29/03/17

CONVITE - "TERÇO ASCENDENS"


Faz por volta de 4 anos que rezamos o terço diariamente (dias de semana) com transmissão online (áudio) entre todos os participantes. Esta acção destina-se apenas a amigos que, por algum motivo, não tenham com quem rezar o Terço no local onde se encontram (ou queiram rezar mais um, diariamente), ou não consigam dirigir-se ao tempo católico mais próximo para tal, etc. etc.. É algo privado, "familiar", pequenino quanto convém, e nunca isto foi lançado a público, evidentemente.
 
Antes de mais, lembro que o modo extraordinário da internet é claramente desincentivado, em valorização dos modos ordinários, que são os apropriados e que se recomendam. Não se pretendeu criar algo de novo, mas sim remediar o que havia, visto que nem sequer há nada em contra.
 
Hoje, durante o Terço, lembrou-me abri-lo a quem naquelas condições queira, e seja nosso conhecido, ou meu conhecido (contactar ascendensblog@gmail.com). O convite é válido até 13 de Maio.
 
A estrutura é mais ou menos a "normal", é aquela que usava quando tinha 11 anos e recuperei mais tarde, acrescentando algo (as Avé-Marias, Pai-Nossos, Glória, são em latim); não rezamos "mistérios luminosos".
 
Eis o esquema:

Abertura
- Em nome do Pai, do Filho ...
- Deus vinde em nosso auxílio...
- Intenção (caso a haja)
- Pai Nosso / 3 Avé-Marias

Mistérios
- Enunciação do respectivo Mistério /Pai Nosso /Avé-Marias /Glória
- Ó Maria concebida sem pecado ...
- Ó Meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos ...
- Rainha da Paz ...
- Meu Deus eu creio, adoro, espero e amo-Vos... (x3)

Final
- Salve Regina (cantada, ou não)
- Rogai por nós Santa Mãe de Deus...
- Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
 
Por ver que este acontecimento tem os seus benefícios, sugiro que outros, noutros locais, DENTRO DAS MESMAS CIRCUNSTÂNCIAS, o usem, tendo em conta aquelas advertências.

Evidentemente, há sempre a excelente opção do terço individual, e de rezar vários terços ao dia (como o Rosário).

Pedro Oliveira

28/03/17

HISTÓRIA DOS MILAGRES DO ROSÁRIO (II)

(continuação da I parte)
 
Com lição dos livros Santos, e milagres se converteram muitos pecadores, que depois foram grandes santos.
 
Todos estes proveitos, e outros muitos nascem dos milagres, que Deus obra pelos merecimentos e virtudes de seus santos, e juntamente da lição deles, porque como a história não seja outra coisa senão uma viva pintura, em que vemos tão clara e distintamente as coisas passadas como as presentes, porque quando as lemos como passarão, fazemo-las presentes à nossa memória, e cozendo-as com a consideração de nosso entendimento as digerimos, e com elas nos sustentamos. Desta maneira, contra o glorioso Padre St. Agostinho, que dois fidalgos principais, e dos mais nobres daquela terra, lendo a vida, e milagres de S. Antão, que santo Atanásio escreveu, renunciado todos os bens, e se foram a fazer vida religiosa, e santa. E este mesmo livro acabou derribar de todo ao mesmo S. Agostinho, e lhe fez deixar o mundo. Pois quem não sabe já que aquela grande conversão do nosso padre Inácio de Sta. Mónica, foi ocasião de tão grande conversão de gente, como todos sabem, que se faz no mundo, pelos que militam debaixo de sua bandeira? E quem não tem lido a maravilhosa conversão da Madre Teresa de Jesus (como ela mesmo escreveu) tão nova, e admirável na terra, levantada para levantar a perfeição tanta gente, e foi começando por livros de santos? e lendo seus milagres? que com brasas acesas, e metidas no peito abrasam aos que com vagarosa consideração nele os encobrem, como diz S. Gregório, que nos ajudam muito para renovar a alma os exemplos dos santos Padres, e contemplando suas obras, nos ascendemos no desejo da virtude, o mesmo santo, que bem o tinha experimentado, diz que muitas vezes mais nos aproveita ler os exemplos, e milagres dos santos que palavras, e pregações. Ad amorem Dei, et proximi, plerumque corda audientium plus excitant exempla quam verba. E esta mesma razão dá o mesmo santo Doutor de tomar trabalho de escrever a história dos milagres de seu tempo no prólogo de seu Diálogos, quando diz: Et sicut non nulli quos ad amorem patriae plus exempla, quam praedicamente succedunt. E esta mesma razão moveu a outros santos, a escreverem muito de propósito as histórias dos exemplos, e milagres de outros como foi S. Sofrónio o seu prado espiritual; Severo Sulpinos, Beda, S. João Clímaco, João Casiano, Pedro Damiano, Cesareu Heitorbachense dos milagres de seu tempo, e outros muitos, que tomaram o mesmo trabalho, movidos de zelo, de aproveitar as almas. E do glorioso padre S. Domingos se tê, que tinha também um livro, no qual tinha muitos exemplos, para com ele mover aos homens a seguir o caminho da virtude, e deixar o dos pecados. Este mesmo intento temos neste trabalho de escrever os milagres de nossa Senhora [e nós que os vemos já escritos divulgamos como quem os quisesse escrever], além da particular obrigação, que tínhamos de o fazer, havendo já composto o livro, do Rosário. E como quase todos os autores, que dele tratam, fazem história de seus milagres, nos parecia também que a devíamos fazer, principalmente havendo muitos que eles não escreveram, e outros que depois se fizeram, como se verá no discurso de sua história. E porque uma das coisas que nelas se deseja, é saber o tempo em que eles aconteceram, aqui daremos brevemente conta ao leitor.
 
(continuação, III parte)

PEDIDO ACEITE - PROPOSTA AMPLIADA

 
O FIDELISSIMUS acaba de publicar um belo artigo, onde lança um convite ao blog ASCENDENS. Não só assim faremos, como também alargamos a proposta a TODOS os blogs tradicionalista de Portugal (ler artigo do Fidelíssimus para saber mais, antes de continuar).
 
Pedimos já ao VERITATIS e ao SANTO ZELO que ainda hoje publiquem a resposta ao convite.
 
Há 5 minutos falei com o responsável do FIDELISSIMUS que me alertou da feliz coincidência da Festa de S. João Capistrano, santo tão significativo na defesa da Europa contra a ameaça islâmica. Ora, o mesmo Terço que se pretende agora difundir mais é por si uma especialíssima arma contra esses males enormes contra a FÉ, em favor da Igreja. Por isto, que o Diálogo V "Como a devoção do santíssimo Rosário alcança vitória nas batalhas contra os inimigos da Fé, e por ela livra Deus os soldados e Capitães e todos o haviam de rezar, o que se se provoca com milagres muito grandes que Deus fez.", seja publicado o quanto antes, se possível hoje ainda (tentaremos deste lado).
 
Agradecemos a amabilidade e reconhecimento, tanto que estamos pouco acostumados com gestos de gratidão. Muito obrigado, FIDELISSIMUS.
 
Em frente.

Pedro Oliveira

VISITAR PORTUGAL - Elvas a (VII)

(anterior, Évora)

Da cidade de Elvas, o aqueduto e o forte de Sta. Luzia.



(a continuar)

NA SERRA ALTA - Pouco Definido

 
"A confiança depositada nos mornos obscurece, desqualifica, relativiza, enreda. De um morno uma coisa devemos desejar e esperar: que se defina primeiro."
(na serra alta - J. Antunes)

27/03/17

HINO OFICIAL - Centenário das Aparições em Fátima

Eis o hino oficial da comemoração do centenário das Aparições de Nossa Senhora de Fátima.

Escusamos fazer atenção à letra..., e alertamos para o "desconforto" de certas imagens no vídeo!

(Gravação feita no Santuário de Fátima - Coro e órgão do Santuário)


GUSTAVO CORÇÃO - VISIBILIDADE DA IGREJA

Gustavo Corção
1. Vamos hoje nos deter na palavra visível de nossa primeira e aproximada definição da Igreja, isto é, vamos explorar mais em profundidade o conteúdo daquele termo, como se nele aplicássemos uma lente que não só amplia como também revela a riqueza de detalhes, de consequências e de aplicações que nos havia escapado em nossa primeira aproximação.

Antes de mais nada convém notar que o termo visível é aqui usado com a significação mais ampla de sensível, isto é, daquilo que nos é acessível pelos sentidos. Como a visão é o mais nobre dos sentidos, nós usamos a palavra visível para indicar o que se vê, o que se ouve, e de um modo geral toda a ordem do sensível. Dizendo que a Igreja é visível nós queremos significar que ela tem para nós, desde a cruz que vemos no alto da torre até o "Eu te absolvo..." que ouvimos no confessionário, a nitidez corpórea da pedra ou do pão. Gravemos pois esse mais amplo sentido que damos do vocábulo, e empreendamos a sua progressiva sondagem.
 

2. Logo no primeiro exame do conceito nós encontramos a óbvia visibilidade que nós mesmos damos à Igreja pelo fato de sermos seus membros. A Igreja é visível em nós, de uma visibilidade humana. Em nós, e nas obras de nossas mãos; em nossos rostos, e nas torres das catedrais; em tudo isto, em suma, que se vê de longe, e que fere a atenção dos mais desatentos, a Igreja é visível de uma primeira e ainda superficial visibilidade..

Parece pouca coisa esse primeiro e tão fácil exame de conceito, mas devemos notar que é já neste nível da significação que se inicia o ataque à Igreja de Deus. Os pseudo-super-espirituais começam por solapar esse primeiro contato da Igreja com a humanidade do homem. Quereriam uma Igreja mais despegada da terra, e menos carregada da miséria de seus filhos. Nós vimos, nas lições anteriores, que entre os membros atuais do Corpo Místico contam-se justos e pecadores. Pecadores de pecado mortal, desde que não cheguem à heresia, à excomunhão e à apostasia, são ainda membros atuais do Cristo, membros mortos mas ainda presos à videira. São inúmeras as passagens das Escrituras em que está assinalado este caráter misto, transitório, peregrino da Igreja. A parábola do joio e do trigo (Mt 3, 2); o banquete nupcial em que se sentam bons e maus antes da chegada do Senhor (Mt 32, 2); as dez virgens que esperam, cinco prudentes e cinco loucas (Mt 25, 1); e tantas outras passagens nos falam do Reino, da Igreja, como de um regime de espera em que, por assim dizer, a paciência do Cristo se estica por séculos e séculos, até o dia da grande e decisiva separação.

Se a Igreja fosse constituída somente de membros perfeitos, santos, justos (em estado de graça) como pretendem os pseudo-super-espirituais, nós não saberíamos encontrá-la, pois só Deus sabe quem está em pecado. Ela seria invisível. Ou seria enganadora, a nos induzir perfidamente em erro, em vez de nos oferecer a garantia de uma realidade acessível aos nossos passos.

Nós já dissemos que a Igreja é o Cristo continuado; já mostramos que sua função instrumental é um prolongamento da instrumentalidade salvadora da humanidade de Cristo; e nessa perspectiva nós diríamos agora que a Igreja invisível dos super-espirituais seria uma magnífica inutilidade.

Antes da Reforma já os novacianos e donatistas queriam que os pecadores não pertencessem à Igreja, mas foram sempre refutados pelos detentores da tradição. Dizia assim Santo Agostinho: "Home sum in area Christi: palea, si malus; granum, si bonus". [1] São Jerônimo também comparava a Igreja à Arca de Noé, onde se misturavam o lobo e o cordeiro. [2]

Será preciso recordar que a Igreja tem partes invisíveis? Sua alma é invisível. A Igreja triunfante é também invisível. Mas tomada no seu todo, em sua realidade completa, basta que uma parte seja visível para que se possa dizer que é visível o todo, embora não totalmente visível. No homem também a alma, considerada em separado, é invisível; mas o homem todo é visível, visível pelo seu corpo, sem dúvida, mas visível no seu todo vivo e animado.
 

3. Mas não é somente dessa primeira visibilidade, encontrada nos seus membros, que nós dizemos ser visível a Igreja. É do Homem-Deus, do Verbo Encarnado, que a Igreja tira a sua feição, seus contornos, sua vida, e sua natureza divino-humana; e é dessa visibilidade enquanto divina que devemos nos ocupar agora. Essa é propriamente a visibilidade essencial da Igreja, e é dessa marca essencial, sinal de realidades divinas, que nos fala a encíclica de Pio XII, Mystici Corporis Christi. [3] E é também a esse caráter de sinal visível de coisas invisíveis que se refere o Concílio do Vaticano quando ensina que a Igreja é permanentemente um milagre.

Ninguém pretende, evidentemente, que o sobrenatural, que especifica essa sociedade fundada por Cristo, seja em si mesmo visível. O que dizemos todos, em obediência ao magistério, é que a invisível realidade divina fere os nossos olhos e os nossos ouvidos através da Igreja.

Dissemos que a Igreja segue o estilo da Encarnação. A rigor, pensando numa Igreja antes da Igreja, na expressão do Pe. Sertillange [4], nós poderíamos dizer que Deus, antes da Encarnação, fiel ao seu plano polarizado na pessoa do Cristo Jesus, já se manifestara aos homens de um modo sensível. A voz dos profetas, por exemplo, já era um sinal sensível, já era um prenúncio da Igreja do Verbo Encarnado; já era, na obscuridade da expectativa, um rumor de preparativos e um albor de madrugada.

Mas o característico desses tempos de advento, que a Igreja rememora hoje calando a música e paramentando-se com a cor das sombras, era sem dúvida uma certa obscuridade. A voz do profeta ecoava na noite dos caminhos — "Ouve! Ouve, Israel!" — buscando mais o ouvido do que a visão. Os sinais de Deus eram velados, abafados, escondidos.

Vejam agora o que acontece no mundo quando nasce em Belém o filho de Maria; e observem bem o que dizem os pastores, quando ouviram dos anjos a boa nova: "Vamos até Belém, e vejamos o que sucedeu e que o Senhor nos mostrou. E foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado numa manjedoura. E vendo isto compreenderam as palavras que lhes tinham dito sobre o menino. E todos os que ouviram se admiraram do que lhes diziam os pastores. Maria, entretanto, guardava essas palavras, meditando-as no seu coração. E os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus, por tudo o que tinham ouvido e visto, conforme ao que lhes tinha sido anunciado." (Lc 2, 15, 20)

Notem primeiro a desembaraçada decisão dos pastores: "Vamos até Belém". Eles têm um endereço, um lugar aonde ir, como nós hoje temos a direção, o itinerário de nossa paróquia. Eles já têm o caminho certo, o lugar preciso, a solução exata para os pés, antes de tê-la completa para o coração.

Creio que foi um personagem de Dostoievski que dizia em certa altura de suas aflições: "Haverá para o homem coisa pior do que não ter aonde ir". E tinha razão. O drama do mundo é o da perda do antigo endereço: Mas os pastores o tinham. Vamos a Belém. E vejamos. E vendo, compreenderam. E compreendendo, voltaram glorificando e louvando.

Na liturgia de Natal, especialmente na 2a. Missa que acompanha o amanhecer, a palavra luz e seus derivados todos tomam conta do texto. O Natal é uma iluminação do mundo. A Encarnação traz para o mundo um novo regime de mais luz, como queria Goethe no seu leito de morte. Ouçam por exemplo o velho Simeão, quando teve a ventura de segurar nos seus cansados braços o menino Jesus: "Agora, Senhor, despedi em paz o vosso servo, segundo a vossa palavra; porque os meus olhos viram a salvação..."

Pensemos agora na cruz espetada no alto do monte. A luz está no seu elevado candeeiro. A cidade santa se estabelece no alto do monte, porque os seus cidadãos são a luz do mundo. "Vós sois a luz do mundo... e assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está no céu". (Mt 5, 14)

Em Pentecostes a Igreja nascida da Cruz manifesta seu maior esplendor, e recebe do Espírito um decisivo impulso para sua missão. Sopra o vento, descem línguas de fogo, e as vozes dos apóstolos se multiplicam pelos diversos idiomas, tudo mostrando, com profusão, a força visível do invisível Consolador. A Igreja cresce, diferencia-se, hierarquiza-se, realizando nessa diversidade impetuosa o desdobramento das graças que estavam em plenitude na pessoa única do Cristo.

Aplica-se aqui um grande princípio: a plenitude de perfeição, que em Deus se encontra na suma simplicidade, nas criaturas se manifesta na diversidade. A unidade pessoal do Cristo corresponde agora na Igreja uma diversidade de pessoas, de grupos, de ordens religiosas, paróquias, associações, tudo isso vinculado numa unidade assegurada pelo Espírito de Cristo.

Ao contrário do que diziam os autores super-espirituais que chegaram a perturbar a grande Teresa d'Ávila, e que pretendiam ver na Ascensão de Cristo, e na descida do Espírito, uma manobra de Deus para nos livrar da visibilidade do seu Corpo, nós podemos dizer sem receio que Nosso Senhor se tornou ainda mais visível no seu Corpo Místico espalhado pelo mundo. A Igreja é de fato o alastramento universal do Salvador. O sangue derramado é agora estendido, e tinge o mundo inteiro numa prodigiosa iluminura. E a Igreja cresce, como cresce o dia, de "claridade em claridade".
 

4. Os protestantes, sob esse ponto de vista, cometeram o erro de quem se obstinasse a andar às apalpadelas numa sala sombria por não ter percebido que o sol já nasceu.

Persistem na obscuridade adventista, num sinistro equívoco, e dizem de nós que somos idólatras, porque usamos estátuas, estampas, vitrais e iluminuras, como se o uso de imagens implicasse necessariamente a sua adoração. Eles não sabem, ao que parece, que o Salvador trouxe a luz do mundo, e a unção dos olhos e dos ouvidos. E chegam a esquecer apesar do seu propósito de remontar às fontes — que é sempre suspeito na vida do cristianismo — que os primeiros cristãos usaram símbolos, alegorias, pinturas, mosaicos, sem que passasse pelo espírito de ninguém que estivessem adorando objetos. Eles sabiam bem o que era e  o que não era idolatria, porque faziam com o próprio sangue a teológica distinção.

Mas essa ideia de super-espiritualizar (que vem sempre acompanhada, inevitavelmente, de uma atitude contrária de super-animalidade, quando se relaxa a artificial tensão) não foram só os protestantes que tiveram. Falei há pouco de Santa Teresa d'Ávila. No capítulo XXII de sua história está relatada a pista falsa a que foi levada por uns iluminados doutores. Diziam eles que num certo ponto do progresso espiritual é preciso deixar para trás tudo o que é visível e corpóreo. É preciso — diziam — deixar para trás, superada, a própria humanidade de Cristo, para considerar somente a sua divindade. Descobriu a Santa a perfídia de tal doutrina, e lá nos conta que sente um horror todas as vezes que se lembra de tão funesta experiência.

E nós, que estamos por demais advertidos, saibamos que nunca, em grau nenhum da vida espiritual, por motivo algum, devemos acolher tal ideia. Se nós deixarmos para trás, como etapa vencida, a humanidade do Cristo, ou a visibilidade da Igreja, é a nossa própria salvação que estamos deixando para trás.
 

5. Será preciso, neste estudo de hoje, advertir do erro contrário? Correndo o risco de parecer que estamos fazendo uma antítese, diremos que o erro contrário consiste na supervalorização do visível, a qual é uma das características do mundo moderno. No caso que aqui nos interessa, e que se relaciona com o mistério da Igreja, essa supervalorização consistiria em esquecer que o visível é apenas um sinal do invisível; e consequentemente em depreciar a vida interior chamando-a de subjetivismo individualista. Tais extremidades nos levariam a sermos um povo de gesticulantes.

É claro que nós não podemos, sem radical infidelidade ao magistério da Igreja, chegar a tais extremos, mas podemos perfeitamente, como no caso inverso aconteceu com uma grande santa, cair na inclinação, na tendência, que sem chegar à heresia já seria um grande desperdício de valores espirituais.

O equilíbrio que a Igreja nos propõe é uma exaltação dos dois elementos que não podem ser tomados isoladamente; mas aí mesmo, nessa mesma exaltação, convém firmar que o primado cabe sempre ao espiritual, significado pelo sensível.
 

6. Todos nós sabemos que infelizmente há muitas pessoas que só prezam as aparências. Vivem para a roupa, para o automóvel, para o trem de vida exterior, numa constante preocupação do juízo e da opinião dos outros. Vivem como se a alma estivesse na pele; ou como se dependesse do olhar dos outros a própria subsistência. Vivem em suma só para o mundo no sentido que tem essa palavra quando dizemos que o mundo é nosso inimigo. Falaremos mais tarde desse fenômeno, e da importância que tem ele para a nossa salvação. No momento queremos apenas assinalar a reação que essa repulsiva mentalidade produz em nós: o desprezo pelas aparências.

Vítimas de tal impulso nós temos frequentemente o desejo de menosprezar o juízo e a opinião alheia, reduzindo todos os critérios ao do foro íntimo e da perfeita sinceridade. Se por exemplo eu sou visto em companhia suspeita e em equívoca situação, que me importa o que dizem os outros, uma vez que tenho em paz a consciência?

Estará certa essa atitude? Estará ela afinada com a feição de nossa Igreja?

Em primeiro lugar, colocando o problema no plano da moral, nós podemos ver facilmente que essa maneira de pensar ofende a justiça, e destrói a sociabilidade. Não é possível viver em sociedade com esse critério exclusivo do foro íntimo. E o que ofende a sociabilidade ofende a própria natureza humana. Não é aos outros que nós molestamos com esse culto da orgulhosa sinceridade, é a nós mesmos. Seria fácil demonstrar que tal tipo de sinceridade, que não cresce no sentido da humildade e da justiça, transforma-se pouco a pouco na pior das hipocrisias: a hipocrisia do sujeito que é convictamente e sinceramente hipócrita por ter descoberto, no seu foro íntimo, esse direito à hipocrisia.

Mas não é essa a posição do problema que hoje nos interessa, apesar de sua importância. O que nos interessa agora é saber se tal atitude afina com o sentimento da Igreja.

Ora, pelo que já vimos até agora, e pelo que ainda vamos dizer, a nossa Igreja nos ensina a prezar as aparências. Para pertencer plenamente a essa divina sociedade não nos basta ter a fé no coração, precisamos tê-la também na boca, como nos ensina o apóstolo. Não é pois nesse sentido de deixar para trás as aparências que nós devemos progredir, e sim no sentido de manter sempre harmoniosa a hierarquia de nossos critérios. Não é preciso desprezar o corpo para servir a alma. Se a rigorosa ascese de muitos de nossos santos nos induz à falsa ideia de uma repugnância pelas coisas do corpo, é justamente — vejam o paradoxo! — porque estamos apreciando esse fenômeno de ascese mais pela aparência do que pela sua interioridade. O asceta às vezes maltrata a sua parte visível, mas só é verdadeiramente cristão esse ascetismo quando o rigor vem dum amor e dum amor que inclusive se interessa pelo sensível.

A esse respeito lembro um exemplo que já lhes dei. Suponhamos que um habitante de Marte (ou então um distraído filósofo) caísse por acaso numa estância do Far-West em dias de pionagem e de alegres cavalhadas. Veria os corajosos moços com esporas e chicotes a maltratar os cavalos. E concluiria apressadamente o seguinte: essa gente não gosta de cavalo. Ora, ele tinha caído justamente no lugar em que mais se gosta de cavalo!

O problema não cabe todo, evidentemente, nessa pequena digressão. Voltaremos a ele um dia, se Deus quiser. No momento basta-nos consolidar essa ideia de que a Igreja preza as aparências, e nos ensina insistentemente a respeitar, a estimar os sinais visíveis, porque é nessa linha, e com esse estilo, que ela nos traz a nossa invisível salvação.
 

7. E assim sendo, já não admira que o cristianismo tenha trazido, com a estima do visível, o esplendor do visível que é a beleza. A arte cristã, realmente, vitalmente cristã, é a consequência lógica da visibilidade da Igreja. Mas aqui devemos ponderar um pouco, e fazer uma distinção que me parece necessária.

Na arte-arte, para não dizer arte pura, o objeto tem caráter de fim. A operação do artista termina no objeto, que é em si mesmo completo e autônomo. O fazer artístico é mesmo uma das operações em que o homem mais se sente satisfeito por causa da proximidade e da inteireza do fim atingido.

Na arte cristã nós distinguiríamos entre arte cristã, enquanto culturalmente cristã; e arte cristã, enquanto religiosa. A primeira pertence mais à cristandade do que à Igreja. A segunda é a arte propriamente religiosa, e é essa que está diretamente ligada à visibilidade da Igreja.

Ora, se ela é um esplendor da visibilidade da Igreja, então ela participa também do caráter de instrumentalidade. Já não termina no objeto. Já não é por si mesmo autônomo e completo o seu objeto. Tal arte, religiosa, eclesiástica, será necessariamente sub-alternada, ancilar, e portanto deverá ser usada de um modo mais diáfano, humilde, diria mesmo subalterno, sem que isso signifique uma redução do seu esplendor.

Nesse sentido, uma vez que a visibilidade da Igreja tem o caráter de sinal, nós não podemos julgar com o mesmo critério cultural os objetos que se aproximam do culto, sobretudo quando se cava um abismo entre a civilização e a Igreja, como é infelizmente o nosso caso atual. Uma Igreja feita por um grande artista, se aos fiéis não parece Igreja não é uma boa obra de arte religiosa, não importando agora verificar de quem é a culpa de tal divórcio. Se ele existe, entre a cultura e a arte religiosa, é preciso corrigi-lo; mas antes disso não se pode impor aos fiéis desprevenidos uma conquista audaciosa da arte leiga.

O erro oposto que se pode cometer nesse problema da arte religiosa é o de exaltar, no sentido de um simbolismo exagerado, o caráter instrumental do objeto. Pretenderão trazer para fora, para a superfície do objeto, as realidade escondidas e significadas, o que se consegue é apenas uma arte esquelética e miserável. A solução do problema da arte propriamente religiosa está presa à solução do conflito que infelizmente existe entre o cristianismo e a cristandade de nossos tempos.
 

8. Depois dessas digressões, que fizemos para ilustrar com aplicações a ideia da visibilidade da Igreja, voltemos ao centro da questão. Perguntamos agora: como poderia a Igreja de Cristo ensinar e governar para santificar, se fosse invisível? A resposta protestante é muito fácil: nós não precisamos de um magistério vivo; nem de um chefe visível. O resultado dessa tentativa, que consideraríamos cômico, se não tivesse sido trágico, foi o que facilmente se pode prever. A doutrina, a joia que o Cristo confiou à sua Esposa, será entregue ao chamado livre exame; a fé é subordinada à opinião. Quanto ao governo, como sempre é preciso algum, incumbem-se dele os príncipes do mundo; e temos então um césar como papa.

Analisemos aqui um pouco mais o problema da doutrina.

Temos um depósito, um dado revelado, que para nós é constituído pela Tradição e pelas Escrituras. Agora consideremos a situação de cada um de nós em relação a esse depósito. Fomos nós que recebemos a revelação de modo imediato? Evidentemente não. Há então, de fato, um intervalo entre nós e o tesouro sobrenatural. Dizemos que a Revelação para nós é mediata, e como tal exige um condicionamento.

Uma coisa é o objeto da fé considerado em si mesmo; e outro é a fé em nós. Em si mesmo, o objeto da fé é a revelação divina enquanto puramente divina; e nenhuma composição de criatura poderá entrar no essencial da fé divina. Nós já abordamos esse problema quando analisamos o primeiro vocábulo do Símbolo dos Apóstolos: "Creio". Convém voltar ao problema.

Nós vimos que o primeiro enunciado de nosso Credo seria assim: "Eu creio em ............ porque Deus revelou". Os diversos artigos são o corpo do Credo; ma a alma é a fé na revelação divina. Considerada assim a fé na sua essência, ela é puramente divina e sem nenhuma interposição. "Nihil aliud quam Veritas Prima" diz-nos Santo Tomás.

"No objeto formal, no essencial da fé, não pode entrar nada de criado, nenhuma composição de criatura, nada por conseguinte que venha dos anjos, nem dos homens, nem dos patriarcas, dos profetas, dos apóstolos, nem mesmo da Igreja". [5] 

Quando porém se encara o problema da fé em nós, uma vez que não existe revelação imediata para cada um, torna-se mister um intermediário que, sem entrar propriamente na constituição formal do objeto da fé, é para nós uma condição sine qua non. E esse é o papel do magistério vivo da Igreja. E é por isso que agora nós dizemos assim: "Creio em ........... porque Deus revelou e porque a Santa Madre Igreja ensina". Sendo que no primeiro porque está o formal (o essencial) da fé; e no segundo a condição sine qua non. 

Vamos mais tarde abordar com mais detalhes o problema do magistério vivo e infalível da Igreja. No momento basta-nos sentir vivamente a necessidade do organismo protetor e distribuidor da palavra de Deus; e basta-nos compreender quão absurda é a ideia de entregar o depósito à pura razão humana, ou pretende que cada um de nós tenha uma especial inspiração que seria equivalente a uma revelação imediata para cada um.

Mas o que tem isso a ver com visibilidade? O bom senso logo responde: se existe um zeloso e assistido magistério vivo, incumbido da conservação e da distribuição da doutrina, é evidente que eu preciso conhecer o endereço desse magistério; porque se me enganar no endereço engano-me na doutrina. É preciso ter a nítida confiança dos pastores que disseram: "Vamos a Belém".

O grande princípio de economia de causas é posto em cheque, desvairadamente, quando se pretende substituir uma organização, uma sociedade visível e hierárquica, por uma profusão anárquica de revelações individuais. E sobretudo — já que estamos agora falando em tom defensivo e polêmico — o que nos choca na atitude protestante é o seu esquisito modo de estimar a Bíblia. Nenhum de nós que escreve gostaria de sofrer o tratamento a que o protestante submete o Espírito Santo. Nenhum de nós se alegra de ser livremente interpretado; e podemos até dizer que o nosso mais acabrunhante sentimento vem do elogio equivocado. André Gide disse uma vez a um admirador apressado que, por favor, não o compreendesse tão facilmente. Pois bem, o Deus ciumento de sua identidade, que martela em nossos ouvidos a sua terrível definição, "Eu sou aquele que sou", e que nos recomenda insistentemente que guardemos a doutrina, é tratado como um acomodado personagem que nos dissesse com bonomia: Aqui está a minha revelação, estejam a gosto, e façam dela o que quiserem.
 

9. Os teólogos comparam o magistério da Igreja, como condição necessária da nossa fé, ao papel dos sentidos nas operações da inteligência. Não é com a vista e com o ouvido que o homem conhece e é capaz de apreender as realidades espirituais; mas é pela vista e pelos sentidos que o homem realiza o seu contato com o ser. Pois bem, esse condicionamento dos sentidos, necessário à inteligência humana por causa de nossa natureza dual, reaparece no plano elevado das coisas da fé. A visbilidade da Igreja, continuação da visibilidade do Verbo Encarnado, é a parte estendida entre a graça e a natureza; e quem a recusa, em termos de um irracionalismo selvagem como o de Lutero, que queria relegar a razão para as latrinas, é um inimigo do homem que pretende ser assim maior amigo de Deus.

Vejam pois a importância desses problemas; e aprendamos a ver, ou a pressentir ao menos a riqueza de nexos, a amplitude de ressonâncias escondidas naquela pequenina palavra visível que se destaca de nossa pobre definição, e que agora se abre diante de nós com profundidades de abismos. 
 

10. Mas agora perguntemos, e ainda com mais ênfase: como poderia a Igreja nos santificar, um por um, se nós não possuíssemos o seu endereço? Os pastores sabiam onde estava Belém. Nós outros sabemos onde está a nossa Igreja. Muito teremos a dizer dessa função última da Igreja, a nossa santificação, a nossa incorporação em Cristo; frisemos agora o papel da visibilidade da Igreja nesse último e decisivo encontro. Já dissemos diversas vezes que nós sabemos onde está a nossa Igreja. É bom que seja visível de longe o campanário, que o sino toque, que a porta seja bem indicada por aquelas mansas sentinelas que nos estendem a mão. É bom que as velas estejam acesas; que as imagens nos nichos nos digam que é ali mesmo a casa de nossa longa família, que o padre e o bispo se reconheçam por suas vestes e insígnias.

Mas o melhor da visibilidade da Igreja está guardado para o último passo de nossa aproximação. Nos sacramentos nós temos a santa visibilidade do Cristo entre nós, continuado, disperso, esticado, distribuído. O nome técnico do sacramento é sinal sensível. Sensível porque mostra, deixando velada a realidade última, e realizando assim o duplo objetivo de nos ajudar e de nos dar uma oportunidade para o mérito da fé.

Aqui, junto ao sacramento, o binômio visível-invisível, que encerra o grande mistério da Igreja, ganha um realce inaudito. A fé, que por sua própria natureza é obscura, ganha uma transluminosa obscuridade, a luz tenebrosa de que nos fala São João da Cruz. Permanece o mistério da luz escondida, mas ao menos já sabemos onde está o ponto de apoio da divina centelha. Vamos pois a Belém, e vejamos. Vamos e adoremos.

Ali está, no santo sacramento do altar, o meu Deus, o meu Salvador! O olhar se demora na pequena luz distante e vazia. Ali está, oferecido, o meu Deus, o meu Salvador! Por que se esconde Ele, o bem amado, naquela pequena brancura? Eu me perco em vãs cogitações, a imaginação se cansa, o olhar se perde, a atenção se desvia; mas a Igreja visível me cerca: as velas, as imagens, os paramentos, os rostos dos outros, os perfis, os dorsos dos outros, tudo, como um rico sistema de espelhos convergentes, tudo me torna a dizer que não me enganei, que é esta a casa luminosa, e que está ali no foco visível, na imagem real, o meu Deus e o meu Salvador. Tudo me cerca, me ampara, me encoraja; e tudo me diz que siga, que prossiga, que persiga essa imensa e milagrosa procissão que marcha, pelos séculos e séculos, de claridade em claridade.
 

11. E agora vejamos. Terminou o nosso dia. Cessaram por hoje as nossas atividades. Mais um dia. Mais uma boa coleção de atos truncados, decepções inesperadas, aflições persistentes. Mais um dia. Vamos nos despedir desse dia dizendo adeus a uma multidão de pequeninas esperanças pisadas, e dizendo até amanhã, até logo, às velhas e familiares aflições. Pedimos perdão a Deus, reconhecendo as nossas faltas, as de hoje e as de sempre; e depois de bater no peito, e passando para os acusativos, como diz Jacques Rivière, nós tomamos uma nova atitude de coragem e de quem quase tem um direito à misericórdia de Deus e à intercessão dos Santos. "A oração é a força do homem e a fraqueza de Deus" disse Santo Agostinho. Usemos pois a arma de Jesus Cristo, e exploremos a fundo o desarmamento de Deus.

Mas observem agora a oração, entre outras, que a Igreja recomenda para a despedida do dia. É feita com as mesmas palavras do velho Simeão: "... despedi em paz o vosso servo... porque os meus olhos viram a Salvação".

Como se explica essa aproximação? O velho Simeão viu de fato o Salvador. Mas nós? O que foi que nós vimos? Ou estará colocada em nossa boca uma palavra inadequada ao nosso coração?

Nós vimos, realmente vimos no Corpo Místico de Cristo o que viu Simeão no pequeno corpo físico do menino Jesus. Nós vimos. Na pedra da Igreja, na porta, nos irmãos, nas imagens, no sino, na vela, no altar, na hóstia. Nós vimos. E podemos dizer, com o mesmo direito, de todo o coração, que nós vimos, na Santa Visibilidade, a nossa Salvação.

(a ordem, Maio de 1951)

 
Notas e Bibliografia Recomendada:

[1] Contra Petil. III, 12.

[2] Dial. cont. Lucifer n. 22.

[3] Ver O Corpo Místico de Cristo, Pe. Penido, pg. 170 e seg.

[4] Le Miracle de l'Eglise, Pe. Sertillange (trad. Ed. Vozes).

[5] Fr. F. Marin-Sola, O.P., "L'Evolution homogene du Dogme Catholique", I, 216.


(do site da PERMANÊNCIA - 2009)

26/03/17

"APOSTASIA FORÇADA" DO JESUÍTA?

Eis que Martin Scorsese, o autor do desgraçado filme "A Última Tentação de Cristo" há pouco tempo lançou o filme "O Silêncio". Diz-se que esta mais recente obra sua foi para compensar daquela outra; não faltaram católicos a gostar e recomendar este triste filme.
 
"O Silêncio" baseia-se numa obra literária do séc. XX... , e conta a história do Pe. Cristóvão Ferreira, jesuíta missionário no Japão, que acaba por apostatar, mas do qual os especialistas não têm a certeza do final.
 
Este dia 24 de Março (2017), a Universidade de Coimbra descobre uma carta do Pe. Cristóvão Ferreira antes de apostatar (1618), onde fica patente o espírito optimista no futuro das Missões do Japão.


 
 
  
Já em 20 de Dezembro (2016) a RTP tinha publicado o parecer dos especialistas:

"(...)

Cristóvão Ferreira era, "naturalmente", "uma figura em grande tensão", que "continuará a ser muito controversa", porque "tinha tido extrema importância em termos da organização e manutenção da Companhia de Jesus, na qual teve cargos de grande responsabilidade", sublinha Tereza Sena.

O jesuíta que antes havia descrito martírios [no Japão] acabou por vir a fazer parte da `inquisição` japonesa, levando à apostasia de outros "que inclusivamente foram ao Japão com o propósito explícito de o fazer renegar à apostasia, como sucedeu com o segundo grupo Rubino".

E se era difícil acreditar na queda de tal figura moral, apesar das provações a que fora submetido, mais complicado terá sido o transtorno de aceitar que Cristóvão Ferreira ficara ao serviço das autoridades japonesas.

Após renunciar à fé, Cristóvão Ferreira inscreveu-se num templo -- prática que os apóstatas teriam de cumprir --, adota um nome japonês (Sawano Chuan) e "vive o resto da vida desesperadamente", descreve Mihoko Oka.

O seu nome surge associado a obras como a "Revelação das Falsidades", em que explica "as contradições dentro da fé", bem como tratados de cariz científico, ligados à medicina e à astronomia.

Relativamente à primeira, que terá sido produzida em 1636, Tereza Sena nota, porém, que "há uma grande discussão em torno da autoria", mas "não parece haver dúvidas, até pelo próprio teor e conhecimento em matéria teológica e do catolicismo, que é irrefutável a sua contribuição para a obra, que apenas foi descoberta no século XX, estranhamente selada".

Cristóvão Ferreira morreu em 1650, mas permanece até hoje uma dúvida: ter-se-á arrependido antes do último suspiro? "Schütte, jesuíta alemão muito sério, por exemplo, vai por essa linha de que terá sido um mártir no fim, que morreu na fé de Cristo, mas não há fontes que o comprovem claramente", assinala Tereza Sena.

Sabe-se que Cristóvão Ferreira constituiu família, havendo "pelo menos uma filha conhecida", indicou Mihoko Oka.

"Formalmente, e com a inscrição tradicional japonesa no templo e no altar do cemitério da família, ele aparece como chefe, ou seja, como primeiro de uma família. Nominalmente ou de facto -- não se sabe muito bem", complementou Tereza Sena.

Cristóvão Ferreira, que morreu em Nagasaki, foi sepultado em Edo (atual Tóquio).

O jesuíta português figura no centro do filme "Silêncio", do realizador Martin Scorsese, uma adaptação da obra homónima de Shusaku Endo (1923-1996), que tem estreia prevista em Portugal para janeiro.

A história do filme também se encontra ligada à presença dos jesuítas em Macau, onde Cristóvão Ferreira estudou teologia, já que Macau era então sítio de passagem obrigatória daqueles que eram enviados para o oriente.

"Recriámos Macau de 1640", disse o realizador Martin Scorsese, em outubro do ano passado. "Silêncio" foi rodado em Taiwan.

Macau, onde os portugueses se instalaram em 1557, é uma das mais antigas dioceses do extremo oriente e foi o local escolhido para erguer a primeira universidade de estilo ocidental na Ásia Oriental, uma escola da Companhia de Jesus, de que hoje apenas resta a fachada da igreja, as famosas ruínas de São Paulo, ex-líbris da cidade."

DUAS HORAS DE LIXADURA

O Pe. Mário Oliveira (mais conhecido como Pe. Mário da Lixa), a ovelha mais negra do rebanho em Portugal, despeja o seu baú doutrinal em entrevista. No  programa "Maluco Beleza" Rui Unas faz a entrevista durante quase duas horas, esta quarta-feira (22/03/2017).
 
Em princípio, não deveríamos dar espaço a estas coisas, algumas delas bem fortes. Contudo, como poderão ver, há necessidade de dar a entender certas fenomenologias e tendências crescentes.
 
Duas horas.... duas horas disto... de "ateísmo católico"!
 

25/03/17

VISITAR PORTUGAL - Évora (VI)

(anterior, Lisboa a)

Antiga cidade do Sul de Portugal, cujo herói lendário que a conota é Giraldo Sem Pavor. Foi capital de Portugal; quem passa nas suas ruas perde a noção do tempo, dos séculos e dos milénios.



(continuação, Elvas a)

Aniversário - D. AFONSO, PRÍNCIPE DA BEIRA

D. Afonso
Expressando o sentimento dos seus colaboradores e responsável, o blog ASCENDENS parabeniza Sua Alteza Real o Príncipe da Beira, Senhor D. Afonso, por mais um aniversário natalício. Deus o ilumine e guie por entre todas as doces e a amargas adversidades.
 
De forma muito especial, associamos ao nosso gesto o convite à leitura dos artigos que publicámos para a mesma ocasião em anos anteriores; veja-se neles a carga simbólica que revelam.

24/03/17

VISITAR PORTUGAL - Lisboa a (V)

(anterior, Paúl)

Nesta visita veremos a parte ribeirinha junto à ponte Vasco da Gama, em Lisboa. É provavelmente a parte menos histórica da cidade.



(continuação, Évora)

23/03/17

NA SERRA ALTA - Apostasia e Não Culpabilidade

Juízo Final

"Mas o cismático, o herege, e o apóstata embora distintos parecem convergir cada vez mais; há que contar ainda com a especialíssima ignorância produzida pelas ideias erradas (nos nossos dias a sociedade tem-nas como boas, ou inquestionáveis - não é uma ignorância do não saber, mas sim do saber errado). Entre os mais correctamente instruídos, uns apostatam ao aceitar publica e formalmente ideias que ferem ou contrariam à pureza da Fé e moral; Entre os mais incorrectamente instruídos, uns são de graves erros que deveriam ser chamados de grandes hereges, sem o serem culpavelmente. De uns a outros, piores os primeiros, é certo. No fenómeno [considera aqui os católicos quanto ao estado de necessidade da Igreja Católica actualmente], o grupo de cismáticos é na verdade inexistente, ou, se existe vem do lado menos esperado: os que visivelmente não seguem a mesma interpretação doutrinal conforme os Papas a tiveram antigamente, porque na verdade são apoiantes de como que outra Igreja em posição."
(na serra alta - J. Antunes)

22/03/17

"A VERDADE" - II - O Ignorante Avilta, e Não Define o Homem

II
 
O Ignorante Avilta o Homem, Porque o Não Sabe Definir
 
Muitos génios, para se mostrarem Filósofos [Iluminismo], no século que expirou, com a mira de apagarem a ideia de Deus, que é por si mesma indelével, procuraram degradar o homem, aviltá-lo, e confundi-lo com os animais tão diversos da sua espécie. Disseram que era uma pura quimera a liberdade [verdadeira liberdade], a espiritualidade, e a imortalidade da alma. Aos olhos destes orgulhosos o homem não é, mais que uma porção de matéria organizada, a qual vive, sente, e pensa em virtude de sua mesma organização. Entre o homem e o bruto, que os distinga mais, do que o do maior, ou menos instinto. Quando a organização se desconcerta, e destrói, e cessa sua actividade, cessam então as operações do homem. Então deixa o homem de existir, e depois dele não fica mais, que um confuso resto de matéria. Quem se não sente abrasar de indignação, e cólera escutando máximas tão extravagantes? Eis-aqui a nova Filosofia empenhada em fazer que o homem seja um bruto, a despeito de íntimo sentimento, que a todos faz conhecer a própria imortalidade. Filósofos rivais de Circe: sonharam os Poetas que esta Fada, filha de Jove, mudara a Scylla num monstro marinho, e os companheiros de Ulisses em várias espécies de animais imundos. Antes sofrermos esta metamorfose, observemos se naturalmente conste que a alma seja livre, seja espiritual, e seja imortal. Para chegarmos à demonstração mais fácil desta verdade, não abusando da razão, examinemos como se haja definido o homem em estado natural. O homem nasceu para a sociedade, e não para os bosques, e foi destinado a viver com os seus semelhantes, não de qualquer maneira, mas em ordem, em tranquilidade, em comércio: todos os socorrem em suas precisões, como ele tem também a índole, e a tendência de socorrer os outros.

Se a sociedade foi sempre um caracter essencial à humanidade, com razão se devem chamar desumanos pensadores aqueles, que se fingiram o homem material, e só superior aos brutos pela capacidade, e sociável por conveniência, ou por convenção de encontrar um repouso ideal! Imaginar homens selvagens, é supor seres degenerados do natural instinto de homem, que vivem contra a sua destinação; homens, que são a ruina, e degradação da espécie humana, mas que o simulacro vivente de sua infância. Séneca, indignado contra os que loucamente filosofando sobre a natureza do homem o aviltavam para o definir, e o comparavam ao bruto; Tirai, lhe diz, a sociedade, vós destruireis a ideia que temos da sapiência, e santidade do Criador, nem se podem combinar de modo algum com a ideia que temos da sua bondade. Que deverá pois dizer a Revelação para satisfazer o humano entendimento? Eis aqui como se explica: Se o homem é tão infeliz, é preciso dizer que há algum delito, que o torna culpado desde seu nascimento, e que haja viciado sua mesma origem, e pelo qual seja condenado aos diferentes géneros de penas, e misérias, a que se chora sujeito. Sem isto não se conheceria a bondade do Criador. Não é mais que o Dogma do pecado original, que nos subministre o meio de resolver tão grande dificuldade. A razão nos subministra luzes para presumimos este dogma, e a revelação o desenvolve clarissimamente. Deus criou o homem recto, e num estado de natureza sublimada pela graça; a inocência, justiça, e isenção de todos os males teriam sido suas propriedades: este homem assim enobrecido desobedeceu a Deus pelo pecado, e nenhum instante se corrompeu a natureza. Fica envolto na ignorância, fica assaltado da fraqueza, e enfermidade; teve nele preponderância a inclinação ao vício, e foi estipêndio de seu pecado a mesma morte, a que ficou irrevogavelmente sujeito. Desta arte a Fé instrue a razão, e amestrando o Filósofo, lhe ensina a resolver as dificuldades, que em vão com o próprio entendimento procuraria destruir.

(índice da obra)

21/03/17

HARMONIA POLÍTICA DOS DOCUMENTOS DIVINOS - Ao Príncipe

AO PRÍNCIPE NOSSO SENHOR
 
Sereníssimo Príncipe

O zêlo de servir a Vossa Alteza Real copiou esta Política do exemplar Divino: o governo dos Senhores Reis Portugueses se ofereceu logo Harmonia, e demonstração de sua verdade; e cuidava eu que inculcaria a V. A. Real um feliz estudo nas acções dos Monarcas seus avós, que nem podem ser imitadas senão por um Herói, nem pode haver Heróis sem que as imite; pelo que V. A. se dignaria de tais Mestres, e eles se gloriariam de tal Discípulo. Mas já quando lhe apresentei esta obra manuscrita, sabia V. A. Real da infância quanto se aprende na idade perfeita: parecendo que inventara, não que estudara esta ciência; e assim o que eu dedicava a Instrução, ficou sendo retrato de V. A. Se todos os Príncipes tivessem a boa fortuna de ver o Original, fora supérflua esta pintura: mas onde o sol não pode chegar, é necessário que se acendam tochas; permita V. A. R. que os ausentes aprendam desta impressão o que os presentes aprendem de sua vista; e veja-se que seu glorioso pai segura felicidades a este Reino também para depois de si: preparando um herdeiro a quem tão perfeitamente instruiu, e que tão perfeitamente o imita. Se V. A. fora dotado de menos modéstia, e eu tivera mais eloquência, mostrara este livro com particularidade no acerto de suas acções o infalível desta Política; mas, porque me fora tão difícil relata-las, como a V. A. Real permitir-mo, justifico minha omissão com seu gosto: e quero esta vez escrever antes com lisonja, que com Justiça. Guardo-a somente em dedicar este meu trabalho ao entendimento, não à fortuna de V. A. Real: pois, ainda que em sua pessoa Sereníssima seja tudo objecto de veneração, mais podem suas virtudes que sua grandeza. Não escreveu só por lição, ou só por experiência: mas juntamente pelo que li e pelo que experimentei; nas  embaixadas que tive a meu cargo vi e pratiquei os negócios mais graves que em Europa se ofereceram nestes onze anos depois da Restituição de Sua Majestade a sua Coroa; anos mais notáveis que muitos séculos. Se com tudo (como reconheço) estes escritos não têm outro preço senão do assunto, a que a pena pior cortada não poderá deslustrar, ainda assim merece que V. A. lhes ponha os olhos; e eu tivera por glória trabalhar toda a minha vida, por lhe agradar um só momento. A de V. A. Real guarde Deus, para bem da Religião: aumento de Portugal: crédito de sua fama; que será inveja, e admiração a todos os Príncipes

António de Sousa Macedo.

(a continuar)

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCCXCVIII

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCCXCVII

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCCXCVI

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCCXCV

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCCXCIV

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCCXCIII

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCCXCII

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCCXCI

20/03/17

VISITAR PORTUGAL - Paúl (IV)

(anterior, Monsaraz)

Em tempos de Estado Novo, Paúl e Monsanto foram consideradas as aldeias mais portuguesas de Portugal.
 
A nossa "Visitar Portugal" conta apenas com vistas aéreas. Contudo, a importância do Paúl é de tal forma representativa que queremos colocar este vídeo no dia da Festa de S. José (um dos patronos do blog ASCENDENS); pois, o nosso blog deve também ao Paul (que se saiba).

(recomendação: para melhor visualização, não amplie a tela do vídeo)
 


(continuação, Lisboa a)

Gregoriano - TE, IOSEPH, CELEBRANT


19/03/17

Índice - HARMONIA POLÍTICA DOS DOCUMENTOS DIVINOS



ARMONIA POLITICA
Dos documento Divinos com as
conveniências d'Estado.
 
EXEMPLAR
DE PRINCIPES

No governo dos gloriosíssimso
Reis de Portugal
 
Ao Sereníssimo Príncipe
DOM TEODÓSIO
nosso Senhor.
 
Por António de Sousa de Macedo
 
1651
 
 
 ____ /// ____
 


- Ao Príncipe Nosso Senhor Sereníssimo Príncipe
- Sumário
- Erratas
- Introdução
- Sumo Preceito ao Príncipe; Justiça

I PARTE - Da Justiça pada com Deus
I - Religião (a, b)
II - Boa Intenção (a, b)

II PARTE - Da Justiça Para Consigo
I - Reputação (a, b, c)
II - Verdade (a, b)

III PARTE - Da Justiça Para Com o Próximo
I - Justiça em Adquirir
II - Justiça Comutativa
III - Clemência
IV - Justiça Distributiva
V - Liberalidade
VI - Afabilidade
VII - Fortaleza
VIII - Moderação
IX - Ministros
X - Resolução, e Execução
XI - Conclusão etc.

DIA DE S. JOSÉ

DIA DE S. JOSÉ
(2017 - festa passa para o dia seguinte)

18/03/17

VISITAR PORTUGAL - Monsaraz (III)

(anterior, Guimarães)

Monsaraz, aldeia do sul, no Alentejo, é uma aldeia que atravessa o tempo...



(a seguir, Paul)

17/03/17

DUBIA DUBIA DUBIA DUBIA DUBIA ...


- Dia 5 de Fevereiro publicámos o "Diálogo Com o Cardeal Burke" que estabelece uma ponte entre a colocação da "dubia" e aquele contrastado argumento relativo à suposta incorrecção de pedir a Roma o reconhecimento do engano ao aplicar as excomunhões aos 4 Bispos da FSSPX: "Roma não se retrata", dizia-se fora de Roma (portanto, que não valeria apenas pedir ou esperar tal de Roma).
 
- Três dias depois o Instituto Bento XVI publicou um artigo que dizia que o Card. Burke tinha desistido da "dubia", dando o motivo: não haver real necessidade, que outras coisas mais  importantes havia a tratar (creio que La Stampa o mesmo tinha publicado). Na caixa de mensagens do nosso artigo, um anónimo comentou: "3 dias depois deste artigo [ascendens] sair, o Card. Muller veio dizer que não haverá correcção ao Papa. É estranho, parece que andaram a ler aqui o artigo."
 
- A Ecclesia Dei quer juntar a FSSPX sem mudança de certas condições...; as suas gentes por todo o lado publicam antecipadas notícias da eminência da Prelatura, tudo farão para evitar um recuo ou demora desta "integração", supostamente.
 
A "dubia" ...!? Oh... era doutrinal...

15 de MARÇO - AGIOLÓGIO LUSITANO (II)

(continuação da I parte)
 
D. João II
f) No Dominicano convento de Azeitão, se perpetua a lembrança do Pe. Fr. Luís da Cunha, irmão do Camareiro mór DelRei D. João II que renunciando às honras, e postos do mundo, se consagrou ao divino serviço na religião dos Pregadores. Este fez tais progressos na virtude, os anos que viveu nela, que chegou a ser um non pusultra de humanidade, exercitando-se sempre nos mais baixos ofícios, e abatidos actos da comunidade, tendo por honra grande, andar de porta em porta, pedindo esmola, e o mais, que era necessário para sustento dos religiosos das casas em que morava, trazendo às costas tudo o que devotos lhe davam, com muita alegria. E posto que era dedicado, e de fraca compleição, por maior, e mais pesada que fosse a carga, e o lugar donde trazia distantíssimo, a ele lhe parecia sempre muito pequena, leve, e o caminho brevíssimo. Morando uma vez em Benfica, sucedeu vir da esmola do vinho mui cansado, a tempo que se achava ali o dito Rei com toda a Corte, que se não quis ir sem o ver. E aquele que dante era dos mais briosos, que entravam em palácio, não no perturbando agora a presença Real, entrou confiado com odre quase cheio aos ombros, de que se edificou muito ElRei, e os fidalgos ficaram todos admirados, seu irmão tão envergonhado, e corrido, que soltou contra ele algumas palavras descompostas, que foram mui estranhadas. Mas o bom Padre com os olhos no chão, e uma paz de alma, lhe respondeu: Irmão meu mais prezo a mercê, que Deus me fez, em chegar a servir humildemente tão santa gente, como nesta casa mora, do que vós podeis estimar, de mais do serviço do Rei da terra, todos os faustos, e grandezas da Côrte, que lograis. Disse então ElRei D. João (como prudente, e santo): Sabeis Pe. Fr. Luís, que obra é esta, que quero que partais comigo do merecimento dela. Chegando logo ao odre, aplicadas suas reais mãos, lho ajudou a levar da Portaria até à Adega. Honrando com este heroico acto de humildade a religião, abatendo a soberba, e vaidade humana. Nestas obras, e noutras semelhantes o achou a morte ocupado, alcançando por tão soberanos meios a salvação, pois esta o trouxe ao seguro porto da religião.
 
- do comentário:
O mosteiro de N. Senhora da Piedade [ver também aqui] de Azeitão da Ordem dos Pregadores, na diocese de Lisboa, fundou-se por ocasião do grande estrago, que fez a peste em Portugal, reinando D. Duarte. Foi o caso, que um vassalo seu, chamado Estêvão Esteves, Cavaleiro rico, e bem herdado, discorrendo pela memória o fim incerto de tantas almas, quantas acabaram ao desamparo na frágoa daquele mal tratou de renunciar as mundanas pompas, e fazer a Deus, e à dita Religião herdeiro de todos seus bens, edificando um convento, em que se consagrasse ao divino serviço. Comunicados tão pios, e generosos intentos com sua mulher, ela como virtuosa, houve mister pouco para a persuadir. Dada conta então ao religioso Pe. Fr. João de St. Estêvão, Confessor da Rainha D. Leonor, lhe pareceu de rosas, o qual fazendo logo saber a ElRei D. Duarte, prometeu o necessário para a obra. E como se não podia efectuar sem pública doação, a fizeram os ditos casados de mão comum a 15 de Setembro de 1434 por virtude da qual tomou logo posse o Prior de Benfica Fr. Mendo. Fez-se a fundação em uma Quinta do Dotador, a que se lançou a primeira pedra, dia de N. Senhora do Ó, do ano seguinte, presentes os mais autorizados Padres da Observância: ficando a obra correndo dali em diante por conta da fazenda real, a que ajudava com particulares esmolas a Rainha, dando-se tal pressa à fábrica, que em breve avultou muito. Os primeiros, noviços foram o dito fundador Estêvão Esteves com dois filhos, e um sobrinho. E sua mulher Maria Lourenço com duas filhas (à sua imitação, e exemplo) entraram no mosteiro do Salvador de Lisboa. Mas enquanto se trabalhava, no que era pedra, e cal, não se descuidava o novo Prior do edifício espiritual, porque não só ia, mas mandava seus frades pelos lugares, e aldeias vizinhas, a doutrinar, e ensinar aos rudes o caminho da salvação. Neste tempo morreu ElRei D. Duarte apressadamente, ficaram filhos meninos, recresceram dúvidas sobre a tutoria deles, e governo do reino, procedeu delas desgastar-se a Rainha, deixar terra, casa, e família, e levar consigo a Fr. João, seu Confessor, sentindo o edifício (por então) o desfavor de tempo. Mas depois seguiu o próprio espírito ElRei D. Afonso V seu filho, que entre outras mercês, que fez a esta casa, foi dar-lhe três moios de renda nos fornos de Palhais, e assim mesmo o dinheiro para os carretos, confirmando as doações, que lhe tinham feito ElRei D. Duarte, e a Rainha D. Leonor, ordinária certa de 40 religiosos.
Teve tão grande opinião esta casa entre todas as da Província na observância de suas Constituições, que no Capítulo, que ela celebrou no ano 1532 se mandou: Que em tal e tal convento se viva como neste de Azeitão, e se guardem as Constituições, como nele se observam. Grande louvor desta casa! E não tenho por menor, provê-la o céu milagrosamente no ano 1556 pois havendo grande fome, assentados à mesa os religiosos, sem terem bocado de pão, confiado o Prior Misericórdia divina, não deixava de orar, quando tangeram à companhia, aberta a porta, acharam dois cestos de pão formosíssimo, sem se saber nunca, quem os trouxera, com que satisfizeram a fome, louvando todos a Deus, que teve cuidado de prover a seus servos. Entre outros muitos, e mui abalizados em virtude, que teve esta casa, achamos feita memória do Pe. Fr. Luís da Cunha, que faleceu em tempo DelRei D. João II de quem escreve Lopes na p.3 das Chr. gerais (l.2 c..37) e Sousa na p.2 das particulares desta Província (l.4 c.5).


g) Em Londres, Côrte de Inglaterra, o término dos gloriosos trabalhos de António Fogaça, Português, homem nobre, e zelador ilustre da Fé Católica, pois na persecução de Henrique VIII não só foi preso por ela no Castelo daquela cidade, padecendo por dois anos rigorosa prisão, com admirável sofrimento, e alegria, mas trateado muitas vezes gravemente, até que próximo à morte, houve ordem para que os Católicos escondidamente o levassem em uma liteira fóra do Castelo; porém como era já muito velho, e as forças totalmente gastadas dos tormentos, em poucos dias debilitado, placidamente exalou o espírito, não perdendo por isto, o feliz mérito, e auréola de Mártir.
 
- do comentário:
O Reverendo Nicolau Sandero no fim do Cisma Anglicano, in Diário rerum gestarum in turri Londinensi, faz ilustre menção de António Fogaça, nosso Português (a quem não sabemos a pátria [lugar do nascimento], e menos o motivo, que o levou àquele reino, onde faleceu a 15 de Março no ano 1587) por estas palavras; Antonius Fugatius Lusitanus nobilis, insignis pro fide Catholica zelator post duorum annorum incarcerationem, et gravíssimos equulei toleratos cruciatos, cum mortii esset propinquus (senex enim erat, et tormentis diffractus) lecticia clam emissus, paucissimis post diebus animam Christo reddidit.

(a continuar)

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