31/01/16

NOTÍCIA - "VOCABULÁRIO FILOSÓFICO-DEMOCRÁTICO" EM ÁUDIO


Esta semana dará início a difusão da série de áudios do dicionário satírico "Vocabulário Filosófico-Democrático". Trata-se de um projecto independente, e caberá ao blog ASCENDENS fazer as publicações oficiais.

Os áudios terão fundos de música portuguesa, e não mostrarão toda a obra (apenas as partes principais).

O "Vocabulário Filosófico-Democrático" denuncia os erros liberais-maçónico-republicanos, à luz do "uso" e pensamento católico. Um anónimo português, ou Fr. Fortunato de São Boaventura ou o Pe. José Agostinho de Macedo (o tradutor), foi o comentador da obra traduzida ao português (o que nos dará uma mais clara ideia do pensamento tradicional da época).

Bom proveito a todos os tradicionais católicos.

29/01/16

CAPELA MÓR DA SÉ DE ÉVORA (IV)

(continuação da III parte)


Se o Espectador divide as Paredes, e debaixo para cima começa a contemplar com atenção o que alcança a vista: o soco, ou a primeira enfiada de mármores azuis representa a Cogitação do Homem que de Manto escuro rajado de branco não sente ver-se carregada com o peso que sustenta, antes dá-se por muito satisfeita no lugar, que ocupa e com o sério do seu olhar repreende a curiosidade, e distracção, manda o silêncio a qualquer que entra, ou lá se demora. Subindo com a vista, a parte média do Edifício é o retrato da juvenilidade vestida de gala, como quem acaba de sair do Toucador; a cor de rosa que mais aparece, o ouro que lhe tinge as faces, o verde, que sobressai, e é o símbolo da vida vegetativa, tudo indica a presença de um ser amável, cheio de formosura, que estima os segredos da ordem, abençoa os bens da paz, e dá graças àquele a quem serve, que na Caridade, com que ama tem a verdadeira medida das suas Misericórdias. Ninguém olha de perto para este lado de faces sanguíneas, que não deseje possuir uma garganta canora, voz ajustada às modulações do culto, ninguém há que não queira ver-se transferido nas boas prendas da juvenilidade.

Mais ao alto fica a Cimalha, e o resto que termina que são os olhos daquele corpo: a cor branca, que alu sobressai imita o humor cristalino por onde a luz passa a mostrar-se a todos a ver, e ser vista, e o lugar emite, por onde se reparte quer dizer que além de luminosa o seu ofício é servir de Espia, e vigiar os Ministros do Altar nas funções a seu cargo.


RELAÇÕES COM O RITUAL

Seja a Capela Mor de uma Catedral o Campo de operações Cristãs, ou qualquer outra imagem a que se queira assemelhar, deve ser ajustada aos destinos sublimes da Igreja, a primeira Rainha do Mundo, e desde que há Mundo com estados, e domónio independentes. Mui bem entende a Igreja dar-se nas suas representações grande distância entre a imagem, e a realidade entre a figura, e o figurado, e para redusir esta distância isto é para elevar os Fiéis ao alto conceito dos Mistérios Santos é que emprega no culto toda a demonstração de pompa e grandeza. Que funções não aponta o Calendário na roda do ano que é preciso celebrar com a solenidade do rito? A Semana Santa, Natal, Corpo de Deus, as Bênçãos Sagradas, a Ordenação Clerical pedem Pontífice, Sacerdotes, Ministros, Acólitos, Directores com ofícios separados, que precisam de uma Área extensa para nem se confundirem, nem esconder uns com outros. Demandam distribuição metódica desta Área, para nela as Pessoas se distinguirem acções, perguntas, e respostas vozes, e sentimentos, os Aleluias do Miserere as Lamentações dos Hosannas oxalá que sempre se pudesse dar nas funções do culto uma pronúncia clara, e distinta em Sílabas, e Letras bem farta de ar sem falência, nem de dentes nem da respiração nasal, por fanhosa, ou desentoada...

Eu ainda não assisti a Pontifical nesta Capela Mor porque (mal hajam contemplações!) na Igreja Catedral de Évora, nem os Santos Óleos se benzem há mais de dez anos. Entendo que pelo graduado do pavimento, pelo desafogo do Tecto, pelo espelhado das Paredes, pelas Abóbadas lisas, sem concavidades, nem cotovelos há boas proporções para o serviço do Báculo, e da Mitra e um Pontifical bem dirigido, e executado à Noite de Natal por exemplo com 300 lumes mais de placas em cachimbos de solda, á roda das Colunas imitando as Cartuxeiras de Caçadores para reflectir milhares de luzes nos espelhados Mármores seria função primorosa de grandíssimo esplendor, e magnificência. Entendo que tirado o Crucifixo (*) da frente posto como está acima do Docel, superior ainda à Cimalha, onde nem serve de ornamento nem de veneração por ficar muito além das vistas fronteiras a quem entra; com seus cancelos de Mármore à entrada e reduzida ao serviço Pessoal de um Prelado Arcebispo, ou Bispo pertencente ao Paço Pontifício seria talvez a Capela mais primorosa da Cristandade.



EXTERIOR


É grande formosura desta Obra a Serventia exterior por comunicações excêntricas abertas nas Paredes com boa ordem, segurança e claridade suficiente. Entra-se pela Porta da Capela da Cruz ao lado da Epístola, e logo começa um Corredor que vai de volta por detrás do altar até à Capela do Sacramento onde tem saída. Este Corredor é alto e largo quanto basta para o fácil trânsito, e desafogado.


Dele sobem duas Escadas de Caracol de 31 degraus, que conduzem aos Coretos espaçosos, e cómodos a seus destinos. Segue-se um pequeno lance de Escadas com 8 degraus; seguem-se outros mais pequenos, que dão lugar a andar-se à roda do Edifício por caminho descoberto, e seguro. Desta varanda vão duas Escadas de caracol de 36 degraus que terminam no Terrado, e é o remate da Capela correspondente ao Pavimento.


Em volta do Terredo cerca a Balaustrada de Mármore branco, de cinco palmos de altura maciça, e grossa quanto pede o lugar eminente a que se eleva, e forma do Terredo uma Varanda soberbíssima no ponto dos mais subidos da Montanha, em que Évora está fundada.


Nos Mês de Julho, Agosto, e Setembro a quem olha deste Terredo centro de um Horizonte de 6 a 8 Léguas de diâmetro 16 ou 20 de circunferência sem cortaduras ou interrupções, e só com nevoeiros de fino pó que andam ao largo representa-se-lhe um Mar inflamável, dividido em tantas corrente, ou Riachos cor de cinza quantas são as Estrelas, que saem de Évora, e vão dar às diferentes Terras da Província, ou fora dela.


Sobre o Peitoril da Varanda há dez pirâmide de Pedra altas 9 palmos, que terminam em Cortados semelhantes a Línguas de fogo estas Colunas representam Archotes, ou Fogareiros, que de noite, e de dia ardem a iluminar o Edifício e indicam a largas distâncias a sua Magnificência.

Fogareiro
FIM

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº5 (III)

(continuação da II parte) 

GOVERNO, GOVERNAR – Há pouco tempo, que estes Vocábulos egrau-se a ser propriedade dos perversos Filósofos Democráticos. Antes desta época, não era o Governo considerado por eles, senão como egrau de sua sanguinária mordacidade, e como a coisa mais vergonhosa do Mundo. Porém empenhou-se o Diabo, e permitiu Deus que o Governo caísse em suas mãos: e eis-aqui a ocasião de nos explicarem, o que entendiam por aquelas palavras. O Governo Republicano Filosófico é unha com carne com a Política (vid.) Democrática. Lançar a espada da discórdia entre os Cidadãos pacíficos; destruir o Clero, o culto, e os costumes; aniquilar a Religião; consumir até aos tutanos os possuidores, e afazendados com enormes contribuições; arruinar o Comércio com excessivos pedidos; cerrar a boca a toda e qualquer Representação (especialmente se contém verdades, e reclamações) com presídios, desterros, e fuzilaturas; pôr nos lugares de Juízes homicidas e ladrões; enviar por Intendentes os falsificadores de Câmbios, e Moedas; por Directores os ímpios e orgulhosos; e por Cobradores os mais cruéis e fanáticos: eis-aqui o que em idioma Republicano se chama verdadeiro Governo. E como infalivelmente, se os Diabos viessem governar a terra, vale de ter instalado este modo de governar, por isso nos parece que com muita mais razão deve chamar-se Governo Demoniocrático, do que Democrático também não falta quem assegure que governar, em a língua moderna, deve traduzir-se em a antiga na palavra destruir. Porém deixemos isto, que seria um nunca acabar. 

Há homens capazes de pôr a sua língua no Céu mais puro; e os há que têm a vilania de assegurar que os Governantes Democráticos não têm feito maldita a coisa, que seja boa. A estes selvagens lhes diria tanto, e tão bem, que os deixaria sem alentos! Porque, descarregado o Governo Democrático (por meio da simplificação de sua política) dos fastidiosos cálculos do Comércio, Rendas, e Artes, e provendo a todas estas coisas com os facílimos arbítrios de tirania, e opressão, tem-se estado por isso ocioso? Não tem gasto todo o seu tempo, e lugar em importantíssimas tonteiras? Não há empregado seus suavíssimos, e paternais cuidados, suas perspicazes ideias, seus talentos sublimes em grandes bagatelas, e puerilidades tão ridículas, que a um mesmo tempo serão o imortal monumento da sua sabedoria, e sua glória, e o mais autêntico testemunho da pouca vergonha, e crassa ignorância dos antigos Governos, que nem sequer se egraus volver os olhos a tamanhas frioleiras? Pois que? É pouco negócio ter feito numerar as casas, escrever os nomes dos caminhos, onde os não havia, introduzir o modo de contar à Ultramontana, destruir as rótulas, e adufas, e outras duzentas coisas mais, qual delas mais necessária, e importante? Quantos cuidados, suores, e fadigas não tem custado ao Governo Democrático as árvores da escravidão, digo, da liberdade; os laços, sua cor, e o tamanho que deviam ter? Tem-se trabalhado por ventura tanto em achar a quadratura do circulo, como eles têm trabalhado em resolver, se os barretes, ou gorras vermelhas (distintivo da fúria Republicana) se deveriam trazer por dentro, ou por fora do chapéu, sobre de que cor seriam as Bandeiras Republicanas; sobre a destruição dos escudos d’armas dos Nobres; sobre os títulos de Cidadão, e Cidadoa; sobre o tamanho dos sabres, e se os haviam de trazer de rastos, ou suspensos? Hão brilhado pouco seus talentos, sua invenção, e sua egrause em introduzir nos passaportes a cor da barba, a testa, olhos, cabelos, boca, orelhas, e narizes? (e muito favor nos fazem em não pedir que descubramos mais um olho para eles verem, e tomarem feições, etc.) Enfim vamos adiante... E hão roído pouco as unhas, e estragado pouco os miolos em idear as Festas Patrióticas, e arranjar umas Canções, em que estão disputando a primazia, os embustes, as poucas vergonhas, e o mais perverso fanatismo? E depois de todas estas coisas, e outras infinitas, haverá quem diga, que o génio benéfico Democrático não há sobressaído a todos os mais Governos na arte de governar? Basta ler seus Proclamas, seus Escritos, e suas interessantíssimas Dissertações impressas, e estampadas sobre a ignorância crassíssima dos Povos no modo de contar as horas; e basta um lançar d’olhos sobre os engenhosíssimos Diálogos entre os corrimãos, e os egraus, e outras muitas Obras tão excelentes como esta, para poder formar ideias da eminente, e profunda Ciência Democrática sobre matérias de Governo. 

Porém tudo isto é uma bagatela em comparação das imensas fadigas, que há empregado, para baptizar com diferentes nomes as imposições, os direitos, e alcavalas, que tem crescido sem limite, debaixo dos nomes de donativos patrióticos, empréstimos forçados, loteria de bens, e outros sessenta mil. E onde vamos a parar com as angústias mortais, que teve que sofrer, para achar novos meios de animar o aturdido fanatismo, e sustenta-lo; de persuadir a seus tiranizados escravos, que eram livres; de fazer crer aos infelizes, e desgraçados, que gozavam felicidade; e de que acreditassem cegamente que aqueles mesmos, que enganam, seduzem, intrigam, roubam, e assassinam o Povo, são os seus mais leais, sinceros, e benéficos amigos? Aturdir-se-á, e pasmará a posteridade ao ouvir que a Política Democrática prevalece-o por algum tempo em certos Países a benefício da confusão da língua; e ficará atónita ao saber as medalhas, os monumentos, os louvores, e congratulações dadas pelos Povos com tanta profusão àqueles mesmos, que os privavam inteiramente da Religião, liberdade, independência, bens, comércio, cultura, costumes, e de quanto pode aliviar, e adoçar as amarguras, e dissabores do homem sobre a terra. E poder-se-á negar ao Republicanismo Filosófico a verdadeira arte de governar? Uma coisa há boa, e é que já se não dá engano, sobre qual seja ou não o Governo Filosófico Democrático. Conservar a Religião, a pureza de costumes, e as propriedades: castigar os blasfemos, dissolutos, e delinquentes; prover as necessidades, e aflições dos Povos; fomentar o comércio, agricultura, e as artes; manter em segurança, e quietação a honra, a vida, e os bens dos súbditos fiéis, e honrados; e tudo aquilo finalmente que outras vezes se chamava governar bem, se chama republicanamente tiranizar, e por conseguinte está mil léguas distante, pelo menos do Governo Democrático. Destruir numa Sociedade quanto há de verdadeiramente útil, e seguro; ter a todo o bom Vassalo num tremor perpétuo por sua consciência, vida, bens, e honra; introduzir em os mando os facinorosos e ateus; sustentar o mais horrível despotismo em favor dos confiscos, dos desterros, e das espoliações; introduzir no Estado o Ateísmo, a anarquia, a libertinagem, a miséria universal, e tudo quanto até agora se chamou verdadeira tirania, é cabalmente o que em idioma Republicano se chama governar bem; e o que, por conseguinte constitui todo o Governo Filosófico Democrático. E porque se chama isto bom governo? A razão não pode ser mais concludente; é porque nele há laços tricolores, largos chifarotes, fanatismo, cabeças destroncadas, escritos insolentes, e abominável libertinagem; porque o vilão, o lacaio, e o malsim são os que obtêm os Empregos, e os que são saudados com os títulos de Tenentes, Capitães, Chefes de Batalhões, ao mesmo tempo que estão exercendo os honradíssimos Ofícios de esbirros, denunciantes, e até muitas vezes outros infinitamente piores. 

(* Grandes serviços desta natureza devemos aos nossos Regeneradores. Sobre a cor, e forma do laço gastaram-se bastantes Sessões: e o que não custou a saber se conselho, se devia escrever com c, ou com s? Suaram aquelas testas dos Pais da Pátria sobre uma Questão de tão grave transcendência! E gastaram-se um par de moedas tesas! Mas por fim ficámos na mesma.) D. Tr. 


MODO, MANEIRA – Vocábulos de entrincheiramento, o que fazem um grande papel entre os filósofos Republicanos. Longe de que os evidentes, e excessivos males produzidos por seu endiabrado Governo os façam entrar em si e conhecer seu erro, ao contrario se acolhem aos mais ridículos, e frívolos pretextos para escusar seus pérfidos, e desatinados projectos. Dizem que seu plano não pode ser melhor; porém que os executores é que o deitam a perder pela maneira, com que o introduzem, e executam. Porém quem pode tapar a boca, a quem quiser dizer o mesmo da Tirania, da Anarquia, e de todas quantas coisas más há no Mundo? Porque se, como eles dizem, sua Democracia é boa em si, e só tem de mau o que se lhe pega dos executores; como acontece que tantos, e tantos engenhos, sem terem visto o modo, e a maneira destes Agentes, tem anunciado um por um todos o males, que deviam nascer do sobredicto Governo? E por que maneira pretenderam os Filósofos que se deva introduzir em os Povos sua monstruosa invenção, ou perfeito Quixotismo? Os Povos achavam-se mui bem, e não estavam do humor daquele, que, estando bom, morreu, porque quis estar melhor. Os Povos tinham sobeja luz para conhecer que era o maior dos disparates depreender-se dos braços paternais de um Soberano amável, e religioso, para ir lançar-se em as garras de cruéis, e fanáticos ímpios. E suposta esta evidente verdade, que outro modo, ou maneira ficará aos executores do modo, se não estava outro em seu arbítrio? De boa mente quisera eu que me dissessem que maneira há para mudar a natureza das coisas. Porque se num Povo bom, sincero e pacífico devem infalivelmente prevalecer nas eleições os astutos, os intrigantes, os audazes, os embusteiros, os ambiciosos e os sem consciência, se numa multidão (mormente se é imoral, e irreligiosa) são inevitáveis as opiniões; se das opiniões nascem indispensavelmente discórdias, das discórdias nascem partidos, e dos partidos tirania; como tem valor estes malvados para atribuir ao modo, o que evidentemente procede da natureza intrínseca da coisa? Além de que: depois que um partido chegou finalmente a superar o outro, não lhe fica outro modo de sustentar-se senão pela tirania, do mesmo modo, que ao vencido não lhe resta outro arbítrio para levantar-se, que o dos estragos, matanças, e violências. Logo todas estas belezas são inseparáveis do Republicanismo moderno. Porque o querer supor os homens em geral com rectidão, e amor pelo bem público, com desinteresse privado, com virtude, e concórdia, etc. etc., como perfidamente supõe os filósofos para inculcar o seu Governo, é supor verdadeiras as falsíssimas fábulas dos poetas, que sendo embustes na boca dos Filósofos. Disparates haverá no mundo; porém eu aposto que não haverá um maior, que o de estabelecer por fundamento da democracia aquilo mesmo, que não póde ser efeito senão da Verdadeira Religião, e de um Governo Sábio. O melhor modo, por tanto, e a melhor maneira, que deviam ter os Filósofos de escusar-se, seria pronunciar bum redondo "ergo erravimus". Porém Lúcifer quer antes ser Lúcifer por toda a eternidade, que fazer uma confissão tão ingénua; e os filhos (não se devem escandalizar, porque se intitulam filhos da luz) não podem deixar de sair ao Pai.


ENGENHO – Vocábulo comummente mal aplicado, ainda no tempo antigo, mas que se há tirado de suas relações, e não tem guardado nenhuma medida em poder dos Democráticos. É já hoje bem sabido que é pleito ganhado por eles, o chamar engenho à malícia, e tê-los por uma mesma coisa, ainda que sejam, como na realidade são, entre si bem diferentes. Daqui vem que, tendo os Democráticos tanta malícia, tem por isso mesmo tantíssimo engenho. A experiência, não obstante, ensina por todas as partes ao homem que a maior malícia é sempre propriedade dos mais idiotas, e rústicos, que privados de todo o engenho, quando se trata de fazer bem, tem sem embargo alguma coisa mais que sobrada malícia para o mal. É verdade que ainda há no Mundo homens honrados e leais; porém, o que são estes, se os compararmos com o prodigioso número de traidores, falsários, e embusteiros? Nada. Pois eis-aqui porque em nossos dias há tantos engenhos. Senhor, olhe que para violar Pactos, Juramentos, e Convenções, e para faltar à sua palavra, e afirmar hoje o contrário do que se disse ontem, não se necessita de muita perspicácia. Estamos conformes; porém necessita-se não ter vergonha, nem carácter; e isto basta hoje em dia para passar por homem de engenho. Deixêmo-nos de disputas, e digamos de uma vez: em quanto estes figurões impostores acharem que lhes dê crédito, há de figurar com eles a malícia e a iniquidade. Porém os homens por um pouco meditem, reflexionem, cotejem a sua conducta, examinem os Escritos, e registrem com miudeza as costuras a estes Mágicos de Salerno, e não somente aparecerão aos olhos de todos tão malvados, mentecaptos, como na realidade são, mas até se convencerá o Mundo do perverso leite, que podem dar.



BENS NACIONAIS – Termo inventado em Língua Democrática, para fazer contraste ao Vocábulo Propriedade. A violação das propriedades era outrora na Sociedade o emprego dos homens mais viciosos, e corrompidos, que nela viviam. Os bens adquiridos por este modo se chamavam bens roubados; e o que os adquiria, se chamava ladrão. As Leis deviam não levar muito a bem semelhantes aquisições, e deviam o que quer que seja a respeito da forca, e galés. Mas nos tempos presentes, onde governam os Republicanos, passou isto a ser negócio de Nação, e por tanto mudou-se-lhe justamente o nome; e os bens roubados, em termos mais polidos, se chamam bens Nacionais. O mais curioso é que se lhes dá este nome, ainda antes de se roubarem aos Proprietários. 


HUMANIDADE – Apenas haverá página, ou linha dos Livros Filosóficos, ou Proclamas Republicanas, onde se não ache esta palavra, e onde se não recomende, se louve, e se exalte até às nuvens. Porém a verdade é, que entre os Democráticos não tem ela outro lugar senão nos Livros, apesar de ser certo que também costuma aparecer em seus lábios, porém isso somente quando estão mais raivosas suas entranhas, e quando tratam de enganar-nos. Pelo que respeita a seus factos, aposto a olhos fechados, que não se descobre neles senão a mais atroz ferocidade? Esta manifesta contradição entre os ditos e factos dos Republicanos se concilia sem embargo perfeitamente. Quando o negócio é de não Republicanos, humanidade toma-se, e entende-se em seu próprio, e antigo significado; quando o caso é pelo contrário, volta-se a casaca, e tomam a humanidade em sentido democrático. Segundo isto, não há dúvida que a humanidade deve definir-se conforme a qualidade da pessoa, a quem se refere. Se é a quem não é Filosofo Democrático, é uma virtude que o distingue das bestas, e das feras. E se é a um Republicano, é uma virtude própria de feras, por onde ele se diferença dos homens. 

(* Acabando de traduzir este artigo da humanidade despertou-se-nos a lembrança, do que há pouco lemos em a fala do Rei dos Ingleses, em que ele diz ter feito um Tratado com a França sobre a Escravatura, para destruir este flagelo, que há tantos Séculos pesa sobre a humanidade, para cujo efeito se haviam reunir as forças navais das duas Nações em certos pontos etc. Ora, a falarmos a verdade, a nossa política é tão rasteira, e nós tão pouco versados nas maniversas inglesas, que não podemos compreender como a humanidade Negra, que vive nos Sertões de África, lhes mereça tanta atenção, quando a humanidade branca, que vive debaixo de Leis férreas na Irlanda, e nas Colónias, em que dominam; assim como não podemos compreender como estas duas Nações se arvorassem em Procuradores dos Negros, para quem a Escravatura sem dúvida era um benefício, e dispusessem de forças Marítimas numa ocasião, em que sem dúvida outras questões mais graves deviam chamar a sua atenção: também não sabemos como seja necessária essa união de Esquadras para um fim tão diminuto, como é obstar ao Contrabando dos Negros: Latet anguis in herba: aqui há serpente escondida, e é muito venenosa. Talvez se realize agora, o que há muito disse um Periódico Francês (l’Avenir) que tendo havido na França tantos Governos, desde que começou a Revolução, ainda lhe restava ter um, que era a liga do Leopardo com o Galo: cremos não estar longe. Estas Esquadras, que se diz reunirem-se por causa dos Negros, quem sabe para onde endireitaram a proa! Nos papéis Franceses se escreveu, e a nossa mesma Gazeta nos afiançou que a Esquadra, que saíra de Toulon em Junho do ano passado, ia para a Grécia, e eis senão quando aparece-nos no Cabo do Espichel, logo em Cascais, e da a pouco em Lisboa; e se nos não enganámos uma Curveta Inglesa fez sinais na véspera com tijelhinhas, e no dia com bandeirolas, que todos virão etc. E porque não acontecerá agora o mesmo? Que errem o rumo?! Não, não nos apanham de susto; não nos adormecem. Talvez também os 8 ou 10 mil homens, que viera para Toulon, com o fim aparente de irem para Argel mudar a Guarnição, talvez que venham entrar na Esquadra, que vai defender os direitos dos Negros?! Olhem vossas mercês, que há duas qualidades de Negros: Negros, a quem os raios do Sol na Zona tórrida fazem da cor de azeviche; e Negros, discípulos do diabo, que trabalhão às escuras; é provável que por causa destes, e por causa da escravidão, e exortação, que um Fernando [Fernando VII de Espanha?], e um MIGUEL lhes prepara, se unam essas Esquadras. Mas, quid ad nos? Que nos importa tudo isso?! Toda a Nação é sempre poderosa, e demasiado forte, quando trata de defender a sua independência, a sua Religião, e o seu Rei: E que Rei?! Suspendemos por ora os nossos juízos a este respeito, e não queremos que este mesquinho papel aumente mais o número das exortações. Ah! Se fizéssemos a oração pela passiva, que bem que ficava então esta palavra exortações! (a bom entendedor meia palavra basta) mas lembrámos sempre a todo o mundo, se possível é, que lance os olhos sobre a história do passado, e verá sempre que aquelas Nações, que tem sido auxiliadoras de Portugal, tem crescido, e fizeram-se opulentas com as suas Alianças, donde resultava haver uma rivalidade imensa, sobre quem havia proteger mais este cantinho do Mundo; e pelo contrário aquelas, cuja Política era oprimir-nos, desandaram da sua grandeza, e nunca mais voltaram a ser, o que eram. Veja a Política do grande Richelieu, e do profundo Pitt: e o que se encontra nela?! Dar a mão a Portugal a todo o custo, para sustentar a grandeza de qualquer daqueles Estados. Não falharam os seus planos, e a repetida experiência o mostrou. Mas uma Política que tenha por base princípios opostos, poderá ter os mesmos resultados?! Não, não. Porque princípios diversos produzem diversas consequências. E talvez seja este o meio, de que a Providência queira servir-se para confirmar as promessas feitas ao 1.º Afonso, deprimindo o orgulho, e premiando a inocência..... Esta é a esperança, e quase certeza.) D. Tr.

__________________________________
LISBOA:
NA IMPRESSÃO RÉGIA. ANO 1832.
Com Licença.


(Fim do N.º 5)

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCLXXXVI


1 de JANEIRO - AGIOLÓGIO LUSITANO - COMENTÁRIOS (III)

(continuação da II parte)

Convento de Sta. Clara, em Vila do Conde

d) Na foz do rio Ave da banda do Norte, quatro léguas do Porto, está a Vila do Conde, ilustre pelo mosteiro de Feriras da Ordem de S. Clara, que a enobrece, ao qual deram princípio D. Afonso Sanches filho DelRei D. Dinis fora do matrimónio (o que teve as diferenças com o Príncipe D. Afonso) e sua mulher D. Teresa Martins filha do Conde D. João Afonso de Meneses, Senhor de Albuquerque, nesta de D. Sancho III Rei de Castela (ano 1318). Estes Príncipes pretendendo fazer um Castelo para defesa daquelas partes (como Senhores que eram da dita vila) sonharam que o fizessem com a escada para o céu, e entendendo o que Deus lhes queria significar com este sonho, fundaram este Convento, a quem deixaram esta vila, e outros lugares deporte, que possuíram as Religiosas dele muitos anos. No que floresceu de seus princípios o rigor da regular observância, e penitência, acompanhada de grande pureza de vida, e santidade, de maneira que mereceram suas religiosas ser-lhe revelada a salvação de seus fundadores, e que tiveram quinze anos de Purgatório.


Acha-se escrito nas memórias deste Convento que estando uma noite a Abadessa com algumas freiras em oração depois de matinas, ouviram bater nas sepulturas destes infantes, perguntou a Abadessa que queriam, e responderam: que eles eram os fundadores, que as vinham avisar da parte de Deus, que logo saíssem fora do convento com o preciso que tinham, porque às quatro horas da manhã entrariam nele os Castelhanos inimigos cruéis deste Reino, como na verdade aconteceu; pelo que na própria hora se passaram as Religiosas para o Mosteiro de S. Clara do Cabeçal no Porto, onde residiam dois meses, que os inimigos estiveram nele.


E porque não sabemos se teremos outro lugar de falar nestes infantes nos pareceu bem copiar aqui o epitáfio de seus sepulcros que é o seguinte:

Aqui jaz o muito esclarecido Príncipe D. Afonso Sanches, filho DelRei D. Dinis de gloriosa memória, Rei de Portugal, com a muito excelente Senhora sua mulher D. Teresa Martins, neta DelRei D. Sancho de Castela, primeiros fundadores deste Convento.





Referem a celestial visão de Sôr Catarina Vaz com grande estima de sua santidade: Fr. Lucas Waddingo (ad anno 1318, n. 44), Gonzaga (pág 3, tít. Prou. Portug. convent. 14), Barezus (pág. 4. Cron. . 4 c. 40, ano 1565), Valerius de sanct. Foem. Ord. Min. l. 4 c. 41).


e) O Pe. Afonso de Castro não só teve a Lisboa por pátria, e nasceu na freguesia de S. Julião dela, onde foi regenerado pelo santo Baptismo, mas seu pai foi ourives de ouro na mesma cidade, e o Santo até idade de mancebo, que se embarcou para a Índia, professos a própria arte, e como Deus o tinha predestinado para Santo, e ilustre mártir de sua Igreja já de moço o ia dispondo, e em aiando para tão alto fim, e assim permitiu, que naquela idade em sua pátria lhe dessem uma bofetada, e tão fora esteve o santo mancebo de indignar-se, ou vingar-se do autor de tão grave injúria, que lhe ofereceu (seguindo o preceito de Cristo), a outra face. Rara, e admirável perfeição, e dado que este notável caso, por não chegar à notícia dos que escreveram sua vida (que só trataram do tempo em que o Santo entrou na Religião) não ande impresso nos autores que alegamos, nos pareceu conveniente, para glória de Deus, e de seu servo, referi-lo aqui, pois o soubemos de pessoa fide digna que se achou achou presente, e era seu vizinho, e como testemunha de vista no-lo contou, inquirindo nós com particularidade para este fim, de quando o referido tinha já mais de 95 anos de idade.

Martirizado o servo de Deus (ano 1558) em Ternate (que é a primeira das cinco Ilhas Malucas vindo do Norte ao Sul distante meia légua da linha equinocial) foi pelos Mouros lançado seu corpo no mar, onde esteve no meio das ondas por muito tempo sobre um penedo, como se estivera vivo, daí a três dias apareceu no mesmo lugar do suplício, com as feridas tão frescas que a todos o causou espanto; e muito mais o resplendor que delas saía, foi pelos mesmos tornado a lançar no mar, e passados oito meses foram achados seus ossos outra vez na praia mui alvos, e resplandecentes.

Fazem dele menção: os Padres Orlandi nona hist. da Companhia (tom. I variis in locis, e tom 2 l. 2 n. 180 [?]), João de Lucena em vários lugares da vida de S. Francisco Xavier. António Vasconcelos na descript. Lusit (pág. 498), [?], Bartolomeu Guer. nos elogios dos que morreram pela fé da Comp. (2 p. c. 19), o Pe. Alonso de Sandoval no catecismo negro (l. 4 c. 3), Pe. Joanes Rhô em hist. virtutum (l. 6 c. 5 n. 7), Bosius de signis Eccles. (l. 5 fig. 21), Fr. Pedro Calvo nas lágrimas dos justos (2 p. c. 14), Fr. Elias de S. Teresa in legatione Eccl. triumph (l. 2 c. 31 n. 56), e finalmente Martiriolog. Societ. hac die.

(a continuar)

27/01/16

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCLXXXV


O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCLXXXIV


O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCLXXXIII


1 de JANEIRO - AGIOLÓGIO LUSITANO - COMENTÁRIOS (II)

(continuação da I parte)

Mosteiro de S. Salvador, em Vila de Frades
b) Foi o Mosteiro de S. Salvador de Vilar de Frades, fundação de S. Martinho Damiense, debaixo do hábito e regra de S. Bento. Está situado na margem do rio Cávado, em lugar mui fresco, e delectável no Arcebispado de Braga, e assim podemos com verdade chamar a D. Godinho Viegas seu reedificador, posto que nome de fundador lhe dá o Conde D. Pedro tit. 52. Floresceram em seus claustros grandes servos de Deus nos primeiros séculos da Religião, entre os quais se avantajou a todos o Abade santo de que falamos, o qual teve sua sepultura no claustro, e nela de meio relevo esculpida sua figura com o Passarinho na mão em memória de tão maravilhoso sucesso. Porém desamparando este domicílio os Monges por causa das pestes, fez dele doação o Arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra (ano 1439) ao Venerável M. João fundador da Sagrada Congregação de S. João Evangelista neste Reino, anexando-lhe o mosteiro de S. Bento da Várzea, que dista meia légua de Barcelos, com mais doze igrejas. Depois o Arcebispo D. Luís Pires lhes anexou mais Sta. Maria de Góis, e ultimamente o Papa Nicolau V o Mosteiro de Manhete, também da mesma Ordem de S. Bento, fundações todas três de S. Martinho.

Igreja do Mosteiro de S. Sa.vador, em Vila de Frades (Portugal)
Tomando posse deste Convento Mestre João, vendo os muitos milagres que Deus obrava por este seu servo com a terra de sua sepultura, e a pouca decência com que estava, determinou colocar as santas relíquias na Igreja para serem dos fiéis mais veneradas (o modo, e ano diremos em 21 de Setembro, em que se fez esta translação) mas o mesmo foi transferirem-se elas à Igreja, que perder-se totalmente esta tão notável memória, como sucedeu a outras muitas, de que a cada passo nos havemos de queixar. Tratam deste santo Abade o livro intitulado Speculum Exemplorum (dist. 9 c. 65), e dele o refere o Báculo Pastoral (c. 45 pág. 234 exemplo 2), e o Pe. João Rebelo nas adicções à cartilha de M. Inácio (fol. 131), D. Rodrigo da Cunha no Catálogo dos Arcebispos de Braga (I p. c. 73), Fr. Leão de S. Tomás Geral que foi da Religião de S. Bento nos prologómenos que fez às Constituições desta província (c. 3). Finalmente anda esta história manuscrita no tratado que nos deixou o Pad. e Paulo religioso desta Congregação, dos varões ilustres em virtude, que floresceram em seu tempo.

Clausto do Mosteiro de S. Salvador, em Vila de Frades
c) O corpo de B. D. Garcia Martins descansa na Igreja de Lefta, a qual tomou o nome do rio, que por ela passa, tendo seu nascimento além do Monte Corua. Fpoi antigamente mosteiro de Templários. Nela viveram depois Clérigos, Freires de Malta em comunidade; e hoje é Comenda, e Bailiado da mesma Ordem, edifício magnífico, que tem couto de jurisdição civil; a terra, e sítio é fresquíssimo, e tem com as Igrejas anexas mais de quinhentos vizinhos. Neste mosteiro recebeu ElRei D. Fernando por mulher a Rainha D. Leonor como diz a sua Crónica.

Faleceu este santo Cavaleiro pelos anos 1306. Consta de seu Epitáfio em Latim bárbaro daqueles tempos, e é o seguinte:

E. M.CCCXLIIII IN IESU XPI.
fide decessit in Reyno Fratri Domini Garcia Martini, gloria nostra Comendatori dos cinco Reynos de Hespania in coelico.

Os cinco Reinos de Hespanha de que foi Comendador, são Castela, Leão, Portugal, Aragão, e Navarra. Enganaram-se os Cronistas desta Ordem, dizendo que faleceu no ano 1286, pois do epitáfio consta o contrário. Além disto temos três escrituras originais, as quais todas mostram viver em Junho de 1302. A primeira do livro DelRei D Dinis (fol. 20) o qual faz doação a D. Garcia da Igreja de S. Pedro de Baças no Arcebispado de Braga. A segunda se acha no l. 5 do mesmo Rei (fol. 32) onde D. Garcia confessa que o dito Rei fizera recompensa a ele e à sua Ordem das terras que lhe tomara para fundação de Vila Real no termo de Panoias. A terceira, e última e do terceiro livro da leit. nou. do cart. de e de Lisboa (fol. 83) em que se refere uma composição entre ele, e o Bispo D. João sobre controvérsias, que traziam cerca de várias Igrejas, e com isto nos parece que temos provado contra os Autores que (mal advertidos) afirmam morrer o Beato D. Garcia no ano 1286 que são a maior parte dos que abaixo alegamos.

A temperatura que contem os epitáfio num monumento de pedra, que sustentam três leões no meio da Igreja, o qual cobre um pano negro com Cruz da Ordem. E sua imagem se vê de pintura no altar de S. João da invicta cidade de Malta entre outros Santo da Religião. É o nosso invocado dos moradores da comarca de Lessa, que o vêm ainda hoje visitar, e venerar o seu sepulcro com nome de Homem Santo, ou Homem Bons de Lessa se bem que antigamente era muito mais frequentado, pois a Infante D. Filipa, filha do Infante D. Pedro, e neta do DelRei D. João I, indo em romagem a Santiago de Galiza, foi também visitar as relíquias deste S. Cavaleiro, acompanhada de muita nobreza, e da maior parte dos Prelados do Reino, e ali com devoção se deteve uma novena, por causa de um célebre milagre, que o Santo obrou neste tempo num aleijado, de que se passaram autênticos instrumentos.

Tratam sua vida Abraão Bzevio no Annaes Ecclesiasticos (tom. 13 ano 1286), Jacome Bozio nas Crónicas Gerais da Ordem (em italiano, l. 10) e no Compêndio dos Santos (da mesma pág. 99), D. Fr. João Agostinho de Funes na Crónica de Malta (l. 1 c. 26),  Fr. Domingos Maria nos Triunfos da mesma Religião (l. 2 c. 4), Jerónimo de Marulha, dos Mestres da Ordem (pág. 23), António de Sousa de Macedo no livro intitulado "Flores de Hespanha" (c. II excel 2) Faz dele também menção em dois lugares de suas antiguidades o Doutor João de Barros (pág. 18 e 48). O mesmo traz M. António no seu Sumário que nos deixou, de entre Douro e Minho, ambos em livros m. s. se bem inadvertidamente contra a torrente de tantos escritores lhe chamam Joanne, sendo seu verdadeiro nome Garcia, como fica dito.

(continuação, III parte)

26/01/16

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº5 (II)

(continuação da I parte) 

PROMETER, PROMESSA – Correspondem exatamente a Enganar, Engano. A razão é patente ainda ao entendimento mais rude. Um ateu que promete proteger a Religião, um ladrão que promete a segurança das propriedades, um tirano que promete liberdade, um orgulhoso que assegura que todos serão iguais, é necessário inquestionavelmente ser um simplório para não conhecer, que o que ele quer é enganar. 

TIRANIA, TIRANOS, GOVERNO TIRANO – No idioma filosófico nenhum destes Vocábulos tem a menor correspondência com as coisas que explicam, mas sim com as pessoas que fazem estas coisas. É por isto que, segundo eles, por mais inocente, amável, justo, benéfico, e moderado que seja um Soberano, é irremediavelmente um tirano. E daqui vem igualmente que, por mais tiranias e por mais horrendas que elas sejam, uma vez que sejam feitas pelos Republicanos, não se chamam tiranias, mas sim benefícios. Um Democrático ainda que seja um diabo em carne humana, e ainda que seja mais ladrão que Gestas, e mais cruel, e raivoso que Nero, não é um tirano; não senhor; porque a filosofia já descobriu, que não é a tirania quem faz o homem tirano, mas sim o homem é quem faz tirânico ainda aquilo mesmo que é essencialmente oposto à tirania. Por Exemplo, impõe um Monarca uns 20% de contribuição para o bem comum do Estado: agora nós veremos. “Se ele é um déspota; se ele é um tirano", ladra toda a cansoada Republicana, não porque a coisa o seja em si, mas puramente porque é obra do Monarca. Impõe pelo contrário o Governo Democrático uma contribuição três vezes tanto maior, que o capital, e as rendas: não têm dúvida; é um acto do mais justo do Governo, e assim é indispensável para conservar o crédito público etc. Que bela linguagem! Que opiniões tão encontradas! Vimos por tanto daqui a concluir que o único remédio, que há para ser tirano, é tiranizar a bandeiras despregadas, e que os únicos, que podem fazer bem ao género humano, são os tiranos. Haverá língua mais peregrina?!

(* Muito, e muitíssimo se nos oferecia dizer sobre esta matéria; mas certos respeitos nos prendem a pena. Grandes baterias, que nos tempos Constitucionais se tomaram por assalto, ainda hoje estão guarnecidas por grandes arquitectos e engenheiros que triunfam de todas as tentativas; e continuam com o nome de um Rei bem-feitor e Religioso, a mesma tática subversiva, injusta, e antirreligiosa, que nasceu com a Revolução,  e que apesar de haver um Decreto do Senhor D. João VI.,  em que anulava tudo quanto fizeram as Côrtes, com tudo ainda se conserva... Mas não nos envolvamos em razões de Estado; tempo ainda virá, em que se patentearão grandes verdades. E se a Esquadra Francesa forçando a barra, a pesar de ser este um mal gravíssimo, que não tem paralelo em a balança da honra, foi todavia de alguma vantagem para se cortarem certos nós, que não se podiam desatar, e para quebrar certos vidros corados, pelos quais se apresentavam objetos, não quais eles eram, mas quais queriam que fossem; assim também será necessário um outro abalo para que se abra alguma brecha por onde se veja o fraco da Praça, e se possa combater....

Mas voltando nós à vaca fria: que bulha não faz por aí a cansoada liberal com o empréstimo forçado, a que as circunstâncias actuais, e visíveis, obrigaram o Senhor D. MIGUEL I.?! Não falta quem o caracterize de injusto, e tirânico; mas aos que assim falam, além de os remetermos para o que dissemos em n.º antecedente, faremos duas perguntas: 1.ª Qual dos empréstimos será mais injusto? Este, que tem uma aplicação tão visível, e de uma necessidade tão absoluta, como é defender a Pátria contra uma invasão inimiga, ou aquele dos quatro mil contos, que se gastou a maior parte em pagar os Deputados, e em sustentar uma luta ilegítima, e que arrastou consigo um ónus o mais incómodo, que tem o Reino, qual é o do Papel Selado, onde indispensavelmente te há de abundar o contrabando?!... 2.ª Qual será mais injusto, pedir dinheiro prestado aos que o têm, pagando-lhes o juro da Lei, ou impor sobre uma Classe, além de décima e de quinto, como pagam sobre as outras, uma Colecta, que já se paga há quase dez anos, e que hoje avulta a milhões, e que não são prestados, mas dados? Ora Senhores Filósofos financeiros, que não sabeis os nomes dos Frades, e Clérigos, para os empregos da República, e que só os encontrais para pagarem as Colectas, tende paciência! hoje por nós, amanhã por vós: não há porco, que não venha o seu S. Martinho. Olhai, não vos deem na balda. Livrai-vos que vos digam "e o nosso dinheiro!") D. Tr. 

LEI – Segundo os Democráticos, entre eles ninguém governa senão a Lei, e ela é a única Autoridade a que todos obedecem: já se vê que ela é a alma republicana. Coisa maravilhosa! Repúblicas Democráticas conheço eu, que só num ano fizeram vinte e duas mil Leis, sem que por isso houvesse entre elas alguma. Pois eis aqui o segredo: esta Lei que não existia, era a quem todos obedeciam; e esta Lei imaginária era quem mandava e regulava tudo. Então não diremos que é um portento a alma das Repúblicas modernas?!

(* Mais de uma vez temos reflexionado sobre a maneira como se anunciam as Leis Democráticas, em paralelo das que emanam do Monarca absoluto; estas começam sempre por manifestar a causal, que obrigou o Soberano àquele procedimento, a que se chama a mente, e o motivado da Lei, e deste género se pode apontar por um exemplo bem distinto a Lei do Marquês de Pombal sobre os Morgados; aquelas ao contrário começam sempre ex abrupto: "as Côrtes decretam, e ordenam o seguinte", era a sua linguagem. Ora compare-se uma com a outra forma, e veja-se qual é mais odiosa, e em qual aparece a Lei com mais cara de ferro, e cheirando mais a despotismo?! O Monarca apresenta as razões que o obrigarão, sempre fundadas na justiça; e os Demagogos "quero porque quero". E será isto governar em nome da Lei?!) D. Tr.

D. José Sebastião Carvalho e Mello (o astuto e perigoso Marquês de Pombal - Ministro do Rei D. José de Portugal). O liberalismo consegue ser mais déspota que o próprio Marquês de Pombal. O texto da época mostra-nos, entre várias realidades: a) o "rei absoluto" era o rei tradicional; b) por qualquer peso os liberais caluniavam os reis (assim nasce e é aplicado o nome "absolutismo" neste tempo, mesmo que os reis assim difamados não tivessem feito mais do que fizeram os seus antigos antecessores).
PROPRIEDADE – Vocábulo ad libitum. Entre os Republicanos (em quanto estão roubando) não tem nem uso, nem significação. Mas quando tem já guardados os roubos, oh! então já é outra cousa: Propriedade é um nome sagrado. O melhor que têm é que como os roubados, e os ladrões se sucedem uns aos outros continuamente, e muitas vezes sem interrupção se transformam os segundos nos primeiros, não pode deixar de ser que este Vocábulo esteja num pleito eterno entre os Cidadãos felizes das Republicas Democráticas. 

EMIGRAR, EMIGRADOS – Todas estas palavras encerram em si gravíssimo delito, o qual consiste em não deixar-se matar como formigas a capricho da iniquidade. Horrorizados alguns de ver queimar os Palácios, matar os donos, apoderar-se de seus bens, e arrastar milhares de vítimas inocentes à guilhotina, tomaram as de Vila Diogo, e cometeram contra a Pátria horrendo delito de salvar a vida com a fuga, sem que faltasse quem tivesse a ousadia de pôr em prática o natural direito de defender-se dos ladrões. Pois a eles. Isto é um delito imperdoável. Se acaso se puder haver às mãos estes delinquentes, em pronto são fuzilados. Se não se podem, vão-se com Barrabás: seus bens que o paguem. Daqui se vê que este é um daqueles delitos nunca ouvidos no Mundo, que se castigam in filios filiorum, porque não só entra na dança o que o cometeu, mas seus irmãos, e parentes, os quais no interim são privados dos empregos, confiscam-se-lhes os bens, e com um quase nada, que se aperfeiçoe a Justiça Republicana, vão todos juntos arrastados à guilhotina.

(* Bem conhecida foi entre nós esta linguagem, e este procedimento contra os emigrados, que não podendo, nem querendo aturar um jugo estrangeiro, buscaram asilo em uma Nação vizinha. A nada se poupou a intriga Diplomática para frustrar os seus fieis desejos, e denegrir as suas leais intenções! Sobre esta matéria deve ler-se o que o "Mastigoforo" disse sobre este assunto, onde se apresentam peças justificativas de fidelidade, e desinteresse.) D. Tr. 

VIRTUDE, VIRTUOSO – Antigamente maldade, malvado. Desde o momento, em que algum se fez patriota, é também democraticamente virtuoso. Toda a acção de um patriota é um acto de virtude; e a História Republicana eterniza, para alentar os patriotas futuros, as acções virtuosas daqueles seus ilustres progenitores que fizeram as nunca assaz louvadas façanhas de roubar os Templos, destruir as coisas sagradas, violar as virgens, arruinar os Mosteiros, perseguir, e matar os Sacerdotes, e lavar as mãos no sangue de seu próprio Pai, e de sua própria Mãe... Porém basta para inteligência do que é a notória probidade, e virtude dos religiosos, e virtuosos democráticos. 

FIDELIDADE – Quando se conserva com Deus, com o legítimo Príncipe, ou com qualquer outra Pátria, que não seja a democrática, toda a fidelidade é alta traição. Desgraçado daquele que se empenha em ser fiel àquele Príncipe, àquelas Leis, e àquela Pátria, a quem cheio de amor e ternura, voluntariamente jurou fidelidade! Imediatamente é tido em língua democrática por traidor; pois a fidelidade deve-se somente aos que mandam com baionetas, canhões, e fuzis. In illo tempore a fidelidade era filha do amor e da estima; mas os Republicanos a tem declarado bastarda, puseram em seu lugar uma fidelidade filha do temor, e da aversão. Substituição por certo dos ilustrados democráticos.

(* É muito para admirar, que não tendo os Liberais fidelidade a pessoa alguma, nos arguam de que faltámos ao juramento de fidelidade, que demos  ao Senhor D. Pedro. Ora com efeito, sobre isto já se tem dito e escrito muito, tanto em Portugal, como nas Côrtes Estrangeiras; mas no entanto sempre dizemos que nós nunca jurámos fidelidade ao Senhor D. Pedro; e senão que nos apresentem esse Auto lavrado pela maneira, que em tais casos se costuma. Se é jurar fidelidade a um Rei, só porque se manda dar da Colecta, e só porque aparece o seu nome na frente dos Decretos, e Alvarás, então também nós jurámos fidelidade ao trono da Europa, e fomos por consequência,  rebeldes em lhe desobedecer. Quem tal dirá? É verdade que nos mandaram jurar; mas o que? A Carta, e obediência a ela, e não ao Senhor D. Pedro. Vejam-se as fórmulas do tal juramento, e nelas se achará "juro observar a Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa, dada, e outorgada pelo Senhor D. Pedro, etc.". Ora venham todos os Juristas, e Canonistas do Mundo, e digam-nos que este juramento é o juramento de preito, e fidelidade, que se costuma prestar aos Soberanos! Ainda que este juramento da Carta fosse obrigatório no foro da consciência, o que sem dúvida não é, por ser sobre matéria ilícita, não definida, e em prejuízo de terceiro, supõe o direito, e a legitimidade de quem emanou a tal Carta, e não o prova, porque então seria provar idem per idem; e como este direito e legítima sucessão estava usurpado, o que logo se manifestou pelos factos, e escritos, que apareceram em Portugal, e mormente pela nulidade do Decreto criador da Regência, cujo autógrafo, por mais que fosse pedido pelo Conde de S. Miguel, até hoje ainda não apareceu, segue-se por uma forçosa consequência, que nunca houve juramento de fidelidade ao Senhor D. Pedro. O seu nome, e o seu Governo foi tão intruso em Portugal, como foi o de Napoleão, e fazendo esta asserção, conformamo-nos com o Assento dos Três Estados em Côrtes, que reconheceram o Senhor D. MIGUEL Sucessor imediato a seu Augusto Pai, Rei legítimo de Portugal, e seus Domínios, como foram seus Maiores; assim o declaram, assim o furaram, e nas suas pessoas como Procuradores, que eram do Povo Português, todo o Povo jurou, e prestou preito e fidelidade ao Senhor Dom MIGUEL, tendo-o já aclamado como Senhor Natural, e Herdeiro da Coroa Portuguesa.

Ainda mais que gritou o Arcebispo Ataíde, que era necessário aclamar o Senhor D. Pedro, e exigir Juramento de preito à Nação, e sem que désse este passo tudo era nulo quanto se decretasse?! Pois então, per te: tudo foi nulo; Carta, Juramento; nenhum peso nos resta na consciência, e os que nos arguem de infiéis, são eles mesmos os verdadeiros infiéis, e traidores.) D. Tr.

(a continuar)

COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA DO NORTE: MELUNGOS - OS PORTUGUESES ESQUECIDOS



25/01/16

PRESIDENTES AMERICANOS E OS REGALOS PORTUGUESES

Os Presidentes Americanos gostam muito de regalos portugueses!

É um facto histórico que os 56  homens que assinaram a Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, na cidade de Filadélfia,  no dia  4 de Julho de 1776, beberam Vinho da Madeira para celebrar  este acontecimento  tão histórico, resultando na  criação  da nação que se veio a desenvolver na maior potência mundial!  Apesar do calor abrasador daquele dia,  os fundadores da América não escolheram nem cerveja, nem champanhe para celebrar o nascimento da América do Norte!

Porque foi o Vinho da Madeira escolhido por excelência? O Vinho da Madeira começou a entrar nas colónias inglesas da América  com uma tarifa especial mais baixa, porque Portugal era uma aliada da Inglaterra, desde 1385.  Por esta razão os proprietários americanos de latifúndios começaram a beber Vinho da Madeira e tomaram-lhe o gosto. E não demorou muito tempo que o Vinho da Madeira  passasse a ser a bebida dos ricaços  americanos. Era chique beber e oferecer Vinho da Madeira. Passou a ser um elemento da alta sociedade americana  mesmo antes da Independência.

O Primeiro Presidente,  George Washington, - que por ser presidente não ganhava salário, pois nessa época  era  uma grande honra ser-se Presidente da América!  -  comprava o Vinho da Madeira aos  tonéis, mas o custo desses  barris apareceu  depois  nas listas das munições ou  material de guerra!... O Presidente Thomas Jefferson na sua célebre casa Monticello, no Estado de Virgínia,  tinha uma adega excelente onde triunfava, com abundância, o Vinho da Madeira  a qual ainda hoje  se pode visitar e apreciar.

Sabe-se também que muitos Presidentes da América continuaram  a beber e a oferecer Vinho da Madeira na Casa Branca.  Muitos nomes célebres da História Americana consolavam-se  e regalavam-se com o Vinho da Madeira, mesmo aqueles que não estavam ligados ao governo da Nação. Praticamente todos  assinantes da Declaração da Independência por gostarem do Vinho da Madeira tinham ataques de gota. O mais célebre  deste grupo foi  Benjamim Franklin que ia para  as reuniões  do Congresso em Filadélfia de muletas porque  sofria muitas dores  devido ao reumatismo gotoso! Foi ele até que introduziu o uso da Colchicina no tratamento da gota nos Estados Unidos, medicamento que ainda hoje se usa no tratamento dos ataques de gota! A razão porque o Vinho da Madeira agrava o reumatismo gotoso é porque o seu álcool  intervém, negativamente, no mecanismo de EXCREÇÃO  do ácido úrico pelos rins. O  mesmo se passa com as outras bebidas alcoólicas.


Caldo Verde

Outro Presidente muito famoso que não bebia Vinho da Madeira mas gostava muito de caldo verde e malassadas era o Presidente Abraão Lincoln!  Antes de ser eleito Presidente  dos Estados Unidos, Lincoln tinha, em Springfield, Illinois,  uma cozinheira portuguesa, emigrante da Madeira, que fazia o caldinho  e as malassadas   para o futuro Presidente. O Presidente  Lincoln quís levar consigo a mesma cozinheira, Maria do Céu, para a Casa Branca,   mas  ela recusou o convite porque já estava  enamorada do seu “Manel”  e preferiu ficar para sempre em Springfield.


Chouriço

Nos nossos dias os Presidentes Americanos continuam a  consolarem-se com  guloseimas portuguesas.  Em 1996, numa festa de angariação de fundos para a campanha de reeleição do Presidente Clinton que se realizou no Estado de New Jersey, foi apresentado  aos  convivas uma deliciosa  tortilha com chouriço. O  Presidente Clinton gostou tanto  deste prato  feito com chouriço,  que deu ordens  para ser enviado para a Casa Branca, TODOS OS    MESES  sessenta libras (cerca de trinta quilos)  de chouriço.   E quando o Presidente George W. Bush tomou conta da Casa Branca  manteve a  mesma remessa  do chouriço para a Casa Branca. Não sabemos, neste momento,  se o chouriço que está a entrar na Casa Branca  é português, espanhol ou mexicano.

Os chouriços  espanhol  e mexicano  têm vinte por cento de colorau ou paprica, (um pó vermelho condimentoso de pimentão seco), que  faz a comida muito avermelhada. No chouriço português os condimentos são todos muito bem balançados.   O chouriço  português é   preparado com carne de porco, paprica, alho, pimenta preta, sal  e é posto em vinhadalhos (com vinho tinto) que  lhe dá um sabor especial e característico. Consola!   É   por isso que um prato de carne ou de peixe que leve umas rodelas de chouriço tem logo outro sabor, outra personalidade.

 

Qual é a diferença entre linguiça, chouriço e salpicão? O conteúdo é praticamente  o mesmo. A única  diferença é que antigamente  usava-se  a  tripa do intestino delgado  do porco  para fazer a linguiça e a tripa do intestino grosso do porco para fazer o chouriço.  Salpicão é um chouriço grosso ou paio, tipo de enchidos de pasta dura constituído principalmente,  por carne de porco, gordura, sal, pimentão doce, pimenta e alho.

Presentemente com a invenção  e o uso dos plásticos  é difícil destinguirmos a linguiça do chouriço.  Tanto um como outro se forem feitos com a receita  portuguesa são os melhores do mundo! Regale-se com o chouriço português  e ofereça-o  aos seus amigos  porque  será muito felicitado! Bom apetite! E para arrematar,  beba um cálice de Vinho da Madeira,  ou do Vinho do Porto Português  se é que  não sofre de gota.....Beba à  nossa e à vossa  saúde!

Parabéns!

1 de JANEIRO - AGIOLÓGIO LUSITANO - COMENTÁRIOS (I)

S. Félix eremita
COMENTÁRIOS DO AGIOLÓGIO LUSITANO AO DIA 1 de JANEIRO

a) Damos princípio ao Agiológio dos Santos de Portugal com S. Félix (dado que lhe não sabemos dia próprio) por ser o primeiro fundador, e pai da vida eremítica e monacal neste Reino. E suposto que a Igreja Católica chama a S. Paulo de primeiro Ermita, florescendo pelos anos de 300, contudo parece que o faz seguindo a mais universal notícia que há dos que viveram na Thebaida, Egipto e outras províncias Orientais, e não como definição Eclesiástica precisa, de que não houvesse outro nenhum antes em alguma parte do mundo; pois os antigos Breviários deste Reino, não só manuscritos, mais impressos nas lições de S. Pedro de Rates, e com eles todos os Autores que trataram sua vida (que são inumeráveis) afirmam que sendo martirizado a cruéis estocadas, deixando os ministros da maldade o S. corpo envolto em seu próprio sangue, e assim esteve alguns dias, até que um santo Ermita por nome Félix, que habitava naqueles desertos, olhando com atenção da diversas partes, viu por muitas vezes como resplandecentes raios de claridade desciam do céus sobre uma delas, e que ali parava sempre aquela luz. E notando que isto não era o caso, baixou da montanha, em demanda do lugar, onde o resplendor parava, e chegado, viu que aquela claridade divina cercava o corpo do S. Prelado. Maravilhado de tão manifesto testemunho do céu, que certificava quão amigo de Deus era S. Pedro entendeu, que aquela visão lhe mandava desse sepultura a seu santo corpo, e assim lha deu o melhor que pode, não e achando neste piedoso ofício mais que um sobrinho seu, que lhe fazia companhia na vida Eremítica.

O motivo primário que S. Félix teve para se apartar a fazer vida solitária que não constasse foi para mais livremente vocar a contemplação, evitando o túmulo do século, ou se por fugir o ateado fogo da persecução contra os novos professores da lei de Cristo se retiraria do povoado a esta alta montanha, para nela viver, oculto, aguardando que Deus desse paz a sua Igreja. mas de qualquer modo que fosse perseverou muitos anos nesta Angélica vida, e algumas centúrias antes que S. Paulo, pois o nosso Santo floresceu pelos anos 46 e S. Paulo no de 300, como fica dito.

S. Pedro de Rates
S. Félix foi sepultado na mesma Igreja que os fiéis levantaram sobre a sepultura do santo mártir, onde se vê ainda hoje a do santo Eremita, aquém os Portugueses chama S. Fins, e por esta causa as mais das Igrejas antigas que há desta inovação são dedicadas a ele, porque foi sempre costume dos naturais deste Reino dedicarem particulares Igrejas a seus próprios Santos. Porém com a translação das preciosas relíquias de S. Félix Diácono de Girona ao antigo Convento de Chelas junto a Lisboa que os Martirológios trazem ao 1 de Agosto) se perdeu, ou pelo menos confundindo a devoção do nosso S. Felix festejando-o no mesmo dia por se lhe ignorar o próprio. Mas na Ermida de S. Fins situada num alto monte que conserva o próprio nome, de que se descobre amor parte da terra de Fão até Matosinhos está a imagem deste Santo em hábito de Eremita, e dizem per tradição os naturais daquela comarca, que é daquele Santo, que deu sepultura a S. Pedro de Rates, e assim lhe fazem a festa neste dia. Tratam de S. Félix todos os Autores que escrevem de S. Pedro de Rates, que por não alega-los duas vezes se podem ver na vida do dito Santo em 26 de Abril. Por ora só citarei a D. Francisco de Padilha, que na história Eclesiástica de Hespanha, I. C. 16, lhe chama primeiro Eremita. E também António Brandão Cronista mor deste Reino na pág. 3 da Monarchia Lusitana (I 8 c. 32 e I 9 c. 9)

Resta agora darmos notícia desta igreja de Rates, a qual é sagrada, de três naves, de largura, e altura competente, e ao presente é Comenda da Ordem de Cristo; e antigamente foi mosteiro, cujo sítio est´um seco vale desviado de Vila do Conde légua e meia, e por seu respeito se fundou ali a vila de Rates, a qual em outro tempo foi mui principal, pois dela se denominaram os Ratinhos. Esta assolaram por vezes os Castelhanos nas entradas que fizeram neste Reino, e como a terra é geralmente pobre, é hoje coisa de mui pouca importância.

De que Ordem fosse este mosteiro, é mui fácil de averiguar; suposto que os Cónegos Regulares querem que seja da sua; não sei com que fundamento. Que fosse do Patriarca S. Bento não há dúvida, porque disto temos duas provas evidentes. A primeira de Marco Máximo no seu Chornicon pag. 209, o qual referindo os Prelados que se acharam no III Concílio de Toledo traz entre eles: "Sancrus Stepanus Abbas Ratensis Ordinis S. Bebedicti" (de quem trataremos em seu dia 13 de Fevereiro). A segunda do arquivo real 3 do Rei D. Dinis (fol. 94) onde se vê a doação que a Rainha D. Teresa fez aos monges da Caridade da Ordem Clunicense no ano 1100 que nele habitavam, donde consta claramente, que esta Rainha o reedificou no modo que hoje persevera, e dela é o vulto, que ali se conserva em nicho, vestindo ao modo antigo, com cetro na mão, e na da Rainha D. Mafalda como querem nossas Crónicas.

No cartório de S. Cruz de Coimbra temos também outras duas provas desta verdade. A primeira no livro velho dos óbitos, onde: 5 Kal. [?] Prior de Rates, e Monachus de Caritate. E. 1300. A Segunda é do livro santo  (pág. 71) em que se relatam as muitas demandas, que o mosteiro de S. Cruz teve sempre com os Monges da Caridade, que moravam em S. Justa de Coimbra: onde a palavra Monges numa e noutra parte, exclui a de Cónegos, além de que não parece haviam de ter demandas tão travadas, se não foram de tão diversas Religiões.

(continuação, II parte)

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