31/12/15

1 de JANEIRO - AGIOLÓGIO LUSITANO (I)

a) S. Félix Ermita: Em Rates o ditoso trânsito de S. Félix primeiro Ermita, discípulo daquela insigne pedra fundamental da Igreja Bracarense S. Pedro seu primeiro Bispos, o qual com sua presença, e assistência santificou os incultos desertos de entre Douro e Minho, abrindo larga estrada para que muitos o seguissem, e imitassem no caminho da perfeição, e vida monacal, a quem os naturais daquela comarca (porque a ele lhe foi revelado com luzes do céu, onde jazia o despedaçado corpo de seu santo mestre, a que deu sepultura com singular religião) levantaram templos, e consagraram altares.

- do comentário:
Damos princípio ao Agiológio dos Santos de Portugal com S. Félix (dado que lhe não sabemos dia próprio) por ser o primeiro fundador, e pai da vida eremítica e monacal neste Reino. E suposto que a Igreja Católica chama a S. Paulo de primeiro Ermita, florescendo pelos anos de 300, contudo parece que o faz seguindo a mais universal notícia que há dos que viveram na Thebaida, Egipto e outras províncias Orientais, e não como definição Eclesiástica precisa, de que não houvesse outro nenhum antes em alguma parte do mundo; pois os antigos Breviários deste Reino, não só manuscritos, mais impressos nas lições de S. Pedro de Rates, e com eles todos os Autores que trataram sua vida (que são inumeráveis) afirmam que sendo martirizado a cruéis estocadas, deixando os ministros da maldade o S. corpo envolto em seu próprio sangue, e assim esteve alguns dias, até que um santo Ermita por nome Félix, que habitava naqueles desertos, olhando com atenção da diversas partes, viu por muitas vezes como resplandecentes raios de claridade desciam do céus sobre uma delas, e que ali parava sempre aquela luz. E notando que isto não era o caso, baixou da montanha, em demanda do lugar, onde o resplendor parava, e chegado, viu que aquela claridade divina cercava o corpo do S. Prelado. Maravilhado de tão manifesto testemunho do céu, que certificava quão amigo de Deus era S. Pedro entendeu, que aquela visão lhe mandava desse sepultura a seu santo corpo, e assim lha deu o melhor que pode, não e achando neste piedoso ofício mais que um sobrinho seu, que lhe fazia companhia na vida Eremítica.
O motivo primário que S. Félix teve para se apartar a fazer vida solitária que não constasse foi para mais livremente vocar a contemplação, evitando o túmulo do século, ou se por fugir o ateado fogo da persecução contra os novos professores da lei de Cristo se retiraria do povoado a esta alta montanha, para nela viver, oculto, aguardando que Deus desse paz a sua Igreja. mas de qualquer modo que fosse perseverou muitos anos nesta Angélica vida, e algumas centúrias antes que S. Paulo, pois o nosso Santo floresceu pelos anos 46 e S. Paulo no de 300, como fica dito.

S. Pedro de Rates
S. Félix foi sepultado na mesma Igreja que os fiéis levantaram sobre a sepultura do santo mártir, onde se vê ainda hoje a do santo Eremita, aquém os Portugueses chama S. Fins, e por esta causa as mais das Igrejas antigas que há desta inovação são dedicadas a ele, porque foi sempre costume dos naturais deste Reino dedicarem particulares Igrejas a seus próprios Santos. Porém com a translação das preciosas relíquias de S. Félix Diácono de Girona ao antigo Convento de Chelas junto a Lisboa que os Martirológios trazem ao 1 de Agosto) se perdeu, ou pelo menos confundindo a devoção do nosso S. Felix festejando-o no mesmo dia por se lhe ignorar o próprio. Mas na Ermida de S. Fins situada num alto monte que conserva o próprio nome, de que se descobre amor parte da terra de Fão até Matosinhos está a imagem deste Santo em hábito de Eremita, e dizem per tradição os naturais daquela comarca, que é daquele Santo, que deu sepultura a S. Pedro de Rates, e assim lhe fazem a festa neste dia. Tratam de S. Félix todos os Autores que escrevem de S. Pedro de Rates, que por não alega-los duas vezes se podem ver na vida do dito Santo em 26 de Abril. Por ora só citarei a D. Francisco de Padilha, que na história Eclesiástica de Hespanha, I. C. 16, lhe chama primeiro Eremita. E também António Brandão Cronista mor deste Reino na pág. 3 da Monarchia Lusitana (I 8 c. 32 e I 9 c. 9)
Resta agora darmos notícia desta igreja de Rates, a qual é sagrada, de três naves, de largura, e altura competente, e ao presente é Comenda da Ordem de Cristo; e antigamente foi mosteiro, cujo sítio est´um seco vale desviado de Vila do Conde légua e meia, e por seu respeito se fundou ali a vila de Rates, a qual em outro tempo foi mui principal, pois dela se denominaram os Ratinhos. Esta assolaram por vezes os Castelhanos nas entradas que fizeram neste Reino, e como a terra é geralmente pobre, é hoje coisa de mui pouca importância.
De que Ordem fosse este mosteiro, é mui fácil de averiguar; suposto que os Cónegos Regulares querem que seja da sua; não sei com que fundamento. Que fosse do Patriarca S. Bento não há dúvida, porque disto temos duas provas evidentes. A primeira de Marco Máximo no seu Chornicon pag. 209, o qual referindo os Prelados que se acharam no III Concílio de Toledo traz entre eles: "Sancrus Stepanus Abbas Ratensis Ordinis S. Bebedicti" (de quem trataremos em seu dia 13 de Fevereiro). A segunda do arquivo real 3 do Rei D. Dinis (fol. 94) onde se vê a doação que a Rainha D. Teresa fez aos monges da Caridade da Ordem Clunicense no ano 1100 que nele habitavam, donde consta claramente, que esta Rainha o reedificou no modo que hoje persevera, e dela é o vulto, que ali se conserva em nicho, vestindo ao modo antigo, com cetro na mão, e na da Rainha D. Mafalda como querem nossas Crónicas.
No cartório de S. Cruz de Coimbra temos também outras duas provas desta verdade. A primeira no livro velho dos óbitos, onde: 5 Kal. [?] Prior de Rates, e Monachus de Caritate. E. 1300. A Segunda é do livro santo  (pág. 71) em que se relatam as muitas demandas, que o mosteiro de S. Cruz teve sempre com os Monges da Caridade, que moravam em S. Justa de Coimbra: onde a palavra Monges numa e noutra parte, exclui a de Cónegos, além de que não parece haviam de ter demandas tão travadas, se não foram de tão diversas Religiões.
 

b) Abade santo de Vilar: Em Vilar de Frades território de Barcelos o admirável rapto de um S. Abade daquele convento (cujo nome dado que a nós oculto, está escrito no livro da vida) varão de angélica pureza, e estremada santidade, o qual meditando um dia naquelas palavras do Salmista: Mille anni ante oculos tuos tamquam dies hesterna, quae praeteriit. Levado da contemplação da pátria celestial, para de todo se entregar a ela, partiu de seu convento ao romper d'alva para um ameno, e deleitoso bosque vizinho, no qual de repente, eis que lhe aparece uma ave de notável formosura, que cantava suavíssimamente, a qual voando de uma a outra parte o levou após si, até penetrar o interior do deserto, onde parou; e ele sentado à sombra de uma árvore, roubado, e suspenso de tão suave melodia esteve por espaço de setenta anos, que Deus o conservou naquele estado (...).

- do comentário:
Foi o Mosteiro de S. Salvador de Vilar de Frades, fundação de S. Martinho Damiense, debaixo do hábito e regra de S. Bento. Está situado na margem do rio Cávado, em lugar mui fresco, e delectável no Arcebispado de Braga, e assim podemos com verdade chamar a D. Godinho Viegas seu reedificador, posto que nome de fundador lhe dá o Conde D. Pedro tit. 52. Floresceram em seus claustros grandes servos de Deus nos primeiros séculos da Religião, entre os quais se avantajou a todos o Abade santo de que falamos, o qual teve sua sepultura no claustro, e nela de meio relevo esculpida sua figura com o Passarinho na mão em memória de tão maravilhoso sucesso. Porém desamparando este domicílio os Monges por causa das pestes, fez dele doação o Arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra (ano 1439) ao Venerável M. João fundador da Sagrada Congregação de S. João Evangelista neste Reino, anexando-lhe o mosteiro de S. Bento da Várzea, que dista meia légua de Barcelos, com mais doze igrejas. Depois o Arcebispo D. Luís Pires lhes anexou mais Sta. Maria de Góis, e ultimamente o Papa Nicolau V o Mosteiro de Manhete, também da mesma Ordem de S. Bento, fundações todas três de S. Martinho.

Igreja do Mosteiro de S. Sa.vador, em Vila de Frades (Portugal)
Tomando posse deste Convento Mestre João, vendo os muitos milagres que Deus obrava por este seu servo com a terra de sua sepultura, e a pouca decência com que estava, determinou colocar as santas relíquias na Igreja para serem dos fiéis mais veneradas (o modo, e ano diremos em 21 de Setembro, em que se fez esta translação) mas o mesmo foi transferirem-se elas à Igreja, que perder-se totalmente esta tão notável memória, como sucedeu a outras muitas, de que a cada passo nos havemos de queixar. Tratam deste santo Abade o livro intitulado Speculum Exemplorum (dist. 9 c. 65), e dele o refere o Báculo Pastoral (c. 45 pág. 234 exemplo 2), e o Pe. João Rebelo nas adicções à cartilha de M. Inácio (fol. 131), D. Rodrigo da Cunha no Catálogo dos Arcebispos de Braga (I p. c. 73), Fr. Leão de S. Tomás Geral que foi da Religião de S. Bento nos prologómenos que fez às Constituições desta província (c. 3). Finalmente anda esta história manuscrita no tratado que nos deixou o Pad. e Paulo religioso desta Congregação, dos varões ilustres em virtude, que floresceram em seu tempo.

Clausto do Mosteiro de S. Salvador, em Vila de Frades
 
c) B. D. Garcia Martins Maltes: Em Lessa junto da cidade do Porto, partiu para as eternas moradas o B. D. Garcia Martins, cavaleiro da mui ilustre milícia, e sagrada Religião de S. João Hierosolimitano [gentilício de Jerusalém], o qual sendo Português, e homem de vida santíssima, mereceu por suas heroicas proezas na guerra, e virtudes na paz, ser nela Bailio, e Grão Comendador, não somente em Portugal, mas em outros quatro Reinos de Hespanha, cujo santo corpo sepultado na Igreja do convento da dita Ordem em Lessa, foi por largo tempo, com grande frequência, e devoção visitado, e venerado dos fiéis daqueles contornos, ordenando a divina providência, honrá-lo depois da morte com a prerogativa de muitos milagres em testemunho de sua abalizada santidade.

- do comentário:
O corpo de B. D. Garcia Martins descansa na Igreja de Lefta, a qual tomou o nome do rio, que por ela passa, tendo seu nascimento além do Monte Corua. Fpoi antigamente mosteiro de Templários. Nela viveram depois Clérigos, Freires de Malta em comunidade; e hoje é Comenda, e Bailiado da mesma Ordem, edifício magnífico, que tem couto de jurisdição civil; a terra, e sítio é fresquíssimo, e tem com as Igrejas anexas mais de quinhentos vizinhos. Neste mosteiro recebeu ElRei D. Fernando por mulher a Rainha D. Leonor como diz a sua Crónica.
Faleceu este santo Cavaleiro pelos anos 1306. Consta de seu Epitáfio em Latim bárbaro daqueles tempos, e é o seguinte:

E. M.CCCXLIIII IN IESU XPI.
fide decessit in Reyno Fratri Domini Garcia Martini, gloria nostra Comendatori dos cinco Reynos de Hespania in coelico.

Os cinco Reinos de Hespanha de que foi Comendador, são Castela, Leão, Portugal, Aragão, e Navarra. Enganaram-se os Cronistas desta Ordem, dizendo que faleceu no ano 1286, pois do epitáfio consta o contrário. Além disto temos três escrituras originais, as quais todas mostram viver em Junho de 1302. A primeira do livro DelRei D Dinis (fol.20) o qual faz doação a D. Garcia da Igreja de S. Pedro de Baças no Arcebispado de Braga. A segunda se acha no l. 5 do mesmo Rei (fol. 32) onde D. Garcia confessa que o dito Rei fizera recompensa a ele e à sua Ordem das terras que lhe tomara para fundação de Vila Real no termo de Panoias. A terceira, e última e do terceiro livro da leit. nou. do cart. de e de Lisboa (fol.83) em que se refere uma composição entre ele, e o Bispo D. João sobre controvérsias, que traziam cerca de várias Igrejas, e com isto nos parece que temos provado contra os Autores que (mal advertidos) afirmam morrer o Beato D. Garcia no ano 1286 que são a maior parte dos que abaixo alegamos.
A temperatura que contem os epitáfio num monumento de pedra, que sustentam três leões no meio da Igreja, o qual cobre um pano negro com Cruz da Ordem. E sua imagem se vê de pintura no altar de S. João da invicta cidade de Malta entre outros Santo da Religião. É o nosso invocado dos moradores da comarca de Lessa, que o vêm ainda hoje visitar, e venerar o seu sepulcro com nome de Homem Santo, ou Homem Bons de Lessa se bem que antigamente era muito mais frequentado, pois a Infante D. Filipa, filha do Infante D. Pedro, e neta do DelRei D. João I, indo em romagem a Santiago de Galiza, foi também visitar as relíquias deste S. Cavaleiro, acompanhada de muita nobreza, e da maior parte dos Prelados do Reino, e ali com devoção se deteve uma novena, por causa de um célebre milagre, que o Santo obrou neste tempo num aleijado, de que se passaram autênticos instrumentos.
Tratam sua vida Abraão Bzevio no Annaes Ecclesiasticos (tom.13 ano 1286), Jacome Bozio nas Crónicas Gerais da Ordem (em italiano, l. 10) e no Compêndio dos Santos (da mesma pág.99), D. Fr. João Agostinho de Funes na Crónica de Malta (l.1 c.26),  Fr. Domingos Maria nos Triunfos da mesma Religião (l.2 c.4), Jerónimo de Marulha, dos Mestres da Ordem (pág.23), António de Sousa de Macedo no livro intitulado "Flores de Hespanha" (c. II excel 2) Faz dele também menção em dois lugares de suas antiguidades o Doutor João de Barros (pág.18 e 48). O mesmo traz M. António no seu Sumário que nos deixou, de entre Douro e Minho, ambos em livros m. s. se bem inadvertidamente contra a torrente de tantos escritores lhe chamam Joanne, sendo seu verdadeiro nome Garcia, como fica dito.
 

d) Sór Catarina Vaz, franciscana: Em S. Clara de Vila do Conde a muita religiosa Sor Catarina Vaz, tão observante da regra, amiga do choro, e pontual nas comunidades, que vindo uma noite tarde a matinas por haver adormecido, a tempo que na claustra ouviu entoar aquele verso: Te ergo quae sumus tuis famulis subveni, quos pretioso sanguine redemisti. O qual por louvável costume desta santa província as religiosas cantam de joelhos com as mãos postas; quando subitamente viu romperem-se os céus, e prostrarem-se os angélicos espíritos diante do trono da Majestade divina, repetindo o mesmo verso com grande reverência, donde ficou o santo costume na dita Ordem de dizer-se ele com maior solenidade. Faleceu pois esta serva de Deus de idade de centro e seis anos, gastados todos em louváveis, e santas obras, estando rezando as horas canónicas com outra religiosa de aprovada vida, a qual ela disse, dando princípio a hora sexta: "Madre façamos pausa, que é chegada a de Deus". E levantando as mãos, e olhos ao céu com grande serenidade espirou (para entrar de posse na glória perdurável) com admiração das circunstantes.

- do comentário:
Convento de Sta. Clara, em Vila do Conde

Na foz do rio Ave da banda do Norte, quatro léguas do Porto, está a Vila do Conde, ilustre pelo mosteiro de Feriras da Ordem de S. Clara, que a enobrece, ao qual deram princípio D. Afonso Sanches filho DelRei D. Dinis fora do matrimónio (o que teve as diferenças com o Príncipe D. Afonso) e sua mulher D. Teresa Martins filha do Conde D. João Afonso de Meneses, Senhor de Albuquerque, nesta de D. Sancho III Rei de Castela (ano 1318). Estes Príncipes pretendendo fazer um Castelo para defesa daquelas partes (como Senhores que eram da dita vila) sonharam que o fizessem com a escada para o céu, e entendendo o que Deus lhes queria significar com este sonho, fundaram este Convento, a quem deixaram esta vila, e outros lugares deporte, que possuíram as Religiosas dele muitos anos. No que floresceu de seus princípios o rigor da regular observância, e penitência, acompanhada de grande pureza de vida, e santidade, de maneira que mereceram suas religiosas ser-lhe revelada a salvação de seus fundadores, e que tiveram quinze anos de Purgatório.


Acha-se escrito nas memórias deste Convento que estando uma noite a Abadessa com algumas freiras em oração depois de matinas, ouviram bater nas sepulturas destes infantes, perguntou a Abadessa que queriam, e responderam: que eles eram os fundadores, que as vinham avisar da parte de Deus, que logo saíssem fora do convento com o preciso que tinham, porque às quatro horas da manhã entrariam nele os Castelhanos inimigos cruéis deste Reino, como na verdade aconteceu; pelo que na própria hora se passaram as Religiosas para o Mosteiro de S. Clara do Cabeçal no Porto, onde residiam dois meses, que os inimigos estiveram nele.


E porque não sabemos se teremos outro lugar de falar nestes infantes nos pareceu bem copiar aqui o epitáfio de seus sepulcros que é o seguinte:

Aqui jaz o muito esclarecido Príncipe D. Afonso Sanches, filho DelRei D. Dinis de gloriosa memória, Rei de Portugal, com a muito excelente Senhora sua mulher D. Teresa Martins, neta DelRei D. Sancho de Castela, primeiros fundadores deste Convento.




 
Referem a celestial visão de Sôr Catarina Vaz com grande estima de sua santidade: Fr. Lucas Waddingo (ad anno 1318, n.44), Gonzaga (pág.3, tít. Prou. Portug. convent. 14), Barezus (pág.4 Cron. . 4 c.40, ano 1565), Valerius de sanct. Foem. Ord. Min. l.4 c.41).



e) Pe. Afonso de Castro, Jesuíta: Em Trenate na Índia Oriental o insigne martírio do Pe. Afonso de Castro natural de Lisboa, a quem S. Francisco Xavier recebeu em Goa na Companhia, e em Maiorca lhe pregou na sua Missa nova, o qual depois de gastar nove anos na conversão das ilhas Maiorcas, em grande serviço de Deus, e proveito das almas, desejoso de dar o sangue por Cristo, se foi à de Ternate, onde preso dos Mouros, depois de o despirem, o ligaram todo com cordas, e lhe penduraram um grande pau ao pescoço, e desta maneira o tiveram cinco semanas, trazendo-o pelas ruas públicas, o que o santo mártir por sua honestidade em extremo mais sentia, além de que o persuadiam, já com ameaças, já com afagos, já finalmente com promessas, a deixar a lei de Cristo, as quais nunca puderam ter entrada em seu invencível peito:pelo que vendo-se os bárbaros frustrados de seu maldito intento, determinaram tirar-lhe a vida com cruel morte; e assim levado ao sacrifício este manso cordeiro, ia dizendo mil amores, e requebros ao cutelo com que havia de ser degolado, pedindo que lho afiassem, pois esta era a morte que sempre desejara; e então posto de joelhos, as mãos, e olhos no céu, depois de recebidas muitas feridas, que sofreu com grande paciência, esperando a última com não menos constância, lhe cortaram a cabeça, e logo aquela vitoriosa alma livre das prisões do corpo, voou gloriosa à triunfante bem-aventurança.
 
- do comentário:

(a continuar)

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCLXXX


30/12/15

Vídeo - OLHANDO A VIA LACTEA




O REI E O PAI (II)

Rei David
(continuação da I parte)
§ 8

A numeração dos ofícios do Pai a respeito os Filhos, é a mesma o Rei, relativamente aos súbditos; ambos são recíprocos, e gerados pela natureza, quando não havia Reis, havia Pais, depositários do sumo poder, que se transferiu aos Soberanos condicionalmente, e com as cláusulas mais expressas, na origem de todas as sociedades do mundo, por mais bárbaras que fossem.

§ 9

"Queremos, e mandamos" é a frase Real, porque se contende que a maior parte da Nação quer, e manda: isto é: os pais de Famílias, cujo direito é o único, que se tem reconhecido sobre a terra, e ainda que transcendente aos Soberanos, nunca é por modo irrevogável; porque os ameaços de Samuel ao povo Israelita supõe só o facto, e não o direito.

§ 10

Eram Reis os Pais de famílias no centro delas: são Pais de famílias os Reis no centro de seus Estados: e a regra de medir, e comparar uns com outros direitos é esta, a mais firme, e mais segura para regular a competência de tão sublime emprego com todas as relações, que exige a sua superioridade inviolável.

§ 11

O nome só pode sujeitar-se à vontade alheia, ou por bem do seu corpo, ou da sua alma: tudo que ofende uma, ou outra coisa, é repugnante à sua existência física de Deus; para remir um homem só, não bastaria a morte de todos os homens.

§ 12

Temos portanto, e por tudo quanto se acha escrito desde o princípio do Mundo, que o Rei é o Pai de famílias, e como tal lhe compete nosso governo, e nossa direcção: quando porém ele esteja doente, ou impedido de outra maneira, lhe compete, como ao Pai de família, substituir quem faça as suas vezes, cujos erros, e descuidos, ou tergiversações lhe devem ser presentes para nomear outros, se a necessidade não insta para se acudir à opressão dos súbditos sem delongas, e sem as participações devidas à Majestade, que é a cabeça do corpo social, cuja vida não pode durar, sendo acéfalo, nem subsistir o seu decoro, e perfeição, sendo monstruoso.

§ 13

A Natureza é um ente criador, que tudo dispõe pela reprodução dos seres para se eternizar: tudo alinha para simetria, e formosura do universo: tudo reduz ao estado primitivo; porque o fazer, e desfazer é o seu maior brasão: criar os homens, que morrendo ressuscitam: cria os poderes que paralisando-se se substituem; tudo em proveito dos imperantes, e dos súbditos.

§ 14

Que prazer, que suma glória para a humanidade! que sendo mortal pode eternizar-se! não só por uma vida nova alimentada de virtudes, mas pelos meios temporais, que restituem dignamente o nada, que somos, ao nada que já fomos! Quero dizer: corrigindo a sociedade, em que vivemos, pelos ditames naturais da isolação, em que nascemos.

§ 15

Nasceu o Pai: nasceu o Rei: mas seguiu-se a orfandade: e que manda a natureza? Obedeceríamos aos seus dignos sucessores, e na falta total de uma Dinastia sagrada, retroloairmos-nos ao estado primitivo, se a mão do Altíssimo não a supre, como fazia ao povo de Israel.

§ 16

O perigo mais fatal entre os homens é a Anarquia; porque martiriza cruelmente por longo tempo, quando a fome e a peste tudo devoram em breves dias. Anarquia, Palavra horrível, e até mesmo infame, vergonhosa, e desonesta, porque desliga, e rompe todos os vínculos da sociedade, que não só se dissolve, mas se confunde, e esteriliza; não podendo distinguir gerações como acontece aos habitantes do centro da América: a Anarquia arvora o seu estandarte à solta concupiscência, como sucedeu à pouco em Pernambuco, até ao extremo, de que um homem vil arrancasse dos braços de um Pai de famílias, riquíssimo, a sua filha, para usar dela, como coisa sua.

§ 17

Assim se conduzem os Anarquistas, e assim é, que se conduz a força armada, quando as Nações se recoltam, ainda mesmo por justas causas; triunfam as paixões, e o seu império se engrossa com o mesmo ímpeto, com que nasceram, desobedecendo a preceitos fáceis, e que só proibiram o simples, e vago apetite.

§ 18

Anarquia! monstro nefando, que rasgas as entranhas, até mesmo daqueles, que te obedecem, e te aplaudem: tu mesma te devoras, e aniquilas, para triunfo do despotismo, outro monstro competidor da Divindade, e da Natureza.

§ 19

Quando os homens admitem suspeitas contra aqueles mesmo, que solicitaram para seu resgate, está muito próxima a ruína da sociedade; porque não há diferença da desconfiança de si mesmo, à dos indivíduos, em cujas mãos depositamos nossos direitos.

§ 20

É verdade que nos podemos enganar na escolha: mas também é certo, que podemos enganar-nos na suspeita: e os resultados deste erro são mais prejudiciais, que os do primeiro: porque o segundo se atribuis ao coração corrompido, e o primeiro à imbecilidade humana.

(continuação, III parte)

29/12/15

PELOS BONS COSTUMES - ALVARÁ DE D. JOSÉ

D. José
"Eu, ElRey, faço saber aos que este Alvará virem, que atendendo ao excesso, a que tinha chegado na Minha Côrte o luxo das Carruagens; transgredindo-se com ele de tempos a esta parte as Leis, e costumes, que louvavelmente se tinham estabelecido: Par obviar a esta desordem com benefício público: Ordeno, que da publicação deste em diante, nenhuma Pessoa de qualquer condição, que seja, possa andar na Cidade de Lisboa, e dentro na distância de uma légua dela, em Carruagem de mais de duas bestas: sobe pena de perdimento da Carruagem, e bestas, que nela forem; e de um ano de degredo para fora da mesma Côrte na distância de vinte léguas, sendo os transgressores Moços Fidalgos da Minha Casa, ou dai para cima; e para o Presídio de Mazagão, sendo de menor Foro: Exceptuando somente os Coches da Minha Real Casa: e declarando, que não é da Minha Real Intenção compreender nesta Proibição os Coches dos Embaixadores, e Ministros Públicos, e dos Arcebispos, e Bispos, que andarem na Minha dita Côrte; posto que será muito mais conforme ao seu estado, que nela dêm antes exemplos de moderação, do que de fausto.

E este se cumprirá tão inteiramente como nele se contém. Pelo que mando á Mesa do Desembargo do Paço, Regedor da Casa da Suplicação, Conselheiros da Minha Real Fazenda, e dos Meus Domínios Ultramarinos, Mesa da Consciência, e Ordens, Senado da Câmara, Junta do Comércio destes Reinos, e seus Domínios, Junta do Depósito Público, Desembargadores Corregedores, juízes, e mais Oficiais de Justiça, e Guerra, a quem o conhecimento deste pertencer; que o cumpram, e guardem; e falam cumprir; e guardar tão inteiramente, como nele se contém, sem dúvida, ou embargo algum; e não obstantes quaisquer Leis, Regimentos, Alvarás, Disposições, ou Estilos contrários, que todas, e todos hei por derrogados, como se deles fizesse individual, e expressa menção, para este efeito somente: ficando aliás sempre em seu vigor. E ao Doutor Manuel Gomes de Carvalho, do Meu Conselho, Desembargador do paço, e Chanceler Mór destes meus Reinos, mando, que o faça publicar na Chancelaria; e que dele se remetam cópias a todos os Tribunais: Registando-se em todos os lugares, onde se costumam registar semelhantes Alvarás: e mandando-se o Original para a Torre do Tombo. Dado no Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, a dois de Abril de 1772. O REI" (D. José)

Vídeo - LAMEGO, PORTUGAL ANTIGO


O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCLXXIX


27/12/15

MIX - NATAL PORTUGUÊS - ESCUTE E VEJA

Eis um recorte de Natal, em música e pintura portuguesas.

MÚSICA

O "Adestes Fideles", é uma composição de 1640 do Rei de Portugal D. João IV de Bragnça (ver aqui), então conhecido em Inglaterra como "hino dos portugueses":


PINTURA

"Um dos grandes símbolos religiosos, que retrata o Natal (...) é o presépio. De acordo com Rafael Bluteau e Cândido de Figueiredo, a palavra "presépio" provém do latim "praesepium", que genericamente significa estábulo, curral, lugar onde se recolhe gado e que, numa outra óptica designa qualquer representação do nascimento de Cristo, de acordo com os Evangelhos [Lucas 2:1 a 18 e Mateus 2:1 a 11]. O Presépio está profudamente representado na pintura portuguesa antiga. Passemos em revista essas representações, que incluem a adoração pelos pastores e a adoração pelos Reis Magos, as quais visualizáveis de uma forma cronológica." (fonte) Alguns quadros:


Jorge Afonso (em 1515)


Jorge Afonso (no séc. XVI)


Gregório Lopes (em 1577)


Gregório Lopes (no séc. XVI)


Vasco Fernandes (no séc. XVI)


Vasco Fernandes (no séc. XVI)


Frei Carlos (no séc. XVI)


André Reinoso (no séc. XVII)


Bento Coelho da Silveira (no séc. XVII)


Bento Coelho da Silveira (no séc. XVII)


Joséfa de Óbidos (em 1655)


Joséfa de Óbidos (em 1669)


André Gonçalves (no séc. )


André Gonçalves (séc. XVII/XVIII)


Domingos António Sequeira (em 1828)

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCLXXVIII


SAIBA A ORDEM DE ASSENTO DOS 5 PRIMEIROS REINOS NA IGREJA

I
SACRO IMPÉRIO
(Alemanha)




II
FRANÇA




III
INGLATERRA




IV
CASTELA




V
PORTUGAL


O REI E O PAI (I)

Retirado do "O Escudo, ou Jornal de Instrução Política" (ano de 1823), do Pe. José Agostinho de Macedo:

ESTEJAMOS BEM

Este é o meu mais sagrado voto, se até aqui mereci a contemplação dos Portugueses, agora apenhorarei a vontade dos mesmos que discordam em sentimentos.

-----x-o-x------


§ 1

Pai, e Rei são palavras sinónimas: Filhos, ou súbditos têm a mesma significação - Pai é o legislador, que recebeu todo o poder para o governo, e direcção da sua família, por meio da razão, ou da Lei escrita no coração do homem.

§ 2

Este poder é transmissível, quando o requer o bem da família, ou seja pelo instinto social, ou pelo desejo de comunicar seus pensamentos uma alma racional, ou pelo medo, e temor dos adversários da vida, ou pela força, ou por qualquer outro motivo de atracção, sobre que são baldadas as disputas ou entretimentos. 

§ 3 

O certo é o poder dos Pais sobre os Filhos, e o poder dos Reis sobre os súbditos: não são diversos direitos, ou poderes; são idênticos; o Rei não pode mais que o Pai: estes poderes não foram concedidos, como privilégios, mas só ao fim da conservação das famílias.

§ 4

Nasceram os homens em dependência absoluta de seus progenitores, até ao tempo, em que possam trabalhar, e ganhar o pão com o suor de seu rosto: lei formidável! mas necessária para expiação, e regeneração da carne corrompida pelo pecado: o que não escapou ao Filosofismo natural de um Platão, e outros homens ilustrados pela revelação primitiva, ou por dom da graça, que não é tão restricta, como pensam muitos homens.

§ 5

Esta dependência peculiar do género humano não converteu em coisas as pessoas, mas produziu o direito paternal, o mais sagrado de todos os direitos, para criar, educar, e vigorizar a sua descendência, que deve crescer, e multiplicar-se, em quanto couber na terra: esta é a força da palavra "replete" escrita no Génesis, que deve entender-se por actualidade de propagar-se.

§ 6

Pode portanto o Pai pôr em prática todos os meios, conducentes a este fim, sem excepção, menos a pena de morte, que Adão não impôs a Caim: é verdade que este reconheceu o direito de o matarem, por haver perdido o juízo à vida pela morte de seu Irmão, mas não consta, ao certo, apesar da opinião dos Rabinos, que o matassem: e só Deus sabe se este foi o nosso Progenitor: ele foi assinalado para viver; e esta marca posta por Deus também prova que ele não devia existir.

§ 7

É indubitável que o Pai deve repreender, e castigar, mas com a mesma moderação, que a cada um compete reprimir rebeliões da sua carne, para se não confundirem os direitos da natureza, e da sociedade, tão ofendida pelo amor injusto, como pelo ódio criminoso contra a pessoa, e não contra o crime.

(continuação, II parte)

DA RELIGIÃO EM GERAL (III)

(continuação da II parte)

11. Sem Religião não há Estados. O Príncipe governa nos corpos ("nemo rex perinde animis imperare potest", Cícero), ninguém se castiga nos Tribunais por pecados de pensamento, cogitationis nemo poenam patitur: Deus tem o império dos espíritos. A obediência do corpo é bem frágil, senão é acompanhada da do espírito. Todo o Cidadão, que não obedece ao seu Rei por obrigação, é mau vassalo pronto a sacudir o jugo à primeira esperança de impunidade. Um dos maiores Reis da nossa Monarquia tocou-se desta verdade, quando dizia num dos seus capitulares: "Não podemos compreender, como homens que desobedecem a Deus, e aos seus Pastores, nos possam ser fiéis ("nulo pacto agnoscere possumus qualiter nobis fideles existere possunt, qui Deo infideles, et suis Sacerdotibus inabedientes apparuerint". Carlos Magno, in select. cappitul. tam 2 Conc. Gall. Tit. I cap. 2). Um povo ímpio é inimigo do trono.

12. Tal é a conexão admirável estabelecida pela Providência, entre a Religião, e a Sociedade (veja-se as Actas da Assembleia do Clero no ano de 1765), de maneira que a felicidade dos Estados depende necessariamente da observância das leis Divinas. O espírito de subordinação, e de obediência que faz os filhos de Deus, faz também vassalos fiéis; e a mesma liberdade de pensar, que gera sistemas irreligiosos, arruína os fundamentos do trono, e da autoridade. Sim, o mesmo espírito que se atreve a perguntar ao Céu, e a pedir-lhe conta dos seus passos, dos seus juízos, e dos seus oráculos, não receará perguntar aos Soberanos da terra, a sujeitar a exame os títulos do seu poder, a discutir os seus direitos, e os princípios da obediência que lhes é devida.

13. Suponhamos, numa cadeira de Paris, um Orador educado na escola do Patriarca dos ímpios do tempo, que assoalha diante de um povo numeroso esta singular doutrina: "Escutai, Senhores, e atendei: Os Soberanos são incapazes de amar, de conhecer, e de recompensar o merecimento, e a virtude. A sua ciência está em ser injusto a favor das leis; a sua arte consiste em oprimir a terra; são bárbaros moles, animais porque os que defendem a pátria, por seu respeito loucamente se degolam, eles são os que devem ser castigados pessoalmente, e não as tropas, que assolam os campos; finalmente aquele homem, que o povo lhe parecer pôr sobre o trono, com mais justo título o gozará, do que aquele, que ocupar pelo direito do nascimento." (todos estes horrores se acham espalhados nas Obras de M. de Voltaire). Se esse Orador achasse ouvintes dóceis, diria eu a vossa Majestade: Ó grande Rei! desconfiai do vosso trono, temei que uma mão temerária iludida por estes sediciosos discursos, vos não arranque a coroa da cabeça; temei mais..... Mas que digo eu? Segurai-vos: a Religião, que vós protegeis, fala outra linguagem aos fossos vassalos. Meus filhos, lhe diz ela, o poder do vosso Príncipe vem de Deus, de quem emana todo o poder. Quem desobedece aos Soberanos, desobedece às ordens do mesmo Deus. Vós lhe deveis obedecer, não só por temor, mas ainda por consciência (Rom. 13. v. 1.2.5). Dais a César, o que é de César, e a Deus o que é de Deus (Mat. c. 22. v. 12) . Sede sujeitos ao Rei, que domina sobre todos, e aos seus Ministros, como enviados por ele para proteger o bem, castigar o mal, porque esta é a ordem da Providência (Patr. C. 2 v. 14). Estas são, ó Rei, as lições, com que a Religião estabelece o vosso trono na mesma consciência dos vossos vassalos!

14. Debalde se estabeleceram sistemas de Política, se a Religião lhe não firma a base. Ela é a alma dos Impérios; sem ela são edificados no ar, que o vento das paixões abala de contínuo, e destrói (omnia Religione inoventur. Cícero 5 in Verr.).

15. Não pode um Estado subsistir sem obediência às leis: ora só a Religião a pode persuadir aos Cidadãos. Os Filósofos podem propor belas leis aos povos "mas diz um antigo Padre, estes preceitos não têm força, porque são humanos, e lhes falta uma autoridade superior, que é a de Deus. Ninguém o crê, porque aquele que escuta, julga-se tanto como o que governa." É próprio da Divindade das força às leis humanas, mandando aos Cidadãos obedecer aos Soberanos.

16. A superstição mesmo é menos prejudicial ao Estado, que a Irreligião. Seja a prova M. de Voltaire. A verdade muitas vezes escapa a estes Espíritos Fortes. Quando os homens, diz ele (Tratado da Tolerância), não têm noções sólidas da Divindade, as ideias falsas as suprem, como nos desditosos tempos, em que se trafica com a falsa moeda, quando não há a boa. O Pagão teme cometer um crime, para não ser castigado pelos falsos deuses: o Malabar teme ser castigado pelo seu Pagode. Em toda a parte, onde houver uma sociedade estabelecida, lhe é necessária uma Religião. As leis vigiam sobre os crimes públicos, e a Religião sobre os crimes ocultos.

17. A Religião é o freio mais poderoso para fixar a desinquietação do povo, e mantê-lo numa justa subordinação ao seu Soberano. A Irreligião pelo contrário persuade a revolução, fazendo passar os Príncipes por Tiranos. Verdade reconhecida pelos maiores Políticos da antiguidade. A ignorância do verdadeiro Deus, diz um deles, é a peste mais perigosa de todas as Repúblicas. Quem refuta a Religião, arranca os fundamentos da Sociedade humana. Todo o homem ímpio deve pois ser olhado, como inimigo do Estado. 

18. Dizer que a Religião não é um motivo capaz de reprimir, porque nem sempre reprime, é o mesmo que dizer que as leis civís não são (Montesquieu) próprias para conter os homens. O remédio não deixa de ser eficaz, porque nem sempre cura. O efeito pode faltar por outra razão, sem ser pela fraqueza da causa.

(a continuar)

26/12/15

LER PODE EMBURRECER


“Há jovens que têm ideias bastantes esquisitas. Lêem tudo, tudo, mesmo as obras contra a religião ou contra os bons costumes, unicamente – dizem eles – para conhecerem as opiniões dos adversários; não lêem com má intenção... e, por conseguinte, não poderão fazer-lhes mal! De bom grado creio que não se entreguem a tais leituras só pelo prazer de fazer mal, mas duvido muito que elas lhes não façam mal. Julgas acaso que ficaria com vida aquele que entrasse numa farmácia e provasse todos os venenos, não para se matar, mas com o único fim de lhe conhecer as diversas reações? Há livros, crê, que envenenam a tua alma muito mais eficazmente do que todos os venenos juntos.” (Mons. Tihamer Toth)

24/12/15

NOVIDADES: VÍDEO DA CONFERÊNCIA FOI RESGATADO

Depois dos esforços de vários portugueses e brasileiros, gente empenhada em encontrar respostas para o aparecimento do vídeo da palestra do Sr. Padre Daniel Maret, e já se perdiam as esperanças de recuperarmos o dito vídeo, eis que certo amigo escreve-me, dizendo que tinha descarregado o vídeo logo quando o blog ASCENDENS o promovera. Alegria a minha, alegria de cada um dos que, gradualmente, iam por mim sendo comunicados. Foi uma interessante e inesperada onda de "graças a Deus", "felizmente", "nem acredito", "que maravilha".

Não creio que a palestra seja tremendamente valiosa, embora valiosa. Mas notei que a simpatia para com o Sr. Padre Maret predura entre os que o conheceram, e até os que não conhecem ficam rendidos a este estilo, diria, de Sto. Cura de D'Ars.

O vídeo está a salvo, sofreu um ligeiro equilíbrio de luz e cor etc..., e foi subido ao Youtube ASCENDENS. Contudo, achei por bem colocá-lo em modo privado: o público não tem acesso a ele, não o consegue encontrar. Pois não se conhecendo o real motivo daquela tal remoção, pode não ser prudente que o divulguemos massivamente. Continuamos interessados em saber o que se passou.

NATAL 2015

SANTO NATAL,
E BOAS FESTAS,
São os Votos aos Leitores ASCENDENS

A Adoração dos Magos (de Domingos Sequeira - Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa)

22/12/15

LAMENTÁVEL DESAPARECIMENTO DO VÍDEO DA CONFERÊNCIA DO Sr. Pe. D. MARET

imagem do vídeo da palestra desaparecida
Caros leitores,

agora mesmo dei por uma triste e estranha realidade: o vídeo da publicação que fizemos, intitulada "A Santa Missa e a Esperança - Conferência (Pe. Daniel Maret)", foi removido do Youtube. Portanto, segundo os dados e registos que tenho, este vídeo terá sido removido de à 5 dias para cá.

Nesta conferência, proferida há alguns anos, o Senhor Padre sublinhava a Missa como fonte de esperança no meio da adversidade, e na questão da ilegitimidade da "Missa nova" com consagração válida ou inválida (que são realidades que parecem quase esquecidas).

O vídeo, por intermédio da nossa publicação, foi entretanto difundido por católicos que costumam frequentar as capelas da FSSPX em Portugal e no Brasil. Alguns órgãos virtuais (blogues e redes sociais), no seu trabalho de Apostolado, também trataram da difusão (um exemplo aqui).

Lamentamos esta remoção, visto que, para lá do valor dos assuntos nela tratados e da forma boa como foi apresentada, esta confferência é própria dos homens de virtude.

Peço aos Brasileiros que conhecem o dono do canal Youtube, onde o vídeo tinha sido publicado, que o contactem, e lhe peçam para fazer reposição, ou que o dê a quem o publique; que seja para bem da Igreja.

18/12/15

DA RELIGIÃO EM GERAL (II)

(continuação da I parte)

5. O filho recebe com docilidade as semente da Religião: o velho se lembra sempre dela, mas a idade de mancebo muitas vezes embaraça a fecundidade. A Irreligião cresce, e se diminui com as paixões: sufocadas elas, todo o homem se alistará sob os estandartes da Religião. Custa a ser homem de bem, mas, dizia um Autor, facilmente o homem de bem é Cristão!

6. A Irreligião parte da mesma origem que o Ateísmo: a liberdade do coração é o desditoso pai de ambos estes erros. É incrédulo aquele homem que o quer ser: e quer.se ser, porque interessa as paixões (amara sunt vitiosis ac male viventibus praecepta justitiae. Lectanct. lib 1 de Falsa Relig. n. 4). Cuidam em apagar em si as ideias da Religião, para não ser perturbado no meio dos prazeres, pelos remorsos. "O tempo da nossa vida é curto, e perigoso, dizem os ímpios". O homem depois da morte nada tem bom que espere: não se conhece ninguém que voltasse dos infernos. Nós nascemos como ao acaso; e depois da morte, nós nos tornaremos em nada. Vinde pois; gozemos dos bens peressentes; apressemo-nos a usar das criaturas, enquanto somos moços; embebedemos-nos com excelentes vinhos, perfumemos-nos com esquisitos cheiros; e não deixemos passar a flor da nossa idade; coroemos-nos de rosas, antes que murchem , assim falam as paixões.

7. Um Poeta moderno, que viveu a maior parte da sua vida na libertinagem (Rousseau; Casta a M. Racine); entrando em si mesmo descreve assim, depois da experiência, os graus, pelos quais a impiedade chega a corromper o espírito:

........ Tout libertinage
Marche avec ordre, et sou vrai personage
Est de glisser par degrés son poison
Des sens au coeur, du coeur à la raison.

O homem ainda que pecador não nasce ímpio; mas a corrupção dos costumes o faz. Em todos os tempos as trevas têm sido o fim, e o castigo do deleite. O voluptuoso considera, e vê os objectos só por meio dos sentidos (in homine carnali tota regula intelligendi est consuetudo cernendi. Quod solent videre, credunt: quod non solent, non credunt. S. Aug. Sermon 242 in dieb. Pasch. serm. 13 cap. I a I pag. 1009 ib. v. Edit. Beaed.): julga das coisas como deseja que sejam, não como o são na verdade. O seu espírito enganosamente é arrastado pelo seu coração. O apetite desordenado tudo leva após de si, até o mesmo modo com que ajuizamos.


8. Quando eu seguia os desvairos de uma louca sabedoria, dizia um belo Engelho do século de Augusto, eu desprezava em demasia o culto dos Deuses. Estou agora resolvido a mudar de vida, e a seguir de novo o caminho deixado. Tal é o quadro da maior parte dos Libertino, quando se acham adiantados em idade. Contra sua vontade buscam a Religião, que só parece ofiosa ao Incrédulo, quando o deleite o cativa (quamdiu blanditur iniquitas, et dulci est iniquitas, amare est veritas. S. August. Serm. 15 3 de verb. Ap. c. 8 n. 10). No tempo da mocidade um desinquieto apetite sufoca a voz da razão. Diz-se então em ar de Filósofo, que a Religião não é outra coisas mais que uma invenção da Política, para subjugar o povo crédulo aos seus deveres. Muitas vezes até se pronuncia, que não há Deus, e vive-se como se não houvesse. Mas quando a idade tem acalmado o tumulto das paixões, então insensivelmente a razão toma o ascendente. Semelhante àquele homem, que despertando de um profundo sono, abre os olhos, admirado reflete em tantas testemunhas da existência de Deus, quantos são os objectos, que se vêm: entra em si mesmo, e acha novas provas desta pasmosa verdade; reconhece-se o ser que tanto se tem blasfemado; e finalmente se confessa que Deus existe, que ele merece os nossos cultos, e se lhe consagram as fraquezas da velhice, depois de se ter dado à Irreligião, e à liberdade todo o fogo da mocidade; conversam na verdade equívoca; mas Deus é rico de misericórdia (Efésios c. 2, v. 1).

9. Quase todos aqueles, diz o famoso Bayle (ao artigo Bion, reflexão E), que vivem na Irreligião, sempre duvidam, e nunca chegam à certeza. Vendo-se no leito da enfermidade, onde a Irreligião de nada lhes serve, tomam o partido mais seguro, que é aquele que promete a felicidade eterna, caso que seja verdadeira, e que nada se arrisca sendo falsa. Ora bem: mas porque causa senão hão de adoptar na saúde os sentimentos, com os quais se quer morrer? Cada instante da nossa vida pode ser o último. Que perigo pode causar a Religião na saúde? Ela livra-nos de cairmos no crime, e de gostarmos dos prazeres criminosos: são estes pois os inconvenientes, que se devem evitar?

10. O homem piedoso, e o Ateu sempre falam da Religião: um fala pelo que ama, o outro pelo que teme. Este pensamento é de M. de Montesquieu. Poder-se-lhe-ia acrescentar que o fim de um é de inspirar amor; e o objecto do outro é de arruinar os homens no espírito.

(continuação, III parte)

17/12/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº4 (VII)

(continuação da VI parte)


DELITO – Assim como mérito em linguagem nova corresponde exatamente a delito na antiga; assim vice versa, delito na nova significa mérito na antiga. Ser fiel a Deus, e ao próprio Soberano, é republicanamente o maior de todos os delitos. Detestar a Democracia; não adular os ímpios, e os ladrões; ignorar o idioma Republicano; e até querer falar à antiga, são delitos de guilhotina. Quereis ser homem de bem? Pois não o duvideis: podeis-lo ser em duas palhetadas. Aos opressores mais tirânicos chamai-lhes generosos libertadores: aos ladrões, homens honrados: aos ateus, despreocupados: e ao louco, estouvado, ilustrado; porque quero que saibais, que é imperdoável delito o duvidar da indivisibilidade, e eternidade das Republicas Democráticas, por mais que vejais com vossos próprios olhos, que se cambiam e mudam a todos os ventos, como as grimpas das torres. Outro conselho: é necessário que tomeis partido pela traição, e a iniquidade, porque querer viver em paz, e tranquilidade, isso já se acabou; isso são escapatórias, egoísmo, e manha. Nada: ou haveis de ser Republicano, ou tão delinquente como dantes era qualquer grande perturbador da Sociedade. Não há que andar com rodeios, porque não se dá meio.

(* Não pode duvidar-se, que sendo os Revolucionários todos eles patifes, desavergonhados, etc. com tudo não deixam de ser espertos, e velhacos; e se acaso o seu Governo não tem ido para diante, e não tem medrado, apesar de assim o assegurar o grande Borges Carneiro, que disse muitas vezes "e a Carta a medrar" não é porque eles não tenham feito a diligência, e buscado todos os meios para a sua conservação: é sim porque o sistema é inteiramente insubsistente, e porque é obra do diabo, que tem uma manta, e um chocalho. Uma das máximas de todo e qualquer Governo, que quer conservar-se, é comprometer ao seu partido muita gente, e gente de representação, e endinheirada; porque tanto mais pessoas acharem comprometidas com o Governo, quantas mais escórias ou gigantes terá o edifício do Governo, em que encoste, e que tenham mão na sua ruína: é tão velha esta política, que entre as Leis de Sólon aparece um, a qual muitas vezes serviu, e muitas vezes libertou a Pátria, e é a seguinte: “A Lei permite matar aquele Cidadão, que se conserva neutral no meio das dissensões civis.” (Plín. in vita Solonis). Obrigava portanto este Legislador a todos os Cidadãos para que se declarassem, e tomassem um partido, e daqui resultava que os homens de bem, e honrados sempre se declaravam pela boa Causa; estes arrastavam sempre uma grande quantidade de homens, que não tem ideias próprias, e seguem sempre o melhor partido, e assim comprometida com o Governo a maior e melhor porção dos Cidadãos, acabada ficava logo a questão; porque os revoltosos ou pereciam no conflito, ou desistiam da empresa. Os Liberais têm querido sempre seguir este plano, ainda que por diferente caminho; e o seu grande empenho tem sido comprometer muita gente no seu partido, para que esta gente os sustente, para que não caiam; e quando a desgraça for tanta, que não seja possível o conservarem-se sem cair, ao menos seja a queda tão pequena, que não os incomode muito. Nunca estudaram, e puseram melhor em prática este plano, como foi celebrada Constituição Carteira, de quem já falámos difusamente em o N.º 2! Não houve classe, a quem não comprometesse o excomungado Pedro Pasteiro com as suas intrigas, e alcavalas. Gabinetes, Diplomáticos, Grandes, Nobres, Clero, Comércio, Marinha, Bécas, e Espadas, tudo foi envolvido, e comprometido nessa celebrada Pastalação, que a intriga preparou, e que a perfídia quer esconder.... etc.; e este envolvimento, e comprometimento durou até que S. Majestade o Senhor D. MIGUEL I chegou a Lisboa, aonde não fez caso nem de Protocolos, nem de Promessas, nem de Conselhos, nem de Barracas, nem de Deputações, e só atendeu à sua Honra, e à Liberdade da Pátria, que gemia oprimida com tantos comprometimentos: comprometimentos de tal natureza, que já tem passado quase quatro anos, e ainda não foi possível desenredar esta meada! Isto é tão claro como a luz do dia.
Ora: que muito é que o Governo do Senhor D. MIGUEL empregue para com os Liberais as mesmas armas, de que eles se tem servido?! Isto é, obriga-los a que se declarem, como sancionou Sólon? E a que obrem, ao menos exteriormente, em sentido do seu serviço? Ao ouvirem isto alguns moderadores, gritaram: “tirania, opressão!” Não, Senhores, não é tirania, é a Lei dos Atenienses, a quem vós tanto exaltais: não é opressão, é a linguagem do Evangelho; e vós, que tanto invocais este sagrado nome quando vos vai mal no negócio, e que com tanta devoção repetis aquelas palavras "diligite inimicos vestros, benefacite his qui oderunt vos" escutais também estas outras, que são do mesmo Autor "qui non est mecum, contra me est". Quem não se declara por mim, é meu inimigo. Muitas gentes há, que estão sempre a uma das duas, e a Crónica escandalosa de tais anfíbios, que tanto vivem no mar, como na terra, bem nos deixa ver quanto são perigosos semelhantes inimigos: talvez a eles se deva uma grande parte de nossos gravíssimos males. Não se querem comprometer, dizem tais sujeitos; e persuadem-se ter um salvo conduto, com que podem sempre ficar airosos. Desmascaremos estes anfíbios pelos seus mesmos princípios. Segundo eles, ninguém é obrigado a comprometer-se. Está bem. Então um Governador de uma Praça, que faz a chave da Barra, e a segurança da Capital, deve deixar entrar em seu salvo uma Esquadra inimiga; e se lhe fizer fogo, deve ser de vistas, porque de outra maneira compromete-se. Então um Chefe do Exército, em cuja mão está a defesa, e a salvação da Pátria, quando vir que os inimigos externos se armam, e aprestam para marchar em nossa ruína, deve, ou demitir-se, ou frustrar o armamento, porque de outra maneira compromete-se. Então um Conselheiro, ou Ministro de Estado quando se propuser à alternativa, ou de sofrer trabalhos com honra, ou de entregar Praças, e presos com desonra, deve dizer; entregue-se, e dê-se tudo, com tanto que nós vivamos, porque doutra maneira compromete-se. Então o Empregado Público, a cujo cargo está a boa e fiel administração da Fazenda do Estado, e que deve trabalhar quanto nele for, para que o numerário, que é o sangue do Corpo Político, gire, e circule de maneira, que não gere obstruções e hemorragias, vendo que tudo acontece ao contrario, que os bens do Estado são delapidados, as rendas absorvidas indevidamente, ou a demorada a sua entrada maliciosamente, deve tapar os olhos, guardar segredo, e dizer antes, que está tudo em desgraça, em miséria, que não há um vintém, porque doura maneira compromete-se. Então um Magistrado, ou Juiz, a cujas mãos vai para indispensavelmente a Causa ou da Justiça, ou do interesse do Estado, este ainda que veja que as Leis são iludidas, e que à maneira de teias de aranha só apanham os mosquitos, e deixam passar os moscardos, e que saiba que os bens e rendas dos confiscados e foragidos, em vez de entrarem para o Erário, vão para as mãos de seus banidos possuidores, e apesar de tudo fizer a vista gorda, e até descobrir alguma chicana, que possa cohonestas este procedimento escandaloso, este homem tem procedido com delicadeza, porque do contrario é comprometer-se. Então um Prelado da Igreja, a quem pertence vigiar sobre o seu rebanho, a quem cumpre não só separar as suas ovelhas dos maus pastos, mas nutri-las com o saudável alimento da boa doutrina, este apesar de ser excitado por Carta Regia de seu Soberano, que com tão boa linguagem como a dos Constantinos, e Teodósios, se oferece para coadjuvar os Prelados, e interpor a sua autoridade para dar força ás suas decisões; apesar de incorrer na censura, e ameaça de que fere o Sumo Pontífice Pio VII e Leão XII chamando-lhes cães mudos que vendo os lobos devorar o rebanho não ladrão, este Prelado que assim proceder é moderado, sabe viver, e faz o que deve, porque o contrário é comprometer-se!...
Veja aqui o Mundo os tristes resultados do venenoso, e refalsado princípio de não querer comprometer-se! E haverá ainda quem olhe com bons olhos para esses, que professam semelhante doutrina, e que à boca cheia dizem que não querem comprometer-se?? Venham cá todos Vossas Mêrces, Senhorias, ou Excelências, e digam-nos: Se o Mestre de Aviz, Nuno Alvares Pereira, João das Regras, e outros muitos, que foram seus companheiros de armas seguissem este princípio de se não quererem comprometer, teria Portugal reconquistado a sua liberdade nos Campos de Aljubarrota?! Se os quarenta Aclamadores, em cujo número entrou o grande Arcebispo e Lisboa D. Rodrigo da Cunha, a quem pelos Serviços que prestou à Causa do Rei Legitimo, chama o respeitável e eloquente Franciscano Fr. João de S. Bernardino (este Frade foi o 1.º que prégou diante da Majestade do Sr. D. João IV na sua Capela Real em dia da Conceição, e este mesmo Franciscano Observante prégou na 2.ª Dominga do Advento um Sermão, que temos diante dos olhos, o qual é a melhor peça de Eloquência, e o melhor Discurso Religioso-Político, e que apareceu naquela época; ele o dedicou ao Arcebispo, e é na Dedicatória que lhe chama Jojada, e com razão - talvez ainda se reimprima) – Novo Jojada – se estes heróis tão valentes como fieis olhassem que poderiam comprometer-se, e seguissem esta política, ter-se-ia levantado o maior monumento de valor, coragem, e braveza, de que há memória nos Anais daquele Século? Ter-se-iam quebrado tão gloriosamente as algemas, que por espaço de sessenta anos oprimiram, e aguilhotinaram a nossa Pátria? Se esta ideais, que hoje desgraçadamente infectam tantas cabeças, fossem as daqueles tempos, como teria saído da boca da Senhora D. Luísa, Mulher DelRei D. João IV. estas sublimes palavras "vale mais ser Rainha uma hora, do que Duquesa toda a vida"?. Se os Povos da Península em 1808 dissessem não nos queremos comprometer, ter-se-ia sacudido o jugo mais tirano, e opressor, e que pesou sobre nós? E se estes fossem os seus princípios ter-se-ia aberto uma carreira a mais brilhante, que já mais apareceu para a honra, o valor, e a independência?! Então confundam-se, e cubram-se de vergonha, e muito fazemos em não os apelidar como cúmplices; mas de cobardes, fracos, e indignos e indignos de eximir-se. Decidant a cogitationibus suis. 
Três, e quatro vezes feliz foi a lembrança do Nosso Magnânimo Soberano quando quis descobrir meios para sustentar um Exército, que bem depressa tocará o numero de 80$ homens, e que todo ele ambiciona o momento de dar um testemunho da sua fidelidade, e valentia. A política maçónica tem empregado todos os meios para aferrolhar o dinheiro nos cofres do Judeus usurários, tirando todos os recursos do Estado, a fim de que o Povo se desgoste, e a Tropa se inquiete, chegando a proferir por aquelas malvadas bocas, ainda não chegou o Exercito da fome... Ah! Malvados!Vós fazeis o mal, e a caramunha! Vós com as especulações mercantis diminuís o numerário, fazeis subir o papel, principalmente havendo noticias contra vós, e logo depois queixai-vos porque não há dinheiro, etc.

(continuação, VIII parte)

TEXTOS ANTERIORES