12/08/14

JUAN ALVAREZ MENDIZÁBAL - O Dinheiro do Antro ... (III)

(continuação da II parte)

O desgraçado de Juan Mendizábal
"Colocada" [aspas minhas] D. Maria no Trono, urgia solucionar o gravoso problema financeiro. Assim, Mendizábal permanece agente do governo liberal, dotado de amplos poderes. A "Rainha" [aspas minhas] reitera-lhe a confiança, sublinhando o zelo, honra e desinteresse demonstrados em todos os seus actos, e autorizando-o a empreender "qualquer operação ou transacção financeira". Não obstante, Mendizábal sente dificuldades: a conjuntura não era a mais propícia. Se os "miguelistas" [aspas minhas] "ocupavam parte" [os portugueses não podem ser reduzidos a um partido que ocupa uma parte do seu território - "miguelista" é na verdade todo o português que não se rebelou contra seu Rei] do território nacional, as ambições pessoais e hostilidades entre generais liberais (exemplo de Santa marta e Póvoas), o impasse militar e a hesitação política denegriram a imagem do "recém-implantado regime" [melhor: "do ilegítimo regime imposto"] , prejudicando negociações do um empréstimo. O agente ressentia-se das longas jornadas de vinte e uma horas, dizendo-se "cansadíssimo".

Apesar de pretender aproveitar uma tendência alta, as condições estabelecidas no empréstimo contraído com o banqueiro Rothschild, não foram as mais positivas, facto que lhe acarretará graves acusações.

Dotado de argúcia e perspicácia, toca com Silva Carvalho interessantes impressões sobres o contexto internacional, procurando extrair lições que possibilitem uma política acertada. Aliás, o percurso do "liberalismo português" [entenda-se antes: "liberalismo em Portugal"] deve enquadrar-se na conjuntura global diplomática, então vivida. Enquanto a Santa Aliança apoiava D. Miguel e a França se retrairá no auxílio a prestar aos liberais, a Inglaterra promete neutralidade, desde que a vizinha Espanha também a mantivesse. Assim, a rivalidade entre França e Reino Unido (hesitantes no reconhecimento oficial duma ou outra facção), resultou benéfica para os liberais - carlistas apoiam seus congéneres miguelistas e partidários de D. Isabel auxiliam os parentes liberais. Mendizábal confirmava a influência a influência exercida por Luís Filipe, o "rei-cidadão", sobre a rainha de Espanha, no tocante às relações com Portugal. Daí o plano espanhol: "limpar" as margens do Guadiana e do Algarve, de Moura a Vila Real, reforçando os apoios a Bernardo Sá Nogueira. A abertura duma "corrente de comunicação" entre os dois países (com a extinção de alfândegas e fronteiras), resultaria, no dizer espanhol, em recíprocas e incalculáveis vantagens.

No sentido de entronizar Isabel II em Espanha e D. Maria em Portugal, celebra-se uma quádrupla aliança, entre França, Inglaterra, Espanha e Portugal [nem França, nem Inglaterra, nem Espanha, nem Portugal, na verdade]. Estava confirmado, diplomaticamente, o futuro do liberalismo ibérico [entenda-se antes: "do liberalismo na Península Ibérica].

Inesgotável nos seus pareceres, Mendizábal analisa questões de ordem económica e do âmbito da administração interna. Na sua opinião, a paz não podia concluir-se apressadamente, sob pena de carretar intervenção estrangeira, devendo D. Pedro afastar-se do Trono. Para que a Inglaterra reconhecesse a legitimidade de D. Maria era ainda necessário evitar uma aliança dinástica com as casas francesas.

Contando com a confiança de D. Pedro (assistira aos seus derradeiros momentos, prestando conselho sobre o melhor método de tratamento), não surpreendiam a Mendizábal as injúrias e enredos que contra si pesavam: "soy un extranjero e no un portugues, aunque no fuy extranjero cuando muchos portugueses lo fueran de la causa". Tal como ele, outros estrangeiros ao serviço da causa liberal foram "desprezados, maltratados e no pagos". (António Viana, Silva Carvalho e seu Tempo, pp.86-87)

(continuação, IV parte)

Sem comentários:

TEXTOS ANTERIORES