20/12/12

A LENDA NEGRA DA "LÚCIA CATIVA" (II)

(Continuação da I parte)

Segundo os teóricos da conspiração, o documento que dizem ser uma carta da Irmã Lúcia revelando o 3º segredo foi dado a conhecer recentemente, mas que teria sido redigida a 1 de Abril de 1944 (dia das mentiras), e em Tuy (Galiza).

Faço aqui uma análise textual ao documento, comparando o tipo de linguagem usado no final da segunda metade do séc. XX e tendo em vista as origens da Irmã Lúcia. Depois abordo o conteúdo.

Do início ao fim, este documento apresenta vocabulário suspeito, o conteúdo está cheio de contradições. No fundo de tudo, há um rasto que indica um "redactor tipo".

O documento frase a frase:

"Agora vou revelar o terceiro fragmento do segredo; Esta parte é a apostasia na igreja!"

Nossa Senhora mostrava aos pastorinhos uma visão seguida de explicação. Nesta primeira frase "Lúcia" anuncia que vai revelar o segredo, mas não é bem assim. Aparecerá a descrição de uma suposta visão e suposto segredo, e ainda um suposto aviso. Este documento, se não fosse fraude, acabaria por inutilizar aquele outro publicado pelo Vaticano e no qual Lúcia revelou a visão correspondente ao terceiro segredo - e obeteriamos então: duas visões, um segredo e um novo aviso condicional! Mas isto é "irregular", como veremos...!

"Nossa Senhora mostrou-nos uma vista de um indivíduo que descreveu como o "santo Padre", em frente de uma multidão que estava louvando-o."

"Individuo"!? "Santo Padre" entre aspas!? Teria dito certamente "homem", e nunca "indivíduo", e teria escrito "Santo Padre" sem a sofisticação marcada das aspas. É notória a intencionalidade de dar a entender que aquele não era o verdadeiro Santo Padre, mesmo antes de o dizer por escrito (ver ponto 3). De seguida, o redactor vai dizer que este não era o verdadeiro Santo Padre, mas está demasiadamente focado nesta ideia, tanto que o anuncia chamando-lhe "indivíduo" e colocando as aspas em "Santo Padre". Diria que, caso este documento seja fraude, o seu redactor é um veterado sedevacantista. Alguém como a Irmã Lúcia teria apenas feito uma descrição simples, sem essas duas finuras somente necessárias aos meandros das disputas sedevacantistas de hoje (por exemplo).

Considerações secundárias: Na frase aparece uma omissão: "em frente de uma ..."em vez de "que estava em frente de uma...". Daquilo que eu conheço das pessoas simples, antigas, de Portugal, diriam preferencialmente: "Nossa Senhora mostrou-nos uma vista de um homem que descreveu como [sendo] o Santo Padre, que estava em frente de uma multidão ...". Nada posso dizer do uso de "uma vista", embora me pareça um recurso incomum (nunca ouvir dizer dessa forma, embora faça certo sentido).

"Mas havia uma diferença com um verdadeiro santo Padre, o olhar do demónio, este tinha o olhar do mal".

Desde 2005, certos grupos sedevacantistas, e grupos protestantes, e outros, difundiram pela internet duas ou três desfavorecidas fotografias de Bento XVI. Estas imagens têm em comum certo olhar desfavorecido do Papa, com olheiras mais acostumadas nos nórdicos. A juntar ao olhar, salientaram também o sorriso tímido  de Bento XVI, e começaram a espalhar fotos do "sorriso demoníaco" do Papa, servindo isto para alentar certas teorias da conspiração. Bento XVI está hoje mais acostumado com as multidões (menos tímido, portanto),  já ninguém lhe vê olheiras - logo a rede virtual se foi esquecendo das famigeradas fotos e não houve mais matéria nova para "provar" como o "olhar demoníaco" de Bento XVI era um facto inegável. Havemos de ouvir dizer que será o próximo Papa que vier, ou o outro, ou o outro... e hão-de ser escolhidas duas ou três fotografias do próximo Papa que sirvam à tese conspiratória do "olhar do diabo".

"Então depois de alguns momentos vimos o mesmo Papa entrando a uma Igreja, mas esta igreja era a Igreja do inferno, não há modo para descrever a fealdade d'êsse lugar, parecia como uma fortaleza feita de cimento cinzento com ângulos quebrados e janelas semelhantes a olhos, tinha um bico no telhado do edifício."

Esta forma simbólica de escrever "Igreja" quando se trata visualmente de uma "igreja", é uma subtileza curiosa. Este refinamento intelectual já usado de forma tão suspeita anteriormente acaba por coincidir com o "vício intelectualista" dos ambientes da tese conspiratória. Não é uma coincidência com a argumentação mas sim coma FORMA, o gosto próprio desse ambiente.

Em 1944 a Irmã Lúcia, a respeito de algo que visse, diria "ângulos quebrados"? O leitor consegue imaginar o que é um "ângulo quebrado" numa construção? Talvez sim... mas por algum motivo sempre chamámos "casa dos bicos" àquela casa que tem a parede revestida de ângulos (piramidais). Porque motivo? Porque "pico" (como é o nome da serrado Pico) e "bico" são os nomes mais comuns para dizer "ângulos" em determinadas circunstâncias, como esta. A "Irmã Lúcia" avançou no tempo, saltou as palavras óbvias do uso comum e do seu meio. Mas há outra possibilidade menor: "ângulos quebrados" podem ainda ser linhas quebradas, portanto, paredes não planas formando concavidades e/ou largas saliências. Neste caso "ângulos quebrados" não seria nem mais expressivo nem uma escolha mais provável do que simplesmente "paredes tortas". De qualquer maneira, o redactor sofisticou e complicou.

"Em seguida levantamos a vista para Nossa Senhora que nos disse Vistes a apostasia na Igreja, esta carta pode ser aberta por O santo Padre, mas deve ser anunciada depois de Pio XII e antes de 1960."

É de salientar que há realmente bastantes elementos da forma de dizer antigo, e de dizer simples e claro. Contudo damos conta também de excepções reveladoras.

Caros leitores, esta frase é como aquela piada de um devedor que, ao escrever uma carta, em nota de rodapé, diz "desculpa não te enviar também os 20€ que te devo porque só me lembrei deles depois de ter fechado este envelope". Nossa Senhora, mal acaba de mostrar a suposta visão aos pastorinhos, fala-lhes logo "nesta carta"! Como se não bastasse o autor do documento coloca Nossa Senhora, em Portugal do início do séc. XX, a referir-se ao Papa apenas por "Pio XII". Mentalidade actual...


"No reinado de João Paulo II a pedra angular da tumba de Pedro deve ser removida e transportada para Fátima."

Tal seria impossível, visto que até hoje não se descobriu no túmulo de S. Pedro uma "pedra angular". Para quem não sabe, "pedra angular" é o nome técnico na arquitectura dado à pedra central de um arco e que é ponto de união entre as duas partes curvas do arco. Costuma ser uma pedra menor cortada em cunha. Portanto, caros leitores, sem arco não há "pedra angular", e sem tal pedra tal pedido é impossível... Certamente o autor do texto pensa que "pedra angular" é alguma pedra retirada de um qualquer ângulo de uma construção em pedra.

Em 2004, João Paulo II ofereceu um fragmento de pedra do túmulo de S. Pedro (ver pedra aqui) ao Santuário de Fátima para servir de fundação aquela que agora é a Basílica da Santíssima Trindade (a 2º Basílica de Fátima). Esta, claro está, não é uma "pedra angular", e João Paulo II já partiu...

"Porque o Dogma da fé não é conservado em Roma, sua autoridade será removida e entregada a Fátima."

"A catedral de Roma deve ser destruída e uma nova construida em Fátima".

"Deve"!? Digam-me, caros leitores, o ÚNICO significado deste "deve" é o de ordem ou sugestão, ou ainda de possibilidade (gramaticalmente não há mais saídas), não é assim? Deus mandaria destruir a Basílica de S. Pedro quando há profecias de santos que dizem que viram os inimigos da Santa Igreja a tentar destruir a Basílica mas que felizmente não conseguiram chegar ao altar? Esta tentativa de destruição da Basílica tem sido ainda tomada como símbolo da destruição da própria Igreja.

"Se 69 semanas depois de que esta ordem é enviada Roma continuar na abominação, a cidade será destruída."

Portanto, a destruição da Basílica de S. Pedro na frase 8ª, e agora a possibilidade da destruição do resto de Roma caso não se acabe com a abominação. Estou estarrecido!... Deus mandaria destruir a basílica, e colocaria condições para que se poupe o resto da cidade! Incrível!...

Se este fosse realmente o segredo dado por Nossa Senhora ele seria o suficiente para dar todas as aparições como fraude! Portanto, resta apenas a possibilidade de interpretar de outra forma o "deve" da 8ª frase... E eu aceito sugestões!

10ª "Nossa Senhora disse-nos que isto está escrito, Daniel 9 24-25 e Mateus 21 42-44"

Pronto...

Parece-me que os leitores ficarão agora um pouco mais cientes de quão perigosa pode ser esta farsa.

Caberia aos defensores desta carta provarem que ela é genuína, como dizem. Apresentam a caligrafia como prova, contudo, de facto, a caligrafia não prova, da mesma forma que na universidade um colega meu falsificava as assinaturas de dois ou três amigos para que constassem nas folhas de presenças das aulas (e o aprumo era tanto que ninguém conseguia distinguir as verdadeiras das falsas assinaturas, nem mesmo os próprios).

Estranho é que os adeptos da tese da "Lúcia cativa" se achem tão aptos a distinguir nas fotos Lúcias falsas e verdadeiras e não lhes apeteça duvidar tanto de uma falsa "Lúcia" que redige o texto. Os motivos parecem ser:

1 - O das fotos é dado a superficialidades, é mais dado a publicidades bombásticas e devaneios (como ver castelos nas nuvens), o outro requer um estudo geral das possibilidades de falsificação e só depois um aplicado estudo ao texto;
2 - Por outro lado aos adeptos da teoria da conspiração parece assentar como luva esta carta, pois em grande parte são adeptos de certas posições que a "carta" vem coroar perante os olhos do mundo.

Adianto já que a análise caligráfica é mais reveladora ainda, e que iremos depois a ela, e que a análise de fotos muitíssimo mais.

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