11/12/14

CONTRA-MINA Nº 42: Reconhecimento a D. Miguel I Dado Pelo Papa Gregório XVI (IV)

(continuação da III parte)

Só este quadrienio, que tem Reinado o mui Alto e Poderoso Senhor D. Miguel I, oferece maior cópia de milagres, do que podem oferecer outras Monarquias, depois de muitos Séculos de existência; e daqui procede, que todas as vezes que me engolfo na consideração de tantos, e tão maravilhosos sucessos, que tenho presenciado, sinto-me possuir de uma confiança ilimitada, e não sei que me adivinha o coração de plausível, e faustíssimo para a Monarquia Portuguesa, que ainda será, como já foi, mais de uma vez o espanto, e a admiração do Mundo... Não entra em meu coração o mais leve receio, do que Portugal seja vencido, nem o assombram as mais ligeiras névoas do medo. Esperança, ou quase certeza de prevalecer-me contra as mais bem preparadas agressões, eis o que se me antolha em todas as vezes, que me sucede reflectir sobre o estado presente, e futuro da Nação Portuguesa.

D. João IV
Não venho a dizer com tudo isto, que deixo ponderado, que seja inútil, ou supérfluo o Reconhecimento do Senhor D. MIGUEL I pelos Soberanos da Europa. Eu serei mau Português, e mau vassalo, se ousasse defender uma opinião errada, e absurda;.. estou, e hei de estar constantemente pela opinião contrária; o que é tão certo, que foi este o próprio lado político, por onde me pareceu vantajosíssimo o Reconhecimento Pontifício... É natural, que este se fizesse de acordo com as Grandes Potências, e nomeadamente com aquela, que há tão poucos meses influiu de modo tão poderoso, como eficaz, na segurança da Capital do Mundo Cristão; dado porém o caso, de que esta opinião dos verdadeiros Portugueses não tenha o sólido fundamento, que é muito para desejar, nem por isso devemos cair das nossas esperanças, e teremos por certo mais que agradecer ao Sumo Pontífice, que não atendendo senão à Cristandade do Rei legítimo, o Senhor D. MIGUEL I, e ao bem espiritual da Igreja Lusitana, cortou de uma vez o nó Gordio, que embaraçara os seus Antecessores. Muito mais deve crescer, até ser acompanhado de lágrimas, nascidas da filial ternura, este próprio agradecimento, quando nos lembramos do sucedido, em consequência da nossa Restauração de 1640... Então demorou-se mais de vinte anos o desejado Reconhecimento, que o Senhor D. João IV não conseguiu nos 16 anos do seu Reinado; e agora, que o Imitador, e Descendente do Senhor D. João IV ainda não conta senão três para quatro anos de Reinado, tudo se desembaraça, tudo se aplaina, sem que os verdadeiros Portugueses do Século XIX tenham de passar pelos transes da amargura, porque tantas vezes passaram, e deviam passar os Portugueses do Século XVI chegaram estes a ver a Ordem Episcopal reduzida a um Bispo nonagenário, que era de Targa, Deão da Capela Real. Era necessário, que os Ordinandos de todo o Reino viessem a Lisboa, onde chegavam todos os dias os mais lastimosos balidos de milhares de ovelhas errantes, e desamparadas... Muito luzio porém nestas desgraçadas circunstâncias o esmero do Catolicismo dos Portugueses, que deve servir de modelo para todos os casos semelhantes, e para todos os Séculos... Não faltou já nesses dias, (nem era de admirar, quando já havia Jansenistas) quem se lembrasse de se fazer a Instituição Canónica dos Bispos eleitos, por ministério dos nossos Metropolitas; e já eu tenho visto algumas Consultas, que nesse tempo se remeteram para as Universidades Estrangeiras, que em suas decisões respiram aquela tendência cismática, e reprovada. Entretanto o Senhor D. João IV manteve-se constante, e inabalável na adesão aos verdadeiros princípios, e não quis dar um escândalo à Europa Cristã; e havendo-se nestes apertos com a mais rara, e consumada prudência, não fez outro papel, senão o de filho obedientíssimo, que suplica, insta, chora, e se deita aos pés de seu Pai, mas que nunca se rebela contra a sua Legítima Autoridade... Notando só de passagem, que há muito que acrescentar aos nossos Historiadores sobre esta famosa controvérsia, pois nenhum deles faz justiça aos verdadeiros sentimentos dos Vigários de Jesus Cristo, deverei insistir numa semelhança à mais gloriosa para o mui Alto, e Poderoso Senhor D. MIGUEL I. Seguiu este, e mui discretamente as pizadas do seu quart[?] [?] e nunca lhe passou, nem ainda mais imaginação [?] sentir às doutrinas modernas, [?]dar neste exemplo de uma segunda Igrejinha de Utrecht, que cismática e abominável como é, tem neste Reino grande cópia de louvores, e apologistas.... São pois ambos Restauradores, e ambos parecidos na estremada pureza de sentimentos, e princípios Religiosos, o que certamente promete, que serão ainda parecido sem outra circunstância importantíssima, quero dizer,no bom sucesso da empresa, que eles cometeram; porém os louros do 4º Neto deverão ser mais frondosos, posto que menos salpicados de sangue (talvez ainda o venham a ser)... Maior coisa é arrancar este Reino das próprias engulideiras do Urso Maçónico, do que subtraí-lo às pisadas do Leão Castelhano.... Muito devem os Portugueses ao mui Alto, e Poderoso Senhor D. Miguel I!! Esta ideia tão fecunda de seu natural, como que produz agora um efeito contrário, qual é o silêncio da admiração, que às vezes costuma ser mais expressivo, que a maior abundância de palavras.

Desterro 30 de Dezembro de 1831

Fr. Fortunato de S. Boaventura.

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