09/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXII)

(continuação da LXXXI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LV
Da Corrupção Da Natureza E Da Eficácia Da Graça Divina

1. Alma - Meu Deus e meu Senhor, que me criastes à Vossa imagem e semelhança, dai-me essa graça, que me mostrastes ser tão poderosa e tão necessária para a salvação, a fim de que eu vença as más inclinações da minha natureza corrompida, que me arrasta para o pecado e para a perdição.
Eu sinto na minha carne a lei do pecado oposta à lei do meu espírito e que me leva cativo a dar obediência à sensualidade. Confesso que não posso resistir a tamanhas paixões, sem a assistência da Vossa graça santíssima ardentemente infundida no meu coração.

2. Eu necessito da Vossa graça poderosa para vencer a minha natureza inclinada ao mal desde os meus mais tenros anos.
Essa natureza decaída no primeiro homem e viciada pelo pecado, transmite a todos os homens a pena de um crime; de sorte que a mesma natureza, que criastes boa e recta, deve ser considerada fraca e enferma, visto que, entregue a si mesma, os seus movimentos nos arrastam para o mal e para as coisas da Terra. Na verdade, a pouca força, que lhe ficou, é como uma pequena brasa coberta de cinzas.
Essa faísca é a razão natural envolta em densas trevas, possuindo ainda o discernimento do bem e do mal e fazendo a distinção do verdadeiro e do falso. Todavia, sente-se incapaz de cumprir o que aprova, pois já não possui a plena luz da verdade nem a pureza dos seus afectos.

3. Daqui vem, meu Deus; que eu, considerado segundo o homem interior, que em mim habita, me deleito na Vossa lei, reconhecendo-a por boa e tão justa que condena todo o mal e ensina a fugir do pecado.
Mas ao mesmo tempo sirvo a lei do pecado, segundo a carne, obedecendo mais à sensualidade do que à razão, de modo que, achando eu em mim a vontade de fazer o bem, não encontro o meio de o executar. Muitas vezes me proponho fazer o bem, mas, faltando-me a graça para ajudar a minha fraqueza, deixo tudo à menor resistência que encontro e desfaleço. Resulta daí que, conhecendo o caminho da perfeição e vendo claramente o que devo fazer, mas oprimido sob o peso da minha própria corrupção, não me elevo ao que é mais perfeito.

4. Quanto, Senhor, me é necessária a Vossa graça para começar o bem, para nele prosseguir e para o aperfeiçoar!
Eu nada posso fazer sem ela; mas tudo posso em Vós, com o socorro da Vossa graça.
Ó graça verdadeiramente celeste, sem ti não há algum merecimento próprio e até os mesmos dotes da natureza não são dignos de consideração. As artes, a riqueza, a formosura, o valor, o espírito e a eloquência, nada são diante de Vós, ó meu Deus, sem a Vossa graça.
Os dotes da natureza são comuns aos bons e aos maus; porém, a graça, ou a caridade, é dom próprio dos escolhidos, e aqueles que a possuem são julgados dignos da vida eterna. A excelência desta graça é tanta que nem o dom da profecia, nem o poder de obrar milagres, nem a mais alta contemplação valem alguma coisa sem ela.
A mesma fé e esperança, e todas as outras virtudes, não são agradáveis sem a graça e a caridade.

5. Ó beatíssima graça, que do pobre espírito fazeis rico de virtudes e ao opulento converteis em humilde de coração, vinde, descei sobre mim, enchei-me das vossas consolações, para que a minha alma não desfaleça entre a fadiga e as angústias do meu espírito.
Peço-Vos, Senhor, que eu ache a graça diante dos Vossos olhos; ela só me basta, ainda que me falte tudo o que a natureza deseja.
Por mais tentado e molestado com muitas tribulações, não temerei mal algum, enquanto a Vossa graça me assistir. Ela é a minha força, o meu conselho, o meu fundamento. E mais poderosa do que todos os inimigos, mais sábia do que todos os sábios.

6. Ela é a mestra da verdade, a regra da disciplina, a luz do coração, a consolação dos males, o inimigo da tristeza, a dissipadora do temor, o sustento da devoção e a mãe das santas lágrimas.
Que sou eu, sem ela, senão lenha seca, tronco inútil, próprio para ser lançado no fogo?
Preveni-me, pois, Senhor, da Vossa graça, e fazei que ela me acompanhe sempre e me conserve continuamente na prática das boas obras, por Vosso Filho Jesus Cristo.  

2 comentários:

Cláudia Arruda disse...

Salve Maria!


"A mesma fé e esperança, e todas as outras virtudes, são agradáveis sem a graça e a caridade."

Não faltou a partícula negativa, antes de "são agradáveis..."?


ASCENDENS ASCENDENS disse...

Salve.

Obrigado pelo alerta. O problema foi corrigido. Esta publicação é feita por uma das pessoas que editam no blogue ASCENDENS, e tinha escapado à minha revisão.

Era um erro doutrinalmente gravíssimo. Ainda bem que foi detectado a tempo.

Mais uma vez, muito obrigado de toda a equipe ASCENDENS.

Volte sempre, e Deus lhe pague.

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