29/12/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XLVII)

(continuação da XLVI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. X
Suave é Servir a Deus Desprezando o Mundo

1. Alma - Romperei novamente o meu silêncio para Vos falar, ó meu Deus! Direi na presença do meu Deus, do meu Senhor, do meu Rei, que está sentado no mais alto trono dos Céus: «Quão grande é, Senhor, a abundância de doçura que reservais para os que Vos temem! Mas, o que será para os que Vos amam e servem de todo o coração? »
Na verdade, as delícias da contemplação, que concedeis aos Vossos amigos, são inefáveis. Que direi, meu Deus, deste excesso de bondade que mostrais, tirando-me do nada, subtraindo-me do estado de desordem em que vivia, a fim de que não cuidasse senão de servir-Vos, impondo-me depois disso um preceito tão doce que é aquele de Vos amar?

2. Ó eterna fonte de amor, que direi de Vós?
Poderei eu esquecer-me de Vós, de Vós que Vos dignastes lembrar-Vos de mim ainda quando eu jazia no abismo da corrupção e da morte?
Excedeste em misericórdia as esperanças do Vosso servo, conferindo-lhe a Vossa graça e amizade,  em um grau infinitamente superior aos seus merecimentos.
Com que Vos agradecerei, meu Deus, um favor tão singular? Vós não concedeis a todos a graça de renunciar ao século e de deixar tudo para entrar na vida solitária e religiosa. Porventura é coisa considerável que Vos sirva quando isso é uma obrigação que cabe a todas as criaturas? Conheço que não faço grande coisa em servir-Vos, mas o que me enche da mais profunda admiração e que, no meu conceito, me parece grande, é que Vos digneis alistar-me entre os Vossos servos e unir-me aqueles que Vos amam, sendo eu tão pobre e tão indigno dessa honra.

3. Meu Deus, tudo o que tenho é Vosso e ainda o serviço que Vos faço é um dom que me fazeis. Eu deveria fazer tudo por Vosso amor, mas sucede que mais me servis do que Vos sirvo.
Vós criastes o Céu e a Terra para servirem o homem, e estas criaturas cumprem pontualmente todos os dias as Vossas ordens. E parecendo-Vos isto pouco, determinastes que os mesmos Anjos servissem o homem. Não parando aqui a Vossa bondade infinita, ela foi infinitamente acima de todos estes benefícios, quando destes a própria vida pela salvação do homem, prometendo-lhe que Vos daríeis a ele com toda a Vossa glória.

4. Que vos darei, meu Deus, por esta infinidade de bens, de que Vos sou devedor? Oh! Se pudesse eu servir-Vos todos os dias da minha vida! Se pudera, ao menos, servir-Vos dignamente um só dia! Vós, na verdade, sois digno de ser servido, honrado e louvado eternamente. Vós sois, na realidade, meu Senhor, como eu sou Vosso escravo, obrigado a servir-Vos com todas as minhas forças, sem jamais deixar de ocupar-me nos Vossos louvores. Isto, meu Deus, é o que quero e apeteço. Dignai-Vos suprir por Vossa graça o que me falta para assim o fazer.

5. Que honra, Senhor, que glória, ser Vosso e desprezar tudo por amor de Vós! Grande cópia de graças terão aqueles que voluntariamente se fizerem Vossos escravos. Vós encheis das doçuras e consolações do Vosso Espírito aqueles que renunciam, por Vosso amor, aos atractivos da carne. Vós concedeis grande liberdade de espírito aos que, para glória do Vosso nome, entram no caminho estreito da Religião e se despojam de todos os cuidados mundanos.

6. Ó divina e agradável escravidão que fazes o homem verdadeiramente livra e que o santificas! Ó sagrada condição da vida religiosa, que fazes o homem amado de Deus igual aos Anjos, terrível aos demónios e digno de ser honrado por todos os servos de Jesus Cristo! Ó bem-aventurada e nunca assaz apetecida sujeição, que mereces em prémio o Sumo Bem e adquires por paga a glória eterna!

26/12/14

PAPA FRANCISCO - A POPULARIDADE QUE APENAS ENCANTA AOS QUE NÃO SE CONVERTEM

Nestes 15 dias ouvi e vi 3 testemunhos de gente que nada quer com a Igreja, e uma delas a detesta, e todas aplaudem o Papa Francisco. Um é maçom, e segue passo a passo os feitos do Papa (tal como nunca fizera com outros), diz também que a maçonaria aplaude este Papa e tem estado muito atenta. Outra das três pessoas diz-se católico, não quer saber sequer dos Mandamentos, mas canta vivas ao Papa Francisco! A outra das três pessoas escreve isto:

"Goste ou não se goste de religião, sejam de confissões diferentes ou ateus... Há que confessar:
- Este Papa é algo de diferente para melhor, muito melhor.
E quem se fica por criticar os milhares de milhões da igreja, pense nos milhares de milhões que despendem com marcas, hobbies, tabaco, alcool, com a satisfação do ego. O Francisco está a saber utilizar bem o cargo para o bem e por isso o meu Bom Natal ao Papa Francisco com toda a sinceridade."

(Isto é um comentário à notícia publicada no Diário de Notícias):


Papa "demolidor" avisa a hierarquia de que a sua revolução é para fazer

No encontro natalício com os membros da Cúria Romana, o governo central da Igreja, Francisco criticou as doenças que a afetam

"Francisco já mostrou que é um papa de ruturas e que quer reconduzir a Igreja à letra viva dos Evangelhos, mas talvez os bispos, os cardeais e os padres da Cúria romana - na prática, o governo do Vaticano - não estivessem à espera de lhe ouvir palavras tão duras como as que ele lhes dirigiu na segunda-feira, durante o seu habitual encontro natalício. Em vez de uma saudação tradicional alusiva à quadra, Francisco aproveitou o momento para criticar "o carreirismo", "o Alzheimer espiritual", "os boatos" e os anseios de "poder" e de "vã glória", entre outros, que grassam dentro da própria Cúria.

No seu discurso, recebido na sala com um aplauso morno e raros sorrisos, mas certamente do agrado da grande congregação dos que dentro e fora da Igreja apoiam a sua linha de renovação da instituição, o papa exortou os membros da hierarquia a abandonar o rosto "severo" e enumerou um conjunto de 15 "doenças e tentações" que a afetam." (DN)

Volto agora ao tal maçon, para mostrar que publicações tem ele no seu facebook, desde Junho:

- Notícia da morte de Jaime Gralheiro, que entre outras coisas foi "um Homem de Abril".
- "Nossos Heróis São os Professores, e Não os Jogadores" - Cartaz brasileiro
- Imagem com a diferença entre "chefe" e "líder"
- Cartaz "Não estou envelhecendo, estou-me a tornar um clássico".
- Cartoon: "Bom dia, menina. O Chefe de família está? - "Nesta família não há chefes, nós somos uma cooperativa". Comentário: "Nada como mantermos esta filosofia de pé!"
- Cartaz com o Papa Francisco, onde se lê: "Não existem mães solteiras, existem mães. Porque mã não é um estado civil."
- Imagem que representa um auto da Inquisição no Terreiro do Paço, do qual diz: "... interessante desenho de um tempo horroroso! O Tempo totalitário da imposição de um doentio cristianismo de igreja, herdado de um cristianismo de império, e por assim surgido assim ter continuado a querer ser, na sua hierarquia. Acho (estarei errado?) que M. Ferrer [autor do desenho] quis, com este desenho, responder a minha frase sou cristao não sou cristão de igreja. E quis responder precisamente (estarei errado?) por me ter assumido Maçon. Fraternalmente explico a M. Ferrer: Quando refiro o cristianismo refiro o cristianismo primitivo, essenico, que se reencontrou nos construtores de catedrais, nos templários, nos Franciscanos, nas primeiras cisoes "protestantes", como a revolta de Lutero... Claro que, por isso, me horrorizam as caças as bruxas, a destruição dos Cataros, as inquisições, a destruição da cultura feminina, ou as cruzadas ( por contraditório que tal seja face ao respeito que tenho aos templários e ao seu papel no mundo com a expansão e a primeira globalização)! Mas não me afasto da necessidade de uma visão espiritual no mundo, que o BigBang não destruiu pelo contrário reforçou...  Assim, agradeço a Manuel Ferrer a oportunidade que me deu de melhor esclarecer o meu cristianismo, que na maçonaria me conduz a rejeitar visões limitadoras quanto a mesma, ou visões estritamente "cabalísticas" da mesma, ao mesmo tempo que me orientam para uma maçonaria onde a lua e o sol se encontrem no mesmo templo - a nossa alma!
-  Vídeo sobre a ditadura militar no Brasil
- Apelo ao socialismo e ao partido PS
- Cartaz: "Sozinhos somos forte, juntos somos imbatíveis"
- Relativamente a um comentário do Bispo D. Manuel martins, diz "Todos os homens de bem e lúcidos pensam assim!", e seguem então as palavras do Bispo: "Se o ex-primeiro-ministro estivesse detido no Porto, iria visitá-lo à cadeia. O modo como foi detido foi excessivo. A forma como se vai buscar uma pessoa, como se dá aparato, é uma ofensa à dignidade com aquele espalhafato todo. Não se faz a ele, nem a ninguém. O julgamento já está feito, mesmo sem tribunal".
- Fotografias sobre debate da "violência doméstica", com o texto: "O debate sobre a violência doméstica na EPAR"
- Fotografias sobre o ERASMUS, com o texto: "E da parte da tarde mais alunos da EPAR para o nosso projecto no ERASMUS o ESPARMOVE"
- Cartaz: "Vai dar tudo certo ;) ", comentado: "O Muro de Berlim acaba de cair na totalidade com o início da reconciliação entre EUA e Cuba via a diplomática do papa Francisco! É bom estar a viver estes tempos."
- Cartaz:
Seguido do texto: "Na sua raiz iniciatica cristã, essenica, ou cristã de Roma, dos construtores de estrada a e depois de templos, os maçons, a maioria enfim ainda não se libertou do machismo medievalista (entre os dominantes os protegidos por Roma). Constato que cada vez mais esses maçons vivem longe da realidade, a profana e a esotérica inventando sobre fantasias dos burgueses ansiosos de títulos do século XIX mais títulos e falsos saberes que a nada conduzem. Dai que a busca da Igualdade esteja tão esquecida e a entrega pela Fraternidade tão limitado. Mas o mais grave e o afastamento da Mulher. Já o escrevi n vezes recordando a presença do Sol e da Lua nos templos maçônicos sendo que quanto a lua que se hoje se apresenta refletindo o Sol a ser verdade a nossa Antiguidade então seremos forçados a dizer tão somente que Sol e Lua brilham só que diversamente. Eis porque não me situo nas ditas Grande Lojas e prefiro seguir as ditas Selvagens que procuram construir a Igualdade e a Fraternidade reforçando assim a Liberdade!"
- Cartaz com o Papa Francisco (feito pelos Padres e Irmãos Paulinos) com uma mensagem o Papa: "Quando se vive preso ao dinheiro, ao orgulho ou ao poder, é impossível ser feliz.". A acompanhar o Cartaz, vem um texto: "Estou mesmo muito preocupado !Quem ler a Sábado só pode, aliás, estar muito preocupado pois ela reflete uma igreja católica ultraconservadora anti papa Francisco fanaticamente passadista setaria. Se e assim então meus caros camaradas da Esquerda estamos no fio da navalha e qualquer erro nosso será o retorno ao fascismo feito de revanche de ódios não resolvidos e gerados com o 25 de Abril e mostrando o poder que os alexandrinhos teem em Portugal. Não há segundo a Sábado círculos de debate entre os crentes católicos sobre o Sínodo da Família há sim aquele doentio silêncio do tipo mergulha e deixa passar a onda. Tudo ao contrário do tempo em qu do rei Dinis decidiu não acatar as ordens do papa e do rei francês para assassinar os Templários. Porque na época o rei Dinis e seus sucessores souberam não só dizer não ao papa como mantendo a ordem sob outra denominação usaram o seu Saber para a expansão teocratica portuguesa. Hoje ao contrário vemos segundo a Sábado uma igreja quase anti papa pelas mas razões pela defesa do errático catecismo que sustenta as elites do mundo ( e de Portugal) neste Asiático luxo de sustentar minorias com muitos filhos e as grandes maiorias sem os ter por não terem as condições econômicas para tal."
-Imagem do Pai Natal dançando com as renas, e adicionada do seguinte texto: "Não posso deixar de vos desejar um Natal Feliz ! Ora, na Tradição no Natal gastam se reservas do Verão anterior com a certeza de que todos na comunidade aproveitarão dessas reservas quer as tenham quer não! Enfim tempos em que haviam almoços grátis em que Vizinhos ou eram Família ou como o fossem em que neo liberais era coisa desconhecida e o que fosse parecido, desprezada.Tempos ainda em que Maria convencia Jesus Cristo ao seu primeiro milagre - a transformação de água em vinho de elevada qualidade (e não Mateus Rose) permitindo a continuação da Festa (e claro da razoável bebedeira...).Este passado Natal será o Natal exemplar de um Futuro que nos será imposto pela degradação do Ambiente a impor cautela na Produção e no Consumo um Natal sem luxos mas com prazeres! Por esse Natal - Boas Festas!"
- Cartaz em favor de Dilma Rousseff
- Imagem acompanhada do texto: "E porque será Oh opusdeistas que o papa Francisco e o seu discurso morreram nas tv's portuguesas neste Natal! Que tal perguntar ao sr Carlos Alexandre?"
- Algumas imagens de "natal"
- "Feliz NBatal, Ano Novo Muito Próspero, Amigo Socrates"
- Notícia: "Papa Francisco pede na Missa do Galo empatia e bondade perante a adversidade - Globo  - DN"
- Notícia: "Decida do desemprego em Portugal", com o texto: "A bandalheira da propaganda neo liberal nem os seus patrões convence" [chamam de "neo-liberal" a algo que não é sequer propriamente liberal].
- Cartão de Natal de Obama
- Foto de medalha maçónica com a inscrição "Gloria Dei Este Celare Verbum":


O texto: "Agora entendi onde falhei - vivo a Esquerda e deito me a Esquerda esperando o mesmo da minha companheira e indo ao contrário de conselhos que vêem da Direita ... Bem, não tem resultado mas tenciono continuar nesta linha pois a liberdade da minha companheira e a minha liberdade o respeito da minha companheira o meu respeito. Não resulta? Parece me que pouco tem resultado na verdade nos últimos 35 anos ( passados os 5 da "revolução) dai que continuamos todos sem saber o que será o "ideal" ... Já que separações e divórcios acontecem em todos os meios"

(...)

- Saltando para a última publicação, eis a notícia "Angela Merkel ganha título "Pessoa do Ano" por resistir à "agressão russa"", com o texto do maçom: "Como vocês sabem houve e como houve agressão russa. Estes proto fascistas são o cúmulo do ridículos. Gente feia porca e má do pode dar aliás notícias ridículas.
---

Veja-se, portanto, que já a maçonaria se converteu aos encantos do Papa Francisco, sem que hajam conversões realmente ao catolicismo.

24/12/14

BOAS FESTAS - 2014

O blog ASCENDENS deseja a todos
BOAS FESTAS;
Santo Natal, e boas entradas em 2015.

Presépio do Palácio Real na Ajuda - Lisboa

22/12/14

DOUTRINA MÍSTICA DE Sto. ANTÓNIO (I)

(fonte: Voz de S. António - Revista Mensal Illustrada; Janeiro de 1895)

Sto. António de Lisboa

INTRODUÇÃO

"É indubitável que as fontes da doutrina mística, pela qual o homem aprende a elevar-se das criaturas ao Criador, e a viver em união contínua com Deus, cuja imagem vê brilhante reflectida em todas as coisas, são os grandes santos, que souberem, praticaram e ensinaram essa doutrina.

No céu resplandecente da Igreja Católica veneram-se formosos astros de primeira grandeza que deixaram após de si uma trajetória luminosa de santíssima doutrina que ainda hoje ilumina o caminho que da terra conduz ao Céu, e serve de guia aos viajantes para a eterna bemaventurança.

Por pouco versado que se seja no estudo da mística, não se desconhecem os nomes dos principais mestres da arte dificílima de conduzir as almas pelo caminho da perfeição. Desde os primeiros séculos da Igreja se distinguiram nesta ciência, entre outros, para os não citar, a todos, os dois grandes Cirilos e os dois Gregórios, depois o inexcedível Santo Agostinho e o apostólico S. João Crisóstomo, S. Jerónimo, S. Basílio, S. Dionísio, S. Epifânio, etc., etc..

Mais tarde o melífulo S. Bernardo, entre muitos outros do seu tempo. No séc. XIII, o Doutor Seráfico São Boaventura, o teólogo místico por excelência e o angélico S. Tomás, o devotíssimo e subtilíssimo João Duns Scoto, Alexandre d'Alles e Alberto Magno, Ricardo de Mediavilla, e depois Raimundo Lullo e Nicolau de Lira, etc. e ultimamente Santo Afonso e S. Francisco de Salles.

As obras destes grandes homens não pereceram com eles, porque não haviam sido compostas só para os seus dias, e os raios benéficos da sua doutrina não foram como os do sol, que deixam de aquecer a terra apenas ele se esconde no oceano. Todavia, este imponente quadro de sábios doutores e exímios mestres da arte sublime de conduzir almas à perfeição ficaria incompleto e portanto imperfeito, se não juntássemos ao grupo dos grandes homens do séc XIII um vulto proeminente, que, por si só, bastava para glorificar não um somente, mas ainda muitos séculos, como bastou para ganhar milhares de almas para Deus! Refiro-me ao armário das Sagradas Escrituras e nova Arca do Testamento, Santo António de Lisboa!

Ao ver colocar a António no número dos grandes doutores, e logo no meio dos do séc. XIII, em que os houve maiores, talvez a admiração se desperte em mais de um leitor.

Pois não há porque admirar-se; nem somos o primeiro a fazê-lo, e portanto já não tem sequer a graça de novidade. Muito antes de nós, se bem que já depois do meado do presente século, uma assembleia respeitadíssima [Capítulo Geral de Roma, a 12 de Maio de 1856] formada pelo que então havia de mais distinto em letras e virtude em toda a Ordem Franciscana, reunida em Roma e presidida pelo próprio Romano Pontífice, o Imortal Pio IX, emitiu o voto de solicitar da Santa Sé o título de Doutor da Igreja para o grande apóstolo franciscano e ilustre filho de Lisboa.

Não se estranhe, pois, que um português deseje ver honrada a sua pátria, quando os estranhos a querem tão dignamente enaltecer!

Mas, não seria bastante o amor pátrio para nos mover a colar a António entre os grandes mestres da teologia mística, como não foi tão pouco o amor pátrio que levou a mencionada assembleia a desejar cingir a fronte de António como a brilhante laurea doutoral, e não fosse a profundidade da sua doutrina e a santidade da sua vida! Se o nome de António não vem a cada passo citado nos livros de Teologia ou de Mística, deve unicamente atribuir-se, a meu ver, à raridade das suas obras, que além disso tiveram a infelicidade de jazer pelo espaço de 4 séculos sepultadas debaixo do pó dos arquivos, até que mão solícita e estudiosa as foi, por acaso, desenterrar! mas, se os escritos do portentoso apóstolo jaziam ignorados, não o estava a sua doutrina, que a tradição transmitira, e, facto prodigioso! transmite ainda hoje, de pais a filhos, não obstante a distância de sete séculos. Ficou profundamente gravada no coração de quantos o escutaram e com ele viveram, e por essa doutrina firmavam as virtudes do mestre, e cresciam na devoção para com ele.

Sim, amados leitores, a devoção universal, espontânea, para com o grande Taumaturgo, não é uma devoção leviana, despertada por um entusiasmo qualquer, de que muitas vezes se não conhece o verdadeiro motor; não é, uma devoção convicta, inabalável, que procede da persuasão do extraordinário poder de António perante Deus, proveniente da sua grande virtude e santidade de vida, não menos que da sua potentosa ciência, que o tornou o oráculo dos séculos!

Frutos desta crença firme na virtude, no poder e na doutrina de António, são o espírito e o zelo apostólico dessa plêiade grandiosa [o número dos missionários franciscanos, é hoje (1895) de 3000, espalhados principalmente pela Ásia e pela América] de ardentes missionários filhos de Francisco de Assis e irmãos do glorioso António de Lisboa, que, há sete séculos, não cessam de levar a toda a parte, ainda mesmo às inóspitas pragas e impenetráveis brejos da Ásia, da África e da América, a luz do Evangelho, sobre o candelabro que António lhes deixou acesso com o seu exemplo de santidade na vida, e ilustração pela doutrina. É esta a explicação de se achar esta devoção ao Santo Taumaturgo profundamente arreigada no espírito e no coração de quantos ouviram o doce nome de Jesus pronunciado pelo missionário, o qual, ao mesmo tempo que ensinava o gentio a conhecer e a adorar a Jesus, Pai e Redentor de todos os homens, ensinava-o também a amar a António, seu irmão, a fim de que tivesse um advogado poderoso e solícito junto do trono de Deus.

Enganar-se-ia redondamente quem não visse em António mais do que um agitador das turbas, pelos prodígios extraordinários que acompanhavam seus passos por toda a parte, ou um simples artista da palavra, que subjugava as massas populares pela força da eloquência natural e pelo entusiasmo que despertava nos povos, à vista das maravilhas, que, como por encanto, se operavam ao menos aceno da sua vontade.

(continuação, II parte)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XLVI)

(continuação da XLV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. IX
Tudo Se Deve Referir a Deus Como Fim Supremo

1. Cristo - Filho, se queres ser verdadeiramente feliz, é necessário que me reconheças como teu soberano e último fim.
Esta intenção purificará o teu amor, o qual, por sua inclinação viciosa, tende para a criaturas e para ti mesmo.
Se procurares a ti mesmo, logo cairás no desfalecimento e na aridez do coração.
Refere, pois, tudo a mim como teu fim principal. Porque eu sou quem te deu tudo.
Considera todos os benefícios como provenientes do bem superior e fá-los subir outra vez até mim, como à sua primeira origem.

2. Eu sou a fonte de águas vivas.
Os grandes e os pequenos, os pobres e os ricos, vêm em mim beber dessa água que dá vida, e aqueles que me servem, livre e voluntariamente, receberão graça por graça.
Aquele que quiser pôr a sua glória fora de mim, ou deleitar-se em algum bem particular, não se firmará jamais na verdadeira alegria, nem gozará da liberdade do coração, mas achar-se-á impedido e angustiado de mil modos.
Não atribuas a ti bem algum, nem a qualquer homem a virtude; mas sim a Deus, sem o qual o homem nada pode ser.
Eu sou quem tudo deu; a mim é que tudo se deve atribuir; e eu reclamo, com a maior severidade, as acções de graças que me são devidas.

3. Esta é a verdade que dissipa as trevas da vã glória.
Quando a minha graça entra em um coração, e o estabelece na verdadeira caridade, nem a inveja pode corroê-lo, nem a angústia oprimi-lo, nem o amor-próprio conturbá-lo.
A caridade triunfa de tudo e multiplica as forças da alma.
Se és verdadeiro sábio, só em mim te alegrarás e só em mim porás a tua confiança.
Só Deus é bom. Só Ele deve ser louvado e adorado sobre todas as coisas.

CONTRA-MINA Nº 30: Os Novos Estóicos ... (II)

(continuação da I parte)

Tem-se querido fazer popular neste Reino uma espécie de Culto à Senhora D. Maria da Glória; e como já é costume antigo dos Constitucionais inventarem as coisas mais Sagradas para os seus fins, que já neste sentido o Azemel de Guimarães publicou o "Credo dos Corcundas", também agora se inverteu a Oração da Salve Rainha em obséquio à Senhora D. Maria da Glória, rematando-a com o blasfemo peditório... "Para que sejamos dignos das promessas de D. Pedro IV". Desta Oração, assim desfigurada, e invertida se têm espalhado muitos, e muitos Exemplares, que só fazem horror aos bons Cristãos, servem de alento apara um grande número de maus, e dão um claro testemunho de que se prepara tudo, para que esta Glória, no momento da sua chegada, encontre os ânimos bem dispostos a saudá-la, e recebê-la como querem, instam, e há largos anos premeditam os infames Pedreiros Livres deste Reino.... Mas que deve esperar o Senhor D. Pedro desses próprios, aos quais chamou à face dos Céus, e da terra LOBOS FARDADOS? Presume, que são faltos de memória, e que só pela força mágica do seu Nome se tornarão instantemente mansíssimas ovelhas? Julgará ele que as penas afrontosas, mandadas infligir aos Soldados Portugueses no Rio de Janeiro, já se apagaram inteiramente da lembrança daquelas vítimas, e de todos os seus Camaradas? Assentará ele, que os Portugueses, aos quais endereçou, não aquele terníssimo Adeus, que só lhe merecerão os seus fiéis Brasileiros, porém uma despedida insultadora.... "NÃO QUERO NADA DE PORTUGAL", hão-de querê-lo para Soberano, e recebê-lo com os braços abertos? A ferida aberta nas Leis Fundamentais deste Reino seria acaso tão leve, que os Portugueses já não sintam a vivíssima dor, que lhes causara em 1826? Acaso teríamos uma inércia, e frouxidão tal, que consentíssemos de bom grado, que a tornassem a abrir, e fazê-la mais profunda? E por mãos de estrangeiros!! E com a mais sensível de todas as quebras, qual seria a do brio e carácter Português!!!

D. Pedro
Parece, que já se pôs inteiramente de parte a questão da Legitimidade, e que o "legítimo" no entender de muitas, e grande cabeças se há feito sinónimo de "útil", adquirido por toda a sorte de meios ainda os mais infames, e indecorosos... É impossível, que os mais exercitados Negociadores, e Diplomáticos da Europa saibam responder aos argumentos, em que se funda a certíssima, e incooncussa Legitimidade do Senhor D. Miguel I, pois eu tenho lido com atenção os Protocolos das Negociações, que precederam ao seu regresso para Lisboa. De tantas cautelas, com que se procedia, de tantos laços, que se armavam, e de tantos receios, que sobrevinham aos agentes principais da trama, eu concluo necessariamente, que os mais empenhados em fazerem aceitar pelo Senhor D. Miguel as ilegais Propostas de seu Augusto Irmão, eram involuntários apologistas da verdadeira Legitimidade; e se o próprio mui Alto e Poderoso Senhor D. Miguel I não fosse tão generoso para com os seus maiores inimigos, e deixasse correr à vontade as penas do seus defensores, então se conheceria, que o princípio da Legitimidade, é o que mais facilmente se posterga, e anula, todas as vezes que se põe as miras em algum interesse maior...

Escreveu a medo em tais assuntos, e só direi, que assim como eu tantas vezes ponho o ramo numa parte, para vender o vinho em outra, assim também a Diplomacia moderna está fazendo todos os dias outro tanto, e mais de uma vez porá, verbigratia, o ramo no Tejo, para vender o seu vinho nas margens do Vistula, ou do Neva... Se a uma formiga em literatura, e a um ninguém, a um zero em altas políticas fosse lícito fazer uma pergunta não às Testas Coroadas, porém aos seus Ministros, eu a formaria desta sorte. Qual é a razão, porque se os Franceses querem outro Rei, se defere imediatamente à vontade dos Franceses? Talvez me respondam, porque os Franceses são um Povo grande, rico, e poderoso, e não temos forças bastantes para lhes darmos regras e leis... E se eu replicar; mas que diremos dos Belgas? Acaso serão eles tão grandes como os Franceses? É natural, que me respondessem, que têm aprovado esta revolução por evitarem guerras, que poderiam envolver toda a Europa. Bem está; mas permitam os mui altos e magníficos Senhores, que eu lhes proponha humildemente o caso de Portugal. A maioria da Nação quer o Senhor D. Miguel I, e não quer outro. Seremos nós inferiores aos Belgas, e aos Gregos? O tempo mostrará, que lhes somos infinitamente superiores; e se julgam conquistar sem guerra, e só com um feixe de Notas Diplomáticas a Nação Portuguesa, saibam de uma vez, que a nação Portuguesa, que já assombrou a Europa, com a importância e variedade de suas descobertas, e com a superioridade de sua marinha, e com o valor de suas tropas, fará pagar bem cara a insolência e ousadia, com que lhe queiram meter em casa uma Senhora, na qual não vê, nem pode ver outra coisa, senão um simples autómato da Pedreirada, e que forçosamente desapareceria da cena, logo que parecesse aos Mações figura inútil, e escusada.

(continuação, III parte)

20/12/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XLV)

(continuação da XLIV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap.VIII
Baixo Conceito de Si Próprio Diante Da Grandeza de Deus

1. Alma - Falarei ao meu Senhor, eu que não sou mais do que pó e cinza. Se me tiver em melhor conta, eis que Vos ergueis contra mim, e as minhas iniquidades darão testemunho a que não poderei responder. Porém, se perco todos os meus vãos sentimentos, se me abato, se me aniquilo, se me reduzo àquele pó e cinza que sou na realidade, a Vossa graça me será favorável e a Vossa luz alumiará o meu coração.
As menores faíscas desta estimação presunçosa de mim mesmo serão extintas no abismo do meu nada, sem que jamais possam outra vez acender-se.
Neste abismo é que Vós me fazeis conhecer a mim mesmo; que me ensinais o que sou, o que fui e o estado de que saí. Eu nada sou e eu não o sabia.
Quando me entregais a mim mesmo, vejo que não sou senão fraqueza e um puro nada. Mas se lançais para mim a Vossa vista favorável, logo me sinto forte e cheio de nova alegria.
Quanto a Vossa misericórdia é admirável para comigo, sustentando-me e honrando-me com Vossas amabilidades, ainda que pelo meu próprio peso me sinta inclinado para a terra!

2. Isto é um grande efeito do Vosso amor, que se antecipa gratuitamente socorrendo-me em mil necessidades, guardando-me de graves perigos e salvando-me de infinitos males.
Eu, amando-me desordenadamente, me perdi.
Procurando-Vos, encontrei-me de novo e o Vosso amor me fez compreender o que realmente sou.
Assim, a Vossa bondade infinita, meu Deus, me concedeu graças incomparavelmente superiores aos meus merecimentos e superiores ainda àquelas que eu me atrevia a esperar de Vós e a pedir-Vos.

3. Bendito sejais, Senhor, porque, anda que eu seja indigno de todo o bem, contudo é próprio da Vossa majestade e bondade infinitas fazer bem ainda aos ingratos e àqueles que andam mais apartados de Vós.
Fazei que nos voltemos para Vós, a fim de que sejamos agradecidos, humildes, devotos; porque só Vós sois a nossa salvação, a nossa santidade, a nossa fortaleza.

19/12/14

CONTRA-MINA Nº 30: Os Novos Estóicos ... (I)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 30
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Os Novos Estoicos, ou Desprezadores da Glória.

"Tirana paixão, é esta paixão da Glória! Uma vez que se chegou a apoderar de um coração, onde não penetrem os sentimentos Religiosos, nunca mais largou a preza; e se de quando em quando se faz semblante de não forcejar, nem trabalhar pela Glória, tudo isto é sobreposto, e ilusório, porque se houver ocasião favorável romperá tão estrondosamente a demanda paixão da Glória, que se dá logo a conhecer, que ela dormia como fogo debaixo das cinzas, e que todo o empenho contrário não foi mais, que uma estudada, e formalíssima hipocrisia. Esta paixão é tão ardilosa, que às vezes é tanto mais absoluta dominadora, quanto mais se afecta desprezá-la.... e não é estranho, que os aparentemente fugitivos desta paixão, e que mais longe parecem estar do alcance de seus tiros, devam reputar-se as suas principais, e mais escolhidas vítimas.

Quem parecia fugir mais de tudo quanto era Opulência, e Glória, que o Cínico Diogenes? Quem não diria, que ele encerrado na sua pipa era o mais eloquente Censor de todos os amantes da Glória? Pois não era assim. Diogenes mostrou-se neste lances o mais ardente procurador da Glória, o que é tão certo, que o próprio Alexandre magno, que tanto almejava pela Glória, achou que sem renunciar esta paixão, o que mais lhe ficaria bem era o ser Diogenes, caso dado que não fosse Alexandre....

Que era a insensibilidade Estoica, senão um desenfreado apetite da Glória? Nem o próprio suicídio de Catão argue outra coisa mais, que uma repugnância invencível a ser prisioneiro de César, e as mui viva representação, de que era mais glorioso sacrificar a vida por suas próprias mãos, que o conservá-la por benefício do seu maior inimigo. Ora os nossos Pedreiros Livres não pareciam talhados para estas virtudes Estoicas, mas visto que eles tem homens para tudo (porque os talentos militares, e políticos lá se acumularam todos, sem ficar a mais pequena dose de senso comum para os malfadados Realistas) instituiriam recentemente um esquadrão de novos Estoicos, ou desprezadores da Glória... Não há presentemente, dizem eles, nada que temer, nem da parte do Senhor D. Pedro ex-Imperador do Brasil, nem da Senhora Princesa do Grão-Pará.... o medo a estes papões é medo infantino, é ressuscitar em certo modo a Seita Sebástica, pois é necessário uma credulidade mais que Sebástica, para se acreditar, que se façam novas tentativas para ser colocada no Trono Português a Senhora D. Maria da Glória..... Tão pequena foi a lição do Brasil, que já lhe esquecesse, ou lhe deixasse algumas saudades dos Reinos Constitucionais? Tomaram eles viver quietos, e sossegados em algum cantinho da Europa!!.."

D. Maria da Glória, neta de D. João VI, e Sobrinha de D. Miguel I
Ora aqui temos um novo ardil Maçónico dos mais subtis, e quase imperceptível, para quem não esteja habituado a conhecê-los, e desmascara-los. Sabem que a lealdade Portuguesa acabou de tomar grandes alturas, que desconcentraram os formosos planos do Grande Oriente Lusitano, e por isso é necessário, quando se não consiga o destruí-la, ao menos fazê-la quebrar,ou esfriar; e não há, nem pode haver cousa tão conducente para este fim, como espalhar-se, que não haja o mais leve receio de tentativas por parte da Senhora D. Maria da Glória, e que seu Augusto pai, depois da renúncia espontânea, e solene, que fez das Coroas Real, e Imperial nunca mais tomará calor porque vinguem os Direitos de sua Filha; e que todo engolfado nas delícias de vida particular olhará com absoluta indiferença para os dois Ceptros, que jazem a seus pés, e que não merecem a pena, de que ele se abaixe para os levantar, e resumir.... O caso é, que assim deveria ser, e o mesmo Senhor, que pôde ler de cadeira sobre a firmeza, e estabilidade dos Reinos Constitucionais, deveria agora imitar a Ecuba do Trágico Latino, e falar à sua desgraçada filha, pouco mais ou menos neste sentido: "Quem se fiar nas promessas dos Mações, e tiver por seguros aqueles Tronos, que a Maçonaria, ou ergue, ou desmancha a seu sabor, olhe para mim, e para o Brasil....

Me videat, et te Troia.

Lançar-te, minha querida filha, nesse turbilhão Constitucional, será o mesmo, que preparar-te uma sorte a mais equivoca, e a mais desgraçada.... o total dos Portugueses não te ama, nem te quer; deixemos para sempre a ideia de Reinar sobre uma Nação entusiasmada pelo seu Príncipe, e temerosa de perder a sua Religião; pois caso dado, que por auxílio das Potências Europeias chegássemos a vencer a porfiosa resistência, que nos espera, e que tão insolentemente nos ameaça, que glória terias tu de Reinar sobre montões de cadáveres, e ruínas? E que glória teria eu de sacrificar ao ídolo da Maçonaria o Trono, onde Reinou meu Pai, onde luziram os meus Antepassados, e onde eu poderia estar hoje assentado, se me não deixasse arrastar de pérfidos conselhos? Obediente ao meu Pai, teria eu sido o melhor de todos os filhos, nunca se teria quebrado o laço, que unia os dois Reinos de Portugal, e do Brasil, nunca eu teria abdicado, e nenhum de nós teria de mendigar o pão estrangeiro..."

Cautela, e vigilância, meus amados Realistas, e verdadeiros Portugueses; nada disto assim é..... Os próprios, que para vos adormecerem, e para vos apanharem totalmente desprevenidos vos dizem no meio das Praças, que não há que temer de uma aspirante à Coroa de Portugal, que se nunca a obteve quando seu Augusto pai era Imperador, menos a poderá obter quando seu Pai desceu à condição de um simples particular... só querem iludir-vos, e atraiçoar-vos, porque são os mesmos, que dizem ao ouvido dos que pertencem à Confraria, que nem todos sabem guardar tais segredos: lá chegou a Brest a Senhora D. Maria da Glória, que foi recebida com honras de Soberana....... temos ainda muito que ver....

(continuação, II parte)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XLIV)

(continuação da XLIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap.VII
Ocultar a Graça Debaixo da Humildade

1. Cristo - Filho, é muito útil e seguro para ti ocultares a graça não te desvanecendo de a ter, nem falando muito dela, nem presumindo de ti porque a possuis.
O melhor é desprezares a ti mesmo, considerando a graça recebida como dada a uma pessoa que a não merece.
Não deves fiar-te muito na presente disposição do teu espírito, pois facilmente podes mudar-te em disposição contrária.
No tempo em (que) possuis a graça, considera a grande pobreza e miséria em que ficas se ela se retira da tua alma.
A perfeição da vida espiritual não consiste somente em teres a graça da consolação, mas em sofreres com humildade, paciência e abnegação, que ela te seja retirada; em não deixares de orar, nem de fazeres os exercícios do costume, antes executá-los do melhor modo que puderes e entenderes; e em não te descuidares de ti por causa da secura e das inquietações que sentes no teu interior.

2. Muitos se deixam levar da impaciência e da preguiça, logo que as coisas não correm a seu jeito. Mas o caminho do homem não depende sempre do homem. A Deus pertence dar a graça e o gosto dela a quem lhe parece, do modo que lhe parece e seguindo a medida que lhe parece.
Algumas pessoas imprudentes se arruinaram por um calor de devoção que as levou a empreender mais do que podiam, sem se advertirem de que os seus projectos eram improporcionados à sua fraqueza. Consultaram mais o zelo do seu espírito do que a luz da sua razão.
Tendo a presunção de aspirar a coisas de que não eram capazes diante de Deus, perderam a graça que tinham recebido. Caíram repentinamente na pobreza e no abatimento, no momento em que, como águias, queriam pôr o seu ninho no Céu.
Humilhados e abatidos, aprenderam que não podem voar até mim com suas próprias asas, mas que devem esperar, acolhendo-se à minha protecção.
Os que ainda são novos e inexperientes no caminho de Deus e não têm Dele os devidos conhecimentos, facilmente se perderão, não se deixando aconselhar por aqueles que têm a luz da prudência por serem experimentados.

3. Se tais principiantes preferirem seguir os seus próprios pareceres, dispensando os das pessoas às quais o tempo facultou o conhecimento das realidades, correm eles grande perigo, a menos que Deus os socorra com a graça de renunciarem o aferro aos seus próprios sentimentos.
Aqueles que se presumem de sábios raramente se deixam conduzir por outros. É melhor ser humilde com pouca ciência do que ser muito sábio com desvanecimento de si mesmo.
Um menor dom é muito melhor do que um grande, quando este serve de ensoberbecedor a quem o possui.
Não procede discretamente quem se entrega de todo à alegria, esquecendo-se  de sua anterior miséria e do puro temor de Deus, que sempre receia perder a graça recebida.
É também falta de virtude perturbar-se e desfalecer nos sucessos tristes e penosos e não ter, então, firme confiança no meu patrocínio e na minha bondade.

4. Aquele que se considera muito seguro na paz, achar-se-à na guerra tímido e covarde.
Se soubesses viver sempre humilde e pequeno no teu conceito, contendo-te nos limites de uma justa moderação, não estarias tantas vezes na tentação e no pecado.
Quando te achares penetrado de um grande fervor, deves meditar sobre o que será de ti, se retirada for essa graça.
Se a graça se ausentar de ti, considera que ela pode vir outra vez. Dela não te privei por algum tempo, senão para que te acauteles e dessa ausência possas tirar proveito para teu bem e glória minha.

5. Mais útil te é esta prova do que uma paz perpétua e imutável.
O merecimento de uma alma não se deve medir pelas visões e consolações divina, nem pelo conhecimento das Escrituras, nem pelos graus de honra e dignidade.
Para se conhecer o valor de alguém, deve-se verificar se está fundada em verdadeira humildade e se vive cheio de amor de Deus; se procura a glória do Senhor com a mais pura e recta intenção; se sabe desprezar-se a si próprio; e se gosta mais de ser desprezado e esquecido do que estimado e louvado pelos homens.

CONTRA-MINA Nº 29: Valor da Lealdade dos Portugueses (II)

(continuação da I parte)

D. Afonso de Albuquerque
Que Nação da Europa nos deu Leis em quanto éramos pequenos em território? Nenhuma. E quantas auxiliámos, ou antes preservámos de iminente e completa ruína? Todas... A espada nua de Afonso de Albuquerque, lampejando em Ormuz, avassalando o Golfo Pérsico, e fazendo tremer a própria Meca.. já então salvou a Europa... mas para que buscar sucessos distantes de nós.. Quem senão o ferro Português abriu caminho em nossos dias ao salvamento da Europa? Seriam Jena, Austerlitz, e Friedland as primícias da Liberdade Europeia? E depois da invencível continência dos Hespanhóis, não competirá antes essa glória aos vencejantes louros, colhidos nos Arapiles, e em Victoria? Seriam por ventura mais frondosos os de Talavera, em que os Portugueses não tiveram parte? Se a Hespanha sucumbisse aos formidáveis Exércitos de Napoleão, quem teria forças para o deter na carreira de seus triunfos? Quem obstaria ao já mui adiantado cativeiro de toda a Europa? Como poderia a Inglaterra sempre infeliz, e mal sucedida nos seus desembarques Europeus, levantar um padrasto contra as agigantadas forças do mais célebre dos Conquistadores modernos? Era talvez um inepto; um fraco General, o que até é louvado; e tantas vezes aplaudido João Moore? Não o era por certo; mas faltaram-lhe dez mil Portugueses, que se os tivesse, por certo que seriam bem diferentes os resultados da Acção da Corunha, como foram bastantes uns 30$ Ingleses para defenderem Lisboa da agressão intentada por 110$ homens...

E para que trago eu estas memórias recentes, e geralmente sabidas, que por isso mesmo talvez sejam enfadonhas a uma boa parte dos meus leitores.... Trago-as porque estou cheio de confiança no valor, e na lealdade das nossas Tropas de terra... que não mudaram fisicamente, dentro de um espaço brevíssimo de tempo, e que devem reputar-se melhoradas, e adiantadas no moral, quando já não é um Chefe estrangeiro, quem as chama para a defesa de seu País, é sim um Rei natural, e legítimo quem as convida, para darem ao mundo novas lições de continência, e valor.

A Maçonaria, lisonjeou-se com a estulta opinião, de que já não há Portugueses como os de algum dia; aproveitou o descontentamento de certa classe de Fidalgos, (que pôde ser guardem nos seus Museus a Carta de Par, e as famigeradas [Pelles?], como testemunho eterno de que lhes parece honra, e não é senão perfídia, e fatuidade) fez valer a perícia, e a dexteridade de meia dúzia de franchinotes da Escola Coimbrã, espalhados por este Reino, e talvez empunhando nas suas mãos a balança de Astréa[?], que esquecidos de si, e dos seus deveres, e pode ser que aliciados com a esperança de uma Pasta, (só a dos meninos, que aprendem a ler, ficaria bem a este mentecaptos) fazem quanto neles é, para que o Sistema ressuscite, e prevaleça; pintou enfim a Loja Directora, que era chegado o momento favorável de sacudir-se o jugo imposto, e agravado pelo Senhor D. Miguel I....

Quanto se enganaram! E que vazio campo vai abrir-se à ingénita valentia, e lealdade dos Portugueses? Os Portugueses com o seu Rei à frente, e com o seu Rei dado claramente por Deus; para que não se acabasse a Fé em Portugal, serão invencíveis..... Parece-me, que estou vendo renascer os dias mais gloriosos do Exército Português.... Se um António Veloso, levando a Bandeira na tomada do Cabo de Gué, teve as mãos cortadas, e apesar disso segurou a Bandeira com os sangrentos cotos, e depois de lhe cortarem estes lhe agarrou com os dentes, e assim mesmo a plantou sobre as ameias da Fortaleza.... eu vejo tal ardor, e tal vontade de combater nos Soldados Portugueses, que já me parece estar vendo mais que uma heroicidade deste género. Se um D. Pedro de Menezes defendeu a Praça de Ceuta com um CACETE de Zimbro, facilmente aparecerá mais de um cento de imitadores de tão desusada valentia; se D. Lourenço de Almeida, estando numa Nau cheia de inimigos, somente com a sua espada lançou quatrocentos ao mar; e Duarte Pacheco só com 70 Portugueses combatia, e destroçava Exércitos numerosos; se D. Jorge de Castro se defendeu em Chale de 50$ Mouros com tal desproporção de forças, que a um dos nossos respondiam mil inimigos,e presumo que ainda haverá no Exército Português quem os imite no valor, e já poderia nomear um crescido número de briosos Oficiais, de quem espero outras semelhantes gentilezas de valor, mormente quando o seu Rei, (e que Rei!!!) lhes facilitar com os seus exemplos, e denodo, e lhes aplana os sempre [?]brosos, e árduos caminhos da heroicidade.

Vejo, (não me cansarei de o repetir) vejo em todos os Corpos do Exército Português uma cede, um empenho tal de combater, que me seria necessário ser o mais estúpido de todos os homens para deixar de conceber firmíssimas esperanças, de que se for indispensável correr às armas, por certo que nos será propícia a sorte dos combates. Esses veteranos, que mais de uma vez tem obedecido à voz do seu Rei, não os próprios, que militaram na guerra da Península, e que ainda não esqueceram a grande arte de vencer inimigos por mais numerosos, que eles sejam; esses veteranos formam num Exército já pronto, já adestrado para a guerra. E para que género de guerra? Para a mais sagrada de todas, em que será mui fácil cruzar as duas palmas da Lealdade, e do Martírio!!!

Parabéns, e mil parabéns à tão leal, como esforçada Guarnição de Lisboa, e aos Esquadrão Sagrado, que é no meu conceito a Guarda da Polícia, e aos Voluntários Realistas, e aos milhares de fiéis habitantes, que de súbito apareceram feitos Soldados, expondo-se, expondo-se, como se o fossem há largos anos, à maior força de um trabalho, que teria feito sucumbir os menos experimentados, se um princípio interior de coragem os não tornasse como de bronze, para mostrarem ao seu Rei, que nem se negam a defendê-lo, nem a morrer por ele.... Todos sem excepção parecem desde já prometer, afiançar, e até jurar, que não será menos o mui Alto e Poderoso Senhor D. Miguel I à testa dos seus Filhos, do que foram os Senhores D. João I, e D. Afonso V. É nestas circunstâncias, que o Reino de Portugal é para mim tão grande, e respeitável, que não posso consentir que lhe chamem pequeno. Muito embora sejamos pequenos em relação às grande Potências da Europa, que se nos avantajam em território seis, dez, e ainda mais vezes, e em forças navais, e terrestres, somos por certo demasiadamente grandes, para sermos escravos de qualquer Nação, por mais poderosa que seja, e que intente deprimir-nos, e agrilhoar-nos....

Representou-se-me agora estar ouvindo um como reparo, ou objecção dos meus leitores.... Pois não conheces o progresso horrível, e espantoso da gangrena interior, em que labora, e com que se definha todos os dias, e cada vez mais, e mais este desgraçado Reino? Não penetras o estado actual, e as forças do Maçonismo Português [melhor dizer "do Maçonismo em Portugal"]? Não tem ele abocanhado, ou empolgado nobres, e plebes, grandes e pequenos, sábios e ignorantes? De 1820 para cá tudo serve, e o que mais lhe importa é fazer crescer o número dos adeptos, para que no momento oportuno se desenvolva por tal arte, que nenhumas forças humanas o possam contrariar, ou vencer.... Nunca este infelicíssimo Reino de Portugal tratará de resistir a uma invasão estrangeira, sem que tome em contra, e ao mesmo passo outra invasão, qual é a dos seus próprios naturais, que hão-de metê-lo em dois fogos, e necessariamente lhe dividiram as forças, sem que muitas vezes saiba à qual deva resistir primeiro....

Confesso, que a objecção é forte, e seria fortíssima, e até indestrutível, se os Mações Portugueses [entenda-se antes "Mações em Portugal"] fossem os mais valentes, assim como são os mais cobardes de todos os homens. Dizia o Poeta Virgílio, que para as abelhas, quando mais assanhadas guerreiam entre si, não há remédio melhor do que atirar-lhes mãos cheias de poeira, e que logo todas essas rixas, e bulhas se desvanecem.

Pulueris exigui jactu compressa qui[?]unt

É igualmente simples, e fácil o remédio para os Mações, todas as vezes que se queiram rebanhar, e que zunindo levantem a grimpa contra os verdadeiros Realistas. É o CACETE, que anda tão impresso nas costas de uns, e na imaginação de outros, que já por vezes conseguiu pacificar este Reino.

Em S. Paulo de Frandes 7 de Agosto de 1831.

Fr. Fortunato de S. Boaventura.

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