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26/05/16

A VERDADEIRA NOBREZA (III)

(continuação da II parte)

Capítulo II
Do Amor de Deus

O Amar a Deus é uma renunciação de todos os vícios, e um oferecimento da própria vontade a Deus, a quem se há de amar sobre todas as coisas, como bem o mostrou o Patriarca Abraão quando levava a seu filho Isaac ao sacrifício. E esta virtude é mais nobre que a Fé e a Esperança, porque aquela olha a Deus com escuridade e como debaixo de um véu: e esta olha-O como a bem árduo que ainda não possui, mas o espera possuir; e olha-O com algum interesse, porque o quer para si, isto é para sua própria perfeição; o qual em sua maneira pertence ao amor, que os Teólogos chamam de concupiscência, mas a caridade ama-O com amor de verdadeira amizade, que é com amor puro, e desinteressado, porque ele consigo só se contenta, e não tem respeito a interesse. Nenhuma diligência por si só é bastante para alcançar esta virtude, porque é obra e dádiva graciosa de Deus, e principalíssima entre todas as suas dádivas; e assim diz o Apóstolo: a caridade de Deus se há infundido em nossos corações por mão do Espírito Santo, que nos foi dado: de forte, que como o santo Espírito é entre as pessoas divinas essencialmente amor, esse mesmo é o que desce na alma do justo, e o que influi, e cria nele este hábito celestial, que o inclina, e move a amar a Deus, o que se alcança com mortificações, e penitência, significadas naquela circuncisão geral, que mandou Deus fazer a Josué em todos os filhos de Israel passado o Rio Jordão quando entravam na terra de promissão. Porque esta para onde todos caminhamos nesta vida pelo deserto da penitência, é a perfeição da caridade, na qual ninguém entrará, senão depois da circuncisão geral do amor próprio, com todos os outros males, e imperfeições que nascem dele, e com uma alma e corpo mortificados, e livres de todos os amores e refrigérios sensuais, porque só em Deus havemos de empregar todo o nosso amor, e pensamento, sobre todo o outro mundano. Quem ama a seu pai, mãe, ou filho mais que a mim, não é digno de mim, disse Cristo: e noutro lugar disse que o primeiro e maior mandamento é amar a Deus de todo o coração. Assim amou Ele ao mundo, que deu seu unigénito Filho, para que todo o homem, que nele crê, e o amar, nem pereça, mas tenha vida eterna. Os que o amarem, e guardarem seus preceitos, usará com eles de sua misericórdia compridos anos na sua posteridade. Amarás a teu Deus e Senhor de todo o teu coração, alma, e forças. Falando Moisés com o povo Hebreu lhe diz, que te pede Deus, senão que o ames, e o sirvas com todas as tuas forças? Ama àquele que te fez (diz o Sábio). E noutra parte porque David seu pai louvou a Deus, e O amou lhas deu contra seus inimigos. E com este Real Profeta digamos: Assim como o veado deseja as fontes das águas, deseja minha alma a Vós meu Deus; teve ela sede de Deus vivo, quando virei, e aparecerei ante a face de meu Deus; ame-Vós eu Senhor fortaleza minha, minha firmeza, meu refúgio, e meu libertador. Da Madalena disse Cristo, que se lhe perdoaram muitos pecados, porque muito amou. Aquele que é maior no amor de Deus, é o que atrai mais este mesmo amor. Tanto Ele paga do que lhe temos a Ele, que três vezes perguntou o Redentor do mundo a S. Pedro se o amava, antes de torná-lo Pastor de suas ovelhas. Neste amor consiste toda a verdadeira nobreza, porque assim como Deus é fonte de todos os bens, assim sem ele, não há uma pequena sombra de felicidade. Nele está toda a honra, e quem de verdade O ama, nele se transforma, prerrogativa própria de amor. A alma mais verdadeiramente está onde ama, que onde anima, porque a condição do perfeito amor é ter todos os sentidos na coisa que ama, e estar todo unido, e transportado nela. Assim o está o que deveras ama a Deus, segundo é caridade, e o que está em caridade está em Deus, e Deus nele, com que será honrado, e nobre. Não é outra coisa sê-lo, que viver virtuosamente, porque a honra é uma dignidade adquirida por virtude, esta é o prémio daquela, a qual não há-de ser herdada, nem havida por infortúnio doutrem, senão por si mesma, que se alcança a mandou Deus na guarda dos seus preceitos; porque o amante deseja agradar à coisa amada. Dos preceitos divinos mana toda a virtude. Nobres e honrados são os que os têm por fim de suas honras. Neste amor não há temor de ausência, que é uma das suas cruéis penas, com esta segurança se ama seguramente. A Deus se há de amar com recato, doce, forte, e prudentemente, de maneira que como só nele é a verdadeira nobreza, segue-se que quem o amar, e imitar, será nobre, honrado, e feliz.

(continuação, IV parte)

17/06/15

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 16 (II)

(continuação da I parte)

Livros

Ainda terei ocasião de patentear as equivocações e paralogismos das Côrtes Lusitanas sobre o artigo da censura dos livros, matéria esta em que os factos são mais poderosos que os raciocínios; e por agora satisfaço-me de ponderar que apenas os egrégios canonistas furtaram à Igreja todo o exame dos livros, nunca mais de pôde ter mão neles, para que não inundassem e pervertessem os reinos onde a autoridade civil se apossou daquela censura. Descansem por uma vez os engenhosos fabricantes de novas máquinas regeneradoras, que cedo ou tarde se voltará tudo contra eles, e uma desgraçada experiência os convencerá de que há certos interesses ligados intimamente à Fé, os quais só ficam bem nas mãos de uma Depositária fidelíssima, qual é a Igreja de Deus.

Um dos primeiros cuidados da nossa regeneração foi soltar os diques à torrente de maus livros, que até esse tempo se vendiam às ocultas e debaixo do capote, e dar amplíssima faculdade aos livreiros para terem sobre os mostradores A religiosa de Diderot, as obras mais ímpias de Voltaire e Freret; que as de Rousseau, não obstante o serem proibidas há muitos anos pela Real Mesa Censória, já se vendiam antes de 1820 sem rebuço, o que não admira, quando em Julho deste ano de 1823 se imprimia na Tipografia da Universidade o Contrato Social, porventura a fim de se radicar mais e mais a adesão e fidelidade ao Trono Português. Quase não havia neste Reino uma loja de livros, que não se tivesse mudado em em uma botica a mais bem sórdida de venenos, para se matar com eles quem se desgostasse de viver segundo os preceitos do Cristianismo. Para direcção dos novos costumes liberais tinha acudido um enxame de exemplares das Cartas do Lente de Matemática José Anastácio, onde se metem à bulha os dogmas do pecado original, da predestinação, das penas eternas (freio este que os Liberais tratam logo despedaçar a todo o custo), e a imortalidade da alma, e sua liberdade, etc. etc.. Guardarão a simples decência de lhe assinarem a cidade de Paris, como o lugar em que tinham sido impressas, quando por todos os exames e combinações se depreende claramente que tinha sido em Coimbra... Pois que impulso não deram à veneração das coisas santas, e à observância dos preceitos da Igreja um Cidadão Lusitano, e as Superstições descobertas?

Que nuvem de Santos de pau carunchoso não ameaçou procriar o licencioso retrato de Vénus? Que virtuosas donzelas, que boas mães de família não devia formar a piedosa leitura do Toucador das Senhoras, onde se lhes propinou desaforada e periodicamente o que há de mais venenoso em todos os escritos modernamente dedicados à obscenidade? Se algum destes livros, como notoriamente incurso nos abusos da liberdade de imprensa, era denunciado ao Júri, lá estavam os incorruptos e venerandos Jurados de Lisboa, que deixavam passar carros e carretas, e que, ouvindo a convicção íntima de suas melindrosas consciências, achavam que a licença franca de seguir os prazeres carnais, como outras tantas virtudes, e o escárnio das obras inspiradas e canónicas era um simples jogo de crianças!!! Pois um certo periódico mensal chamado Compilador, que meteu a salvo nessa farragem de inépcias quanto lhe veio à cabeça para mofar de tudo que é sagrado, e especialmente dos milagres, a que a devoção dos Portugueses tem dado há séculos inteiro crédito!! Pois o tom dictatório com que o Diário do Governo, ou das parvoíces, metia a sua colherada nos assuntos religiosos, confundindo e enxovalhando tudo!!! Os periódicos e mais impressos constitucionais seguiram a doutrina e sistema anti-religioso da Assembleia Francesa. Esta Assembleia extinguiu as ordens religiosas, e proibiu que os regulares trouxessem o hábito das ordens extintas. O Teólogo regular que escreveu as Memórias para as Côrtes Lusitanas decretou o mesmo: "Enfim (diz) o nome de Frade nunca mais deve lembrar, nem vestuário que o indique", e as Freiras são incluídas nesta extinção. O mesmo decretou o Dr. Apóstata; nas suas advertências úteis à pág. 30 n.º5, falando das Freiras, diz: "dispondo as coisas de modo, que com andar dos tempos se venham a extinguir" etc., palavras que declaram bem a sentença de morte contra os regulares. Mas outro ex-Frade e vagabundo Teólogo decreta a sua extinção com mais infâmia nas suas reflexões sobre um e outro Clero. Ele repete contra estas ordens respeitáveis os impropérios e calúnias dos hereges, e professa contra estas instituições religiosas o mesmo desprezo, ódio e rancor dos ímpios.

Este mesmo como o Teólogo Frade estabelecem todas as máximas da Assembleia Francesa, e justificam e autorizam o Congresso Português para as decretar. Ele quer a tolerância até ao ponto de se unir o Teólogo com o Filósofo: quer a extinção do Santo ofício: declara o Congresso autorizado para as reformas eclesiásticas: quer a extinção das imunidades, e o saque dos bens eclesiásticos, que declara nacionais e pertencentes à Nação. O ex-Frade zomba e escarnece de toda a Teologia; afirma que a Polémica tem feito hereges, a Mística doidos, e a Exegética até ateus. Ele quer que se desterre essa ciência, e que a Religião seja ensinada só por um Catecismo. Mas quem deverá fazer este Catecismo? Será um Teólogo e Mestre da lei? Isso não quer o ex-Frade. Chama questões de insignificância às que se suscitaram no séc. IV entre os Arianos e Católicos, e fala com desprezo delas, tendo em nenhuma monta a defesa de um dogma fundamental da Religião, como é o da Santíssima Trindade; nem é menos notável quando fala nos debates teológicos a favor da doutrina da Graça desde Santo Agostinho até nós.

D. Pedro de Alcântara, Imperador do Brasil, deu ordem de extinção de todas as Ordens religiosas em Portugal.

Para justificar a autoridade, que dá ao Congresso para as reformas eclesiásticas, não só calúnia os Concílios, e até os gerais, mas também afirma que sente mal destas Assembleias gerais. Ele as tem, como os Protestantes, por meramente humanas, isto é, não vê nelas senão homens, e as paixões dos homens, o que é injurioso ao Espírito Santo que as dirige, e às promessas de J. C. à sua Igreja, que tão positivamente nega. Este Teólogo confirma com a sua doutrina o que o Reformador da Itália dizia em 1769: que a Seita Teológica estava já adiantada em Portugal.

Item decretam contra os celibatários, e que ao Papa se peça licença para que os Frades e Freiras de pouca idade se casem. Podia-se-lhe repetir aquela sentença de Erasmo a Lutero: "A vossa reforma acaba, como as comédias, em casamentos, e provar com Bergier que é mais prejudicial à república civil e moral o celibatário da libertinagem do que o eclesiástico e religioso. Decreta mais a reforma das rendas dos arcebispos, Bispos, e Cónegos etc., e com poder mais que pontifício os põe a pão e laranja, e extingue os dízimos com fundamento de que não são de direito divino. Em consequência desta abolição manda sustentar o Clero secular pelos seus fregueses. Que política1 lançar uma nova contribuição ao povo para lhe tirar os dízimos a que estava acostumado: e que doutrina! J. C. ordenou que os que servem o Altar vivam do Altar, e proibindo-lhe o implicarem-se em negócios seculares, não lhe especificou e realizou esta côngrua e quota, e não pertencia à sua Igreja o realizá-la, quando isto se fez necessário? Pode haver autoridade mais legítima do que a Comissária de J. C. para todos os assuntos religiosos? E como estes dízimos não foram taxados por J. C., mas sim pela sua Igreja, decide que sejam abolidos, e até o seu nome. E quem não vê que pretendem nisto reformar mais o poder da Igreja que os Eclesiásticos? Nem um Concílio geral faria tanto. mas se por não serem os dízimos de direito divino devem ser abolidos, que outra coisa se lhes poderá substituir que não fique sujeita á mesma sentença de abolição dada pelo mesmo direito, e pelos mesmos juízes? Sustentem-se de pensões dadas ou pelos povos, ou pelo Estado; e afinal que teremos, senão decretos de direito humano para a sustentação do Clero? e por mais que se decrete para se substituir os dízimos, ficará sujeito à abolição pelo mesmo fundamento de que não é de direito divino. O fim destas reformas era, à imitação da revolução da França, tirar aos Eclesiásticos a sua côngrua sustentação, para que diminuísse e acabasse o Clero, e com ele a Igreja, porque esta não subsiste sem Ministros. e se a côngrua sustentação deles é de direito divino, não será contra direito divino tirar-lha? Veja-se Bergier sobre este ponto.

Item extinguiram estes dois Mações a Ordem de mala, e das Comendatarias, e até as músicas das Catedrais, e tão republicanos como os da Assembleia de França, queriam dar cabo dos vínculos, e nos eclesiásticos de toda a representação civil. Abolindo assim pelo primeiro decreto a Nobreza ou aquilo que a sustentava, e pelo segundo o que constitui o Clero um dos estados da Monarquia, reduzindo por estes dois decretos a Monarquia a um estado popular. Ambos decretam a tolerância universal, que é o mesmo que religião nenhuma.

O Reformador regular exclui, como a assembleia Francesa, o Papa da eleição e confirmação dos Bispos, cometendo-a a um Concílio nacional; e o Apóstata acrescenta que toda a dignidade eclesiástica será dada pelo Rei e pela Nação, e que nunca mais se torne a recorrer a Roma para a sagração de Arcebispos, Bispos, e Párocos (sagração de Parcos!!), porque (diz este fauto) não consta que J. C. desse mais poder ao Bispo de Roma que aos mais Bispos; seguiu o erro condenado de Mersilio de Pádua, e é Protestante, porque nega o primado de autoridade ao Sumo Pontífice, e é réu do Alvará de 30 de Julho de 1795, por igualar os Bispos ao papa seu Primaz. Uns tais Bispos não teriam Missão divina, e uma tal doutrina nasceu do espírito de insubordinação com que sacudiram o jugo das leis da Igreja, e lhe negaram o influxo do Espírito Santo. Fiquemos por aqui.

Eis aqui muito em grosso uma noção sucinta do que nós aproveitámos durante o Sistema Constitucional, que, se por nossos pecados, chega a ter mais um ano de duração, creio firmemente que seriam irreparáveis os seus danos. Entretanto será coisa bem lastimosa que não seque de todo a fonte que ainda corre dos países estrangeiros, e que o Império civil não desembainhe quanto antes a espada da lei para castigar os seus infractores; visto que será inútil qualquer outro remédio enquanto a nossa mocidade se imbuir das perversas doutrinas de tais mestres, que seriam os únicos autores de nossas maiores desgraças, se os mestres vivos, e existentes não fossem ainda mais para temer.

(continuação, III parte)

03/12/14

AS CLASSES SOCIAIS, A NOSSA CIVILIZAÇÃO, E Sta. HILDEGARDA

Sta. Hildegarda
Agradeço ao leitor que partilhou as matérias que aqui vou transcrever.

A revolução liberal, apagou muita coisa da verdadeira Europa, interrompeu o processo civilizacional das Américas católicas. Uma das vitórias do mal foi a criação de falsas monarquias e repúblicas, a criação de uma "Nobreza" sem sucessão, a lenta e constante tentativa de subverter os mecanismos e a hierarquia da Igreja. Com tudo isto, e a par da ideologia da "igualdade", e da democracia, os católicos de hoje quase já não têm referências de vida que lhes suporte a ideia de diferenciação. Grita-se direito à igualdade negando a verdade das boas e próprias diferenças. Tem-se já a diferença como se fora um mal, e por isso querem-se dar direitos iguais a naturezas e situações diferentes, e, ainda para mais, com deveres diferentes. Enfim...

Sta. Hildegarda, tinha sido acusada de que o seu convento era elitista, que só nele recebia as filhas da Nobreza, fazendo distinções, e que Cristo não teria olhado a distinções sociais. Eis a reposta de Sta. Hildegarda:

"Deus vela junto de cada homem para que as classes baixas nunca se elevem sobre as altas [referindo não só o Povo, relativamente ao Clero e Nobreza, mas também as próprias diferenciações que por tradição no Povo há], como fizeram outrora Satanás e o primeiro homem, que quiseram exaltar-se acima de seu próprio estado."

"Quem há que guarde num só estábulo todo o seu rebanho, bois e jumentos, ovelhas e carneiros? Por isso devemos velar para que o povo não se apresente todo misturado num só rebanho. De outro modo produzir-se-ia horrorosa depravação dos costumes, e todos se dilacerariam mutuamente, levados pelo ódio recíproco ao ver como as classes altas se rebaixariam ao nível das classes baixas, e estas se alçariam até a altura daquelas."

"
Deus divide seu povo sobre a terra em diferentes classes, como no Céu classifica seus anjos em diferentes grupos. Porém Deus ama a todos igualmente."

22/07/14

A VERDADEIRA NOBREZA (I)

A
VERDADEIRA NOBREZA,
Por António de Pinho da Costa, o moço,
Cavaleiro Professo do hábito de Cristo
DILIGES DOMINUM DEUM TUUM ... (Mat. 22)

LISBOA

Licenças

Vi, por mandado dos senhores do Conselho geral do Santo Ofício, este livro, que tem por título: "A Verdadeira Nobreza, por António de de Pinho da Costa, o moço, Cavaleiro professo do hábito de Christo em Cochim, ano de 1651" não tem coisa contra nossa santa Fé e bons costumes: antes o dito livro é douto, e pio, e fala o autor com fundamento, como versado nas divinas Escrituras, e lição dos Doutores sagrados. Pelo que me parece, que será de muita edificação, e proveito. Em S. Domingos de Lisboa, 12 de Janeiro de 1655. Fr. Agostinho de Cordes.

Vi este livro, cujo título é "A Verdadeira Nobreza, por António de de Pinho da Costa, o moço, Cavaleiro professo do hábito de Christ" não tem coisa alguma contra a nossa santa Fé, ou bons costumes. Lisboa no Convento da Santíssima trindade, em 20 de Janeiro de 1655. Doutor Fr. Adrião Pedro.

Vistas as informações pode-se imprimir este livro intitulado "A Verdadeira Nobreza", autor António de Pinho da Costa, e depois de impresso tornará ao Conselho para se conferir com o original, e se dar licença para correr, e se ela não correrá. Lisboa 21 de Janeiro de 1655. Pedro da Silva de Faria, Pantaleão Rodrigues Pacheco, Diogo de Sousa, Fr. Pedro de Magalhães.

Pode-se imprimir. Lisboa 28 de Janeiro de 1655. O Bispo de Targa.

Que se possa imprimir este livro, vistas as licenças do S. ofício, e Ordinário, e não correrá sem tornar ao Dezembargo do paço para se taxar. Lisboa, 13 de Fevereiro de 1655. D.P.P. Cazado.  Pacheco. Almeida.


SONETO
Em Louvor Deste Livro

Em vão me desvelei por vos louvar
Vendo as partes gentis de que gozais,
Te por elas ao mundo publicais
As graças de que o Céu vos quis dotar.

Aqui mui bem se vê que tem lugar
A muita erudição que a todos dais,
pois por termos tão doutos ensinais
Caminho para o Céu tão singular.

Louvasse o livro assim, que eu bem conheço
O tesouro que nele se descobre,
Cujo valor tão raro ninguém viu.

Que um bem de tal valia, e tanto preço
Para salvar-se um homem com ser nobre
Só António de Pinho descobriu.

SONETO
Do Padre Nicolau Freire
em louvor deste livro.

Que douto Píndaro, que flaco venucino,
Plinia da nobreza eloquentes
Cantando nesta lira docemente
Está mostrando, o metro ser divino,

Este, remoto deixa o do latino
E do grão Lusitano eminente
Neste pego, de tão nímia corrente
Quase afogada palhas, perde o tino:

Das flores de Aganipe, uma capela
Podeis tecendo estar com tal valia,
Que todo Olimpo espante só com vê-la,

Para este Orfeu, cuja citara encanta,
Com este contraponto, e harmonia
A verdadeira nobreza cara, e santa.

SONETO
do Padre António de Pinho
Vigário de Nossa Senhora da Graça

Arte de polícia ao cortesão,
Norma de cortesia ao mais ciente,
Traslado de eloquência ao eloquente,
o Pinho a todos dais com discrição:

Neste raro painel de tal feição,
ides enfim mostrando à nobre gente
O mais rico vergel, mais excelente,
De quantos pinta a terra no verão.

E dele colheremos todos flores,
Para vos ir tecendo mil capelas,
Imaginadas não, mas verdadeiras;

Nelas tereis as rosas de louvores,
Umas oir vossas raras partes belas,
Outras porque vós dois por derradeiras.

Ao Excelentíssimo Senhor D. Vasco da Gama, Marquês de Nisa, Conde da Vidigueira, Almirante da Índia.

Querer eu resumir em tão poucas letras as admiráveis virtudes, e heróicos feitos de V. Excelência, assim nas embaixadas, que administrou, como no mais, seria sustentar sobre meus fracos ombros o que eles não sofrem: pois as prodigiosas, e quase milagrosas façanhas, e insignes progressos dos Progenitores de V. Excelência, são mais para a admiração, que para a pena. Com que me resolvo a falar antes com o que não posso acabar, que principiar falando, o que todo o mundo venera, e minha rudez não alcança, bem que a vontade de servir a V. Excelência, é tal que se igualará à posse incomparável. Com ela ofereço a V. Excelência estas primícias de minhas lições, por parto primeiro de meus estudos se lhe podem revelar as faltas; por ir debaixo do patrocínio de V. Excelência (que de tão longe busco) se livrará de calúnias. Não considere V. Excelência minha humildade, senão sua grandeza, que quanto maior for, maior obrigação tem de favorecer aos que menos podem. Quanto V. Excelência se vir mais desocupado doutros negócios superiores, ponha os olhos neste volume, nele verá retratadas suas virtudes, e quisera eu trabalhar toda minha vida por contentar a V. Excelência uma só hora. Guarde Deus a V. Excelência.

Criado de V. Excelência, António de Pinho da Costa.

(continuação, II parte)

15/04/14

SAGRAÇÃO DA BASÍLICA DE MÁFRA - OS ASSISTENTES


FAMÍLIA REAL

"D. João V - Rainha Maria Ana de Áustria - D. José, Príncipe do Brasil - D. Mariana Victoria, Princesa do Brasil - Infantes D. Pedro, D. Francisco e D. António.


CLERO SECULAR

Cardeal Patriarca de Lisboa e Capelão-mór do Rei D. Tomás de Almeida - Cardeal Inquisidor-mór D. Nuno da Cunha e Ataíde - Cardeal D. João da Mota - Bispos de Leiria, Portalegre, Pátara, Nankim - Nuno da Silva Teles, ex-Reitor da Universidade de Coimbra - D. José Francisco de Sales da Câmara, D. Gonçalo de Sousa Coutinho, - D. Cristóvão de Melo, D. Lázaro Leitão Aranha, D. Pedro de Menezes, D. António de Lencastre, Cónegos Presbíteros.

Acompanhou este clero o seguinte pessoal: 3 diáconos, 4 sub-diáconos, 9 mestres de cerimónias, 4 penitenciários, 12 acólitos patriarcais, 22 cantores, 6 organistas, 14 moços de sacristia, 8 porteiros da massa, 26 músicos italianos, 8 cursores, 12 armadores, 6 varredores, 10 fachinas, além dos capelães, estribeiros, pajens, criados, guarda-roupas e ajudantes da câmara dos Cardeais.

A maioria deste clero secular, contavam-se copiosos priores, reitores e vigários, com suas comitivas.


NOBREZA

Duque de Cadaval,Estribeiro-mór - Marquês de Marialva, Cascais, Abrantes, Camaristas - Condes de Assumar e Povolide, Camaristas - Diogo de Mendonça Corte Real, Secretário de Estado servindo de Mordomo-mór - Conde de Santiago, Aposentador-mór - D. Francisco Xavier Pedro de Sousa e Rodrigo de Sousa Coutinho, Védores - José de Melo, Porteiro-mós - Conde de Castelo Melhor, Resposteiro-mór - O Conde Copeiro-mór - Fernão Teles da Silva, Monteiro-mór - Conde de Pombeiro, Capitão da Guarda Real - D. Abade de Alcobaça, Esmolér-mór - D. António Alvares de Cunha, Trinchante-mór - João Gonçalves da Câmara, Almotacé-mór - Duque de Lafões - Marqueses de Nisa, Almirante-mór, e de Monsanto, de Santiago (filho), de S. Vicente, da Ribeira Grande, de Óbibos, de Val dos Reis, da Calheta, de Tarouca, dos Arcos, de Villa Flor (filho), de Unhão, das Galveias, de Soure (pai e filho), de Catanhede, da Ericeira - Conde-barão de Alvito - Viscondes da Barbacena e de Ponte de Lima (avó, genro e neto) - Nuno da Silva Teles - D. Rodrigo de Noronha - Rodrigo César de Menezes - Carlos Carneiro de Faro - D. Sancho Manuel de Vilhena - D. Jorge de Menezes - D. João da Costa - D. António da Silveira - D. Luís Botelho - Luís Gonçalves da Câmara - Manuel Freire de Andrade, Coronel de Peniche - Gomes Freire de Andrade, Sargento-mór de cavalaria - Gonçalo Pires Bandeira, Coronel de cavalaria - Álvaro José de Serpa e Manuel Nunes Leitão, Tenentes-coroneis, etc.

Acompanhou a Côrte o seguinte pessoal: moços da Câmara, moços da Guarda-roupa, Reposteiros, criados particulares, porteiros da cana, varredores, moços da prata e de estribeira, das ucharias e coisinhas e das cavalariças, cujo número foi de 742.


CLERO REGULAR

Da Ordem Seráfica: 6 membros da província de Portugal, 4 da da Piedade, 5 da dos Algarves, 4 da de Santo António, 4 da de Soledade, 4 da da Conceição, 2 da Ordem Terceira, 350 da Arrábida. Dos Cónegos Regulares de Sto. Agostinho, 2 membros; da Congregação de S. João Evangelista, 2; do Oratório, 2; da Divina Providência, 2; dos Ermitas de Sto. Agostinho, 6; dos Agostinhos descalços, 3; de S. Bento, 2; de S. Bernardo, 4; de S. Bruno, 4; dos carmelitas calçados, 2; de S. Domingos, 3; de S. Jerónimo, 5; de S. Paulo Ermita, 2; da Santíssima Trindade, 6. Fora este mais 10 religiosos sem província em Portugal."

(Monumentos de Portugal - Mafra. João P. F.. Porto, 1933)

17/06/12

DO TEMOR DE DEUS - VERDADEIRA NOBREZA

O texto que segue é transcrito do livro "A Verdadeira Nobreza" de António de Pinheiro da Costa (o moço, Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo) em 1655. Destina-se o livro aos nobres, para lembrar a ajudá-los na sua responsabilidade como verdadeiros nobres. Pede o autor no prólogo ao leitor "que lhe emende as faltas que nele [livro] achar com ânimo sincero, e desapaixonado, e em avisado advertimento que tudo o que ele contêm se sujeita à correcção da Santa Madre Igreja Católica Romana de quem obediente filho sou". É obra aprovada pelas autoridades eclesiásticas e tem ainda uma especial dedicatória ao "Excelentíssimo Senhor D. Vasco da Gama Marques de Nisa, Conde da Vidigueira, Almirante da Índia".


Este é um dos milhões de testemunhos escritos de como a Fé era verdadeira na sociedade daqueles tempos.  Fé que, ao contrário do que hoje se difunde pela ignorância dos sacerdotes católicos contra o que sempre ensinou a Santa igreja, é na verdade, e resumidamente, a crença na Santa Doutrina por graça de Deus (todo o conjunto de verdades). À ignorância maioritária e crescente do clero de hoje soma-se a geral e crescente ausência do temor de Deus. Eis este o motivo mais directo pelo qual transcrevo:

CAPÍTULO III
DO TEMO DE DEUS

Quanto mais o justo ama a Deus ardentemente, tanto mais foge de O ofender, como nota o venerável Beda (Bed. Com. 5.c.2 in Luc.). O amor e temor são duas asas com que voa o nosso espírito ao Céu. O temor, ainda que ponha a alma triste, e encolhida, aparelha melhor para o amar, que é princípio de todas as riquezas. Entendia-o muito bem Tobias, quando industriando a seu filho dizia: Filho, pobres fomos; porém teremos muitos bens de temermos a Deus (Tob. 4).

Os que teme, di-lo o Espírito Santo, buscam aquelas coisas que lhe são agradáveis [a Deus] (Eccles. 2). Este temor é a fonte de vida: ele [o temor de Deus], e o amor são as primeiras letras do Abecedário Cristão (Prov. 1). Quem mais sábio que o bom? Quem mais prudente que o virtuoso? Quem mais avisado que o temente a Deus?

Havendo contado a divina Escritura a alta genealogia (Judit. [?]), e estremada formosura daquela valerosa Edite, de suas riquezas, de seu admirável reconhecimento, jejum, e penitência, diz, que era ela famosíssima em tudo, porque temia muito a Deus, não com o temor (segundo adverte Clemente Alexandrino (Clem. Alexand. I.2. florum) como que se foge de uma fera e se aborrece, senão com o temor filial e generoso, que se deve a um pai, ao qual se teme e ama juntamente, não para desmedrar, senão para mais valer.

Doce e justo chama David ao Senhor, o qual declara Cassiodoro (Casiod. in pag. 1.24), para que como a doce o amemos, e como a justo o temamos. O amá-Lo, e temê-Lo é ser homem, como diz o Eclesiástico (Eccl.I.2), porque o contrário é de bestas, e demónios, e é ser nada, diz S. Bernardo: e bem se pode dizer nada a quem lhe falta tanto bem (S. Ber, ser, ao [?]).

Vendo-se Caim lançado da presença divina, parecia-lhe que não haveria lugar, aonde se escondesse da face de Deus, e dizia: qualquer que  me achar, me tirará a vida e me matará (Gen. 4). Porque temia Caim, e temeu-O toda a vida? Senão que por haver morto ao irmão sem temor do Senhor, era já nada (S. Jerónimo, n mor). Desse temor se começa no caminho de Deus para chegar à fortaleza da virtude (Ca[?]ia. sup. pag. 14). O das coisas da terra causa desconfiança; mas o temor divino concede firmeza de esperança (S. Gregor. in Evang. hom, 16).

O juízo de Deus se há-de temer, para que não se tema. O  homem que desde sua infância (dizia Panuncio) pôs diante de si o temor dos deuses, e a vergonha dos homens, está habituado à virtude, e mantem verdade a todos. O viver sempre com santo temor, e receio, é coisa muito proveitosa para alcançar a graça, e conservá-la (O Mestre Avila).

Em qualquer tempo é ele proveitoso, antes de pecar por ser um homem livre do pecado, e ser perdoado. Uns pecadores há que pecam virando a Deus as costas, outros sua presença. Não há culpa que ele não veja: mas alguns as fazem tão sem temor e vergonha como se lhas não vissem, de quem diz Jermias: Para ofender-me me viraram as costas, como os varões que pinta Ezequiel com elas viradas à Sancta Sanctorum, aplicam os ramalhetes de flores aos narizes, que é pecar sem receio, nem medo, como se não houvera Deus (Ezeq. 3?,8?).

Deste género de pecadores era Magdalena, que vivendo muito lastimante (Luc. 7), virou as costas a Deus, dando-se aos deleites e prazeres do mundo, sem nenhum temor seu, e assim lhe foi necessário, que se apresente como ela ao Redentor do mundo para seu remédio, não de rosto a rosto, senão detrás das suas costas como guiada já do Espírito Santo, temerosa de que seus olhos a não olhassem de fito, que se um olhar de Deus irado afoga no mar vermelho os carros, e cavalos do Faraó, como não temeria uma mulher fraca? (Exod. 14) Além de que pelas costas de Deus se entende a humanidade de Cristo em nosso. Moisés (disse a Magestade divina falando com ele) quem me vir o rosto, não poderá viver, contentai-vos com ver minhas costas (Exod. 33). Nelas achou a pecadora convertida seu amparo, porque quando os raios da vida de Deus colérico e inexorável se encaminham a castigar suas culpas, ache perdão delas na humanidade de seu Filho, que com tanta liberdade a dava aos tormentos, e à morte por dedenção dos pecadores. Outros há que pecam considerando que há Deus e está presente a seus pecados e que lhos vê. Desta linhagem foi David, e assim disse: Et malum coram te feci (Salm. 50). E o Pródigo: Pequei em tua presença, e ainda que é ousadia, atevimento ofendê-lo à sua vista; contudo isso tiram tão grandes temores de sua presença que fazem a esperança de sua saúde mais segura (Euc. 15).

Enfim é este temos guardar das virtudes, como lhe chama S. Jerónimo. Para contar a divina Escritura a nomeada história da paciência de Job, diz na sua primeira entrada que era varão simples (S. Jerónimo [?] I 27 [ad?] bio lam.), recto, e temeroso a Deus (Job. I). Tal era aquele honrado velho Simeão, que no fim da vida mereceu ver em seus braços o Autor, e princípio dela, de quem diz o Evangelista S. Lucas, que era justo e temeroso; não é este temor o que os maus têm pelo medo do castigo, mas filial e amoroso (Luc. 2). Daqui é que muitos efeitos de amor parecerá no que presto se julga do temor, sendo pelo contrário, porque andam eles tão germanados que os interesses, victórias, e heroicos feitos de um se reputarão, como se fossem do outro (Genes. 28). Finalmente são estes os dois pesos com que se meneia o artifício do Relógio espiritual. Estas duas portas da escada de jacob, uma das quais tocava no Céu, e outra estribuava na terra. São dos ois Querubins, que cubriam a Arca do testamento (Exod. 23). São as bases do ouro, sobre quem se levantam os dois pilares graciosos, a quem comparou o Esopo à sua Esposa (Cant. 5). São enfim dois aneis de memória para se trazer no dedo do coração, com que será um homem verdadeiramente nobre e honrado. Suposto este infalível fundamento, se discursará brevemente das parte mais essenciais do nosso assunto."

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