos" dignos das tua orações! Se não tens melhores patronos à hora da morte, já nada te falta para que te levem os demónios, que, seguramente carregaram com eles.

Vês, pois, caro leitor a que se reduz toda a força e sacrifício dos inimigos da Religião. Para assassinarem padres e frades, mostraram eles muito valor, mas para morrerem demonstraram assás que, pouco ou nada valiam. E não é isto extraordinário, porque bastantes corifeus seus estão fartos de confessar que suas teorias não merecem que por elas se morra. Porque é que alardeiam então no nosso tempo, tanta impiedade? Sabes a razão disso? Porque ninguém lhes vai à mão, ou lhes toma contas; porque cuidam que, por essa forma, se tornam homens notáveis; porque muitos nescios há que os elogiam rasgadamente e acima de tudo, porque julgam que assim hão-de medrar, sabendo que se tornou moda a irreligião, e outros porque exploram maravilhosamente o pobre povo, escrevendo nos jornais democráticos barbaridades incríveis contra tudo o que há de mais santo e sagrado, sabendo que lhes agradam coisas fortes e picantes tais como a aguardente, o vinagre e a pimenta.

No dia, porém, em que se lhes não ligasse atenção e importância, nem tivessem esperanças de encher as algibeiras à custa do povo, crê-me caro amigo, que nesse mesmo dia, terminarão as patranhas anticlericais, e as já nojentas cenas de frades e freiras, e, com medo de alguma boa carga de pau, retractariam todos os seus erros, e venderiam a peso, para as tendas, os seus livros de ateísmo e impiedade.

(A Nossa Religião é Divina - Propaganda Catholica; Peniche, 1898) Com licença da autoridade eclesiástica.

05/04/14

"BEM COMUM", À QUANTO TEMPO NÃO SABEM O QUE ÉS...

O fenómeno é mais que banal, nem é recente, mas parece ainda ser ignorado pela esmagadora maioria das pessoas: depois das fórmulas feitas, uma mão oculta muda-lhe os conceitos até que a fórmula, já desgarrada do sentido próprio, resulte numa outra coisa qualquer.

O "bem comum" já vai na segundo nível mutilação. Até agora andava mutilado, significando mais ou menos "aquilo que a maioria achar melhor" (conceito totalmente falso), e agora está a ser promovido como "aquilo que uma minoria achar melhor" (conceito ainda mais falso).

A exemplo disto:

"Pedimos explicações sobre o critério de "Bem comum" seguidos nos financiamentos de bolsas de doutoramento - O financiamento público da investigação científica deve nortear-se por critérios de interesse público, do bem comum. Perante a atribuição muito publicitada de uma bolsa de doutoramento para estudar as "famílias lésbicas portuguesas", na mesma altura em que se sucedem as manifestações contra os «brutais cortes nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento da FCT», é importante exigir explicações públicas sobre os critérios científicos e políticos seguidos pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia na aplicação do dinheiro dos contribuintes." (fonte: CitizenGo, by Luis Botelho - Portugal Pró Vida)

04/04/14

MIGUELISMO - UMA PEQUENA PARTE DO TODO - Testemunho

Ilha Terceira - Açores - Portugal
"Li com reverência, e a atenção de quem sempre aprende com os seus escritos, o perfil pouco laudatório do "pequeno" grande Alexandre Herculano. Entre várias cogitações, a propósito dos “Bravos do Mindelo”, ocorreu-me esta leitura que a seguir transcrevo:“D. Pedro e a sua expedição desembarcaram na Praia dos Ladrões, cerca do Mindelo, a 8 de Julho. As forças liberais – que foram chamadas os “7 500 Bravos do Mindelo!” – eram constituídas por 2 300 franceses, 2 130 ingleses, 900 belgas, 500 polacos, 400 irlandeses e 370 escoceses; portugueses eram apenas 900; quanto à esquadra, comandavam-na e tripulavam-na ingleses. Lê-se nas Memórias do Conde de Lavradio, D. Francisco de Almeida Portugal (Imprensa da Universidade de Coimbra 1933, vol II) coevo dos acontecimentos, que quase todos os mercenários estrangeiros “saíram das classes menos estimáveis da sociedade, isto é, dentre os homens que, por sua imoralidade e vícios, estão dispostos a cometer toda a espécie de crimes”, sendo “muitos dos soldados ratoneiros e homens saídos das prisões, e os oficiais, com poucas excepções, são uma corja de beberrões” (pp. 337-387).” (Portugalidade – biografia duma Nação – Domingos Mascarenhas). Como se vê os “Bravos do Mindelo”, saídos daqui do Relvão em Ponta Delgada , mais não eram do que um corpo expedicionário misto de soldados da fortuna, gente de baixa extracção social e alguns revolucionários disfuncionalmente românticos.

Nas poucas horas vagas que tenho dedico-me também a ler sobre a nossa História e depois de um “mergulho” estival sobre a época de oitocentos registei, sem espanto, que subitamente a minha ilha que era Miguelista recebeu em prostração servil D.Pedro ! Como sabe este acidentalmente teve de aportar a Ponta Delgada depois do barco onde seguia ter sido desviado do rumo à Terceira por razões climatéricas. Muito antes da República já tínhamos entre nós o costume dos “adesivos” e num ápice fervorosas famílias Miguelistas viraram a casaca e deram Real estada a D. Pedro. Muito interessante de se lerem são os relatos de época de piqueniques, burricadas e bailes da sociedade ! Confesso que li o que pude sobre o assunto e no final acabei com uma simpatia emocional e racional pela causa Miguelista!

Um outro facto histórico que me importava também pesquisar foi o desembarque aqui em São Miguel de um contingente liberal que na célebre Batalha da Ladeira da Velha deu um derradeiro golpe nas aspirações das forças Miguelistas na Ilha de São Miguel. Fui ao local do desembarque na Freguesia da Achadinda onde, em 1 de Agosto de 1831, desembarcaram tropas vindas da ilha Terceira para manietar o último reduto do Miguelismo nos Açores : a ilha de São Miguel. Tenho pena de não ter feito um levantamento fotográfico pois o local é de acesso absolutamente alucinante. Uma praia mínima de calhau periclitante, uma ravina escarpada e sujeita e fácil emboscada, e um relevo daí em diante sempre acidentado. Espantou-me que no dia seguinte tais tropas já estivessem a confrontar-se na Ladeira da Velha, a uns bons quilómetros, e também num local de topografia bastante acidentada e irregular. Enfim, curiosidades menores mas ainda assim interessantes.

No meio destas leituras fiquei também com uma convicção reforçada sobre a dúbia nobreza de carácter de heróis da revolução como Saldanha e outros. Porém, uma figura gostaria de conhecer melhor : Vila Flor ou Duque da Terceira. Se tiver bibliografia sobre esse Senhor que agora repousa indiferente à revisitação da História no pedestal do Cais do Sodré ficaria-lhe muito agradecido.

Com os meus melhores cumprimentos e Saudações Açorianas,

João Nuno Almeida e Sousa"

(Fonte: Combustões) - NOTA: o blogue ASCENDENS não se identifica com o COMBUSTÕES, nem com um LEGITIMISMO, ou MIGUELISMO apartado do TRADICIONALISMO ou, enfim, CATOLICISMO.

24/03/14

SERMÃO SOBRE O ESPÍRITO DA SEITA DOMINANTE NO Séc. XIX (III)

(continuação da II parte)

E não se vê isto manifestamente no que aconteceu ao Verbo incarnado feito homem entre os povos da Judeia? Nos primeiros anos de sua vida santíssima começaram os homens a se dividir a seu respeito em diversas, e opostas opiniões; mas toda a diversidade, e contrariedade consistia ao princípio em acreditá-lo mais, ou menos Santo, e em o conhecer, ou não o conhecer pelo esperado Messias. Quem dizem os homens, que seja o Filho do homem? Perguntou Ele um dia a seus discípulos, e eles lhe tornaram: "Uns dizem que sois João Baptista, outros Elias, outros Jeremias, ou uns dos outros antigos profetas". Porém quando por artifício, e instinção dos Fariseus este grande objecto passou a formar partidos, e opiniões, não se tratou mais de sua maior, ou menor santidade, mas sobre a bondade, ou sobre a malícia, e não sobre qualquer malícia, mas sobre a maior que se pode considerar num homem, a malícia de um hipócrita, de um sedutor do povo, de um inimigo declarado das legítimas autoridades. Uns diziam "é bom"; outros diziam "não, mas é um sedutor das turbas". Dizer de Jesus Cristo, que ele não era nem tão grande homens, nem tão grande Santo, como outros o publicavam, e aclamavam, seria uma contradição de quem julga de um modo diverso dos outros homens; mas isto não seria uma contradição própria do espírito de partido. A este espírito tocava, e competia, segundo a sua natureza, levar as coisas às últimas extremidades, e acumular a Jesus Cristo as mais escandalosas maldades, até o fazer autor de nefandas rebeliões, e enormíssimos atentados contra o público sego: Seducit turbas, afirmando que estas asserções não eram efeitos de meras conjecturas, mas argumentos da verdade, e da experiência. Nos scimus, quia hic bono pector est.

Brasão de Portugal
Mas por ventura acreditariam eles intimamente isto mesmo que publicavam de Jesus Cristo? Sim, Senhores, eles acreditavam isto que diziam, e tanto mais o acreditavam, quanto mais crescia, e se dilatava a fama de seus milagres, e quanto mais robustas eram as provas de sua santidade, e virtude, porque na verdade não é crível a animosidade, a dureza, e a cegueira, que derrama na alma do homem a mágica força disto, que se chama espírito de partido. Eu não sou um homem,nem de carácter, nem de autoridade, de letras, e talentos tais, que possa suscitar partidos; mas se o fosse, e em vós houvesse as disposições necessárias para me seguir, em primeiro lugar eu vos pediria que o não fizésseis, se o não pudésseis, ou o não soubésseis fazer de outra maneira que não fosse a do espírito de partido; e vos direi também que o meu nome, a minha fama, e a minha opinião não merecia ser defendida com tanto dispêndio da vossa paz, e com tanto escândalo quanto causaria um cisma, e uma separação hostil entre vós. Ainda vos direi mais, que todo o vosso afã, e trabalho de nada me aproveitaria; pelo contrário acenderia, e inflamaria contra mim ainda mais aqueles espíritos, que fossem escravos desta paixão, da qual é próprio crer, e dizer todo o mal possível dos outros, quanto mais oprimida se vê da autoridade contrária, e das contrárias razões. Em mim tendes a prova, e a experiência desta verdade quando me resolvi, e determinei atacar a mais ridícula de todas as manias, a quem eu honraria muito, se lhe desse o nome de opinião. Vós sois testemunhas das soltas tempestades que contra mim levantou o espírito de partido: fama, nome, reputação, tudo foi sacrificado.

E que será do homem quando se resolva a tomar um partido por um parecer, por uma prática, por um sistema, que seja perigoso, ou contrário à Fé? Acontecerá o que aconteceu sempre na Igreja de Deus, que Ele, e seus sequazes depois de não longo tempo de tumultuosas, e fraudulentas disputas, longe de se confessarem vencidos, metem debaixo dos pés as mais veneráveis autoridades, e até as formais determinações, e decretos do Trono Apostólico. Acontecerá, que cessando algum medo, ou pavor que os impeliu a darem alguns sinais, ou a mostrarem alguns vestígios de submissão, tornem de novo a espargir dissimuladamente, e como entre sombras as sementes de sua nunca deposta, nem renunciada opinião. Perguntai um pouco a qualquer dos Povos rebelados contra a verdadeira Religião, se se interessaram no princípio pela doutrina, que este ou aquele inovador lhes anunciava? Responder-vos-á que não, mas que visto ter o mesmo inovador a astúcia, ou o talento de se formar um partido, dilatando-o, e engrossando-o até no meio da Plebe, então pouco a pouco passará da submissão devida à igreja, à indiferença; da indiferença à animosidade; da animosidade a um manifesto furor; e levado deste ímpeto cego, e fanático, fechando os ouvidos aos brados da razão, e da justiça, chegara até a tomar nas mãos as armas, e a estabelecer, e arreigar com elas a própria crença. E tende por coisa assentada, que esta, que vos tenho fielmente exposto, é a história de todos os cismas, e de quantas heresias tem até agora despedaçado, e ainda despedaçam o seio puríssimo, e santíssimo da nossa Fé. Estes cismas, e estas heresias sem o espírito de partido que as ajudasse, e sustentasse, ou não houveram tido existência, ou não a teriam fora daquelas cabeças ou ignorantes, ou vulcânicas, e sacrílegas, que as inventaram, e produziram.

Esta experiência tão notória, e tão lastimosa, como sabe qualquer que sabe alguma coisa, aumenta sobre maneira a admiração que me causa o silêncio funesto, que os Oradores sagrados têm guardado sobre uma semelhante paixão, deixando de admoestar os Povos sobre a força incrível que ela possui de obscurecer, e anuviar os entendimentos mais claros, de seduzir as almas mais penetrantes, de subverter, e arruinar as consciências mais delicadas até as tornar surdas, e desprezadoras de todos os clamores do Evangelho, e de todos os respeitos devidos à Religião.

(a continuar)27

12/04/13

D. JOSÉ DA COSTA NUNES CARDEAL PATRIARCA DAS ÍNDIAS ORIENTAIS - A MAÇONARIA

Cardeal Costa Nunes, D. José,
Patriarca das Índias Orientais
Há poucos anos o Grão-mestre da Loja do Grande Oriente Lusitano, António Reis, numa das sua aparições televisivas, afirmou que D. José da Costa Nunes, Cardeal patriarca das Índias Orientais, foi maçon e ajudou João XXIII a preparar o Concílio Vaticano II. Meses antes de António Reis subir ao cargo o anterior Grão-mestre António Arnaut tinha declarado ao seminário Expresso: "A Maçonaria sempre teve no seu seio grandes figuras da igreja Católica e de doutros credos", e deu os nomes dos portugueses D. José da Costa Nunes e de D. António Alves Martins (bispo de Viseu).

Seria justo que estas informações fossem acompanhadas de fundamentação, porque a honestidade nunca foi qualidade que a sociedade atribuísse aos maçons. Mas, independentemente disso, a atribuição contrária é feita desde os locais de poder. As figuras de renome são hoje usadas pela maçonaria para atrair os vários grupos sociais... Dou o exemplo do texto escrito, a vermelho, no folheto de informação do Museu de Angra do Heroísmo em cooperação com o Museu Maçónico Português por motivo da exposição "A Maçonaria nos Açores", ao fundo da primeira página (aqui). Estes eventos, sem qualquer censo, foram patrocinados pelo governo.

Não há dúvidas que o Cardeal Costa Nunes e o bispo de Viseu D. António Alves Martins têm um pensamento totalmente compatível com a maçonaria do seu tempo, mas é verdade que os Gão-mestres mencionados não tiveram que apresentar provas a quem os repetiu e seguiu, incluindo organismos sociais e comunicação social!

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