29/08/11

CONTRIBUTOS PARA O ESTUDO DO MODERNISMO I

Há cerca de 5 anos que a Wikipédia (enciclopédia da ignorância global) vem sendo tomada  pelas "maiorias participativas" gradualmente e de forma mais visível. Esta toma é um problema que já está na genes desta "enciclopédia livre", é uma concretização previsível por ser implícita. Todos podem contribuir directamente para a elaboração dos artigos desta enciclopédia. Assina-se como "a enciclopédia livre" e, pelos vistos, é um espelho da vil democracia.

A difusão Wikipedista não tem servido para instruir ignorantes mas sim para as opiniões maioritárias imporem "interpretações" encima das verdades contrárias ao pensamento dominante. Estamos longe dos tempos em que a verdade era simplesmente conhecida ou ignorada, hoje passámos ao tempo do conhecimento errado (obviamente que no primeiro caso podemos ter os simples ignorantes, e no segundo os ignorantes instruídos no erro). Reina hoje a ignorância sobretudo por fenómeno de "instrução", e não por mera insuficiência, porque se ensina o erro. Assim, as referências ao "modernismo", "evolução", "mártir", "naturalismo", "racionalismo", "verdade", "liberalismo", "inquisição", etc. aparecem cada vez mais deturpadas à luz das correntes da moda e grupos ideológicos de maior agitação (esta corrupção tem vindo a ser gradual e pontual). O caso mais notável, e que serve de paradigma, é o motor de busca da Google (o mais utilizado) que, como resultado da busca feita, apresenta ao utilizador as páginas mais visitadas anteriormente a nível global (ou regional), o que resulta num gradual afastamento das páginas não conformes com o "pensamento dominante" ou com vários tipos de patrocínio lucrativo.
Os livros muito especializados, como o caso dos dicionários, ainda vão sendo mais ou menos fiáveis devido à natureza de exigência das academias. Evidentemente que os velhos livros são os mais fiáveis (mas mesmo assim há que ter cuidado).

Estamos dentro de um ambiente propício à infecção, e raríssimos cantos da esquelética civilização católica serão poupados.

Estamos mergulhados no modernismo. Mas o que é o modernismo afinal?

É um tema que dorme, este do modernismo, mas age mais quanto menos falado. Certamente saiu da mesma fornalha daquele que tem arte de fazer acreditar hoje que ele mesmo não existe. Ainda, de outra forma, o tema do modernismo é camuflado, como tantos outros temas e conceitos já mencionados.

O assunto "modernismo" é também hoje uma das vítimas do mesmo modernismo.

É costume, e bem, dizer "modernismo" englobando o pós-modernismo e para lá, pois desde que foi tomando o trono das sociedades nunca as suas estruturas de poder o combateram e antes o assentaram renovando-o (as sociedades foram e são "convertidas" a ele gradualmente - os países vivem enganados e votam leis cada vez mais horrendas pelas falsas crenças que os dominam). Não seria necessário dar a tanta gente e sociedade o nome de "modernistas" para que o sejam de facto, na verdade houve uma necessidade dos modernistas de, a todo o custo, conotarem os nossos tempos (modernidade) dominados pela sua corrente e, por sua vez, instalaram a conexão desta corrente com o sentido de "evoluído". Hoje dizer "moderno" entende-se estupidamente como "evoluído", ao ponto de dizerem que já passámos o pós-modernismo e continuarem a dizer que esta ou aquela coisa é muito "moderna" (e não "muito pós-moderna). A coincidência entre o modernismo de facto e o nome dado à hera modernista nada mais significa que o peso das correntes modernistas por primeira vez e a sua vitória.

Ainda há pouco tempo ouvi um Bispo confundir "modernismo" com a época que o modernismo marca, que, segundo ele, era coisa sem importância visto que já passou. O pós-modernismo, segundo dizia, era a prova que o modernismo já era. Enfim, triste e errado à frente do rebanho, sorrindo de gestos bailarinos, com uma firmeza nervosa de "chuta para a frente", segundo a segundo trincando o pescoço às ovelhinhas. Este é o outro efeito do modernismo e que tem mais a ver com o seu cerne.

O modernismo, portanto, não consiste numa época à qual dá nome, obviamente. Ele é, e é-o independentemente do nome dado a pessoas ou épocas. Em primeiro lugar é o modernismo em si mesmo que importa, o que é, em que consiste, e ficam para segundo lugar os efeitos que tem ou teve e os aspectos circundantes ou que dele se desdobram.

Um dia perguntei a um moço "católico tradicional" se me podia definir por alto o "modernismo". Eu tinha propósito no que fazia e obtive a resposta esperada. Respondeu-me que era "a soma de todas as heresias" (da Encíclica Pascendi de S. Pio X). Ora esta não é uma definição mas sim mais uma caracterização do modernismo, é uma figura forte e bem aplicada. Perante a surpresa, perguntei se tinha desistido de encontrar uma definição mais ou menos aproximada de "modernismo". Dei-lhe todo o tempo necessário e ele aceitou o desafio. Desta vez trouxe-me uma afamada enciclopédia geral, mas nela não havia nada de satisfatório, a informação era muito diversa. Acabou bem, mas não conto o resto da história.

Grave foi a espectacular novidade vinda de Roma, numa correspondência oficiosa. Na Roma actual parece não se saber muito do modernismo, pois afirmaram na dita correspondência que tinha sido uma invenção de S. Pio X para condenar certos autores. Incrível...

S. Pio X escreve sobre o modernismo porque ele já existia e era conhecido.

Há ainda bons autores que abordam o modernismo como problema mas que passam muito rapidamente por aquilo a que eu me vejo obrigado a designar de "partícula mínima" do modernismo. Explico-me: num sistema em desenvolvimento permanente, quase multiforme e tão complexo, há que identificar o elemento constante e original. O modernismo tem uma "partícula mínima" efectivamente que mantém a unidade entre as várias fazes de transformação (ou revolução). Por outro lado está sempre em transformação e engorda, adapta-se, e alastra-se. Por estas qualidades uns lhe chamaram de cancro (câncer) ou vírus.

Há anos procurei entender o melhor possível sobre o modernismo, não sobre os seus efeitos (desses eu já tinha visto, vivido e sido hospedeiro) mas sim no que consiste. Essa busca lenta e honesta foi-me proveitosa e mais tarde confirmada com a "continuidade tradicional". Parece-me interessante partilhar alguns pontos desta busca. O leitor não se admire que eu vá dando nomes para distinção de certos aspectos, farei comparações, usarei imagens, tudo para facilitar o entendimento. Em suma, este é um convite a estudar objectivamente o modernismo com o colorido que costumo usar para mim mesmo.

Tenho aqui ao lado um Manual de Historia de La Filosofia, há alguns anos recomendado pelo meu professor de história da Filosofia (licenciatura em Teologia Católica (modernista)). Não estou a recomendar o livro mas vou servir-me dele para começar esta primeira série de "contributos para o estudo do modernismo":

"Por influência de Hügel, George Tyrrell (1861-1909) fundador do modernismo. Tyrrel vê nos dogmas e ritos, o mesmo que na hierarquia, "pastas de ideias" com que a Fé cristã foi transportada por séculos. Devemos livrar as ideias do seu invólucro antiquado e faze-las brilhar em forma moderna. É o único caminho pelo qual a Fé cristã poderá sobreviver à torrente da ciência natural materialista. Contudo, como se confesava exteriormente o que intimamente se rejeitava, esta atitude levou à hipocrisia religiosa, pelo que, em 1907, o modernismo foi condenado pela Igreja."


Tyrrell
Não é certo que Tyrrell seja o fundador do modernismo, mas é sim um dos seus principais representantes. O autor do livro é Johann Fischl é responsável pelo texto e nele faz um pequeno milagre: diz que Tyrrell fundou o modernismo ao mesmo tempo diz que Tyrrell defendia haver que "fazer brilhar as ideias em forma MODERNA". Tudo o que vem depois, com excepção da condenação da Igreja, é uma falsidade de contorno modernista. A noção de Fé não é já católica mas sim modernista, o que me leva a concluir que ou Tyrrell vai buscar tal conceito ao protestantismo ou, mais uma vez, o autor do livro compreende as coisas por uma visão também modernista. O autor parece não ter motivos pessoais para dizer o que devia! Fica-nos assim o nome, as datas e pouco mais sobre o modernismo e um pequeno exemplo de como os autores destes livros tendem a proteger suas ideologias e a introduzi-las assim na corrente sanguínea das dioceses. A ideia que o texto apresenta sobre o modernismo é um pouco contorcida de forma a facilitar a introdução dos disparates que se seguiram.

Há então que procurar mais informação. Eu assim o fiz.

(terá continuação)

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