13/03/15

CURIOSIDADES - DA DEFESA DE PORTUGAL

Hoje comecei a ler "Memoria Da Disposição das Armas Castelhanas, Que Injustamente Invadiram o Reino de Portugal no Anno de 1589. Despertadora do alor Portuguez para não temer; da prudencia, e conselho para ordenar o presente; da preenção, e cautela para dispôr o futuro, ..." (do Pe. Fr. Manuel Homem), obra publicada em 1763. Achei tão curioso o texto introdutório, chamado "A Quem Ler", que o ou transcrever:

"Também (benévolo Leitor) os ameaçados comem pão, e nem sempre se logram os intentos da vingança. Uma vez, o Imperador Carlos V empenhou-se tanto contra Francisco Rei de França, que, com indignação grande, prometeu que lhe havia de tomar o Reino. Ao sabê-lo, disse o Francês: Não prometa Carlos, o que não pode cumprir, que para tirara um homem morto de sua casa às vezes não bastam dois, quanto mais um vivo com a espada na mão, defendendo sua vida, a mulher, filho, fazenda, e a liberdade.

Se o inimigo nos buscar, lembra-mo-nos que é obrigação da alma, e da honra defender os penhores referidos. Costumado está vir a Portugal com as mãos nas barbas, mas voltando com elas na cabeça. Nesta Memória se mostra por onde nos sujeitaram, que foi falta de união nos ânimos, e nas vontades. Conheçamos os lanços de clemência, que com os Castelhanos usaram, são tiros fraudulentos, que nos fazem, e prévia disposição de seus enganos. E se no infausto ano de 1580 tão cruelmente nos trataram, sem termos sombra de culpa, (antes obrigação precisa de sustentar nosso Direito, e liberdade) hoje, que nos publicam traidores rebelados, (mas dizem mal) que mortes, que violências, que destruições, que tiranias não executaram nos Portugueses? Abrir os olhos importa, e a união de todos, que com ela se conservam os Impérios, e sem ela tudo perece, e arruína, diz a Verdade Eterna: Omne Regnum in se divisum desolabitur, etc.

O zêlo, e natural afecto da conservação de nossa liberdade nos obrigaram fazermos nestes escritos presente o cuidado, com que este inimigo nos buscou da outra vez, e o nosso grande descuido, com que nos deixámos achar, sem nos armar, e defender. E se então a ambição, e cobiça de uma herança mal entendida o fez contra Portugal tão apostado; hoje, que o arguem, e a criminação (mas falsamente) com espécie de traição, e esbulho, quem pode duvidar que lance não das armas com maior indignação, e fúria? O escudo, e o reparo dela é toda a necessária fortificação, assim na terra, como no mar. Esta segunda, que nos falta, deve efectivamente obrara a lembrança das Armadas contínuas deste Reino, as quais a este fim numeramos, esperando que possa mais conosco a necessidade, e aperto para as refazer, do que pode com os nossos Portugueses antigos a conveniência, e opinião para as conservar. Advertimos o conveniente, e necessário, para que se obre, e se no arbitrar houver erro, esperamos que o faça venial o fiel ânimo, com que escrevemos."

Trata-se de uma obra que está altamente aprovada pelas autoridades régias e eclesiásticas.

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