09/09/11

CAPELA DE S. JOÃO BAPTISTA da IGREJA DE S. ROQUE em LISBOA (I)

Ainda ontem, em conversa, foi assunto a magnífica capela de S. João Baptista, da jesuítica igreja de S. Roque em Lisboa. Como já não é a primeira nem a segunda vez que, em tão pouco tempo, a muito significativa capela é tema de conversa, parece-me oportuno publicar algo sobre ela.

A respeito desta capela, a obra escrita mais minuciosa, talvez, notável pela abundância de informação, não a recomendo a qualquer um por uns poucos elementos que considero nocivos. Então, opto por não dar bibliografias.

O "Sol Sol Sol" do Ocidente, que brilhou a partir de Lisboa, foi D. João V de Portugal, enquanto  brilhava Luís XIV no centro da Europa. A grandeza não faltou ao nosso Rei em aspecto algum, pelo que não descuidou então a piedade. E quis o luso Rei honrar o seu patrono, S. João Baptista, mandando construir-lhe uma capela na já referida igreja. Como a capela do Espírito Santo estava ali já muito necessitada, pelo muito uso e antiguidade, podendo assim ficar em causa a qualidade na obrigação de honrar a Deus, e sabendo que não se pode dar mais ao santo patrono que ao próprio Deus, D. João V colocou a S. João Baptista como secundário na mesma capela do Espírito Santo. Se a honra aos santos tem limite, a honra devida a Deus não o tem: eis então lançados os verdadeiros alicerces do projecto de reconstrução da velha capela.

A marca da sábia escolha está bem patente no painel central do altar: S. João a baptizar Nosso Senhor sobre o Qual desce o Espírito Santo enviado pelo Pai. Arrisco em dizer que houve na ponderação de D. João V vários factores conjugados: ele, João de nome, aparece como promotor e arauto da Igreja (cuja cabeça é Jesus o Cristo)... e, mais do alto, desce sobre a santa cabeça o Espírito Santo. Uma realidade sublime, uma fantástica metáfora da metáfora em aberto que tanto afirma a autoridade e patronato do monarca perante o clero (note-se que esta capela está dentro de uma igreja jesuíta) como, de um só golpe, integra e satisfaz a anterior dedicação ao Espírito Santo. Convém então dizer que a antiga capela do Espírito Santo permanece íntegra depois da roupagem que D. João lhe deu.


A capela, cujo nome é do Espírito Santo e S. João Baptista (e por esta mesma ordem), foi mandada fazer no coração da "civilização católica". Roma, e não França, era o foco da atenção de D. João V. As mais elevadas referências, as melhores das melhores, não poderiam ser contidas em tal obra, e revelou-se terem ultrapassado os padrões da maior excelência acostumada.
A mentalidade actual, a qual penetras os especialistas de hoje, dificulta o entendimento dos propósitos e acções do passado. Parecerá provavelmente exagero dizer que fora da Tradição Católica não há entendimento verdadeiro da "civilização católica", mas isto é certo. Por mais quantidade de informação que possa haver toda ela emperrará na mente onde falta da Tradição Católica (há que conhecer e entender a milenar doutrina, moral, espiritualidade, costumes do catolicismo segundo o que nos foi sempre ensinado até aos meados do séc. XX). Aproveitando a ocasião: a Doutrina Católica produz civilização católica, mas quem negue a civilização católica ao mesmo tempo que diga aceitar a Doutrina Católica, nega na verdade os frutos da mesma Doutrina afastando-se bastante do catolicismo. Infelizmente são as "interpretações" ruinosas sobre o passado que colocam obstáculos aos de hoje na compreensão da nossa civilização católica.

D. João V mandou que a nova capela fosse construída em Roma, portanto, pela mão de uma plêiade de artistas sobe grande cuidado da Corte portuguesa.. À distância o Rei comandava a obra recorrendo a cartas e ilustrações (desenhos técnicos e artísticos).

Veja a parte II

1 comentário:

ascendens disse...

Há leitores de elite que não se dignam vir comentar aqui. Muito bem, muito honra que comentem de outros modos. Já há reparos ao artigo que eu passo a comentar e dou notícia.

D. João V tinha grande apreço pelos Jesuítas. Pode parecer que o artigo supõe o contrário.Na verdade o símbolo de poder Real não é adverso, tal com qualquer legítimo superior pode fazer valer o seu poder sobre quem ama.

É certo que não só o Espírito Santo está no painel central do Altar como está em todos os restantes.

A capela chama-se realmente de S. João Baptista e do Divino Espírito Santo. O que reforça o que foi dito no texto.

Muitas outras coisas mais, mas essas virão no devido lugar, pois o artigo terá várias partes.

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