01/09/12

AGOSTINHO DE MACEDO - AOS 33 ANOS, A MUDANÇA

Teófilo Braga



Teófilo Braga escreve a respeito de Agostinho de Macedo:

"Prestado o termo de obediência ao prelado diocesano e posto finalmente a coberto de todas as perseguições que ses ex-confrades por ódio ou malevolência se lembrassem de suscitar-lhe, teve José Agostinho a tranquilidade e descanso de que haveria mister para mais tranquilamente cultivar o espírito, e adquirir maior cópia de doutrina, aplicando-se ao estudo e meditação dos bons exemplares antigos e modernos: exercícios que, seja dito por honra sua, nunca de todo abandonara, nem ainda nas crises mais tormentosas e angustiadas de uma vida errante e licenciosa. Entrado na virilidade, pois contava já trinta e três anos, reflectiu sem dúvida no muito que lhe falecia; e quem sabe quantas vezes em íntimo recolhimento se lastimaria dos seus primeiros erros, fazendo amargas considerações sobre os maus passos que tão intempestivamente o arredaram da carreira que poderia ter seguido com felicíssimos resultados! Desvelando-se em recuperar o perdido, deu-se a uma porficiosa e incansável leitura de tudo o que havia escrito nos diversos ramos do saber humano: os livros de moral, política e belas letras foram por ele ansiosamente folheados, compulsando não menos solícito os que diziam respeito à história civil e literária dos diferentes povos e estados: entranhou-se igualmente no abstruso e enredado labirinto dos sistemas ideológicos e metafísico; e favorecido por sua assombrosa memória, e por uma saudade robusta, capaz de resistir aos seus abituais excessos, e às imoderadas vigílias a que se entregava, conseguiu reunir dentro de poucos anos tão abundante cabedal de ciência e notícias filológicas, que suposto não aprofundasse a maior parte dos objectos, possuía contudo noções suficientes para ostentar sem competidor a imensa e variada erudição, que ainda agora se admira em seus escritos."

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