04/08/14

NOSSA SENHORA DA OLIVEIRA de GUIMARÃES e SÃO TORCATO

Segundo sempre nos foi transmitido, S. Tiago Apóstolo andou pela Península Ibérica convertendo. Segundo o que nos conta Enliano, tal se deu no ano 36 d.C. na região que vai do Douro (Portugal) e se avança por Galiza. Nos livros da Sé de Braga e de Évora, e outras, tal como S. Isidoro e S. Bráulio, entre outros,  isto fica confirmado. Também o Papa Calisto II confirma esta data, contando que a S. Tiago se juntaram nove discípulos nomeadamente da região de Entre Douro e Minho (hoje Portugal): o primeiro foi S. Pedro de Rates (primeiro Bispo de Braga); o segundo foi S. Torcato, que foi Bispo de Citânia (que ficava a norte de Guimarães, hoje quase sem vestígios). Nesta cidade, que ainda naquele tempo tomou o nome de Gaudis, houve depois da partida de S. Torcato (a 15 de Maio) uma sua relíquia que, no meio de muitas tribulações, foi parar ao Mosteiro de Cela Nova, na Galiza.

Com a invasão dos mouros os cristãos escondiam as coisas santas como podiam, para as livrar de profanação e destruição. Tal como em tantas outras épocas posteriores, escondíamos estes objectos muito bem, grande parte das vezes enterrando-os, e depois apareceram muitos deles de forma miraculosa. Assim foi que esconderam o corpo de Sto. Eufrázio na Galiza. O achamento do corpo de S. Torcato, foi a poucas léguas de Guimarães e com sinais extraordinários: sobre o local, um mato, caíram como que umas estrelinhas do céu, e viram as gentes como numa cova escondida estava o corpo do Santo que transmitia um odor muito agradável. Depois de desenterrado brotou água em abundância, que passou a ser fonte abençoada onde nela se curaram muitas doenças de alma e de corpo. Aqui foi construída uma ermida, onde se venerava a imagem de S. Torcato (chamada S. Torcato o Velho), corria a bendita água, e se guardava o santo corpo (até que foi levado para o mosteiro beneditino construindo para sua invocação). Este real mosteiro foi doado à Condessa D. Mumadona por D. Fernando (o Magno, imperador), era Colegiada, tinha Prior, Dignidades, Cónegos, até que D. Afonso Henriques o deu à Ordem dos Agostinhos, como se vê na carta das calendas de 6  Maio da era de 1111 (ou seja, 20 de Abril de 1173): "Em nome do Padre, e do Filho, e do Espírito Santo, amen. Esta é a Carta do couto, ou do testamento, que eu Afonso Rei dos Portugueses juntamente com meu filho RlRei D. Sancho, e minha filha a Rainha D. Teresa, e de S. Torcato, e de outros Santos, cujas relíquias estão na mesma igreja; e a vós D. Pelaio Prior da mesma igreja; e aos mais Frades vossos, assim presentes, como futuros, que na dita igreja bem viverem, e perseverarem em santa conversação conforme a Regra de Santo Agostinho: dou-vos, e concedo-vos, e por virtude da presente escritura vos confirmo a mesma igreja com as suas quintas adjecentes." (1). As alterações não deram prejuízo à devoção a S. Torcato.

O corpo de S. Torcato tinha então sido trasladado para o seu mosteiro onde foi depositado com vestes pontificais. Mas, muito mais tarde, D. Manuel achou que as relíquias dos nossos que andavam ali por lugares de menor dimensão, deviam ser reunidas em templos e centros maiores. Foi assim que as de S. Torcato foram parar a Guimarães, com toda a solenidade e gravidade apropriadas pelos Cónegos da referida Colegiada. Mas.... foi necessária a milícia, porque os devotos do Povo, dizendo que não havia motivos para que entre católicos houvesse traslado, não queriam de modo algum que as relíquias mudassem de casa, e fizeram vários requerimentos nesse sentido, sem deixar de fazer guarda às relíquias dia e noite, porque desconfiaram de que os queriam enganar. Eis que certa vez, lá para 1597, D. Fr. Agostinho de Jesus, então Arcebispo de Braga, fez-se acompanhar de muitos fiéis e respectivo estado para uma visita ao túmulo do santo varão (dizia que tinha que fazer averiguações)... mas não demorou que os sinos repicassem em sinal de alarme e que se juntasse ali a população das periferias, armada com armas de seus ofícios, que assim impediram um disfarçado traslado do corpo para a Sé de Braga.

S. Torcato
Os Cónegos da Colegiada de Guimarães, no ano de 1512 dão notícia de que o corpo de S. Torcato se encontrava não só incorrupto como incorruptas estavam suas vestes. O Cónego responsável pela comitiva feita ao sepulcro relata que saiu sangue claro ao tentar remover um calcanhar, sangramento que se verificou também séculos depois num outro experimento. O calcanhar foi colocado num relicário de prata dourada com vidros por onde se vê o sangramento vivo; relicário que ficou então na Colegiada de Guimarães.

S. Torcato
Mas outras relíquias foram dadas a conhecer, pois diz um certo documento que nas paredes do Mosteiro de S. Torcato há muitas escondidas, e foram então achadas com base no dito escrito. Assim, em 1685, com autorização de D. Luís de Sousa, Arcebispo Primaz das Espanhas (Braga), foi feita uma cuidadosa busca para achar no Mosteiro todas as relíquias e corpos santos escondidos, não apenas tendo por base o referido documento, mas também usando a tradição e memórias antigas: depois de Missa rezada, com toda a seriedade e devoção do acto a que estavam propostos, abriram o Altar-mor e avançaram até uma pedra rectangular betumada que escondia várias relíquias. De longe a tudo isto assistiu muita gente, e havia muito povo espectante e devoto, e todos sem excepções se colocaram de joelhos ao aparecimento das relíquias, e se cantou um Te Deum laudamus. Logo ali as relíquias foram colocadas sobre dois bancos ladeados de duas tochas acesas. Eis o conteúdo:

- 8 caixinhas de pau tosco, dentro de uma desta havia outra caixa de madeira trabalhada:

1ª) havia dois papeis com a inscrição seguinte "Dedicata est Ecclesia ista a Domino Pelagio Bracharensi Archiepiscopo in honore Sancti Salvatoris, Sancta Mariae, S. Michaelis, Sancti Petri Apostoli, Sancti Torcati anno ab Incarnatione Domini millesimo centesimo trigesimo secundo", havia ainda uns fios de ceda já descolorados, havia pedacinhos de osso;
2ª) Esta continha um pape com a inscrição seguinte "Reliquiae Sancti Cosmae, et Samiani", e uns ossinhos atados em ceda preta, que pertenciam a estes santos;
3ª) Havia dento desta o escrito seguinte "Reliquiae de Ligno Domini, et Cosme, et Damiani, et Sancti Torcati", havia ainda uma cedas com cores (vertes e amarelas) que pertenceram a estes santos, um pedaço de tecido em seda, outro ainda em preto com fita verde;
4ª) Esta caixa dividia-se em três partes. Numa parte lia-se somente "Sancti Joannis ..." (e outros nomes não legíveis), e um outro repartimento onde dizia "Sancti Jacobi Apostoli" onde estavam uns pedacinhos de ossos enrolados a um pano e fechado com um ponto.
5ª) Aqui havia um escrito "Reliquiae Sancti Pelagii", e outros nomes ilegíveis, um pedaço de seda com outros fios de cor diferente.
6ª) Do lado de fora da caixa não se conseguia ler com certeza o que parecia ser "São Maxencio". No interior havia uma ceda vermelha com fios brancos dentro.
7ª) Continha um escrito que dizia "Hic sunt Reliquiae Santae Mariae Virginis", e dentro estava um pedaço de seda carmesim, e nela outra mais vermelha provavelmente de lã.
8ª) Nesta havia um escrito a dizer "Reliquiae Sancti Stephani martyris, et Sanctae Eulaliae Virginis, et martyris". Havia dois pequenos ossos um um pouquinho de tecido em seda com outro de lã atado com um fio de retroz vermelho.

Ora bem, o Apóstolo S. Tiago levantou o primeiro altar nas Espanhas, em Saragoça, com a sagrada imagem que conhecemos pelo título de Nossa Senhora do Pilar. Depois, em Braga, numa gruta junto ao templo de Iris, fez o mesmo; logo depois o mesmo fez em Guimarães onde a imagem é venerada com o título de Nossa Senhora da Oliveira (assim o vão repetindo a Tradição venerável e os textos antigos, como é o escrito gótico referido por Fr. Bernardo de Braga e Fr. João do Apocalipse, entre outros). Diz assim Fr. Bernardo de Braga: "No Rossio; ou Praça de Guimarães está um templo, que foi da gentilidade, é de obra mosaica, majestoso, e antiquíssimo, e nas notícias, que tenho, foi dedicado a Ceres: a este destruiu S. Tiago vindo a esta terra, onde baptizou a S. Torcato, e lançado por terra aos falsos ídolos, colocou no Altar a Virgem Senhora nossa, cuja imagem é hoje a Senhora de Oliveira; e bem se colhe, diz o autor, de um letreiro, que vi, e se achou no interior da parede junto à torre, quando esta se começou a arruinar pelos anos do Senhor de 1559. Caiu uma pedra, e porque se partiu, se fez juntar, para se lerem as letras que diziam "in hoc simulacro Cereris collocavit Jacobus filius Zebedaei Germanus Joannis imaginem Sanctae Mariae IIIS.CISX". Era o letreiro Gótico, e em breves, mas a substância era esta; e também se acharam medalhas, por onde alguns escritores tomaram motivo para dizerem que o templo fora de Minerva; e continua, dizendo, que no Cartório do Cabido daquela Real Colegiada achará claras notícias, donde se infere esta verdade. Foi esta Igreja dedicada a N. Senhora, e depois a dedicou o povo a Santiago, por ele ser o primeiro, que nela levantou Altar. Teve esta igreja Raçoeiros, como consta dos pleitos, com que a Real Colegiada teve, que se vê dos papeis, que se guardaram em seu Cabido: num se acha notícia em que tempo se desanexaram; só sei que a dignidade de Mestre-escola se intitula Abade de Santiago, e recolhe os foros, que a esta Igreja se pagam. A imagem da Senhora se conservou até o ano do senhor de 417, em que entráram Alanos, e Suevos na Galiza, e outras nações bárbaras, que queimaram os corpos, e imagens dos Santos. O Arcebispo de Braga Pancrácio mandou esconder esta, conforme uma memória confusa, que achei no Arquivo Bracarense: "o lugar, onde foi depositada, foi poucos passos fora de Guimarães em um pequeno monte, que se chamava Latito.""(1)

E onde é este monte!? Parte foi chamado "Monte de Santa Maria" (por lá ter a tão venerável imagem), e parte foi chamada "Largo" (que é em português o nome "Latito")

Segundo os levantamentos documentais, o Padre Fr. Gil de São Bento encontrou no Mosteiro de Santa Maria da Costa (Ordem de S. Jerónimo, ao lado de Guimarães), provas de que a actual imagem de Nossa Senhora da Oliveira é aquela que o Apóstolo S. Tiago colocou no templo de Ceres.

(1) - "Corografia Portugueza, e Descripçam Topografica...", Tomo II.

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