28/05/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (V)

(continuação da IV parte)

ELEIÇÕES POPULARES – Termo ilusório. O Povo tem direito de eleger seus Representantes. O Povo não pode errar nesta eleição, etc. Pois veja Vm. aqui que o Povo de Bolonha, Modena, e Ferrára elegeu os seus, porém não elegeu ateus, malvados, nem franchionotes: ei-lo aqui subitamente declarado incapaz de eleger. Anuliam-se as eleições feitas, e pelo bem do mesmo Povo, que não sabe o que se faz, tem a tirania maçônica que tomar o improbo trabalho de fazer umas novas, e verdadeiras eleições á democracia. — Porém, como é isso! O Povo é que tem o direito de eleger.  — Optimamente: porém os tiranos tem o de cassar, e anular as eleições, que o Povo faz. — Senhor, que não concorda a dança com o pandeiro. — Valha-te o diabo agoureiro! Se não concorda, a Filosofia democrática sabe o segredo de fazer concordar. — Por tanto, em resumo de contas, a Soberania do Povo consiste em eleger seus Deputados, e vê-los logo depois anulados, desterrados, e metidos em cárceres? Pois então claro fica demonstrado que a Soberania do Povo democrático é uma coisa bastante irrisória, e fantástica.

CONSTITUIÇÃO – Sempre é a obra mais divina que hão visto os humanos, e em cuja formação tem consumido seu calor vital a moderna Democracia. Sem embargo disto, a uma Constituição democrática sempre acontece a mesma desventura, que ao porco, que um ano nasce, engorda, e é levado ao matadouro. Apenas é dada à luz uma Constituição democrática, eis que em desfilada correm os Filósofos, arqueando as sobrancelhas, e batendo palmas para levantar-lhe o horóscopo. Que coisa tão divina!? A uma voz se grita, ela é o suprassumo da política, o non plus ultra da sabedoria humana, e a fonte perene da felicidade dos Povos. Aceita-se, jura-se sua observância, deve defender-se à custa da vida, e do sangue. Por felicidade nossa todas estas protestações e juramentos democráticos significam menos que nada, uma vez que se não haja de roubar, e assassinar, porque então conservam todo o seu vigor, e inteireza. Porém volte Vm. a folha. Passou já o ano? Pois bem, já o porco está gordo: ao chão com ele. Que desgraça!... A coisa divina, o chefe d’obra, o ápice da bemaventurança de repente se há convertido em uma coisa miserável, em uma sementeira de desventuras para o Povo Soberano! Adeus juramentos!  A obra original vai-se a eito e a esmo, sem o menor perigo do sangue democrático. Concebe-se profundamente uma outra Constituição, tão felicitante (dizem os arquitectos) como a primeira, e debaixo dos mesmos horóscopos. Isso não obstante, toda a Constituição Democrática deve ser sempre imutável, indivisível, eterna, etc. etc. Daqui coligimos o significado de um outro Vocábulo Democrático, que é "ETERNIDADE" (veja-se no fim da Nota que segue.) 

(* Julgamos necessário fazer algumas reflexões sobre esta palavra Constituição, para nós o símbolo da desventura, e da desgraça! ... E para que procedamos com clareza, nós a distinguimos em duas classes "Constituição Democrática" e Constituição Carteira = Em quanto à 1.ª, a experiência tem mostrado ser verdadeiro, o que o Autor diz da sua aparição prodigiosa, dos encômios, que os Filósofos lhe tributam, dos presságios venturosos, que se anunciam, bem como há curta duração de semelhante antro luminoso, que quando parecia difundir mais brilhantes raios, então começa a declinar de seu Zenith, até se ocultar em um horizonte nebuloso, donde quase sempre rompem horrorosas tempestades! E se acaso se não tem acabado em um só ano, como acontece à vida do porco, do segundo até o terceiro não escapa. Os Povos bem instruídos por eles mesmos, e convencidos pela experiência, que os revolucionários não são mais que ladrões, impostores, malvados, que lisonjeiam a classe mais ínfima da Nação, prometendo-lhe coisas grandes, e que depois de a chamarem ao seu partido, se servem dela como degrau para subirem aos lugares e aos empregos, e logo a esmagam debaixo dos mesmos seus próprios pés; eles mesmos tem tomado o partido de lhes darem o pago, e de reduzirem a pó um edifício, que era a obra mais perfeita, que ainda apareceu na Sociedade: protestam, juram os Senhores Deputados, que são os Representantes do Povo, que não querem outra lei senão a Divinal, que não reconhecem outros princípios de direito publico e particular senão as bases da divinal, que não querem outra economia, senão as finanças da Divinal, que não querem outras armas nem tropas, que não sejam cívicas, criadas pela Divinal, e declaram à face do Mundo em o Salão das Necedades, que eles mais valentes que um Cícero, hão de morrer pela liberdade da Pátria, assentados em aquelas cadeiras!!... Bravo! Que valência!! Mas de língua, porque no outro dia evaporam-se: lá se vêm muitos em Vila Franca misturados com o Povo, que gritada = Rei Absoluto = isto é, Rei sem grilhões de pedreiros =, e beijando aquela mão, que desejavam ver cortada bem lhe importam os Povos suas ameaças, e juramentos: se eles tiveram direito para querer a Divinal, tem eles por consequência o direito de a rejeitar, e mandar para o inferno semelhantes Procuradores: cujus est dare, cujus est tollere: e assim acaba quase sempre esta farsa, ou entremezam, em que figuram todos, doidos, e velhacos, e todos eles esfomeados, e ladrões.

(continuação, VI parte)

27/05/15

REFUTAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DOS PEDREIROS ILUMINADOS (III)

(continuação da II parte)

CAPÍTULO III
São Ilusórias as Desculpas dos Iluminados


Aos argumentos que não têm réplica, me responderam já os Pedreiros Livres: "Nós não somos Teólogos, não somos Teólogos." E com efeito as enormes coisas, que dizem, são provas desta asserção, uma vez, contra sua vontade, ingénuos: porém como lhes observava o ar, conheci que inculcavam um desprezo absoluto à Teologia: esta era por certo sua intenção, e não o sentimento de sua ignorância, e não observei no que dizem mais do que temeridade, e sacrilégio. Ponhamos de parte certa Teologia de uma Dialética Árabe, verbosa, vã, e sofistica, parto de engenhos, que se evaporavam em subtilezas, aresto subsiste de Arábica barbárie, de que ainda se agravam certos homens, que mal se conhecem: é verdade contudo, que, se nestes mesmos escritos obscuros da escola Árabe, fundamentada na Filosofia de Averrois, se descobre uma parte de Teologia, frívola pela matéria, e pela forma, ou pelo objecto, e pelo modo, também se devisa uma Teologia sólida, e solidíssima, que se emprega toda em dogmas divinos, e sobre princípios consequentes, sustentados, não com o conhecimento da antiguidade, e línguas eruditas, mas sobre a mais acre Dialética, sobre a Crítica mais sensata, sobre a Metafísica mais profunda, e sobre a mais bem considerada Filosofia moral. E poderão os Pedreiros escarnecer esta Teologia? Não o fariam, se eles fossem, não Filósofos no nome e presunção, mas Filósofos de penetração, e de ciência. Não é ser Teólogo ter na ponta da língua um vocabulário mal inteligível, pior entendido; isto não é ser Teólogo; ser Teólogo é saber amplamente e a fundo as coisas divinas, e as suas razões, é saber quanto Deus quis revelar, e é lícito ao entendimento humano compreender. E quem de tudo isto não tem mais que uma leve tintura como se poderá entender nos mais recônditos, e profundos mistérios? Sapateiro, dizia Apeles, não te adiantes além dos sapatos. Louca presunção, da qual nem os maiores nomes vão isentos! "Eu sou grande Físico, grande Geómetra, grande Político, grande Orador, grande Poeta; logo como sou isto, também sou grande Teólogo". E porque não dizem também grande músico, e grande pintor, e para concluir ainda melhor, grande ridículo? Com efeito, este grande Teólogo me dirá, o que já me disseram os Pedreiros, que as controvérsias entre Cirilo, e Nestório, entre Atanásio, e Ário, eram controvérsias, ou questões de puro nome. Invenção aguda, e nova! Logo, é uma questão de nome, ou uma inépcia, deixar, ou tirar a ambiguidade, debaixo de cujos véus se esconde o erro!

Oh! Não é de Homem, nem de Político, nem de Filósofo subir, e avançar-se até ao trono da Divindade! E porque não, se a isto nos leva como a primeiro, e universal princípio a mesma humanidade, a Política, e a Filosofia? Não caminharam até este princípio Tales, Pitágoras, e Sócrates? E não eram homens, não eram Políticos, não eram Filósofos? Os Iluminados também sobem aos Céus; mas sobem como intentarão subir os Gigantes, se não para abater a Divindade, ao menos para a adormecer sobre seu trono. "Nós falámos, nós nos comunicamos", dizem outros, "com todos os homens de qualquer seita, de quaisquer opiniões que eles sejam." E que inferem disto os Senhores Iluminados? Que lhe devem falar de maneira que lhes sustentem, e não reformem suas depravadas ideias? Isto não ensina o sizo comum. Quantos são os que não reconhecem nem Providência, nem remuneração Divina? É preciso penetrar no ângulo mais selvático, e remoto do Mundo para encontrar estes Povos, não Povos, sem cultura, sem lei, e sem humanidade. E esta é a gente, ó Iluminados, a quem vós faltais? Os Otentotes, os Caraíbas, os Topinambás são os vossos escolares, ou Mecenas? Ainda que assim fosse, eu teixo à vossa consideração se é lícito fazer-se mestre do que se condena, e espalhar dogmas contrários à própria Religião. Mas vós não vos lembrais dos Bachás da Turquia, nem dos Sátrapas da Pérsia. A flor, a flor do Cristianismo mais culto, é o alvo das vossas miras, e para que fim? Por ventura, para fazer florescer nos jardins da Europa a selvática barbárie Americana? Eu não vos crimino porque não prégais o Cristianismo, mas porque espalhais Dogmas contrários ao Cristianismo. Não vos crimino porque falais com homens, como Políticos, como Filósofos, crimino-vos porque falais pior que Pagãos; crimino-vos finalmente porque em som de livres pensadores procurais ser tidos por sequazes, e observadores da mais santa Religião, suplicado crime, bem como se notou em Epicuro, impiedade, e dobrez.

"Mas não se devem passar em silêncio dois avisos dados por um grande homem aos pequenos, e pouco ilustrados mortais; o primeiro é a muita facilidade de taxar os Filósofos de irreligião, e de Ateísmo, facilidade errónea, e injuriosa de que até se queixou o grande Sócrates na sua apologia: o segundo, que ainda que os Filósofos fossem em seu pensar um pouco livres, é do dever da Religião dissimular para conservar, por honra sua, amigos aqueles que são considerados, e tidos pelos primeiros dos homens." Eu lhes agradeço de todo o coração estas benignas advertências, e repondo ao primeiro, que a culpa não é sempre da gente que entende mal, mas que muitas vezes é do Filósofo, que pensa, e fala mal: se um Sócrates foi acusado, e condenado injustamentem, não se segue que todos os Filósofos sejam Sócrates, nem que à sombra de um Sócrates deverão andar seguiros muitos Diágoras, e Teodoros. É de admirar, e esperar, que se queixe da facilidade de julgar quem é tão licencioso em falar. Seja como for, eu creio que estou assaz premunido contra uma semelhante querela, referindo-me, não às pessoas, mas às opiniões: se estas não merecem a taxa de ímpias, convenho em ter taxado de ignorante, e indiscreto.

À Segunda advertência respondo, que os Filósofos, servem de escudo à Religião; por isso sempre a Religião os prezou, e os amou; a estes mais importa a Religião, do que eles importam à Religião. A Religião de que falo nasceu sem os socorros de Filósofo algum, e cresceu maravilhosamente, e triunfou de todo o Mundo contra os esforços de inumeráveis Filósofos; e não foram pequena parte de seu triunfo os mesmos Filósofos, sujeitos, e dóceis ao seu jugo, ou revoltosos,e rebeldes. Mas como pode a Religião prezar, e amar Filósofos dissimulados, fingidos, inimigos domésticos, que debaixo de mão conspiram em sua ruína, e acabamento!

Alguns não se podem conter, e deixam quase cair a máscara dizendo: "E se a Religião que nos domina fosse frívola, e nociva? Não seria digno de grande louvor, e ate de grande prémio quem se votasse a reformá-la, ou a extingui-la de todo?" Nenhum louvor mereceria nem o da sinceridade; porque fingir sustentar aquilo mesmo que se quer aterrar, não é ser sincero. Que esperavam? Que a Religião se abolisse? Deviam declarar-se com mais franqueza, sem vizagens, sem aventais, sem mitras, e sem luvas. Ah! Sim, Epicuro não se atreveu intrépido os olhos contra o Céu, intimidou-se, e esmoreceu à vista da terra! Admiro a filosófica magnanimidade! Mas tenham agora comigo mais ânimo os Pedreiros, digam-me, julgam acaso danosa, e vã a Religião?Estes são pontualmente os dois sinetes que Epicuro lhe procurou imprimir, se damos crédito a seu infiel intérprete Lucrécio. Ele a taxa de vã, arrogando-se por isto o timbre da Sapiência, como se houvesse rasgado o véu das mais venerandas preocupações; taxa-a de nociva, arrogando-se também o timbre de humanidade, como se, qual outro Aristógiton, houvesse sacudido do pescoço o jugo da mais cruel tirania. É este o maior excitamento da escola moderna dos Iluminismo. Tudo nos Pedreiros é Sapiência, e humanidade, com o que após se lhe segue, que vem a ser, isenção de lei suprema, nenhum temor da vida futura, todas as doçuras da vida presente, numa palavra toda a felicidade humana. Digam os Senhores Iluminados se não são estes os seus sentimentos? Assentam que a felicidade humana está excluída da Religião, e que só se encontra na sua filosofia, isto é, na irreligião se não se atrevem a dizer isto à cara descoberta, o dizem, e insinuam nas suas tenebrosas vizagens, em seus ridículos símbolos, e em suas abomináveis assembleias. Não podem ter sentimento diversos dos de Epicuro, porque têm os mesmos princípios.

(continuação, IV parte)

VINHOS - Dow´s Vintage Porto 2011 - O MELHOR


Segundo a Wine Spectator, na lista lançada este ano, o melhor vinho do mundo é português. Estamos a falar concretamente do Dow's Vintage Porto (2011). No terceiro e quarto lugares estão também vinhos portugueses: Chryseia 2011 Prats & Symington (tinto), Quinta do Vale Meão (2011). Na lista dos melhores dez vinhos do mundo há ainda outros três portugueses (que irão ser anunciados). Com seis vinhos entre os melhores dez, numa lista de cem, Portugal fica colocado em grande destaque.

O Dow's Vintage Porto (2011), com dois anos de envelhecimento em madeira, melhorará bem guardado em garrafa, e será um artigo caríssimo daqui a 20 ou 30 anos. Se o mundo não acabar antes, é seguramente um bom investimento. O preço está nos 89€ por garrafa, a qual pode ser adquirida à Garrafeira Nacional.

As condições climáticas deram um empurrãozinho, e o resultado está à vista. Que S. Pedro mande mais...

26/05/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (IV)

(continuação da III parte)

PÁTRIA – Em a linguagem antiga significava, e significa ainda o país, onde alguém nasce. Nome doce, e caro para todos, e que excita em os corações desejos de façanhas nobres, e virtuosas. Porém a moderna Pátria Republicana é de um cunho inteiramente novo, e perfeitamente diverso. Um Demónio saído do inferno não poderia cometer mais iniquidades, que as que a palavra Pátria faz cometer a um verdadeiro Filosofo Republicano. Regicídios, fratricídios, parricídios, injustiças, crueldades, roubos, heresias, blasfémias, extermínios, raptos, adultérios, leviandades, matanças, e quanto se pode imaginar de mais atroz, e iníquo, outro tanto é licito, e manda esta fúria infernal; e nada há tão virtuoso, louvável, e meritório para um Democrático da ultima moda como todos estes horrores, quando os consagra à digna Pátria. Poucas pátrias deste jaez bastariam para acabar com tudo, e aniquilar a linhagem humana. Em resumo de conta, a Pátria Republicana é tal, que todo o homem de bem, honrado, e virtuoso deve em consciência jurar-lhe um ódio eterno. 

PATRIOTA – Significa pessoa a propósito para a pátria republicana, quer dizer, cunha do mesmo pau. Nesta hipótese, será mais patriota aquele, a quem menos asco causam as iniquidades, perfídias, e blasfémias, e que quando a Pátria as manda, e até sem as mandar, ele lhas dedica com uma semblante o mais sereno, e risonho. Não se pode pois ser bom Patriota sem ser um ateu, um traidor, um inimigo, não só do legítimo Soberano, mas da Pátria verdadeira, de Deus, de seu próprio Pai, e até de seus mais caros Amigos, e Patrícios. Com estar provas de patriotismo pode estar seguro qualquer para conseguir emprego em a pátria republicana. Cuidado, que eu nada exagero em a explicação do Vocábulo Patriota; basta ter olhos, e lançar uma olhada à moderna Pátria. É claro que não se vêm em os empregos senão Patriotas; porém Patriotas desta estôfa.  Em o antigo idioma não há, nem se quer uma palavra, que explique plenamente o novo termo Patriota. Ela é a quinta essência da impiedade, da patifaria, e da pouca vergonha. Oh! e quantos Patriotas há, para quem desfeita como o sal em agua a cucanha de uma tal Pátria, chorão amargamente uma perda tão preciosa!... E oh! quantos há em lugares, que suspiram por uma cara Pátria, que ponha em exercício seus belos, e louváveis desejos! Mas não haja susto; são tigres, que mordem em vão sua cadeia.

O que seria maravilhoso ver, se fosse possível, era que se fizessem todos os patriotas em uma paiz. Num momento se acabaria a todo o patriotismo: e eis-aqui a prova.  Tudo o que ele tem de útil, e agradável é poder tiranizar, e roubar. Em quanto houverem não patriotas bem vai o caso, e a tirania, e o roubo, ou teriam que roubar-se, e tiranizar-se uns aos outros, e seria mui duvidosa a sua sorte. Mais claro: em quanto houverem borregos, a republica dos lobos há de ter certas as suas conveniências; porém reduzida só a lobos não pode deixar de ser mui miserável. 

Outra classe de Patriotas há, a quem podemos chamar solapados. Declamam fortemente contra as violências, opressões, e tirania, que ou sofrem, ou hão sofrido  por outros, sua pátria, e seus concidadãos. O que não vê por teia de cadarso, os terá por homens de bem; porém cuidado! que estes são os mais fanáticos, e perigosos Republicanos. Pobres Patriotas! A suspirada tirania, e os apetecidos roubos os tem feito, ou estão fazendo outros, e não eles; e são Tântalos atormentados de uma sede raivosa, que não podem provar a agua, que lhe escorre dos lábios. Quem palpitações do coração! Mugem como touros ao lembrar-se que outros lhes hão usurpado seu exclusivo direito de roubar; e tem havido homem, que até tem arrenegado da democracia, e com razão: porque, de que diabo serve uma democracia, onde não chega a minha vez de roubar? Olho à letra! Pois não é cousa nova que os ladrões não estejam de acordo: e um tunante não é um homem de bem, só porque fala mal de outro tunante.

REPÚBLICA – (Vid. Pátria) Há só uma cousa a advertir, e é que em a língua republicana parece estar sancionado que não possa haver pátria verdadeira, senão a que é Republicano-democrática. E na verdade, que em certo modo a proposição é mui justa; porque para inspirar sentimentos, que horrorizem a natureza, não basta uma qualquer pátria, mas sim é necessária uma pátria republicana.

CIDADÃO – Em o idioma antigo, habitante de Cidade. Em o moderno, todos (à excepção dos Frades) habitam na Cidade, ainda que nunca a hajam visto. Para entender pois este Vocábulo com a devida precisão, é necessário distinguir, e separar o Cidadão cidadão, do Cidadão vilão, e do Cidadão aldeão, etc.

Em as Republicas modernas todos os Cidadãos são iguais, ao menos de palavra; porque todos são Cidadãos. Porém pelo que toca à realidade, há duas classes de Cidadãos, tão distintas uma da outra como o Oriente do Poente; a saber: Cidadãos opressores, e Cidadãos oprimidos: Cidadãos ladrões, e Cidadãos roubados: Cidadãos verdugos, e Cidadãos assassinados. Quanto se comprazem os primeiros com um tal nome, e com os privilégios a ele anexos, outro tanto se horrorizam os segundos somente em ouvi-lo. Todo o homem de bem, pacífico, e religioso, especialmente se tem dinheiro, trema desde os pés até à cabeça só em ouvir o nome Cidadão.

Sans-culotte
Ainda não temos podido penetrar, porque a democracia moderna tinha escolhido este igualativo Vocábulo com a preferência a outros. Dizemos isto, porque para igualar qualquer palavra devia ser indiferente; e tão honorífico seria chamar aos habitantes de um país com o nome de cidadãos, como com o de brejeiros ou bandidos, com tanto que fosse comum a todos. Por ventura preferir-se-ia aquele por ser mais decente. Porém bem considerada a coisa,  é preciso confessar que o nome Cidadão parece assaz vil para manifestar toda a dignidade, e grandeza de um Povo essencialmente Soberano. Porque, vamos com clareza, não lhe caberia  melhor o de Majestade? Pelo menos assim lhe era devido na qualidade de Soberano verdadeiro. E então que entusiasmo tão exaltado não causaria em um malsim, um lacaio, ou um sans-culotte, o ver-se saudado com a expressão de sirva-se Vossa Majestade?! Pelo menos deste modo se união perfeitamente o decoro, e a igualdade.

(continuação, V parte

A CONTRA-MINA Nº 2: Cruzada dos Povos Contra a Maçonaria (I)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 2
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Da Necessidade,e Próxima Existência de Uma Cruzada Geral dos Reis, e Dos Povos Contra a Maçonaria

Já no princípio do Séc. XVII se traçavam nos ajuntamentos da maçonaria os planos, que ele viu amadurecer, e que levou à execução nos Séc. XVIII, e XIX. Foi o Jesuíta Claudio Martin o primeiro, que os denunciou a Filipe IV da Espanha, e quando eu tiver as mãos soltas para fazer uma breve resenha dos serviços, que a Companhia de Jesus há feito aos Reis da Europa, farei ver claramente, que há duzentos anos havia um Frade Professor em Madrid, que anteviu todas as calamidades, que hoje se experimentam, e que por certo ameaçam o mais fatal, e pavoroso transtorno das Sociedades humanas. Naquele tempo eram havidas como visões, ou partos de um cérebro esquentado, essas importantíssimas descobertas, que se fossem tidas, ou levadas em conta, que elas mereciam, nem os cadafalsos teriam, como estemecido, de verem os Reis subindo os seus degraus, nem teriam corrido mais dilúvios, que correntes de sangue, na própria França, que tão cara pagou no Séc. XVIII a glória de o ter feito denominar o filosófico, e o ilustrado.


Sob a infaustíssima regência do Epícureu, e degenerado Duque de Orleans, na menoridade do Rei Luís XV, bracejou a Maçonaria, e trabalhou à sua vontade, fez grandes conquistas nas mais altas personagens, e escudada pelos grandes nomes de seus Grãos-mestres, não houve triunfo, que ela não se prometesse, nem obstáculo, que a fizesse retroceder, ou desistir de seus intentos.

Mas quem te disse, me tornará algum Leitor destes, que gostam de entrar no fundo das matérias, quem te disse, que a maçonaria já nesse tempo era mui poderosa e mui apadrinhada em França? Disseram-mo os escritos públicos desse Reino, em que se publicam Dicionários de Ateus, que é meio caminho andado, para se publicarem igualmente Dicionários ou Listas dos altos Dignatários da Maçonaria Francesa; e se os meus Leitores querem uma exactíssima dos Grãos-mestres, desde a referida época, até 1789, eu lha dou, e posso afiançar-lhes, que é verdadeira.

1725 Lord Deventer,
            Water =
         Lord d'Harnouester.
1738 Duque de Antin
1741 Conde de Clermont
1780 Um Príncipe de Sangue

Os primeiros dois passam como fundadores de uma Loja parisiense, que em breves dias contou 600 irmãos. As suas reuniões foram observadas pelo Governo, que fez prender alguns, mas bem prestes cessou todo o perigo de novas pesquisas; e os dois últimos Grãos-mestres fizeram desvanecer toda a ideia de serem novamente inquietados, ou perseguidos. Então mesmo as Bulas dos Sumos Pontífices, e nomeadamente a do grande Bento XIV, eram uns despertadores assaz fortes, e veementes para acordarem os Reis, e os Povos; mas que forças humanas puderam jamais desalojar a Maçonaria, quando ela chega a assentar-se nos últimos degraus do Trono? O francês estava minado, e quase em terra muito antes, que se ouvisse o estampido da sua queda; e por isso nunca saiu título mais bem achado para uma obra, do que este, que o Abade Proyart deu à sua História das últimas desgraças do seu Rei "Luís XVI desentronizado já antes de subir ao Trono". Assás conhecia esta verdade o próprio Luís XV, que mais de uma vez o deu a entender, como quem sabia os espantosos progressos, que já tinham feito, e iam fazendo todos os dias, o Maçonismo, e outras Seitas inimigas de Deus, e dos homens..... E como foi possível, que um Rei, conhecendo os perigos, que ameaçavam o seu Neto, e imediato Sucessor, não pusesse em obra todos os meios conducentes, para exterminar uma Seita, que jurou exterminar os Reis debaixo do ilusório pretexto de reivindicar a liberdade dos Povos?

Ainda mais, como foi possível, que o Rei, sobre cuja cabeça tinham passado as mais bravas ondas da Revolução francesa, se persuadisse, que à força de obséquios, de condecorações, e mercês, de amnistias, ou esquecimento do passado, chegaria a desarmar o incorrigível Maçonismo, e a fazer bons Vassalos, dos que resistem, quanto neles é, à mínima lembrança de sujeição ou de pendência? Reinar como reinaram os seus Maiores, é a primeira obrigação de um Rei. Não ceder aos Demagogos uma só polegada desse, como recinto Sagrado, de Autoridade Régia, é para os Reis uma espécie de necessidade, que se a desmentirem, ou dela se afastarem, não tardará muito, que sejam esbulhados do todo, já que tiveram a fatal condescendência, de exporem, ou sacrificarem uma parte, ainda que seja debaixo das aparências de conciliar ânimos discordes, ou servindo-me da frase Maçónica, para amalgamar partidos. Tinham estas ideias da Realeza, e bem firmes, e arraigadas em seus entendimentos, aqueles esforçados Portugueses, que nas Côrtes de Lamego dispuseram a Lei Fundamental deste Reino, quando se levantaram contra o reconhecimento de qualquer homenagem aos Reis de Leão.... e se estes grandes homens hoje ressuscitassem, que diriam eles da mais escravidão, que autoridade dos Reis Portugueses Constitucionais? mas que testemunhos vim eu trazer de um Século rançoso e escuro, para o Século das luzes? De boa vontade eu trocaria este por aquele, e há duas coisas, que eu muito lhe invejo, a saber: a Lealdade, e as armas, que se estas debelaram exércitos inumeráveis de Sarracenos, não teriam hoje que fazer com a mui dilatada, e orgulhosa Maçonaria, que sem véu, sem figuras, e sem o mais pequeno disfarce terá prometido abolir até o nome de Rei, e fazer de toda a Europa uma vasta República federativa, em que os Grandes Orientes sejam os únicos moderadores da Suprema Autoridade, e só tenha licença para viver, o que tenha dado o seu nome à Seita maçónica...

Quem lê os papeis Franceses, v. g. os Patriotas, e Constitucionais pasma, e benze-se de tantas, e tão sacrílegas ameaças aos Reis mais poderosos do Mundo. Com que audácia, e com que desenfreada impudência alardeiam eles de manter a ferro, e a fogo a Soberanaria do Povo?.. Estão em campo o Direito Divino, que favorece os Reis, e o Direito dos Povos, que é fundado na razão, e na justiça, veremos qual dos dois ficará vencedor? Com que insolentíssimo descaramento não auguram eles um incêndio geral, que debraze os Tronos, e restitua os Povos à sua antiga liberdade? Estomagão se da última Fala do Trono, em que o Rei de Inglaterra se abalançou a dizer, o meu Parlamento, os meus Súbditos, frases, que já se deviam proscrever, porque nada é dos Reis, e tudo é dos Povos.

Acho esta segunda Revolução em tudo mais abominável, que a primeira. Nos aziagos dias do fim de Julho passado mostrou ela, o que se devia temer do vertiginoso espírito, que a dirigia, e animava.... Haver em Paris tal Sociedade Maçónica, e tão ousada em seus planos, que já se enfeitava, para destruir tudo, quanto fosse propriedade, quanto fosse direitos hereditários, e para realizar o sonho de igual distribuição de bens..... e umas intimações como estas, que se fazem aos Reis, aos Grandes, aos Proprietários, e a todo o género de Corporações, devem ser tratadas e ouvidas com indiferença, e não se levantará por toda a Europa um grito geral "Acabe, pereça, e nunca mais respire o hediondo, e abominável, o Sacrílego Maçonismo"? Ah! se fosse possível, que a sonolência dos Reis fosse tão pesada, que nem acordassem aos incessantes brados do género humano, que os chama, que os insta, e aperta, que os convida, para que sejam os seus libertadores, como são os representantes de Deus sobre a Terra, não tardaria muito que caindo um Trono apôs outro, ficassem todos envolvidos numa só, e espantosa ruína. Em tais circunstâncias que seria dos Povos, entregues ao capricho de seus astutos, e refalsados Regeneradores? Aconteceria forçosamente o mesmo, que tem acontecido em toda a parte, onde tais monstros empolgam a Suprema Autoridade. Um vasto latrocínio.... a miséria pública no seu maior auge... toda a confiança perdida... a guerra civil ardendo em toda a sua fúria... os homens despedaçando-se uns aos outros, e o mais que já se viu na primeira Revolução da França, e que nós começámos a ver nesses tais, quais ensaios, que a Providência Divina, sempre desvelada pelo seu Portugal, não os deixou subir ao ponto, que os Orientes Lisboetas, Coimbrões, e Portuenses, haviam marcado em suas profundíssimas inteligências...

(a continuar)

25/05/15

ORAÇÕES CAMPESTRES


Orações antigas que nas aldeias se decoravam para dizer de manhã ao sair de casa para o trabalho:

Minha porta eu vou abrir
Para o Senhor poder entrar
Quem vive na Fé de Deus
nada lhe há-de faltar

Filho, com Deus irás,
com Deus andarás,
com Deus voltarás.
Deus contigo e tu com Ele,
Deus à frente, e tu atrás.
Deus na tua companhia ..(?)
À ente o Senhor à coluna,
atrás o Senhor coroado.
Sempre ao pé de ti o Senhor crucifixado.

Filho, da nossa casa vamos sair
para a nossa vida governar.
Todos os anjos acompanham 
todos passos que vamos dar.

Nossa Senhora à Frente,
o S. Pedro atrás,
e Santo António nos livre
das maldades de Satanás.

Meu pai Santo António
forte e valente nos guarde
por trás e por diante.

Em louvor de Deus e da Virgem Maria, reza-se um Pai Nosso e uma Avé Maria. E ofereço um Pai Nosso e uma Avé Maria pelo meu pai Sto. António, que como livrou o seu pai da morte livre a gente de todo o mal.

24/05/15

O GUÉDELON - Vídeos

Os franceses tiveram uma excelente ideias: construir um castelo apenas recorrendo às técnicas usadas no séc. XIII. Evidentemente, funciona, tanto que essas mesmas técnicas nunca deixaram de ser usadas até aos nossos dias, e têm a vantagem da simplicidade da matéria prima (mas são verdadeira sofisticação).

Onde há água, pedra, e madeira, há o fundamental para erguer um belo, genuíno, e durável edifício, pequeno ou grande.

O primeiro vídeo corresponde aos primeiros anos do projecto Guédelon (o tal castelo que estes franceses constroem). O segundo vídeo corresponde a uma fase mais recente do castelo (2015).


23/05/15

O FENÓMENO CONCHIT

Caros leitores, o plano de entronização do indiferentismo sexual e familiar está em forte marcha, e com tamanho avanço. Temo até que entre os mais resistentes haja quem julgue tudo tão "branco/negro" que, por isso, mais facilmente trague enganos das finuras de tal esmagadora subversão.

Não há erro no título deste artigo... Por não querer dizer "Conchita" nem "Conchito", melhor serve "Conchit"!

No ano passado, como se ouviu, "Conchita","a mulher barbuda", ganhou o Festival Eurovisão da Canção. As pessoas de maior tino manifestaram o seu repúdio a tal barbárie. Contudo... atiçadas contra aquele mal, tragaram o mal maior e mais discreto: trataram, e tratam esta personagem por "Conchita", como mulher com barba!

Conchit, o homem barbudo
que se finge mulher!
Mesmo sabendo todos que Conchit é um homem com barba, raros foram os que lhe chamar "barbudo travestido". Nada mais agradável aos taradistas que ouvir os atinados de todo o mundo tratarem por mulher um homem (que reconhecimento!!!). Eis como em todo mundo os atinados pelearam por causa da barba de um homem!... Terrível!

O golpe taradista atirou duas mentiras ao mesmo tempo: a menor, visível, e a mais importante, discreta: o imprudente revolta-se contra a visível com toda a força, e não vê a maior mais discreta; antes se faz veículo (transporta a maior porque se deitou a atacar a menor). Expliquei!?

Os tarados em todo o mundo festejaram a sua "vitória", e bateram palmas aos "atacantes" de Conchit.

Não esquecer... Conchit não é uma mulher com barba! Conchit é um homem com barba e travestido.

REFUTAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DOS PEDREIROS ILUMINADOS (II)

(continuação do I Cap.)

Capítulo II
Paralelo da Religião de Epicuro Com a dos Iluminados

Foi moda no século das revoluções espalhar nomes em lugar de coisas, e inculcar péssimas coisas com especiosos nomes. Fala em Religião Epicuro, fala em Religião o Iluminado, e Religião pura, e perfeita. Mas que entende um, e outro, que toma pela palavra Religião? Acaso [foi] o que entenderam os outros Filósofos, Príncipes, magistrados, e Povos do Mundo? Não por certo! Tal é em qualquer indivíduo a Religião, que é a ideia que forma da Divindade, e da humanidade. O homem, ainda depois da morte corporal, sujeito ao Império de Deus; Deus, Legislador Supremo, e distribuidor da felicidade, e da miséria do homem; eis aqui as bases em que se estabelece, e levanta a importância, e majestade da Religião. Ritos diferentes, diferentes sacrifícios, e também diferentes formas, e caracteres da Divindade, ou suposta, ou suspeitada, ou fingida, segundo o capricho dos homens, (ainda que todas as nações existam concordes nisto, que vem a ser, no conhecimento de alguma Divindade dominante, dispensadora dos bens, e dos males), dão a conhecer que o homem naturalmente quer respeitar, e obedecer a um supremo Nome. Nem outra coisa queriam dizer os raios de Jove, as frechas de Apolo, as espigas de Ceres, o Tataro, e o Elísio. Que Deus indolente, e nulo se julgou digno de Templos, e de Altares?

Epicuro
Nós vamos ver qual seja a ideia do homem na Filosofia de Epicuro, e do Iluminado. O homem dizem um e outro, não é mais que um composto de simples matéria, que todo se esvai, e acaba na morte, e por isto izento, e livre de qualquer Religião, porque só vive circunscripto, e limitado só à vida presente. nada resta depois disto à Religião; porque tanto Epicuro, como o Iluminado, fazem também a vida actual independente da Religião pela estranha ideia que nos dão da Divindade. Um Deus de quem se não pode temer, nem esperar coisa alguma nem enquanto dura a vida, nem depois de finalizar a vida. eis aqui o grande objecto da Religião de Epicuro, e do Iluminado.

Enquanto à ideia de Deus, deve observar-se entre Epicuro, e o Iluminado a maior diversidade, e ao mesmo tempo a mais exacta semelhança. Os Deuses de Atenas, não eram os Deuses de Epicuro; exteriormente os honrava, mas dentro de seu coração os escarnecia; carácter que em Céneca repreendeu Santo Agostinho: "colebat, quod reprehendebat". Quais eram pois os Deuses que Epicuro desconhecia? Uma feira de Entes, sonhados por ele: Monógramos, que quer dizer Lineares, figurados, mas não visíveis, que tinham, não corpo, mas quase corpo, não sangue, mas quase sangue, desterrados para sempre entre mundo e mundo nos espaços imaginários. Um Aristófones não podia pôr em cena mais ridiculamente as Divindades da Grécia, nem Luciano os podia mais claramente expor ao escárnio, e ludibrio dos homens! E Epicuro, o Filósofo Epicuro, profere, e dogmatiza tais despropósitos? Parece que, senão delirava, por certo zombava dos Deuses e dos homens!

Confesso que o Iluminado vai muito longe destas extravagâncias, incompactíveis por certo com o decoro filosófico da nossa idade. Ainda os de mais ardimento, e os que não fazem pública profissão de Ateus, falam do Ente Supremo como aquela dignidade, que lhes prescreve, não só a mais sábia Filosofia, mas a mesma Profecia, e Evangélica Sapiência. Ente Soberano, e único, eterno, imenso, infinito, perfeitíssimo, e em si mesmo bem-aventurado; tal é o quadro, ou ideia de um Deus, que quase todos os Iluminados nos apresentam, e nisto há entre eles, e Epicuro uma palmar diversidade.
Passemos à semelhança: Que fazem os deuses de Epicuro a respeito dos homens? Nada. O seu primeiro princípio é este: Eximirem-se de todos os cuidados numa perfeita, e absoluta indolência. Encerram-se em sua habitação, quietos, tranquilos, bem-aventurados no seio de um ócio eterno. Ocupação na verdade extravagante, mas muito digna de tais divindades!

Ora perguntemos aos Iluminados, que faça, e em que se ocupe a nosso respeito esse deus, que eles conhecem tão grande, e tão perfeito? Dita algumas Leis? Promete algum bem a quem o honra, e lhe obedece? Ameaça algum castigo a quem lhe for refractário, e rebelde? Não me digam que a mesma dignidade divina é Lei para todos, e que a razão, e a consciência do homem remunera o homem com a sua aprovação, e o castiga com seus remorsos. Vãos subterfúgios! Não, meus Senhores, não é isto o que eu aqui pergunto. Pergunto-vos se o vosso deus vos intime expressamente algum preceito, e vos prometa algum prémio, que possa galardoar vossas acções virtuosas? "Ah!", exclamais vós enfaticamente, "não convêm aos Supremo Ente abaixar tanto os olhos a coisas tão vis, como são as acções humanas! Porventura é coisa própria de um grande Monarca atender aos movimentos de um pequeno insecto? É coisa indigna de Deus o homem, e quanto diz respeito, e se refere ao homem." Entendo o que se me quer dizer: Deus, conforme a opinião de Epicuro, nem tem, nem emprega uma providência individual. É grande, é eterno, mas tão ocioso a respeito do homem, como os deuses ridículos de Epicuro; com esta diferença, que os deuses de Epicuro nada fazem por motivo de sua ociosidade, o vosso nada faz, por motivo de sua grandeza; mas em nada fazerem são perfeitamente semelhantes. E, se tal é a Divindade dos Iluminados, qual será a Religião? Porventura uma coisa grave, e séria que os obrigue, e que os interesse? Nada disto. Se desta iluminada Religião se desse ao vulgo uma ideia clara, diria o vulgo que era uma coisa que o não fazia, nem quente, nem frio, porque a Religião é toda para Deus, e de Deus tira, e tem toda a sua força, e autoridade. Ora, se deus anda faz, e nada exige de mim, que tem comigo, ou que tenho eu com a Religião? "Não", diz Epicuro, e com ele os Iluminados, "uma coisa que por si é excelente obriga à veneração. E que coisa mais excelente que Deus? Ora toda a Religião consiste na veneração, e no culto que lhe é inseparável." Mas tudo isto é um equívoco, e um miserável equívoco. Este dito dos Iluminados está bem na boca de quem tem de Deus uma bem diferente ideia; porém a que se reduz esta veneração, e este culto nos Iluminados? A uma estéril, ainda que necessária admiração, ou quanto muito a uma homenagem inteiramente arbitrária, qual se consagra à grande alma de Sócrates, ou de Epaminondas; homenagem tão inútil a quem a consagra, como inocente a quem a nega; porque, torno a dizer, de quem se exige este culto? Que proveito, ou que dano causa a quem o dá, ou a quem o nega? Respondam, meus Senhores; eu honro esta divina excelência, resulta-me disto algum bem? Nenhum. Logo, eu a venero, e acato em vão. E se eu a ofendo, resulta-me disto algum mal? Nem um. Logo impunemente a ofendo. Deste princípio, tão visto pelos factos no Iluminismo, tirou Tertúliano esta justa, e assizada consequência: Negat Deum imendum, itaque libera sunt illis omnia, et soluta. Oh! Que condescendente Divindade! Oh! Que Religião tão cómoda!

Tornemos a considerar a coisa de seu princípio: uma humanidade, que é toda material, e que está fora do alcance de todos os tiros do Céu; uma Divindade, que por cómodo seu, ou por decoro o não dá o mais pequeno sinal de vida; que, se te volveres a ela, não te olha, se lhe pedires alguma coisa, não te escuta, se a adorares, não to agradece, se a ofenderes, não se recente; que, se fores todo proibida de, não te premeia; se fores doto iniquidade, não se ofende, nem te castiga; tão indiferente para tudo, como seria uma estátua; venerar esta divindade, e venerá-la a teu sabor, e de tal maneira, que a podes francamente ofender sem lei, sem dependência, sem utilidade, sem esperança, sem temor: e é esta a coisa mais importante, mais tremenda, mais augusta, e sacrosanta que tem havido, e há entre os homens, a Religião? Mas digam-me os Iluminados, é isto ilusão, ou Religião? Ela nem vos obriga, nem vos toca, é como senão fosse, e para o dizer melhor, é um equivalente da irreligião. Seja juiz aquele mesmo que procurou lavar-se da mancha de impiedade, o Epicureo Lucrécio Poeta, sempre em contradição consigo mesmo, porém mais sincero que um Iluminado. Louva encarecidamente o seu Epicuro; e porque? Porque ousou primeiro levanta os olhos contra o Céu:

Primus Graius homemo mortales tolere contra
Est occulos ausus,
etc.

O que em sua linguagem nada mais quer dizer, que ser destruidor da Religião; e Cícero com filosófica gravidade, e fraqueza, melhor nos aclarou este mistério: "Xerxes com os braços da sua soldadesca, (diz Cícero, comparando o Conquistador com o Filósofo), Xerxes com os braços da sua soldadesca, e Epicuro com as máquinas da sua doutrina, conspiram para a ruína da Religião; só com esta diferença, Xerxes com a cara descoberta, atacou o corpo da Religião, isto é, o culto exterior, e Epicuro, com o rebuço da Filosofia, atacou o espírito da mesma Religião, destruindo seus princípios, tirando todo o freio à humanidade, e tornando ociosa e improvida a Divindade."

E vossas máquinas, ó Iluminados, não são as mesmas de que se serviu Epicuro? Os vossos princípios não são os mesmos? mas entre vós, e Epicuro há uma estranha, e notável diferença. Epicuro deixou ao menos intactos, e sustentou, o culto externo, os Templos, os altares, adorações, oblações, sacrifícios.... Vós, pelo contrário, unicamente vos limitais ao culto interior, isto é, um culto de que Deus não cura, e que nada importa ao homem. E à vista disto, que nome vos darei? Chamar-vos-hei Epicuros, ou Xerxes? Sereis uma, e outra coisa, já que com vossos dogmas, e princípios haveis destruído, ou atacado o corpo, e o espírito da Religião; e se persistis em querer o nome da Religião, seja assim, mas confessai que a vossa Religião é a coisa mais vã que tem o mundo: confessai que uma semelhante Religião se acomodasse maravilhosamente com a impiedade, e que nada mais é, que uma espécie de Ateísmo, e Ateísmo dissimulado, ou mitigado; faz ressoar altamente o santo nome de Deus, mas é Ateísmo; porque o Deus, cujo nome proferis, é para vós como se não fosse, porque de nada cura, e nada estende a sua providência: e quão pequena é a diferença entre o fazer nada, e o não ser! E tal é a diferença que passa entre o vosso Deísmo e o Ateísmo; porque tem, e goza de todos os seus privilégios. Ou não exista um Deus, ou nada faça, é para vós o mesmo, igual liberdade, e igual soltura: Negat Deum imendum, libera sunt omnia, et soluta: esta era a intenção daqueles ímpios de que vos disse falara a Escritura - Dissolver-se-há, acabará nossa alma como se dissipa o fumo, e o Ente Supremo não atenderá por isto: Spiritus diffundetur; non videbit Dominus: e tão seguros como os Ateus que diziam: "Non est Deus. E atrevem-se os Pedreiros-livres a dizer: "Somo religiosos, somos até Cristãos". E gritam estrepidosamente: "Impostura, inveja, e fanatismo são os nossos perseguidores." Assim bradam, se se lhes diz que seus abominandos princípios são anti-Cristãos. Ensinou acaso Jesus Cristo o que eles ensinam? É porventura o Evangelho conforme à sua doutrina? Creio que os Iluminadíssimos Pedreiros são do jaez, e estôfa daqueles de quem fala Santo Agostinho, que se envergonhavam de se chamarem Cristãos, para lhe não chamarem Platónicos, e Zenonitas: Cujus superbia nominis erubescunt esse Christiani. Neste afectado Cristianismo, nem Zeno, nem Platão descobririam seus mais ligeiros liniamentos, e feições. A Divindade, que estes Filósofos criam, não existia tão descuidada das coisas humanas, nem idearam jamais a humanidade a um mesmo tempo tão livre, e tão abjecta. Como podem ser Cristãos os que não conservam, nem os primeiros elementos da Religião natural, e filosófica? Querem dizer-se Cristãos para desfigurarem o Cristianismo à sombra deste nome, e cravarem-lhe mais profundamente o punhal que escondem.

(continuação, III cap.)

MAGNIFICAT (II Tom) - Fr. Manuel Cardoso

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (III)

(continuação da II parte)

DEMOCRATIZAR – Largo tempo se tem passado sem se poder compreender, que coisa significasse positivamente esta palavra republicana em o idioma novo. Julgou-se ao principio, que teria alguma relação com o que antigamente se chamava formar um governo popular. Porém, que loucura! A experiência mostrou imediatamente, quão errada era esta ideia, e o engano nascia principalmente da mudança de significado em a palavra Povo. Quando vimos democratizar aos Estados mais democráticos da Europa, compreendemos, que democratizar um Estado, em o moderno idioma, não quer dizer outra cousa, que denegrir, e abater o Governo, que existia, seja ele qual for; esbulhar dele os homens de bem, que mandavam pôr em seu lugar, ou tolos, ou ímpios e bandidos; formar destes o Povo, e ao verdadeiro Povo escraviza-lo; roubar quanto haja de precioso; e aniquilar a Religião, especialmente a Catoliciza; sem se esquecer um só instante de despojar e oprimir seus  Ministros, etc. etc. É por este modo, que hão sido constante e invariavelmente democratizadas as Flandres, a Holanda, Milão, Bolonha, Modena, Ferrara, etc. etc. Desta explicação se deduz naturalmente a inteligência de muitos Vocábulos derivativos, como 

DEMOCRÁTICO – Que pela activa significa ateu, ladrão, assassino, colocado em o mando e governo; e pela passiva, a parte honrada e religiosa de uma Nação ultrajada e oprimida, tiranizada e roubada por bandidos, ateus, e assassinos. 

DEMOCRACIA – Tem-se tentado dar a versão em idioma antigo com o nome etimológico de pirataria; porém não o explica perfeitamente, porque também se poder dizer ateistocracia, e ladrocacia. Convertidos num estes três Vocábulos, formam o verdadeiro equivalente da democracia moderna. De sorte que em lugar de democracia deveria dizer-se demoniocracia, ou antes governo de demónios. 

SEMI-DEMOCRÁTICO – São de duas qualidades: uns que em parte estão pela democracia moderna, porém unida à Religião, e à moral e com gente honrada no Governo: outro, pelo contrario, não querem Religião, nem costumes, porém que sejam homens que governam. Na linguagem antiga não se pode dar a estes outro nome que o de orates, e aos segundos ainda melhor que os primeiros; pois supõe que podem haver ateus, e libertinos, que sem homens de bem.

ARISTOCRACIA – Até agora conheciam-se quatro classes de Governo, Monarquia, Aristocracia, Democracia, e Misto, e se distinguiam real e verdadeiramente. Mas na linguagem moderna não se conhecem senão dois, Democracia, e Aristocracia, e nenhum significa o que dantes significava; porque por Democracia se entende o de morras, e por Aristocracia todo o Governo, que não se conforma com a Democracia; mais claro: todo o Governo no qual floresce a Religião, se respeita a ordem, a justiça, a boa-fé, a honra, os bens, e a vida. Daqui se colige que será aristocrata todo aquele, que tenha Religião, que possua bens, que seja regulado, moderado, honesto, e de boa-fé. Que será aristocrata todo aquele, que não for petulante, que insulte o Céu, e a terra, e todo o que se não assemelhe aos diabos na incredulidade, em ódio à Religião, à ordem, à humanidade, e aos costumes. 

POVO – Na linguagem nova quer dizer: as fezes, e a ultima relé de uma Nação. Tem Roma cento e setenta mil habitantes: trezentos foragidos, ímpios, e malvados, todos dignos da forca, e das galés, foram republicanamente chamados o Povo. Tem havido Cidades, onde dez ou doze malfeitores, tirados dos cárceres com algum jogador, ou tunante à frete, hão formado o Povo dos Republicanos.

(continuação, IV parte)

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