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23/05/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (III)

(continuação da II parte)

DEMOCRATIZAR – Largo tempo se tem passado sem se poder compreender, que coisa significasse positivamente esta palavra republicana em o idioma novo. Julgou-se ao principio, que teria alguma relação com o que antigamente se chamava formar um governo popular. Porém, que loucura! A experiência mostrou imediatamente, quão errada era esta ideia, e o engano nascia principalmente da mudança de significado em a palavra Povo. Quando vimos democratizar aos Estados mais democráticos da Europa, compreendemos, que democratizar um Estado, em o moderno idioma, não quer dizer outra cousa, que denegrir, e abater o Governo, que existia, seja ele qual for; esbulhar dele os homens de bem, que mandavam pôr em seu lugar, ou tolos, ou ímpios e bandidos; formar destes o Povo, e ao verdadeiro Povo escraviza-lo; roubar quanto haja de precioso; e aniquilar a Religião, especialmente a Catoliciza; sem se esquecer um só instante de despojar e oprimir seus  Ministros, etc. etc. É por este modo, que hão sido constante e invariavelmente democratizadas as Flandres, a Holanda, Milão, Bolonha, Modena, Ferrara, etc. etc. Desta explicação se deduz naturalmente a inteligência de muitos Vocábulos derivativos, como 

DEMOCRÁTICO – Que pela activa significa ateu, ladrão, assassino, colocado em o mando e governo; e pela passiva, a parte honrada e religiosa de uma Nação ultrajada e oprimida, tiranizada e roubada por bandidos, ateus, e assassinos. 

DEMOCRACIA – Tem-se tentado dar a versão em idioma antigo com o nome etimológico de pirataria; porém não o explica perfeitamente, porque também se poder dizer ateistocracia, e ladrocacia. Convertidos num estes três Vocábulos, formam o verdadeiro equivalente da democracia moderna. De sorte que em lugar de democracia deveria dizer-se demoniocracia, ou antes governo de demónios. 

SEMI-DEMOCRÁTICO – São de duas qualidades: uns que em parte estão pela democracia moderna, porém unida à Religião, e à moral e com gente honrada no Governo: outro, pelo contrario, não querem Religião, nem costumes, porém que sejam homens que governam. Na linguagem antiga não se pode dar a estes outro nome que o de orates, e aos segundos ainda melhor que os primeiros; pois supõe que podem haver ateus, e libertinos, que sem homens de bem.

ARISTOCRACIA – Até agora conheciam-se quatro classes de Governo, Monarquia, Aristocracia, Democracia, e Misto, e se distinguiam real e verdadeiramente. Mas na linguagem moderna não se conhecem senão dois, Democracia, e Aristocracia, e nenhum significa o que dantes significava; porque por Democracia se entende o de morras, e por Aristocracia todo o Governo, que não se conforma com a Democracia; mais claro: todo o Governo no qual floresce a Religião, se respeita a ordem, a justiça, a boa-fé, a honra, os bens, e a vida. Daqui se colige que será aristocrata todo aquele, que tenha Religião, que possua bens, que seja regulado, moderado, honesto, e de boa-fé. Que será aristocrata todo aquele, que não for petulante, que insulte o Céu, e a terra, e todo o que se não assemelhe aos diabos na incredulidade, em ódio à Religião, à ordem, à humanidade, e aos costumes. 

POVO – Na linguagem nova quer dizer: as fezes, e a ultima relé de uma Nação. Tem Roma cento e setenta mil habitantes: trezentos foragidos, ímpios, e malvados, todos dignos da forca, e das galés, foram republicanamente chamados o Povo. Tem havido Cidades, onde dez ou doze malfeitores, tirados dos cárceres com algum jogador, ou tunante à frete, hão formado o Povo dos Republicanos.

(continuação, IV parte)

05/12/14

EM TEMPO DO CARDEAL REI D. HENRIQUE

Cardeal Rei D. Henrique, Rei de Portugal
"Achava-se (disse Soldado) em Alcobaça o Cardeal Infante quando teve a notícia da morte do sobrinho, perda da batalha, destruição do Reino; veio logo a Lisboa, que o recebeu com lágrimas, vendo os dois extremos, em que se estribára a nossa desgraça, D. Sebastião aclamado na idade de três anos, este na de sessenta e seis anos, e sete meses; aquele por menino, este por velho incapazes, perigosos, e infelizes. Na Igreja do Hospital Real de Lisboa o aclamaram Rei; e o Camareiro mór, chorando muitas lágrimas, lhe entregou o Ceptro, que ele recebeu derramando muitas. Acção foi esta a mais bem considerada naquele tempo; porque um Rei tão velho, e achado, que tomava o Ceptro de um Reino tão enfermo, só no Hospital devia ser aclamado. Apenas o viram no Sólio os Príncipes da Europa, quando quase todos com os pêsames, e parabéns, lhe mandaram dizer que eram seus herdeiros. Ainda se não viu Clérigo rico que deixasse de ser perseguido de sobrinhos, e parentes quando velho, esperando cada um que lhe deixe tudo: este foi o Clérigo mais rico, que teve este Reino; todos os sobrinhos, e parentes o cercavam agora no Sólio para herdá-lo; eram eles D. Filipe II, Rei de Espanha, o segundo D. Catarina de Bragança, terceiro o Duque de Saboia, quarto o Príncipe de Parma, quinto D. António Prior do Crato, sexto o Sumo Pontífice, sétimo a Rainha Isabel de Inglaterra, oitavo a Rainha de França, nono (este era, e foi o crítico) o povo do Reino, dizendo-lhe que pertencia dar a Coroa livremente a quem quisesse; porque [segundo alguns queriam] ele a dera ao Rei D. Afonso Henriques, e a D. João I [veja-se já neste tempo as erradas ideias democratistas]. Deixo à vossa consideração os tumultos, conciliábulos, discórdias, ideias, parcialidades, em que ardeu esta miserável República [significa: ordem pública, e não é a ideia de "república" como o sentido que hoje se difunde] com oito Embaixadores, oito Pretendentes, alegando cada um o seu direito, e solicitando o consentimento da Nobreza, e Povo, e este, monstro quase desenfreado, querendo ser Árbitro, e Juiz sem cabeça, nem juízo. Aflito se via o venerável Rei velho, perseguido de tantos; e como a raíz desta perseguição era o ser Clérigo, resolveu-se a deixar de o ser, para que eles deixassem de o perseguir; pediu ao Papa dispensa para casar; e em quanto ela não vinha, começou nova discórdia na escolha de noiva, uns votaram na sobrinha, filha do Duque de Bragança, outros, que o julgavam incapazes para donzelas, lhe aconselhavam as viúvas; e com efeito mandou vir o retrato da Rainha mãe, de França; em fim tudo era buscar Médicos, sem tomar os remédios; o Rei tinha em casa a mulher pintada, e é como a podia ter (diz Faria). O Papa sim queria expedir a licença; porém uma mão poderosa, e pretendente da Coroa ocultamente a retardava; e nisto se passou ano e meio, no fim do qual morreu o santo Velho, e acabou-se a tragédia divertida [divertida, aqui significa diversificada e divergente], para começar outra perniciosa, e sanguinolenta. Enquanto se cuidava em casamentos, e alegar direitos, o Rei Filipe Prudente, e nesta ocasião prudentíssimo, tinha mandado a Portugal D. Cristóvão de Moura, aquele incomparável Político, de que já falámos na vida do Rei D. Sebastião; e sendo o recado público da Embaixada dar só o peza-me de morte, e desgraça, os parabéns ao Velho pela Coroa, e oferecer dinheiro para resgatar os cativos, que ficaram em África; as instâncias ocultas eram conquistar os corações do Rei, Grandes, e Povo, para que reconhecesse no Rei D. Filipe o melhor direito. D. Cristóvão obrou isto com tal grandeza de juízo, política, modo, segredo, destreza, generosidade, e desinteresse, que, sabendo-se o que fez, e que ele só conquistou para o Rei D. Filipe o Reino, o coração do Rei velho, dos Grandes, e todo o bom, e melhor Povo, ninguém pôde dizer, nem elogiar cabalmente, menos compreender esta acção notável daquele Herói insigne, depois Conde, e Marquês de Castelo Rodrigo, Grande de Espanha, Conselheiro de Estado, e primeiro Vice-Rei deste Reino, a quem ilustrou, nascendo para o seu remédio, e vivendo para lhe evitar precipícios, adquirir honras, e privilégios, como logo diremos. Enquanto D. Cristóvão aplicava remédios cordeais à Monarquia, mostrando que não podíamos resistir às armas de Espanha; e despendendo inumerável dinheiro nos resgates de África, sendo o primeiro, que veio resgatado com dinheiro de Castela o filho do Duque de Bragança, ao qual se seguiram muitos Grandes do Reino, que lá estavam penando. O Cardeal Rei ora se inclinava à sobrinha, Duquesa de Bragança, ora ao sobrinho D. António, filho ilegítimo do Infante D. Luís, ao qual tinha obrigado a tomar ordens de Evangelho; e depois favorecido do Rei de Espanha, conseguiu usar espada, e com ela o recebeu o tio Rei, agora em Lisboa, alegre, festivo, e muito inclinado; intentou ele provar que era filho legítimo do Infante D. Luís, e da Pelicana Violante Gomes, dando testemunhas comparas, que juraram a tinha recebido o Infante por sua mulher ocultadamente: no tempo do seu cativeiro em África estudou bem o ponto, e agora entre os tumultos da Côrte, achou todo o necessário para o intento; e o mais é, o Rei Filipe de Castela seu patrono, de sorte que, provado o ser filho legítimo do Infante D. Luís, ninguém lhe podia disputar a Coroa, e o ser o legítimo, e verdadeiro Rei desta Monarquia; porque se seu pai fosse vivo, havia de ser o Rei, e não o Cardeal, que foi oitavo filho do Rei D. Manuel, e D. Luís, pai de D. António, quinto filho do mesmo Rei. Mas este grande negócio mostrava de instante para instante um rosto diferente, o tio, que o recebeu nos braços quando chegou do cativeiro de África, agora vendo que ele intentava mostrar que seu irmão D. Luís fôra casado com mulher de tão baixa esfera, convocou a si os autos, deu sentença contra ele, mandou que saísse trinta lagoas fora da Côrte, procedeu contra as testemunhas; e Filipe Prudente dando armas contra si, e contra seu Procurador, e Embaixador D. Cristóvão alcançou um Breve do papa a favor de D. António, mandado ir a Causa a Roma, e dando por nula toda, e qualquer sentença; o que logo se executou à risca; porém isto mesmo fez crescer a cólera ao Rei contra os sobrinhos, e mandou que os Duques de Bragança também saíssem trinta lagoas fora de Lisboa. D. António vendo a[?]usa em Roma, e supondo o que alguns lhe diziam, isto é, que o Rei de Espanha não pedira o Breve para o favorecer, mas sim para o incapacitar para a sucessão, porque fôra a súplica feita, antes do Cardeal Rei sentenciar a causa, tempo, em que julgavam todos, e primeiro D. Filipe, que o Velho havia de julgar em favor do sobrinho; o que só se evitava julgando Roma o contrário; cometeu a D. Cristóvão partidos, que lhe deixasse Filipe o Algarve com o título de Rei dele, e trezentos mil ducados de renda, ametade perpétuos, e cederia de todo o direito à Coroa, e pretensão dela, Valia um Ducado nesse tempo quatrocentos e quarenta e um réis, hoje vale quinhentos e cinquenta e um e meio, o que não obstante, parece muito, não só o que pedia, mas ainda ametade. Não se lhe deu resposta; e ele confuso maquinou daí por diante a sua desgraça, e da Monarquia: o Rei Cardeal cheio de bons desejos, e com natural frouxidão para executá-los, chamou o Povo à Côrte na Vila de Almeirim; e enquanto se juntavam, Filipe Prudente temendo as diligências dos Duques de Bragança, e de D. António, ofereceu a este por D. Cristóvão o Priorado de S. João em Espanha; e o governo deste Reino, enquanto fosse vivo, ao Duque; e o casamento do Príncipe, seu filho herdeiro, com uma filha sua, e os maiores aumentos para a Casa de Bragança: ambos rejeitaram os oferecimentos; e chegados os Procuradores, se resolveu nas Côrtes, que o Rei nomeasse Governadores, que depois da sua morte julgassem a quem pertencia o Reino. Não se dá parecer mais falto de juízo em caso tão pensado; as desgraças não tinham número, as futuras diante dos olhos voando, o remédio declarar herdeiro, os pretendentes já só três; porque a distância fez, que perdessem as esperanças os mais: e resolvem três Estados de um Reino juntos, que, depois de mais alterações, e parcialidades, que viam crescer todos os instantes, sem as poder coibir o poder, e venerável respeito de um Rei velho, Cardeal, Pontífice, e Inquisidor, curassem poucos Vassalos o que não queriam tarar todos os Estados do Reino juntos: os Embaixadores de Espanha eram já dois; porque tinha chegado o Duque de Ossuna a fazer só a D. Cristóvão companhia, e ambos instáram ao Rei pela resolução: seguiu-se ao requerimento um particular Concelho, no qual se assentou se compusessem como o Rei D. Filipe; convieram logo nisso os dois Estados, Eclesiásticos, e Nobreza; porém o monstro Povo resistiu firmíssimo, pensão de quem não tem juízo para considerar as coisas, o tempo, a ordem da providência, e o castigo Divino. Neste tempo, se aproveitaram muitos das mercês do Rei de Espanha, para o que trazia muitos papeis assinados em branco D. Cristóvão de Moura; porém ele, e seu pai, cujo exemplo foi causa de se inlinar a D. Filipe o melhor da Nobreza, procederam com exemplar, e eternamente memorável desinteresse, e fidalguia, porque D. Cristóvão se não aproveitou de coisas alguma, e seu pai nunca quis ver o Rei de Espanha: isto é pisar a cobiça, e avareza: e a maior façanha, que obraram os homens nesta vida: poucos deixaram nome na função presente; mas bastou um, para que a Nação ficasse com nome, este foi D. João Telo de Menezes, um dos cinco Governadores por morte do Cardeal Rei, herói dão desinteressado, e constante, que o Duque de Ossuna escreveu a D. Filipe, que a D. João, ou lhe haviam de cortar a cabeça, ou trazê-lo sobre as cabeça; de sorte, que (diz o grande Faria) os que nesta ocasião aceitaram mercês do Rei de Espanha, ou venderam o que era de Espanha por justiça, e de toda a sorte lhe devem restituir o que aceitaram. O Rei vendo crescer as ondas, sem ter ânimo para aplacá-las, chamou outra vez Côrtes para extingui-las, e só conseguiu que fossem mais bravas; porque como a opinião do Povo entretanto cobrou forças, apenas conheceram que ele estava inclinado às razões de Espanha, e direitos de Filipe Prudente, não deixaram acabar a pratica; gritaram de sorte, e com tal loucura, e veneração que infundiam os seus anos, carácter Pontifical, e Púrpura, que tudo nesse século tinha veneração dobrada, porque menos vezes se via; nem o exemplo dos Bispos, e mais Gentes seculares do Reino, diligências dos Embaixadores, e forças da razão, foram bastantes para temperar aquela perigosa dissonância do povo, animado pela sua ideada esperança cada indivíduo, como se bastassem ideias sem união, armas, nem dinheiro para desistir a um Monarca tão poderoso com exercito pronto, protestando direito à sucessão de um Reino desolado, porque não estava unido: verdade expressa de Cristo no Evangelho, onde diz que todo o Reino dividido em si, será desolado, e cairá todo. Mas quem havia persuadir a um Povo, que é monstro, verdades do Evangelho, nem profecias de S. Bernardo, nem o castigo Divino pelos pecados próprios, e de seus antepassados? Em fim nada se resolveu nas Côrtes, nem mais fruto, que serem maiores as parcialidades, e a morte, que parece que queria já ver o fim desta tragédia. Muito antes levou o Rei em Almeirim no último de Janeiro, dia em que tinha nascido, com sessenta e oito anos de idade, um, e quase meio de Reinado, no de 1589. Vinde logo." ("Academia dos Humildes e Ignorantes", Conferência XLVIII, ano de M.DCC.LIX, Lisboa)

03/12/14

AS CLASSES SOCIAIS, A NOSSA CIVILIZAÇÃO, E Sta. HILDEGARDA

Sta. Hildegarda
Agradeço ao leitor que partilhou as matérias que aqui vou transcrever.

A revolução liberal, apagou muita coisa da verdadeira Europa, interrompeu o processo civilizacional das Américas católicas. Uma das vitórias do mal foi a criação de falsas monarquias e repúblicas, a criação de uma "Nobreza" sem sucessão, a lenta e constante tentativa de subverter os mecanismos e a hierarquia da Igreja. Com tudo isto, e a par da ideologia da "igualdade", e da democracia, os católicos de hoje quase já não têm referências de vida que lhes suporte a ideia de diferenciação. Grita-se direito à igualdade negando a verdade das boas e próprias diferenças. Tem-se já a diferença como se fora um mal, e por isso querem-se dar direitos iguais a naturezas e situações diferentes, e, ainda para mais, com deveres diferentes. Enfim...

Sta. Hildegarda, tinha sido acusada de que o seu convento era elitista, que só nele recebia as filhas da Nobreza, fazendo distinções, e que Cristo não teria olhado a distinções sociais. Eis a reposta de Sta. Hildegarda:

"Deus vela junto de cada homem para que as classes baixas nunca se elevem sobre as altas [referindo não só o Povo, relativamente ao Clero e Nobreza, mas também as próprias diferenciações que por tradição no Povo há], como fizeram outrora Satanás e o primeiro homem, que quiseram exaltar-se acima de seu próprio estado."

"Quem há que guarde num só estábulo todo o seu rebanho, bois e jumentos, ovelhas e carneiros? Por isso devemos velar para que o povo não se apresente todo misturado num só rebanho. De outro modo produzir-se-ia horrorosa depravação dos costumes, e todos se dilacerariam mutuamente, levados pelo ódio recíproco ao ver como as classes altas se rebaixariam ao nível das classes baixas, e estas se alçariam até a altura daquelas."

"
Deus divide seu povo sobre a terra em diferentes classes, como no Céu classifica seus anjos em diferentes grupos. Porém Deus ama a todos igualmente."

28/11/14

CONTRA-MINA Nº 3: Planos do Jacobinismo, ou Maçonismo (IV)

(continuação da III parte)

ARTIGO 6º

Exércitos

"Enfraquecê-los, e desorganizá-los de maneira que pondo-os à discrição dos Representantes, nem o Rei nem os Ministros possam dispor deles; e por outra parte fazer subir o número das guardas nacionais, dando-lhes maior consideração que no Exército."

Eis aqui a paga, que os Revolucionários costumam dar aos Exércitos, por terem sido os agentes, e consumadores das suas empresas. A França actual não recomenda outra coisa mais fortemente, que o seu decautado milhão de Guardas Nacionais, ao mesmo passo que tem um grande Exército, que muito bem podia aliviar o Povo Rei de tão pesado encargo, qual é o serviço militar. Escuso de trazer à memória o entusiasmo dos Cívicos Lusitanos, de que só me lembro de passagem para que se veja, que todos os Revolucionários lêem pela mesma Cartilha; vou porém referir uma anedota, que vem muito ao caso, e que poderá servir de recreio a certos leitores quiçá desgostosos ou enfadados de tantas políticas vulgaríssimas, e sabidas de todo o mundo. Lá por esse anda errante, e vagabundo um Titular deste Reino, jovem por certo de grandes esperanças, e já as dava quando fez grandes actos, ou actos grandes nesta universidade. Tocou-me censurar-lhe as Conclusões Magnas de ordem do Excelentíssimo Bispo Conde, e meu sinalado, benfeitor, que nunca tive, nem terei outro semelhante, D. Francisco de Lemos Faria Pereira Coutinho. Das muitas Liberais Teses, era uma, a inutilidade e prejuízo dos Exércitos Permanentes, que no conceito do tal Estudantinho se devia proscrever para sempre.....

D. Francisco Pereira Coutinho, Bispo Conde de Coimbra
É para ver se as coisas são coerentes ou não, e se os Exércitos interessam muito ou pouco na existência dos Tronos? Basta por agora, que o Exército Português dará cedo larga matéria a um dos mais importantes Número deste Periódico.

ARTIGO 7º

Moral do Povo

"Tirar o freio às paixões, dedicar impunes os maiores alentados, conceder as honras de uma solene apoteose, aos que mais se distinguirem no crime."

Que tal e este? Sendo o último na série, que tenho adoptado, é talvez o primeiro em género de maldade, assim como também é o de mais fácil aplicação ao que temos visto, e ouvido já na 2ª Constituição Lusitana, já na 2ª Revolução Francesa. Não repetirei agora o que já disse no tocante à geral desmoralização, promovida nos fatais anos de 1826 e 1827, por quantos modos, e ates poderia sugerir o próprio Satanás, quando houvesse trasladado a sua residência infernal para este Reino; mas limitar-me-hei a certas perguntas soltas? Que castigo tiveram as façanhas constitucionais, desde os gravíssimos e pesadíssimos insultos feitos ao Bispo de Olba, ao D. Prior Mór de Cristo, e a outros Varões Ilustres que seguindo a voz de sua consciência, defenderam a boa Causa? Que castigo tiveram, os da sempre memoranda função dos Archotistas?.... Ou mereceram louvores, ou conseguiram absolvições triunfantes.

Quem deixa de saber como se faz, e celebrou na igreja de S. Domingos de Lisboa, a soleníssima apoteose dos pretensos Mártires do Campo de S. Ana [de Santana]? Quem ignora que outra que tal apoteose foi agora celebrada em Paris com inumerável concurso de Pedreiros em honra de quatro Réus de Lesa Majestade, que foram convencidos e justiçados por esta Causa? Pergunto mais, estimará o Povo, ou quererá fazê-lo Rei, quem o tornar escravo das mais sórdidas paixões, instrumento dos mais nefandos sacrilégios, e mais parecido a uma alcateia de Lobos, que a uma associação composta destes racionais? Desengane-se por uma vez este Povo, de que os Liberais, ou Pedreiros debaixo do pretexto de o livrarem de opressões, ou cadeias, não tratam de outra coisa mais que do enganar, e perverter, como se tem visto por uma contínua, e assaz cruel experiência de todos os Séculos, e de todos os Reinos, onde o espírito Revolucionário chegou a atear os seus incêndios; e para que se lhe torne mais fácil o desengano, lançarei aqui duas palavras do Jacobino Mór, já muitas vezes citado, e nunca bem definido senão em certo Epitáfio, em que se representa o Demónio enfadado de tal hóspede, e querendo expulsá-lo a todo o custo de seu tenebroso Reino; quero dizer, o Marquês de Mirabeau. "O Povo, dizia ele, é um rebanho estúpido, é necessário desencaminhá-lo para longe, procurando-lhe pastos, para o fazer esquecer do seu curral, ou estrebaria antiga, e fazer-lhe perder toda a lembrança de voltar para trás."

Daqui se colhe evidentemente o juízo, ou conceito, que os Liberais fazem, e farão sempre do seu querido, e tantas vezes mui pomposamente elogiado Povo, que no meu entender não pudera menos do que o Rei, em combater, e destruir o espírito Revolucionário. Já era bem fácil tirar esta consequência do que tenho exposto, e defendido, mas por ver o quanto grassa um certo erro, que já foi bem prejudicial à Europa nos fins do Século passado, tomarei a meu cargo desvanecê-lo por quantos meios estiverem ao meu alcance. Ninguém pode negar, que todos os Reis, designados pelos odiosos nomes de tiranos e déspotas, são aqueles, para quem se apontam os primeiros tiros da Facção Liberal, ou Pedreira; mas é absurdo pensar, que a Causa é somente dos Reis, pois deste modo, e talvez com segunda tenção se faz crer ao Povo, que a Causa é toda pertencente aos Reis, e que se eles caírem não terá o Povo nada que sentir, antes muito de que, se aplauda, e se chame ditoso, porém os factos clamam e gritam em contrário de tão louca, e perigosa asserção. O fim dos Revolucionários é já tão conhecido nomeadamente depois da Revolução Francesa de 1789, que deve ser contada entre os axiomas "Acabas com todas as distinções sociais, (assim escrevia em 1793 o grande Político, e grande Sábio Mallet Dupan) com todas as distinções, saquear todos os Proprietários, a Nobreza depois do Clero, os Lavradores depois da Nobreza, os Capitalistas de envolta com os Lavradores, o Comércio com os Capitalistas, e os Rendeiros com o Comércio. Esmagar os Proprietários com as mais excessivas e pesadas contribuições, até chegar o momento de serem com violência expulsos de seus Patrimónios. Conseguidos estes fins, entregar a Soberania, o poder, a força, os empregos, e os dinheiros ao Sans-culotes (ou Mações) exclusivamente."

Um texto assim não precisa de comentários, nem eu de mais argumentos para mostrar aos Povos, (os quais às primeiras labaredas do incêndio costumam pagar centos, e milhares de vítimas) que interessam, e pode ser mais que os Reis, em obstar quanto neles fôr, à propagação dos sofismas Revolucionários; e que estes nem se espalham às mãos cheias, nem se encaminham a outro fim mais que a tornar os homens todos escravos da maçonaria, está-se vendo, e como apalpando em todos os papeis, que saem das principais forjas da Seita. Não há muitos dias que eu li um fragmento do Patriota Francês, em que se estranha, e mui, acerbamente, que o Rei de Inglaterra ainda se obstine a dizer "o meu Povo, o meu Parlamento", quando só devia mudar de linguagem, ou dobrar a língua reconhecendo na Falha do Trono a essencial Soberania do Povo! É para ver se arestos de Novembro de 1830 são os mesmo de Junho de 1789! Não só vêem a ser os mesmo, o que já era muito para nos decidirmos pela mais rigorosa identidade das duas Revoluções, mas cumpre ainda notar, que das sete figuras, que muito influíram na redacção, e execução do plano da primeira, ainda vivem, e tem agora luzido consideravelmente nada menos que duas, que foram das menos principais em 1789, e anos seguintes.

Ah clemência dos Reis, clemência dos Reis quanto és nociva em certos casos, e mil vezes pior que a própria crueldade!!!

E não se deverá ela então antes chamar clemência para os maus, e crueldade paras os bons?

Coimbra, 9 de Dezembro de 1830
[ver Índice da Obra]

16/03/14

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 1 (III)

(continuação da II parte)


A Soberania do Povo
De que na antiguidade sagrada, ou profana por mais que se busque, não aparecem vestígios, antes pelo contrário quanto mais perto da origem da sociedade chegam os trabalhos, e a exames históricos, vai-se para contantemente em algum Rei ou juiz ou magistrado supremo... o que é tão certo, que o ditado vulgar "Haja um que nos governe... já era mil anos antes que Jesus Cristo viesse ao mundo..."

Foi a soberania do povo quem levou ao cadafalso o Rei Carlos I de Inglaterra e em nossos dias o malfadado Luis XVI, e acabaria infalivelmente por fazer a todos a mesma gracinha, se lhe não forem à mão, e cortarem os herpes muito radicalmente de maneira, que nunca mais pegue tal doutrina quer seja de sementeira, quer de enxertia quer de estaca... Assentemos por uma vez que nunca o povo se diz soberano para outro fim mais do que para cair toda a soberania nas mãos de um punhado de aventureiros, que desta arte lhe fazem a boca doce, em quanto mui a salvo, e a despeito da moral cristã, e dos princípios mais vulgares de decência, vão enchendo a bolsa, e por certo que não há coisa melhor nesta vida....

Se pegou a a lábia ficaremos verdadeiramente soberanos, e o povo terá de obedecer a muitos que só curam de esmagá-lo, e saqueá-lo, em lugar de um só que nenhum interesse tinha de o vexar e de o oprimir. Se o tiro falhou, e não acerta no alvo não falharam as louras que vão na algibeira e que darão para comer e viver folgadamente em quauqluer parte do mundo. São pois os heróis deste jaez inimigo do povo a quem esbulhão de todo o fruto dos seus suores e fadigas; são inimigos dos Reis cuja autoridade aviltam a ponto de fazerem sensível para experiência de alguns anos, que um Rei é traste supérfluo, e que se todas as suas funções se devem reduzir a assinar de cruz em todos os papeis que lhe arrumarem, será melhor que o não haja... pois um Rei assim que custa um conto de réis por dia, sai muito caro à Nação (expressão de um ilustre deputado às Cortes Ordinárias, que de certo não podiam ser mais ordinárias). Ora tem saido a lume refutações sem conto desses puritanos, liberais, pedreiros carbonários etc. etc. etc. mas quem deu chiste foi o autor de Hudibras.

Ainda que o restabelecimento de Carlos II no trono de Inglaterra sufocou os partidos, e restituiu a paz, e a tranquilidade ao próprio Reino que nessa parte mais feliz do que acaba de ser o nosso, não fôra roubado sob a protecção de Cromwel e que à primeira voz que soltou o General Monck (mais feliz do que o nosso ínclito Silveira) gritou em altas vozes pela monarquia; nem por isso deixou de haver uma chusma de descontentes, que sem embargo de que todas as classes tinham aceitado cordialmente a mudança de governo, mordiam-se de raiva, e não perdiam de todo a esperança de tornarem a subir...

Apareceu o Hudibras, ficaram todos metidos num chinelo, e nunca mais ninguém piou, e o que não chegaria a fazer toda a severidade de um Rei, que desagravava o trono de seu desgraçado Pai, conseguio-o pena de um escritor, que sem nomear pessoas, ainda que designando-as mui claramente pelas suas artes, prendas, e manhas, triunfou daquela emperrada teima de reformar a torto e a direito, e por certo mais esforçado que Alcides livrou a sua ditosa pátria destes verdadeiros, leões de Nemeia... Apareça entre nós um Hudibras - e sem pão nem pedra daremos cabo dos pedreirinhos, que conseguirem escapar ao desterro, e à morte, e a qualquer outra pena, que lhes infligir a junta severidade das leis.

(continuação, IV parte)

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