26/02/17

ACTUALIZAÇÃO NOTICIOSA - BLOG ✠ SANTO ZELO


Caros leitores,

o novo blog amigo do qual já demos notícia irá manter o nome que tinha, e continuará a ter como página de Facebook: SANTO ZELO
 

Aproveitando a linha do que tem vindo a publicar na sua antiga página, o blog SANTO ZELO pretende contribuir com publicações que auxiliem e complementem a vida do tradicional católico.
 
O dia da abertura será nesta quarta feiras de Cinzas (1 de Março). O blog ✠ SANTO ZELO convida a todos os que venham por bem.

25/02/17

BARBÁRIE COMUNISTA (VI)

(continuação da V parte)





(continuação, VII parte)

24/02/17

26 de FEVEREIRO - AGIOLÓGIO LUSITANO (I)

Agiológio Lusitano
 
Santiago Matamouros (em Santiago de Compostela - Galiza)
 
FEVEREIRO 26

a) No Convento de Palmela, meia légua da notável vila de Setúbal, a festa da dedicação de sua Igreja, da qual é titular o Apóstolo São Tiago Maior, patrono da antiga militar Ordem de seu nome neste Reino, de que o dito convento é cabeça. Nele debaixo da regra de Sto. Agostinho vivem clérigos freires em comunidade, que são observantíssimos das sagradas cerimónias Eclesiásticas, celebrando os divinos Ofícios com grande majestade, e perfeição.
 
- do comentário:
A Ordem de Santiago é a mais antiga de todas as militares, de que nasceram as várias opiniões de seu princípio. De todas (como mais seguida de graves autores), abraçamos a que acima diz ser fundada por ElRei D. Ramiro I de Leão, que (segundo Vaseo) começou a reinar no ano 824 o qual alcançado dos Mouros a memorável vitória de Clauijo, como o favor do S. Apostolo; em sua honra (por mostrar-se agradecido a tão soberana mercê) deu princípio a esta nova milícia; e por memória da espada banhada em Mauritano sangue, com que o Santo Apóstolo em cavalo branco foi visto  no maior conflicto da batalha, fazendo nos Mouros incrível estrago, quis que trouxesse por insígnia no peito os professores dela Cruz vermelha em forma de espada, que lhe servisse de perpétua lembrança da obrigação que tinham de pelejar contra os inimigos da Fé em defesa da pátria. Esta Ordem se foi dilatando, e estimando tanto em Espanha, que no ano 1030 tinha muitos cavaleiros, e comendas de importância, como se mostra do privilégio, que ElRei D. Fernando de Leão concedeu a Comendadeiras de S. Spiritus em Salamanca, que trazem Rades, e Ávila em suas obras. A infância do Mestre Dom Pedro Fernandes de Fuen-celada, ou (como outros dizem) de Fuente-arcada, que é em Portugal, foi aprovada pelo Papa Alexandre III no ano 1175. E não somente os Reis de Castela, Leão, Aragão, e Navarra se mostraram magníficos com esta nova Ordem: mas também os de Portugal, pois ElRei D. Sancho no ano 1186 e primeiro de seu reinado, lhe fez doação dos Castelos de Alcácer, Palmela, Almada, e Arruda. Pelo que do tempo de seu pai ElRei D. Afonso Henriques se mostra que estavam já nele de assento no convento de Santos o velho em Lisboa, donde passaram a Mértola, vila vizinha ao Algarve sobre o Guadiano, que havia ganhado aos Mouros ElRei D. Sancho Capelo [de cognome]. E daí se mudou para Alcárcer do Sal, e ultimamente para o Castelo de Palmela, onde hoje está. A sua Igreja já se deu princípio a 5 de Maio de 1443 sendo Mestre o Infante D. João filho DelRei D. João I continuou-se com a obra, e entrando na administração do Mestrado o Infante D. Fernando, filho DelRei D. Duarte, a acabou e prosseguiu a fábrica das oficinas do convento, a que deu fim o Príncipe D. João, passando os freires de uma para outra parte a 26 de Outubro de 1482, fazendo a este de Palmela cabeça de toda a Ordem, o qual tem freires, e um D. Prior, dignidade das mais autorizadas deste reino, que nos Pontificais usa de Mitra, e Bago, por concessão de Leão X no ano 1515.
Neste convento (de antigo costume) se reza neste dia a Sagração, em cuja Kalenda leem-se estas palavras: "Hac die Dedicatio Ecclesia S. Iacobi". Lá se duvidou, e com grande fundamento, que tempo é o de que rezam, pois este não foi sagrado. Disseram alguns ser o do Pilar de Saragoça, por ser o primeiro, que a Rainha dos Anjos teve no mundo, erigido (ainda sendo viva) por Santiago. Porém aquela Igreja chama-se N. Senhora do Pilar, e não do S. Apóstolo. Outros de Lodio, que estava junto a Lugo, onde os primitivos freires muitos anos habitaram. Mas como este fosse dedicado a S. Eloy Bispos, e Confessor, não quadra com o nosso título. Não faltou quem escrevesse era a de Compostela, não advertindo, que lá se reza a 2ª Dominga post Pascha. E outros finalmente, que a de S. Marcos de Leão, para onde os feires de Lodio se passaram, na qual perseverou sempre a Ordem, como em cabeça. E rezando lá a 26 de Fevereiro, como em Portugal, que antes que se ezimisse da obediência de Castela, em tempo DelRei D. Dinis, por Breve do Papa Nicolau IV no ano 1291, reconhecia ao dito convento por cabeça, não há dúvida ser esta a de que se reza, e por consequência em todas as Igrejas da Ordem. O que se prova da folinha [?] de Castela, que neste dia aponta: "Dedicatio Ecclesiarum Ordinis S. Iacobi", e em Portugal vemos o mesmo em todos os conventos de Cristo a 31 de Agosto, e na Congregação da Serra d'Ossa a 1 de Setembro. O próprio usam os Trinos, e Carmelitas descalços, aqueles a II de Outubro, estes a 31 de Agosto. Quem a quiser ver a fundação e progressos desta milícia difusamente leia a Rades na Chron. Iacome Bosio in hist. Milit. (tom. 1 l.2 ano 1160), Motta na explicação da regra Paulo Mor. das Religiões (l.4 c.4), Carrilho in Annalib. (ano 1173, Sanson. d'Orig. ord. equest. (...) Oxea e Ferrer nas hist. de Santiago, Vaseo, Mariana, Morales, e os mais que cita Cunha na p.1 do Decreto dist.34 c.12 n.93.
 
 
b) Em Vila Viçosa, no convento das Chagas, casa de Franciscas, a translação das preciosas relíquias de Sta. Anastácia Mártir, natural de Roma, a quem Públio seu marido, entendendo professava a lei de Cristo, por fazer esmolas aos Cristãos que estavam presos pela Fé, a encarcerou numa estreita, e tenebrosa prisão, onde a teve muitos dias, dando-lhe limitado sustento. Ali foi animada de S. Crisóstomo, (que depois foi Mártir) com cartas consolatórias. Neste com menos livre do vínculo do matrimónio (por morte do marido) podendo escapar de tão cruel presunção, como foi a de Diocleciano, (que por todo o Império andava mui furiosa) o que quis fazer, pelo que de novo presa de mandado de Floro Prefeito de Esclavónia, e desterrada com outros Cristãos para as Ilhas Palmarias, nelas atribulada com dilatas prisões, e ultimamente atada de pés, e mãos a quatro paus, e rodeada de grande fogueira, conseguiu a gloriosa palma do martírio, com que fez de si inteiro holocausto a Cristo no sacrossanto dia de Natal, em que a Igreja celebra sua festa.
 
- do comentário:
D. José de Melo, depois Arcebispo de Évora (sendo agente na Cúria) alcançou grande número de relíquias, com que enriqueceu vários conventos deste Reino. Ao das Chagas de Vila Viçosa deu três corpos inteiros, a saber S. Hilário B. e M. S. Clemente Mártir, e o da gloriosa S. Anastácia, que todos foram trazidos a ele com solene procissão, e pompa, posto que em diversos dias; de cada um dos quais se fará (em seu lugar) devida menção. O de Sta. Anastácia em sexta-feira 26 de Fevereiro de 1600 no qual se festeja com ofício duplex, mostrando-se as Religiosas agradecidas aos muitos milagres, que cada dia por seu meio experimentam: o de seu próprio Martírio é o de Natal, em que a Igreja santa faz dela memória na 2ª Missa, e outro no Canon, e finalmente nas Ladainhas, que certo são raras prerrogativas, que se acham em poucos santos, das quais dignamente goza, pois foi ela a principal, e coroa das Santas Matronas Mártires, cuja vida escrevem a 25 de Dezembro (de mais dos Martirológios) Metaphrastes, Nicephoro, Monbrito, Equilino, Belouacense, Voragine, Lipomano, e Surio, e os Flos Sanctoruns de Vilhegas, e Ribadaneira.

Corpo incorrupto de S. Torcato (Santuário de S. Torcato - Guimarães, Portugal)
c) Na Catedral de Braga, a festa, e martírio de S. Torquato [Torcato] Félix, que de moço se criou à sombra da Rainha dos Anjos na Sé de Toledo sua pátria, e ali dedicado ao divino culto, igualmente aproveitou, assim nas sagradas letras, como nas virtudes. Promovido a Ordens sacras, resplandecendo nele conhecida santidade, foi constituído Arcipreste da mesma Igreja. Passados alguns anos, vagando o Bispado de Iria Flávia em Galiza, eleito pelos cónegos da qual Igreja em seu Prelado, dela foi promovido à do Porto. Neste comenos convocado o XVI C. Toledano de 55 Bispos, de mandado DelRei Egica, em que se decretam as mudanças de Félix, Arcebispo de Sevilha para Toledo, e Faustino de Braga para Sevilha, julgou aquele gravíssimo conclave, que só São Torcato podia ocupar dignamente o lugar daquela insigne primacial na falta de tão santo Prelado. E conhecendo a muita suficiência, que nesse havia para governar aquela, e outras prelazias, o deixaram também com administração da do Porto. E pouco depois se lhe encomendou a de Dume. Estando pois (como bom pastor) ocupado em apascentar duas ovelhas com prudência, e vigilância, dando a todas exemplo de bom Prelado, sucedeu a lamentável perda de Hespanha com a entrada dos Mouros, na qual coube ao Capitão Muça, Portugal, e Galiza, que entrando com bárbaro furor destruído toda a terra, sem perdoar a profano, nem sagrado, junto a Guimarães lhe saiu ao encontro o glorioso S. Torcato, e com santa liberdade o repreendeu das crueldades, que usava para com os Católicos, e dos sacrilégios, que cometia contra Deus, e lugares sagrados, de que indignado o feroz Capitão remeteu a ele, e com grande desumanidade, (à força de cruéis feridas) lhe tirou a vida, e a 27 companheiros, todos cidadãos de Braga, que naquela ditosa hora o acompanhavam. E no mesmo lugar (que foi ao pé de um monte) se deu a todos sepultura. Andando o tempo, por meio de celestiais luzes o precioso tesouro de suas relíquias, os Cristãos lhe erigiram uma piquena ermida, e nela descansaram alguns anos, até serem com solenidade transferidas ao mosteiro de seu nome, e colocadas em majestoso sepulcro de pedra, no qual são visitadas, e veneradas a santidade de seu fiel servo com gloriosos milagres.


 
- do comentário:
O corpo de S. Torcato se venera no antigo mosteiro de seu nome, uma légua das ruinas de Cinnania, e em igual distância de Guimarães. É mui nomeado neste reino pelos contínuos milagres, que Deus por ela obra. Em razão de sua pátria, vida, e Martírio há diversas opiniões.
A primeira é de Gaspar Estaço, que nas suas Antiguidades (cap.32) assim afirma:
Ser este Santo o principal dos 9 discípulos, que Santiago Maior escolheu em Galiza, e constituiu em primeiro Bispo de Acci (que é Gaudiz no Reino de Granada;) a quem uns fazem Confessor, outros Mártir. Cujo corpo descansou até ao ano 714 em que os Mouros entraram em Hespanha, ou 760 quando Abderramen (segundo o Arcebispo D. Rodrigo) vindo a ela, mandava queimar os corpos dos Santos, por cuja causa alguns devotos Cristãos, tomando as relíquias que puderam para as pôr em salvo, fugiam com elas para as montanhas, e lugares ásperos, e solitários, e talvez ocupados de medo, e perturbação, no caminho as deixavam em algum lugar oculto, que lhes parecia acomodado, ou as enterravam com certos sinais, e balizas para serem achadas mais facilmente, onde estiveram escondidas em quanto durou o bárbaro domínio Agareno. E achados vários corpos de Santos da piedade dos fiéis, o de S. Torcato, miraculosamente junto a Guimarães no lugar da ermida velha.
A segunda de Fr. Bernardo de Brito na Monarchia Lusit. (p.2 l.5. c.5) que diz:
Foi natural de Cinnania, e primeiro Bispo daquela antiga cidade, posto pelo mesmo S. Apostolo, a quem os moradores da Serra d'Vieira deram cruel morte com paus, e pedras, pelos haver repreendido das idolatrias, e bárbaros ritos, que o Santo lhe viu cometer em certa festa de seus falsos deuses, pelo que nos séculos passados por antigo voto, vinham os moradores daquele conselho cingidos com cordas, e descalços, visitar suas sepultura, como em penitência, e satisfação do pecado de seus antecessores.
A terceira teve Gaspar Alvares Louzada (escrivão que foi da Torre do Tombo, mais conhecido por fama, e obras m. (que por alguma que deixasse impressa) fundada na tradição daquela comarca, dizendo:
Que S. Torcato foi irmão de Sta. Senhorina que sendo Bispo escolhei o lugar da sua antiga ermida por solitário, na qual esteve escondido enquanto durou a perseguição, depois da qual (...) acabou em paz, pois as pinturas, e imagens que deste Santo se conservam, e veneram na dita ermida, mosteiro, e colegiada de Guimarães se representa em Pontifical com insígnias de Confessor, e não de Mártir.
E acrescenta em prova de que foram irmãos S. Torcato e Sta. Senhorina, que vão os de Vieira também em procissão a Basto em 21 de Abril, dia de sua festividade.
 
A quarta, e última, com que por mais antiga, e verdadeira nos conformamos, tem por autor a Juliano in Advers. (n.309) o qual diz que vindo D. Bernardo, Arcebispo de Toledo, por Legado a este Reino, e ele em sua companhia, sitiara, não longe de Guimarães o sepulcro de S. Torcato Félix, suas palavras são:
Non procul Vimaro in tractua Bracharensi visi sepulchrum sanctissimi Torquati, cognomenio Felicis, Episcopi Reacharensis, et Martyris qui interfait XVI Toledano Concilio, fuit pátria Toletanus, et eius urbis Archipraesbyter, in de Episcopus Iriensis, inde Portuensis et Bracharensis. Occibus est sidei sancta a per fidis Sarracenibus Muça na. D CCLXXIV (...) Martias, ut legiin Martyrologiis. Occibus est c[?] aliis xxvii civibus Bracharensibus. E[?] gratia vocatum est oppidum prope Complutum, idest (...) S. Torquati, et in fine Tuletani Episcopaliis, S. Felicis, et nunc Sahelices, et prope ::: coloniam S. Félix Gallecorum, celebris est tanti viri memoria.
Para mais inteligência da verdade desta última opinião, se deve saber, que por morte de Vencible, Bispo de Iria Flavia, que hoje é o Padrão no Reino de Galiza, foi eleito S. Torcato. Não consta quanto administrou esta dignidade, nem a do Porto, onde sucedeu a Froarico, porém sabemos que no ano 693 em que se celebou o XVI C. Toledano, no qual foi Sisberto privado da dignidade de Toledo, pela grave taição, que (em companhia de facinorosos seculares) maquinava contra ElRei Egica, mandaram a Félix de Sevilha para Toledo, e Faustino de Braga para Sevilha, e ao nosso S. Torcato Félix (que já governava a Sé do Porto) promoveram a Braga, com pressuposto, que governasse ambas as Igrejas. Esta mudança consta do Can. II do mesmo Concílio, e da subscrição seguinte, que nele fez: Ego Félix in Dei nomine Bracharensis atque Portuensis sedium Episcopus haec decreta synodalia a nobis edita subscripsi. Acrescenta Vaseu in Chr. ad au. 699 por autoridade do Arcebispo D. Rodrigo, que nas suas obras m. f. se achava na margem do C.XVII celebrado no ano 694 Felicem istum Bracharensem, et Dumiensem Episcopum subscribere in l. Canonum. De onde nos persuadimos, que teve também o governo de Dume.
A isto nos poderão arguir alguns escrúpulos, que nestes Concílios sempre assinou só com o nome de Félix e nunca de Torcato, mas a solução é fácil. Porque devia ser mais conhecido pelo apelido, que pelo nome próprio, de que em caso semelhantes há vários exemplos, como sucedeu a seu antecessor na cadeira de Braga, que chamando-se Leodisio Julião, ora se assina por seu próprio nome ora pelo apelido somente, e por este é mais conhecido, como se pode ver nos Concílios de seu tempo. E daqui parece nasceu a variedade de nomes com que achamos nomeado S. Torcato. No itinerário de Carlos Magno ao sepulcro de Santiago (se damos crédito ao Bispo Turpino) se diz, que de caminho visitou em Guimarães, o de S. Toruesco. E no Decreto (capítulo: Cum non liceat de praescriptionibus), se chama seu convento de S. Donato. Nas doações, que os antigos Reis lhe fizeram, se nomeia de S. Tolquide; o Martyrol. Rom. neste dia: "Fortunatis Felicis", se não foi descuido, ou equivocação dos que o copiaram, pois não somente mudaram "Torquati" em "Fortunati" mas entremeteram a conjunção "et" dando ocasião a se cuidar, que eram dois Santos diversos. Pelo nome de S. Torcato, é hoje mui conhecido de todos entre Douro e Minho.
Padeceu Martírio no ano 719 no lugar de sua antiga ermida, pois junto a ela há bem copiuso anos, que em certas pedras (hoje cobertas de Musgo) mostravam os devotos o sangue do Santo, precioso esmalte, que para prova desta verdade, quis o Céu se conservasse por tantos séculos. E é constante tradição, que na dita ermida descançava o sagrado corpo para aquela parte donde hoje sai o torno de água, que do Santo toma o nome pelos contínuos milagres que obra. Dela foi trasladado ao Convento, que está em distância de tiro de pedra onde se venera em própria capela, e sepulcro de pedra de onze palmos de largo, e dois de alto, sustentando em quanto colunas, rodeadas de grades de ferro para maior resguardo, e decência; o qual pela continuação, que o pouco tem de raspar dele para várias enfermidades, está já gastado. E adverte o nosso João de Barros nas Antiguidades de entre Douro, e Minho, que em seu tempo saía dele cheiro suavíssimo. E na última translação feita no ano 1630 se achou o corpo inteiro com as feridas do Martírio. Sua festa se celebra o primeiro de Maio com várias procissões, que vão dos lugares em torno, e têm feira. Na colegial a 15 seguindo ainda a opinião de Estaço, mas o Breviário novo de Braga a põem a 26 de Fevereiro, em que tratam dele os Martirológios.
As relíquias de seus santos companheiros julgamos serem as que se vêem colocadas em nicho próprio, pegado ao altar do mesmo Santo com letras góticas, que dizem:
Nomina iustorum, quórum hic requiescunt, membra sanctorum Vincentii, Martini, Romani, Felicis, Stephani, Leocadiae, Columbae, Sabinae, Christetae, Iustinae. :::::::
As quais relíquias estavam já neste lugar no ano 1173 quando ElRei D. Afonso Henriques o contou, fazendo dele doação aos Cónegos Regulares de Sto. Agostinho, como se vê de uma escritura feita na era de 1211:
In nomine Patris, etc.. Hec este carta cauti, sine testamenti, quam ego. A. Rex Portugalenti[?] una cum filio meo rege D. Sancio, et filia mea Regina Tharasia pro amore Dei, et remisione peccatorum meorum facio Eccl. S. Mariae, et S. Torquati, et aliorum Sanctorum, quórum ibi reliquiae condita sunt. Et vobis D. Pelagio eiusdem Eccl. Priori, et cateris fratribus, tam praesentibus, quam futuris, qui in praefeta Ecclesia bene vixerint, et secundum Canonicam regulam B. Augustt. in sancta conversatione permanserint do[?] vobis, atque concedo, et presentis scripturae munime confirmo candem Ecclesiam cum adjacentibus villis suis, etc.
É tanta a antiguidade deste Convento, que não se sabe de seu fundador. Já D. Ramiro II de Leão o anexou ao da Condessa D. Numadona (como se lê no inventário de sua fazenda). ElRei D. Fernando de Leão na carta de privilégio, que concede a este da Condessa no ano 1049 faz menção do de S. Torquato, e assim esteve até ao tempo DelRei D. Afonso Henriques, que o desmembrou, fazendo a dita doação aos Cónegos Regulares, que nele perseveraram até ao ano de 1474 em que por breve do Papa Xisto IV foi com outros dois anexos à insigne Colegial de Guimarães.
Esta agora satisfazemos aos argumentos das opiniões contrárias:
I - Quanto à primeira, não padece dúvida estar hoje o corpo de S. Torcato, discípulo de Santiago, e primeiro Bispo de Acci (que padeceu na persecução de Nero) em Galiza no mosteiro de Cella nova, o qual esteve primeiro na Igreja de Sta. Comba de Nande [Bande], Priorado sujeito ao mesmo convento, para onde na destruição de Hespanha, foi trazido de Galiza, cujas relíquias em várias translações, feitas em diversos tempos, foram vistas no dito convento, onde com grande concurso de povo, a I de maio se celebra sua festa com jubileu, assim o tem a torrente dos escritores de Hespanha, e nós mostraremos em seu próprio dia.
II - Quanto à segunda, não se pode dizer, que a cidade de Acci seja a mesma, que Cinnania, ou Citania, porque daquela faz menção Ptolomeu na 2ª tábua da Geog. e conforme a situação, e altura, caía no Reino de Granada, da qual diz Plínio, que foi Colónia de Romanos, e dela recorriam à Chancelaria de Cartagena; e a cidade de Cinnania estava na Lusitânia, segundo Valério Máximo (l.6 c.4) e assim não vale a equivocação dos nomes Accitana, em Cinnania, ou Citania. De mais, que não sabemos, que esta nossa cidade tivesse nunca Bispo, nem ela se nomeia entre as que Santiago proveu de pastor, por estas pegado a Braga. O virem os moradores da Serra de Vieira antigamente ao sepulcro de S. Torcato, não induz probabilidade, que seus antepassados o martirizassem, mas ser voto, que fizeram, obrigados de alguma mercê, que por seu meio alcançaram do céu; o qual o senhor D. F. Bartolomeu dos Mártires lhes comutou em certa quantidade de cera. Porque também os moradores de Coimbra vão despidos da cintura arriba ao convento de S. Cruz, em 16 de Janeiro, dia dos Santos Mártires de Marrocos, e nem por isso havemos de dizer, que o fizessem em penitência, de que seus antecessores os martirizassem, pois morreram em África às mãos de Mouros; mas obrigados de particular voto, que referem as Chron. dos Menores.
III - A terceira, e última, respondemos, que S. Senhorina [Senhorinha], de mais de pelos Nobiliários, não sabemos que tivesse tal irmão: faleceu no ano 982. E Ramiro II quando fez a doação do convento de S. Torcato (hoje quase extinto) ao de Numadona (de que acima se fala) reinava em Leão, e seguindo os mais ajustados cômputos, começou no de 927 por 23 anos. E já naquele tempo fala a dita doação em S. Torcato seu titular: logo não pode ser irmão de Sta. Senhorina. Assim mesmo não consta das histórias deste Reino, que por estes tempos nela houvesse Mártires, e que em respeito de tal persecução se houvesse de ausentar o Santo, e não prova em contrário achar-se pintado com estas, ou aquelas insígnias, quando ela maior parte hoje vemos as Imagens dos Santos Bispos em Pontifical, dado que fossem Mártires, nem por isso têm mais que o báculo, e livro nas mãos, Finalmente o irem a S. Torcato e Sta. Senhorina os moradores de Vieira em procissão nos seus em procissão nos seus dias nasceu de quem esta Santa foi Abadessa do célebre convento, que no dito distrito teve a Ordem de S. Bento, cujas monjas se passaram para o de Basto. Pelo que nenhuma das coisas referidas pertencem ao nosso S. Torcato Félix, e assim nesta parte estamos em muita obrigação a Juliano, que com sua verdadeira narração nos tirou de tantas doidas, e absurdos. Esta nossa opinião seguiu já D. Rodrigo da Cunha no Cat. dos Bispos do Porto (p.1 c.11 e nas adições à p.2 c.4 c.48) e na hist. de Braga (p.1 c.100). Escrevem também dele enquanto o distinguiram de S. Torcato, que jaz em Calla-nova, D. Mauro Castela na hist. de San-tiago (l.2 c.11) Fr. Fernando Oxea na mesma (c.13) o Pe. Vasc. (p.560) e outros.

(a continuar)

CARAVELAS E NAUS - Tecnologia dos Descobrimentos

Há neste vídeo interpretações erradas; não as seguimos, são ideologice recente. Os dados técnicos, os factos, sim são de aproveitar, foram realmente nossos.

22/02/17

NOTÍCIA - ENGRAÇADA COINCIDÊNCIA PIRATÓLAS

 
Em menos de uma semana os actuais colaboradores do blog ASCENDENS receberam ataques às contas de e-mail  e Facebook. É coincidência!? Ai pois sim, coincide, lá isso coincide.

Pe. JOSÉ MARIA LOPES NOGUEIRA - UM RESISTENTE

Este artigo ficará em aberto e será actualizado na medida em que formos obtendo mais dados biográficos do Pe. José Maria Lopes Nogueira, natural de Valverde (Fundão - Portugal), o qual foi atento doutrinador da Fé e perseguido pelas ostes republicanas.
 
1 - Fuga à República: Logo depois da imposição da república em Portugal, o Pe. José Maria escondeu-se numa pequena gruta subterrânea, conhecida por Fonte dos Leitões (já fora da Aldeia de João Pires). Paiva Couceiro no Norte havia proclamado a restauração da monarquia, e o Pe. José Maria Lopes Nogueira tinha afirmou também em seus domínios paroquiais a permanência da monarquia portuguesa - como tal, mandou hastear a bandeira na torre da igreja. A proclamação local foi de tal forma festejado pela população que as milícias republicanas, ao dar-se conta, deslocaram-se estase em força, desde Penamacor para colocar a população sob ameaça e prender-lhes o Pároco. O Pe. Lopes Nogueira refugiou-se em Monsanto (no meio de muita peripécia), depois em Espanha, finalmente foi para o Brasil. Em 1926 estava já em Portugal como Pároco de suas paróquias. Morreu e foi enterrado no Cemitério da Aldeia de João Pires, "e a sua memória é venerada". [a completar]

(vídeo: Aldeia de João Pires)

 
3 - Doutrinação: Nas paróquias deixou memória de insistente na doutrinação de todos, e seguindo o Catecismo de S. Pio X que era memorizado (este catecismo é organizado em perguntas e respostas, ele mesmo explicativo). Enviou alguns jovens ao seminário: dos seus paroquianos 4 foram ordenados estando ainda vivo, e 5 logo depois.
 
4 - Família: a) Filho de Eduardo Lopes Nogueira que se dedicou ao ensino de moços [há notícia de ter ensinado em Donas no Fundão, e ter catapultado a formação de José Leonardo Venâncio Saraiva], articulista no "A Gardunha" [?], proprietário de terras e casas por herança, costela brasonada, irmão ou sobrinho de um Prior de Santa Cruz de Coimbra. b) Tinha duas irmãs: Maria da Piedade Lopes Nogueira, que teve quatro filhos e duas filhas; Elisa Lopes Nogueira. [a completar].
 
5 - Música: tinha qualidades musicais e sabia tocar vários instrumentos (na privacidade tocava principalmente o violino e a flauta); o que leva a supor que tenha tido contacto com estes instrumentos em sua casa, antes da formação sacerdotal. [a completar]
 
(a actualizar)

BARBÁRIE COMUNISTA (V)

(continuação da IV parte)



(continuação, VI parte)

ASCENDENS - NOVO BLOG QUE AÍ VEM

 
Caros leitores,
 
alegremente noticiamos mais um blog amigo. "Novo blog?", perguntais. Não, e sim: trata-se de uma página de redes sociais criada em janeiro de 2013 que agora toma o formato de blog. "Qual o nome?", questionais. Ainda não há certeza, pois a autora poderá não manter o mesmo nome, e tudo está em fase de transição. "É um blog português?", indagais. Arrisco a dizer-vos que se o novo blog falasse diria: "sou um blog bom brasileiro, e por isso não deixo de ser bom português".
 
Em princípio, o novo blog abrirá ainda em Fevereiro.
 
Além de continuar a linha que sempre teve como página de rede social, o novo blog fará também a divulgação do conteúdo da secção "Santinhos" do blog ASCENDENS (esta secção faz anos que não está acessível à consulta pública).
 
Em breve haverá mais notícias.

Pedro Oliveira.

CONTRA-MINA Nº 21: O Clero Constitucional de França (II)

(continuação do I parte)
 
Pondo agora de parte os casos lastimosos, e terríveis, já de um Fauché intruso de Calvados, desatinado pregador da Lei agrária, e até da indiferença em matérias de Religião, e blasfemo transtornador das Sagradas Letras; já de um Expilli intruso de Finisterae, sagrado pelo Bispo de Autun, sem licença do Ordinário, sem instituição Canónica, sem confissão, ou protestação de Fé, sem os juramentos do estilo, etc., etc., que foi o primeiro Pároco, que desertando de sua Ordem, passou a unir-se com o Braço Popular nos Estados Gerais, e depois de milhares mesmo, que tinham poste sobre as nuvens o seu raro Patriotismo, teve de sofrer a mesma pena; já de um Saives intruso de Poitiers, servido de morte súbita em o próprio acto de subscrever um interdito contra os Sacerdotes fiéis à voz de suas consciências; já de uma Jales, Pároco no Poitou, que fora dos mais ardentes Procuradores da observância da Constituição Civil do Clero, e que morreu de repente, e de um modo pavoroso; já de um Manjard, Paroco de Barajols, um dos que primeiro juraram aquela Jansenística, herética, cismática, e detestável Constituição, e que se deitou em Paris de uma janela abaixo; já de outros muitos, que por brevidade omitiu, demorar-me-hei um pouco, segundo as minhas promessas, com um dos mais façanhosos Bispos Constitucionais, a saber, Mr. Torné, que tinha adquirido seu nome em a República Literária, como se pode ver no Curso de Literatura de Mr. de la Harpe, e de que facilmente podem julgar muitos, dos que têm lido, e pode ser que aproveitado as suas Orações Sagradas, que se encontram em todas as Livrarias deste Reino. Deixarei falar a este propósito o já citado Bispo de Troyes, que é sem controvérsia um dos mais eloquentes Oradores deste Século XIX:
Já que nos ocupamos (diz ele) em remexer o lodo da Igreja Constitucional, digamos uma palavra a respeito de Pedro Torné, Bispo Constitucional, e chamado da parte de Camus (Letrado Jansenista, que fez a Constituição do Clero), Metropolita do Centro, a quem acharam morto na cama há poucos meses. De todos os fenómenos de perversidade, que nos oferece a Revolução, Torné é um dos mais incompreensíveis. Viu-se um homem, que fôra bem criado, fazer-se um tigre; e viu-se igualmente um Sacerdote, que vivera largo tempo em uma Congregação acreditada, arrastar-se vilmente por todas as cloacas do Sans-cultotismo; e um homem, que anunciará o Evangelho com tanta dignidade, fazer-se o pregador de assassínios, e do Ateísmo; um velho quase octogenário prostituir-se aos mais vergonhosos extremos de devassidão; e já com os pés na cova fazer grandes crimes em ar de brincadeira. Desde que apareceu a Constituição Civil, tão pouco se persuadiu, de que ela havia de regenerar a Igreja, que se aprontou logo para a defender, como que achava nela mais um meio para sinalar a sua impiedade, até aí reprimida pelo receio, e pejo. Casou muitos Sacerdotes, e ordenou de Sacerdotes muitos homens casados. Foi o primeiro, que na Assembleia Legislativa despiu o Traje Sacerdotal, e que à imitação de Caifás rasgou os vestidos, que não merecia trajar; foi o mais empenhado na profanação dos Templos, o mais desenvolto em abjurar o Sacerdócio, o mais ardente em perseguir os Sacerdotes, querendo ao mesmos servir-lhes de carcereiro, quando não podia exercer para com eles o mister de carrasco. É para confundir, e humilhar a vista de tal abatimento da natureza humana, e a certeza de que estamos todos sujeitos a cair em tão deplorável estado. É todavia necessário, que tudo isto se descubra para ensaio das idades futuras; é necessário, que se diga, para que o seu nome exarado no pelourinho da infâmia seja execrado, assim como a sua memória, até à mais remota posteridade. Debalde quererão objectar-nos a glória da Igreja, e o decoro da Religião... Que podem fazer contra a glória da Igreja as abominações de um homem, que tinha deixado a Igreja? Que perigo pode ter o decoro da Religião, se contarmos o opróbrio de um Sacrílego, que pôs de parte a Religião, ao passo que também se punha de parte a si mesmo? Ah! Só a Filosofia é que periga nestes lances, pois este miserável era Filósofo, e por isso é que saiu assim; que nem ele seria tão abominável, se nunca tivesse jurado as Bandeiras da Razão; e por certo, que nunca se abalançaria a tão horrendos excessos, se a Moral dominante, e os princípios monstruosos da Filantropia da moda, o não tivessem contaminado, e estragado. Prodígio de maldade, Pedro Torné foi também um prodígio assombroso da vingança Celestial. E quem deixará de conhecer, nesse género de morte, a Mão de Deus, que por efeitos de um juízo terrível não lhe deu tempo de cair em si? Muitas vezes se há de tornado, que os principais autores da Revolução na Ordem Política morreram desgraçadamente quase todos, e outro tanto se pode afirmar dos que figuram especialmente na História do Cisma... Ainda há certamente alguns Constitucionais mui criminosos, e que o Senhor ainda não castigou... mas tremam! O raio, que não cai hoje, pode estalar amanhã... tremerão, ou para melhor dizer, cheguem a cair em si, e a meditar seriamente na desgraça, que os espera, caso não se aproveitem de tão grandes, e terríveis exemplos."
Aqui têm os meus Leitores o belo ideal de uma Igreja construída, e governada pelos Jansenistas, e Pedreiros.  Da rebelião contra o Sumo Pontífice nasceu o desprezo das Leis mais santas, e respeitáveis, e das mais acertadas Providências do Chefe, e Pastor Supremo da Igreja Católica. O Jansenismo, que tinha ensinado, que a Bula Unigenitus não tinha força de Lei, que obrigasse as consciências dos fiéis, iludido facilmente os sábios, e fortíssimos Decretos do Santo Padre Pio VI, que proscrevera solenemente, como obra do engano e das trevas, a Constituição Civil do Clero Francês; o Jansenismo, digo, precipitou a Nação Francesa em todos os horrores da Anarquia Civil, e Eclesiástica; os Jansenistas  são campeões de toda a inovação Política, e Religiosa, nem eles vieram ao mundo para outra coisa; e possuídos de um orgulho próprio de Satanás cuidam, que só eles têm juízo, que só eles sabem revolver os Anais da História do Cristianismo; e tão ansiosos, como os seus bons camaradas, os Pedreiros Livres, acastelaram-se na mesma Praça, buscaram iguais meios para a sua defesa; e assim como estes disseram em Portugal por mais de trinta anos, que não havia Pedreiros, e que este nome era um espantalho para meter medo às crenças, assim também nada há mais vulgar neste Reino (e eu já o tenho ouvido a conspícuos, e abalizados Mestres) com o dizer-se, que os Jansenismo é um mero fantasma sonhado pelos Jesuítas... Sentido com os tais heróis... Nem um só desses Bispos, e Sacerdotes, até agora mencionados, deixou de ser a princípio Jansenista, que este é sempre o vestíbulo do alcáçar, ou masmorra da impiedade... Que tremendas explosões de Jansenismo foram vistas no Salão das NECESSIDADES!!... Quantos Impressos correram, e se divulgaram por Autores Jansenistas contra a Soberania Eclesiástica do Vigário de Jesus Cristo! Já se deitavam os alicerces de uma Igreja Constitucional Francesa, e que fosse o seu melhor, e mais fiel retrato... Não houve descuido em favorecer os impugnadores do Celibato Eclesiástico, que até saíram do próprio seio das chamadas Constituintes!! Um simples Bacharel Repetente Coimbrão ousou publicar em 1822, e nos prelos da Universidade, uma célebre Memória contra o Celibato Eclesiástico, oferecida a um Bispo da Igreja Lusitana, e que pela maior parte não era outra coisa mais, que uma quase servil cópia da Obra Francesa de Mr. Gaudin (Les inconveniens du Pelibat des Pretres). Acrescentou-lhe porém várias espécies, como, por exemplo, uma larga passagem do seu Gmeiner contra aquele Celibato, e outras que tais galantarias por extremo curiosas, e agradáveis aos que ainda hoje guardam em caixa de cedro, e o que ainda é mais, em seu próprio coração os sofismas, e embustes do sobredito, e nunca censurado Livrinho... Chamo-lhe nunca censurado, porque me não consta, que um tão desmedido arrojo fizesse dar um grito às sentinelas da Fé... O caso é que a edição gastou-se, a ponto de que me foi necessário suar, e trabalhar muito para haver à mão este documento irrefragável da íntima aliança dos Constitucionais Franceses, e Portugueses. Tenho para mim que um só Pároco amancebado causa mais graves danos à Igreja Lusitana, do que uma loja inteira, e bem recheada de Pedreiros; e sabendo como sei, que o sobredito Livro, ou Memória é uma espécie de broquel para muitos, que chamam verdade a tudo quanto possa lisonjear as suas paixões, lembro-me de contra-minar os principais fundamentos, em que se estribou aquele estouvado reformador; e apareceram juntamente com eles os Bemvindos, e os façanhosos Medrões, para reforçarem a prova, de que o silenciamento do Clero, e a destruição do Catolicismo são os fins principais, a que se endereçam as fadigas Literárias destes adeptos do Maçonismo, ou do Jansenismo.

Não me foge, que vou incorrer na mais agra, e mais violenta indignação, até dos próprios, que se alcunham defensores do Trono Português... Já estou ameaçado de gravíssimas perdas, e danos... Assim mesmo hei de expor-me de bom grado às incertezas de uma Campanha, em que um silêncio forçado poderá ser o menor castigo da minha temerária ousadia... Desenganem-se por uma vez os Zoilos emissários do grande Oriente de Lisboa, que ainda está em sessão permanente, e que ainda influi pelo menos indirectamente nos destinos de Portugal... Já consegui a maior felicidade, que podia ter neste mundo... Conservo a própria mortalha, de que me vesti na Profissão Religiosa, e com ela desejo, e espero descer à sepultura...

Colégio do Espírito Santo em Coimbra 7 de Maio de 1831

Fr. Fortunato de S. Boaventura

"A VERDADE" - XXIV - Religião Não é Política

A VERDADE
ou
PENSAMENTOS FILOSÓFICOS
sobre os objectos mais importantes
Á RELIGIÃO, e ao ESTADO
 
por
Pe. José Agostinho de Macedo
 
LISBOA
Na Imprensa Régia
Ano 1814
----- /// -----

D. João III - e o seu Patrono S. João Baptista
 
XXIV
 
Se a Religião Fosse um Invento da Política, Como Querem os Enciclopedistas, Ainda Nesta Hipótese Seriam Inimigos da Sociedade
 
Diderot (Se é o Autor do Sistema da Natureza) deriva toda a moral, e toda a Religião de um projecto de Política. Neste famoso livro os homens são definidos Entes infelizes, ignorantes, e avezados a tremer, amoldados ao génio, e caracter das Divindades; e que por uma louca credulidade recebem, e acreditam aquelas, que o Fanatismo, e a Impostura lhe anunciam. Com estas expressões quer dar a entender, que a Religião é uma quimera. À vista disto é preciso degradar todo o género humano; porque só se pode dizer, que aceita a Religião por ignorância, e por fraqueza. Isto é o mesmo que dizer, que o Autor do Sistema da Natureza só teve luzes, e talentos, e que estes faltaram a toda a espécie humana, e que ele só sabe mais que todas as Nações do Mundo: eu poderia fazer este Dilema: "Ou Diderot só conhece a verdade, e todos os homens existam no erro: ou se todos os homens, com igual sentimento, não se podiam enganar, então só Diderot se engana". No mesmo livro aprendem os Filosofnates, que a Religião em algum sentido se deve chamar necessária. Em uma sociedade civilizada, e estabelecida, se multiplicam sempre as necessidades, e se opõem entre si os interesses: neste caso são os homens obrigados a recorrer a governos, a leis e a cultos públicos, e sistemas de Religião, unicamente para manter a concórdia: eis aqui o meio porque a moral, e a política se acham unidas à Religião. Eis aqui como do mesmo centro do erro transluz algumas vezes a verdade. Do mesmo Sistema da Natureza se colige, que para a concórdia da sociedade é necessário um culto público, um sistema uniforme de Religião. Serão pois inimigos da concórdia da sociedade todos aqueles, que tolerando-a não admitem um exercício público, abolindo aquele sistema uniforme, que tanto interessa à união dos espíritos, e à unidade do princípio, de que depende a concórdia da sociedade humana. Se eu admito esta doutrina, ainda tiro outra consequência em favor da Religião. Se a voz da necessidade pública, o concerto dos interesses particulares em uma sociedade, existem uma Religião com um recurso, de que os homens lancem mão para sua tranquilidade, e segurança, deste princípio concluo, que o império da natureza humana quer uma Religião, e que a Religião é indispensável, porque se descobre fundada sobre os mesmos interesses do homem. Assim como o homem não pode despojar-se do sentimento de suas necessidades, assim também não se pode alienar do homem o sentimento da Religião. Logo, uma sociedade sem Religião não pode subsistir. A consequência é clara; e é igualmente claro, que quem é inimigo da Religião é oposto, e contrário ao bem do homem, e é inimigo dos interesses da sociedade. O espírito, ou intenção desta Religião vem a ser: Que o homem se persuada, e creia, que existe debaixo do domínio de um Deus; que ande sempre em sua presença; que o julgue testemunha, e Juiz de suas próprias acções. É de intenção desta Religião, que se obedeça às Potestades terrenas como se obedece a Deus; e que se obedeça, não com hipocrisia por temor, mas como filho por consequência. É da intenção desta Religião que todos prestem a seus semelhantes quanto se lhes deve, honra, socorro, e benevolência; que se tema a Deus; que se tema o Rei; que se honre a Deus; e que se honrem os Reinantes.

(índice da obra)

21/02/17

21 de FEVEREIRO - AGIOLÓGIO LUSITANO (II)

(continuação da I parte)
 
b) No Convento Dominicano de Sta. Catarina de Sena de Placência, cidade em Castela a velha, o trânsito de Fr. Fernando de Braga, varão exemplar, e amador da virtude, em que resplandeceu grande pureza de vida, junta com tão abraçado zêlo da perfeição religiosa, quem desejou notavelmente a reforma de sua Ordem, a qual Deus lhe mostrou, pois o viu em sua vida restituída ao primeiro fervor em que o Patriarca S. Domingos a instituiu. E para este fim moveu Deus a ElRei D. Fernando o Católico, porque (como diz Salomão) o coração do Rei está nas suas mãos, a que tratasse da reformação da dita Ordem em Castela, para o que mandou pedir a este Reino religioso de prudência, e virtude aprovada, idóneos para tão grave negócio. Para ele foram nomeados seis, e o principal o Pe. Fr. João Diaz, e por seu companheiro Fr. Fernando, pela grande opinião, que se tinha de seu espírito, e religião. E havendo todos conseguido com muita suavidade o fim para que foram chamados, tornando-se os mais a Portugal, sé ele quis ficar lá no convento de S. Pedro Mártir de Toledo, onde foi Superior, e viveu santamente, velando com grande fervor todos os dias até meia noite em oração na presença do diviníssimo Sacramento do Altar, e guardando tão estreitamente as constituições, que se não foi em graves enfermidades, nunca comeu carne, nem saiu fora, excepto acompanhando a comunidade. E anelando a maior reconhecimento, tendo notícia que a dita casa de Sta. Catarina era retirada, e devota, se foi viver a ela, em companhia de outros servos de Deus, sendo-lhe mui principal motivo estar nela continuamente o Santíssimo Sacramento exposto, cuja divina perfeição, eram todas suas delícias; ali em bem lograda velhice com grande paz rematou a transitória vida.

D. Fernando, Rei consorte de Isabel I de Castela.
- do comentário:
Sendo Vigário Geral da observância Dominicana neste Reino Fr. Pedro Dias, Pregador DelRei D. João II pelos anos 1480 mui conhecido em Castela, onde havia ido por Embaixador sobre as pazes, e casamentos do Príncipe D. Afonso com a filha dos Reis Católicos, os quais vendo a gravidade, prudência, e compostura de tão exemplar Legado trataram de reformar os conventos Dominicanos de toda a Hispânia. Havida licença do M. Geral da Ordem, e do Sumo Pontífice fizeram como que viesse comitiva a Portugal, porque o dito Padre nomeasse um religioso, qual convinha para a comissão de tanta importância; e ele(com maduro conselho) escolheu a Fr. João Dias, confessor DelRei, e da Princesa D. Joana, varão douto, e o que mais é de mui santa vida, e por seus companheiros Fr. João de Aveiro, Fr. Diogo Velho, e o nosso Fr. Fernando de Braga, filho do convento de Benfica, e dois Conversos. Estou o Comissário em Castela, e depois de visitar os conventos de toda ela, fez Capítulo, em que estabeleceu o mais conveniente para a nova reforma daquela Província. Concluindo tudo com grande louvor se tornou a Portugal com seus companheiros, ficando à Fr. Fernando, onde no ano 1490 faleceu de muita idade. Assim o referem com o mais do texto Fr. António de Sena in Chr. Ord. (ad anos 1480 pág.263), Fr. João Lopes na mesma (p.3 l.1 C.90, e p.5 l2 c.33), Fr. Luís de Sousa (p.2 l.2 c.7), D. Rodrigo da Cunha na hist. de Brag. (p.2 c.107 e outros).

(a continuar)

ARMAS DE FOGO PORTUGUESAS


20/02/17

JACINTA MARTO, 97 ANOS DEPOIS

Jacinta Marto
Hoje, a 20 de Fevereiro deste ano (2017), completam-se 97 anos do falecimento da Pastorinha Jacinta Marto, em cujo curto espaço de vida aqui na terra foi exemplo de grande Virtude, e amor a Deus. Ante os pedidos maternais da Senhora do Rosário de Fátima, fez penitência e "orou sem cessar" (cfr. I Tess. V,17), vivendo no século como simples camponesa, a cuidar das ovelhas da família, tendo menos que 10 anos de idade. "...Tinha um porte sempre sério, modesto e amável, que parecia traduzir a presença de Deus em todos os seus actos, próprio de pessoas já avançadas em idade e de grande virtude... Ela era criança só de anos." -- Assim fala a Irmã Lúcia a seu respeito, dando-nos uma imagem que nos impressiona, pois acostumados que estamos com a presença de adultos imaturos, parece-nos utópico pensar que uma criança de 7-8 anos que, com Fé, sobriedade, honradez e constância cumpriu tão dedicadamente aquilo que lhe pedira a Mãe de Deus.

Por isso o blogue ASCENDENS faz iminente memória das mensagens de Nossa Senhora de Fátima, cujo centenário se aproxima, e recorda sob o exemplo prático da pequena Jacinta a que obramos conforme Deus quer: com espírito de penitência, cumprir os nossos deveres do estado em que Deus nos colocou; fazer oração e aprender a doutrina, como ela tanto desejou e fez. E fazer tudo por amor a Deus, nosso fim último. Aqui está um exemplo para a Quaresma que se avizinha.

R. Silva

VOZES DO CENTENÁRIO - Eunice Munhoz

Provavelmente a maior actriz portuguesa na actualidade deu um testemunho-oração.


VOZES DO CENTENÁRIO - Figurantes da Terra

Na selecção de testemunhos na série "Vozes do Centenário" saltei logo o testemunho de Catarina Furtado, por achar que nada de iria dizer de interesse. Mas, voltei atrás, dei uma oportunidade. Catarina Furtado, ateia, acabou por dar um testemunho interessante, recorrendo à memória do tempo em que foi actriz num filme sobre Fátima. Vale a pena:
 

 

VOZES DO CENTENÁRIO - António Fil. Pimentel

António Filipe Pimentel tem sido cara e autor de várias e correctas iniciativas no campo do património cultural, e conta a iniciativa do Museu de Arte Antiga (Portugal) com o da Santa Sé a respeito das Imagens de Nossa Senhora.
 

VOZES DO CENTENÁRIO - Adriano Moreira

O Santuário de Fátima, por comemoração do Centenário das Aparições integrou um conjunto de testemunhos dados por várias personalidades da actual sociedade em Portugal.

Fui espreitar, e encontrei este interessante testemunho do DR. Adriano Moreira:
 
(nota: "ou será religioso ou não será", não significa "ou será religioso, ou não".... atenção, leitores)
 
 

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCCLXXV

19/02/17

21 de FEVEREIRO - AGIOLÓGIO LUSITANO (I)

Agiológio Lusitano

 
FFEVEREIRO 21

a) Em Monserrate, vive a memória de um santo Ermitão por nome Bento, Português, companheiro que foi na Serra de Ossa do servo de Deus Mendo Gomes, naquela ainda agora é conhecida a cova, em que habitava, que se chama de seu nome. Este desejoso de mais perfeição deixou a pátria, buscando maior rigor, e solidão, e se foi a No. Senhora de Monserrate à Catalunha, onde por seus poucos anos não foi admitido, porque a vida Anacoreta requer inclinação natural, madura idade, robustas forças, e firmes propósitos de perseverar em tão sublime estado, coisa que poucas vezes se acham juntas em mancebos. Mas como os desejos que a Bento acompanhavam da vida solitária, e contemplativa eram intensos, sabendo que junto de Manresa viviam certos Eremitas separados do tráfego mundano, determinou passar com eles a vida, como fez, perseverando alguns anos em tão santa companhia, até que a devoção da Rainha dos Anjos, e trouxe a Monserrate, onde admitido, lhe deram o hábito de Eremita, e aprovado já nos rigores, e asperezas do deserto, se lhe concedeu a ermida de Sta. Cruz, em que santamente viveu sessenta e seis ano, exercitando-se em altíssimas contemplações, ilustradas de favores celestiais, como que o Senhor o animava, e consolava. Com estas, e outras muitas virtudes, que grandemente acreditavam sua vida, chegando a tão decrépita idade, que andava já recurvado sobre a terra, à qual com grande alegria restituiu o antigo depósito, subindo sua pura alma ao etéreo trono da bem-aventurança.

- do comentário:
A montanha de Monserrate famosa pelo soberano tesouro, que entre seus incultos penhascos encerra a sagrada Imagem a que deu nome, tem seu assento no coração do Principado de Castela, sete léguas ao Meio-dia de Barcelona, ficando-lhe ao Levante 25 os Pireneus, de cujas fraldas nasce o rio Lobregat, que abrindo caminho a suas correntes por entre serras, e montes, com infinitas voltas, que lhe fazem torcer o curso até beijar os pés desta célebre montanha. Nela (demais do convento em que se conserva a milagrosa Imagem da Rainha dos Anjos, assistida, e servida de religiosos Bentos da Congregação de Valhadolid, que do ano 1493 estão dedicados a seu perpétuo obséquio) há 12 ermidas em solitário, e ásperos lugares, onde fazem vida eremítica outros tantos monges, que com sua admirável penitência, mortificação, e oração estão ao Céu fazendo força. Uma intitulada de Sta. Cruz, ficava antigamente mais próxima ao convento, encostada a uma penha, da qual se subia com grande risco às mais por certos degraus (obra da natureza). Nesta viveu 67 anos um Eremita, como consta dos seguintes versos, que nela se conservam, entalhados em pedra, o qual nós logo provermos foi o nosso Bento, de que tratámos no texto:
 
Occidit hac sacra frater Benedictus in aede,
Inclytus, et fama, et religione sacer,
Hic sexaginta, et septem castissimus anos
Vixit, in his saxis te Deus alme precans.
Usque senex senio mansit curuatus, et annis
Corpus humoretulit, venerat unde prius.
Ast anima exultans, clarum repetiuit Olympum,
Nunc sedet in summo glorificata throno.
 
O Pe. António de Yepes na Chr. de S. Bento (p.4, ano 888 c.2) escrevendo sumariamente a vida deste santo Ermita diz que foi natural de Aragão, e que em moço havia servido de escolar a V. Senhora no dito mosteiro. E posto que este autor com seus escritos tem adquirido tanta autoridade, que parecerá temeridade impugná-lo, nós o faremos com bastantes fundamentos, pois publicámos neste lugar o dito Ermita por Português; deixando ao prudente, e desapaixonado leitor o juízo, e eleição da melhor destas duas opiniões.
O nosso Gaspar Barreiros na Chronographia refere que fez sua jornada no ano 1546 e que na ermida de Sta. Cruz achara escrito os ditos versos, de que constava que vivera nela o Ermita Bento 67 anos. Na qual morava havia 39 outro chamado Pedro: de modo que juntos estes 39 aos 67 de Bento, fazem número de 106 anos, quando entre este, e aquele, não houvesse vivido outro nenhum, o que não parece possível, como abaixo diremos. Assim que abatendo estes 106 dos 1546 da jornada de Barreiros restam 1440 que para o tempo que a reforma de S. Bento ali entrou faltam 53 anos, pois conforme ao mesmo Yepes, e à hist. Monserrat, foi no ano 1493, de maneira que sendo a entrância [entrada] de Bento 53 anos antes da reforma, mal podia ser seu escolar, e antes dela nem havia naquele sítio escolares, como ele mesmo afirma no lugar alegado.
Confirma-se esta nossa opinião do Itinerário que o Conde de Ourém D. Afonso fez ao Concílio de Basileia no ano 1435 (que m. s. se conserva no cartório da casa de Bragança) no qual se refere, que estando ele em Monserrate, na ermida próxima ao Castelo, achara nela um Ermitão Português, que vivia ali havia 20 anos, que disse ao Conde, que fôra companheiro de Mendo Gomes de Seabra neste Reino, pelo que segundo isto foi sua entrada no ano 1415 o que concorda com escrituras da Torre do Tombo, e do convento da Serra de Ossa, de que consta, que Bento viveu em companhia de Mendo Gomes no ano 1390 até ao de 1410 onde ainda persevera nela a cova, em que morava (detrás do outeiro, que do mosteiro aparece ao longo de um pequeno ribeiro, que por ali passa) com o nome de cova de Bento.  E do dito ano de 1410 por diante faltam neste Reino as memórias dele; tempo em que se devia ir desejoso de maior perfeição; porventura monido da notícia da virtude (que a fama publicava) dos Eremitas de Monserrate, por cujo respeito ficando cá seu nome célebre, não temos nenhuma notícia de sua morte, o que (de boa razão) houvera de ser se ele falecera neste Reino. Assim que juntos aos 1415 da entrância, os 67 que lá viveu, fazem 1482 em que faleceu, onze anos antes da reforma, e 25 da entrada de Frei Pedro. Pelo que julgamos, que entre Bento, e Pedro, houve algum outro Eremita nestes 25 anos intermédios, que morasse na dita cela, que não é de crer, que ficando ela acreditada com a fama de tão santo varão, estivesse tantos anos de vazio. E no século antecedente à reforma o mesmo Yepes confessa que viviam na dita montanha Ermitas Italianos, os quais deviam esculpir na ermida os versos, que achou Barreiros, e ele relata. E sendo hoje o Castelo a ermida de S. Dimas próxima à de Sta. Cruz, como o mesmo autor confessa, e a hist. de Monserrate (c.5) se convence eficazmente que o sobredito Ermita de Monserrate foi o nosso Bento Português, por concorrerem nele todas as razões de conveniência, e computo, pois conforma no nome, na ermida em que morou, no tempo em que lá viveu, e faltou deste Reino, e finalmente em ser companheiro de Mendo Gomes: pelo que não é este o Bento, natural de Aragão, escolar, como mal informado disse Yepes. E desta também fundada opinião é Manuel Severim de Faria Chantre da Sé de Évora, insigne antiquário deste Reino, e singular ornamento do século presente.

(continuação, II parte)

NA SERRA ALTA - A Abdicação!

 
"Olhando agora o Pontificado de Francisco devemos considerar o momento da abdicação de Bento XVI assente no argumento da incapacidade. Algo passou!"
(na serra alta - J. Antunes)

GREGORIANO - Intróito: EXSURGE - Domingo da Sexagésima

"Exsurge, quare obdormis, Domine"
(Iº Modo), intróito do Domingo da Sexagésima
 

18/02/17

"A VERDADE" - XXXII - Culto, e Imutabilidade

A VERDADE
ou
PENSAMENTOS FILOSÓFICOS
sobre os objectos mais importantes
Á RELIGIÃO, e ao ESTADO
 
por
Pe. José Agostinho de Macedo
 
LISBOA
Na Imprensa Régia
Ano 1814
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XXXII
 
Há um Culto Revelado Que Tem em Si os Sinais de Uma Constante Imutabilidade
 
O povo, que nós conhecemos depositário da Revelação, e que pode mostrar seu culto imediatamente revelado por Deus transmitido sempre com fidelidade a seus descendentes os dogmas, e os ritos, que tinha aprendido de Deus. Os cultos das outras nações traziam em si o carácter, ou selo dos vícios, e das paixões nacionais. A impostura ou a Política acomodava os actos da Religião ao vício do país, à natureza do clima, e às circunstâncias dos governos. mas o rito dos antigos Patriarcas era superior a todos os respeitos humanos. Fosse qual fosse a maneira do governo do povo Hebreu, ou vivesse pacífico na Palestina, ou escravo no Egipto, ou em Babilónia, sempre contrário a seus vícios, sempre contante em todo o tempo entre os desastres, e a corrupção universal, se mantinha invariável em seu culto. Não se alteravam os dogmas; não se variavam os ritos; não se perdiam, nem adulteravam os Códices. Este prodígio de Providência prova, que a sua Religião não era dos homens, mas de Deus. De que presta acusar a Religião de quimeras, e assoalha-la como fonte de contradições, e disparates, tornando-a desprezível ao juiz da razão! Houve muitos, e diversos cultos; mas começaram nos homens, mudaram-se com as circunstâncias, ou já acabaram com a mudança dos Governos.

Santo Sacrifício da Missa - Igreja do Mosteiro de S. Vicente de Fora, Lisboa (Portugal)
Tiveram seu culto os Chins, os Índios, os Egípcios, os Gregos, e os Romanos; e que vestígios nos restam destes cultos? O tempo desmente as invenções dos homens. Houve um só culto, que começou com o primeiro homem, prosseguiu em todos os séculos, e em todas as gerações de um povo, que mostrou haver recebido este culto das mãos do mesmo Deus. Este Culto dado ao Summo Creador do Céu, e da Terra, não faltou jamais; e é este o verdadeiro Culto. Reconhecemos nele a única, e verdadeira Religião, que é a revelada; todo o outro culto é falso; todo o outro dogma é ideal. Nada pode o tempo contra as obras de Deus. As vicissitudes, os desastres, as guerras, a corrupção geral do género humano, não poderão destruir este culto; eis-aqui o sinal de que não procedera de invenção humana, mas que descera imediatamente do seio da Divina Revelação.

(Índice da obra)

17/02/17

"COMO FUNCIONA EL DINERO"


BARBÁRIE COMUNISTA (IV)

(continuação da III parte)














(continuação, IV parte)

3333 - A CONTA QUE DEUS FEZ


Caros leitores,

é sem júbilo e sem pompa que informamos ter ultrapassado as 3333 publicações. Não é muito, nem é pouco, é o "cá se vai fazendo". Que seja por Deus, pela Igreja, e pela Pátria.

Mas... o blog ASCENDENS talvez comece a ficar com os dias contados... Aproveitem enquanto há!

FUNDÃO - Rei da Cova da Beira

(aqui a música anterior)


Do mesmo conjunto de trabalhos esquecidos no meu disco antigo, há aqui ainda três. Entretantoo, descobri mais, mas em colocando os três fica terminada esta série de postagens; calhou fazê-la.
 
Anda por aqui um trabalho dedicado à cidade do Fundão (Portugal); uma brincadeira de iniciativa própria, e que consistia numa sequência de "painéis" musicais descritivos da região do Fundão. No áudio que ouviremos estão dois desses "painéis", o primeiro e o segundo, o terceiro e quarto não sei deles, não me lembro sequer do quarto, e o terceiro contem uma pequena fuga.
 
O que vamos ouvir é a gravação de uma montagem instrumental MIDI, que tinha a finalidade de melhor me aperceber do efeito de conjunto. A composição entre outras coisas é para dois conjuntos instrumentais de cordas, o que dificulta (verão pelas sobreposições). Portanto, quem é compositor lembre-se que isto é um trabalho por concluir, e uma experiência sem compromisso.

Para quem queira imaginar: o primeiro painel descreve na região o "antes do romper da aurora" (os campos daquele grande vale, a serra etc..),  e dá continuidade a uma cena pastoril (há uma lembrança da resistência pastoril no interior ao inimigo, e memória do "hino" regional que tocam os bombos de Silvares, Souto da Casa, Lavacolhos etc...), nos segundos finais rompe a aurora, a qual ao longo do segundo painel já vai dando umas pinceladas. Isto continuaria pelas horas do dia a fora, nos quais desfilariam "imagens" descritivas da região.
 

16/02/17

"DEFEZA DE PORTUGAL" (1831) - Que Pretendem os Pedreiros com a Chegada de D. Pedro à Europa ... (VIII parte b)

D. Pedro "IV"
(continuação da parte a)
 
Eu não tenho a liberdade de perguntar ao Senhor D. Pedro por que título exerce essa Tutoria, porque me responderia que me responderia que me não importe lá com os negócios dele, nem da sua família; mas como esta Tutoria ofende os Portugueses, vou examina-la. Quero consultar Letrado sobre este negócio, e não os acho que estejam de vagar para me responder. Tão poucos são os que têm letras, havendo tantos que têm este título! Foram-se para fora do Reino algumas dúzias dos das dúzias, que poderiam responder-me, pelas muitas letras, que levaram de cá para lá, e pelas que ainda lhes vão para lá, sem embargo de dizerem por ai que seus bens rendem para o Estado; pois bem se entende que eu falho de letras de valer, que são as que valem, e não das letras de saber, que não prestam para coisa alguma; porque esses Letrados, que abalaram do Reino, nunca tiveram letras, senão tratas, que são as com que trapaceiam por toa a parte; de Livros basta-lhes a Carta Constitucional de 1826, que é uma Enciclopédia de todas as Ciências, e o seu Autógrafo de 1822, que é o armazém de todas as ideias: para esses Sábios o Digesto é mais indigesto que o ferro em boca de mosca; se ouvem falar em Pandectas, julgam ser algumas pançadas de comida; e eram esses Letrados Juízes de Fora, Corregedores de dentro, Desembargadores de baixo, e Deputados de cima: assim foi; a ignorância algum tempo administrou justiça. Caiu-me em graça o dito de um Clérigo em Lisboa, queixando-se de uma Sentença, que lhe dera um Tribunal sobre uma pendência bem clara: "O Direito destes Doutores é torto, e duro como ponta de Bode". Ora pois, na falta de Letrados, que me explicassem a dita Tutoria, deito abaixo toda a minha Livraria, que toda ela é um Larraga velho, e roto: mas este Livro foi composto por um Frade, lá perto do campo de batalha dos doze Pares de França, e ali mesmo o compôs de propósito para castigar os Clérigos, que não sabem Latim: essa Livro pois não serve para consultar o caso, porque Tutorias de Frades são mui pesadas aos Constitucionais. Ora eu bem conheço que perdi o sério, que os meus Leitores desejam; mas um pouco de desprezo castiga mais os Revolucionários do que um rabo de bacalhau. Torno pois ao exame, e seja ele feito sobre o estudo comparativo dos dois grandes Códigos, que os Revolucionários prezam mais que tudo. Constituição Política da Monarquia Portuguesa do ano de 1822, Capítulo 5º, Artigo 155: "Durante a menoridade do Sucessor da Coroa" (o Artigo 147 declara que é menor antes de ter dezoito anos completos) será seu Tutor quem o Pai lhe tiver nomeado em Testamento... e deverá ser natural do Reino. A Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa do ano 1826, Capítulo 5º, Artigo 100 copiou a mesma disposição; só não diz de onde o Trono deve ser natural. Ora agora argumento segundo a Lei, porque argumentando aos Revolucionários, hei de argumentar-lhes pelas suas Leis, e pelos seus Livros, porque eles nem querem, nem sabem mais. Todos sabemos que a Senhora D. Maria da Glória é Filha do Senhor D. Pedro, e acreditamos que o Senhor D. Pedro é seu Pai: nem eu tenho goelas de Pato, por onde caibam aquelas caluniosas, e sórdidas expressões, com que ele com os seus Patinhos denegriu uma alta, e virtuosa Maternidade, com o fim de excluir do Trono a todos os seus Filhos, e derrubar a Dinastia mais digna de Reinar em uma vasta Monarquia. Mas o Senhor D. Pedro ainda vive, ainda não fez Testamento; e se o fez, não lhe valo, enquanto não morre; e mesmo ele não pode nomear-se a si mesmo Tutor de seus Filhos. Sei o que a isto se pode responder; mas sei as respostas, que têm todos estes argumentos, e precisões ideais, que não devem vigorecer na Sociedade. Eu vejo que o Senhor D. Pedro se esquece do nome de Pai, para com ele promover as injustas pretensões de sua Filha, ou antes as suas, e toma o nome de Tutor para louvar, e proteger a todos os Revolucionários, que buscam o nome da inocente Menina para introduzirem em Portugal outra Menina criminosa. E como isto vejo, e não percebo, faço um esforço para pôr esta obra das trevas em toda a sua luz. O senhor D. Pedro fez o seu Testamento, dispondo a favor de sua Filha de herança Portuguesa, que não era sua, nem como sua a podia tomar, adir, gozar, manter, e defender, pois se sua fosse, ou a pudesse usurpar, e conservar, de certo não disporia dela pelo seu Testamento, ou Abdicação de 29 de Abril do ano de 1826: feito este Testamento, como nenhum pode ser confirmado senão pela morte do Testador, dá-se o Senhor D. Pedro por morto para Portugal, vivendo lá no outro Mundo, que de certo não nasceu para este; e morto ficou ele para Portugal, desde que não quis viver para ele; dá porém a sua volta de lá, e ele arroja para o Mundo de cá esse desgraçado Príncipe, que também para lá não nascera: esta volta é uma espécie de ressurreição, que faz do Senhor D. Pedro morto o Senhor D. Pedro vivo; e como o dito seu Testamento ficasse confirmado pela dita sua morte, aparecendo vivo na Europa, e não podendo tomar o nome de Pai, que perdera, depois de haver entregue a sua Filha à disposição, protecção, e defensão do ex-Conde de Vila Flor, e mais Sucia, toma o de Tutor por uma dessas tenebrosas ficções da nova Filosofia, que nem a antiga, nem o Direito conheceram. Este é o mais intrincado labirinto, em que se meteu jamais Revolucionário algum. Morre o Senhor D. João VI, e os Revolucionários gritam: "Viva o Senhor D. Pedro IV". Abdica, ou testa o Senhor D. Pedro, e alguns meses despois supondo-se morto por uma ficção descalabrada dos Revolucionários, que jamais sabem o em que hão de parar, enquanto não sobem à forca, eles gritam: "Viva a Senhora D. Maria II". Manda a Regeneração do Brasil ao Senhor D. Pedro à Europa, e agora: Rei não pode ser, porque abdicou; Pai também não, porque se supôs morto para sua Filha, depois que a pôs fora do Brasil, do seu poder, e da sua educação; pois seja Tutor; e com este nome prossigam os Revolucionários a sua empresa de acabar com todos os Reis do Mundo. É verdade que cá gritam uns poucos de Soldados, e Oficiais do Regimento 4º de Infantaria: "Viva o Senhor D. Pedro IV", porém desses não há que fazer caso: não eram eles os que falavam, era o quarto de vinho, com que cada um deles fôra embriagado; mas os incógnitos, que os dirigiam, sabiam o que deviam dizer, que era "Viva o Tutor". Todavia era palavra, que os mesmos incógnitos directores não sabiam naquela hora pronunciar: também eles estavam bêbados; porque posto que a terra deles não produza vinho; depois que vieram a Portugal, e comerceiam em Portugal, não largam o vinho de tarde, nem a água-ardente de manhã: a linguagem dos bêbados é toda uma Ingresia.

15/02/17

"CORDEIRO DE DEUS"

(continuação do "Aleluias")

Mais uma .... depois daquela tal "Aleluia", coloco agora um "Cordeiro de Deus". A este compus e orquestrei lá pelo ano 2004, e destinava-se inicialmente ao coro da Paróquia. Desta vez concentrei-me mais na forma como rezava o "Cordeiro de Deus", por aí fiquei, tanto que a obra se tornou um pouco difícil ao coro amador, e acabei por coloca-la de novo na gaveta. Não é muito cantável...
 
Em definitivo não estamos perante o estilo mais "clássico". Mas sim, a composição reflecte bastante a minha oração no momento do "Agnus Dei".

Dois instrumentos solo; entra um à primeira, o outro à segunda repetição, e por fim os dois em simultâneo, cada um com a melodia que tinha feito.
 
Uma aviso ... prepare-se para a possibilidade de ficar desagradado:
 


(continuação, "Fundão")

15 de FEVEREIRO - AGIOLÓGIO LUSITANO (II)

(continuação da I parte)
 
Igreja do Convento de Sta. Clara, Santarém.
 
e) Em S. Clara de Santarém, passou ao Senhor a Madre Inês de Jesus, de idade de cinquenta anos, religiosa mui abstinte, e penitente, que jejuava sem intermissão todo ano três dias na semana quartas, sestas, e sábados a pão, e água; castigando-se com aspérrimas disciplinas de sangue os outros três dias, com tal rigor, que deixava rociado o chão; servindo-se por leito de uma dura tábua em quase recostava, sem nenhum género de roupa, nem abrigo, com o livro de vita Christi, por cabeceira. Todas estas asperezas saboreava com oração, o maior regalo de sua alma, pois nela o divino esposo a ilustrava com soberanos favores, e revelações. Tinha tão profundo sentimento, e estima da Paixão de Cristo, que continuamente pedia-lhe desse assentir uma das menores dores, que por nosso amor sofreu. O que o Senhor lhe concedeu, pois um ano antes da sua morte lhe nasceu um penoso cancro no peito esquerdo, de que passou gravíssimas dores com estremado sofrimento, as quais cessando por espaço de três dias, em que recebeu os Sacramento, partiu purificada desta vida às mancões soberanas.
 
- do comentário:
A notícia que demos de Sór Inês de Jesus, que faleceu em Sta. Clara de Santarém no ano 1560, alcançamos das relações do dito convento, que se mandaram fazer para a Crónica de Gonzaga, e se conservam no cartório de S. Francisco de Lisboa.
 
 
f) No mosteiro de Jesus de Setúbal da Seráfica Capucha, Sór Joana da Conceição, principal coluna (depois das fundadoras) deste celestial edifício, mui versada, e alumiada nas matérias espirituais, e lição dos santos Padres, e o que é mais na Escritura sagrada; mui caritativa para enfermas, às quais (ilustrada divinamente) aplicava medicinas, com que saravam. Com estes talentos, virtude, e exemplo entabulou, e propagou maravilhosamente os princípios daquela santa casa. No fim da vida para o Senhor a purificar, e lhe dar maior matéria de merecimento, permitiu, que padecesse gravíssimos escrúpulos, e tentações, induzindo-a por vezes o demónio com aparentes razões, que para alcançar de Deus perdão de seus pecados, ou se matasse a facadas, ou se deitasse das varandas abaixo. A estas importunas tentações armada de paciência resistia a bandita religiosa. E com grande resignação convertendo-se àquele amoroso pai (com cujo favor os Santos alcançam do infernal inimigo gloriosas victórias) dizia: Daime Senhor maiores aflições, mandai-me quantos trabalhos quiserdes, padeça este coração, que vos não soube amar, sofra este corpo, que em nada vos serviu, castigai, e mortificai esta vontade, que em vós se não empregou. Com estas, e semelhantes palavras frequentemente repetidas mostrava os subidos quilates da perfeição, a que sua alma tinha chegado, e o recurso que devemos fazer a Deus em todas nossas aflições, e trabalhos. Estando para morrer pediu a Santa Unção de joelhos com muitas lágrimas, e a todas as religiosas perdão, dizendo: Que não merecia viver entre elas, pelas graves ofensas que cometera contra a divina Majestade. E vendo se cada vez mais apertada de escrúpulos se foi ao choro, acompanhada das religiosas que lhe assistiam, e sentindo que se lhe chegava a hora, nele a recebeu com estranha devoção, implorando repetidamente o santíssimo nome de Jesus, e suas sagradas Chagas, aos noventa de idade a levou o Senhor do ergástulo terreno para a pátria celestial.
 
- do comentário:
De Sór Joana da Conceição, filha de João de Lima,. e de D. Briolanja Henriques, que passou desta vida no ano 1609 a relação de Jesus de Setúbal, escrita pela Madre Sór Leonor de S. João, que anda já impressa no livro das memórias da Província dos Algarves.
 
 
g) No convento de Figueiro, Diocese de Coimbra, também de religiosas Franciscanas, o dia último de Sór Catarina do Espírito Santo, tão penitente, que não tinha parte em seu corpo, que não andasse sempre em viva chaga de contínuas, e rigorosas disciplinas, trazendo-o oprimido com perpétuo, e aspérrimo cilício; tão dada à oração, que vacava a ela noites inteiras, sem dar alívio a seus debilitados membros; vencida da necessidade se recostava na sua terra, ou no pavimento da cela, porque até o descanso lhe fosse penoso. Estes rigores, e penitências lhes remitiram na velhice as Preladas por vê-la toda mirrada, e consumida; e que não continuasse o choro, no qual a serva de Deus (como verdadeira obediente) não entrava, mas (como devota religiosa) da porta recitava as horas canónicas; ali tinha o Senhor cuidado de a visitar com soberanos raptos, que lhe duravam muitas horas, e obrigavam a levá-la em braços à cela, onde o comum inimigo trabalhava por desinquietá-la com horrendas visões. Entende-se que foi ilustrada com espírito profético pelas muitas coisas, que antes, e depois e viram cumpridas. Em conclusão chegada a prolongada idade, e maior virtude, acabou felizmente sua jornada com grandes sentimentos das companheiras. Passados alguns anos abrindo-se uma sepultura conjunta à sua, apareceu o corpo inteiro, do qual saiu fragrância celestial.
 
- do comentário:
Foi a ditosa morte de Sór Catarina do Espírito Santo (uma das quatro religiosas insignes em virtude, que deram principio ao mosteiro de N. Senhora da Consolação na vila de Figueiró dos Vinhos, de onde era natural) pelos anos 1611. Da fundação deste convento a 9 de Junho, dia da Madre Ana de Jesus, sua principal fundadora; por hora basta saber que foi sempre mui observante, e o 19 da Província de Portugal. O que da serva de Deus fica referido, anda na fundação m. f. dele, que concorda com relações, que nos comunicou o Pe. Mestre Fr. Manuel da Esperança.
 
 
h) No Japão, o ditoso fim do Irmão Mancio, natural de Bungo, da Companhia de Jesus, mui religioso, pio, e devoto, que trabalhou incansavelmente muitos anos na conversão da gentilidade, e propagação da Cristandade naquelas parte com grande zelo da salvação das almas, e edificação dos fiéis com que trouxe copioso número de Gentios à Nossa Santa Fé. Teve urgentes motivos na cruel persecução do tirano Daifu, que o obrigaram a ficar escondido no Japão para animar, e consolar os Cristãos. Onde consumido de trabalhos, combatido de sobressaltos, e afligido de misérias, rematou gloriosamente a vida.
 
- do comentário:
Do irmão Mancio da Companhia de Jesus, que nosso Senhor levou para si no ano 1615 escreveu o Pe. Eusébio Norimbergt na vida do Pe. Marcelo (cap. último, pág. 90), Alegambe in Biblioth. Societ. (pag.567) e o Pe. Cardim in Fasciculo (elog. 15) in catal. (pag.16).
 
 
i) Em Granada, o trânsito de Antão Martinez, Português, que de menino foi mui inclinado à virtude, e sendo moço (por desgostos, que via entre seus pais) passou a Castela; onde oferecendo-se-lhe diversas religiões, em que pudera servir ao Senhor (por sua muita humidade) se contentou com hábito de Converso da hospitalidade de S. João de Deus, que tomou no hospital da dita cidade, na qual serviu muitos anos com grande louvor, exemplo, e caridade, assistindo sempre na cozinha, onde o achavam os doentes, e pobres a toda a hora para lhes acudir a suas necessidades, e por isso nunca saía da casa, mais que Quinta-feira de Indulgências visitar as Igrejas. Vendo os Prelados seus exemplares procedimentos, e virtudes por três vezes lhe quiseram deita o hábito, mas ele (como humilde) o não consentiu, dizendo que não se sentia capaz de responder às obrigações de religioso. Estava tão resignado no divino beneplácito, que movido do espírito, de que anda um cheio, dizia falando com Deus "Senhor bueno es tu cielo, pero mejor es tu voluntad." Sendo pois sua vida adornada de muitas virtudes, penitência, mortificação, humildade, obediência, e de ardente caridade para os próximos, conhecido de todos por Santo, abraçado com um Crucifixo, que trazia ao peito, e com estas afectuosas palavras na boca: "Hijos, com esta prenda os deixo ricos" (o que disse pelo S. Cristo) ano 1630 repousou em paz, com universal sentimento de toda aquela cidade.
 
- do comentário:
O Lumiar, uma légua de Lisboa para o Norte, foi pátria [aprecie-se o uso de "pátria" para neste tempo designar um território mais restrito onde se pertence] de António Martins, seu pai se chamou Martim Alvares, e sua mãe margarida Vicente. No dito lugar se conservam as casas em que nasceu, e no ano de 1643 em que fizemos diligências para nos informarem havia ainda nele homens velhos, que o conheceram. E se nos não constara do livro de Baptismo que lhe foi imposto o nome de António, e que o sobrenome era patronímico, entenderamos que (à imitação daquele santo varão António Martim, companheiro do nosso S. João de Deus) tomara semelhante nome. Depois de seu feliz trânsito, veio a esta cidade, e foi ao Lumiar mandado pela religião o Pe. Fr. João de S. Bernardo, Cordovês, da mesma família, a tirar mui particulares informações, de seus costumes no século, e do que achou, e do mais que se tinha observado em sua religiosa vida, a publicou estampada, aquele por causa da separação deste Reino, nos não chegou até agora às mãos. E o que dele referimos (excepto algumas informações, que à nossa instância averiguou o Prior do Lumiar, que nos remeteu) o mais nos comunicou (por relação firmada de sua mão em 15 de Março de 1645). Fr. Bento Pais, Vigário Provincial da Ordem neste Reino.

(a continuar)

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