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11/08/15

FR. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA RESPONDE A JOÃO RIBEIRO (II)

(continuação da I parte)

refeitório do Mosteiro de Alcobaça

IV

Afirma positivamente o meu Censor (pag. 5) que reconhece à Doação da Herdade de Alcobaça na era de 1191, e que só nega, que precedesse aquele Voto, que precedeu à tomada de Santarém, tal qual o refere Brito, e outros. O meu Censor a pag. 60 da sua Dissertação segunda, que foi impressa de ordem da Academia Real das Ciências em 1810, explicou-se desta maneira: "Toda a História das Ciências daquele Voto (de que não há vestígios na Carta genuína do Couto de Alcobaça) para não merecer crédito algum, prescindindo mesmo das sólidas razões, que já indiquei, e se expendem pelo A. do Elucidário da Língua P. tomo I, pág. 76, bastaria figurar principalmente nela Pedro Afonso etc.. Ora sendo certo, que no Arquivo do Mosteiro de Alcobaça há duas Cartas de Couto de Alcobaça, feitas no mesmo século, e dadas pelo mesmo Soberano, o Senhor D. Afonso Henriques, não se requer muita agudeza para se concluir, que o meu Censor tem uma destas por apócrifa, e agora é que sei positivamente que se trata da segunda, e não da primeira; e como esta se endereçou a um Prelado estrangeiro, e por outra parte nos consta a verdadeira razão, por que o Senhor D. Afonso Henriques obrou desta maneira, para que havemos de rejeitá-la? Fernão Lopes, e Cristóvão Rodrigues de Azinheiro valeram-se das antigas Crónicas; e com que direito havemos de receber a sua autoridade em um sem número de factos históricos, que nunca se provam por documentos, e sermos tão escrupulosos no que é relativo às proeminências do Mosteiro de Alcobaça? Também há tradições históricas mui respeitáveis, e se as quisermos abafar, e lançar por terra, só fundados em que não há documentos coevos, que as verifiquem, então abre-se uma porta franca ao ceptissimos histórico, e nada haverá firme em leais assuntos. Suponhamos que as antigas Crónicas, de que usou Fernão Lopes, tivessem cem anos de antiguidade, e que fossem composta no séc. XIV, e vinham por esta contra a distar bons duzentos anos da tomada de Santarém, assim mesmo terei para mim que são dignas de crédito em tudo aquilo, que não for contrário por documentos; e para ver que a maior parte das nossas verdades históricas se firmam em provas como esta, eu darei por exemplo a verdadeira época da tomada de Coimbra por D. Fernando magno. Não desdenho o meu Censor a autoridade das Crónicas, ou Cronicões; por quanto a pág. 4, e seguintes da primeira Dissertação já citada, produz o Conimbricense, ou o Livro da Noa, o Lamecense, e outros: deste último confessa ele, que fôra escrito no séc. XIII, e por tanto já em caminho, e pode ser que bem adiantado, para o séc. XIV: logo aqui temos distância considerável do ano de 1064, e não há só desta vez que ele se prevalece da autoridade dos três Cronicões, apesar de que um simples exame mui posteriormente aos factos, que precederam a erecção da Monarquia Portuguesa. Não me foge a opinião do eruditíssimo P. Flores, e de outros, que dão estes mais antigos, no que fazem por vingar-lhes o préstimo, e autoridade, e porque não direi outro tanto dos Cronicões, antigos, de que certamente se valeram os Lopes, e Azuraras? Enfim a Doação feita a um Prelado estrangeiro é coisa muito notável, para que não se lhe indaguem cuidadosamente os verdadeiros motivos; dão os nosso Historiadores este motivo, e posto que o não receberemos, e admitiremos como verdadeiro? mas porque arte a segunda Doação, versando-se sobre o mesmo ponto, nem sequer nos dá uns longes da existência da primeira? Porque à primeira, vistas as sempre fixas, e dominantes ideias dos Portugueses, que sempre fugirão até das mínimas sombras da sujeição a estrangeiros, e que só fôra concedida por motivos extraordinários, devia reformar-se por morte do glorioso S. Bernardo; e o silêncio, que tanto se estranha na Doação, é no meu entender mais um indício das nobres ideias, que vogavam naqueles ditosos, e para mim saudosíssimos tempos. Se o meu Censor quisesse olhar desapaixonadamente para a primeira Doação acharia naquelas palavras da genuína Doação Cautum Facimus vobis D. Bernardo Claravallensis Caenobii Abbati, et fratribus vestris, alguma coisa digna de especial consideração. Se o Senhor D. Afonso Henriques tratasse meramente de fundar um Mosteiro do Instituto de Cister, já tinha dentro do seu Reino mais de um Mosteiro do próprio Instituto, e o que é mais, e que não se trave a negar o Autor o Elucidário na pág. 77, tinha Monges Claravalenses, que por tais se qualificam na Doação de Podentes ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra; e se oferece a um Prelado estrangeiro a sua própria herdade, é porque alguma razão poderosíssima o determinou a este passo de tanta Religião, como generosidade própria de um tal Soberano. Fica para outro lugar a mui azeda, porém assaz merecida resposta, que deverá o audacíssimo Viterbo, que já principiei a combater, e que dará mui larga matéria a diversos Capítulos da minha História das fundações dos Mosteiros Cistercienses neste Reino, e nomeadamente a um, que tratará daquela palavra herdade, em que o sobredito Viterbo nimie indulsit genio suo; e por agora (visto que não quero se prolixo) notarei de passagem, que o Mosteiro de Alcobaça, conforme os antigos Cat. dos Abades, em 1650 já contava mais de quatrocentos anos, foi fundado em 1148, e como desde este ano até 1153, data da primeira Doação, os Monges não estiveram ociosos, por isso já neste último ano havia mais terreno cultivado, a que os Reis de Portugal costumaram sempre chamar seu, até depois de todas as solenidades, que ali se encontram naquela Doação.

V

A série dos adversários do Cronista Mor Fr. Bernardo de Brito, com que o meu Censor pretendeu atemorizar-me, não opus eu senão dois modernos, que me pareceram bastantes para se desfazer a impressão, que a lista do meu Censor causasse nos menos versados na nossa História Literária. Eu tinha feito um paralelo entre o doutíssimo António Ribeiro dos Santos, e o Cónego Regrante D. António da Visitação Freire, pois disputam, ou, para melhor dizer, tentaram um ponto, em que o primeiro seguiu a opinião de Fr. Bernardo de Brito, que o segundo impugnava; decidiu-se a vitória por António Ribeiro dos Santos (que não foi esta das mais gloriosas, que alcançou durante a sua vida), e por isso eu produzi a sua autoridade com tanta maior confiança, quanto esta certo, que António Ribeiro dos Santos vindicou a existência da Obra de Zacuto, que passava constantemente por ficção do Cronista Mor. Agora sou eu confrontado com o Pe. Freire, assim como António Ribeiro dos Santos o é com o extravagante, e paradoxista Padre Harduino! pela minha parte só direi, que cedo gostosamente as palmas do triunfo ao meu contendor, que tanto se recomendou à posterioridade pela sua descomedida sátira à pessoa, e obras daquele Cronista Mor. Ambos temos seguido uma estrada totalmente diversa; se ele caminhava para o norte, eu caminhava para o sul, se para o oriente, eu para o ocidente, e por isso nunca deveremos entrar em paralelo. Eu não sei escrever História Filosóficas, ou Romances, nunca saberia dizer, por exemplo, que Fr. Bernardo de Brito, que na data das Côrtes de Tomar contaria dez para onze anos, foi traidor à Sereníssima Casa de Bragança por ter feito versos ao Monarca Espanhol Filipe o Prudente, e menos saberia afirmar, que o Cronista, auxiliado do Pe. Roman de la Higuera, supusera, e fingira os próprios livros, que cobertos de pó jaziam há séculos na famosa Biblioteca Mediolanense... Frei Bernardo de Brito, o Português castiço, como lhe chama, e com assaz razão, o meu Censor, o primeiro, que levantou à sua Pátria o gloriosíssimo Padrão de uma História geral, o que resistiu mais de uma vez a escrever as suas Obras em Castelhano, querendo antes ser menos lido, e admirado, que parecer menos Português do que realmente era; um Varão insigne, e a todas as luzes respeitável, que mereceria, e teria estátuas em Roma, e Atenas.... é arguido de traidor à Real Casa de Bragança, e é arguido pelos meus contemporâneos, como se estes fossem os verdadeiros tipos da lealdade Portuguesa!! Se não fosse agora o parce vivis alque sepultis, que vasto campo se abria ao meu estilo declamatório?

(continuação, III parte)

09/02/15

EVANGELIZAÇÃO PELOS PORTUGUESES - AGIOLÓGIO LUSITANO (II)

(continuação da I parte)

Advirto de passo, que os primeiros pregadores, que anunciaram a luz do sagrado Evangelho nas Canárias (depois de descobertas) foram portugueses, que lá passou logo o Beato Tadeu, frade agostinho, que pelo admirável fruto que fez na conversão e doutrina de seus moradores adquiriu o nome de Canário, com que é intitulado (como Cipião o de Africano pelas vitorias que alcançou em África) sendo o santo natural de Lisboa. Nelas havia já prégado, e padecido martírio S. Avito há mais de 1540 anos, pois foi no de Cristo 105. Estas ilhas se largaram depois da concordata a Castela, por cairem na sua demarcação.

Ilhas Canárias
Temos mais em confrontação da consta de África os bispados da ilha da Madeira, e Terceira, que sendo desertas, os nossos povoaram de Cristandade; daquela foi primeiro Bispo D. Diogo Pinheiro, Vigário de Tomar, nomeado por ElRei D. Manuel, e a sua instância, confirmado por Leão X, ano de 1514. Desta o Pe. Agostinho Ribeiro, frade loio, designado por ElRei D. João III, e confirmado por Paulo III, ano 1534. Uma, e outra Diocese tem de seu princípio Religiosos menores; os da Madeira, que são três de frades, e um de freiras, sujeitos à Província de Portugal; os da Terceira (que ano 1639 se desmembrou da dos Algarves) formam uma dilatada Província, intitulada de S. João Evangelista, compreende hoje 14 conventos de frades, e 6 de freiras (de mais de outros tantos sujeitos ao Ordinário) a cabeça de todos é N. Senhora da Guia na cidade de Angra. Nela, em S. Miguel, e Madeira têm colégios a Companhia de Jesus, onde estes religiosos exercitam seus santos ministérios, em ordem à salvação das almas.

Seguem-se as de Cabo Verde com seu primeiro Bispo D. Brás Neto, erecto no ano 1533. Nelas prégou o Pe. Baltasar Barreira da Companhia com admirável fruto, pois trouxe ao grémio da Igreja Católica inumeráveis gentios, que converteu, e baptizou, e entre eles a dois Reis: o da Serra Leoa e o de Tora. Após este o de S. Tomé eleito muito antes, na pessoa de D. Digo Ortiz de Vilhegas, cuja jurisdição por muitos anos se estendeu a todo o Reino do Congo, e como o principal fim dos descobrimentos dos Sereníssimos Reis de Portugal foi a conversão da gentilidade, e propagação do sagrado Evangelho, tanto que os nossos descobriram este Reino, mandaram logo pregadores, que o instruíssem nos mistérios de N.S. Fé; e seu Rei (movido por divina inspiração) foi as primícicias, que os nossos converteram naquele Reino no ano 1491. Em prova de sua conversão mandou este, D. Henrique, seu filho, com alguns vassalos seus, que aprenderam a doutrina Cristã e sagradas letras no mosteiro de S. Eloi de Lisboa, onde residiram 13 anos com grande exemplo e louvor. E feitos Sacerdotes, renunciou D. Diogo Ortiz o Bispado de S. Tomé no dito Príncipe D. Henrique. Tornado à pátria, seu pai o mandou a Roma no ano 1513 acompanhado de outros senhores, e fidalgos de seu Reino a dar obediência ao papa Leão X esujeitar à Sé Apostólica ceptro e coroa. E por ser Bispado de S. Tomé mui dilatado, e constar ao Papa Clmente VIII que havia 128 anos, que em Congo se conservava a Fé, depois que os nossos ali a pregáram, à instância o Prudente no ano de 1590 se desmembrou daquele Bispado o de Congo (que hoje separado se chama de Angola) em que o primeiro eleito foi D. Fr. Miguel Rangel, Capucho da província de Sto. António. Todos estes Bispados ultramarinos são sufragâneos à Metrópole de Lisboa. E tornando aos primeiros prégadores, que foram a S. Tomé, e Congo, achamos serem Monges de S. Bernardo do convento de Alcobaça, depois os Franciscanos, e Dominicanos, seguiram-se os Loios, e Gracianos, e os Padres da Companhia, e Carmelitas descalços, e ultimamente os Terceiros de S. Francisco, que todos têm feito copiosa sementeira para os celeiros da Igreja na conservação das almas, acabando os mais deles gloriosamente nesta santa empresa.

(a continuar)

18/11/14

DO CONDE D. HENRIQUE - por D. Fr. Fortunato de S. Boaventura (I)

ENSAIO DE UMA DISSERTAÇÃO HISTÓRICO-CRÍTICA SOBRE OS FACTOS MAIS CONTROVERSOS DA HISTÓRIA DO CONDE D: HENRIQUE, PRIMEIRO SOBERANO DE PORTUGAL, E TRONCO DA AUGUSTÍSSIMA CASA REINANTE.
(por D. Fr. Fortunato de S. Boaventura)

Capela-mor da igreja do Mosteiro de Alcobaça (Portugal)
"São quatro os pontos mais controversos da história do Conde D. Henrique, a saber:

1 - De quem era filho?
2 - A sua jornada, ou jornadas à Terra Santa;
3 - As últimas acções da sua vida;
4 - A independência do seu condado.

Tratarei pois de cada um deles separadamente, e a muitos respeitos com algumas novidades.

I Ponto
De Quem Era Filho?

Convém que a discussão deste primeiro ponto seja precedida de um lançar de olhos sobre as opiniões mais seguidas. A primeira, e mais antiga o supõe filho de um rei da Hungria; a segunda, filho e descendente da Casa de Lorena; a terceira, da Casa de Borgonha Condado; e a quarta, e última lisonjear-se de que a sua origem da Casa de Borgonha Ducado é axioma histórico; pois a quinta dos que iludidos da palavra Visontinus, que tomaram por Bisantinus (o que faz tanta diferença, quanta é a que vem de Besançon, cidade de França, à hoje capital do império otomano) é indigna até de fazer número, quanto mais de ser examinada, ou discutida.

II

Coisa estranha foi que os portugueses (todavia sempre inclinados mais ao que é estrangeiro, do que ao próprio e nacional) renunciassem tão facilmente à opinião mais antiga, que pelo menos valia a pena, de que se examinassem as coisas, porque os nosso antigos a defenderam e seguiram unanimemente por espaço de três séculos; e se tivessem feito o que eu agora me proponho fazer em ordem à opinião estrangeira, teriam sido mais remissos em adoptar esta; e pode ser, que o fruto dos seus exames fosse o voltarem sinceramente, e por uma vez, à que tinham seguido os seus maiores. Há outra circunstância histórica, das que devem pesar muito na consideração de todo o crítico prudente e desapaixonado; e vem a ser; que os próprios franceses já na descrição do séc. XVIII mostraram prescindir do argumento mais forte da quarta opinião, voltando à terceira, e sustentando-a com grande aparato de razões, que por certo me não seriam inúteis, se eu as tivesse pedido examinar; e seja esta a ocasião em que anuncie aos meus leitores, que não tive cópia de livros necessários, e a que principalmente devia recorrer, sendo um destes a História do Ducado de Borgonha, pelo Mauriano Plancher, sem que me seja necessário apontar aqui muitos das História do Reino da Hungria, que não se encontram nas mais cópias e selectas literárias deste reino. Assim mesmo porém desprovido de auxílios, que, se os tivesse, não chamaria a este opúsculo ensaio, mas dissertação formal (o que somente me será possível, quando eu recolha todos os subsídios, de que necessito, e que facilmente poderão dar nova face ao meu trabalho) por isso lhe dou um título, não só modesto, porém até necessário.

III

Considero a quarta opinião hoje tão válida e tão universalmente abraçada que, se eu desde logo tentasse expor a minha opinião, bastaria a força de antigas prevenções sustentadas pela gravíssima autoridade do cronista-mór Fr. António Brandão, de Duarte Ribeiro de Macedo, D. José Barbosa, Pe. António Pereira de Figueiredo, e do cisterciense Fr. Manuel de Figueiredo, para obrigarem a maior parte dos meus leitores a examinar desdenhosamente as minhas provas; que tanto é o poder e a influência de certas opiniões abraçadas sem exame, e defendidas mais por hábito, que por efeito de críticas e maduras reflexões. Convém pois que eu desfaça, primeiro que tudo, como o principal dos meus adversários, que se o deixasse como para a minha retaguarda, não poderia ser tão feliz, como espero, o sucesso final da contenda.

IV

Publicou-se em Frankfurt (1596) a colecção intitulada Historiae Francorum ab anno Christi 900 a annum 1285 scriptores veteres XI ex Schedis P. Pithaei, e pouco antes, e na própria cidade outra obra, ou colecção do mesmo género, a que tinha dado o título Annalium et Historiae Francorum ab anno Christi 708 ad annum 990 scriptores couetanei XI, o que parece dar a entender, que ele próprio tinha em maior conta a primeira das suas colecções. Na segunda pois, onde entram os autores antigos sem a qualificação de coetaneos, vem a célebre passagem que dá o conde D. Henrique por filho de um dos filhos de Roberto, Dique de Borgonha, expressão vaga, que por si mesma, e sem outra qualquer ponderação deveria ter causado grande reparo e desconfiança; pois constando pela histórica de França que o primogénito do duque Roberto deixará alguns filhos por sua morte, acontecida uns nove anos antes do falecimento de seu pai, convinha, ou para melhor dizer, era obrigação de quem nos transmitia a história contemporânea, designar de qual dos filhos do Duque Roberto era filho o nosso D. Henrique, mormente quando o próprio MS. de Fleury pouco antes nos havia certificado, do que o Príncipe Henrique tinha dois filhos, que depois sucederam no ducado de Borgonha: "Roberto" diz ele "Duce Burgundiorum obeunte quem supra retulimus, Ainrici Regis fuisse fratrem filio quoque ipsius Aiurico ante obitum patris mortuo, filius ipsiusAinrici Hugo Ducatum suscepit, quo facto Monacho post aliquos annos principatum ipsius frater Odo obtinuit." (1) À vista pois de tanto saber genealógico de uma parte, e de tão pouco da outra, será bem fácil a todos os leitores, ainda que sejam medianamente críticos chegarem ao conhecimento, ou da mais apoucada ciência do anónimo, ou de que os dois artigos são de diversos autores. Dado que seja o primeiro caso, não tem o historiador aquela como suprema autoridade, que vulgarmente perplexos e embaraçados para decidirmos, num prólogo de notícias de vários autores, quais destes foram os coetâneos.

V

Se o MS. de Fleury tira a sua força principal de certos indícios, de que o seu autor foi coevo de alguns sucessos, como por exemplo é o seu modo de falar, Vidimus duos solis, o que recai no ano de 1108, nesse mesmo parágrafo se lhe conhece a sua inexactidão, pois afirma que D. Afonso VI de Castela morreu no mesmo ano, em que também falecera o rei Filipe de França, Rex vero Adefonsus eodem anno, quo et Rex Philippus diem clausit extremum, (1) o que é notoriamente falso, pois é sabido que D. Afonso VI morreu no primeiro de junho de 1109; e se os monges de Fleury eram tão exactos em genealogia como em cronologia, mal podemos afiançar-lhe esse grau de autoridade, que mais por capricho, que por justiça tem desfrutado por mais de dois séculos. Nem o MS. é mais feliz na parte geográfica; e visto ser meu intento mais acrescentar do que transcrever, advertirei aos meus leitores duas coisas importantes, de que ainda farei o uso conveniente; e vem a ser: 1ª que o tal condado de D. Raimundo de Borgonha trans Ararim, que foi um dos argumentos geográficos, de que se valeu o mais crítico e apurado genealógico das Hispanhas (2) para denunciar e convencer de apócrifo o decantado MS. de Fleury até depois da novíssima reposta do cronista dos cistercienses ao citado autor, fica subsistindo em toda a sua força: 2ª que muito maior número de considerações geográficas se pode trazer contra o MS. de Fleury. É necessário explana-las brevemente.

(continuação, II parte)

18/03/14

D. PEDRO AFONSO, VIRTUOSO MONGE IRMÃO DE D. AFONSO HENRIQUES (II)

(continuação da I parte)

Reforça ainda mais esta suspeita com a advertência de que, usando-se, quase geralmente naqueles dias, os Soberanos Patronímicos, não era de crer que um filho do Senhor D. Henrique abandonasse o nome de seu Augusto Pai, a fim de obsequiar Irmão, principalmente quando vemos que um filho deste Soberano se chama D. Pedro Afonso, o que encontraria visivelmente o nome de seu Tio, e produziria algumas equivocações, de que os antigos se costumavam guardar, por serem mais cautelosos do que nós somos em tais matérias. Se lhe opõem o exemplo do Senhor D. Afonso Dinis, que tomou o apelido de seu Irmão, deixando o nome do Senhor D. Afonso III, responde que havia mais liberdade nos fins do séc. XIII, relativamente ao uso dos apelidos; e que no séc. XII se observava como religiosamente o uso dos Patronímicos. Ora: como a letra do Epitáfio gravado sobre a Sepultura do Monge Fr. Pedro Afonso em 1293 só põem a letra F., que é indiferente para exprimir filius, ou frater, e por outra parte achou cópia de notícias de um D. Pedro Afonso, filho do Senhor D. Afonso Henriques, que em 1183 assina na 2ª Doação daquele Soberano ao Mosteiro de Alcobaça; e que, dando mostras de singular afeição aos Monges, põem as balisas dos Coutos por suas próprias mãos; e que em 1206 faz doação do que possuía no Termo de Tomar ao Mosteiro de Alcobaça, assinando-se "Patrus Alfonsus filius magni Regis Alfonsi", no que também mostra subir de ponto a sua antiga afeição aos Monges, conclui que é este filho do Senhor D. Afonso I, o que no último quartel na sua vida se recolheu ao Mosteiro de Alcobaça, para melhor segurar a eterna felicidade.

Mosteiro de Alcobaça
Confesso que, sem me deixar prevenir de minha predilecção pelo mais crítico dos nossos Historiadores, eu abraçaria sem hesitar a sua opinião, se não achasse outra coisa mais do que as autoridades domésticas de Fr. Bernardo de Brito, e Fr. Manuel de Figueiredo em contradição com ele. Faz-me todavia grande peso a Carta de meu Pai S. Bernardo a ElRei D. Afonso Henriques, e que nas edições do doutíssimo Pe. Mabillon é a 308, e sobre cuja autenticidade não me consta haver a menor dúvida. Nesta Carta se lê: "Petrus Celsitudinis vestrae frater, er omni gloria dignus" e à vista de tais palavras, e de tão autorizada testemunha, quem poderá negar que o Senhor D. Afonso Henriques tivesse um irmão chamado D. Pedro? Alude imediatamente à profissão das armas, que seguia este D. Pedro: "Et Gallia armis pervagata in Lotharingiam militat, proxime militaturus Domino exercituum". Daqui se tiram duas espécies, que muito dizem para o meu caso:

1ª - Este D. Pedro Afonso, talvez esperando melhor gasalhado em seus parentes franceses, do que em sua pátria, no meio das bem sabidas alterações entre o Senhor D. Afonso Henriques, e a Senhora D. Teresa, viúva do Conde D. Henriques, passou a França, e aí se demorou no serviço dos Reis Franceses, entrando em várias campanhas, e obrando grandes gentilezas de valor; e, como tudo isto levaria seu tempo, não é de admirar que ele não assinasse as Escrituras, e Doações dos primeiros anos, em que o Senhor D. Afonso Henriques governou este Reino; e à objecção de que ele não assine nas Doações de deu Pai o Senhor D. Henrique, facilmente se acode, pela reflexão de que poderia nascer nos últimos anos de vida de seu Pai; o que é mais natural, considerando-se o ano de seu falecimento em Alcobaça, se é que não sucedeu alguma equivocação, que não é de admirar nos Epitáfios, mormente gravados muitos anos depois daquele, em que mais convinha se gravassem.
2ª - Este Príncipe, irmão do Senhor D. Afonso Henriques, é o próprio, que, no entender do Santo Padre, militará cedo em obséquio do Senhor dos exércitos, no que se envolve uma profecia bem clara da sua mudança dos trajes de Soldado pelos de Monge; e eu só por este indício, se mais nenhum tivera, certo e mui certo ficaria de que D. Pedro irmão do Senhor D. Afonso Henriques é o Monge Converso de Alcobaça; pois creio mais em meu Pai S. Bernardo, contando os futuros, do que nos mais críticos Historiadores contando estes o passado; e a quem notar de fraqueza este meu pensar, também respondo que me gloriarei sempre em nosso Senhor, que me deixa ser fraco em tais assuntos.

(a continuar)

12/02/14

D. PEDRO AFONSO, VIRTUOSO MONGE IRMÃO DE D. AFONSO HENRIQUES (I)

CAPÍTULO V
No Qual se Trata do Muito Virtuoso Monge Converso Fr. Pedro Afonso, Mostrando-se que Foi Irmão DelRei D. Afonso Henriques.

"Florescendo em Santidade o Mosteiro de Alcobaça, como deixámos escrito, não é desacertada a conjectura, de que naqueles afortunados tempos bastaria nomear qualquer Monge de Alcobaça, para se ficar entretendo que era um Varão seguidor do caminho estreito, que leva em direitura ao Reino dos Céus. Entretanto poderia ser fatal qualquer erro, que nesta parte se cometesse, visto o perigo de se darem os louvores da Santidade a este, ou àquele, que os não merecesse; e na ideia deste perigo é que eu me retraí de contar entre os Varões Ilustres em Santidade todos os Monges de Alcobaça, que aparecem nas Escrituras, e Doações daquele tempo; e se o lugar de Abade, que feito por eleição do Mosteiro se conferia sempre a um Monge, que no seu estado particular, ou nos Ofícios menores do Convento luzira em pontualidade no cumprimento de seus deveres, assim mesmo não deixou de ser algumas vezes mal servido, e até manchado pela espantosa mudança, que as honras fazem nos sujeitos, que esquecidos do peso, que tomam a seus ombros, só põem os sito nos lucros, ou grandezas, que lhes são anexas; por ventura sucederia o mesmo a este, ou àquele Monge, o que nem admira, tendo-se em vista a fraqueza humana, nem era fácil de discernir em tal distância de tempos, e escassez de notícias, que bem poucas daquela Esra chegaram até nós.

Mosteiro de Alcobaça, antes da "reforma".
Além disto os Cronistas Morais Brito, e Santos apontaram assim os Abades do Mosteiro de Alcobaça, que sobressaíram em virtudes, como outros Monges, que por este lado merecem o primeiro lugar em nossas Crónicas; e bem claro se vê que seria um trabalho inútil historiar no meu estilo rude, e desalinhado, o que já escreveram outras penas mais cultas e aparadas, do que a minha. Não tira isto que eu repita de quando em quando algumas espécies; pois quantas repetiu Fr. António Brandão das já escritas por Fr. Bernardo de Brito? Mas neste caso é meu costume, ou substanciá-las, ou trocá-las de passa bem; e se em outras me acontece demorar-me, é por ter havido discrepância entre os citados Cronistas, do que é forçoso, que eu dê alguma satisfação ao Público. Eis a circunstancia verdadeiramente apertada, em que me põe o Monge Converso do Mosteiro de Alcobaça Fr. Pedro Afonso, que Fr. Bernardo de Brito reputa Irmão, e o Cronista Fr. António Brandão filho do Senhor D. Afonso Henriques. Figurou novissimamente nesta disputa o Cronista meu predecessor Fr. Manuel de Figueiredo, que imprimiu uma Dissertação singular, para discernir os dois Pedros Afonsos, um Irmão, outro filho do Senhor D. Afonso Henriques. Coloca ele nesta bem trabalhada Dissertação os sucessos respectivos a cada um dos Pedros Afonsos, porém é fácil de conhecer, à primeira vista, que os tocantes ao Monge de Alcobaça não se revestem daquele número de provas históricas, que sobressaem no outro, e que importava desfazer primeiro as objecções do Cronista Brandão; algumas das quais, e talvez as mais fortes, ainda não foram completamente destruídas. Verei pois se encontrando algum fio, que me conduza neste labirinto, eu possa acertar na verdadeira opinião, que deve seguir-se em um ponto essencial, não só à História da Congregação de S. Bernardo, porém à Geral destes Reinos, vista a qualidade da pessoa, de que tratamos.

Fr. António Brandão, que só munido de tradições, ou monumentos incontrastáveis, afirmava as coisas positivamente, e que sempre ficava suspenso, quando não achava aqueles dois requisitos nas notícias, que davam ao Senhor D. Henrique, primeiro Soberano deste Reino, hum filho bastardo chamado D. Pedro Afonso; porém confessa que, tendo revolvido copia de Doações feitas pelo dito Senhor D. Henrique, não achara nunca esse nome de D. Pedro Afonso, achando todavia assinadas não só as Pessoas Reais, porém outras, que seguiam a Côrte. Infere pois deste silêncio, que custa muito a provar de um modo, que exclua a menor hesitação e dúvida, que existisse um D. Pedro Afonso, filho bastardo do Senhor D. Henrique.

[nota Ascendens: não concordo com o autor ao dizer que D. Henrique (Henrique de Borgonha, Conde, pai de D. Afonso Henriques) foi o primeiro soberano deste Reino.]

(continuação, II parte)

22/01/14

21 de Janeiro - No AGIOLÓGIO LUSITANO

- "No mesmo dia, na Igreja Catedral do Porto, a festa do mesmo S. Vicente Mártir, a quem a dita cidade muitos anos reconheceu padroeiro; por gozar do rico depósito de um braço deste insigne Diácono, que o céu milagrosamente lhe quis dar; porque levando-o por mandado del Rei D. Afonso Henriques para a Sé de Braga, a mula em que ia, parou na dita Igreja do Porto, sem ninguém a poder fazer dar mais passo, nela, prostrada diante do altar maior, tanto que lhe tiraram o sagrado penhor, acabou subitamente. Não permitindo o céu, que servisse mais em profanos vasos, a que havia trazido sobre si as relíquias deste Santo Mártir."

- "Na cidade de Beja, o triunfo glorioso dos santos Mártires Vicente, e Orêncio, que inflamados no fogo do divino amor, desejosos de sacrificarem as vidas por Cristo, com grande fervor, e ousadia (sem serem buscados) espontaneamente se foram oferecer a Rufino, legado de Daciano. E porque em sua presença confessaram publicamente a Fé Católica, foram por seu mandado mortos, e coroados de martírio. A cujos santos corpos deu religiosa sepultura um santo Diácono por nome Vicente, que era bem na morte fizesse este pio ofício, que pouco antes na vida havia feito outro de caritativo, hospedando-os em sua casa. Mas como isto chegasse a notícia do cruel Rufino, o mandou degolar, no próprio lugar em que os santos haviam padecido; cujo sacrílego mandato, antes que os algozes o executassem, usaram com o Santo Diácono de estranha crueldade, que foi decepar-lhe ambas as mãos, em castigo de serem instrumento de tão santa obra. Sabendo o pai de Victor, do martírio de seu filho, temendo outro semelhante, fugiu à perseguição. O que entendido por sua mulher Aquilina com grande pressa foi em seu alcance, e com abrasado fervor, e eficácia o persuado que tornasse,e assim ambos firmes, e constantes em confirmação da Fé, que no Baptismo professaram, ofereceram as gargantas ao agudo fio da espada. Depois de largo tempo (por divina revelação) achadas suas relíquias pelo Bispo Paulino, levando-as num carro para Itália (pátria sua) tanto que chegaram à cidade de Ebruduno junto aos Alpes, por ministério de Anjos ou bois, que o guiavam ficaram imóveis, sem poderem dar passo, por mais que os picassem. Vendo o bom Prelado sucesso tão maravilhoso, e a disposição da divina vontade com decência, e veneração devida a tantos méritos, foram na mesma cidade depositados."


- "No sumptuoso mosteiro de Alcobaça, cabeça da família de S. Bernardo neste Reino, a deposição de S. Domingos Matriz, Abade daquela real casa, que depois de viver alguns anos na Ordem com religiosa conversação, grande reforma, e singular pureza de vida, sendo a seus companheiros vivo exemplar de virtudes, qualificadas com acções miraculosas, crescendo cada vez mais sua fama foi com geral beneplácito de todos os monges,promovido àquela insigne Abadia. Mas o santo varão, que estimava mais a quietação de sua cela, que todas as dignidades, temendo que esta lhe fosse causa de algum humano fausto, e altivez, não consentiu na eleição, até ser obrigado por obediência. Aceitando o cargo, celebrando-se Concílio em Compostela (em que se tratava da restauração da Terra Santa) convocado pelo Arcebispo D. F. Rodrigo Gonçalves, se achou nele (a causa que para isso teve ignoramos) onde porque o queriam obrigar, e a outros Eclesiásticos que contribuíssem para certos gastos que haviam de fazer os Procuradores, que o Concílio mandava a Roma ao sumo Pontífice, ele pugnou valorosamente pela isenção, e liberdade de sua Ordem. Vindo de lá, partiu logo para França a Capítulo geral, nele avançou licença para a erecção do convento de Odivelas, em cuja solenidade depois assistiu. E assim mesmo na de Almoster, benzendo o sítio, e sagrando a Igreja (como Abade que era) com grande autoridade. Em seu governo trasladou o corpo de S. D. Pedro Afonso (irmão del Rei D. Afonso Henriques) do claustro de Alcobaça para a capela maior da Igreja. Havendo finalmente governado esta Abadia santamente quase sete anos, desejando recolher-se, à renunciou no V. D. Pedro Nunes, cuja acertada eleição,foi como de tão prudente, e santo Prelado. Livre do cargo, e recolhido ao retiro da cela, viveu alguns mais, como verdadeiro religioso, continuando os actos da comunidade com admirável exemplo, e prerrogativa de milagres, os quais continuaram ainda depois de sua morte, a qual (sem dúvida) foi preciosa no divino conspecto, pois afirmam graves autores estar seu nome no catálogo dos Santos, e que se rezava dele antigamente na Igreja Eboracense em Inglaterra, enquanto aquele Reino dava obediência aos Vigários de Cristo."

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