15/06/15

NOVO CONCEITO DE "SANTO" (I)

O procedimento pelo qual a Santa Igreja apura as beatificações e Canonizações, sempre foram alvo do maior critério e rigor. Contudo, hoje, parece haver um diferente estilo de santos, que suporiam um diferente critério de “santidade”. Os critérios de sempre estão hoje relaxados, ao mesmo tempo que surge um modelo de santidade estranho à Igreja, e até em colisão com a Tradição milenar.

Na prática: o rigor e os critérios usados nas canonizações que a Igreja tinha vindo a efecturar sofreram repentinamente alteração. Bastará que, quem esteja acostumado a ler a vida de santos, ou seus escritos, por edições antigas (não as “actualizadas”), leia depois uma biografia, ou escritos, de um canonizado recente, para se dar conta que uma e outra coisa não vão na mesma linha. E dirão alguns “os santos são os mesmos, mas os épocas mudam”… mas não: se as “épocas mudam” e os santos são os mesmos, porque motivo os critérios se mantiveram durante séculos até há bem pouco tempo, e, de repente, “os tempos” começaram a ser argumento para o câmbio? E mais… há contradição entre o modelo tradicional e os feitos dos novos canonizados, sendo alguns destes feitos tradicionalmente impedimentos!

Entre os fiéis, onde antes havia apenas um, há hoje três formas de ver a “santidades”: o modelo tradicional (milenar); o novo critério (portado por aqueles que não conhecem realmente o modelo tradicional); e os que tinham conhecimento do modelo tradicional e que foram assimilando o novo, acabando por relativizar o tradicional como forma de não achar contradição no novo que se lhes impõe. Na verdade, catolicamente, só o tradicional se pode chamar “modelo de santidade”, pois sem este a Igreja estaria sem pedra de assento para avaliar o que viesse em diante; talvez por se saber isto se faça tanta questão em lançar o novo modelo dizendo que é também o tradicional, ou que é uma evolução do tradicional, por mais contraditório que isso seja.

A par disto, e tomando como referência os anteriores processos, os processos para beatificação e canonização de hoje carecem de seriedade. Os dados que antes eram suficientes para impedir um processo de beatificação, hoje não são levados em conta. O prazo de 50 anos de espera, padrão que só em casos especiais podia ser superado, é hoje desrespeitado como se todos os casos fossem especiais (S. Teotónio e Sto. António, foram dois santos portugueses canonizados pouco tempo depois da sua morte, não tinham passado ainda dois anos – mas são estes dois casos especiais). S. Pio X, por exemplo, por ser de universal conhecimento de não haver matéria de oposição, foi uma dessas excepções; mas… João Paulo II, com tanta oposição, tanta matéria oposta, passar a beato em 6 anos, e ser canonizado poucos anos depois é evidentemente estranho… a não ser que os critérios e as regras tenham entretanto mudado significativamente e ficado como que assentes com a beatificação e canonização de Mons. Escrivá de Balaguer (o qual chegou a ter contestações ao processo que não foram sequer consideradas).

Nestes casos recentes, houve testemunhos e outros manifestos feitos chegar à Santa Sé, antes e depois das beatificações e canonizações. Além destes testemunhos voluntários, conveio sempre à própria Igreja quem sondar as opiniões contrárias nos ditos processos. Havia, sim havia, o “advogado do diabo”, o qual procurava fazer objecções à canonização (elemento importante que dificultava a defesa, fazendo com que ela unicamente se pudesse guiar argumentos irrefutáveis), e juntava os testemunhos contrários, fazendo uso das objecções que tinham sido entregues pelos fiéis à Santa Sé. O advogado do diabo hoje “anda de férias”, e parece que ninguém está mais interessado em “contratá-lo”.

O Padre José-Maria Escrivá de Balaguer
João XXIII, Edith Stein, Madre Teresa de Calcutá, João Paulo II, Mons. Escrivá de Balaguer, etc., tiveram os processos sempre contestados. Ou seja, além de processos impeditivos, os processos foram contestados e seguiram um diferente modelo de “santidade”. Se sempre a Santa Igreja foi interessada em receber os testemunhos contrários, agora eles são afastados se “conveniente”, e não chegam sequer a ser analisados.

O Santo é um modelo que a Santa Igreja coloca para imitação de todos, e é um intercessor nosso perante Deus. E para que a Santa Igreja o coloque como “cânon”, têm que estar provadas as virtudes em grau heróico. Como veremos, as virtudes hoje são tocadas por supostas virtudes, como se isto fosse coisa de inovar o conteúdo ao mesmo tempo que se lhe conserva o rótulo (isto é tipicamente e fundamentalmente “modernismo”).

Há uma novidade legítima, se assim se pode dizer, que é a recente descoberta da santidade em crianças. Pois, ao longo da história da Igreja, nunca foi considerado que as crianças pudessem praticar as virtudes em grau heróico, tirando o caso do martírio. Os pastorinhos de Fátima são os primeiros neste aspecto (não quer isto dizer que fica assim provada a matéria necessária para uma beatificação ou canonização; refiro-me apenas à pratica de virtudes em grau heróico por crianças, e nada mais). Os santos mais jovens que nos acostumámos a ter eram adolescentes e jovens, mas nunca crianças: isto não constitui uma obrigatoriedade futura, porque nunca se declarou que as crianças eram inaptas para tal, apenas nunca se proporcionou e é difícil constatar. No caso das crianças de Fátima o caso está muito contextualizado e autorizado pelo contexto das aparições.

A prática das virtudes em grau heróico, portanto, sempre teve que ser provada, o que requeria um exame minucioso, com provas INCONTESTÁVEIS (por meio de um processo que proporcionasse a manifestação da vontade de Deus).

Dois são os critérios pelos quais se sabe se algo foi revelado por Deus: profecias e milagres. No caso da prova das virtudes praticadas em grau heróico, Deus vem como garantia por meio de milagres.

(a continuar)

9 comentários:

Cláudia Arruda disse...

Salve Maria!

Pois...

Mais uma 'beatificação', do final dos tempos!

http://www.pastoraldacrianca.org.br/pt/noticias-dos-30-anos/2408-processo-de-beatificacao-de-dra-zilda-comeca-em-2015-anuncia-bispo-dom-aldo

ASCENDENS ASCENDENS disse...

Salve.

Obrigado por comentar.

Nunca foi fundada uma OUTRA Igreja, ao contrário do que muitos teimam em dizer. Contudo, os que se afastam da Igreja não se têm afastado estruturalmente e "geograficamente", antes pelo contrário, tentam manifestar-se ainda mais presentes de corpo. Esses não estão em plena comunhão com a Igreja, com a sua Doutrina, com o seu Pensamento, com a sua Moral, com a sua Espiritualidade, com a sua Santidade e Universalidade etc etc... Os "Plena Comunhão", são os menos exemplares na Comunhão com S. Pedro e com Nosso Senhor e a sua Santa Igreja.

Há novos "Santos", novo "Rito Romano", nova doutrina, nova espiritualidade, novo pensamento, etc etc ... Mas não há realmente "nova Igreja" porque para tal teria que haver fundador real, declaração de vontade e de facto do fundador, um credo imposto como tal, etc... Mas não... aquilo que há é uma confusão terrível onde os mesmos da Santa Igreja trabalham contra a Igreja julgando que é pela Igreja que é para a Igreja que operam, e criam assim uma IMAGEM de uma igreja virtual.

Uma coisa é uma IGREJA, concreta, outra coisa é uma virtualidade de igreja que nem sequer se poderá algum dia saber até que ponto existe ou não, nem como! Esta nova IMAGEM de Igreja, coisa virtual, não existe em si mesma!

Volte sempre.

Anónimo disse...

E como fica o caso do Padre Pio? Todos reconheceram nele santidade e não houve objecções...

ASCENDENS ASCENDENS disse...

Caro "anónimo",

obrigado por comentar.

Não entendi a sua pergunta. Pode especificar, por favor?

Aguardo.

Anónimo disse...

A canonização do Padre Pio foi feita já na nova forma promulgada (melhor dizendo "promulgada" por João Paulo II).
Mesmo com a nova forma, e não havendo objecções à canonização do Padre Pio, este pode ter sido na realidade não canonizado?
Por exemplo, ao contrário dos outros citados que tiveram objecções à canonização, e não havendo o "advogado do diabo", estas canonizações são forjadas (não sei se o termo é o melhor aplicado). Contudo. Ao Padre Pio não houve objecções e por isso não haveria advogado, para refutar a sua santidade.

ASCENDENS ASCENDENS disse...

Caro "anónimo",

os critérios dos processos foram todos relaxados por um único motivo: possibilitar a aplicação de um conceito novo de santidade, e criar seus primeiros exemplares! A maioria dos católicos não se identifica já com o modelo de santidade ensinado e guardado pela Santa Igreja. A doutrina e a espiritualidade tem sido alteradas para que sejam mais identificadas com o mundo e com os "novos tempos"! Grandes feitos heroicos de santos são hoje desprezados, evitados, e combatidos... Assim vai o rumo...

SANTIDADE e a CANONIZAÇÃO nunca foram a mesma coisa. Repare; a canonização requer a santidade, mas há santos que nunca foram canonizados, porque não são canonizáveis. O Santo (canonizado) é dado pela Igreja como EXEMPLO DO MODELO DE SANTIDADE. A vida do canonizado, e seus feitos, são em tudo testemunho do modelo de santidade. O conceito de Santidade não pode mudar. Entre muitas coisas sabemos que João Paulo II beijou o Corão: logo a Igreja não pode colocá-lo, nem colocou, como exemplo de modelo de santidade. O conceito imutável de santidade é a referência pela qual se canonizou sempre.

Como já deve ter calculado, o problema é gravíssimo: não é só o processo que foi relaxado, mas é também o conceito de Santidade que está desvirtuado. Portanto,as "canonizações" não têm guardado nem o rigor do método, nem seguem a mesma intenção porque o conceito de santidade agora anda desvirtuado e está assim a ser promovido.

Pode coincidir que o Pe. Pio, seja canonizável e ao mesmo tempo ser "canonizado" segundo o modelo corrompido de santidade e pelos métodos relaxados. Contudo, é frequente ver nestes casos que os feitos do santo que foram tido em maior destaque, e salientados na conclusão do processo, são pouco ou nada coincidentes com o modelo de santidade que a Igreja sempre transmitiu. O mais comum é salientarem feitos sociais (fundação de hospitais, escolas, congregações, etc...) e não aparecem mais os destaques com os quais Deus agraciou aquela santa alma, nem as provações etc... Portanto estes casos são uma coincidência no TÍTULO, mas nem sequer no motivo... Estamos perante duas intenções distintas, dois modelos dois conceitos ... e um deles, garantidamente não é católico (é um acidente terrível).

Assim, caro anónimo, bastará saber que o Pe. Pio nunca foi canonizado (Deus não dispôs das condições necessárias). E lembre-se que mesmo sendo santo, e sendo canonizável, há que a Igreja canonizar validamente. Estamos portanto diante de um caso em que, estando reunidas todas as condições que em outros tempos seriam as normais, falta o funcionamento "normal" (legítimo) na Santa Igreja (para efeito das canonizações).

Volte sempre.

ASCENDENS ASCENDENS disse...

[o último comentário é uma opinião minha]

Anónimo disse...

Obrigado pelo esclarecimento.
Continuação de bom trabalho.

ASCENDENS ASCENDENS disse...

Obrigado eu. Volte sempre.

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