31/03/15

CONTRA-MINA Nº 58: O Ralho Das Comadres

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 58
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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O Ralho Das Comadres

Tem os elogios feitos a D. Pedro em toda a Aurora décima quarta um fim principal, e vem a ser, a união dos confrades, que andam mui rixosos, e desavindos entre si, a ponto de haver muitos Portugueses do Rancho Liberal, que mais querem (palavras formais do A.) que reine D. MIGUEL, do que restaure D. Pedro, se corre perigo, que a Nação o aclame Regente....
 
E que tal vai a função? Que vos parece Verdadeiros, e Leais Portugueses? Nem os seus já o querem! E nos é que o devemos querer, talvez pelo muito que lhe somos obrigados? É com efeito mui renhida a baralha, que se nota em os até agora unidos, e inseparáveis irmãos! Nem o Aurora se julga com forças bastantes para deitar água na fervura aos Escritos incendiários, que de França, e de Inglaterra se enviam quase diariamente para a Ilha Terceira, no intuito de se conseguir, que o Batalhão de Caçadores, e mais agregados voltem as armas contra D. Pedro, já que D. Pedro se declara inimigo das próprias Instituições, que deu a Portugal, as quais manifestamente o excluem da hoje por ele tão ambicionada Regência. Neste perigo terrível, neste medonho conflicto de opiniões divergentes chamou, gritou o Aurora pelo seu valentão, para que lhe acudisse.... Veio logo todo contente, e prazenteiro, como quem folga de promover a todo o custo, e em todos os tempos a exaltação dos Radicais; porém, torceu o nariz, e não deu nada pela festa, quando soube dos quatro generais cismáticos, e queixosos, de que D. Pedro os aliviasse de fazerem parte da Expedição, e consequentemente de cingirem os louros triunfais... Assentou desde logo, que se devia meter às boas, e descaindo um pouco essa ordinária valentia, com que julga os Reis, e os Povos, limita-se a pedir-lhes com as mãos erguidas, que se façam amiguinhos, que tenham um bocadinho de paciência, visto que depois de rendida Lisboa às armas, (Pedreiras) então lhes será concedido alegarem os seus méritos, e os seus direitos, ficando certos desde já, que nenhum será desatendido, ou maltratado ... Venha o texto - Em alguns dignos emigrados Portugueses temos notado a disposição, a que aludimos, em grau tamanho, que nos faz recear algum prejuízo à sua nobre causa.

Estes bons, e saudáveis conselhos viram a luz antes do dia 6 de Março; e quando se devia esperar, que sortissem o melhor efeito, e que as penas caíssem das mãos a esses folicularios, (nome, com que os brinda o Redactor da Aurora) que em Londres combatem a futura Regência de D. Pedro, sucedeu pelo contrário; pois eu vejo, que trazem a data daquele dia 6 de Março, as - Reflexões sobre hum Paragrafo de Manifesto Senhor D. Pedro Duque de Bragança.... escritas por José Liberato Freire de Carvalho, as quais tem por Epigrafe ..... não porque trata de opiniões Políticas, cuja discussão deve ser cada hum inteiramente livre. 

Carta de Cândido José Xavier em nome do Duque de Bragança ao Coronel Rodrigo Pinto Bizarro....

Quem me dissesse há quinze dias a esta parte, que José Liberato Freire de Carvalho tinha preparado, e fabricado excelentes armas contra o Manifesto de D. Pedro, seria por mim tratado de louco, ou de impostor; e vai senão quando aparece José Liberato, que na mesma data de 6 de Março, em que se publicou a desgraçada Aurora, confuta, e pulveriza, o que há de mais essencial no Manifesto; e vem a ser o parágrafo seguinte:

"Depois de agradecer nas Ilhas dos Açores aos indivíduos que compuseram a Regência (que nomeei por estar ausente) o patriotismo, com que desempenharam em circunstâncias tão dificultosas o seu encargo, reassumirei (pelos motivos que ficam ponderados) a autoridade, que na mesma Regência se acha depositada, a qual conservarei, até que estabelecido em Portugal o Governo Legítimo de minha Augusta Filha deliberem as Cortes Gerais da Nação Portuguesa (a cuja convocação imediatamente mandarei proceder) se convém, que eu continue no exercício dos direitos, que se acham designados no Artigo 22 da Carta Constitucional; e resolvida que seja esta questão afirmativamente prestarei o juramento exigido pela mesma Carta, para o exercício da Regência permanente." 

Prescindirei agora das primeiras observações do A. sobre a injustiça, com que são tratados os heróis, (e bem heróis!) defensores da Terceira, e Conquistadores da Ilha de S. Miguel, e que tendo-se ilustrado por acções gloriosas, já antes que fosse instalada a Regência da Terceira, mereciam uma penada encomiastica no grande Manifesto, e só aproveitarei o que se refere imediatamente ao caso principal, isto é, se a Regência compete, ou não compete a D. Pedro.

"O Senhor Duque de Bragança (é o A. quem fala) declara positivamente, que reassume a autoridade, que estava depositada na Regência da Ilha Terceira; e poderá alguém sustentar, que ea tenha sido a Regência da Carta, e por consequência um Governo Legítimo? Não o era na substância, porque a sua autoridade só dimanou de um poder puramente natural, e derivado do direito público geral, sem nenhum carácter político, o que o Senhor Duque de Bragança foi o primeiro a confessar, quando pelo Decreto da criação da Regência em data de 15 de Junho de 1829, ratificando a sua abdicação, declarou, que só pelas extraordinárias, e imprevistas circunstâncias, em que se achava o Reino de Portugal, ele como Tutor, e natural Protector de Sua Filha, criava aquela Regência. Não o era nas formas, porque nenhum dos indivíduos, que compuseram aquela Regência, tinha as qualidades especificadas na Carta para preencher este alto emprego. Não era portanto aquela Regência mais do que um Governo de circunstâncias extraordinárias, e imprevistas, como bem a denomina o Decreto da sua criação; e por isso hum Governo, que não podia durar senão em quanto durasse a usurpação, ou em quanto a Carta assim como toda a Nação (Maçónica) estivessem em cativeiro. Sendo isto uma verdade inquestionável, como pode o Senhor Duque de Bragança, declarando ir reassumir a autoridade da Regência, ser considerado como Governo legitimo, segundo a Carta? Se a Regência o não era, por esse princípio também ele o não pode ser."
Segue-se o desenvolvimento destes primeiros raciocínios, que a pag. 6 crescem, e aumentam em força por este modo.

D. Maria da Glória (D. Maria "II")
"Às razões, que tenho dado para mostrar, que o Governo Legitimo (faltam um i e um l no começo desta palavra, segundo a melhor ortografia) da Senhora D. Maria II não pode ser exercido por seu Pai o Senhor Duque de Bragança, parecem adquirir ainda maior força por outras palavras deste mesmo parágrafo, nas quais apesar de toda a ambiguidade em que nesta parte está concebido, talvez por acaso, se encontra uma mui palpável, e grande contradição. Dá-se primeiro como certa a legitimidade do Governo do Senhor Duque de Bragança pelas palavras = estabelecido em Portugal o Governo legítimo =, e logo depois se acrescenta, que ele imediatamente convocará as Cortes Gerais, para deliberarem, se deve continuar no exercício dos direitos designados no Artigo 92 da Carta. Mas se o Governo, que o Senhor Duque de Bragança vai assumir; nem é o da Regência Provisional do Artigo 94 da Carta, nem o da Regência permanente do  do Artigo 92, porque ainda as Cortes hão de deliberar sobre a sua legalidade, como se pode esse Governo denominar legítimo? Ou a autoridade, com que o Senhor D. Pedro Duque de Bragança intenta convocar as Cortes é legítima, e como tal conforme com  o que se determina no Artigo 92, ou não é? No primeiro caso não precisam as Cortes deliberar sobre este ponto; porque se a podia assumir legalmente, também a pode continuar; no segundo se essa autoridade, exercida de facto é contrária ao mesmo Artigo 92, ou ainda mesmo pode ser duvidosa, as primeiras Cortes convocadas não podem ser juízes competentes nesta matéria. A Questão toda se reduz à simples fórmula seguinte: É o Senhor D. Pedro Duque de Bragança o Parente mais chegado na Ordem da Sucessão? A esta pergunta já deu resposta o mesmo Senhor Duque de Bragança no perambulo do seu Decreto de 15 de Junho de 1829, quando por ele nomeou a Regência da Terceira. As suas palavras são literalmente as seguintes. "Havendo eu pelo meu Real Decreto de 3 de Março do ano próximo passado ordenado, que os Reinos de Portugal, Algarves, e seus Domínios fossem governados em nome da minha muito amada, e querida Filha D. Maria 2ª, já anteriormente sua Rainha na forma da Carta Constitucional, por mim dada para aquela Monarquia, e ali jurada pelo Clero, Nobreza, e Povo, declarando eu mui expressamente ser chegado o tempo, em que minha alta Sabedoria (Que tal é o Salomão Brasileiro?) havia marcado para completar a minha abdicação à Coroa Portuguesa, e não pretender mais direito algum à mesma Coroa, e seus Domínios, aconteceu.......

"Desta resposta se podem portanto tirar duas importantes consequências: 1ª que abdicando expressamente o Senhor Duque de Bragança a Coroa Portuguesa, e declarando não pretender ter mais direito a ela, e seus Domínios, se excluiu ele mesmo da Ordem de Sucessão, e já não pode ser incluído entre as pessoas marcadas no Artigo 92 da Carta. 2ª Que, para que o mesmo Senhor Duque de Bragança possa exercer um Governo Legitimo, como Regente do Reino na menoridade da sua Filha é necessário, que as Cortes Gerais, com poderes constituintes, modifiquem, ou alterem o Artigo 92 da Carta. Podem porém fazer esta alteração, ou modificação na Carta? Respondo, que não; e provo com os Artigos seguintes da mesma Carta.

Titulo 8.º Artigo 140 - "Se passados 4 anos depois da Jurada Constituição do Reino, se reconhecer, que algum dos seus Artigos merece reforma, se fará a proposição por escrito, a qual deve ter origem na Câmara dos Deputados, e ser apoiada pela terça parte deles."

Artigo 141 - "A proposição será lida por três vezes, com intervalos de seis dias de uma a outra leitura; e depois da terceira deliberará a Câmara dos Deputados, se poderá ser admitida à discussão, seguindo-se tudo o mais, que é preciso para a formação de uma Lei."

Artigo 148 - "Admitida a discussão, e vencida a necessidade da reforma do Artigo Constitucional, se expedirá a Lei, que será sancionada, e promulgada pelo Rei em forma ordinária, e na qual se ordenará aos Eleitores dos Deputados para a seguinte Legislatura, que nas Procurações lhes confiram especial faculdade, para a pretendida alteração, ou reforma."

Artigo 143 - " Na seguinte Legislatura, e na 1ª Sessão, será a matéria proposta, e discutida; e o que se vencer prevalecerá, para mudança, ou adição à Lei Fundamental, e juntando-se à Constituição, será solenemente promulgada."

Artigo 144 - "É Constitucional o que diz respeito aos limites, e atribuições respectivas dos Poderes Políticos; e aos Direitos Políticos, e individuais dos Cidadãos. Tudo o que não é Constitucional pode ser alterado sem as formalidades referidas pelas Legislaturas Ordinárias"

"Segundo a doutrina de todos estes Artigos, uma vez que no seu mesmo Manifesto reconhece o Senhor Duque de Bragança não poder tomar a Regência permanente do Reino, sem que as Cortes Gerais deliberem, e afirmativamente resolvam, se isso é conveniente, ou legal, é de toda a evidência, que esta questão não pode ser resolvida pelas primeiras Cortes convocadas; pois que a matéria, sobre que elas tem de deliberar, é Constitucional, porque versa sobre a restituição dos Direitos Políticos, a que o mesmo Senhor Duque de Bragança voluntariamente  renunciou pelos seus reiterados actos de abdicação, e formal renúncia a todo o Direito, que podia ter sobre a Coroa de Portugal, e seus Domínios.

Ainda outra dificuldade se poderia excitar no caso que o Senhor Duque de Bragança quisesse exercer a Regência temporal do Reino, depois de haver debelado a usurpação, e ter aclamado a autoridade legítima da sua Filha, a Senhora D. Maria 2.ª Consiste esta dificuldade no mesmo chamamento, ou convocação das Cortes Gerais, que na conformidade da Carta se compõe de uma Câmara de Deputados, e outra de Pares. A maioria desta, como bem o disse o Senhor Duque de Bragança no seu citado Decreto de 15 de Junho de 1829, abdicou voluntariamente a sua dignidade, em consequência do seu mui notório prejuízo; e portanto só dela resta fiel a seus juramentos uma pequena fracção! E será por ventura esta suficiente para agora constituir a mesma Câmara? É verdade, que a Carta não marca número certo, e segundo a letra da Lei meia dúzia, ou uma dúzia de indivíduos a podem compor: Contudo será isto prudente, ou ao menos conforme ao exercício das funções,  que ela tem de exercer? Então sendo necessário, anda que mais não seja, senão por motivos de conveniência, que ela se aumente, e reorganize, quem legalmente a poderá nomear? Esta nomeação, pelo artigo 74 da Carta Titulo 5.º pertence ao Rei, em virtude do Poder Moderador; e poderá neste caso haver-se por Legitimo † o Governo do Senhor Duque de Bragança, para exercer este poder, sem ter dado o Juramento como Regente? Julgo que não: e pois que só do consentimento das Cortes depende este Juramento, é esta, como já mencionei, uma nova dificuldade, que se opõe à Regência temporária do Senhor Duque de Bragança, depois de debelada a Usurpação. E além disto, seria cousa legal, e até decente, que ele fosse o mesmo, que nomeasse os Juízes, que o haviam de julgar?

Tenho exposto francamente a minha opinião sobre este assunto, que para mim é da maior importância; e satisfeito com ter cumprido com o meu dever, não curo do modo porque ela pode ser recebida, e interpretada por aqueles, que a tivessem contraria. Declaro contudo novamente, que não conheço o Senhor D. Pedro Duque de Bragança, nem por injurias, nem por benefícios pessoais; e por isso tudo quanto tenho dito é meramente para elucidar uma questão de geral interesse, que é a não violação da Carta Constitucional, e não para o atacar, ou ofender como individuo , ou como príncipe. O respeito à Carta deve ser para nós todos superior a todas as considerações pessoais, porque violada ela ilegalmente uma vez, perde toda a sua castidade política, bem como deixa de ser casta a donzela, que uma vez se deixou tocar por alguém, que não seja seu marido. Depois deste Culto, todos os mais respeitos consagro ao Senhor Duque de Bragança, não só como Pai da nossa Augusta Jovem Rainha, mas ainda como aquele, que nos restituiu as nossas antigas Liberdades, e com isto tenho dito tudo. -

O Príncipe, que tem a glória, que ninguém lhe pode disputar, de ser o Legislador dos dois Mundos, e que depois de ter dado Constituições Políticas a dois Povos, voluntariamente abdicou duas Coroas, tendo-as antes laureado com o triunfo da liberdade, como pode ter ambição de aspirar a uma dignidade tão inferior às que ele já antes desprezou? Sim, quem abdica voluntariamente à dúplice Coroa de Imperador, e Rei, não pode ter tão pequenas ambições, e por isso não pode também escandalizar, que se lhe questionem direitos, que nem aumentam a  sua glória, nem o podem tornar mais feliz. A mesma posição política, em que ele se acha, e posição, que ainda o liga, por tantos, e tão fortes laços à sua Pátria adoptiva, o Brasil, exigem também uma circunspecção, que talvez muitos dos seus Conselheiros, por um motivo, ou por outro, não lhe tenham ainda feito bem compreender. Assim tudo isto me induz a persuadir-me, que em vez do Senhor Duque de Bragança me levar a mal esta minha Liberdade, talvez antes lá dentro do seu Coração, a aprove, e a julgue ter aparecido a propósito.

Londres, 6 de Março de 1832."

† É preciso que todos nos entendamos. Para que o Governo seja Legítimo não basta, que mande em nome da Legítima Rainha, a Senhora D. Maria 2.ª, é necessário, que seja constituído e organizado segundo a Carta Constitucional."

Assim discorre, e argumenta o A. do Opúsculo, que assentei devia transcrever por inteiro neste último, e por certo o mais curioso fragmento da sua breve, porém victoriosa, e terminante refutação do que é mais essencial no Manifesto de D. Pedro; e se um dos principais traidores a este Príncipe, (titulo que eu mais prezo, do que os de primeira Grandeza nestes Reinos) concorda em princípios neste particular com o mais ilustre Campeão do Sistema Constitucional, quem deixará de reconhecer nesta inesperada harmonia de sentimentos, um anúncio, e um como presságio infalível, de que se a fortuna abandonar D. Pedro, assim como já o tem abandonado a justiça, ele será brevemente o mais desgraçado de todos os homens, assim como já é o mais iníquo de todos os agressores, e invasores da Propriedade, e Soberania alheia?

Ora desde 1820, que eu conheço nos Liberais Portugueses tanta aversão ao Senhor D. MIGUEL, como a D. Pedro, pois uma vez admitida a Soberania do Povo, e rejeitado o que os Pedreiros Livres chamam irrisoriamente Direito Divino, (que nem por isso deixa de ser a única força estável; e permanente, que segura as Coroas na cabeça dos Soberanos "Per me reges regnant") admite-se necessariamente a desautorização, e nulidade dos Reis, que só por favor, ou interinamente, como já disse, devem guardar este nome; porém julgava eu, que os nossos Pedreiros Livres, em razão do interesse actual do seu Partido, fechariam os olhos à intrusão de D. Pedro na Regência, que lhe fariam a própria caridade, que lhe fizeram os seus queridos Brasileiros. Confesso, que me enganei, e postas em  balança as discrepantes sentenças do Aurora, e do Campeão, decidirei afoutament, que o primeiro olhou para os interesses do dia de hoje, como é próprio de quem  não vê as coisas senão metendo-lhas pelos olhos, mas que o segundo estendeu mais ao longe as suas vistas, e quis defender o seu ídolo, e a carta donzelinha dos toques, ou próximas feridas, que não só a desfigurassem, mas que lhe dessem cabo até dos últimos alentos vitais.... Se D. Pedro (quod absit) chegasse a ocupar o Trono Lusitano, podiam chegar-lhe vivíssimos desejos, e fortíssimas tentações de reinar, como reinaram os seus Maiores, e neste caso (bem para temer enquanto a maioria do Povo Português teima em não ir buscar lume a casa dos Pedreiros Livres, para acender as suas candeias)  neste caso digo, adeus cara Dulcineia, adeus Constituição.... Os Liberais, e Pedreiros Livres, por mais que os Príncipes, e os Grandes afectem protecção, e lealdade à Seita, reservam constantemente no fundo de alma este principio "Os Reis, e os Grandes são uns traidores natos porque até o próprio nascimento os faz traidores à causa da humanidade," Esta é a voz unânime dos Pedreiros, que por isso não admitem lá os Reis, e os Grandes senão para alentarem a Seita, pois logo que se considerem seguros, não os querem lá, nem para Varredores, ou Porteiros das Lojas......

Não admirem pois os meus Leitores, de que a Aurora seja míope, e de vista mais curta, que se pode imaginar; pois logo que se lhe mete na cabeça o querer ver ao longe, vê o desembarque de D. Pedro na Ilha Terceira, com oito dias de viagem; e o que ainda é mais, ouve claramente os Vivas ali entoados à chegada, e a Regência do Primogénito da Casa de Bragança. É muito ver, ou muito abusar da paciência do Grande Oriente de Lisboa, que por baixo de mão divulga estes Papeis, e com um recato, e apreço tal, que nem que se eles fossem a primeira Edição do Decamerone de Bocácio, que em 1802 foi comprada em Londres por 2260 Libras Esterlinas, sucesso tão plausível para a Babilónia Inglesa, que no  Roxburg Club, é celebrada anualmente a importantíssima aquisição deste preciosíssimo tesouro, e como o número das saúdes chega nesta ocasião a dez, e a virar, é de crer, e salvo todo o perigo de satisfação, que as Leis da temperança Cristã são pouco observadas neste dia.

Lisboa 29 de Março de 1832

Fr. Fortunato de S. Boaventura.

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXV)

(continuação da LXIV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXXIII

A Pouca Firmeza Do Coração Humano, Que Não Poderia Estar Fixo Senão Em Deus

1. Cristo - Filho, não te fies na tua disposição presente, porque depressa se mudará em outra.
Enquanto viveres, estarás sujeito às mudanças, ainda que não queiras.
Achar-te-ás ora na alegria, ora na tristeza; ora na paz, ora sem sossego; ora na devoção, ora sem ela; ora no fervor, ora sem ele; ora na modéstia, ora na leviandade.
Mas o verdadeiro sábio, instruído no espírito, elevas-se acima desta vaidade, permanece firme em todas estas mudanças. Não considera o que se passa em si mesmo, nem de que parte sopram os ventos da inconstância humana. Pensa só em adiantar-se no seu caminho, recolhendo e reunindo todos os movimentos do seu coração, para os pôr em mim, como seu único e verdadeiro fim.
Assim é que, tendo sempre fixos em Mim os olhos simples da pura intenção, poderás permanecer inalterável e sempre o mesmo, no meio da diversidade dos sucessos que ocorrem nesta vida.

2. Quanto mais a intenção for pura, tanto mais a alma se achará constante entre as tempestades que a combatem. Mas este olhar tão puro facilmente se escurece porque o apartam de mim para o porem em alguma coisa humana que lisonjeia os sentidos.
É coisa raríssima achar uma alma inteiramente livre e cuja pureza não seja manchada pela névoa de algum interesse inconfessável.
O Evangelho mostra duas intenções nos judeus que vieram da Betânia visitar Marta e Maria. Eles vieram não só para ver a Jesus, mas também para ver a Lázaro.
Deves, pois, purificar o sentido da tua intenção, para que seja simples e recto e para que se dirija só a Mim, apesar dos vários objectos que se lhe apresentarem.

27/03/15

ASCENDENS - Lembrança a Respeito da A CONTRA-MINA


Caros leitores,

recordamos que a gradual publicação da obra de Fr. Fortunato de S. Boaventura, intitulada "A Contra-Mina", pode ser acompanhada pelo índice aqui publicado (o qual sofre as devidas actualizções).

Cumprimentos da equipe ASCENDENS; santa Semana Santa.

CONTRA-MINA Nº 9: D. Miguel I no Trono, Por Milagre

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 9
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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O Senhor Dom MIGUEL I Está Milagrosamente Assentado no Trono de Portugal

Quando se trata de meter pelos olhos dentro à Nação Portuguesa, ou os males gravíssimos, e incomensuráveis das Revoluções passadas, ou o tremendo perigo de uma nova Revolução, que urdida, e executada por Mações lhe apagaria, como tantas vezes tenho dito, até o seu próprio nome, é de força que um escritor amante do seu Rei, e da felicidade da sua Pátria, mais de uma vez se comova, e sinta perplexo, e sobremaneira angustiado; e por isso é absolutamente necessário, que busque de tempos a tempos certo desafogo, e que, passando de coisas tristes para as alegres, trabalhe, quanto nele for, para descobrir nestas uma perspectiva agradável de futuros, que não se assemelhe com o que temos experimentado, e sentido.

Este salto de umas coisas para outras muito diversas parecerá talvez a certos leitores minimamente severos, e escrupulosos uma falta de ordem, assaz digna de estranhar-se, e repreender-se; mas devem saber, que se permitem, e hão de permitir sempre estas pequenas, ou grandes liberdades a um escrito, onde não há esmero de satisfazer os preceitos da arte de escrever, e onde o coração faz, para assim me explicar, todos os gastos da empresa literario-anti-Maçónica. Além disto, se a esperança, e o medo costumam ser dois grandes moveis das acções humanas, parece que não me desviarei do meu intento, se entresachar as narrações lúgubres de outras aprazíveis, por tal arte, que os meus leitores aborreçam de morte as causas das revoluções, e os seus péssimos efeitos, e se afervorem cada vez mais na devida homenagem ao antes nosso Pai, e Libertador, que nosso Legítimo Soberano. 

Em poucos meses de Revolução, que tem experimentado a França? Em poucos dias de Revolução, que amargos frutos tem já colhido a Bélgica? Ainda em menos tempo de Revolução, qual será brevemente a sorte de Varsóvia, e dos seus alucinados habitantes? E que lição está dando o pequeno Reino de Portugal, e que gentes ilusas, estouvadas, e delirantes, que se deixaram arrastar das persuasões, e ardis do Maçonismo? Quando eu espraio as minhas considerações por todos esses Reinos agitados pela fúria das Revoluções, sinto-me passado de terror, e de indignação... Olho para este Reino de Portugal, e para quem está assentado no seu Trono, e logo me fortaleço, e reanimo; pois vejo tão claramente impresso aos destinos do Mui Alto, e Poderoso Senhor D. Miguel I o cunho de uma singular Providência, que desde a sua marcha pelos campos de Santarém até a sua entrada no Porto de Lisboa não conto senão prodígios; assim como desde 22 de Fevereiro de 1828 até ao dia 16 de Janeiro de 1831 vejo diante de mim uma candeia estupenda, em que o número dos milagres fica muito acima do numero dos dias, e oferece mais larga matéria ao justo assombro dos leais Portugueses, do que os seus para sete séculos de duração, que já conta a Monarquia Portuguesa. Se os nossos inimigos pudessem ter a sinceridade dos Magos de Faraó, em vez de se assoalharem por meio de ridículos protestos a sua inépcia, e maldade, já teriam reconhecido à face da Europa, que o dedo do Omnipotente figura, e como se imprime em todos os negócios do Senhor D. MIGUEL I. Não me ocorreu fora de propósito esta lembrança dos Magos, que se estes à força de prestígios, e supostas maravilhas contrariaram, quanto neles foi, os desígnios da Providência a favor de Moisés, e do Povo escolhido, também estes Magos, (que é um grau honorífico entre os iluminados) moveram quantas pedras havia para que um Príncipe, que não estava preso, mas que não estava livre, ou nunca viesse para este Reino, ou viesse maniatado, e sem acção, que fosse propriamente sua, e em todo o caso viesse um vaso estrangeiro!!! 

O Mui Alto, e Poderoso Senhor D. MIGUEL I, assim como é, no meu entender, o melhor dos Reis, também é por necessária consequência o mais generoso; e saibam os seus inimigos, que este verdadeiramente Régio predicado é que os livra de se parentearem à Nação Portuguesa essas odiosas tramas, de que se envergonharia o próprio Machiavello, se hoje tornasse a escrever, esses contínuos, e incessantes esforços de legações inteiras, (a quem pagava com a mão larga o Reino de Portugal) que se esmeravam sobre modo, não para se verificar a integridade do Território Português, quando mais convinha que se fizesse, mas para que deixasse, ou acabasse de Reinar a Casa de Bragança!! Quando os Portugueses souberam exactamente o que se passou desde o extermínio, na Fragata Pérola, até ao regresso de Viena, hão de ficar assombrados, e cairão por terra debulhados em lágrimas do mais puro agradecimento ao Deus dos Exércitos, que nos guardou o nosso Restaurador, como já tinha guardado os meninos na Fornalha da Babilónia; mas enquanto não chega o tempo, (e quando virá ele?) de se falar despejadamente nestes assuntos, seja-me permitido lançar mão das ideias vulgares, que até por estas poderemos verificar a existência do milagre. Dizia-se geralmente neste Reino, quando o Senhor D. MIGUEL I passou por alto os barracões, e atirou com a Sinagoga liberal aos infernos, que ele certamente vinha encostado à Protecção de uma grande Potência, e era dirigido pelas instrucções de um grande homem de Estado... Assim falou, e errou muita gente boa, e o mais é que foi dos erros chamados secundum artem. Foi esta a voz pública, , e a dizer a pura verdade (porque eu nem sou impostor, nem blasono de ter grandes ideias públicas) não deixei de aprovar estes ditos, que vogavam por todo o Reino. 

Ora, já se viu pelos efeitos, que o Senhor D. MIGUEL I ao desembarcar em Lisboa não esperou em outra coisa mais que no auxílio Divino, e em sua própria resolução, e valentia. Se os Reis da Europa o tivessem excitado, ou induzido a ocupar o Trono, que lhe pertencia, por certo que seriam mui contraditórios, se o não reconhecessem imediatamente por Soberano destes Reinos; e quanto mais se retardar este passo de verdadeira política, tanto mais forte se há de tornar a certeza, de que o Senhor D. MIGUEL I não contou, nem com Exércitos, nem com o mais leve auxílio estranho, para debelar, como debelou, o maldito Sistema Constitucional.

Escuso agora de ponderar o que eram de profundas raízes do tal sistema degenerador, e de quão numerosas, e rápidas conquistas havia feito, não só em Portugal, mas em toda a Europa, desde a púrpura até ao cajado; posto que daí se tirasse um poderosíssimo argumento, para se mostrar até à evidência, que o Senhor D. MIGUEL I, quando passou adiante, sem fazer caso dos memorandos barracões, onde também não estaria preso, sem contudo estar livre, enrostou desde logo a Maçonaria Europeia. Deixo em silêncio não só aquelas, porém outras muitas coisas, visto que o meu fim não é de louvar neste N.º o Senhor D. MIGUEL I, é sim o fazer entrar os Portugueses cada vez mais, se é possível, na consideração do muito que são devedores a este novo Restaurador da Monarquia Portuguesa.

Ora os exemplos costumam ferir mais, e provar melhor do que os argumentos, e por isso eu tenho singular afeição aos Paralelos Históricos, que são talhados para se conheceram demonstrativamente quaisquer semelhanças, ou diferenças, que possa haver entre os diversos benfeitores das Nações. Como estava o pequeno Condado de Portugal, quando o Senhor D. Afonso Henriques principiou a governá-lo? Teve logo à sua disposição um Exército, que repetidas vezes triunfara dos Mouros, e alentado com as dezassete batalhas, que vencera o Senhor Conde D. Henrique de Borgonha, o qual até no seu falecimento em Astorga nos deixou um claro testemunho, de que os Portugueses desses dias intentaram coisas maiores, do que esses que lemos nas apoucadas notícias deste Soberano. Teve pois à sua disposição um belicoso, e fidelíssimo Exército; a saber, os conselhos, e a espada de Egas Moniz, e assim mesmo a victória do Campo de Ourique foi um milagre visível, que eu ponho logo abaixo dos que se contam no Evangelho.... Que viu de longe neste Reino o Senhor D. MIGUEL I, que no meu conceito deveria contar os anos do seu Reinado de 6 de Março de 1826? Não viu nesta época nem Exércitos armados em pró da Legitimidade, nem Egas Moniz que o ajudasse igualmente com a espada, e conselho...... não viu, ou para melhor dizer, não ouviu outra coisa mais, que os suspiros da Lealdade Portuguesa, que lá chegavam a furto, e que lhe feriram por tal arte o Magnânimo Coração, que lhe excitaram em continenti o mais vivo desejo de nos arrancar as sedentas garras do Maçonismo, não menos vorazes, porém mais terríveis que as da morte, pois estas cortam somente os fios da vida temporal, e aquelas trazem consigo os males infinitos da mais espantosa eternidade. Grande coisa foi levantar-se o Trono Português sobre os estragos da Mauritânia, porém ainda é coisa maior esmigalhar o ceptro de ferro, com que os Mações o dominavam, ou tiranizavam, e Mações poderosamente auxiliados por toda a Europa, sim iludida e cega, mas obrando toda em sentido favorável ao Maçonismo Português.

Que temos nós de admirar no primeiro Restaurador da Monarquia Portuguesa o Senhor D. João I? Que viu ele em Portugal na pouco sentida morte do seu Irmão o Senhor D. Fernando? Um desgosto, e oposição geral ao detestado governo da Rainha Regente, e uma tendência nacional, e como irresistível para a sua Pessoa, que até os meninos o aclamaram Rei ao entrar em Coimbra, antes que as Côrtes pronunciassem o seu voto em tão importante matéria. Que viu ele nas Cidades deste Reino, e especialmente em Lisboa, em Coimbra, e no Porto? Viu na primeira um amor, que trespassou os limites da razão, e da justiça; quando ali soou falsamente que o Mestre de Avis fôra assassinado em Palácio; e nas outras duas houve, se não igual, ao menos uma quase semelhante, mais explosão, que demonstração de fidelidade.... Ora o que viu, ou podia esperar o Senhor D. MIGUEL I das próprias Cidades, já se tem metido pelos olhos, e não posso neste lanço maior prova de moderação, e até de caridade, talvez muito mal empregada, do que apontar os sucessos de Maio de 1829, o armamento por duas vezes da mocidade Académica, a mui felizmente debelada conspiração do Brigadeiro Moreira, afora outras, que hão de saber-se a seu tempo, e consignar-se na História Portuguesa, como outros tantos monumentos da intervenção celeste a favor do mui Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I. 

Não desconheço, que a segunda Restauração de Portugal foi muito mais prodigiosa do que tinha sido a primeira. Achava-se este Reino em 1640 empobrecido, e quase exausto dos meios indispensáveis para a guerra; porém o Senhor D. João IV foi logo reconhecido, e auxiliado pela França, que embora nos preterisse, bem desairosamente para ela, no Tratado, ou Paz chamada dos Pirenéus, quando assim mesmo ( e não temo dizê-lo, por que sou mais amigo da verdade que da minha Pátria) enviando para este Reino o Marechal de Schombery, muito mais nos dava nos conselhos deste grande homem, que nos 10 ou 12 homens, com que nos podia auxiliar. Que socorro estrangeiro teve o Senhor D. MIGUEL I em os primeiros seis meses do seu Reinado? Que Potencias o recolheram? Achou por ventura o Senhor D. MIGUEL um Exército penetrado dos mais puros sentimentos de Lealdade para com a sua Augusta Pessoa, um Exército nacional a toda a prova, qual o achou ElRei D. João IV, ou preparou dentro em poucos meses? O que ElRei Nosso Senhor achou foi um Exército verdadeiramente Constitucional, governado por Oficiais escolhidos ao tabuleiro, ad hoc pelo façanhoso Saldanha, e não só achou o Exército nacional assim disposto, ainda achou mais outro que fôra mandado por Canning, (que deste modo costumam ser enganados os Reis, e as Nações mais generosas) para suster neste Reino a Maçonaria periclitante, e derramá-la, quando melhor conviesse, em toda a Península.

Estou certo, que a Posteridade, a saber de todos estes obstáculos, a qual deles maior, e mais assustador, que cercaram o Senhor D. MIGUEL I ao entrar neste Reino, há de perguntar cheia de pasmo, e de assombro. Como foi possível, que um só homem se desembaraçasse de tamanhas contradições, e de tamanhos perigos? Não admira que assim venha a explicar-se nestes assuntos, quando nós todos contemporâneos, e testemunhas oculares de tão grandes acontecimentos já o perguntámos uns aos outros, como quem não sabe dar-lhes outra saída, que não seja esta - O Senhor é quem há feito o que nós vemos, e que por mais que o vejamos, e contemplemos, há de ser cada vez mais admirável aos nossos olhos. 

E terei eu dito o que poderia dizer em abono desta verdade? Nem a centésima milésima parte.... E já que o prometeste aos Leitores, porque não desempenhas a tua promessa? (dirá talvez algum impaciente de saber quanto haja de mais notável, e prodigioso nesta última Restauração) Porque ainda não convém que se diga tudo, e porque seriam necessários pelo menos doze Números para indicar a matéria; que o explaná-la dignamente, é uma tarefa maior, e própria dos Historiadores; o caso é, que só para dar a entender, ao menos de longe, o que tenho deixado em silêncio, atrevo-me a comparar os destinos do Senhor D. MIGUEL I com os próprios da Igreja Militante. Esta Obra do Céu já teria caído por terra em nossos dias, se fosse obra dos homens. O Senhor D. MIGUEL I já teria caído do Trono, se a sua vocação ao Trono fosse obra humana. 

Colégio do Espírito Santo em Coimbra
16 de Janeiro de 1831 

Fr. Fortunato de S. Boaventura.

24/03/15

A CONTRA-MINA Nº 1: Razão do Título da Obra (I)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 1
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Razão do Título da Obra

O modo de proceder dos Mações foi por largos anos oculto e subterrâneo, e posto que hoje trabalhem mais à cara descoberta é só no momento das suas victórias; pois como refinados Materialista, que todos eles são, e sem a mais leve esperança além desta vida presente, receiam muito, em frase própria deles, comprometer-se. Nestas ideias é que os assassinos de Condeixa mandaram antecipadamente um seu Emissário, para verificar se os desgraçados Lentes, e sua comitiva levariam armas de fogo, que se porventura levassem um só bacamarte, uma só espingarda, por certo que ficaria a empresa adiada para quando não houvesse o tal mais que afrancesado comprometimento. É pois fora de toda a dúvida, que o plano antigo e primordial da Seita, ainda hoje se desempenha, e que um grande número de Sócios e Irmãos trabalhe a coberto de dia, e ainda de noite; e tais conheço eu, que têm feito o seu papel de Realistas magistralmente, e de um modo capaz de enganarem, já se sabe, aqueles, que ignoram os factos anteriores de suas prodigiosas vidas... São estes ainda piores e mais daninhos, que os Mações declarados, ou já sem máscara, nem cobertura, que os defenda, e prosseguindo constantemente em seu primeiro ofício de Pedreiros, Mineiros, ou Sapadores, fazem de dia tais serviços à Causa da Realeza, que mui facilmente se possam voltar contra ela, e destruí-la; e se congratulam de noite pela facilidade, com que os tolos, ou profanos engoliram a peta, e julgaram por sinceros amigos de Realeza, o que tem sido, e hão-de ser até à morte os seus mais encarniçados inimigos. Sendo pois certo e inconcusso, que os Ministros de cá trabalham, e trabalharão incessantemente pelo bom êxito do rebentar da Mina, ou do Mina de lá, que mais bem achado título se pode dar a um novo Periódico do que este de Contra-Mina? Dei a minha satisfação, e já entro na matéria.

Do principal obstáculo a uma Revolução em Portugal, ou do Amor, que os Portugueses têm ao mui Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I.

Têm notado alguns Políticos, que sendo a Alemanha o principal berço, onde se criam as Seitas modernas, e achando-se os Estados do Imperador da Áustria, como rodeados do incêndio, que muito de propósito se acendeu nas principais Universidades do Reinos vizinhos, assim mesmo aquele Imperador nunca tenha sentido as fúrias revolucionárias, e o desastroso efeito das Sociedades ocultas, que levaram até às bordas do precipício a Monarquia Prussiana. Dá-se comummente uma razão disto, que me parece bem fundada. Estão certos os Vassalos do Imperador da Áustria, que o seu destino, bem longe de melhorar, há-de piorar, e muito, se fizerem uma Revolução; e por isso a boa administração, e os cuidados paternais do Governo afastam dos povos a mínima ideia de se revoltarem contra um Soberano Legítimo, e universalmente considerado mais Pai, que Soberano; assim como refreiam a insolência dos Demagogos, para que não se abalancem a uma empresa temerária, e que forçosamente há-de ser mal sucedida.

mapa de Portugal (1561)
Parece-me que nas mesmas circunstâncias estaria o Povo Português, se nunca tivesse sentido a Revolução de 1820. Lançou esta às mãos cheias tais sementes de corrupção, de imoralidade, e do pior de todos os males, que é o Ateísmo, que desencaminhada uma parte da Nação, tem como levantado neste pequeno território duas Nações mais desavindas entre si, do que foram os Judeus para com os Samaritanos. Onde havia menos Religião, aí se fizeram mais conquistas; e onde só havia uma simples tintura, ou aparência de Religião, bebida em charcos venenosos, como por exemplo na façanhosa, e essencialmente Liberal, ou ímpia Escola dos afamados Pavienses, bastou acenar com a trolha ou mitra, e choveram os adeptos, que viram ser este o caminho mais fácil para os empregos, e distinções, único alvo de certa classe de mercenários, que se chamam abusivamente de Portugueses. Ficou todavia uma parte, e é certamente a maior da Nação, por extraviar, e corromper, nem desceu até às classes mais baixas da Sociedade o contágio das más doutrinas; e o Povo Lusitano (ainda é a muitos respeitos, o mesmo que pôs no Trono o Senhor D. João I, e conservou nele por espaço de 27 anos contra os últimos esforços de uma grande Potência o Senhor D. João IV.) [Fr. Fortunato de S. Boaventura, noutros escritos mostra que não foi o povo que legitimou D. João I e insurge-se contra esta ideia; aqui o "pôs no Trono" significa a força feita pelo povo, contra todas as adversidades, para aclamar activamente aquele a quem o Trono devia ser entregue por todas as legítimas razões, e não por capricho popular.]

(continuação, II parte)

MASTIGÓFORO - INTRODUÇÃO (III)

(continuação II parte)

Ninguém definiu melhor as amnistias do que um Rei, que vinha sentar-se num trono, rubicado com o sangue do seu malfadado Pai. Quando propuseram a este Rei (Carlos II de Inglaterra) a amnistia, e o esquecimento, disse para os circunstantes "Entendo; amnistia para os meus inimigos, e esquecimento para os meus amigos." Já notei em outra parte dos meus escritos, que esta amnistia pareceu tão excessiva, e desaresoada ao Parlamento, que exceptuou dela os matadores de Carlos I, para que a Europa não julgasse pelo esquecimento, ou perdão de tal crime, que a nação fora cúmplice de Cromwel, e seus sequazes. Muito mal trazidas foram pelo discursador as amnistias de Henrique IV de França, e de Filipe V de Espanha. Teve aquele Rei muitos contradictores à sua elevação ao trono, por ser Protestante, logo que cessou este motivo, cessaram as maiores contradições; e os que fugiam de Henrique IV ainda herege, vieram deitar-se aos pés de Henrique IV já católico, e seria preciso nestas circunstâncias, que o Rei desmentisse a profissão de católico, para negar o perdão, aos já convertido sem seus amigos: Filipe V sabia perfeitamente, que nem o ódio à sua pessoa, nem o desprezo da última vontade de seu antecessor, eram o fundamento da viva oposição, que lhe fizeram algumas Cidades, e Fidalgos de Espanha, e não mostraria ser próximo descendente de Henrique IV se punisse severamente qualquer adesão ao seu competidor, e por ventura como dotado que era de alma nobre, teria sobejos motivos para admirar a constância dos que intimamente persuadidos da justiça do Arquiduque, tinham feito os maiores esforços para sustentarem o que lhe parecia direito; só o traidor que se vende a todos os partidos, merece o desprezo de todos, porque nenhum servirá de coração, e como importa... É pois audácia Maçónica levada aos últimos apuros, o quererem tais homens comparar-se aos homens de outro tempo, em cujas almas nunca frutificaram as venenosas sementes do mais descarado Ateísmo. Se Henrique IV, e Filipe V tiveram a desgraça de encontrar no seu Reino pessoas imbuídas de princípios anti-sociais, como são os Pedreiros Livres, teria mais que cortar a espada, que feriu o Marechal Biron, e muito mais que escrever a pena, que lavrou a sentença do Almirante de Castela... Enfim, se os Pedreiros querem amnistias das novas, que possam ter certa analogia com a que eles tão ansiosamente demandam, e meter à cara, limitem-se ao caso da revolução Francesa, e à triste necessidade, que obrigou Sua Majestade Cristianíssima, a olhar benignamente, e até contemplar com mercês, e favores, os próprios que cortaram ao ferro da guilhotina a cabeça do seu Augusto Irmão Luís XVI. Mas que vantagens tirou ele desse generoso, e nunca visto esquecimento de injúrias feitas ao trono? A sua primeira amnistia aos Franceses, depois de restituído ao trono dos seus maiores, produziu o efeito de se trabalhar em Paris, a cara descoberta, no regresso do usurpador, e tal amnistia, que bem longe de o firmar no trono, o fez baixar dele, não é das que favorece o discursador. Se voltarmos para a segunda, é certo que os mais envolvidos na segunda entronização do usurpador, se evadiram pela fuga à severidade das Leis, que se eles tivessem ficado em Paris, ou em qualquer outra parte de França, teria o Marchal Ney mais companheiros na sua desgraça. Da segunda amnistia foram exceptuados os regicídios, pois ninguém dirá, que o ser arrojado para fora da sua pátria, seja um galardão, e uma felicidade; no meio porém de tudo isto importa sabermos qual é a opinião dos homens sisudos da França em pontos de amnistia. Eu começaria agora pelo testemunho de Mr. de Chateaubriand, se o verídico, e eloquente Abade de Vilar (Luís Gaspar Alves Martins - Na sua excelente Dedicatória a ElRei Nosso Senhor, que vem à frente da tradução da Questão nacional do Abade Barruel, e onde a linguagem do coração, arrebata, e faz extasiar os verdadeiros amigos da pátria, por mais vezes que a leiam, e meditem) não tivesse já escolhido o melhor, e mais terminante de quanto diz a este propósito aquele grande homem de Estado; e por isso deverei cingir-me a outras autoridades menos respeitáveis sim; mas nem por isso menos verdadeiras.

Luis XVI
Ninguém a meu ver tem discorrido mais a propósito sobre as amnistias, do que um anónimo Francês, o qual depois de se lastimar com toda a razão, de que a palavra amnistia tinha sido 25 anos como o sinal de novas desgraças, por tal modo, que proferida desde os primeiros ensaios da revolução Francesa, acarretou logo as mortandades de Avinhão, após esta os furores de Setembro, e imediatamente o regicídio de Luís XVI, acrescenta o seguinte "Se um homem cuja habitação se tivesse alagado, querendo logo a toda a força viver debaixo de coberto, edificasse outra com os próprios entulhos da primeira, dispostos quase da mesma sorte, em que a sua queda os deixará,, o viajante que ali passara no tempo do desastre, voltando poucos dias depois, certamente se admiraria de ver ao longe o novo trabalho, e da prontidão com que se fizera, mas chegando-se perto, havia de trocar a sua admiração em lástima. É preciso, diria ele, que seja bem grande a cegueira do dono desta casa, pois não vê que ela há-de cair assim como a primeira.... Reflectindo sobre a nossa revolução , o povo Francês, edificando uma nova constituição, apenas outra, apesar de todas as suas diligências, lhe tem escapado, e pondo o esquecimento do passado, e a conservação de todas as injustiças, como o principio fundamental de todas as constituições, parece-me aquele homem de que há pouco falei, todo embebido em reconstituir a sua casa, e tomando cuidados inúteis para a livrar de outra queda." (Du Minist. par. Leopold de Massacré, pag. última.)

Ora aqui está o conceito em que os bons Franceses têm essas decantadas amnistias, e se parece ao Discursador, que a indulgência de Luís XVIII o tem consolidado no trono dos seus maiores, engana-se torpemente. Já observámos o que ele tirou da amnistia, concedida no ponto de reassumir o ceptro dos seus maiores. Tudo ia ás mil maravilhas, tudo eram incensos, e adorações ao vivo retrato de bondade de Henrique IV, e vai senão quando aparece o homem da Ilha de Elba, conquista a França sem dar um tiro, e vai enxovalhar segunda vez o trono dos Borbons na França, convulsa, e atemorizada, porém quieta, e sem se mexer, quando o seu Rei fugia, ou se retirava. Não fosse o poder dos exércitos Aliados, não fossem os heroísmos, obrados no campo de Waterloo, e veríamos quem ainda hoje ocupava o trono da França! Se Luís XVIII já tem conseguido espezinhar o monstro, que insuflara o General Breton, e os Liberais, ou Pedreiros, seus cúmplices, deve-o muito menos ao amor dos Franceses, do que aos seus poderosos Aliados. Sucedesse, o que Deus não permita, que os magnânimos Alexandre, Francisco, e Frederico, entregavam a França ao seu destino, e protestavam abrir mão de sustentarem à força de armas o princípio da legitimidade, e veríamos a que ponto chegava ainda a influência revolucionária, naqueles já sobremaneira escarmentados povos "Eu sou chamado invencívelmente (escrevia a este propósito um Autor Francês em 1815) para as ideias, que nunca me deixam, e que me perseguem em toda a parte; eu lhe acrescentarei novas explanações, pois nisto é que está o perigo todo, e só desta arte poderemos achar salvamento. Já pintei o mais vivamente que pude, essa inaudita harmonia, que se dá em os numerosos agentes da revolução; eu os mostrei, formando no meio do estado, outro povo sujeito a Leis particulares, estabelecidos em uma hierarquia maravilhosa, para mandar, e obedecer, tão despótica em mandar, como servil em obedecer, e que tem por este modo a dobrada organização de uma sociedade secreta de Iluminados, e Pedreiros, que medra, e se fortifica no seio das trevas; e de uma potência política, que manobra com estampido, logo que é necessário, e quando é necessário. Nesta combinação a mais infernal, que nunca inventou a malícia humana, poderá a Irmandade fazer quanto quiser, enquanto o principio da sua existência não for atacado, e toda a potência, que enviarem contra ela, e que não trate senão de a combater por meio de concessões, e mudanças tímidas, e parciais, não poderá ter senão uma existência frágil, e passageira. Com efeito apenas derem a esta máquina política, e misteriosa, chefes que lhe sejam estanhos, logo os chefes verdadeiros se acolhem à sombra, e por meio de uma simples comunicação, como alguns dos principais subalternos, as relações directas acham-se imediatamente restabelecidas; se intentarem romper-lhe as fileiras, metendo-lhe de permeio, alguns sujeitos, hábeis na dissimulação, procuram no mesmo instante entre os irmãos Pedreiros, e atrevo-me a dizer, quase por instinto, o ponto de contacto mais próximo, para entrarem desta sorte no movimento comum, que leva tudo consigo: Foi por este encadeamento habilmente combinado de tantas molas, dirigidas todas ao mesmo fim, que durante o ano da primeira restauração, Savary pôde governar a polícia, Maret, ou Carnot o interior, e cada Perfeito adido a Bonaparte, o departamento vizinho daquele, onde tinham posto por escárnio um Perfeito Realista. Assim a execrável aranha restaura com uma actividade incessante as mínimas alterações, que experimenta o seu mortífero tecido, e escondida no centro deste laço inexticável, sente o mais pequeno abalo de seus fios os mais imperceptíveis, embrulha neles a sua preza, e depois de assassinar cobardemente, pode devorá-la sem perigo." (Des Revolutionaires, Paris 1815)

Daqui se vê claramente a índole dos Pedreiros na França, que é propriamente o centro da Maçonaria Europeia, e bem sei que a tudo isto se chama terrorismo ou exageração de princípios, mas nisso mesmo se descobre o espírito da seita, cujo fim é adormentar e iludir, para que ninguém pressinta a bulha que fazem os seus trabalhos subterrâneos, e o mais é que os mesmos da confraria lá de tempos a tempos deixam escorregar da pena algum dos seus melhores segredos. Reparem os meus leitores neste que lhes vou meter pelos olhos dentro, e vejam que tais são os amigos de trolha: "Todos os homens grandes foram intolerantes, e é necessário, que o sejam. Quando se encontre no caminho um Príncipe benigno, é necessário prégar-lhe a tolerância para ele cair no laço, e para que o partido esmagado tenha tempo de se levantar pela tolerância que se lhe concede, e de esmagar o adversário pelo seu turno." (Correspondance de Grimm 1. juin 1772, 1 part. Tom 2. pag. 242, et 243)

(continuação, IV parte)

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