07/05/19

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 32 (II)

(continuação da I parte)

Não me foi estranho que soasse logo o canhão de alarme, e fosse decretada solenemente nesses covis pedreirais a minha perseguição (ao mesmo tempo me elogiava pelo Maço Férreo na própria Gazeta Universal, e me excitava a combater os Mações uma personagem de alta hierarquia, e assaz conhecida pelo seu acrisolado realismo, e pelo seu tão vasto como profundo saber. Assim eu merecera os seus louvores como ele [o Excelentíssimo Senhor D. Luís António Carlos Furtado de Mendonça] as merece pela sua elegante e incontestável demonstração dos erros do Cidadão Lusitano, e pela excelente carta latina ao Santo Padre Pio VII, em que tão sucinta como eloquentemente deplora os males da Igreja Lusitana no governo constitucional!!). Um devoto militar foi o denunciante oculto, e uma ordem expressa do Ministro da Justiça fez pôr em movimento os austeros e incorruptíveis Jurados de Lisboa, que me deram por incurso na mais formal transgressão das leis coercitivas do exercício da liberdade da imprensa… Se eu blasfemasse de Nosso Senhor Jesus Cristo, dizia um piedoso Mação Conimbricense, não era nada, nem ele me dicaria aborrecendo por isso… mas ter eu a louca presunção de atacar o mimo da sabença, o corifeu, o dulce decus, et praesidium da Maçonaria Lusitana, era no seu conceito uma acção iníqua, atroz, e digna de muito mais que o perder a cadeira de grego, e direitos de cidadão, e os cinco anos de cadeia!!! Vi pois formar-se a negra e medonha tempestade, e sem grandes receios ou pavores tratei de poupar aos Mações Coimbrões o gostinho de me verem prezo na cadeia da Portagem, e tomei de tal sorte as minhas medidas, que me seria mais fácil e mais doce o morrer nas planícies de Castela, então um infestadas de guerrilhas de ambos os partidos realista e constitucional, do que ser uma vítima sacrificada ao ídolo Tomasiano (bem quisera eu especificar aqui pelos seus nomes todas as pessoas a quem fui devedor de especiais atenções e obséquios neste porventura o mais arriscado lance da minha existência. Enquanto se me não deparar ocasião de satisfazer estes meus desejos, farei ao menos especial memória do actual Prior de Vila Cova de Subavô Manuel Lopes Garcia, e de seu sobrinho o Padre Manuel  Garcia, residente em Gramassos, que me facilitaram a saída desde Vila Pouca até ao Mosteiro de Aguiar, onde fui cordialmente recebido e agasalhado pelo D. Abade Fr. Manuel de Melo, e pelo Celeireiro Fr. Sebastião de Morais. Eu não passaria neste Mosteiro alguns dias tranquilos se o actual Juiz de Fora de Castelo Rodrigo António Pinto Machado, tão bom Ministro como leal vassalo de ElRei Nosso Senhor, me não tivera sossegado nomeio dos meus bem fundados temores. Quando se começou a murmurar da minha longa demora naquele Mosteiro foi-me necessário mudar de terra, e no concelho de Selores, em Trás os Montes, achei refúgio até passar a tempestade, por conselho e por indústria de meu amigo Fr. Dionísio de Mesquita, Monge de S. Bernardo, que para o diante, como zeloso e ardente realista que sempre foi, militou na guerra Transmontana, o qual me fez viver sem receio em casa dos seus parente por espaço de cinquenta dias; e é bem digno de observação que constando aquele concelho de milhares de pessoas só ali houvesse um Constitucional!!!! Custa-me a deixar em silêncio o quanto devo ao meu Prelado local o Reverendíssimo Padre Mestre Fr. Francisco de Melo, e às duas Comunidades de Vila Pouca da Beira do Instituto do Louriçal, e de Lourvão da Ordem Cisterciense. Naquela mal posso notar preferência, excepto se for na actual Vigaria do Mosteiro Soror Maria do Santíssimo Coração de Jesus, natural de Alcobaça, onde me ensinou a ler, escrever, e contar; e nesta merece o primeiro lugar D. Ana Bárbara de Faria a actual Abadessa, que já o era nesse tempo, e que mereceu no sistema constitucional a distinta honra de ser denunciada no Astro da Lusitânia por ter feito recitar ou cantar um Te Deum em acção de graças pela declaração da Santa Aliança no Congresso de Verona. Em ambos estes Mosteiros se fizeram Orações fervorosas e incessantes, para que eu fosse livre da perseguição dos ímpios). Revela porém confessar ingenuamente que seriam talvez infructuosas estas medidas se a Providência não tivesse posto em Coimbra naquela época um desses homens, que seguindo imperturbavelmente os caminhos da honra, da probidade, e da justiça, parecem destinados para consolar os homens enfastiados de verem à roda de si cópia de baixezas, de perfídias, e de injustiças. Foi este homem o Corregedor, e actualmente Desembargador do Porto, António José da Silva Peixoto, que mais para o diante havia de figurar com os seus nobres e honrados sentimentos em causa de maior vulto, e mais graves consequências de que podiam ser todas quantas lhe apareceram em Coimbra durante o seu para mim, e para todos os Realistas, sempre memorável e saudoso triénio… De Lisboa se intimou a este digno Magistrado que me fizesse condenar a todo o custo!! Assim procede o Maçonismo em a execução dos seus palavreados de igualdade, liberdade, direitos de cidadão, e de livre comunicação dos pensamentos do homem!!! A minha retirada para o território espanhol fez demorar tanto a minha causa, que só veio a decidir-se em tempo do actual Corregedor Pedro Henriques de Castro, que não desmentiu nem um só ápice da nobre firmeza e imparcial justiça do seu antecessor, e bons três meses depois da jurídica e bem fundada pronúncia de Lisboa fui unânime e triunfalmente absolvido no Conselho dos Jurados de Coimbra, que nunca soube marchar em sentido constitucional, e que tanto em a minha causa, como em outras, que lhe foram devolvidas, mostrou a mais escrupulosa observância das lis, pondo de parte as tímidas contemplações, e os respeitos humanos, que tantas vezes empecem a boa administração da justiça, e conseguintemente a felicidade pública…. Se me esquivei de nomear os Juízes que me condenaram em Lisboa, e de fazer agora imprimir o libelo do Promotor de Coimbra, não praticarei o mesmo, nem com os Juízes que me absolveram, nem com os que me defenderam por escrito.

(a continuar)

15/04/19

NOTRE DAME de PARIS - A QUEDA

Foi mais uma tristeza vinda da capital da França. O incêndio que hoje deflagrou em Notre Dame de Paris deixou quase todos entristecidos. Houve festejos por parte de muçulmanos, nas redes sociais.

A Catedral de Notre Dame, símbolo da França, em parte também da Cristandade, estava num processo de grande restauro, quando o terrível incêndio deu origem. O cume da perplexidade de quem assistiu ao histórico espetáculo foi o da queda da torre central (agulha), que erguia sobre todo o edifício um cruxifixo.


É impossível não meditar no acontecimento coincidente com o início da Semana Santa.


Rezemos pela França.

14/04/19

Mons. TISSIER DE MALLERAIS - A RECUPERAÇÃO

Aviso: o artigo está em "suspenso" e requer a posterior leitura da respectiva caixa de comentários.

Ontem, dia 13 de Abril de 2019, um dos antigos padres da FSSX expulso por recusar obediência ao Papa (enquanto se mantivesse em opiniões heréticas), o conhecido Padre Basílio Méramo escreveu uma carta aberta a Mons. Tissier de Mallerais (um dos quatro bispos sagrados por Mons. Marcel Lefebvre).

Mons. Tissier de Maillerais terá baixado a guarda à Gaudium et spes e à promulgação do decreto da Liberdade Religiosa, dizendo que Mons. Lefebvre no Concílio assinou favoravelmente. Por obrigação de consciência, o Padre Basílio Méramo escreve para recordar ao bispo não fazer daquela assinatura de presença uma assinatura de aprovação. O mesmo padre recorda os procedimentos devidos nestes casos: Mons. Tissier deverá fazer uma declaração pública (tanto quanto o foram as afirmações erradas) e o mais rápido possível (para evitar maiores danos às almas). Recorda ainda que, na audiência de Paulo VI a Mons. Lefebvre, o Papa censurou-o por não ter aceite aqueles documentos.

Traduzimos do castelhano a carta a Mons. Tissier de Mallerais:


Estimado Monsenhor Tissier de Mallerais,

com total respeito que merece a sua dignidade episcopal, vejo-me obrigado perante Deus, a Igreja e o Senhor (motivo pelo qual torno pública a presente), a recordar-lhe o grave erro em que incorreu, seja por descuido, miopia, desconhecimento ou pressão (pouco importa), por ter confundido de Mons. Lefebvre a assinatura de presença (e da sua representação como procurador de outro bispo) com a assinatura pró promulgação dos decretos da Liberdade Religiosa e Gaudium et spes, que como se sabe bem, Mons. Lefebvre sempre negou, ademais de ter votado contra eles.

Após uma revisão e reflexão mais profunda, dei-me conta de ter sido talvez condescendente ou quiçá pouco claro e contundente. Para evitar cair em pena supletória no purgatório, por deixar de fazê-lo, vejo-me hoje obrigado, também para que, corrigindo-lhe o erro, evitar que o Senhor também caia nela.

Isto é de ser feito o mais prontamente possível, com uma declaração pública e manifesta. De contrário, terá de sujeitar-se ao juízo da Ira Divina à qual será submetido no momento da morte, a qual nos pode chegar a qualquer momento.

Tenha como prova, ou melhor como contra prova, a facto do próprio Paulo VI em audiência como Mons. Lefebvre, a 11 de setembro de 1976, censurou-o de não ter aceitado esses documentos. Então, fica claro que se Monsenhor Lefebvre tivesse assinado como o Senhor afirma categoricamente nestes termos: "Resulta destes factos irrecusáveis que Mons. Lefebvre, como Mons. de Castro Mayer, depois de ter votado até ao final contra a liberdade religiosa, assina finalmente a promulgação da declaração Dignitatis humanae", nada teria o Papa para censura-lo. Esta reprovação de Paulo VI é prova irrecusável e irrefutável de que Mons. Lefebvre jamais assinou a promulgação da Liberdade Religiosa.

"Errare humanum est, perseverare autem diabolicum" Não esqueça!

Que a graça e a luz divina o fortifiquem e iluminem para que obre em consequência. Por isto, coloco-o de forma muito especial nas minhas pobres orações.

Basílio Méramo.


Esperemos que Mons. Tissier tenha a coragem necessária, e também uma boa recuperação da recente intervenção cirúrgica. Reze agora uma Avé-Maria por Mons. Tissier.

(fonte: Radio Cristiandad)

09/04/19

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 32 (I)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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N.º 32
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Ostendam gentibus nuditatem tuam


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HISTÓRIA DO MAÇO FÉRREO ANTI-MAÇÓNICO


Creio que haverá muita gente persuadida de que o Maço Férreo, este desperdiçado dos Mações, só teve por assunto desmascarar esses infames, que tão infelizmente nos regiam. Apesar de que o erro não é substancial, pois tanto vale dizer deu-te na cabeça, como na cabeça te deu, convém que estas coisas apareçam agora no seu verdadeiro ponto de vista.

Quando o sistema começou a bambalear pela inépcia e maldade dos que o traçaram e dirigiam, acudiu o Patrão da Larcha, deitou a mão ao leme, ofício que lhe era natural, e tratando de escapar ao naufrágio, meteu-se a Periodiqueiro, e de parelhas com outros Natuas Argelinos e Mouros fez sair o Independente, nome mil vezes bem posto, que segundo mostrou a experiência tudo o que saía de tais penas era independente de noções de Lógica, de princípios religiosos, e muito acima de todas as leis repressivas de liberdade da imprensa, que se fizeram só para a vil canalha dos Cristãos e dos Realistas. Ora os tais novos Redactores bem quiseram cobrir com ramalhos esta como peça de artilheria, para que os malditos Corcundas nem soubessem donde lhes vinha o mal, nem presumissem que os tracalhazes ou postilhonas da Majestade se aviltavam a ponto de exercerem as humildes funções de Periodiquistas; porém como os ramalhos eram delgaditos, e a sua folhagem não dava para cobrir peças de quarenta e oito, rompe-se logo o tal segredo, e já desde o N.º 2º eu sabia quem eram os Redactores. Prosseguia a obra mui felizmente, quase tomava a dianteira ao Diário do Governo, e trazia bocadinhos de ouro sobre alguns assuntos Cristãos, e nomeadamente sobre a tolerância. Caso estupendo! Maravilha peregrina! Sem lhe valer a égide dos mais claros nomes da História Constitucional houve Padresinho tão audaz, que os moeu sobre o artigo tolerância, e o fazia com tal arte, sagacidade, e força de raciocínio, que julguei escusado sair nessa ocasião com o meu fato à rua. Chegou-se ao N.º 45, sem que eu me resolvesse ainda a encetar a peleja; mas tanto que li no Suplemento ao dito N.º as palavras seguintes:
"Qual será a razão por que se não lança mão das rendas de tantos Conventos inúteis, e até prejudiciais à regeneração que Portugal tem empreendido, e à nossa felicidade geral? Qual será a razão por que a Comissão de reforma eclesiástica não apresenta um plano de reunião (ao menos quando não seja de extinção total) desses inimigos declarados da Nação Portuguesa? Qual há de ser a razão por que os Frades Bernardos hão de conservar trinta, ou quarenta, ou mais Conventos de ambos os sexos com rendas exorbitantíssimas para sustentar viciosos inimigos do bem público? Porque não se hão de fazer sair daqueles clubs os homens que quiserem vir para o século, reunir todos os mais em uma ou duas casas, onde exercitem o seu instinto como monges, e não como perseguidores da humanidade? E porque se não há de praticar este plano como todas as religiões monacais, tendo todas o mesmo interesse em transtornar o nosso actual sistema, e empregar as rendas das casas suprimidas em favor dos juros da dívida pública? Qual há de ser a razão por que as ordens militares não hão de ficar reduzidas a simples honorífico, e aplicar tudo o que é útil e rendoso a bem dos juros da dívida pública? Por ventura esses bens e essas rendas não são da Nação Portuguesa? Acaso pode considerar-se nelas algum privilégio maior que o interesse público? Acaso pode considerar-se nelas algum privilégio maior que o interesse público? Não posso, confesso ingenuamente, acomodar-me a que se não adopte este plano: quem deixará de emprestar os seus cabedais a uma Nação tão decidida pelo sistema constitucional, e que tem em si tais recursos, e tão sólidas garantias?...…. Demais, ara que se conservam ainda tantas prebendas e conezias nas catedrais de Portugal? Pois para que o culto divino se pratique será necessário que haja centos de Cónegos, e que estes tenham três, quatro, e seis mil cruzados de renda para ir cantar, entretanto que um empregado público percebe um ordenado que lhe não chega para três meses do ano? Não bastariam seis ou oito beneficiados, a quem se dessem duzentos ou trezentos mil réis, e não mais? Para que servirá que tantos Prelados diocesanos tenham quarenta, sessenta, e cem mil cruzados de renda? Não bastaria dar a cada um doze ou quinze mil cruzados? Não bastaria dar a cada um doze ou quinze mil cruzados, e aplicar toda a mais rendas aos juros da dívida pública, e desse empréstimo! Que aplicação mais útil, e mais santa? A mim parece-me, e não me engano certamente, que tudo isto se fazia em meia folha de papel; e que em resultado teríamos não só o indispensável empréstimo dos capitalistas e Portugueses, mas até dos estrangeiros; porque realmente nenhuns os podem empregar com mais segurança, nem com tanta vantagem; e a Nação Portuguesa estabelecia o seu crédito, e teria logo dinheiro para fazer face às suas indispensáveis despesas, e diminuía o número de seus inimigos. Quais serão os perigos que se receiam de lançar mão deste plano e destas rendas, que presentemente estão gozando as ordens religiosas e corporações eclesiásticas? Porventura não são rendas nacionais? Porventura haverá entre nós alguma coisa que não seja da Nação Portuguesa? Não têm eles gozado até agora com detrimento, e o maior prejuízo da mesma Nação? Que bens vêm à Nação Portuguesa da conservação de tais estabelecimentos, trono a repetir? Dar-se-há caso que ainda se julgue necessário, para se adoptar este plano, recorrer à Cúria Romana? Não se acha já determinado que a Nação Portuguesa é livre e independente, e que não pode ser património de alguma casa ou família? Como o há de ser então da Cúria Romana? É preciso acabar um dia com estas imposturas, e reconhecer por uma vez que as nossas Côrtes estão autorizadas para todo o género de reformas, e que esta é a mais interessante a bem da causa pública, e que sem ela chegar a efeito, todas as mais operações são secundárias. É preciso reconhecer a nossa independência, e tomar um caracter firme e decidido pelo bem geral; caia embora o raio onde cair; esta é a tábua da nossa salvação, que não depende do arbítrio ou vontade estrangeira, depende unicamente do convencimento destas verdades, até agora ocultas nas trevas da ignorância, mantida pelo fanatismo político, que se apoderou com arte dos governos para escravizar a humanidade: essa época porém passou, graças à mão virtuosa e liberal, que soube aproveitar o momento para nos salvar do naufrágio, a que um governo perverso e despótico nos havia conduzido. - Ass. um verdadeiro Constitucional."
Senti reverdecerem todas as minhas feridas, vi tão claramente enunciado o projecto da destruição do Catolicismo neste Reino, que peguei logo da pena, e mui determinado a expatriar-me se fosse necessário arrostei com o Mestre dos Naufrágios, e mandei apra a Gazeta Universal o que se publicou em o N.º 67, e é, sem mais nem menos, o que se segue:
"Senhor Redactor da Gazeta Universal - Que bulas terá o Redactor do Independente para nos empurrar à carga cerrada artigos impolíticos, desbocados, e em manifesta oposição às Bases da Constituição? - Mandam-lhos inserir, e o pobre figura só de Moço de Feitos. - Seja assim muito embora, mas enquanto o Soberano Congresso não decidir que o tal Independente é órgão da verdade, o zenith do bom gosto, o Sete-Estrelo da erudição, e o non plus ultra da sabedoria, hei de lhe ir à mala com quanta pólvora houver no meu armazém. Assentemos uma peça de calibre três: é quanto basta; que o mais chama-se gastar cera com ruim defunto… Fogo à espoleta… Aí sabe-o."

1.º Monitório ao Constitucional enxertado no Suplemento ao N.º 45 do Independente.

Não serei temerário, Senhor Constitucional enxertado, se enxergar em V. m. um irmão gémeo do tolerantismo. Epiménides, que está arrebentando por ver em Lisboa Sinagogas, Mesquitas, Pagodes, e Procissões de Trolhas, como verdadeiras fontes da riqueza e prosperidade nacional… Ora V. m. feito eco dos Garats, dos Barnaves, e dos Robespierres, assentando lá para si que em falando desde o alto da sua trípode ninguém mais há de abrir boca!.. Não há de ser assim. Eu tenho língua para falar, mãos desembaraçadas para escrever, e armas de sobejo para combater os seus delírios. Ninguém o pode livrar das minhas mãos. Ainda que eu visse o cutelo já pendente sobre minha cabeça, ou quase lavrado o decreto da minha expatriação, nem assim mesmo poderia calar-me. Sou necessitado a desviar e repelir o injusto agressor, que tendo porventura gozado nos Mosteiros deste Rino todas as distinções e benefícios da mais carinhosa hospitalidade, se converte agora em um raivoso tigre disposto a atassalhar o crédito de quem nunca o ofendeu, e a usurpar os bens que nem lhe pertencem, nem jamais deveria pertencer-lhe… Ah! liberdade, liberdade! (exclamava a infeliz Madama Roland, pouco antes de entregar a cabeça ao ferro da guilhotina) quantos crimes se fazem  mais declarada guerra ao Catolicismo, e para levarem ao cabo os demandos fins dessa hidrópica sede de ouro que os atormenta! Falemos claro.

A opulência de certos Mosteiros é o seu maior crime, assim como a influência dos Jesuítas nos Gabinetes dos Príncipes foi o seu mais grave delito, que assim o afirma o Patriarca de Ferney, talvez para V. m. texto irrefragável.. Foi jurada (eu o sei) nas hediondas e lobregas cavernas do Maçonismo a extinção das ordens religiosas, que oferecem um abundante pasto à insaciável cobiça dos Veneráveis e Rosa-Cruzes. - Este Senhores (que infelicidade para o género humano!) carecem ainda dos meios necessários para consolidarem a facção dos Trolhas nas quatro partes do mundo. Quisesse V. m., Senhor Constitucional sans culote, dizer a verdade, que por certo conviria comigo. Ora V. m. bem mostra haver folheado o Amigo do Povo (é o de lá, que saiu da forja de Marat) e outras emanações impuras da cáfila de Ateus, que desmoralizou, inundou de sangue, e cobriu de cadávers a desditosa França… Ter V. m. o descaramento de chamar aos Frades inimigos do bem público, e anunciar a lembrança de reduzir Ordens inteiras a um só Convento… Meu amigo vamos a contas: quanto deu ou dá V. m. para o Erário nacional? Quem sabe se V. m. chegando lá quereria meter-lhe os braços até ao cotovelo!.. Veio já tarde com esses pérfidos conselhos, que depois de turbarem o socego de muitas famílias respeitáveis acabariam por atear neste Reino as vorazes chamas da discórdia e da guerra civil.

Não é incompactível a existência dos Frades com a felicidade dos Povos; e se lhe concedêssemos que a extinção, por que V. m. tanto suspira, chegasse a aliviar momentaneamente o Povo, não tardaria dez anos que o Povo não gritasse contra quem os iludira, e os expusera a terem de passar por encargos mil vezes maiores e mais pesados que os antigos. Os Mosteiros são uns como fiadores nacionais, que acodem à pátria quando ela se vê ameaçada de inimigos. Quebrando estes fiadores quem há de receber e hospedar as tropas? O Povo. Quem há de pagar novos e exorbitantes Povo. Quem há de pagar dez e vinte vezes mais do que pagava no tempo em que havia dízimos e Frades? Quem há de morrer de fome, estancados todos os mananciais de beneficência ordinários nos claustros? O Povo. Quem há de suprir a falta desses úteis cidadãos, que pela judiciosa e económica administração de suas rendas contribuíam eficacissimamente para o bem comum, a que eles atentavam mais que ao seu particular? Ninguém. - Ah! Povo, Povo, o mais leal e o mais heroico do universo, guarda-te destes perversos conselheiros, que trazem por fora a capa de ovelhas mansas, que parece não viverem nem respirarem senão para te constituírem rico e venturoso em suas promessas; mas lá por dentro são uns lobos esfaimados, que depois de tragarem os bens dos Mosteiros, se conseguissem os seus desejos, haviam de empolgar os teus, e reduzir-te aos últimos apertos da indigência e da miséria…

Que terá V. m. que dizer a isto? Já sei…. Fora Corcunda, Servil, agente dos Mandões! - Bravo que Dialectica! Faria inveja a Descartes, se este sábio tivesse o gosto de o ouvir. - Ou há de gritar: fora fanático, supersticioso, intolerante. - Bravo, que eloquência! Se o grande Cícero a tivesse aprendido deste calibre por certo que se livraria das unhas do Triumviro Marco António. Fora graças, concluo eu, antes quero todos esses nomes, depois que um grande Mestre me ensinou os seus verdadeiros e exactos sinónimos, do que os hábitos de Avis, Torre e Espada, Garroteia, Tosão de Ouro, e da saudosa Coroa de Ferro…

De V. m. Etc.
O Maço Férreo Anti-Maçónico

Margens do Mondego
2 de Março de 1822

(continuação, II parte)

05/04/19

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CDLXXIV

LIXEIRADA MAÇÓNICA-LIBERAL PELA DEMOLIÇÃO DO PATRIARCADO DE LISBOA (IV)

(continuação da III parte)


N. 696 
Decreto das "Côrtes", para se instaurar, formar e manter a Capela Real, depois de extinta a Patriarcal.


As Côrtes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, antendendo a que depois de extinta a Santa Igreja Patriarcal, pertence somente a ElRei a instauração e formação da Capela Real, Decretam o seguinte:

1º Para se instaurar, formar e manter a Capela Real, fica estabelecida a consignação anual de dezasseis contos de reis, paga pelo Tesouro Público, e entregue à livre disposição d'ElRei, principiando a vencer desde o dia, em que, depois de extinta a Santa Igreja Patriarcal, Sua Majestade fizer constar às "Côrtes", que têm formado a sua Capela.

2º Todas as quantias e rendimento, que até ao presente se achavam aplicadas para a manutenção e costeamento da Capela Real, farão parte dos rendimento nacionais, e serão fiscalizados e arrecadados pelo Tesouro, procedem-se para este fim aos exames e diligências necessárias.

3º Ficam revogadas quaisquer disposições contrárias às do presente Decreto.

Paço das Cortes em 19 de Agosto de 1822. Agostinho José Freire, Presidente. Francisco Xavier Soares de Azevedo, Deputado Secretário. João Baptista Felgueiras, Deputado Secretário. = 2.º na. tom. VII. pag. 180 = Na Colecção de Legislaç. N. 221 a Carta de Lei de 2 de Agosto de 1822, com o teor deste Decreto, a qual Carta foi registada no Liv. Iº das Cartas e Alvarás da Secretaria dos Negócios da Fazenda a fol. 79 vers. em 22 do dito mês; publicada e registada na Chancelaria Mór da Côrte e Reino em 27 do memo mês, e no Liv. das Leis a fol. 119 vers..

Quando a Comissão Eclesiástica de Reforma deu o seu Parecer na Sessão de 14 de Fevereiro de 1822, 2º na. tom. V. pag. 190, sobre o Projecto para a imetra das Bulas para a extinção da Patriarcal, entre os objectos, sobre que opinou, foi no § 6, pag. 691, a respeito da instrução, ou formação da Capela Real.
Na Sessão de 6 de Agosto de 1822, 2º na. tom.VII pag. 63, entrou em discussão o dito § 6, pag. 64, foi aprovado tal qua estava, substituindo tão somente a quantia de 16 contos em lugar de 24 contos de consignação anual para a referida Capela, como parecia à Comissão; e desta forma só expediu o Decreto supra.
No Diar. do Gov. de 1822 N. 184 pag. 1351 e 1352, e N. 208.
Igualmente na mesma Sessão de 6 de Agosto, 2º na. rom. VII pag. 64, se tratou do § 8, 2º na. tom. V pag. 192, do mesmo Parecer da Comissão, para o Governo fazer apresentar ao Congresso uma relação fiel dos Vasos Sagrados, Paramentos, Tesouros e mais alfaias da Patriarcal, para sobre ela se prover como convém à decorosa manutenção e esplendor do Culto Divino, tanto da Capela Real, como da futura Sé Arquiepiscopal de Lisboa, etc.. O qual § 8, dita pag. 64, foi aprovado até às palavras Sé Arquiepiscopal, e se expediu a Ordem seguinte:

Para José da Silva Carvalho

Ill.mº e Ex.mº Senhor, "As "Côrtes" Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa, desejando preparar as disposições necessárias para a pronta execução das Bulas, que se trata de obter, para a extinção da Santa Igreja Patriarcal e restabelecimento da antiga Metrópole Arquiepiscopal de Lisboa: Ordenam que seja transmitida a este Soberano Congresso uma relação fiel dos vasos Sagrados, Paramentos, Tesouros e mais Alfaias da mesma Santa Igreja Patriarcal, para se prover, como convém, à decência, manutenção e esplendor do Culto Divino, assim da Capela Real, como da futura Sé Arquiepiscopal. O que V. Excelência levará ao conhecimento de Sua Majestade.
Deus guarde a V. Excelência. Paço das Côrtes em 19 de Agosto de 1822. João Baptista Felgueiras". "2º na. tom. VII pag. 182 (A Portaria do Gov. de 21 de Agosto 1822, ao Colégio Patriarcal, para dar à excução a Ordem supra, no Diar. do Gov. de 1822 N 205". No Diar. do Gov. de 1822 N. 184 pag. 1351 e 1352.)

(a continuar)

03/04/19

O NASCIMENTO DO BLOG ASCENDENS


Entre os 740 registos offline do blog ASCENDENS encontra-se um bastante significativo, redigido a 31/08/2011:

"Desde 2006 que tenho acompanhado de longe o percurso do blogue a Casa de Sarto. Em 2007 fundei o blogue ASCENDENS perante a inércia da blogosfera portuguesa que se anunciava como tradicionalista (defensores da perspectiva de Mons. Marcel Lefebvre) à circular emitida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa [D. José Policarpo] sobre o Motu Proprio Summorum Pontificum de Bento XVI. Existia nesta altura outro blogue bastante interessante chamado Gazeta da Restauração que lançou uma campanha de angariação …"

O MASTIGÓFORO - ("Frades")

Frades - Quem não lê a sua história pelo Ateu Gibbon, e por outros da mesma laia, conhece perfeitamente, que a Igreja de Deus não é encarecida, quando ao trocar na instituição de diferentes Ordens Religiosas, lhe chama os Subsídios com que a Providência sustentou, e roborou a Igreja militante, e mais é, que nestas ideias esteve a Europa durante muitos Séculos, e o nosso Portugal foi o último Reino que as perdeu. É tão líquido o ser a perseguição dos frades no séc. XVIII obra da pseudo-filosofia, e do Maçonismo, como é dois, e dois serem quatro, e todo aquele, que se põe a desenhar em público de frades, e a aclamar, de que servem os frades? … é dos tais - Fenum habet in cornu. Guardar dele, que é emissário das Lojas para seduzir o povo. Abençoado povo, que lhe deu pelas ventas, chegando a pedir ao ínfimo Congresso, que se conservassem alguns Mosteiros; para cuja extinção já se tinham concedido Bulas à instância dos mesmos frades!!! O povo nesta parte mais atilado, e providente, que muitos Sabichões, quando viu a Quaresma destruída, e o Patriarca de Lisboa desterrado, começou logo a dizer mal da festa, e no segredo de suas habitações começou a jurar pela pele aos tais heróis do Maçonismo. Forte honra têm dado estes Senhores, sem o quererem, ou pensarem, ao Estado Religioso! Já não era pequena o fazermos companhia aos Mestres dos Cristãos, Nosso Senhor JESUS CRISTO, que de antemão nos confortou com a certeza das perseguições, e promessa dos seus auxílios; mas eis-outra de nós fazerem, ou suporem essenciais ao Cristianismo, por sair de tais bocas, é das que mais nos exaltam aos olhos da Sabedoria humana, se ela deixando a sua habitual cegueira, quiser ponderar, e reflectir um só instante nos pasmosos acontecimentos do Séc. XVIII. Que uma Enciclopédia viva, e ambulante, que o oráculo de Ferney tivesse medo dos frades, e que reputasse a sua extinção como o seguro, e único meio para destruir o Catolicismo!!! Por uma parte a gritarem não havia frades no primeiro Século da Igreja, que era o tempo do maior luzimento da Esposa de JESUS CRISTO, donde se vê que são trastes inúteis, e supérfluos, de que se deve prescindir, todas as vezes, que seja necessário acudir às precisões do Estado; e por outra parte morram, acabem os frades, pois mostra a experiência, que onde os houver, terá o povo maior aferro às verdades Cristãs!!! Não é nada, se a escura Seita das Luzes quis medrar, ou deitar de si o próprio clarão das lavaredas infernais, começou por minar tudo, e assestar quantas baterias houvesse, a fim de conseguir, e levar ao cabo a Supressão da Companhia de Jesus, que foi a primeira vítima dos ensaios Maçónicos. E que mal fariam esses Padres? Tenho ouvido dizer muitas, e muitas vezes aos homens antigos, e ditosos restos do nosso Portugal velho. "Ai! que a expulsão dos Frades da Companhia foi a destruição deste Reino! Pregavam, ensinavam, confessavam, e tudo faziam pelo amor de Deus, até saiam pelas ruas a catequizar os meninos, que andavam tão contentes… e caiam tão bons Cristãos! Desde que eles se foram tudo desandou, e foi de mal em pior; quem os dera cá outra vez!!" O certo é que não tenho achado um só ancião probo, e religioso, que não tenha achado um só ancião probo, e religioso, que não tenha estes sentimentos, donde se vê, que Jesuíta quer dizer um frade, que se obriga a ser útil às Sociedades, Civil, e Cristã, que anda milhares de léguas para converter almas, e que não tem outro intento mais, que propagar o Evangelho…. Ora tudo isto no Calepino dos Mações, é crime imperdoável, e de Lesas-Ideias liberais, que onde entrarem os Jesuítas não progridem, e é certo, e inevitável o triunfo do Servilismo. Querem dizer, que onde houver Cristãos haverá sentimentos de verdadeira Lealdade ao Trono… e eis-aqui o mal, que os Pedreiros querem destruir com todas as suas forças. Eu benzi-me quando vi, que o Ex-Arcebispo das Malinas nos seus últimos escritos deplora a infelicidade dos Reinos, onde entrarem Jesuítas, porque necessariamente hão de enterrar as Ideias Liberais. Coitadinhas é pena! deixam vivíssimas saudades em toda a parte onde chegam a entrar, ou dominar!! E o pior é, que ainda há tolinhos Portugueses, que de boa fé não querem os Jesuítas! Pois fazem uma grande África, em darem as mãos ao frenético Voltaire, que enrouquecida de gritar à quadrilha "Frades abaixo, e primeiro os Jesuítas, que são os mais zelosos propagadores da Superstição Cristícola". Ah! sosseguem os proprietários dos bens que foram dos Jesuítas, que de certo ninguém se lembrará de lhes querer tirar o que possuem… Se voltassem para nós esses dignos filhos de Santo Inácio, vinham mais atrás dos bens espirituais, que de outros quaisquer, e como já mostrou a experiência, que onde houver Jesuítas, iriam indefectivelmente de pernas ao a os malditos pedreiros, o Trono se firmará cada vez mais, e os Altares ficaram seguros das invasões, e profanações Constitucionais….

Pouco se me dá que fossem extintos em Portugal, ou quem fosse o primeiro móvel da sua extinção; o caso é, que os Próprios Irmãos da Seita, congratulando-se da boa obra, que tinham feito, deixam cair a seguinte protestação "Cést proprement la Philosophie qui, par la bouche des Magistrats, a porté l'arret contre les Jesuites." É propriamente a Filosofia, que pela boca dos Magistrados deu a Sentença contra os Jesuítas (Alambert Destruition des Jesuites, pag. 192) Se me instarem, que eu perturbo os gloriosos mares dos que figuraram nestes assuntos, e dou a entender, que os autores da extinção neste Reino eram Pedreiros Livres, respondo que não é agora ocasião de se apurar essa verdade; e que não é agora ocasião de se apurar essa verdade; e que me contento de esbarrar os meus arguentes com outra autoridade clássica do mesmo Geómetra. "As classes do Parlamento", diz ele, "julgam servir a Religião, porém servem a razão (isto é a impiedade, e a maçonaria) sem o pensarem. São os executores da alta justiça em pró da Filosofia, de quem cumprem as ordens sem o saberem" (Correspondance de Voltaire et de d'Alambert lettre 100). Tenham pois os nossos Ministros carta de inocentes, e passemos a outra coisa, visto que ainda terei muito que dizer sobre um sujeito, em que os nossos desperdiçadores tanto falaram, e asnearam. A velha, porém muito bem arraigada árvore do Monarquismo viu-se, e desejou-se, da primeira vez usaram de machados velhos para a cortarem, e da segunda apareceu sim em campo uma falange Macedónica, porém tanto abaixo da comandada pelo filho do Macedo, ou Filipe de Macedónia, quanto vai das trevas à Luz….. Por ora tudo são graças, mas o negócio tomará ainda um aspecto sério, e terrível, que faça esmorecer os Juízes Leigos, que presumiram acabar de todo com as Ordens Religiosas…..

(índice da obra)

02/04/19

O MASTIGÓFORO - ("Filosofia")

Pigault Le Brun

Filosofia
- A sua definição obvia - Amor da sabedoria, encerra o seu maior elogio, e neste sentido até o Cristianismo se pode chamar a verdadeira filosofia. Que arma esta, quando tem a fortuna de ser manejada pelos Filósofos S. Justino Mártir, São Clemente de Alexandria, Orígenes e Atenágoras, ou chegando-me para os nossos dias, quando aparece um de Luc examinando as montanhas do Universo, e pulverizando as absurdas hipóteses dos modernos sobre a formação do globo terráqueo!! Porém que triste e apoucada é a Filosofia no sentido Maçónico! Tem sido a mola real de todas as conspirações e rebeliões dos séc. XVIII e XIX, e a comitiva do homem de Ferney, em todos os seus tiros ao Cristianismo, teve sempre como divisa a Filosofia - e não é por aí um punhado de escritores, é uma nuvem deles pouco menor que o exército de Xerxes, que defende a Tese: A FILOSOFIA FOI A PRINCIPA AUTORA DA REVOLUÇÃO FRANCESA. Quem não quer ser lobo não lhe vista a pele. Ser Filósofo no sentido que lhe impingem os Mações seus camaradas, é ter uma carta patente para zombar dos Mistérios Divinos, e propagar o funesto princípio de que a nossa razão, é o Juiz Supremo e único a quem devemos atender, e respeitar! Ser filósofo à moda de Alfieri, que para isso foi citado cum laude nas conferências das necessidades, é ver em todos os reis uns déspotas, e uns tiranos, e em todos os povos, uns infelizes manietados ao carro da servidão, e da arbitrariedade! Nunca me admirei que tais Filósofos, tendo como sempre tem, péssimos costumes (senão haja vista ao que o coitado Alfieri escreve de si, e dos últimos anos do bêbado Thomaz Paine) mordam o freio e queiram sacudir o peso de todas as obrigações Cristãs, e sociais o que me admira, é que tais homens contem ainda neste reino sequazes, e defensores! Estejam porém certos e descansados, que por mais que trabalhem, e forcejem tudo será perdido. Virão ao mundo filósofos de primeira ordem quais foram Pitágoras, Sócrates, Platão, e Aristóteles, formaram seitas fizeram seus prosélitos, porém não consta que chegassem a atrair para o seu partido, uma Cidade, uma povoação notável! Saem por esse mundo fora doze pescadores, sem valias, sem Distintivos honoríficos, sem dinheiros, ou qualquer outro dos meios humanos, prégam, e convertem o mundo ! A filosofia opõem-se de dia, e de noite aos seus progressos, e auxiliada com o poderio dos Césares não depõem as armas por espaço de 400 anos, porém cede a final, e não contra senão perdas, e derrotas. Se torna a levantar cabeça no séc. XVI, e a aparecer em nossos dias tão medonha como se ostentara nos primeiros séculos, há de ser igualmente rechaçada, e agora no ponto em que escrevo, eu posso afirmar sem temeridade, que já perdeu os seus últimos entrincheiramentos, e que tarde recobrará forças para segundar este derradeiro ataque…. É um rizo vê-la agora descansar ora nos Sarcasmos e facecias do monstro Pigault Le Brun, ora nos delírios de Volney, ora nas visões Astronómicas de Dupuis, e por outra parte é coisa bem de lastimar, que vendo-se acossada de todas as nações da Europa, e querendo ter abrigo neste reino, achasse um grande número de papalvos e sandeus que se alegrarão da sua visita, e já se congratulavam dos seus triunfos!! Depois que a Filosofia está convencida de perturbadora da ordem social, de ser o inverso da Cínica desprezadora dos bens e riquezas do mundo, e de ser inimiga do Cristianismo, é loucura embutirem-nos ainda as suas prendas e quererem persuadir-nos que toda a pessoa, que conhecer os gafanhotos, e as borboletas, as plantas Diganias ou Reyptogamias e as pedras calcárias está habituada para governar o mundo! Recairei para outra vez nos planos conservadores ou mantenedores da Filosofia no trono das ciências; que vinham com pés de lã para se introduzirem neste reino como se lhe ignorássemos as suas habilidades na revolução Francesa!

(índice da obra)

O MASTIGÓFORO - F ("Fanatismo")

letra
F


Fanatismo - Que palavrão este para me encher longas páginas, se eu pretendesse recensear as coisas, e os objectos a que os Mações têm posto o Sobre-escrito "Fanatismo". Ora o fanatismo denota um zelo de religião, porém cégo, e desmarcado, e também se diz figuradamente de todo o excesso, ou demasia em algum sentimento bom e louvável, como por exemplo, o Senhor da Trofa, que se precipitou da ponte de Coimbra abaixo para se livrar dos rendimentos, que lhe seria necessário fazer ao Rei de Castelhano, que ali passava, foi rigorosamente um Fanático de Realismo. O Regimento Transmontano, que se deixou cortar até aos último soldado na guerra da Grande Aliança, foi um fanático de brio, e coragem militar; porém agora já se não trata desses fanatismos, apareceu outro de maior monta, que os Pedreiros, como inimigos de todas as crenças, definem assim.

"Fanatismo é a crença de qualquer religião que seja, é o apego à crença de seus pais, é a convicção da necessidade de um culto público, é a observância dos seus  ritos, e cerimónias, é o respeito aos seus Símbolos. Tudo isto é fanatismo. Quem estiver iscado dele é um inimigo da pátria, e deve ser exterminado."

Ora esta definição traçada por quem pertenceu quarenta anos à Seita dos Filosófico-Pedreiral, não é para desprezar, nem para ficar no tinteiro (Não há nenhum remédio senão conformar-se o homem à linguagem recebida - são palavras de Mr. de Laharpe Tomo 13 pág. 379. "Sabe-se que há muito tempo a palavra Religião foi riscada da Língua Francesa. Todos os povos do mundo que até agora tinham uma religião, já não tem senão fanatismo. É para notar, o que não escapará aos historiadores, que quando os Filósofos sem calções traziam diariamente à Barra da Convenção os vasos sagrados, e os ornamentos do culto, não se lembraram nunca de dizer, os despojos da Religião, os despojos do Culto, guardavam-se de o dizer; eram sempre os despojos do fanatismo. Que coisas vão metidas nesta expressão para quem estiver em circunstâncias de reflectir… Eu escrevia em 1791. Que homem honrado se esquivará de pertencer à Religião de Fenelon? Conto pôr agora em uma nova edição." Que homem honrado se esquivará de ser fanático como era Fenelon?); porém deve-se acrescentar, que por fanatismo entendem os Mações com muita especialidade a Santa Religião de Jesus Cristo. Desde o tempo que a Maçonaria se entronizou neste Reino (que já vai há um par de anos) era fanatismo ouvir Missa todos os dias, quando a Igreja nossa Mãe quisera que fizéssemos ainda coisas melhores durante o Sacrifício! era fanatismo rezar estações com os braços em cruz, não obstante ser esta a prática dos fieis dos primeiros Séculos, segundo nos consta dos escritos de Tertuliano; era fanatismo confessar-se a miúdo, como se os fiéis assaz cuidadosos de remediarem logo as feridas do corpo, não devessem mostrar ainda maior emprenho por acudirem às feridas da alma; era fanatismo rezar cada um as suas contas, e fazer um bocado de oração, ou vocal, ou mental, como se um homem, dias e dias esquecido de um Deus, que o criou, e o enche de benefícios, não fôra uma espécie de monstro!! E se há 20 ou 30 anos já havia tantos fanatismos, vejam lá o que subiria a conta de 24 de Agosto de 1820 por diante!! Os Sacramentos do Corpo, e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo já era vilipendiado de tal maneira, que dentro em poucos meses não seria possível levá-lo aos enfermos, sem que víssemos apedrejado a ponto de que o seu Ministro era chamado, e por quem ensinava meninos. "O Azemel, ou Almocreve das almotolias"" Enfim tudo era fanatismo, e pouco tardaria, que o Sacerdote pelos exercícios da confissão, e pregação fosse arguido de fanatizar os povos, e como tal, ou espingardeado, ou posto pela barra fora, como praticaram os Mestres Franceses.

Fanatismo - E cuidavam os maçons que eu tinha acabado. Não senhor, ainda falta o eminentemente ridículo Fanatismo Pedreiral. São uns maníacos de nova espécie, que deitando-se de uma ponte abaixo, todos se afligem, e se enraivam de que lhe não façamos a destinta hora de os acompanhar-mos nos seus saltos (para o inferno). Ainda não houve seita mais fanática de momices, de toleimas e de ritos os mais provocantes de riso e mofa… Que é senão um fanático de pedra e cal, e um tresloucado, quem estima o seu Candeeiro triangular acima dos que se fabricaram para o Templo de Salomão, uma trolha a um ceptro, e uma espada do Irmão vigilante a um diadema Imperial!!

(Índice da obra)

28/03/19

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 31 (III)

(continuação da II parte)



Segunda Proposição

A impiedade declarada, e até a perseguição nunca eximem os vassalos da obediência devida aos Príncipes.

Provas

O Caracter Real é santo e sagrado ainda que seja nos príncipes infiéis; pois temos visto que Cyro é chamado por Isaías o Ungido do Senhor (Isaías C.45 v.2º)

Nabucodonosor era ímpio e orgulhoso a ponto de se querer emparelhar com Deus, e de fazer morrer os que se refusavam a este culto sacrílego; e Daniel todavia lhe diz estas palavras: "Vós sois o Rei dos Reis, e o Deus do Céu vos tem dado o Reino, o Poder, o Império, e a Glória."

É por esta razão que o Povo de Deus orava pela vida de Nabucodonosor, de Baltasar, e de Assuero.

Acab e Sesabel tinham feito morrer todos os Profetas do Senhor. Elias queixa-se ao Senhor, porém fica sempre obedecendo ao Rei.

Os profetas nesse tempo fizeram prodígios assombrosos para defenderem o Rei, e o Reino (III Reis. Cap. 19 v. 1 10 14 - III Reis C. 20).

Eliseu fez outro tanto no governo de Jorão filho de Achab, também ímpio como seu pai (IV Reis C. 3 v. 6 7).

Ainda não houve quem chegasse à impiedade de Manasses, que pecou e fez pecar Judá contra Deus, tratando de lhe fazer extinguir o culto, perseguindo os Fiéis Servos de Deus, e alagando de seu sangue a Cidade de Jerusalém. Entretanto Isaías e os Profetas Sagrados, que o repreendiam de seus crimes, nunca excitaram contra ele o mais leve tumulto (IV Reis C. 21 v. 2 3 16). Esta doutrina continuou na Religião Cristã.

Foi no governo de Tibério, não só infiel, mas de mais a mais perverso, quando Nosso Senhor disse aos Judeus: Dai a César o que é de César (Mateus C. 22 v. 21)

S. Paulo apela para o César, e reconhece a sua autoridade (Actos C. 25 v. 10 11 etc). Manda fazer orações pelos Imperadores, ainda que o Imperador no tempo em que assim o mandava era Nero, o mais ímpio e malvado de todos os homens (I a Tim. C. 11 v. 12).

Assina como fim desta oração a tranquilidade pública, porque esta exige que se viva em paz até no governo de Príncipes perseguidores.

S. Pedro, e ele (S. Paulo) determinam aos Fiéis que estejam submissos às Potestades (Ep. Aos Romanos C. 13 v. 5- I Pedro C. 2 13 14 17 18). Temos visto as suas palavras, e temos visto quais eram as Potestades desse tempo, nas quais os Santos Apóstolos faziam respeitar aos fiéis a ordem de Deus.

Em consequência desta doutrina Apostólica os primeiros Cristãos, ainda que perseguidos por espaço de três séculos, não fizeram nunca o mais pequeno motim e alvoroto no Império. Somos inteirados destes sentimentos por Tertuliano, e nós os achamos por todo o decurso da História Eclesiástica.

Continuavam a orar pelos Imperadores até no meio dos suplícios, a que eram condenados injustamente. "Ânimo (diz Tertuliano) arrancai aos bons Juízes, arrancai aos Cristãos uma alma que faz votos pelo Imperador" (Tertul. Apolog.).

Constâncio, filho de Constantino Magno, ainda que protector dos Arianos, e perseguidor da Fé Niceana, achou na Igreja uma fidelidade inviolável.

Juliano Apóstata, seu sucessor, que restabeleceu o paganismo condenado pelos seus predecessores, não achou os Cristãos nem menos fiéis, nem menos zelosos do seu serviço; tanto sabiam eles distinguir a impiedade do Príncipe do Caracter Sagrado da Majestade Soberana.

Tantos Imperadores hereges, que vieram depois; um Valente, uma Justina, um Zenão, um Basilisco, um Anastácio, um Heráclio, e um Constante, ainda que expulsassem das suas Sés os Bispos Ortodoxos, e até os Papas, e enchessem a Igreja de mortandades, e de sangue, não viram nunca a sua autoridade atacada ou enfraquecida pelos Católicos.

Enfim, por espaço de 700 anos nunca se vê um só exemplo de um povo que tenha desobedecido aos Imperadores debaixo do pretexto de Religião. No oitavo século todo o Império conserva a sua fidelidade a Leão Isáurico, Chefe dos Iconoclastas, e perseguidor dos fiéis. No governo de Constantino Coprónimo seu filho, que lhe sucedeu na Coroa, na heresia, e violência, os Fiéis do Oriente não opuseram senão paciência a estas perseguições. Na queda porém do Império, quando os Césares mal chegavam a defender o Oriente, onde estavam encurralados, Roma, entregue quais dois anos ao furor dos Lombardos, e constrangida a implorar a protecção dos Franceses, foi obrigada a separar-se dos Imperadores.

Padeceu-se por muito tempo antes que se chegasse a uma semelhante extremidade; e só o fizeram quando a Capital do Império foi tratada pelos Imperadores com um país devoluto a quem quisesse ocupar, e deixado ao desamparo.


Terceira Proposição

Os Vassalos não têm que opor à violência dos Príncipes senão representações cheias de respeito, sem alvoroto nem barulho; e orações para que eles se convertam.

Provas

Quando o Senhor quis libertar os Israelitas da tirania do Faraó, não permitiu que eles procedessem por via de facto contra um Rei, cuja desumanidade para com eles era inaudita. Pediram respeitosamente licença de saírem, e de irem sacrificar a Deus no deserto.

Já temos visto que os Príncipes devem ouvir até os particulares, e mais forçosamente devem ouvir o povo, que lhe faz chegar as suas justas queixas pelos meios lícitos.

Faraó, apesar de endurecido e de tirano que era, não deixava todavia de escutar os Israelitas. ouvia a Moisés e a Arão. Admitiu à sua audiência os Magistrados dos povos de Israel, que lhe vieram queixar em altos gritos, dizendo-lhe: "Por que tratais assim os vossos servos" (Êxodo V VIII - ibid. v. 15).

Seja embora lícito ao povo oprimido recorrer ao Príncipe pelos seus Magistrados, e pelas vias competentes; mas que se faça isto respeitosamente.

As representações acompanhadas de acrimónia e de barulho são um princípio de sedição, e não se devem sofrer. Assim os Israelitas murmuravam contra Moisés, e nunca lhe fizeram uma representação com Sossêgo.

Moisés nunca deixou de os ouvir, de os amaciar, e de rogar por eles, e deu um exemplo memorável de benignidade com que os Príncipes devem tratar o seu povo; mas Deus para manter a ordem castigou severamente estes sediciosos (Números XI XIII XIV XX XXI etc.)

Quando eu digo que estas representações devem ser cheias de respeito, entendo que elas o sejam efectivamente, e não em aparência, como foi a de Jeroboão, e das dez tribos que disseram a Roboão "Vosso Pai nos põe um jugo insuportável: diminuí um pouco este jugo tão pesado, e nós seremos vossos vassalos fiéis" (III Reis XII - 4 - II Par. X - 4).

Havia nestas representações algum sinal exterior de respeito, em que eles só pediram uma pequena diminuição, e prometiam ser fiéis; mas era um princípio de motim o fazerem depender a sua fidelidade de mercê que eles pediram.

Não se vê coisa assim nas representações que os Cristãos perseguidos faziam aos Imperadores. Tudo nelas é comedido, tudo é modesto, e a verdade Divina aí se diz livremente; porém estes discursos tão longe estão de serem concebidos em termos sediciosos, que ainda hoje não se podem ler, sem que logo se sinta inclinação à obediência.

A Imperatriz Justina, Mãe e tutora de Valentiniano II, quis obrigar Santo Ambrósio a que desse uma Igreja na cidade de Milão, residência do Imperador, aos Arianos que ela protegia. Todo o povo se reuniu ao seu Bispo, e juntando-se na Igreja, esperava o êxito do negócio. São Ambrósio nunca excedeu os limites da modéstia própria de um Vassalo e de um Bispo. Fez a sua representação ao Imperador "Não julgueis, lhe dizia, que tendes autoridade de tirar a Deus o que é seu. Eu não posso dar-vos a Igreja que me pedis; no caso porém que a tomeis, eu não devo resistir". E acrescentou "Se o Imperador quer ter os bens da Igreja, pode tomar conta deles, nenhum do nós se opõe a isso, que no-los tire, se assim o quer; eu não lhos dou, porém também lhos não refuso" (Ambr. de Basilicis non tradendis). "O Imperador, continuava ele, está na Igreja, porém não é acima da Igreja. Um bom Imperador, longe de rejeitar o auxílio da Igreja, procura-o." Dizemos estas coisas com respeito, porém julgamos ser da nossa obrigação expô-las com liberdade.

Continha ele por tal arte aquele ajuntamento no devido respeito, que nunca lhes escapou um só termo insolente. Oravam e cantavam os louvores de Deus, esperando o seu auxílio.

Eis aqui uma resistência digna de um Cristão e de um Bispo. Entretanto como o povo estava unido ao seu Pastor, dizia-se no Palácio que este Santo Pastor aspirava à tirania. Respondeu a isto "Eu tenho uma defesa, porém é só nas orações dos pobres. Estes cegos, estes coxos, estes estropeados, e estes velhos, são mais fortes que os vossos soldados mais corajosos. Eis aqui as forças de um Bispo, eis aqui o seu exército" (Ibid.). 

Possuía mais outras armas, a saber, a paciência e as orações que fazia a Deus. "Como se trata isto de tirania?".

"Eu tenho armas, (dizia ele) tenho o poder de oferecer o meu corpo em sacrifício. Nós temos a nossa tirania e o nosso poderia. O poderio de um Bispo é a sua fraqueza. Eu sou forte quando sou fraco, dizia S. Paulo" (Ambr. L. II - Ep. 13)

Enquanto não rebentava essa violência de que a Igreja era ameaçada, o Santo Bispo estava no altar pedindo ao Senhor com lágrimas que não houvesse efusão de sangue, ou pelo menos lhe aprouvesse dar-se por satisfeito com o seu. "Comecei (diz ele) a chorar amargamente, oferecendo o sacrifício, rogando ao Senhor que nos ajudasse de tal maneira que não houvesse sangue derramado em uma causa da Igreja, e que ao menos fosse o meu derramado, não só pelo povo, mas até pelos ímpios" (Ibid.).

Deus ouviu umas orações tão ardentes, e a Igreja ficou vencedora sem custar sangue de pessoa alguma.

Pouco tempo depois, Justina e seu filho, quase abandonados de toda a gente, recorreram a Santo Ambrósio, e não encontraram nem fidelidade nem zelo do seu serviço senão em o próprio Bispo, que se tinha oposto aos seus intentos na causa de Deus e da Igreja.

Eis aqui o poder das representações respeitosas; eis aqui o que podem as súplicas. Assim fazia a Rainha Ester, tendo concebido o desígnio de abrandar Assuero seu marido; depois que ele se resolvera a sacrificar todos os Judeus à vingança de Aman, ela mandou dizer a Mardocheo "Ajuntai todos os Judeus que poderdes achar em Susa, e orai por mim. Não comais nem bebais por três dias e três noites; eu jejuarei da mesma sorte com as minhas criadas, e depois me exporei à morte, e falarei ao Soberano contra a lei, sem esperar que ele me chame" (Ester IV - 16).

Quando ela apareceu diante do Rei, os olhos chamejantes deste príncipe anunciaram a sua cólera; Deus porém, lembrando-se das orações de Ester e dos Judeus, trocou em brandura os furores do Rei. Os Judeus foram livres em atenção à Rainha (Ibid.).

Da mesma sorte quando o Príncipe dos Apóstolos foi prezo por Herodes, toda a Igreja orava a Deus por ele sem interrupção; e Deus enviou o seu Anjo para o libertar. Eis aqui as armas da Igreja: votos e orações com perseverança (Act. XII - 5 e seguinte) S. Paulo encarcerado por Jesus Cristo não tem senão este socorro e estas armas. "Preparai-me um quartel; que espero que Deus me há de entregar às vossas orações" (II Tim. IV - 17)

Com efeito saiu do cárcere, e foi livre das garras de Leão. Dá este nome ao Imperador Nero, inimigo não só dos Cristãos, mas também do género humano.

Que se Deus não atende às orações dos seus fiéis, se para experimentar e castigar os seus filhos permite que se acenda a perseguição contra eles, neste caso devem lembrar-se de que Jesus Cristo os mandou como ovelhas para o meio de lobos (Mateus X - 16)

Eis aqui uma doutrina verdadeiramente santa, verdadeiramente digna de Jesus Cristo, e dos seus Discípulos.

Até aqui o novo Agostinho: e voltando agora às suas últimas palavras contra os promotores, conselheiros, e cúmplices das rebeliões antigas e modernas - Eis aqui o motivo principal, porque o ódio ao Cristianismo é inerente a todas as seitas filosóficas-políticas, ou criadas nos silêncio das trevas do Maçonismo. Esta cáfila de Ateus, que desde os princípios do séc. XVIII estuda, forceja, e toda se afana para destruir os alicerces da sociedade, tomou logo a peito quebrar esse freio, que os incomodava, que os magoava por extremo, a ponto de lhes fazer espilrar sangue. Bem certos de que nem Deus nem o Evangelho queriam outra coisa senão uma inteira obediência aos Príncipes, e que todas as fúrias da ambição, quais ondas entumecidas e assobreadas, haviam de quebrar necessariamente no rochedo incontrastável das lições da própria Divindade, esta mesma renunciaram e maldisseram; que a tanto chegaram os delírios do átomo desprezível, que no seu nome tem uma lição bem expressiva do seu nada, mas que insensível a tudo alardeia e presume de assentar como Lucifer o seu trono sobre as alturas do Firmamento!! Penetrarem-se todos os Soberanos de uma verdade a mais profícua e vantajosa para eles, se a quiserem aproveitar; fechando os olhos de uma vez a esses medonhos quadros da opulência Sacerdotal, e a esses quiméricos e sonhados perigos que ela pode causar ao trono e realeza, e tapando os seus ouvidos à manhosa insinuação de que a Igreja aspira a dominar sobre eles, e a invadir e usurpar as suas mais eminentes prerrogativas. Quem deixará de conhecer as baterias e aproches, de que a seita há lançado mão para armar os Reis contra os mais sólidos apoios da Majestade? Quem poderá encontrar sem horror e aperto de coração esses Reis chamados Católicos, mas adeptos da filosofia moderna, que os empurrava para o fiel cumprimento da sua traças impias e revolucionárias, mas que aplaudia em segredo; e que eles para se mostrarem filósofos se condenassem a desaparecerem mui prestes do catálogo dos Soberanos? Ainda é o tempo… mas foi necessário que Deus lhes abrisse os olhos, e destapasse os ouvidos; porque doutra maneira todos eles por indústria e más artes do Maçonismo seriam iguais no destino a Carlos I de Inglaterra, e a Luís XVI de França! O Senhor, que ainda se dignou sustentar as Monarquias, e não consentiu que uns homens de nada, e filhos de Belial, se jactassem de o ter escarnecido e humilhado na pessoa de seus verdadeiros Representantes, e seus Ungidos, parece que está chamando aos Reis pela voz de tão extremado benefício: "Só a minha dextra, só o poderoso influxo de uma Religião, vossa especialíssima benfeitora, vos tem conservado na posse dos tronos que o Maçonismo queria ver destruídos, ou, para me servir dos seu estilo, afogados em mares de sangue, para que nunca mais fossem vistos à superfície do globo. Assaz vos tem mostrado a experiência o que desde tempos antigos eu vos tinha afiançado.

Por mim, e só por mim, é que ainda hoje reinam os Príncipes no séc. XIX… Está na vossa mão, ou conservar, ou perder os tronos… Só farei milagres quando me aprouver; nem sempre devereis contar com eles… Curai extremamente de que os povos obedeçam ao Evangelho, e nunca mais surdirá a peste de vassalos intrigantes e rebeldes. Florença o Cristianismo; e a seita que de presente lhe é mais contraria, perderá todos os dias grande parte da sua força, a ponto de ser brevemente sepultada nesse caos, onde cedo ou tarde vem a jazer todas as seitas inimigas do Cristianismo."


Conclusão

Portugueses de todas as classes, de todos os sexos, idades, e condições, aqui tendes exposta e demonstrada pelo maior homem dos séculos modernos a intrínseca malícia do façanhoso levantamento do Porto, que foi radicalmente um acto de usurpação de autoridade Real, e uma rebeldia manifesta e contrária às leis do Cristianismo! Fiquem pois mui impressas na vossa lembrança as bem defendidas teses, ou proposições, que sem os atavios da chamada eloquência moderna, e assim mesmo invulneráveis aos tiros de pólvora seca, e às balas de papelão, ou de papelões, que nesta conta devem entrar os pomposos raciocínios do Contrato Social, não deixam mais nada para desejar, pondo em toda a luz o nefando crime que teve inumeráveis cúmplices e admiradores! É porém de minha competência reforçar agora os invencíveis argumentos de Bossuet, não para lhes acrescentar um só grão de força e solidez, o que era impossível ao meu fraco engenho, mas para firmar sobre eles os argumentos que chamaram a fortiori, e que deixaram mais patente a enormidade do crime que se perpetuou a 24 de Agosto de 1820. É dever do Cristianismo prestar obediência aos Reis, por maus e díscolos que sejam, e mais vale sofrer a pé quedo as injúrias e maus tratamentos, do que despica-las à custa do sangue de muitos cidadãos, que necessariamente há de correr em tais conflitos;  qualquer dos fiéis da Igreja primitiva se julgaria reu de pecado mortal só de consentir o pensamento de conspirar para que um Nero fosse deposto do trono que indignissimamente ocupava. Sendo pois assim, como se tem mostrado por argumentos irrefragáveis, de que horrorosa infâmia não devem cobrir-se, e ficarem manchados para em quanto houver mundo, esses perversos e desalmados, que postergando os estímulos do dever, da consciência, e até da própria gratidão, se fizeram e aclamaram reis em lugar dos Rei mais benigno da Europa… Será porventura necessário folhear os autores estrangeiros, como por exemplo a Viagem do Professor Linck e estes Reinos, para sabermos que a bondade do coração e um enternecido amor aos seus vassalos são, para assim dizer, o património da Augustíssima Casa de Bragança? Qual desses furiosos mais acesos contra o que eles chamam Despotismo não deixa de ter na sua mão talvez multiplicados testemunhos da generosa beneficência do mui alto e poderoso Rei o Senhor D. João VI? Praza aos Céus que esta lembrança com a virtude de uma seita lhes traspasse os fementidos corações, para que chegue a entrar neles, quando não seja o arrependimento, ao menos a confusão de terem procedido, não como homens, porém como feras as mais indómitas, e talvez piores, visto que nas Histórias também há exemplo de tigres e leões agradecidos.
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LISBOA: NA IMPRESSÃO RÉGIA. 1823
Com licença da Real Comissão de Censura

26/03/19

O MASTIGÓFORO - ("Corcundas" e "Constitucional")


Corcunda - ou Carcunda, designou sempre uma deformidade corporal, porém os Maçons lhe deram alta, passando este vocábulo para o sentido moral. Corcunda no Dicionário da facção, é todo aquele, que não é escravo, ou cúmplice do maçonismo, e quem tal diria, que sendo ainda ontem este nome desprezado, já hoje seria tido por honorífico, de tal modo, que apareça um excessivo número dessas Corcovas, que eu chamo invisíveis, as quais durante o Sistema Constitucional estavam alapadas no coração, e rebentando por fazerem serviços ao trono!! Ah homens, homens do Século XIX, que pequenos, e desprezíveis sois, e tendes a insânia de querer alterar, e reformar o que saiu de melhores cabeças do que são, ou podem vir a ser as vossas!!! De uma terra sei eu, e das notáveis destes reinos, cujo nome eu colo por decência, em que faz hoje um ano que o nome de Realista era o maximum das injúrias!! E anda agora tão repassada de amor ao Trono do seu adorado Monarca o Senhor D. João VI, que é uma consolação, e um pasmo!!

Constitucional - Veja-se na palavra Jacobino, que é Sinónima.

(Índice da Obra)

25/03/19

O MASTIGÓFORO - ("Conspirador")


Conspirador - Era algum dia o que tramava ou a ruina da sua pátria, ou a expulsão do seu legítimo Soberano para lhe fazer passar o trono a mãos estranhas, porém agora Conspirador é todo aquele que ousa escrever duas regras, que seja, contra o Maçonismo, e contra a prepotência, e intolerável despotismo de seus principais agentes. A famigerada Conspiração da Sua Formoza, patenteou ad tedium usque o verdadeiro sentido desta palavra. Ora Mr. de Laharpe bom conhecedor de tais assuntos deixou-nos uma autoridade clássica "Honras e prémios a quem denunciar seu Pai, sua mãe, seu Irmão, sua Irmã, seu benfeitor, seu amigo e que por sua própria mão os levar ao cadafalso. Pobre de quem mostrar compaixão, de quem falar em ordem, e justiça … É UM CONSPIRADOR, NÃO LHE POUPEIS NEM MULHER NEM FILHOS … são víboras são lobos". (Cours de Litteratura - Ed. in 12 - Paris 1813 - T. 13 pag. 122) Portuguezes honrados e tementes a Deus, arrepiam-se-vos os cabelos ao ler estas monstruosidades!! Pois vivesse mais seis meses a Constituição de 1822, e veríeis dentro daquele espaço tudo isto, e coisas ainda piores…

(Índice da obra)

23/03/19

SUMMORUM PONTIFICUM - APOSTOLADO JUVENIL DA FSSPX-ALEMANHA

Novo nas lides tradicionalocas, certo português comentou que a FSSPX nunca aceitou o Summorum Pontificum. Faz alguns anos, também uma senhorita brasileira a pés juntos jurou que a FSSPX recusa tal motu próprio, nunca o aceitou, jamais o tolerou, nem sequer o agradeceu. Assim creem bastantes leigos ligados à FSSPX em algumas regiões geográficas, como o Brasil; em Portugal também, os pós 2015.

Em Setembro de 2011 a FSSPX publicou notícia dos sucessos do apostolado da FSSPX no Distrito da Alemanha. Dia 29 do mesmo ano e mês, o blog ASCENDENS deu eco desta notícia:

[…]
"Agora mesmo um grupo de jovens do distrito alemão da FSSPX foi enviado a distribuir folhetos com propaganda ao Summorum Pontificum e ao levantamento das "excomunhões", entre outros (ver aqui artigo sobre o levantamento das "excomunhões"). Eis o que o próprio Distrito da FSSPX na Alemanha publica:
"43 500 folhetos têm distribuído os jovens da KJB (ala jovem da SSPX) durante a visita do Papa [Bento XVI] a Freiburg.
50 jovens de toda a Alemanha haviam chegado para distribuir os folhetos durante dois dias.
Eles continham dois temas: primeiro, a missa tradicional, que o Papa Bento XVI trouxe de volta em 2007/07/07. Este folheto foi intitulado "Um presente do Papa para ti", ou seja, o Sacrifício da Missa tradicional Latina.
O segundo folheto na primeira página tem a foto do Papa com o seguinte título: "Obrigado, Papa Bento XVI". Assim a FSSPX tinha agradecido pela Excomunhão ser revogada pelo Papa Bento XVI em 2009. Este gesto trouxe reconhecimento à comunidade religiosa fundada pelo Arcebispo Lefebvre.
"Os jovens trabalharam a todo o vapor", diz o Pe. Andreas Steiner, que projetou os folhetos. Thaddeus Hanselmann, um membro da KJB-line para a Alemanha, tinha organizado a preparação meticulosa, a maior campanha de folhetos na história do movimento da juventude tradicional. Ele também expressa sua satisfação: "Esta distribuição de mais de 40.000 folhetos tem sido possível apenas através do uso de todos os nossos corajosos jovens; gostaria de agradecer novamente a todos os grupos que ajudaram .."
O apostolado também conta com o rosário, na igreja de St. Martin, e a missa de domingo, na Igreja de São Pio X em Rheinhausen.
A Câmara Municipal de Freiburg acrescentar que: Alguns folhetos foram deitados fora (o que é inevitável numa distribuição com estas quantidades), mesmo assim os jovens têm retirado alguns, como é natural.
Pode esta campanha dar muito fruto!"
… certamente, só pode ter dado muitos frutos!







Os católicos que afirmam que a FSSPX agradeceu e aceitou o Summorum Pontificum não devem ser importunados por outros que acham o contrário, pois aqueles repetem o que foi feito, escrito, dito implícita ou explicitamente desde as mais altas esferas da FSSPX. Já concordar ou discordar com a aceitação do documento, ou com o documento, é outro assunto.

31/01/19

RECORDANDO - ASCENDENS DailyMotion


Quem lembra do primeiro canal de vídeo do tradicional catolicismo em Portugal?

Depois de suspenso durante anos ele está de volta, com algumas actualizações. O canal ASCENDENS (DailyMotion) conta mais de 34.000 visualizações e 62 vídeos. Não, não… não fazemos grande fé nas quantidades, bem o sabem; somos quem o tem advertido, há bastantes anos: nestes dias que correm, o aumentar dos números é mais sinal para precauções, que para alegrias.

Não estão acessíveis ao público todos os vídeos. Os que estão disponíveis formam já um interessante conjunto documental.

Bom proveito.

19/01/19

ECCLESIA DEI - ASCENDENS 2010


Foi liberado da memória do blog mais um artigo que esteve visível. Este tem como fundo o assunto ECCLESIA DEI e o modernismo conservador que tem vindo a transformar-se num "tradicionalismo exterior". Qual o motivo da ocultação deste artigo? Esse é assunto para outro dia. Agora, fiquem com este artigo ASCENDENS de Dezembro de 2010:

CATÓLICOS TRADICIONAIS / ECLESIADEISTAS

10/01/19

NA SERRA ALTA - Névoa


"Quando a mentira sustenta, o Diabo governa. Onde a intriga e a murmuração ganham terreno a verdade recua."
(na serra alta - J. Antunes)

05/01/19

SÃO TELÉSFORO 2019

Homenagem a São Telésforo, Papa e Mártir, um dos patronos do blog ASCENDENS e de seu administrador.


Todas as publicações ASCENDENS com referência a S. Telésforo:


S. Telésforo, Rogai por nós.

(reze agora 3 Ave-marias e um Pai-nosso)

30/12/18

O MASTIGÓFORO - ("Melhoramentos")


Melhoramentos - Deu o pior de todos os Séculos na fina de querer, e gritar, que o tenham pelo mais avisado, e melhor de todos, e parece-se muito nesta parte com esses residentes fixos na casa dos orates, que embirram em dizer e pensar, que são Reis e Príncipes, quando efectivamente são uns miseráveis, que só têm direito à compaixão, e ao zorraguo quando se excedem. O Século mais doente feito o Século das melhoras, o Século das reformas!! Que pasmo! Faz contudo o nosso Século uma diferença mui essencial dos que padecem desmancho na cabeça, pois a estes se os tem, separados, e em recato não fazem mal a ninguém, mas sucede outra coisa nas melhoras do Século, que por exemplo armando-se com o ferro da guilhotina, e ensopando-o no sangue de 600.000 cabeças, diz que vem felicitar, e melhorar o género humano!! Este é essencialmente imperfeito, e por mais que se atormentem os Sábios, entrou-se em vida do primeiro homem, e torto há de acabar, e quando se tratasse de lhe fazer aqueles melhoramentos compactíveis com o seu estado natural de imperfeição, nem por isso haviam de ser os Pedreiros quem lhos fizesse com os seus martelos, sachinhos, e canudos de lota!! O melhor, diziam os nossos velhos, é sempre inimigo do bem, quem está sofrivelmente não corra atrás de melhoras, que vai errado; por isso os nossos velhos passaram uma vida santa, e regalada. Os tolinhos dos novos, julgando saber mais, perverteram, e arruinaram tudo …. Presenciámos quais foram as bênçãos da Sabedoria do Século. Cidadãos armados uns contra os outros, Comércio perdido, o Brasil separado, inquietações, e desgostos, que excedem todo o número, e todo o cálculo !!! Esteja melhor quem o quiser e desejar; o Mastigóforo não aspira senão a estar bem, e não o pode estar, enquanto houver Pedreiros neste Reino.

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